Comunidade aberta e tolerante

Reflexão de Georgino Rocha

«Há quem faça o bem 
e não pertença 
à comunidade eclesial»


A formação dos discípulos é, nesta fase da missão de Jesus, a sua grande preocupação. Acompanha sempre o ensinamento que lhes faz com as acções que pratica: assumir a cruz da vida e segui-lo sem condições – diz a Pedro, acolher a sua proposta de serviço humilde e confiante – responde aos aspirantes ao primeiro lugar, destacando a criança como figura exemplar, adoptar atitudes de compreensão e grandeza de ânimo face ao inesperado e diferente – declara a João ciumento e indignado com o que estava a observar. Pois, conclui, “quem não é contra nós é a nosso favor”. Mc 9, 38-43.

Esta afirmação de Jesus faz parte da resposta dada àquele discípulo, porta-voz do grupo apostólico – que se havia queixado de alguém andar a expulsar os demónios sem licença nem qualquer vínculo de pertença; queixa amargada pelo falhanço de uma tentativa levada a efeito por eles. O Mestre, bom pedagogo e profundo conhecedor do coração humano aproveita a oportunidade e pronuncia uma série de sentenças que Marcos – o autor do relato – compendia e a Igreja nos apresenta.

De facto, há quem faça o bem e não pertença à comunidade eclesial. Os demónios, hoje, terão outros nomes, mas grassam por aí mais do que parece: poluidores do ambiente, semeadores da corrupção, manipuladores dos factos e informação enviesada, provocadores do êxodo de refugiados e da falência de empresas, comerciantes de crianças e mulheres e de órgãos humanos. Contra estas forças do mal, lutam com valentia heroica milhares e milhares de pessoas de boa vontade, educadores sociais, cuidadosos pais e mães de família, voluntários sem número, bombeiros e tantos outros soldados da dignidade humana e da solidariedade intergeracional.

A consciência humana desperta progressivamente para a urgência destas lutas, faz erguer a sua voz nas instâncias mais influentes – escrevo no dia em que o Papa Francisco fala ao Congresso Norte-americano - e dá origem a prestigiadas associações humanitárias. Como pode a comunidade dos discípulos de Jesus deixar de reconhecer este bem imenso, sinal da humanidade que em todos habita e quer desabrochar. Ó Vaticano II, dando voz ao Evangelho para os nossos dias, destaca esta atitude do mundo de hoje e propõe um caminho de diálogo franco e de mútuo enriquecimento.

O bem realizado está profundamente relacionado com Jesus e o seu projecto de humanização cristã. “Quem não é contra nós é a nosso favor”. Esta sentença não é apenas reconhecimento do que se faz, mas guia de orientação para a cooperação sem preconceitos. Diferentes agentes estão a actuar, mas todos a servir a pessoa humana e não a serem “correias de transmissão” de ideologias estranhas que sacrificam ao presente o futuro que é de todos ou rebaixam e reduzem as aspirações de infinito do coração ao momento fugidio e à intensidade do prazer consumista. A pessoa humana centrada na biodiversidade e relacionada com toda a criação. Como deixar de vibrar com este sonho de Jesus transformado em projecto histórico em realização! Vibrar e envolver-se corajosamente.

A narração de Marcos destaca outras características da comunidade cristã: além da tolerância e do respeito pelo que é diferente, do relacionamento solidário com a sociedade de que faz parte, do diálogo que humaniza e procura caminhos de resolução para as tensões e os problemas, vem a coerência de vida, o cuidado dos pequeninos sobretudo na fé, a confiança no futuro carregado de novidade, a certeza da presença actuante de Jesus que assume como feito a si o que for feito aos outros, especialmente aos insignificantes sem cotação social ou religiosa. De facto, a comunidade é um grande sinal do que Deus quer fazer com todas as pessoas – uma família feliz que tem por missão irradiar o amor.

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