QUE TROUXE DE NOVO O PAPA FRANCISCO (4)

Crónica de Frei Bento Domingues no PÚBLICO

1. Um velho amigo, com uma ponta de censura, telefonou-me para me dizer: o Papa argentino não precisa nem de defesa nem de apologética. Precisa de colaboradores. Ele não despertou apenas a esperança em muitos cépticos e desiludidos.

Fez uma convocatória para participarmos todos numa reforma da Igreja ao serviço da transformação das sociedades dominadas pelo império do dinheiro. Cerca de 85% dos recursos são consumidos pelos 20% mais ricos da população mundial. Isto significa, para o físico ambientalista, Mohan Munasinghe, que os ricos do mundo estão a consumir mais do que um planeta Terra [1]. Afinal, quem vive acima das suas possibilidades? Perguntas destas suscitam apenas o sorriso dispensado aos ingénuos inveterados.



O mais sensato talvez seja resignar-se e ter a humildade de Kant: “a razão humana, num determinado domínio dos seus conhecimentos, possui o singular destino de se ver atormentada por questões impostas pela natureza, que não pode evitar, mas às quais também não pode dar resposta, por ultrapassarem as suas possibilidades [2].

A humildade deste filósofo não era a da resignação, mas a da crítica, à qual nada deve, honestamente, escapar. Advertiu: se a religião pela sua santidade e a lei pela sua majestade, quiserem subtrair-se a essa instância, suscitam, contra elas, justificadas suspeitas. Não poderão aspirar ao sincero respeito que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame.

A consciência dos limites não o paralisou. Levou-o a formular as questões fundamentais: 1. Que posso eu saber? 2. Que devo eu fazer? 3. Que me é permitido esperar? 4. O que é o Homem? As três primeiras estão incluídas na última.

Martin Buber (1878-1965) descreveu o percurso desta interrogação fundamental, antes e depois de Kant, sensível à queixa de Malebranche, datada de 1674: “entre todas as ciências humanas, a do homem é a mais digna dele. No entanto, entre todas as ciências que possuímos, não é nem a mais cultivada nem a mais desenvolvida” [3].

Seguindo a posteridade da interrogação kantiana, desde Hegel a Marx, de Feuerbach a Nietzsche e a Freud, de Kierkegaard a Heidegger e a Scheler, mostra que o ser humano, ao abrir uma janela, costuma fechar duas. Depois, vem a lamentação: por que razão somos tão ininteligíveis?

Seja como for, a herança de Kant é grandiosa, embora sem muitos pretendentes: o ser humano não tem preço, tem dignidade, não é uma mercadoria, não pode ser um instrumento.

2. Na última página do seu ensaio, Martin Buber enriquece essa herança. Sustenta que unicamente na relação viva será possível reconhecer a essência peculiar do ser humano. O eu só existe na relação com o tu. Poderemos aproximar-nos da resposta à pergunta - “O que é o homem?”- se compreendermos que é na dialógica - no “estar-dois-em-recíproca-presença”-, e só nela, que ele se reconhece e realiza. Acontece em cada encontro de um com o outro.

Como as religiões não se quiseram expor à crítica, como recomendava I. Kant, deixaram de constituir uma esperança fiável e foram acusadas de tudo: de serem fontes de conflito pelo seu dogmatismo e vontade de dominação, de serem alienantes, um protesto social inconsequente, de falsificarem a realidade, de serem uma ilusão dispensável.

Da crise das religiões, à crise da religião, da crise da religião à morte cultural de Deus, a procissão não foi longa. O vazio que se seguiu não foi o do místico. Teve muito de niilista e de indiferença. Do fim da religião ao regresso do Sagrado houve, e continua a haver, notícias para todos os gostos.

3. O Papa Francisco quase fez um milagre. A organização e a vida da Igreja não têm de ser uma fonte de más notícias. Ao enfrentar alguns aspectos da hipocrisia que dominou o comportamento de certos padres, bispos e cardeais reconduziu a Igreja à sua missão: tornar possível a esperança, fazer do anúncio do Evangelho uma alegria e não confundir o confessionário com uma câmara de tortura.

Não diz isto de forma abstracta. Convocou todos os seres humanos de boa vontade para que as calamidades ambientais, financeiras e económicas, frutos de vários tipos de corrupção, não sejam uma fatalidade, perante a qual não há nada a fazer.

No momento em que a política, em todo o mundo, está desacreditada pelos mais diversos motivos, o Papa Francisco resolve lembrar que a vocação de todos os políticos é tutelar o bem comum e não os interesses pessoais ou de grupo, os cúmplices da corrupção. Lembra que Paulo VI costumava dizer que a missão da política é uma das formas mais elevadas da caridade. Hoje, e o problema é mundial, desvalorizou-se, foi arruinada pela corrupção, pelo fenómeno das comissões ilegais. Recorda um documento que os bispos franceses publicaram há quinze anos: uma carta pastoral que se intitulava Reabilitar a política.

Reabilitar a imagem da Igreja e reabilitar a missão dos políticos não é pedir pouco a um só papa, mesmo ao Papa Francisco.

[1] Cf Entrevista no Público,14/07/ 2014

[2] Cf I. Kant no Prefácio da primeira da edição de 1781, da Crítica da Razão Pura

[3] M. Buber Qué es el Hombre, Fondo de Cultura Económica, Madrid, 1986


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