A mulher mais poderosa

Crónica de Anselmo Borges 


Reflexões por ocasião do feriado 
do próximo dia 8, Festa da Padroeira

1 Em vésperas de se iniciar um doutoramento em Estudos Feministas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, numa entrevista um jovem jornalista perguntou-me: "Qual é, no seu entender, a mulher mais poderosa de Portugal?" E eu, espontaneamente: "Estou convencido de que a mulher mais poderosa em Portugal é Nossa Senhora." E lembrei-me concretamente de Fátima.
O que se passa é que quando falamos em poder vem-nos à mente o poder político, económico, militar... Mas há outros tipos de poder e influência. Pergunto: o que seria a Igreja em Portugal sem Fátima? E a influência de Fátima na política, sobretudo pela via da reconciliação, da pacificação de si mesma consigo e com os outros? Quem não se lembra da tristeza e angústia de tantos, por exemplo, durante a Guerra Colonial? E era em Fátima que as mães iam desabafar. Como é lá que os portugueses vão desabafar nestes tempos medonhos de crise. Pertence a Frei Bento Domingues a definição inultrapassável de Fátima: "É o cais de todas as lágrimas dos portugueses."
Claro que é preciso evangelizar Fátima. Estou convencido de que se deve, por exemplo, apresentar contas. E o Deus de Jesus não precisa nem quer que as pessoas se arrastem de joelhos. Mas na sua dor e aflições as pessoas vão aonde julgam poder encontrar socorro. Quem se atreveria a ridicularizar? Quem não se comove? Perante o sofrimento, é preciso curvar-se com respeito e fazer algo.

2 Agora, é a famosa revista National Geographic, com 6,5 milhões de assinantes e que se não pode considerar propriamente "gentil" com a Igreja Católica, que vem enaltecer Nossa Senhora. A capa da sua edição americana de Dezembro traz uma bela imagem de Maria e titula precisamente: "Mary, the most powerful woman in the world" ("Maria, a mulher mais poderosa do mundo"). Para justificar a afirmação, há um longo artigo da escritora e jornalista Maureen Orth. Ela percorreu grandes santuários de peregrinação, em várias partes do mundo: Lourdes ("seis milhões de visitantes a cada ano"); Medjugorje, na Bósnia e Herzegovina, 30 milhões de peregrinos durante as últimas três décadas; Fátima; Kibeho, no Ruanda; Czestochowa, na Polónia; Nossa Senhora de Guadalupe, que faz parte da identidade do México; Knock, na Irlanda; Aparecida, no Brasil.Estes santuários atraem milhões de peregrinos a cada ano, apoiando "o turismo religioso, estimado em milhares de milhões de dólares". Maria inspirou a criação de grandes obras de arte na escultura e arquitectura (a Pietà, de Miguel Ângelo, Notre-Dame de Paris), na pintura, na poesia, na música. Só a biblioteca da Universidade de Dayton tem mais de cem mil volumes sobre Maria. "Ela é a confidente espiritual de milhares de milhões de pessoas, independentemente de estarem isoladas ou esquecidas."
Maureen Orth ficou impressionada com a devoção a Maria, mãe de Jesus, por parte dos muçulmanos. É a única mulher que dá o seu nome a uma sura (capítulo) do Alcorão: sura 19. Foi escolhida por Deus "acima de todas as outras mulheres do mundo". "Maria é a mais pura de todas as mulheres do universo", diz Bakr Zaki Awad, decano da Faculdade de Teologia na Universidade Al-Azhar, no Cairo. Maureen Orth falou com muçulmanos que, por causa da sua reverência com a Virgem Maria, não têm "qualquer pejo em visitar igrejas cristãs e rezar-lhe tanto na igreja como na mesquita".
Conclui. "A invocação da intercessão de Maria e a devoção por ela são um fenómeno global. A ideia de Maria como intercessora começa com o milagre do vinho nas bodas de Caná. Foi em 431, no terceiro Concílio Ecuménico, em Éfeso, que foi chamada Theotokos, Mãe de Deus. Desde então nenhuma outra mulher foi tão enaltecida como Maria. Como um símbolo universal de amor maternal, bem como de sofrimento e sacrifício, Maria é muitas vezes a pedra-de-toque da nossa ânsia de sentido, uma ligação mais acessível ao sobrenatural do que as doutrinas formais da Igreja. O seu manto oferece ao mesmo tempo segurança e protecção." Quando perguntaram ao Papa Francisco, que não é beato nem cobarde, o que significava Maria para ele, respondeu: "Ela é a minha mamã"."

3 A quem estiver habituado a associar a devoção a Nossa Senhora só à beatice, lembro o hino revolucionário que o Evangelho de São Lucas colocou na sua boca, o Magnificat: "A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome. A sua misericórdia estende-se de geração em geração. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias."

Padre e professor de Filosofia

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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