Dois anos com Francisco Papa

Crónica de Anselmo Borges no DN

Papa Francisco apresenta-se ao mundo

Fez ontem dois anos que, ao anoitecer, perante uma multidão expectante na Praça de São Pedro, em Roma, compareceu, humilde e simples, sem a pompa da indumentária papal, com uns sapatos negros já gastos e uma cruz peitoral barata, Jorge Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, que os cardeais tinham escolhido como novo Papa. "Buona sera!" (boa noite), foi a saudação de um homem normal. Que o tinham ido buscar ao fim do mundo para bispo de Roma. E, antes de dar a bênção, ele próprio pediu a bênção ao povo e que rezassem por ele. Agora, chamava-se Francisco. Ainda quiseram começar a tratá-lo por Francisco I, à maneira das dinastias, mas ele que não, era simplesmente Francisco. Lembrando Francisco de Assis, a caminho de uma Igreja pobre e para os pobres, como Jesus queria e fez. Logo no dia seguinte, foi normalmente pagar o seu alojamento daqueles dias em Roma, e acabaram as limusines, e foram de autocarro, ele e os cardeais. E que não queria viver no Palácio Apostólico, precisava de conviver, ficou a habitar na Casa de Santa Marta.

E toda a gente percebeu que uma realidade nova na Igreja estava em marcha. E não enganou. Está aí como um cristão na sua pureza e exemplo vivo. Beija, abraça, está junto de quem mais precisa, gosta das pessoas e manifesta-lhes afeto e elas sentem isso como autêntico e gostam dele também, ri, chora, não tem vergonha da ternura, fala em termos acessíveis do essencial da vida para todos, telefona a este e àquela, a doentes e amigos, lava os pés a mulheres incluindo uma muçulmana, quer abrir a comunhão aos recasados, batiza filhos de mães solteiras e de uniões de facto, quem é ele para julgar os homossexuais, recebe transexuais, apela à paternidade e maternidade responsáveis, confessa-se pecador, que não é infalível, que tem dúvidas, condena veementemente o capitalismo desenfreado e a finança especulativa que matam, vai a Lampedusa chorar a morte no Mediterrâneo, instala no Vaticano balneários para os sem-abrigo e arranja-lhes uma barbearia, viaja para o Rio, para a Jordânia, Israel, a Palestina, a Coreia do Sul, a Albânia, o Parlamento Europeu, a Turquia, o Sri Lanka, as Filipinas, e o que o move é o diálogo, a paz e uma humanidade feliz, pede a opinião dos católicos do mundo inteiro sobre a família e os seus problemas, porque o Sínodo tem de ser participado por todos, contra a globalização da indiferença, a sua verdadeira obsessão são os pobres e excluídos, a Igreja não é uma alfândega, mas um hospital de campanha, as palavras perdão e misericórdia são as mais repetidas.

Francisco é hoje talvez a figura mais popular do mundo e uma das mais influentes. No meio deste nosso mundo ameaçado, perigoso e incerto, Francisco surge como despertador de esperança e confiança. Como escreveu o eurodeputado Paulo Rangel, "tem sido a única voz carismática e a única referência ética a nível global". "Interpela-nos pelo exemplo; toca-nos pelo sentido profético".
E as pessoas souberam, depois de tantas condenações, que a única missão da Igreja é anunciar o Evangelho, notícia boa e felicitante para todos. A única mensagem: Deus é amor, não condena, salva. Assim, a tarefa primeira de Francisco é tentar converter os católicos, começando pelos cardeais, bispos e padres, a esta "alegria do Evangelho". E facilitar a compreensão da fé, no diálogo com a razão. Graças ao novo espírito, a teologia tem respirado liberdade.
Mas, se isto é o núcleo essencial, a sua missão não se esgota aqui. Porque se impõem outras tarefas, que começou a implementar.

Ninguém duvida da situação desgraçada, intolerável, a que a Igreja tinha chegado. E impõe-se a tolerância zero para a pedofilia entre o clero. E impõe-se a transparência dos dinheiros no Vaticano, sem que possa haver sequer a suspeita de lavagem de capitais e evasão fiscal. E impõe-se uma reforma radical, consistente e duradoura, constitucional, da Cúria Romana, Governo central da Igreja. E Francisco tem sido claro por palavras e atos nestes domínios.
Por outro lado, quer se queira quer não, o papado é uma instituição de relevância mundial e Francisco tem sido modelar enquanto voz político-moral global. Aí está a denúncia do sistema económico iníquo imperante, que exclui. Aí estão os exemplos de mediação entre Israel e a Palestina, os Estados Unidos e Cuba, no conflito da Ucrânia. Há vias de abertura da e para a China. São aguardados com expectativa a encíclica sobre a ecologia e o discurso nas Nações Unidas e a reunião dos líderes das religiões mundiais, a favor da compreensão e da paz.

Essencial é a desclericalização, a democratização na Igreja, voltando à Igreja-Povo de Deus, e a presença das mulheres em igualdade de direitos com os homens.
Mas a questão decisiva mesmo é o próprio papado como instituição. De facto, como está, há sempre o perigo, escreve o teólogo José Arregi, de "tudo ficar à mercê do próximo Papa".

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