SENHOR, AUMENTA A NOSSA FÉ

Reflexão de Georgino Rocha



Os discípulos sentem necessidade de crescer na fé, prosseguindo o seguimento de Jesus, iniciado há tempos. E fazem-Lhe este pedido: “Senhor, aumenta a nossa fé”.  Pedido simples e claro, cheio de um enorme simbolismo. Sem medo a críticas, mostram que o coração humano vive inquieto enquanto não encontra razões firmes e atraentes para a sua capacidade de amar; querem dar um passo em frente e “agarrar-se” de vez à opção tomada de serem livres para ir em missão e servir o Reino; procuram intensificar a sintonia dos seus desejos com a novidade que o Mestre transmite e realiza.

Que belo exemplo para quem aspira a ser verdadeiramente humano: abertura de horizontes, vencendo o casulo míope do “já basta” e do “estou satisfeito”; valorização do que se é na perspectiva do que se quer ser; aceitação e reconhecimento da nossa vocação ao crescimento integral, à contemplação do rosto de Deus, à comunhão que a fé provoca e alimenta, ao amor de quem Deus ama: as criaturas e a criação, sobretudo a mais depredada na sua beleza e harmonia. Que oportuno testemunho para um mundo que parece insensível e indiferente a estes valores, que dá sinais claros de passar bem sem Deus e silencia a sua voz, especialmente nos gemidos e nos gritos das vítimas humanas.

Lucas, o autor do relato, apresenta a resposta de Jesus em duas parábolas: a do grão de mostarda e a do servo inútil ou seja a da qualidade vigorosa e a da confiança obediente. E assim visualiza o que é a fé cristã do discípulo fiel e o serviço a que está chamado.
Consequentemente, o Papa Francisco exorta-nos a manter ligada a luz da fé, praticando o bem hoje e não adiando para amanhã, nem o guardando no congelador. Já! E deixa alguns exemplos que ajudam a luz da fé a permanecer ligada. “Cuidem da luz (…) a luz da amizade, a luz da mansidão, a luz da fé, a luz da esperança, a luz da paciência, a luz da bondade”.

O modo de proceder dos discípulos manifesta que a fé brota do contacto com Jesus, da relação cordial com ele, do conhecimento da sua vontade, do envolvimento na sua paixão que não desiste de ir até ao fim. O amor a Deus Pai e a realização do seu projecto de salvação “comandam” todas as suas decisões e ousadias. Sem esta familiaridade com Jesus, a fé corre o risco de se desvirtuar, não tendo consistência nem autenticidade; corre o risco de se diluir e até desaparecer; corre o risco de dar lugar à indiferença e, mesmo, à hostilidade.
“Não nos tornamos cristãos com as nossas forças” – recorda o Papa Francisco no Twitter. “A fé é primeiramente um dom de Deus que nos é dado na Igreja e através da Igreja”.

Jesus atende o pedido dos discípulos e reencaminha-o de modo surpreendente. “Se tivésseis fé, como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Arranca-te daí e vai plantar-te no mar, e ela obedecer-vos-ia”. A fé, que Jesus ilustra com a referida comparação, alicerça-se na Palavra de Deus que é sempre fiel e tem uma única medida: o vigor que a adesão cordial faz brotar no coração dos discípulos, adesão credenciada por uma atitude de serviço generoso e desinteressado.
Assim o testemunha a actriz libanesa Nadine Najim, que foi miss Libano em 2004, surpreendendo os fãs que a interpelavam sobre a sua crença religiosa. “Eu respeito o Islão e a fé em Deus, mas a minha religião é o cristianismo. A religião é a minha esperança. Cristo é a minha vida”. E acrescenta:  “Espero que todos orem por mim, para que Deus me guie”.
A coerência de quem vive a fé em obras concretas brilha em tantos rostos humanos, sorridentes e felizes, em tantos voluntários de causas solidárias e fraternas, em tantos espoliados da sua dignidade que não desistem de a reivindicar, correndo riscos de morte. Infelizmente, também acontece o contrário.

A qualidade da fé é típica dos discípulos, mulheres/homens de Deus, cheios do Espírito de fortaleza, caridade e moderação – como lembra Paulo a Timóteo; preocupados em guardar o “tesouro” recebido e em mantê-lo íntegro; cheios de audácia evangelizadora em todas as circunstâncias, firmes e determinados na prossecução do ideal que aprendem do Mestre. É típica de quem assume conscientemente o baptismo e faz desabrochar toda a sua riqueza ao longo da vida.
Senhor, aumenta a nossa fé, oração a fazer especialmente neste mês de Outubro, mês dedicado à Igreja em terras de missão, o coração humano.  

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