Divagando…

Crónica de Maria Donzília Almeida



— Gute Reise! (Boa viagem)

A frase saltou espontaneamente, na mesma língua em que a Frau Merkl intimida os seus parentes europeus.
Não foi em tom de intimidação que a expressão foi proferida, mas sim como aplauso àquele casal de ciclistas que passava na rua, em frente ao bosque. Chamou a minha atenção, quando me erguia um pouco para contemplar o céu azul, diáfano, nas minhas tarefas de jardinagem. Na verdade, despertou-me simpatia a visualização daqueles ciclistas, já de idade madura, artilhados a preceito, com capacete próprio e cujo aspeto fazia antever que eram estrangeiros. Não se fez esperar um Danke schön (obrigado), na mesma língua, pelo que supus ter acertado na nacionalidade dos turistas.
Uns metros à frente, pararam e dirigiram-se a mim com um mapa na mão, na procura de uma informação.
Apesar de hoje não ser difícil encontrar estrangeiros, nomeadamente do centro da Europa, por estas paragens, o espaço Shengen contribui como facilitador, é sempre agradável e reconfortante deparar-se com alguém que fale a nossa língua.

Ali mesmo, na rua, foi entabulada uma conversa amena, em que a língua alemã foi o veículo de comunicação. Constatei que, de facto, não eram Alemães, mas sim Suíços do cantão alemão.
Que agradável para mim poder praticar uma língua que aprendi na juventude e que me deu algumas dores de cabeça para lhe desvendar os meandros e conseguir ler, satisfatoriamente, o Fausto de Goëthe. Disse mal da minha vida, quando naquelas longas sessões de Literatura Alemã nos púnhamos a dissecar a obra do poeta. “Am Anfang war die Tat…” (No princípio era a ação).
Hoje, a uns largos anos de distância, reconheço-lhe os méritos e a abertura de horizontes que me proporcionou.
Numa pausa da jardinagem, as palavras fluíam como as cerejas e foram vários os temas abordados, em que não pôde faltar a situação de ambos os países de que somos originários: Suíça e Portugal. O primeiro como paraíso fiscal cobiçado por tanta gente e um grande aliado de muitos dos nossos compatriotas. Portugal como parceiro pobre da União Europeia e que manda um tão grande contingente de emigrantes para o estrangeiro. 
— Mas também tem acolhido multidões de estrangeiros do leste europeu que demandam aqui o pão para as suas famílias. —  Atalhei em tom de consolação.
Já que estava perante habitantes dum país tão reputado, não podia esquecer a referência aos famosos chocolates suíços que, de tempos a tempos, cá chegam por mão amiga.
A conversação ia fluindo, às vezes com alguma dificuldade no vocabulário específico que se esquece, mas a língua inglesa, parente do alemão, surgia de imediato a preencher as lacunas. Os suíços são poliglotas, logo à nascença, já que no seu pequeno país se falam três línguas: Francês, Italiano e Alemão. O casal falava fluentemente o Inglês, que certamente aprendeu como língua estrangeira.
A vantagem de se falar mais que uma língua, está precisamente nisto: quando falta o termo numa língua, há as outras de que podemos socorrermos. Não precisei de recorrer ao Francês, que ainda está bem vivo, arrumadinho no computador da memória. 
Falámos também nas vantagens do exercício físico que praticamos, eles pedalando, eu jardinando.
Iam de bicicleta até Mira, uma estirada enorme, onde iriam desfrutar de um delicioso almoço, degustando as nossas especialidades gastronómicas.
— É melhor jardinar do que ir ao médico! Foi esta a sentença daquele que ocupara a sua vida ativa a tentar minorar/tratar as maleitas duma sociedade condenada ao sedentarismo.


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