Buddha Éden

Crónica de Maria Donzília Almeida


«A paz vem de dentro de você mesmo. 
Não a procure à sua volta»

Buda



Se o trabalho dá saúde, o seu oposto, o lazer faz a sua manutenção. Assim, é preciso intercalar a atividade profissional com pausas, para que o desempenho seja profícuo. No final de um exaustivo ano letivo, sabe bem mudar de ares e respirar a mística de um ambiente oriental.
O jardim oriental Buddha Éden, integrado na Quinta dos Loridos, foi a meta curricular, almejada por um grupo de agentes educativos do AEGE.
Aí fica um bonito solar, situado na freguesia do Carvalhal, concelho do Bombarral. Outrora, estas terras foram pertença do Mosteiro de Alcobaça, que as doou a João Annes Lourido, em 1430. No século XVI a família Sanches de Baena reconstruiu este solar que é hoje um belo exemplo da nobre arquitetura rural do século XVIII, ostentando o brasão da família Sanches de Baena. Foi convertido numa unidade hoteleira de luxo e também numa afamada produtora de vinhos, nomeadamente de espumantes.
O Jardim Oriental Buddha Éden, com uma área de 35 hectares, lago artificial e plano para 6 mil toneladas de estátuas que encanta e inspira, é um espaço de serenidade e paz de espírito. 
Recriando um ambiente feérico, quando entrei no jardim senti-me transportada para um lugar longínquo, bem no extremo oriente, já visitado, a Tailândia. 
O Buddha Éden, Garden of Peace, um lugar exótico, paradisíaco, relaxante, apaziguador da alma, uma verdadeira obra de arte, foi idealizado e concebido pelo Comendador Joe Bérard, em resposta à destruição dos Budas Gigantes de Bamyan. Esculpidos na rocha daquele vale, no centro do Afeganistão, do período tardio da arte de Gandhara (entre o ano de 544 e 644), foram destruídos num dos maiores atos de barbárie cultural. Este ato perpetrado em 2001 pelo governo talibã chocou o mundo, ao serem apagadas da memória obras-primas que durante séculos foram monumentos únicos do património cultural da humanidade bem como referências culturais e espirituais. Sensibilizado por esta destruição, o comendador Bérard concebeu mais um dos seus sonhos: a construção, em solo português, de um extenso jardim oriental. Com mais de seis toneladas de mármore, granito e outras pedras esculpidas, o jardim é um local onde se mistura a curiosidade pela arte e a necessidade de relaxar. Um relvado extenso, debruado por renques enormes de agapantos lilases, brancos e outras espécies vegetais convida à reflexão e ao relaxamento.
Assistimos a uma aula de yoga dada a um grupo excursionista que interiorizou, usufruindo a espiritualidade do lugar. Nos lagos, nadam carpas chinesas e vão emergindo figuras da arte oriental, como budas, dragões que se erguem das águas, pagodes, 700 guerreiros de terracota, pintados à mão e uma escadaria central onde os budas dourados dão serenamente as boas-vindas aos visitantes.
Até um patinho bebé foi alvo da atenção de um jovem casal que lhe ia dando bocadinhos de pão enquanto se procedia, em simultâneo, à filmagem da cena.
A filosofia subjacente à criação deste espaço tem o intuito de proporcionar um lugar de reconciliação, de portas abertas a todas as pessoas, independentemente da sua religião, etnia e condição cultural e social; um espaço que convida à união, comunicação e meditação como forma de redescobrir a felicidade. 
Houve ainda uma breve passagem por Peniche, onde está patente na pedra o período negro da tortura fascista aos dissidentes do regime.
A fortaleza de Peniche ainda hoje é uma imponente estrutura militar onde se encontra um museu, desde 1984, que ilustra a história de Peniche, com peças de arqueologia e de artesanato local, (a renda de bilros no seu esplendor) e que evoca a resistência antifascista, recordando que aquele forte serviu de prisão política durante o regime do Estado Novo.
Para terminarmos, em beleza, a nossa digressão pelo oeste, passámos de raspão pela vila medieval de Óbidos para saborearmos a sua ginjinha e comermos o copo. Que glutões!



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