Crianças, símbolo de um mundo novo

Reflexão de Georgino Rocha



«É preciso fazer falar o silêncio das vítimas, 
repor a dignidade dos descartáveis e sobrantes, 
facilitar a inclusão de quem é portador 
de novos valores que humanizam a sociedade»


“Je suis Abou” afirma a criança refugiada que, ao ser descoberta no porta bagagens de um camião, sai espontaneamente como se estivesse em terra conhecida e se apresenta aos guardas que faziam o controle da vigilância. A sua fotografia correu mundo e a sua mensagem ainda repercute em muitos corações feridos pelo drama torturante vivido por muitas centenas de milhares de famílias e seus filhos. “Eu sou o Abou” dou o meu nome a tantos outros meninos e meninas que se vêm forçados a correr os maiores riscos para salvar a vida. Espero a vossa ajuda para poder ser feliz e dar-vos o que todas as crianças têm: alegria, ternura e confiança. E podia seguir-se Cuma conferência de imprensa promovida por Jesus de Nazaré com o Abou ao colo aberta a todos os meios de comunicação. O impacto seria enorme. Algo parecido acontece no Evangelho. Mc 9, 30-37.

A versão deste episódio, algo composta, visualiza a mensagem central que Jesus apresenta aos discípulos nos caminhos da Galileia. Face ao que dizia sobre o seu futuro próximo: ser incompreendido e condenado à morte por crucifixão, ser ressuscitado após três dias de sepultura, eles não percebem nada e sentem medo de o interrogar. É normal. Estavam formatados com a ideia de um messias glorioso, espaventoso, vencedor e libertador de todas as opressões e ignominias.

Chegados a casa, espaço mais propício para a conversa e a confidência, Jesus insiste no que havia dito e acrescenta: “ Quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos”. E visualiza num gesto surpreendente o alcance desta mensagem, chamando e colocando uma criança no meio do grupo, abraçando-a e declarando: Quem acolhe uma criança em meu nome é a mim que acolhe e quem me acolher, acolhe o Pai que me enviou. Mensagem com um sentido preciso e interpelante. Deus revê-se na criança. Jesus faz-se presente na criança. Os discípulos são convidados a reproduzirem as nobres atitudes da criança, a adquirirem uma nova escala de valores, a assumirem um estilo de vida diferente. Como o do Mestre. Grande “balde de água fria” para as cabeças acaloradas pela discussão. E não era para menos! Maravilhosa lição para os pais e educadores. Apelo enternecedor às comunidades cristãs para esta realidade inaudita: a relação da criança nas suas múltiplas facetas.

Que contraste com a mentalidade europeia predominante a respeito das crianças, garantia do nosso futuro: da recusa de nascimentos ao tráfego de bebés e seus órgãos abortados, à escravidão e à violência… ao menino/a único/a, príncipe ditador em crescimento, centro de cuidados e requintes que os/as não deixam ser simplesmente crianças e expandir todas as suas energias. “À ave que inicia os treinos para voar e dá umas quedas não se corta as asas, mas orienta-se o vôo”.

Aquele gesto pretende manifestar o valor da criança, dos pequeninos, dos excluídos, dos insignificantes, dos que facilmente se podem reduzir ao silêncio ou mesmo a nada. É a partir destes que Jesus dá início ao projecto de salvação de toda a humanidade e quer levar por diante. Custe o que custar. Mesmo o martírio do Calvário. É preciso fazer falar o silêncio das vítimas, repor a dignidade dos descartáveis e sobrantes, facilitar a inclusão de quem é portador de novos valores que humanizam a sociedade, abrir à relação amiga e solidária os vizinhos, os colegas de profissão e as gerações, cuidar da criação, nossa casa comum, nosso habitat natural ameaçado de morte. Que bom podermos ser os primeiros em tão nobre empreendimento!

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