CHINA E FUTURO DO CRISTIANISMO

Crónica semanal de Anselmo Borges no DN

Ele há aqueles experimentos mentais que não são propriamente inúteis, pois levam-nos a ir mais longe. Penso, por exemplo, no que teria acontecido ao cristianismo se, logo no início, em vez de passar do mundo semita para o mundo greco-romano, tivesse caminhado para a Índia e China. Teria de si hoje outra compreensão e a história do mundo seria diferente.

O que é facto é que essa inculturação do cristianismo na cultura e religião chinesas poderia ter-se dado no século XVI, por influência do génio do jesuíta Matteo Ricci, não fora a cegueira do Vaticano, que interveio desgraçadamente, impedindo essa síntese entre o Evangelho e a cultura milenar do povo chinês. De qualquer forma, Ricci e Marco Polo são os dois estrangeiros recordados por Pequim entre os grandes vultos da China.

Desde 1951 que a China não tem relações diplomáticas com o Vaticano. Mas o Governo chinês felicitou Bergoglio a seguir à sua eleição como novo Papa e exprimiu o desejo de que, sob o pontificado de Francisco, o Vaticano "elimine os obstáculos", para uma aproximação. Recentemente, Francisco declarou aos jornalistas: "Estamos próximos da China. Enviei uma carta ao Presidente Xi Jinping quando foi eleito, três dias depois de mim. E ele respondeu-me. Há contactos. É um grande povo do qual gosto muito."

Entretanto, apesar da proibição do cristianismo e das perseguições ferozes, concretamente durante a Revolução Cultural no tempo de Mao, a situação está a mudar de modo rápido e surpreendente. Desde 1976, com a morte de Mao, as igrejas começaram a reabrir e há quem pense que a China poderá tornar-se mais rapidamente do que se pensava não só a primeira economia mundial mas também o país com maior número de cristãos. "Segundo os meus cálculos, a China está destinada a tornar-se muito rapidamente o maior país cristão no mundo", disse Fenggang Yang, professor na Universidade Perdue (Indiana, Estados Unidos) e autor de Religião na China -Sobrevivência e Renascimento sob o Regime Comunista. Isso "vai acontecer em menos de uma geração. Não há muitas pessoas preparadas para esta mudança dramática".

Cresce sobretudo a comunidade protestante. De facto, em 1949, a China tinha apenas um milhão de protestantes. Em 2010, já havia mais de 58 milhões. Segundo Yang, esse número aumentará para cerca de 160 milhões em 2025, o que faria que a China ficasse inclusivamente à frente dos Estados Unidos. Em 2030, a população cristã total da China, incluindo os católicos, superaria os 247 milhões, acima do México, Brasil e Estados Unidos. "Mao pensava que poderia acabar com a religião. E julgava ter conseguido", diz Yang. "É irónico pensar que o que fizeram foi fracassar completamente."

A situação parece preocupar seriamente as autoridades chinesas, que, por outro lado, não quererão 70 milhões de cristãos como inimigo.

Depois, o Papa Francisco é jesuíta, da estirpe de Ricci, que admira: o processo da sua beatificação avança e a frase "venho dos confins do mundo" será uma citação de Ricci, que dizia ter passado a vida nos "confins do mundo". Francisco é considerado um "animal político", que sabe de geoestratégia. Não será por acaso que em menos de meio ano faz duas viagens à Ásia: a primeira, à Coreia do Sul, está a acontecer, a segunda, ao Sri Lanka e Filipinas, será em Janeiro de 2015. E, pela primeira vez, a China abriu o espaço aéreo para que um papa, Francisco, pudesse sobrevoá-la.

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