Na noite de Natal não havia bacalhau

Manuel Serra (foto do meu arquivo)


Nasci em 1942, em plena II Guerra Mundial, na aldeia da Raseira, freguesia de Liceia, que pertence ao concelho de Montemor-o-Velho. Na altura, a Raseira tinha 50 ou 60 habitantes. Agora tem 10 ou 20. Éramos cinco irmãos e estávamos numa zona pobre, que tinha de produzir da terra quase tudo o que consumia. O meu pai era carpinteiro e por vezes tínhamos alguns tostões para comprar algo mais. O mar ficava a 20 quilómetros, na Figueira da Foz, mas era como se fosse no fim do mundo. Não havia eletricidade nem gás. Água, era a da fonte para beber e do poço para regar. Embora Portugal não tivesse entrado na II Guerra Mundial, sofríamos os racionamentos. As pessoas tinham de ter um pinhal para ter lenha, uma terra de arroz, um olival, uma terra com nabos, couves e batatas... Em casa tinham alguns animais: galinhas para dar ovos – não se comia galinha – e o porco que se matava antes do Natal.
Na noite de Natal, não havia bacalhau. Havia uma grande travessa com couves, batatas e outras hortaliças e carne do porco que se tinha matado umas semanas antes, pelo S. Martinho. Para brindar, não havia vinho do Porto nem iguarias, mas água-pé. Como era dia de festa, uma coisa não podia falar: filhós. Era o luxo do dia. Havia também broa de abóbora.
Como não havia eletricidade, fazia-se uma fogueira de Natal, como ainda se faz em alguns sítios. Antes de ceia de Natal e depois da ceia, juntávamo-nos à volta de uma fogueira colossal no centro da aldeia. As estradas eram de terra batida, pelo que não ficavam estragadas com o calor. As fogueiras eram feitas com cepos, duravam vários dias e cada aldeia queria ter uma maior do que a do vizinho. 
No dia de Natal, comíamos filhós. Se pudéssemos pôr um cheirinho de canela e açúcar (que era racionado), era uma iguaria fantástica. Passávamos pela casa dos padrinhos e recebíamos as prendas: um tostão ou cinco tostões. E em todas as casas comíamos filhós e broa de abóbora.

Manuel Serra
Vice-presidente do Centro Social Paroquial de Nossa Senhora da Nazaré,
anterior Presidente da Junta de Freguesia

Publicado no "Timoneiro" de dezembro

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