Lourdes Almeida em entrevista ao Timoneiro

Um catequista que não se alimente da Palavra de Deus 
não será certamente um bom catequista

Lourdes Almeida

Lourdes Almeida, professora aposentada do 1.º Ciclo do Ensino Básico, casada com Joaquim Almeida, três filhos e três netos, de Lisboa mas com raízes em Leiria, vive há 17 anos na Gafanha da Nazaré por questões familiares. Trata-se de uma família católica, comprometida na comunidade eclesial, assumindo uma militância ativa.
Lourdes Almeida começou a colaborar na catequese aos 15 anos na paróquia de Benfica e garante que a missão de educadora da fé surgiu no seu espírito por influência de uma catequista que muito a marcou pela forma como catequizava, testemunhando na vida o que transmitia às crianças.
A viver em Algueirão, Sintra, depois de casada, suspendeu por uns tempos aquelas tarefas e quando sua filha Neide ingressou na catequese paroquial, soube que não havia catequista para o grupo. Ofereceu-se então para colaborar, agora com redobrado entusiasmo, por motivos compreensíveis. «Não foi uma novidade, mas uma continuação do que vinha fazendo há anos», com um gosto que nunca mais perdeu. Até hoje. E sua filha Neide seguiu-lhe o exemplo.
Para além do prazer que sente como educadora da fé, Lourdes Almeida reconhece que ser catequista é também uma necessidade que experimenta no dia a dia, como batizada, o que a leva a transmitir aos outros «o amor que sente por Deus». E acrescenta: «Só podemos transmitir as verdades em que acreditamos quando nos sentimos próximos de Deus; não podemos ficar com essa riqueza só para nós.» 
Lourdes Almeida diz que gosta mais de dar catequese aos primeiros anos talvez pela profissão docente que teve ao longo de tantos anos. E sobre a formação dos catequistas, importante para desempenharem com autenticidade a sua missão, frisa que tem de ser permanente. 
Adianta que, para além dessa formação, «é preciso viver, é preciso acreditar», porque, sem essa realidade, «ninguém consegue transmitir a mensagem com verdade». Sublinha a mais-valia que representa a leitura da Bíblia», porque «um catequista que não se alimente da Palavra de Deus não será certamente um bom catequista».



Salienta que os catequistas têm de estar atentos às orientações do Secretariado da Catequese, participando também nas reuniões paroquiais, fonte da sintonia entre todos os grupos catequéticos. E mais: Hoje, todos os catequistas, e não só, devem assumir, como leitura obrigatória, a exortação apostólica do Papa Francisco “A Alegria do Evangelho”. «É tão bonita e tão profunda; e o Papa fala de maneira tão simples; é de facto um homem espetacular», disse. Ainda referiu que teve acesso a uma gravação da mensagem que o Papa dirigiu aos catequistas e que deve ser ouvida e meditada por todos. 
Lourdes Almeida recordou que há formação arciprestal e a outros níveis, referindo que «muitos aceitam a importância da formação contínua, mas quando a oportunidade surge nem todos a aproveitam», decerto por imponderáveis da vida pessoal e familiar. Nessas ações, «aprende-se sempre qualquer coisa, nem que seja o testemunho ou a intervenção de alguém». Contudo, «se não houver uma adesão de coração», tudo será mais complicado. 
Fez questão de abordar, com ênfase, a importância do testemunho levado à prática pelos educadores da fé, na vida e em especial durante o tempo de catequese, pois que «um bom exemplo vale mais que mil palavras». E pormenorizou: «Quando os catequistas vão junto do sacrário com as suas crianças podem aproveitar o momento favorecendo o silêncio, e ensinando-as a conversar com Deus, presente na hóstia consagrada, porque ninguém nasce ensinado.» Afirma que «os catequistas têm de mostrar como se fala com Jesus, exemplificando; tem de ensinar e testemunhar, até porque as crianças não têm em suas casas, muitas vezes, a formação ideal nesta área».
Na oração espontânea, não são precisas grandes expressões e grandes palavras. E explicou com o exemplo de uma criança: «Dirigindo-se a Jesus Sacramentado, pediu pela sua gata que tinha dado à luz uns gatinhos. Era a vida da criança, era uma sua preocupação, era a realidade dela.»
A nossa entrevistada garantiu-nos que há cada vez mais pais que se preocupam com a educação religiosa dos seus filhos. Vêm à missa com eles, conversam com os catequistas e em casa dialogam com os filhos sobre o que aprenderam na catequese. Todavia, muitos só o fazem até à comunhão, depois desinteressam-se, por razões incompreensíveis. «A comunhão solene, para muitos, é uma meta, é o fim, quando devia ser um novo ponto de partida para a plena integração na Igreja», mas esta situação «não é exclusiva da nossa paróquia, é comum à grande maioria das paróquias.» E sobre as causas desta realidade, admite que não estão devidamente estudadas, afirmando que «devíamos intensificar o estímulo junto das famílias e crianças».

Fernando Martins

Nota: Entrevista publicada no Timoneiro de janeiro.

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