S. MARTINHO: 11 DE NOVEMBRO

Crónica de Maria Donzília Almeida
 


O dia amanheceu cinzento. Do plúmbeo céu bátegas grossas caíram a anunciar a continuidade das condições meteorológicas dos dias anteriores.
Ah... mas hoje não é dia de S. Martinho? Ocorreu-me, num relance, à memória a crença popular na esperança/promessa de um dia de sol. Mas este ainda há pouco se foi embora, presenteando-nos com dias estivais, num Outono já consumado. Em Outubro, as temperaturas estiveram acima dos valores habituais para a época fazendo lembrar os convidativos/relaxantes dias de férias.
Será que a tradição já não é o que era, ou o santo está zangado com as tropelias que o homem tem feito, nomeadamente no que concerne ao ambiente? Neste campo, muitos estragos têm sido cometidos, em nome da civilização, do avanço tecnológico, da luta desenfreada pelo poder.
Longe vão os tempos em que as estações ocorriam de acordo com o calendário e uma pequena trégua em meados de Novembro sabia sempre bem.


E quem tem o astro-rei como seu aliado permanente, como a vitamina que alimenta e protege, como elemento profilático da melancolia, fica um pouco à nora, com estas alterações climáticas. Chegaram a verificar-se entre nós, em setembro, picos de clima tropical. Pareceu-me estar de regresso à Tailândia.
No meu imaginário infantil, visualizo uma querela entre os santos lá no céu, em que o S. Pedro a quem se atribui o comando/gestão da chuva leva a melhor ao colega S. Martinho, que é obrigado a depor armas. Aquela espada que lhe valeu a obra de misericórdia feita a um desvalido da sorte, quando dividiu com ele a sua capa, não consegue ter o mesmo poder quando empunhada contra um parceiro no mesmo plano celestial. É assim.... na lógica dos humanos!
O dia ainda está no seu início, de má cara, muito má cara, vamos ver na disputa entre os dois santos, quem levará a melhor. Por entre duas garroas...lá quer espreitar o sol...O S. Martinho a querer impor-se!
Já tenho implorado a S. Pedro a benesse duma reguinha para os meus seres vegetais, quando a canícula aperta e é persistente. Agora, neste Outono já instalado, não me importaria que as torneiras do céu fechassem por um pequeno intervalo, deixassem que o S. Martinho brilhasse.... e todos lhe agradeceriam esse gesto complacente.


11.11.2014

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