Ladrão reconhece Jesus como Senhor

Reflexão de Georgino Rocha



A narração da morte de Jesus está recheada de elementos convergentes no diálogo do bom ladrão, nos sentimentos que expressa e na garantia que recebe. Alguns desses elementos, como bem descreve Lucas, o médico evangelista, dizem respeito a atitude do povo, dos chefes, dos soldados e do malfeitor injurioso. O povo observa, sente e cala. É quase sempre assim, infelizmente.
As autoridades zombam e provocam. Os soldados troçam e, fingindo piedade, têm gestos de compaixão. O malfeitor exasperado lança insultos e faz interpelações. Todos em coro, cada um com o seu tom, invocam a mesma razão: descer da cruz, ser o rei dos judeus, o messias salvador. E, então sim, acreditamos na sua palavra, reconhecemos a sua realeza, constatamos que é o eleito de Deus.
Mas Jesus não desce da cruz. Responde com o silêncio total. Não cede às provocações injuriosas, embora aliciantes. Mantém a verticalidade de toda a sua vida: por amor, servir o projecto de salvação com liberdade plena, arrostando com as consequências decorrentes. E elas estão à-vista. Não desce da cruz, como outrora não cede à tentação diabólica no deserto, nem à proposta acomodatícia de Pedro aquando da transfiguração ou à agonia profunda no Jardim das Oliveiras. Jesus percorre o caminho da Galileia para Jerusalém com o propósito declarado de chegar à cidade santa e dar o testemunho final: Sou rei, mas o meu reino não é deste mundo, diz a Pilatos, o inquiridor que sentencia a morte de cruz.

Os companheiros de crucificação são condenados por rebeldia política, acusados de subversão contra o poder romano. Só este tem autoridade para decretar a morte de cruz. Jesus, ao ser sentenciado por Pilatos, entra na lista dos revoltosos contra a ordem reinante em que sobressai o culto ao imperador. Mas os evangelhos não contam nada que permita tal decisão: Jesus não promoveu nenhum motim político, não falou contra Roma nem contra a ocupação romana ou a crueldade que exerciam os legionários contra a população, nem contra os abusos fiscais ou a repressão militar.
Por isso, há certamente outras razões para ser condenado como subversivo político. O título de Rei faz parte da inscrição posta na cruz e dá, segundo Pilatos, a razão principal da sentença de morte. Ele tinha pretensões de realeza. E, de facto, assim é. Simplesmente o seu reino pauta-se pela verdade nas relações humanos, pela justiça na atenção a todos, pela paz nas consciências e entre os povos, pelo cuidado responsável da “casa comum” – a criação e suas múltiplas manifestações -, pelo amor incondicional a todo o ser humano possuidor de uma dignidade inalienável, pela confiança inquebrantável na solidariedade, pela misericórdia solícita, sobretudo para com os “feridos” da vida. Reino visualizado no diálogo do bom ladrão com Jesus. Lucas, o evangelista médico, apresenta-o de forma emblemática.

A confiança entre as pessoas e as instituições constitui ~uma urgência do nosso tempo. Acontecimentos recentes atestam o alcance desta afirmação. Jorge Sampaio, ex-presidente da república portuguesa, em notável e recente artigo de opinião sobre a «questão europeia», afirma: “A mim, parece-me que a confiança hoje está abalada de forma sistémica e sistemática — e, no fundo, a questão que se coloca é se esta desconfiança está já demasiado cimentada para ser reversível e evitar o alastramento dos populismos de toda a sorte”. E prossegue chamando a atenção para a necessidade de “reconstruir a confiança (que) constitui, a meu ver, um desafio grande, moroso, complexo, mas incontornável. Não há economia nem mercado nem política nem democracia sem esse cimento de base, a confiança. Não há paz duradoura se a desconfiança minar as relações entre comunidades, povos e nações, se o pacto social for rompido”. E a partir do evangelho podemos dizer: nem manifestação do reino de Deus, da salvação prometida ao bom ladrão, da confiança filial de Jesus na sua oração derradeira: “Pai, nas tuas entrego o meu Espírito”.

O diálogo, garante da salvação, constitui uma excelente referência para o Ano Jubilar da Misericórdia que, hoje, em Roma, se encerra. E o Papa Francisco, desde o início, quer ver alargado a todo o mundo esta força transformadora. Diz ele: “Confiaremos a vida da Igreja, a humanidade inteira e o universo imenso à Realeza de Cristo, para que derrame a sua misericórdia, como o orvalho da manhã, para a construção duma história fecunda com o compromisso de todos no futuro próximo. Quanto desejo que os anos futuros sejam permeados de misericórdia para ir ao encontro de todas as pessoas levando-lhes a bondade e a ternura de Deus! A todos, crentes e afastados, possa chegar o bálsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus já presente no meio de nós”.

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