O filho pródigo

Um conto de Natal 
de Maria Donzília Almeida



Na cozinha, as mulheres da casa afadigavam-se na preparação da ceia de consoada. O prato típico da quadra iria aparecer com todo o esmero, na mesa que reuniria a família. O bacalhau fora demolhado com a antecedência conveniente, as batatas cresciam em grande alguidar, juntavam-se as cenouras, os ovos e a couve penca de Chaves. Era uma couve tenrinha que o avô cultivava ali,no quintal da casa e que se orgulhava de ostentar, fazendo jus aos seus dotes de hortelão.
Numa mesa redonda, vistosamente coberta por uma toalha colorida, em tons verde e vermelho iam aparecendo em grandes travessas, os doces que faziam as delícias dos comensais: os bilharacos, o arroz-doce,  a aletria, as rabanadas, o bolo-rei, os frutos secos, etc.



Por todo o lado se respirava o ambiente natalício. Na grande cidade, as ornamentações de Natal ofuscavam o olhar dos transeuntes, envolvendo-os no grande apelo do consumismo. Árvores de Natal gigantescas irradiando luzinhas multicores criavam esse ambiente de magia e marketing, atraindo magotes de pessoas aos centros comerciais. Aí, desfilava perante os olhos  ávidos dos consumidores, toda uma panóplia de objetos e produtos para os mais variados fins.
Enquanto alguns membros da família faziam as últimas compras, em casa, faziam-se os preparativos de última hora. A vinda de familiares distantes para esta celebração da consoada era mais um motivo para toda esta azáfama.
No entanto, uma nuvem de tristeza pairava no ar e nem sequer os acordes de Natal que passavam no canto gregoriano como música de fundo, conseguiam afastar esse negrume. Ninguém falava no assunto, mas toda a gente sentia a falta daquele irmão que se fora para o vasto mundo. Ainda jovem, decidira sozinho ir à descoberta de uma nova vida, num país imenso e distante da  América Latina, numa aventura que tinha tanto de risco como de audácia. A família ficara para trás, num grande pranto, com esta debandada do filho pródigo.
Ano após ano, a mágoa, a saudade recrudesciam, mas a vida tinha que seguir o seu rumo e não se compadecia destes pensamentos lúgubres.
Alguma notícia que desse conta do seu paradeiro era o quea família mais ansiava, mas reinava apenas o silêncio. Havia um enorme fosso de comunicação que nada conseguia mitigar.
Aproximava-se a hora da reunião à volta da grande mesa. Todos tomaram os seus lugares, já pré definidos pelos anos anteriores e começava a evolar-se o aroma do prato da noite: o bacalhau com todos começou a aparecer em grandes travessas, guarnecidas pelo colorido dos legumes, tão apelativo às papilas gustativas.
A um canto da sala, a lareira crepitava com os cepos de pinho que a alimentavam e ia criando o conforto térmico duma atmosfera aconchegante. 
Como moldura natalícia pairavam pela casa as ornamentações de Natal, o pinheirinho cheio de luzinhas a tremelicar, as bolas coloridas, enfim uma variedade de elementos da época. Cânticos de Natal criavam o ambiente místico das grandes celebrações. Esta era a primordial, a festa das festas, a festa da família, que sempre foi e continuará, apesar das afrontas que tem sofrido, o grande pilar da sociedade.
De repente alguém ouviu o ruído estridente do toque duma sineta. Apuraram os ouvidos e o som repetia-se com mais intensidade e nitidez. A dona da casa dirigiu-se à porta, arregalou os olhos de espanto e viu ali, na sua frente, umvulto esguio, saído da penumbra que balbuciou: _Aqui estou.
O filho pródigo voltara para a festa da consoada.

22.12.2014


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