Maria da Fonte

Crónica de viagens 
de Maria Donzília Almeida 



Espigueiro

Masseira

Oficina do ouro 

Vilarinho das Furnas

Ter vivido no coração do Minho, nos verdes anos, foi um privilégio. Agora, no entardecer da vida, sem o espartilho do tempo, cresceu a vontade de revisitar esses locais onde a nossa história se foi escrevendo. 
As origens da Nação Portuguesa estão intimamente ligadas à região do Minho, por onde passaram Celtas, Romanos ou Árabes e foi aqui que teve origem o Condado Portucalense. 
Desde cedo se fixaram ordens religiosas que trouxeram novos conhecimentos arquitetónicos, artísticos e culturais bem presentes no vasto património religioso da região. 
Por aqui passaram viajantes, tais como peregrinos a caminho de Santiago de Compostela, marinheiros, ou emigrantes que partiram para o Brasil ou para a Europa. 
Quem parte anseia um dia voltar. O regresso é, ainda hoje, sinónimo de festa e alegria bem presentes nas inúmeras romarias e arraiais minhotos que ocorrem ao longo do ano. 
Foi este apelo de uma região tão rica em património natural e arquitetónico que nos fez escolher o Minho neste outono, em época de colheitas, em que a natureza se oferece à contemplação, como um lauto banquete em festa. 
Rumámos a terras de Maria da Fonte, figura grada em Póvoa de Lanhoso, com o seu nome espalhado por vários locais, desde a restauração à hotelaria.
Relembrando a História, Maria da Fonte, ou Revolução do Minho, é o nome dado a uma revolta popular ocorrida na primavera de 1846 contra o governo cartista presidido por António Bernardo da Costa Cabral. Nasceu das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo descontentamento popular. Este foi gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro das igrejas. Iniciou-se, na zona da Póvoa de Lanhoso, uma sublevação popular que se foi estendendo a todo o norte de Portugal. A instigadora dos motins iniciais terá sido uma mulher do povo chamada Maria, natural da freguesia de Fontarcada, que por isso ficaria conhecida pela alcunha de Maria da Fonte. A forte componente feminina acabou por dar o nome à revolta. 
Aqui, foi mais uma vez evocado o papel decisivo da mulher na luta por grandes causas, com destaque para a rainha Dª Maria II cuja intervenção pôs termo à sublevação popular. A paz só seria alcançada após a assinatura da Convenção de Gramido, a 30 de Junho de 1847, com a ajuda de forças militares estrangeiras. 
Fazendo jus à figura heroica da protagonista, assentámos arraiais na Quinta Turística Maria da Fonte, resultante da recuperação de uma antiga casa agrícola da região, em Calvos, Póvoa de Lanhoso. Situada em plena zona rural, numa envolvência de vinhas, espigueiros e campos cultivados, é um local ideal para o retempero de forças. 
Com vontade de explorar a zona circundante, empreendemos uma caminhada, pelo meio dos campos, bordejados por vinhas de enforcado, típicas da região minhota. 
Os cachos maduros, à beira da estrada, eram um convite ao paladar. Ali, a natureza, na sua prodigalidade, também concede ao transeunte a dádiva de uns bagos sumarentos. Aqui, a raposa da fábula não teria desdenhado de uvas inacessíveis, pois estavam mesmo à mão de semear. Não nos fizemos rogados…e nenhum cão correu atrás de nós. 
Continuando a prospeção do local, saltou-nos à vista, um ponto de interesse, o Museu do Ouro. 
Criado em 2001 em Travassos, Póvoa de Lanhoso, considerada a capital da filigrana, é um espaço dedicado à valorização e dignificação do trabalho artesanal do ouro. Conservam-se ainda em funcionamento diversas oficinas artesanais, para além de um importante espólio documental, resultando do trabalho e pesquisa do ourives Francisco de Carvalho e Sousa, patente no museu. 
Foi muito curioso observar uma panóplia de objetos em ouro (Diadema da Idade do Cobre, três torques castrejos, brincos medievais e grande quantidade de peças de filigrana, brincos, argolas, cruzes, contas de colar, relicários...) objetos em prata (terços e "olhos de Santa Luzia", utensílios utilizados no fabrico de peças de ourivesaria (cunhos, cortantes, cadinhos, cacifos, pedras e pontas de toque, frascos de ácidos e reagentes, balanças de ourives...) muitas das vezes feitos pelos próprios; mobiliário e equipamento de oficinas como bancas de trabalho, máquinas, etc. 
Fazia parte da nossa tradição, o que tem vindo a perder-se, furar as orelhas às meninas e colocar-lhes uns brincos de ouro. Era, em épocas remotas, a marca distintiva de género, de feminilidade. Quando a donzela crescia, os brincos eram uma parte importante da moldura do rosto. Com a proliferação dos piercings em tudo quanto é lado, em ambos os sexos, num ritual de automutilação, o ouro perdeu o monopólio de classe dando lugar a qualquer metal desprovido de nobreza. 
A posse de peças de ouro foi sempre sinónimo de estatuto, económico e social e até as pessoas mais humildes sempre constituíram uma boa clientela para os ourives. 
No âmbito do nosso roteiro turístico ainda demos uma saltada à barragem de Vilarinho das Furnas, inaugurada em 21 de Maio de 1972. Vilarinho das Furnas era uma pequena aldeia comunitária, situada na freguesia de Campo do Gerês, na margem direita do Rio Homem, concelho de Terras de Bouro. 
Em 1971, a aldeia viu subir as águas do rio, ficando desde então submersa pela albufeira da barragem. Contudo, quando esta é esvaziada para limpeza ou quando desce o nível das águas em períodos de seca, podem ver-se ainda as casas, os caminhos e os muros da antiga aldeia. 
Era isso que esperávamos, mas não tivemos essa sorte, apenas calcorreámos o trilho ao longo da albufeira, atravessando uma pequena ponte sobre uma linha de água, junto a uma cascata que escorria da serra. 
As memórias da aldeia não se apagaram e vivem, hoje, nos antigos moradores e seus descendentes que a recordam com saudade. A sua voz está presente na associação “A Furna”, fundada em 1985 que deu origem ao Museu Etnográfico de Vilarinho das Furnas. 
Foi assim que a intrepidez de uma mulher deu o mote para uma pequena digressão pelo coração do Minho.

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