JOÃO ANUNCIA A BOA NOTÍCIA AO POVO

Reflexão de Georgino Rocha

«João não indica como sinais 
de arrependimento as práticas religiosas 
cultuais, seja de que tipo forem, 
mas condutas pessoais que se entrelaçam
no tecido colectivo.»



Lucas transmite-nos esta alegre notícia como resumo da vida de João Baptista. É muito expressivo que a seguir à narração dos “muitos outros modos” de anúncio venha a denúncia da situação conjugal de Herodes, a prisão e decapitação de João, a sua retirada de cena e Jesus comece a ocupar “todo o palco” com o baptismo do Jordão e a declaração da sua dignidade de filho de Deus.
A paixão de João pelo bem do povo é constante. Ergue a voz e clama. Veste e come de modo singular. Usa linguagem fortemente interpelante. Afronta situações fraturantes. Provoca reacções contrastantes. E responde a quem lhe faz perguntas de emenda de vida desviada.


“Repartam”, diz às multidões. “Sejam honrados e justos na cobrança de impostos”, recomenda aos publicanos. “Não sejais violentos”, exorta os militares. Respostas que indiciam um novo tipo de comportamento, uma atitude relacional diferente, um reconhecimento de que outra ordem social é possível e desejável.

João não indica como sinais de arrependimento as práticas religiosas cultuais, seja de que tipo forem, mas condutas pessoais que se entrelaçam no tecido colectivo. É a dimensão ética da conversão, sem a qual o resto é puro devaneio espiritual. É a coerência que brota da sintonia do ser com o fazer.

“ O pão que reservas para amanhã pertence ao faminto, afirma São Basílio. As vestes que enchem os teus armários são dos que andam nus. O calçado que se estraga em tua casa é dos que andam descalços. Dos pobres é o dinheiro que tens guardado. Por isso te digo, conclui o «o Pai dos monges do Oriente» que a Igreja reconhece como o grande, “que tu és opressor dos que poderias ajudar”. A justiça, adianta Bento XVI, é dar ao outro o que lhe é devido, é restituir o seu. Amar é dar o “meu”, é doar-me a mi mesmo pelo bem do outro. É viver a misericórdia que Deus nos oferece e a Igreja nos propõe no Ano Jubilar que, agora, se inicia. 

A mensagem é clara, apelativa e interpelante: ser cristão de facto e não apenas de nome. Fazer-se boa notícia para um mundo cansado das suas rotinas deslumbrantes e indiferente face à miséria sofrida por milhões publicitados em estatísticas e noticiados em telejornais. Ocupar lugar dianteiro entre os voluntários arautos de uma nova consciência “ilustrada” que force a transformação das regras estabelecidas a favor dos que têm, dos que podem, dos que sabem, dos que mandam. Os pobres não podem esperar.

Ser bom cristão supõe e exige ser bom cidadão. Se é importante eliminar os pecados, não é menos eliminar os delitos. Aliás dificilmente se podem separar uns dos outros quando se tem consciência iluminada pelo Evangelho e pela doutrina social da Igreja, uma das suas expressões qualificadas. A ética da posse e uso de bens, da tributação nos impostos e do exercício do poder tem aqui um embrião fecundo da sua legitimidade e proporcionalidade. E consequentemente da atitude a assumir responsavelmente pelos cidadãos amigos do bem comum.

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