A humanidade de Deus

Crónica de Anselmo Borges 
no DN



Francisco enraizou o seu discurso
precisamente na festa do Natal, 
que é "a festa da humildade amante de Deus"


1 Jesus é "a humanidade de Deus", Deus humanizou-se em Jesus, nele manifestou-se como homem. Por isso, o teólogo José M. Castillo insiste em que a "religiosidade" tem de ser entendida e vivida como Jesus a entendeu e viveu. Dá que pensar: Jesus "manteve uma relação de intimidade constante e familiar com Deus-Pai, mas manteve igualmente uma relação mortalmente conflituosa com o Templo e os Sacerdotes". O Deus da fé cristã é "verdadeiro Deus" e também "verdadeiro homem". O que se passa é que parece mais fácil crer no divino do que crer no humano. Ora, "o cristão não pode crer no divino, se não crê no humano", isto é, "não pode respeitar o divino, se não respeitar igualmente o humano". Quem ofende, humilha, mata, o ser humano, realmente não acredita em Deus. O problema é: "na Igreja há mais religião do que Evangelho." "Jesus deu-se conta de que a religião, tal como funciona, entra em conflito com a felicidade do ser humano, e as religiões proíbem amar certas pessoas, e são exigentes com as coisas mais íntimas das pessoas, mas mostram-se tolerantes com o dinheiro. Não toleram a igualdade: as religiões dão-se mal com a igualdade e têm de estabelecer diferenças: eu posso mais do que tu, e proíbo-te que penses ou digas isso." Por isso, "na Igreja, há tantas coisas que nos indignam e que não podemos aceitar. Porque é que se respeita mais o templo do que a rua? Porque é que se respeita mais certos homens do que certas mulheres? Porque é que o direito canónico concede aos clérigos direitos e privilégios que os leigos não podem ter?" Afinal, "a grande preocupação de Jesus não era se as pessoas pecavam mais ou menos, mas se tinham fome ou se estavam doentes". E Castillo observa, indignado: "Sabem quando é que a Igreja condenou a escravatura? Com Gregório XVI, em meados do século XIX. Porque é que o Vaticano ainda não subscreveu os acordos internacionais para a aplicação dos direitos humanos? Procurem a palavra "mulher" no Código de Direito Canónico. Não a encontrarão." No entanto, sublinha, nos Evangelhos encontramos a profunda humanidade de Jesus, que se manifesta nas suas três grandes preocupações: a saúde, a alimentação e as relações humanas; por isso, aparece a curar doentes, a partilhar as refeições, acolhendo toda a gente, falando com todos, sem excluir ninguém. Aí está: a fé no "divino" e no "humano" não pode valer "só enquanto se refere à "outra vida", pois tem de valer e viver-se também em tudo quanto afecta "esta vida"". E Castillo afirma, com razão, que Francisco coincidirá em muitas coisas com ele, ainda que não em tudo.

2 Apesar de todas as críticas - o cardeal Burke está na frente, pensando até na sua "destituição"-, Francisco não desanima, pois o que é preciso é voltar ao Evangelho. Assim, depois de no Natal de 2014 ter catalogado as "doenças da Cúria", arremeteu, no seu discurso do Natal de 2016, contra "as resistências" e exigiu uma "conversão autêntica". E cá está: Francisco enraizou o seu discurso precisamente na festa do Natal, que é "a festa da humildade amante de Deus", onde "a lógica divina supera a nossa lógica humana", sendo, pois, urgente dizer não à "lógica mundana, do poder, do mando, da lógica farisaica e determinista". "A Boa-Nova deve ser anunciada a todos, especialmente aos pobres, humildes e descartados, com atenção aos sinais dos tempos e, consequentemente, aos homens e mulheres de hoje", recordando que a Cúria tem como finalidade, entre outras, "colaborar no ministério do sucessor de Pedro, para apoiar o Romano Pontífice no seu trabalho ordinário, pleno e universal". E atirou: a reforma "não tem uma finalidade estética, nem pode ser entendida como um lifting e, menos ainda, como uma cirurgia plástica para tirar as rugas"; porque "não devemos ter medo das rugas, mas das manchas".

Elencou os vários tipos de resistência: "a resistência aberta, que nasce da boa vontade e do diálogo sincero": "uma resistência boa é necessária e merece ser escutada, aceite e animo a que se exprima, sendo sinal de que o corpo todo está vivo." Mas há "as resistências maliciosas ocultas, que nascem de corações petrificados que se alimentam das palavras vazias, do "gatopardismo espiritual" de quem diz por palavras que está disposto a mudar, mas quer que tudo continue como antes". E "as resistências maliciosas, que se dão quando o diabo inspira más intenções, muitas vezes com pele de cordeiro. Este tipo de resistência esconde-se por detrás das palavras de justificação e, em muitas ocasiões, acusatórias, refugiando--se nas tradições, nas aparências". E traçou os doze "critérios--guia" para a reforma da Igreja, sublinhando, concretamente: a conversão pessoal; a conversão pastoral; o dinamismo evangelizador; a escuta dos sinais dos tempos; a racionalidade; o aggiornamento; a sinodalidade; a catolicidade, implicando que "a Cúria deve assumir pessoal proveniente de todo o mundo, diáconos permanentes, leigos e leigas, com base na vida espiritual e moral e a sua competência profissional. Acesso a um maior número de leigos, especialmente onde podem ser mais competentes do que os clérigos ou consagrados. De grande importância é o valor da mulher e do leigo na vida da Igreja, com particular atenção à multiculturalidade"; uma política de formação permanente, acabando com a prática do promoveatur ut amoveatur (promoção de alguém, para removê-lo): "isto é um cancro"; discernimento.

A base de tudo é a renovação: "A reforma só será eficaz se for com pessoas renovadas e não simplesmente com novo pessoal. Não basta mudar o pessoal, embora seja preciso fazê-lo, exige-se a conversão das pessoas. Não basta a formação permanente. Exige-se uma conversão e purificação permanente. Sem a mudança de mentalidade, todos os esforços serão em vão." O segredo: voltar ao Evangelho, a Jesus. O que diria e faria Jesus hoje?

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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