BISPO PORTUGUÊS COM FRANCISCO

CRÓNICA DE ANSELMO BORGES NO DN

Nasceu em Lisboa em Maio de 1514. Celebra--se, portanto, este ano o V Centenário do seu nascimento. Refiro-me a frei Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga e, em tempos conturbados, participante no Concílio de Trento. Um bispo que se tornou ilustre pelas virtudes, pelo amor a Deus e aos homens, sobretudo aos mais pobres, e pela força de reforma da Igreja, a começar por quem está mais alto: cardeais, bispos, Cúria. Se vivesse hoje, aplaudiria, de coração, Francisco, pois foi com um Papa como ele que terá sonhado.


Para as breves reflexões que se seguem sirvo-me da recente comunicação do académico Aires Nascimento na Academia das Ciências de Lisboa.
Mesmo que não seja fidedigna a célebre excepção pedida para os padres de Barroso, quando da lei do celibato obrigatório - saltem pro barrosanis -, ficou famosa a sua presença na terceira e última fase do Concílio de Trento, cujas actas finais assinou. Essa fama provém do seu exemplo de humildade e do combate corajoso a favor da reforma que se impunha na Igreja. A trave mestra do seu pensamento era a instauração de "poder pastoral", a partir da transformação do homem interior, despojado de honrarias e de bens materiais, "capaz de repartir as riquezas de corpo e de alma". Não eram precisos mais dogmas: o que se impunha com urgência era a reforma eclesiástica, programada segundo "padrões de piedade e de mudança de costumes". A caminho de Trento, foi-se apercebendo do descalabro em que mergulhara a cristandade, constatou que a crise da sua diocese não era caso único, convencendo-se, por isso, cada vez mais da urgência da reforma: com humildade, sentiu que - palavras dele - "está o mundo de maneira, cá, que convinha andarmos todos descalços e com cilícios".
Até o papa quis ouvi-lo em privado, ainda que poucos tenham seguido os seus conselhos. Mas não hesitou em verberar a vaidade, o fausto e ostentação dos eclesiásticos. Denunciou de modo veemente a Cúria Romana que, escreve Aires Nascimento, "se burocratizara e se valia de expedientes para assegurar dinheiro que se tornara necessário para manter serviços inúteis". Perante clivagens e críticas, não esmoreceu em zelo e apelava para o direito divino que opunha às tradições romanas: "Invocando autoridades consagradas, aos bispos que não cumpriam as suas obrigações pastorais, nomeadamente o dever de residência e de visitação, não hesitava em compará-los a meretrizes, por apenas se interessarem com usufruir de benefícios materiais."
Sobre os cardeais escreveu: "Não se elejam senão aqueles que se destaquem pela excelência de vida e doutrina. Entre o seu número, escolham-se alguns maximamente idóneos que com o Papa governem a Igreja." Quando lhe mostravam "os faustosos palácios e jardins que permitiriam convívio regalado, respondia que melhor fora preocupar-se com os pobres e que, mais que resguardar-se em edifícios sumptuosos, importava visitar e cuidar dos desamparados e acolhê-los nas dependências vazias".
Morreu em Viana do Castelo em 1590, tendo sido a formação do clero outra das suas preocupações. Sintetiza Aires Nascimento: "Procurava viver na ascese de quem vivia do interior, mas sabia sobretudo inteirar-se dos mais necessitados (de corpo e de espírito), sem lhes regatear acolhimento... Dera ele testemunho de vida pelas demonstrações de humildade, de desprendimento pessoal e de piedade sincera para com Deus e de devoção para com os homens."


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