Segunda-Feira da Páscoa

Apontamentos do meu diário




1. Hoje é segunda-feira da Páscoa. Dia de trabalho, muito embora no Concelho de Ílhavo seja feriado municipal. De qualquer forma, está enraizado em muitos a ideia de que esta segunda-feira, afinal, é especial, ao jeito de quem precisa de vencer a ressaca dos abusos que a mesa pascal exige. Vivemos estes dias, carregados de simbologia ligada à paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, de forma muito intensa. Cerimónias para cada momento em todas as famílias católicas, mas ainda na diocese e paróquias. Depois, as tradições, há séculos como agora, vão-se mantendo, readaptadas às circunstâncias e modas, mas também manipuladas pelas indústrias e comércios. E nós, que no fundo gostamos de festas, vamos na onda, sem vir daí grande mal ao mundo.
Realmente, a vida não pode ser só trabalho, tristeza, sofrimento e canseira. A vida precisa cada vez mais de muita alegria, porque o ser humano não pode confundir-se com uma qualquer máquina, porque dela se distingue pelos sentimentos, pela inteligência, pela ternura, pela beleza do sorriso, pela capacidade de amar, pela opções de patilha e de fraternidade, pelas artes que cultiva. Daí a necessidade da festa para a confraternização, para a celebração dos grandes dias da existência pessoal, familiar  e das comunidades.



2. Na segunda-feira da Páscoa, há décadas, ainda prosseguia a visita pascal na Gafanha da Nazaré, porque o prior e sua equipa não podiam fazer tudo no domingo. Ficaria concluída no domingo de pascoela. Daí dizer-se, entre o povo, que até à pascoela é sempre Páscoa. E a verdade desta asserção assentava na certeza de que haveria muito que comer do que sobrava no dia de Páscoa. É que tudo se aproveitava, que não havia assim tanta fartura no resto do ano.
Outra forma de continuar a festa estava na Feira de Março. Nas Gafanhas e arredores de Aveiro. A Feira de Março que, na minha infância e juventude, se realizava no Rossio. E não me recordo de nessas épocas haver artistas da rádio como chamariz. O povo fazia a festa, de barraca em barraca, comprando bugigangas, brinquedos para a criançada, alfaias agrícolas e utensílios de cozinha, roupas e alguns petiscos. Penso que já havia farturas. Garantido é que havia carrosséis, circo, poço da morte, artistas de rua e similares.

3. Na Feira de Março havia uma barraca que vendia livros, de vários tipos, predominantemente edições de bolso, que eram os da minha preferência, porque mais baratos. Na minha memória está fixa a imagem da livraria Civilização. Eu era assíduo visitante e comprador.
Uns meses antes, começava a guardar uns tostões do pouco dinheiro que minha mãe me dava. Eram tempos de vida sem grandes dinheiros. Mas também é verdade que ela me reforçava a bolsa na altura da feira. A minha mãe sabia que eu gostava de ler e aprovava a maneira como eu gastava magros escudos. Quando em casa lhe mostrava os livros, ela não deixava de me recomendar que depois eu teria de lhe contar as histórias, tarefa que eu gostava de levar à prática. 
Estava de tal modo ligado à Civilização da minha infância que um dia, estudante no Porto, fiz questão de ir visitar aquela casa editora. Penso que o armazém ficava perto do Hospital de Santo António (acho que não estou enganado). Foi lá que vi estantes e mais estantes repletas de encadernações vermelhas. Comprei alguns livros que, felizmente, ainda guardo. Mas ainda verifiquei que havia por ali livros, muitos livros, sem grande interesse, na minha ótica. Então perguntei ao funcionário se valia a pena tais encadernações para tais livros. O funcionário olhou-me e disse:
— Esses livros são vendidos a metro a algum novo-rico que precise de encher prateleiras de estantes, para enfeitar a sala. 
Com o tempo, muitas obras das que adquiri na Feira de Março ficaram danificadas, porque a casa dos meus pais era muito húmida. E numa altura de arrumação de livros, alguns acabaram no lixo. Há um ou outro que de vez em quando me cai nas mãos. E a partir daí, dou um salto de boas décadas, como hoje aconteceu.

Fernando Martins

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