E SE DEUS FOSSE MÃE?

Crónica de Anselmo Borges 

Anselmo Borges


1- Os crentes sabem que Deus não é masculino nem feminino, pois está para lá da determinação sexual. No entanto, é preciso tentar representá-lo, figurá-lo, dizê-lo, pois aquilo de que nada se pode pensar nem dizer não existe para nós. O que será sempre necessário é ver nessas imagens apenas isso: imagens, que não podem ser reificadas, já que apenas apontam para o Mistério último, para o Sagrado, do qual se espera sentido, sentido último e salvação, sempre indizível, sempre para lá de tudo quanto se possa pensar e dizer.
Essas representações são sempre condicionadas pelo espaço e pelo tempo, pela cultura, pela sociedade, pela história, ao mesmo tempo que condicionam elas próprias a história, a cultura, a sociedade, a visão do mundo. Para dar um exemplo: se, no quadro da cultura ambiente cristã, em vez de se rezar o pai-nosso se rezasse a "Mãe Nossa": "Mãe Nossa, que estais no Céu, santificado seja o vosso Nome...", que influência teria essa formulação da oração característica dos cristãos na sua visão do mundo humano e do próprio cosmos, na sua vivência das relações entre homens e mulheres, na economia, na educação, no exercício do poder?

2- Precisamente sobre esta problemática e a partir do meu último livro - Deus ainda Tem Futuro? - organizei, recentemente, em Lisboa, um debate subordinado ao título em epígrafe - E se Deus fosse Mãe? - com a presença da escritora Lídia Jorge e da deputada Maria de Belém - Guilherme d"Oliveira Martins presidiu.
Tanto Lídia Jorge como Maria de Belém estiveram de acordo. É preciso descobrir os lados maternos de Deus, descobrir Deus como ser fusional do masculino e do feminino: são dois géneros nos quais, mais do que "diferenças", há "percentagens" de sensibilidades. Infelizmente, não há palavra para dizer Deus como masculino e feminino ao mesmo tempo - Ele também não é neutro, pois não é uma coisa, um isso -, a gramática é imperfeita. Sim, Deus é ultragénero, mas precisa de uma representação ao mesmo tempo masculina e feminina. Na figuração humana de Deus, precisamos das duas vertentes, masculina e feminina, que se completam e acrescentam, pois o todo é mais do que a soma das partes. Esse é o Deus da Bíblia, onde aparecem traços femininos, como a Sabedoria de Deus, que é feminina. A teóloga feminista, Isabel Gómez-Acebo, chamou a atenção para estes traços: um grande útero, no qual, na imagem da romã com muitos grãos, estávamos já todos desde sempre; um grande ventre aconchegador; Deus como imanência, que partilha a nossa dor, alimenta como a mãe no aleitamento e nos acolhe na morte. Que Deus seja então o grande Pai e a grande Mãe! Deus é um Deus amoroso, Pai e Mãe, que, mesmo que não responda, ouve.

3- Significativamente, a primeira grande representação do Mistério, do Sagrado, foi no feminino: o culto da Grande Deusa ou da Deusa-Mãe, ligada à fecundidade e à fertilidade, que dá a vida - tive o privilégio de contemplar, há anos, em Viena, a famosa Vénus de Willendorf (24 000 a. C.).
Como se passou para o patriarcalismo religioso, que faz que na quase totalidade das religiões a mulher seja de facto oprimida? Tudo se transforma com a sedentarização. Como escreve Frédéric Lenoir, "a evolução da religião segue a das sociedades que se tornam um pouco por toda a parte patriarcais entre o terceiro e o segundo milénio antes da nossa era, quando os povoados crescem e se tornam grandes cidades, reinos e impérios. A partir do momento em que as sociedades se tornam patriarcais, onde o homem domina, onde os sacerdotes são maioritariamente homens, também o Céu se vai masculinizar."
Não há dúvida de que Jesus contribuiu decisivamente para a emancipação feminina. Também São Paulo reconheceu a radical dignidade de homens e mulheres e refere nomes de apóstolas - na Carta aos Romanos, por exemplo, escreve: "Saudai Andrónico e Júnia que tão notáveis são entre os apóstolos." No entanto, a Igreja Católica é hoje a última grande instituição machista no Ocidente. Sem uma rápida conversão, ela, que, sucessivamente, desde o século XVIII, foi perdendo os intelectuais, os operários e os cientistas, os jovens, acabará por perder as mulheres.

4- Como Frédéric Lenoir também estou convencido de que muitos dos "disfuncionamentos" das nossas sociedades estão ligados ao "desequilíbrio" entre o feminino e o masculino na humanidade. Também na Igreja.
Mas, aqui, há quem pergunte: as mulheres no poder não acabam por mimetizar os homens? Pense-se em Thatcher e Merkel. Como lidam as mulheres com o poder? É este que as masculiniza ou a questão é o próprio poder? Lídia Jorge e Maria de Belém responderiam: há maneiras de exercer o poder no feminino, o que se passa é que, uma vez que o não podiam exercer, foram obrigadas a arranjar defesas, precisaram de afirmar-se historicamente.

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