O SENHOR VEM. PREPAREMOS A SUA VINDA

Reflexão de Georgino Rocha

 “Toda a criatura 
verá a salvação de Deus”



João Baptista é o arauto que anuncia e exorta. Ele, o maior dos profetas, apresenta-se como voz que brada no deserto. Percorre a zona do rio Jordão. Convoca o povo com palavras persuasivas. Recomenda vivamente: “ Preparai os caminhos do Senhor”. Ele vem, está a chegar, vive já no meio de vós. Não o reconheceis?! 
A pregação de João é situada historicamente por Lucas, o autor da narração. Nada de fantasias nem de factos inventados. Ocorre no décimo quinto ano do reinado de Tibério, imperador romano, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia. São igualmente mencionados o nomes dos responsáveis, políticos e religiosos, nas regiões abrangidas. E também o de Zacarias, pai de João. Com estas credenciais, a mensagem pode ser mais impactante, despertar a atenção dos distraídos, convocar os desviados, chamar ao arrependimento os faltosos, anunciar, com êxito, a salvação dos perdidos que desejam acolher a salvação que Deus lhes oferece. Pregação que acontece no descampado, não no Templo, e é feita por um profeta, não por um sacerdote como Zacarias. Contrastes a denotar a novidade que se avizinha.
Os ouvintes são exortados a preparar a vinda do Senhor, a percorrer os seus caminhos, a endireitar veredas, a altear vales, a abater montes e colinas, a endireitar o que está torto e a alisar a aspereza das escarpas. Em linguagem telúrica, o profeta lança um vasto programa de acção a empreender, começando pelo planeta terra e alargando-se à convivência social e religiosa. “Toda a criatura verá a salvação de Deus” é garantia e fruto de promessa que já vem do profeta Isaías.
A humanização condigna das pessoas, a construção da sociedade de todos, a produção justa e a repartição equitativa de bens, a sustentabilidade do clima e da paz, a harmonia do universo e do cosmos, a administração correcta da justiça, sobretudo para com os indefesos e as vítimas constituem marcos assinaláveis da preparação indispensável da vinda do Senhor.

O sonho atraente de Isaías e a voz interpelante de João abrem-nos caminhos a percorrer. “É preciso introduzir nos códigos penais o delito da estupidez”, clamam alguns visionários desejosos de ver realizada a aliança do dizer com o fazer, da coerência do ser com o agir, da liberdade de pensar com a verdade da sabedoria da vida. “É preciso manter vivo o sonho e prosseguí-lo em cada passo, sem esmorecimento”, advertem outros que apreciam os esforços feitos de quem não desiste de empreender a aventura de construir uma cultura de cuidado responsável, solícito e terno. “É preciso apregoar o valor dos bens universais como o alimento saudável, a água limpa, o ar despoluído, o aquecimento controlado, o equilíbrio garantido dos sistemas de vida e, sobretudo a saúde espiritual de cada pessoa e de toda a humanidade, integrando em harmonia a diversidade das criaturas e da criação.

A pessoa em si mesma e na relação de reciprocidade com as demais constitui o centro de esperança do Advento do Senhor que vem. Pessoa liberta de medos e, por isso, confiante; liberta da “intoxicação” dos meios de comunicação e, por isso, mentalmente despoluída e aberta à verdade; liberta das teledependências e, por isso, disponível para a família e para a vizinhança ou outras realidades de proximidade; liberta das amarras dos novos ídolos como o culto do ego, do bem estar, do dinheiro ou de outros bens materiais, da ostentação das aparências e do prestígio e, por isso, pronta para acolher o Senhor que vem redimensionar toda a realidade e repor o sentido original da vida.
A esperança do Advento é uma espera activa (Lc 3, 1-6). A chegada do Senhor é tão reconfortante que vale a pena fazer uma preparação adequada.

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