Reproduzir-se como coelhos?

Crónica de Anselmo Borges 
no DN

Anselmo Borges


Regressava Francisco de uma viagem à Ásia, onde visitou o Sri Lanka e as Filipinas - aqui, teve, na última missa, mais de seis milhões de participantes, um aglomerado de gente nunca visto numa celebração religiosa -, e deu, como é hábito, uma conferência de imprensa no avião. A afirmação que chamou mais a atenção tem que ver com o título em epígrafe, sendo sobre ela que ficam aí algumas reflexões.

1. "Perdoem a expressão, mas há quem pense que, para sermos bons católicos, devemos ser como coelhos. É evidente que não." Esta foi a declaração de Francisco, no contexto da família e da procriação, fazendo apelo à "paternidade responsável": "Eu penso que o número de três filhos por família, segundo o que dizem os técnicos, é o número importante para manter a população. A palavra-chave para responder é a paternidade responsável, e cada pessoa, no diálogo com o seu pastor, busca como levar a cabo essa paternidade." E, naquele seu jeito pastoral, atirou: "Repreendi uma mulher que se encontrava na sua oitava gravidez e tinha feito sete cesarianas: "Quer deixar órfãos os seus filhos? Não se deve tentar a Deus"."

Lembro-me de um dia, na universidade, face à provocação de um estudante, ter dito: "Os católicos, pelo facto de o serem, não são mais inteligentes do que os outros, mas também não são necessariamente menos inteligentes nem mais ignorantes. Os católicos não são obrigados a reproduzir-se como coelhos." Agora, apesar das graçolas a que a expressão pode dar azo, fico contente por o Papa o ter afirmado.

2. Mas Francisco não avançou muito quanto aos métodos contraceptivos. No contexto, fica mesmo a impressão de que reafirma a posição do papa Paulo VI na famosa encíclica "Humanae Vitae", opondo--se aos métodos ditos artificiais de contracepção. Reafirma, como não podia deixar de ser - já aqui expliquei que, na linguagem eclesiástica, não se diz casamento (de casa), mas matrimónio (de matris, mãe) -, que "a abertura à vida é condição para o sacramento do matrimónio". E acrescenta que Paulo VI estudou o que e como fazer para ajudar muitos casos e problemas no que se refere ao amor na família. Na sua recusa da anticoncepção, via "o neomalthusianismo universal" e a busca de "um controlo dos nascimentos por parte das potências". Francisco, ao constatar a queda assustadora da natalidade na Europa, vem dizer que "Paulo VI era um profeta". De qualquer modo, também sublinha que o mesmo Paulo VI "disse aos confessores que fossem compreensivos e misericordiosos".
Pergunta-se: em que ficamos? Ao apelar para a paternidade e a maternidade responsáveis, Francisco é aí que põe o acento, de tal modo que a questão dos métodos de regulação da natalidade, que devem ser eficazes, parece passar para segundo plano, ficando fundamentalmente entregues à responsabilidade dos casais.
Pessoalmente, penso que se deverá ir mais longe. Concretamente, julgo que a Igreja se não deve meter nestes assuntos. Depois, se se meter, terá de reflectir muito bem sobre o que é natural e artificial. O que é a natureza? E a natureza humana? A natureza não é fixa e imóvel. A natureza humana, embora não seja arbitrária, é histórica. Pela sua própria natureza, o homem é interventivo e transformador da natureza. A realidade toda não é estática, mas processual. Acabamos por viver num natural já artificial, numa natureza transformada: intervimos de muitos modos no nosso próprio corpo, com instrumentos médicos e artefactos. Em terceiro lugar, mesmo os chamados métodos anticonceptivos naturais, aparentemente os únicos aceites pela Igreja oficial, não são propriamente naturais. Não foi o homem que os descobriu e os utiliza, pois eles não actuam de modo cego?
Neste sentido, a Igreja precisa de uma nova atitude face à sexualidade, nomeadamente neste domínio. Era isso que pedia outro grande jesuíta, recen- temente falecido, o cardeal Carlo Martini, que confessou que a encíclica "Humanae Vitae", em 1968, com a proibição da "pílula anticonceptiva", "é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra", estando convencido de que "a direcção da Igreja pode mostrar um caminho melhor do que o da encíclica".

3. Feita a exigência da paternidade e maternidade responsáveis, Francisco foi mais longe, pedindo generosidade: "Paternidade responsável, mas também considerar a generosidade desse papá e dessa mamã que vêem no filho ou na filha um tesouro."
É claro que ninguém pode ser obrigado a ter filhos. Mas o que é facto é que o que está a acontecer concretamente na Europa - aqui, Portugal vai à frente - é um tsunami demográfico, que nos levará ao suicídio colectivo. Ter filhos é o maior sinal de confiança e esperança na vida. Afinal, o que falta hoje é essa confiança e esperança na vida e no futuro.

Padre e professor de Filosofia

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