A oração que Jesus nos ensinou

Reflexão de Georgino Rocha



O caminho de Jesus para Jerusalém constitui referência modelar para o itinerário de iniciação à vida cristã dos que pretendem ser seus discípulos missionários. Assinala com grande evidência os marcos principais do percurso e as atitudes fundamentais de quem o assume. Uma imagem expressiva chega-nos, hoje, dos que fazem o caminho de Santiago, na Galiza, e dos peregrinos a Fátima.
Lucas, o narrador de “serviço” assinala que “estava Jesus em oração em certo lugar”. Destaca assim a sua atitude orante, o local em que reza e o recolhimento em que permanece, apenas interrompido pela súplica dos discípulos. Causa a mais profunda impressão o seu modo de orar. E ainda mais quando se ouve a resposta dada a este pedido: O Pai Nosso e seus desejos.
A versão de Lucas é mais breve que a de Mateus. Possivelmente estará mais próxima da original. Nela, Jesus deixa-nos ver a sua relação com Deus Pai e transmite-a aos discípulos. A oração é entrar nesta relação filial, sentir-se envolvido pelo amor paternal, começar a ver as coisas com o olhar divino tão expressivamente cultivado por Jesus e apresentado nos Evangelhos e dispor-se a agir em coerência solidária.
Os discípulos, como bons judeus, já rezavam e muito, obedecendo às regras prescritas. O seu pedido é reforçado pelo exemplo do grupo de João Baptista. Mas Jesus alarga os horizontes e dá outros fundamentos à oração. Não é fruto de leis, nem cria grupos “profissionais”, nem delimita espaços e tempos. O Pai é nosso, de todos, sempre e em qualquer circunstância e lugar. A imagem de Deus “arrumado” num templo, normalmente de “portas fechadas”, com horas marcadas de atendimento, “forçado” a conceder as graças imploradas… fica definitivamente realinhada por Jesus e confiada aos seus discípulos missionários, organizados em Igreja.
A relação humana encontra aqui a sua raiz mais consistente. Se Deus é Pai Nosso, todos somos seus filhos e, por isso, irmãos uns dos outros, sem arbitrariedade alguma. Os que vivem no presente, os que já cessaram funções na terra e no tempo (as gerações passadas) e os que, um dia, hão-de nascer, todos constituímos a grande família de Deus Pai. Esta família tem Jesus como Irmão universal e o Espírito Santo como amor vivo no coração de cada um. Sem discriminações.
Tendo no horizonte a família de sangue, o Papa Francisco ao falar da espiritualidade da consolação e do estímulo, afirma que “o amor de Deus exprime-se através das palavras vivas e concretas com que o homem e a mulher declaram o seu amor conjugal. Assim, os dois são reflexos do amor divino, que conforta com a palavra, o olhar, a ajuda, a carícia, o abraço. Por isso, querer formar uma família é ter coragem de fazer parte do sonho de Deus, a coragem de sonhar com Ele, a coragem de construir com Ele, a coragem de se unir a Ele neste história de construir um mundo onde ninguém se sinta só” ( A Alegria do Amor, nº 321).

A realidade vivida, a todos os níveis, é deveras contrastante e tende a acentuar-se: a fome de milhões face à opulência de uma elite qualificada, a ganância que leva ao comércio de armas de guerra face aos anseios de paz reduzidos a parcos recursos, a miséria de morte face ao consumo desenfreado e ao descartável generalizado. O realismo das situações ultrapassa o sonho da fantasia. Constitui uma espinha penetrante nas carnes dos feridos da vida. O Papa Francisco é, sem dúvida, a voz mais autorizada que se ergue na cena pública e apregoa mudanças radicais. Não por ódio, mas por exigências da nossa comum humanidade iluminada pela fé cristã.
A oração do Pai Nosso prossegue com outras invocações: que o nome de Deus seja santificado, isto é, reconhecido tal como ele é: Santo, sem desfigurações; que o seu reino venha; e que a sua vontade sempre seja feita. Quem reza entra assim em sintonia com Deus e disponibiliza-se para servir o amor, para dar o perdão, para repartir o pão de cada dia, para resistir à tentação diabólica do egoísmo, para se libertar do mal com a sempre desejada protecção divina.
Orar é expressar um desejo que chega a Deus, ao Transcendente. Oramos o que verdadeiramente desejamos. Jesus insiste não em devoções, rituais, fórmulas, palavras; mas em algo mais profundo: o desejo do coração filial, a apetência da vontade solidária, a aspiração da consciência iluminada pelos valores do Pai Nosso. Jesus indica-nos o que devemos apetecer mais na vida e a ordem dos nossos desejos. (J. M. Castillo).
A prática da Igreja acrescenta um “Àmén” final, resposta firme de quem adere e se propõe viver a oração do Pai Nosso. Àmen à oração que Jesus nos ensinou. Àmen, opção e sentido que marcam o ritmo e o estilo dos discípulos em missão.

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