As dúvidas da santa da sarjeta

Crónica de Anselmo Borges 


1. Era assim que lhe chamavam: a "santa das sarjetas". Ela foi a encarnação da compaixão e da misericórdia, da generosidade pura, junto dos mais pobres, daqueles e daquelas junto de quem ninguém está, dos "não pessoas", dos que nem na morte têm alguém e, por isso, morrem como cães, na valeta da rua, da estrada e da vida. "Passei toda a minha vida num inferno, mas morro nos braços de um anjo do céu", foram as últimas palavras de um desses moribundos que ela acolhia.
Teresa de Calcutá foi canonizada pelo Papa Francisco no domingo passado, na presença de mais de cem mil pessoas. "Declaramos e definimos Santa a Beata Teresa de Calcutá e inscrevemo-la no Livro dos Santos, decretando que em toda a Igreja ela seja venerada entre os Santos." O povo há muito que sabia que ela é Santa: já era venerada por cristãos e também por hindus, muçulmanos, budistas...
E Francisco falou. "A Deus agrada toda a obra de misericórdia, porque no irmão que ajudamos reconhecemos o rosto de Deus que ninguém pode ver." "Sempre que nos inclinámos perante as necessidades dos irmãos, demos de comer e de beber a Jesus, vestimos, ajudámos e visitámos o Filho de Deus." "Não há alternativa à caridade: quem se coloca ao serviço dos irmãos é que ama a Deus, mesmo que não o saiba." E agradecendo a todos os voluntários: "Vós sois aqueles e aquelas que servem o Mestre e tornam visível o seu amor concreto para com cada pessoa." "Esta incansável trabalhadora da misericórdia nos ajude a compreender cada vez mais que o nosso único critério de acção é o amor gratuito, livre de toda a ideologia e derramado sobre todos, sem distinção de língua, cultura, raça ou religião."

2. Madre Teresa foi duramente atacada, concretamente pelo jornalista e escritor, ateu militante, Christopher Hitchens, que criticou os meios precários que utilizava a favor dos mais pobres e ter aceitado dinheiro de fontes pouco limpas.
Sim. Ia buscar dinheiro aonde ele está: aos bolsos dos ricos. Mas ela própria disse um dia aos jornalistas que é urgente que os poderosos discutam nos fóruns internacionais os problemas da organização da justiça no mundo e a distribuição da riqueza, mas que, enquanto se alcançam ou não acordos eficazes, as Missionárias da Caridade dedicar-se-ão a recolher das ruas, um a um, os moribundos e os doentes que já ninguém ampara nem cuida.
É preciso lutar de modo lúcido e enérgico pela justiça no mundo, transformando as estruturas sociais, mas seria intolerável, a pretexto de agudizar as contradições sociais para acelerar a revolução, não acudir à criança esfomeada nem ajudar o desgraçado caído na valeta. Era o dramaturgo B. Brecht, marxista lúcido e que conhecia bem a Bíblia, que tinha razão: "Contaram-me que em Nova Iorque,/na esquina da Rua Vinte e Seis com a Broadway,/nos meses de Inverno, há um homem todas as noites/que, suplicando aos transeuntes,/procura um refúgio para os desamparados que ali se reúnem./ Não é assim que se muda o mundo,/as relações entre os seres humanos não se tornam melhores. /Não é este o modo de encurtar a era da exploração./No entanto, alguns seres humanos têm cama por uma noite./Durante toda uma noite estão resguardados do vento/e a neve que lhes estava destinada cai na rua./Não abandones o livro que to diz, homem./Alguns seres humanos têm cama por uma noite,/durante toda uma noite estão resguardados do vento/e a neve que lhes estava destinada cai na rua./Mas não é assim que se muda o mundo,/as relações entre os seres humanos não se tornam melhores./Não é este o modo de encurtar a era da exploração."

3. Preocuparam-na mais a sua crise espiritual, chegando a duvidar da existência de Deus. Aquele Cristo que ela, na entrega do Prémio Nobel da Paz, declarou que "está nos nossos corações, nos pobres que encontramos, no sorriso que oferecemos e no que recebemos", deixou-a no vazio espiritual durante parte de uma vida torturada pela sua ausência.
Aquando desta revelação, houve quem chegasse a pôr em questão a sua sinceridade e a verdade da sua vida. Alguns crentes, incluindo clérigos, sentiram um abalo profundo: tratar-se-ia apenas daquela ausência de consolação que a fé concede. Esqueceram-se de que São Tomás de Aquino escreveu que a fé convive com a dúvida. Aliás, sem esta convivência, ainda seria fé? Não falaram os místicos da "noite escura"? Também Santa Teresa de Lisieux, conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus, foi assaltada pela dúvida, parecendo-lhe, nas vésperas de morrer, que lhe diziam: "Crês que um dia sairás das trevas que te rodeiam? Avança! Avança! Alegra-te com a morte, que te dará não o que esperas, mas uma noite mais profunda ainda, a noite do nada."
Deus não é evidente e a fé não tem a certeza da lógica ou das ciências empírico-matemáticas. A prova e o milagre da fé de Madre Teresa foi o amor vivo, numa dedicação sem desânimo, aos mais pobres dos pobres. A fé é um combate que se ganha no amor.

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