RETIRO II


«Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.»

Canto  IX dos Lusíadas


1. A literatura de fim de semana está cheia de propostas para dias bem passados. Porque descontrair é preciso, que a azáfama da vida é por demais cansativa e stressante. Os jornalistas especializados da área do lazer e cultura, que os temos de muito nível, brindam os seus leitores com propostas aliciantes que nos arrebatam. 
Leio com gosto o que escrevem e aprecio as ilustrações que acompanham os textos, embora saiba que muito do que apregoam não se adequa à minha bolsa, nem à do comum cidadão. Contudo, consola-me conhecer o que vai pelo mundo de belo e original. Ouvindo Camões, no canto IX, dou-me por satisfeito:
"Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo."


2. O sonho da grande maioria dos humanos é conhecer mundo: terras, gentes, costumes, tradições, ares puros, paisagens de sonhos, belezas naturais, culturas diversas e outras formas de ver e de pensar. E disso dão conta falando, escrevendo, fotografando e filmando. Sobretudo agora. Na belíssima e enriquecedora era digital, que nos ajuda a reviver cenas vividas e acontecimentos participados, gozamos momentos inesquecíveis. Tantas viagens que fiz e das quais só possuo registos de memória. As fotografias de papel foram levadas pelo tempo, os diapositivos esvaíram-se como fumo e os álbuns para ali estão como mortos. 
A era digital garante-nos diversos suportes e permitem-nos a riqueza da partilha nas redes sociais. Um bem inestimável, nem sempre utilizado com lisura. Mas há imenso de positivo, tanto que nos faz esquecer o mau que teima em incomodar-nos de vez em quando.

3. A revista Fugas do PÚBLICO, que acompanha o jornal aos sábados, brindou-nos esta semana com visitas que são, para mim, motivos de sonho: Nova Iorque, uma cidade que não se deixa apanhar; uma viagem a França e ao seu Futuroscope, um parque de diversões onde tudo pode acontecer; um passeio entre a charneca e a lezíria, para uma descoberta de cores e sabores; e uma estada no Convento do Espinheiro, a dois passos de Évora, que marca a história de Portugal há meio milénio. Há ainda gastronomia de autor, Confraria da Cerveja, Vinhos que contam histórias, etc. 
Com esta revista, que li de ponta a ponta, viajei muito, imaginei-me a degustar uns pratos sofisticados, provei alguns vinhos, olhei para carros que me não seduziram pela simples razão de que não tenciono comprar outro tão cedo.
Programei a máquina para me fotografar, acariciei o cão e a cadela quando me visitavam. Vi passarada que saltava de árvore em árvore e nuvens em viagem para as serras. 

4. O almoço foi servido no alpendre. A mesa foi posta por mim e pelo meu filho Pedro. Na cozinha esteve a minha Lita. Um prato pesado para as nossas idades, que não para o meu Pedro. Bacalhau (a sério) com todos. Sobremesa? Uma variada salada de frutas. Vinho saboroso e café cremoso. Sesta a condizer e o regresso ao meu retiro. 

5. Um dia assim não pode prescindir de momentos de reflexão e oração. Sou católico e não posso deixar de lado o que nos anima a sentir a beleza da natureza com todas as suas diversidades e harmonias, como marcas divinas. O dia abriu com o momento principal da meditação. Deus faz-me falta. Depois, sempre com este espírito, confirmei a urgência de evitarmos guerras e quezílias e de promoveremos o entendimento, mesmo na luta pelos nossos ideais políticos e sociais. A indiferença não conduz a lado nenhum. 
Boa semana para todos.

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