SÁBIO É AQUELE QUE SE ESPANTA


"Na minha aldeia, frente à igreja há uma árvore em cujo tronco o homem do quiosque expõe os jornais. Os velhos da minha aldeia debicam as letras grossas da capa. Na quarta-feira senti--me transportado para o dia seguinte ao que o arquiduque Francisco Fernando foi assassinado em Sarajevo. A 29 de junho de 1914, os jornais de Lisboa traziam notícia discreta sobre aqueles dois tiros, sem entenderem que eles anunciavam a Guerra Mundial. Na quarta-feira, entre as capas dos jornais desportivos, uma proclamava "Andrade paga para vir", outra, "Lopetegui quer futebol rápido", e só uma enchia a primeira página com o assunto do dia anterior, que os velhos da minha aldeia comentavam. A notícia que daqui a 50 anos os netos dos velhos ainda hão de comentar: o Brasil levara 7-1 no seu Mundial. Dois em três jornais desportivos (e desportivo até é alcunha, são só de futebol) quase ignoravam a notícia espantosa. Esses jornais agarravam-se à sua mercearia - a clubite doméstica (Andrade vem jogar para o Benfica e Lopetegui é o novo treinador do FC Porto) - e secundarizavam o assunto popular e entusiasmante. Por ironia, todos os jornais generalistas davam destaque à goleada brasileira - mais libertos da obrigação de "especialistas" souberam ouvir o interesse das pessoas. Na minha aldeia, há uma árvore que bem lida é uma lição para os jornalistas: espantem-se quando for caso disso."

Ferreira Fernandes no DN



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