VILA NOVA DE FAMALICÃO - 1979/1982

Crónica de Maria Donzília Almeida






Se “Em Roma, sê romano”, como diz o povo, eu tive o privilégio de ser minhota durante o meu triénio de residência no Minho. No trajar, não direi tanto, já que só nos arraiais minhotos é que a mulher ostenta a indumentária riquíssima e colorida do traje típico. O uso das arrecadas e de todo o ouro que as caracteriza, guardado durante o ano, é exibido, ostensivamente, nas festas populares que têm o seu expoente máximo na romaria da Senhora da Agonia em Viana do castelo. Aí, sim há um verdadeiro espetáculo de brilho e cor, na mostra duma riqueza patrimonial ímpar. A atração turística e os magotes de gente que acorrem a Viana, por essa altura, atestam bem a dimensão do evento.


O linguajar das gentes do norte é, também muito característico, patente no uso do vernáculo, mais notório nas camadas populares. Por estas bandas eu percebi, na íntegra o que cá entre nós, significa “mandar abaixo de Braga”! Nunca soube ao certo se seria para norte ou para sul de Braga, mas....que a expressão era usada a torto e a direito, lá isso era.
Para fazer jus à abundância de regatos, riachos e ribeiros, eu morava numa casinha geminada, no Lugar da Ribeira. Era um bairro de casario branco, numa pequena colina que ficava próximo da estrada nacional que ia para Guimarães.
Dada a proximidade de Braga, Guimarães e outros locais de interesse turístico, concebi o projeto familiar, de irmos conhecendo pontos de interesse, como monumentos, palácios, castelos, etc, num raio de poucos km em torno da nossa residência.
Começámos pela Casa de Camilo em S. Miguel de Seide, que desde tenra idade em que comecei a estudar literatura, associara no meu imaginário, à residência de Camilo Castelo Branco. Aí, pudemos saciar a nossa curiosidade.
Era uma freguesia que integrava o concelho de Vila Nova de Famalicão, pelo que foi o primeiro e mais curto destino na nossa peregrinação por terras minhotas.
A casa foi mandada construir por Pinheiro Alves em 1830 após ter feito fortuna no Brasil. Em 1850 casou com Ana Plácido que, três anos mais tarde, se envolve com Camilo numa relação amorosa extraconjugal. Esta relação, que para a sociedade da época era considerada crime (!?), levou à prisão de ambos em 1860, tendo sido absolvidos no ano seguinte, neste país de brandos costumes! Após este episódio passaram a viver juntos e Ana Plácido teve um filho que ficou oficialmente registado como sendo do seu marido. Em 1863, após a morte de Pinheiro Alves, a casa é herdada pelo filho e Ana Plácido torna-se gestora do seu património, passando a viver com Camilo em São Miguel de Seide.
No período que se segue, Camilo Castelo Branco com três filhos de Ana Plácido e dois de uma relação anterior, começa a escrever livros a um ritmo alucinante para angariar o sustento da família. Nos últimos anos da sua vida, o escritor começa a sofrer de uma progressiva cegueira que o impede de trabalhar. Após consulta ao seu oftalmologista que confirmou que o seu estado de saúde levaria à cegueira total, Camilo não suportando a ideia desse infortúnio, suicida-se na sala de estar desta casa com um tiro na cabeça. Foi um desfecho trágico para uma vida rocambolesca, vivida com toda a intensidade.
A sala de visitas onde o escritor pôs termo à vida, é hoje a ala principal, aí se encontrando o bilhar, onde jogava com os amigos e uma série de objetos da época. Considerada a memória viva do escritor, mantém as caraterísticas dos tempos em que era habitada pelo mesmo. Para além de museu é utilizada para exposições e outras atividades ligadas à obra de Camilo Castelo Branco.


19.07.2014



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