Notas do meu diário — Natal de 2015


1. Perdi a conta aos textos que escrevi por encomenda sobre o Natal. Há anos tive a coragem de declinar os convites que me chegavam nesta quadra talvez por recear repetir-me nas ideias, nos conceitos, na forma e no estilo. Julgo, porém, que podia e devia ter evitado a indelicadeza de dizer não, sobretudo a pessoas que muito estimo, mas na realidade fi-lo por receio de não dizer coisa de jeito. Contudo, gosto de escrever quando a vontade de o fazer me aperta ou quando sinto uma razão motivadora. Foi o caso deste ano...

2. Felizmente, conseguimos reunir este ano toda a família mais próxima. Mudanças em casa para acomodar quem veio para estar, comer, dormir, conversar e sentir, no íntimo da alma, o valor da confraternização, da alegria espontânea, das confidências segredadas, das gargalhadas de felicidade e, acima de tudo e todos, a magia recebida e exteriorizada do nosso neto mais novo, o Dinis, já com o prazer da festa estampado no rosto e em todo o corpo, afinal, que o fazia vibrar a cada prenda desembrulhada, não sem antes nos fizer, num inglês quase… quase… quase fluente, nomes e caraterísticas dos seus heróis prediletos. 
Como por artes mágicas, depois de o Dinis os enunciar, com toda a naturalidade e sem recurso a saca-rolhas, eis que os seus heróis iam surgindo, tal qual a TV lhos apresentava. Com a sua imaginação, logo os tornava reais, com capacidade para vencer inimigos, atravessar montanhas e penetrar bem fundo no âmago dos nossos corações. As cenas sem fim à vista prolongaram-se até altas horas. O sono não teve um cantinho sequer para influenciar fosse quem fosse na noite calorosa da consoada.

3. A vida exigente e stressante rouba o tempo de que as famílias precisam para se realizarem em pleno. Os objetivos empresariais, com metas difíceis de atingir, exigem entregas dedicadas e absorventes. Há trabalhadores que têm de ser máquinas de alta velocidade e de produção contínua. Desgastantes e despersonalizantes. Os casais sofrem. Os filhos sofrem mais. Em muitos casos os desajustamentos familiares são inevitáveis. O homem e a mulher perdem quantas vezes a sua humanidade. Mas nas datas festivas todos despem a capa do dia a dia profissional, escondem os problemas atrás de uma qualquer porta e dão largas a todas as alegrias em lista de espera para sobressaírem, dando e recebendo, numa partilha tão comum nessas ocasiões de festa. E a casa da confraternização enche-se de luz e harmonia, na noite santa. No próximo ano, não esqueceremos a beleza de nos sentirmos unidos.

4. A forma de viver a caridade e a solidariedade no presente choca-me frequentemente. Julgo que temos de olhar de frente o problema da ajuda a prestar a pessoas e famílias carenciadas. Não apenas no Natal, mas sempre. Não é por acaso que tantas vezes proclamamos que Natal é quando o homem quiser. Só que, as mais das vezes não fazemos o que sabiamente proclamamos.
Tenho visto o espetáculo tristíssimo da sopa dos pobres. Humilhar quem precisa, quem passa fome, quem está desempregado e sem perspetivas de vida digna, não pode, a meu ver, andar de saca na mão a receber esmolas, com ou sem televisões à vista. Descubram-se e identifiquem-se os que esperam o pão para matar a fome, mas ninguém tem o direito de fazer disso um filme, com rostos, desesperos e desgraças como protagonistas. A verdade da pobreza (um milhão de pobres na miséria extrema e outro milhão a caminho disso) tem de ser denunciada a toda a hora, mas a dignidade dos feridos da vida não pode nem deve permitir a humilhação. 

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