Festa da Epifania do Senhor

Reflexão de Georgino Rocha


PROCURA JESUS, SEGUE A SUA ESTRELA

Os Magos, segundo o relato de Mateus (2, 1-12) desempenham uma função primordial na manifestação de Jesus a todos os povos da terra. Os traços marcantes da sua procura, o anonimato da sua figura e ocupação, as peripécias da sua viagem seduzem o imaginário popular que lhes dá nome pessoal e os reveste de episódios rocambolescos encantadores. E surgem encenações e cantares, poesias e orações, pinturas e outras obras de arte, doces e manjares, visitas à vizinhança e trocas de prendas. E tantos outros sinais de alegria esfusiante em “honra dos santos Reis”. Mantém uma presença pública notável face a correntes ideológicas que pretendem remeter o religioso para o privado e o subjectivo.

Seduzem e estimulam a reflexão cristã que, ao longo dos tempos, elabora celebrações e “catequeses” ricas de ensinamentos e de fortes interpelações. Celebrações de estilo litúrgico formal e popular. Catequeses familiares e comunitárias. Umas e outras procuram desvendar os segredos do coração humano que não descança enquanto não encontrar o que anseia; coração que é capaz do melhor e do pior, peregrino da verdade de si mesmo e da realidade envolvente, aberto ao absoluto de Deus e fechado nos limites da sua fragilidade; coração sempre necessitado de uma “estrela” que ilumine e respeite a liberdade da busca incessante, ainda que intermitente.

A Festa da Epifania do Senhor, hoje celebrada, manifesta uma compreensão do ser humano que Jesus assume e vive plenamente. É o que os Magos encontram na Gruta de Belém: o aconchego da família, a simplicidade “sofrida” do Menino, a contemplação amorosa de Maria, sua Mãe, o silêncio admirativo de José, a rusticidade do ambiente, o apelo a ver o Invisível e a relacionar-se afectivamente com Ele. Cena admirável que a todos encanta, eleva e seduz.
Leonard Boff, teólogo brasileiro, ao reflectir sobre o Natal afirma que: «Todos querem crescer no mundo, cada criança quer ser homem. Cada homem quer ser rei. Cada rei quer ser "deus". Só Deus quer ser criança».

O itinerário destes peregrinos vindos do Oriente é referência modelar para quem escuta a voz da consciência marcada pelos efeitos da finitude e estimulada pelo desejo de superação cada vez elevada. Da rotina diária, passam à curiosidade da observação do que acontece, descobrem e identificam uma luz diferente portadora de uma mensagem que interiormente os solicita, avançam na direcção indicada, pedem informações a fontes autorizadas, prosseguem o caminho, sem desânimo, e chegam finalmente ao local assinalado. Encontram Aquele que buscavam. E dão largas ao pulsar do seu coração peregrino. Prostrados, adoram agradecidos e oferecem presentes simbólicos do Menino e da própria humanidade: O ouro da missão, o incenso da condição divina, a mirra da fragilidade humana.

Ermes Ronchi, carmelita descalço italiano, descreve o Natal/Epifania dizendo: “Deus entra no mundo desde o mais baixo, a par com todos os excluídos. Como escreve o padre David Turoldo, Deus fez-se homem para aprender a chorar. Para navegar connosco neste rio de lágrimas, até que a sua e a nossa vida sejam um só rio. Jesus é o choro de Deus, feito carne. Por isso rezo: Meus Deus, meu Deus menino, pobre como o amor, pequeno como um pequeno homem, humilde como a palha onde nasceste, meu pequeno Deus que aprendes a viver esta nossa mesma vida. Meu Deus incapaz de agredir e de fazer mal, ensina-me que não há outro sentido para nós, não há outro destino senão tornar-me como Tu”.

A gruta de Belém contrasta radicalmente com o palácio de Herodes. Aqui, o poder e a ambição, o medo e a insídia, o fascínio da riqueza e a auto-satifação das honras, a vontade secreta de se desfazer de qualquer hipotético concorrente. Instalado, manobra; excitado, conspira; e maquiavélico, decide a matança dos inocentes. Ontem como hoje. Talvez mais assanhados e meticulosos, actualmente!

A gruta acolhe os peregrinos em trânsito, livres de todas as amarras, humildes e pobres, amantes da verdade e do bem, firmes na esperança e alegres no amor. Aqui, a vida floresce em abundância e a comunhão de sentimentos cresce em intensidade e doação. Aqui, a confiança é fortalecida e a ousadia prudente faz-se criativa. E os Magos “regressaram à sua terra por outro caminho”.

A escolha de outro caminho é fruto do encontro com Jesus, o Senhor feito Menino para nossa bem. Só quem realiza esta experiência pode tomar opções tão radicais: deixar o conhecido e aventurar-se no desconhecido, aberto às surpresas, correndo riscos e assumindo desafios. E os Magos manifestam a riqueza do encontro da Gruta e fazem-se arautos da nova missão: ser testemunhas de Jesus, a estrela da nossa vida, luz do mundo.

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