Abraço do pai acolhe filho reencontrado

Reflexão de Georgino Rocha


“O meu filho voltou à vida. 
Foi reencontrado. Façamos festa”

A parábola do “filho pródigo” atinge o seu momento mais expressivo no abraço do Pai que, pacientemente esperava o seu regresso. A narração é uma maravilha saída da pena de Lucas. A mensagem é um primor que Rembrandt visualiza de forma magistral. Os protagonistas apresentam traços humanos do rosto de Deus que Jesus insistentemente quer que os seus interlocutores acolham, admirem e apreciem. A Igreja prolonga na história a missão de Jesus e esforça-se por lhe ser fiel e por fazer brilhar em si e nos seus membros a ternura, o calor e a misericórdia que transparecem naquele gesto familiar. Os cristãos ficam constituídos em seus discípulos missionários pelo estilo de vida e pela prática de obras de justiça impregnada de amor de serviço generoso.

A parábola surge como resposta à murmuração dos fariseus e dos escribas por causa de Jesus “andar com más companhias”, os pecadores, os excluídos, os perdidos. Andar e comer com eles, realizando em antecipação a refeição familiar e o convívio fraterno que Deus reserva a todos no futuro definitivo. O retrato do pai espelha, de modo feliz, o rosto de Deus Pai. E este é o núcleo da mensagem. O filho mais novo vive com grande intensidade a aventura da liberdade, impregnada de experiências divertidas e fugazes, de emoções contrastantes, de alegrias incontidas e de tristezas frustrantes, de recordações nostálgicas e de decisões encorajantes.

No relato circunstanciado de Lucas surge, em relevo, a grandeza da liberdade pessoal, a capacidade de opções responsáveis, a resistência anímica ( e não só) para aguentar as consequências. Brilha a força da verdade do ser humano em que reluz o modo de ser do Deus que Jesus anuncia e nos confia como Pai bondoso.

Os partidários dos fariseus rejeitam este Deus. Por isso, procuram armar ciladas e desautorizar Jesus. Estão frente a frente dois modos de compreender Deus: o que transparece no reencontro do filho jovem com seu pai e o que se manifesta na atitude do irmão mais velho. O comportamento deste reproduz a mentalidade dos fariseus: fiel observante do estabelecido, zeloso sentinela dos passos dos outros, diligente cumpridor de um contrato que regula a vida, obediente submisso que reivindica a paga devida. Julga-se a si mesmo com créditos merecidos pela sua fidelidade servil. Queixoso em relação ao pai (que nem sequer nomeia) e insensível para com o irmão que desdenhosamente trata por esse teu filho, e, apesar de tudo, regressa são e salvo. A imagem que emerge é a de um deus patrão, a quem se prestam serviços e se passam “recibos verdes”, à maneira de providência cautelar em ordem a garantir a salvação eterna.

O jovem reencontrado, depois de perdido nas “façanhas” desventuradas da sua frágil e ousada liberdade, assume atitudes dignas do Pai que sempre desejou “aquele” abraço, que se felicita pela relação filial restabelecida, que celebra a sua alegria festivamente com a família e os amigos. O seu amor compassivo atalha a confissão incipiente do filho: “Pai, pequei; não sou digno de ser teu filho, trata-me como um trabalhador dos teus”. As suas atitudes mostram o Deus acolhedor dos perdidos que se reencontram, dos excluídos que se integram, dos pecadores que se convertem, dos fracassados e arruinados que se reerguem e regeneram.

A bondade do pai espelha-se no acerto das recomendações que faz: a melhor túnica substitui a veste suja e surrada; o anel brilhante no dedo assinala a dignidade filial recuperada e faz esquecer a herança desperdiçada; as sandálias nos pés garantem protecção e segurança para avançar por novos caminhos; o vitelo gordo abatido e a festa da abundância iniciada compensam largamente a fome sofrida, as bolotas da amargura engolidas e abrem horizontes de saciedade plena, de esperança confiante.

“O meu filho voltou à vida. Foi reencontrado. Façamos festa”. O símbolo não podia ser mais rico. O rosto de Deus que Jesus anuncia fica bem desenhado. Captemos o seu sentido. Vivamos a sua misericórdia. Deixemo-nos envolver pela seu abraço de reconciliação sanadora.

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