Para onde vão os mortos?

Crónica de Anselmo Borges 


1. A gente nunca tem tempo. E vamos adiando, adiando... De repente, a notícia cai, brutal. E aí temos de ter tempo, porque é para a última despedida, pois chegou o nunca mais para sempre neste mundo. E vamos. E não há palavras para dizer qualquer coisa que seja minimamente eco daquilo que está cá dentro e que quereríamos dizer aos próximos, à mulher, ao marido, aos filhos... Fica tudo muito sombrio e desengonçado. Por fora, mantém-se uma compostura, mas por dentro é um abalo sísmico numa distância incomensurável, porque é entre o tempo e a eternidade, entre o finito e o infinito. Por mais natural que aquilo tudo pareça. Nesta nossa sociedade da banalidade rasa e carcomida, criámos essa ilusão da naturalidade do que é tudo menos natural: a naturalidade da morte. Sim, ela é o mais natural que há, mas... sobre ela as perguntas atropelam-se. Porquê?


Desta vez, quem se me foi embora foi o amigo José Rodrigues. Sim. O escultor, o artista de tantas artes. Tinha prometido várias vezes a mim mesmo que ia lá vê-lo. Mas nunca havia tempo. Depois, a notícia, cortante, chegou. E lá fui eu, nas circunstâncias que já disse. Apesar de todas as palavras, num silêncio de chumbo. Até me lembrei daquele anúncio a contar como alguém já de idade, para juntar a família num jantar, teve de inventar um anúncio do seu próprio funeral. E compareceram todos...

Não me compete a mim sublinhar e exaltar a figura ímpar na cultura portuguesa que José Rodrigues foi e é como artista multifacetado em quem habitou o génio divino da Arte. E era um homem simples, amigo, com brilho e imenso humor. Acima, muito acima da banalidade do efémero. A sua obra, imensa, está aí, ensinando-nos a ver o que se vê, mas que nunca tínhamos visto como agora vemos que é possível e necessário ver, para nos erguermos à nossa altura, para cima, mais para cima, para o Divino.

Da primeira vez que nos encontrámos, fez-me seu irmão. Para ele, a irmandade em humanidade era uma evidência. E disse publicamente também que seria ele a fazer as capas de todos os livros que fosse escrevendo. E assim foi, na sua generosidade para comigo: Janela do (In)visível; Deus no Século XXI e o Futuro do Cristianismo; Religião: Opressão ou Libertação?; Janela do (In)finito; Corpo e Transcendência (que esplendor!); Deus e o Sentido da Existência; Quem Foi - Quem é Jesus Cristo? Uma dívida que nunca poderei saldar. Já não pôde fazer a deste último, que acaba de sair: Deus, Religiões, (In)Felicidade.

Um artista verdadeiro tem a sua morada no Sagrado. Por isso pode viver distanciado da religião institucional, mas o Mistério pertence ao seu convívio íntimo. Quem não se exalta e recolhe naquela sua colecção de Cristos? Só um exemplo. O Sagrado e o seu mistério na crueza do sofrimento, anunciando transfiguração (são ele). Uma vez disse--me: "Se Deus fosse mesmo meu amigo, punha-me tinta de várias cores a sair dos dedos para poder pintar directamente". E fez-me muitas vezes a pergunta: "Anselmo, para onde vamos quando morrermos?"

2. Nestes termos ou parecidos, esta é a pergunta que está aí, in-finita, desde que na história da evolução o ser humano deu entrada. Diante dela, a variedade de respostas é uma história longa, que esbarra sempre com um abismo de perplexidade, assim, com Pascal: "Incompreensível que Deus exista, e incompreensível que não exista; que a alma seja com o corpo, que não tenhamos alma; que o mundo seja criado, que o não seja, etc." Este "etc." não tem fim, incluindo também: incompreensível que haja vida depois da morte, que com a morte acabe tudo.

Onde é que eu estarei quando cá já não estiver?, é a pergunta lancinante que Tolstoi coloca na boca de Ivan Ilitch moribundo. "Para onde vão os mortos", perguntava o filósofo B. Welte. E reflectia: para o Silêncio? Para o Nada? É este Nada que a todos espera. Ninguém pode escapar-lhe. E não há ninguém que alguma vez tenha voltado. Nesta situação-limite ergue-se, cortante, a pergunta ineliminável: "Porque é que há algo e não pura e simplesmente nada?", a pergunta propriamente metafísica.

Esta dimensão inobjectivável e para lá do conceptualizável da transcendência não é construída pelo ser humano mediante o pensamento. Pelo contrário, é o pensamento que é desafiado por ela, e é o ser humano que é inevitavelmente confrontado com ela.

Não está, à partida, decidido como deve ser interpretado este Silêncio e este Nada. Trata-se de um silêncio morto ou de um Silêncio vivo, habitado? Trata-se de um nada negativo ou de um Nada enquanto ocultação absoluta do Mistério vivo, como quando dizemos: aqui não vejo nada, mas sabendo que lá pode estar algo e até o essencial? Quando se olha para o Sol não se vê nada, tal é o excesso de luz.

Este nada é pura e simplesmente nada, e assim tudo é sem sentido último, ou, pelo contrário, o Nada experienciado na morte é a figura do Mistério oculto que a tudo dá sentido e fundamento?

José Rodrigues não foi embora. Ele está onde sempre esteve. No Sagrado. Na Beleza.

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