Na cidade…

Crónica de Maria Donzília Almeida




Foi na procura de uma mesa para colocar o tabuleiro, que entabulámos conversa com aquele jovem. Estávamos na zona da restauração de um centro comercial da nossa cidade de Aveiro e todas as mesas estavam ocupadas por casais, grupos, etc. Só aquela, mesmo defronte ao balcão de atendimento tinha apenas aquele jovem, que estava agarrado ao seu telemóvel.
Mais um a engrossar a multidão daqueles para quem o dispositivo de comunicação é um bem de primeiríssima necessidade e sem o qual a sua vida perde o significado. Foram estes os pensamentos preconcebidos, numa primeira abordagem visual da situação.

Os centros comerciais, catedrais do consumismo exacerbado, são uma atração e um chamariz para quem passa a semana num ambiente bucólico, a ouvir o chilrear dos passarinhos e a mexer nas plantas do jardim e da horta – uma vida quase de asceta! Mergulhar na civilização, ainda que fugazmente, também faz bem e mantém-nos vivos e a par do que se passa em nosso redor.
Sair da rotina, respirar outros ares, ver o que a sociedade de consumo através das suas campanhas de publicidade e marketing tem para nos oferecer, observar, ali, os últimos avanços da tecnologia, também traz algum conforto a quem consome as energias a lutar pela vida. Se os mais conservadores argumentam que “O dinheiro é a raiz de todos os males”, logo vêm os mais progressistas defender “Quão bela é a sua folhagem”! Uma solução de compromisso entre a contenção e o despesismo desenfreado será o ponto de equilíbrio desejável.
Digamos que uma escapadinha ao fim de semana, com um jantar fora, uma ida ao cinema e o cavaquear com a nossa tertúlia de amigos é retemperador da alma e traz benefícios a curto e longo prazo.
Era neste cenário que nos encontrávamos para degustar um jantarinho, ali à beira daquele jovem que solicitamente nos cedeu lugar na mesa que ocupava. Foi acompanhada de um “Bom apetite” a sua simpática resposta. A sugestão de uma grelhada mista com legumes em profusão, foi a nossa opção de alimentação saudável.
Mantivemos uma conversa amena no decurso da refeição e o meu espanto subiu de nível, quando constatei que estava na presença do dono do referido restaurante.
— Tão novo (ainda não chegara à casa dos trinta) e já com esta responsabilidade? —  indaguei com alguma estupefação.
— Sim, tenho mulher e filho, preciso de ganhar a vida. —  Atalhou com ar decidido.
A partir daí, a conversa fluiu em tom cordial, permitindo um debate de ideias entre duas gerações distintas. 
Ideias firmes, uma personalidade bem estruturada, sentido de responsabilidade, um sentido crítico bem apurado em relação às solicitações da vida atual… enfim, vi-me ressarcida do dispêndio de energias que faço no meu desempenho profissional, para ajudar a formar cidadãos deste jaez.
Afinal este jovem, detentor de um curso superior de Gestão, que já ocupara vários postos de trabalho no mercado laboral, que já sentira na pele as agruras da vida, estava ali a demonstrar que ainda há juventude com valores e que tem a cabeça no lugar.
Confessou, a dado passo da conversa que já sentira o apelo da emigração, apenas refutado pelo sentido de família que privilegia.
Na despedida, aquele restaurante ficou debaixo de olho, pois é sempre de louvar e incentivar o empreendedorismo destes jovens empresários.



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