Festa de Natal

Reflexão de Georgino Rocha

Vamos ver o que aconteceu

os pastores de belem - Pesquisa Google:

A atitude dos pastores 
é indicativa do proceder cristão


A atitude dos pastores de Belém é exemplar. Lucas destaca a sua figura no acontecimento que envolve o nascimento de Jesus e no primeiro anúncio do que havia acontecido. A eles se juntam outras vozes que difundem a feliz notícia, louvando as glórias de Deus que se espelham na paz entre os homens de boa vontade. A partir deste núcleo central, as ondas de transmissão chegam longe no espaço e no tempo, alcançando o nosso coração e fazendo-o estremecer de alegria. É Natal! Vamos ver o que aconteceu.
A escolha de Lucas é indicativa da preferência de Deus pelos desconsiderados da sociedade. Belém, apesar do seu simbolismo histórico, é uma pequena aldeia. Os pastores, pela sua condição social, são uns excluídos remetidos ao campo de pastagens do rebanho. A cena envolvente do nascimento, a começar pelo curral onde se albergam os ilustres desconhecidos da gente grada daquela terra, é de extrema pobreza: um recém-nascido, envolto em panos, deitado numa manjedoura, contemplado por Maria com olhos de ternura e admirado por José em silêncio fecundo de dedicação amorosa. Sem mais nada.

A atitude dos pastores é indicativa do proceder cristão. Constitui uma espécie de itinerário de germinação e amadurecimento da fé. Vale a pena considerar alguns dos seus passos.
Deixam-se surpreender na rotina das suas vidas. E reajem espontaneamente. Do medo passam à confiança e à escuta. Vencem a indiferença com que olhavam o que acontecia à sua volta, sobretudo nas povoações mais próximas. Acolhem um anúncio estranho: “ Nasceu-vos, hoje, um Salvador” e o sinal que lhes indicava onde podem comprovar a sua realização. Escutam vozes celestiais, exultam de alegria e decidem-se a partir para Belém.
Esta fase de cariz psicológico e espiritual é determinante no processo de iniciação cristã nos seus aspectos fundamentais: Derreter o gelo da indiferença e insensibilidade, abrir horizontes “à zona de conforto” e ao casulo doentio do interesse individual e consumista, despertar a consciência para valores altruístas generosos, motivar opções lúcidas e responsáveis, provocar decisões corajosas que levam a empreender aventuras no desconhecido da inteligência, embora pressentidas pelo coração.
Os pastores têm pressa de chegar. Impele-os um misto de curiosidade e de ansiedade, de expectativa, de fé e de amor. Querem ver com os seus olhos o sinal do que lhes foi anunciado. E alicerçar a confiança germinal suscitada pela surpreendente novidade. Querem ver o Salvador, recém-nascido, e deliciar-se na sua presença ao contemplar a fragilidade do seu der e a sobriedade de tudo o que o rodeia. Querem sentir-se no seu ambiente e deixar-se embeber pelo “ar” que se respira, pela serenidade que irradia, pela proximidade que se estreita.
Este desejo marca o candidato à vida cristã no seu percurso de iniciação, feito sempre em conjunto. É ele que alimenta a caminhada, a aprendizagem da mensagem, a conversão do estilo de vida, a celebração dos ritos de pertença, a observância das regras da comunidade eclesial. É ele que desabrocha na aliança baptismal em que Jesus, por meio da Igreja, o acolhe e confirma na sua condição de filho de Deus e de discípulo missionário.
Os pastores confirmam a veracidade do que lhes havia sido anunciado. E, não podendo conter-se mais, “desatam” a contar tudo o que lhes havia acontecido, com particular realce o que dizia respeito ao Menino. E fazem-no com tal entusiasmo que provocam a admiração de quantos os ouviam. Inclusivamente Maria, a jovem Mãe, que guardava no seu coração as palavras escutadas. Os pastores assumem a função de anunciadores da boa nova, da feliz notícia. São os primeiros “evangelizadores” do recém-nascido, nosso Salvador, os mensageiros da Palavra, os “catequistas” da vida transformada pela novidade surpreendente, as testemunhas da intervenção amorosa de Deus que olha para os humildes e os pobres e os faz protagonistas do seu projecto de salvação.
Os pastores apresentam-se tais quais são, apenas revestidos da sua austeridade sóbria e da sua espontaneidade confiante. Belo exemplo para o nosso tempo, sobretudo em festas de abundância consumista. O Papa Francisco, falando aos seus colaboradores naa cúria romana afirma que “a sobriedade é «a capacidade de renunciar ao supérfluo e resistir â lógica consumista dominante»; é «contemplar o mundo com os olhos de Deus e com o olhar dos pobres e do lado dos pobres»; quem é sóbrio «é uma pessoa coerente e essencial em tudo, porque sabe reduzir, recuperar, reciclar, reparar e viver com o sentido de medida». Feliz Natal com os sentimentos dos pastores que espelham tão exemplarmente os da Igreja que quer ser fiel ao Deus Menino e à mensagem que o seu nascimento nos faz chegar.

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