"Não ao machismo", diz Francisco

Crónica de Anselmo Borges 


"Pensemos nos excessos negativos da cultura patriarcal 
e nas múltiplas formas de machismo, 
onde a mulher é considerada de segunda classe."

Papa  Francisco


Anselmo Borges


1 Discute-se sobre as razões do facto, mas o facto é que em quase toda a parte as mulheres foram inferiorizadas ao longo da história. Os homens ficaram hierarquicamente com o primeiro lugar.
As razões são muitas. Os homens dominaram por causa da força física, o que não significa que as mulheres não sejam mais resistentes. Por causa da maternidade e dos cuidados com as crianças, as mulheres ficaram mais dependentes. A menstruação e a impureza ritual acabaram por marginalizá-las. Paradoxalmente, a marginalização provinha também de algum ciúme da parte dos homens: afinal, da vida percebem elas, que a vivem no seu interior; como compensação, os homens foram para a exterioridade da guerra e dos grandes "feitos", de que fala a história, ignorando as mulheres. Até há línguas que subordinam as mulheres; no caso da língua portuguesa, o seu funcionamento sexista é claro: para acederem à sua identidade humana, as mulheres fazem-no pelo uso do genérico "homem"; a mulher é ser humano pela mediação do masculino. A socialização religiosa, com todas as suas consequências, faz-se no masculino: uma menina é baptizada em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e será confrontada com uma hierarquia masculina: o padre, o bispo, o cardeal, o papa. Também o desconhecimento científico contribuiu: a descoberta do óvulo feminino deu-se apenas em 1827, o que significou que a mulher era considerada passiva na geração, levando, por exemplo, São Tomás de Aquino a afirmar que a mulher não pode ter poder na Igreja nem pregar. Uma das razões da misogenia é, segundo F. Lenoir, o prazer feminino, "essa grande intriga para o homem": o homem tem "ciúme do gozo feminino, pois é infinito, enquanto que o do homem é finito. Há uma espécie de abismo do gozo sexual da mulher que mete medo ao homem e o contraria".

2 No século passado, deu-se uma revolução em ordem à emancipação e igualdade da mulher. Para isso, foram decisivas as duas guerras mundiais, pois fizeram que as mulheres ocupassem lugares profissionais até então reservados aos homens, que partiam para a guerra e, lentamente, conduziram ao acesso a todos os níveis de estudos e à autonomia económica. Igualmente importante foi a autonomia sexual proporcionada pelo que normalmente se chama "a pílula", um meio mais eficaz para a separação entre actividade sexual e gravidez. A emancipação feminina constituiu, no meu entender, uma das maiores transformações sociais dos finais do século passado, cujos efeitos nos vários domínios - compreensão da sexualidade, família, trabalho... - estão ainda em curso.

3 Foi neste contexto que começaram as justas reivindicações das mulheres também no domínio religioso, contra o modelo patriarcal discriminatório. A Igreja católica, contra a vontade de Jesus, não constituiu excepção e é actualmente uma das últimas grandes instituições machistas do Ocidente. Com o Papa Francisco, abrem-se algumas portas. Acaba de denunciar o machismo: "Pensemos nos excessos negativos da cultura patriarcal e nas múltiplas formas de machismo, onde a mulher é considerada de segunda classe." E: "Temos de fazer muito mais para que a voz da mulher tenha um peso real na sociedade e na Igreja." Tem-se desdobrado em discursos e actos a favor das mulheres, denunciando "a sua condição subalterna na Igreja". Com escândalo de muitos, lavou os pés a duas mulheres numa prisão, colocou uma mulher na presidência da Academia Pontifícia de Ciência Sociais, nomeou cinco para a Comissão Teológica Internacional, quer que se reflicta "sobre o possível papel da mulher nos lugares onde se tomam as decisões importantes", o que permite pensar na nomeação de mulheres para a presidência de alguns ministérios na Cúria Romana. Acaba de denunciar o "escândalo" de as mulheres ganharem menos: "Para trabalho igual salário igual."
Falta a abertura ao sacerdócio ordenado, a que nem a Bíblia nem o dogma se opõem. Karl Rahner, talvez o maior teólogo católico do século XX, escreveu: "A prática da Igreja católica de não ordenar mulheres para o sacerdócio não tem nenhum conteúdo teológico obrigatório. A prática actual não é um dogma." Foi seguido pelo cardeal Karl Lehmann, durante muito tempo presidente da Conferência Episcopal Alemã, e pelo cardeal José Policarpo, entre outros. O cardeal Carlo Martini visitou em 1990 o então arcebispo de Cantuária, George Carey, dizendo-lhe que a sua abertura ao sacerdócio feminino poderia ajudar os católicos a serem "mais justos com as mulheres"; por esse motivo e outros, "os homens da Igreja têm DE pedir perdão às mulheres". Uma questão de direitos humanos.

P. S.: No passado dia 19, Ana Vicente, uma católica assumida, partiu para a plenitude da vida em Deus. Foi um exemplo do combate consequente pelos direitos e igualdade das mulheres.

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