QUE TROUXE DE NOVO O PAPA FRANCISCO? (1)

Crónica dominical de Frei Bento Domingues
no PÚBLICO


«João Paulo II foi o combatente. Veio da Polónia, da ditadura comunista, inimiga da democracia política. A hierarquia da Igreja, por razões de sobrevivência, não podia promover o aggiornamento do Vaticano II na vida interna da Igreja. Contribuiu para abalar o comunismo. Como Papa, percorreu o mundo católico várias vezes, acolhido com entusiasmo, teve um apoio mediático de grande vedeta. O cardeal alemão, J. Ratzinger, Prefeito para a Doutrina da Fé, encarregou-se de extirpar as turbulências teológicas pós-conciliares na Europa e no Terceiro Mundo e, de forma estrondosa, na América Latina. Karl Rahner, um dos teólogos mais importantes, chamou a esse tempo o inverno da Igreja.
Os últimos tempos de João Paulo II foram tristes, não apenas do ponto de vista físico, mas sobretudo pela imagem da Igreja revelada todos os dias nos meios de comunicação: a pedofilia no mundo eclesiástico e os escândalos em torno do Banco do Vaticano. Bento XVI esteve muito tempo na Cúria Romana. Eleito Papa, não podia ignorar o que se tinha passado e continuava. Não podia deixar de condenar tudo isso. Manifestou-se incapaz de enfrentar esse universo, bem mais difícil do que varrer o campo teológico. Demitiu-se.»


1. Valerá a pena tentar uma resposta à pergunta do título deste texto? Creio que sim. Os incomodados com a intervenção surpreendente deste Papa tendem a desvalorizar, de modo displicente, a sua evidente novidade. Os deslumbrados com as suas prioridades, o seu método e o seu estilo tomam as espectativas do desejo como possibilidades reais de mudança na sociedade e da Igreja. No entanto, as mudanças reais e profundas não se decretam.
Importa, por isso, lembrar alguns momentos, embora de forma muito sumária, da história eclesial que precederam o Papa Francisco, para se poder avaliar o que continua e o que muda. Vivemos no presente, mas o olhar crítico sobre o passado é importante para discernir as opções que podem abrir ou fechar as portas ao futuro.
Em continuidade e ruptura com o século XIX, a primeira metade do século XX foi, no plano da Igreja Católica, um tempo difícil e admirável. Entre anátemas e surtos criadores, foi uma época das grandes redescobertas cristãs, através dos mais diversos movimentos: social, bíblico, litúrgico, teológico, missionário, ecuménico, laical, de arte sacra, de grandes escritores católicos, etc.. No entanto, acabou por ser também o de condenações das iniciativas mais inovadoras, no campo da evangelização do mundo do trabalho e das elaborações teológicas, em confronto com as expressões modernas da cultura.
Deveria fazer parte da formação dos Seminários e das Faculdades de teologia, o testemunho doloroso do mestre da eclesiologia do século XX, Yves Congar (1).

2. Ortodoxia, heterodoxia, medo do comunismo, renovação das expressões do catolicismo, polémicas em torno das formas de resistência ao nazismo tornaram o pontificado de Pio XII, nos anos 40 e 50, extremamente complicado para o próprio e para o conjunto da Igreja. Depois dele, muita coisa mudou.
Para João XXIII, a atenção à luz interior, aos “sinais dos tempos”, às vozes que vinham de dentro e de fora do mundo católico, todas falavam da mesma urgência: o aggiornamento da Igreja. Apontou-o como objectivo da convocação do Vaticano II, assumindo o diálogo como método de trabalho - o que diz respeito a todos deve ser tratado por todos –, a recusa dos anátemas como pressuposto geral e nunca aceitar respostas elaboradas antes de estudar as perguntas. O humor e a firmeza no projecto de reforma da Igreja ajudaram-no a não alinhar com os “profetas da desgraça”. De modo gráfico, poder-se-ia dizer que a concepção da Igreja, antes do Vaticano II, era uma pirâmide hierárquica e a celebração da Eucaristia colocava o padre de costas para o povo.
Paulo VI era uma personalidade muito culta que nos deixou gestos e textos admiráveis. Era, porém, um eterno perplexo. Usando a terminologia simplista da época, dir-se-ia que, para não perder os tradicionalistas, acabou por perder os “tradicionalistas e os progressistas”. Por exemplo, na atormentada preparação da encíclica Humane Vitae - usada como uma doutrina definitiva, que ele não desejava – multiplicou as dificuldades, quando pretendia ser uma grande ajuda no discernimento da ética sexual e familiar. Diz-se que para não perder a minoria, acabou por perder a maioria.
João Paulo I foi Papa apenas durante um mês e ficou conhecido como o “Papa do sorriso”. Filho de gente pobre, o seu pai, um socialista, teve de imigrar várias vezes para ganhar o sustento da família. Manteve-se fiel a esse passado, era anti carreirista e recusou ser coroado Papa. Era a aliança da alegria, do bom humor e da coragem. A sua morte repentina adiou, sine die, a reforma da Cúria romana, o seu projecto.
João Paulo II foi o combatente. Veio da Polónia, da ditadura comunista, inimiga da democracia política. A hierarquia da Igreja, por razões de sobrevivência, não podia promover o aggiornamento do Vaticano II na vida interna da Igreja. Contribuiu para abalar o comunismo. Como Papa, percorreu o mundo católico várias vezes, acolhido com entusiasmo, teve um apoio mediático de grande vedeta. O cardeal alemão, J. Ratzinger, Prefeito para a Doutrina da Fé, encarregou-se de extirpar as turbulências teológicas pós-conciliares na Europa e no Terceiro Mundo e, de forma estrondosa, na América Latina. Karl Rahner, um dos teólogos mais importantes, chamou a esse tempo o inverno da Igreja.
Os últimos tempos de João Paulo II foram tristes, não apenas do ponto de vista físico, mas sobretudo pela imagem da Igreja revelada todos os dias nos meios de comunicação: a pedofilia no mundo eclesiástico e os escândalos em torno do Banco do Vaticano. Bento XVI esteve muito tempo na Cúria Romana. Eleito Papa, não podia ignorar o que se tinha passado e continuava. Não podia deixar de condenar tudo isso. Manifestou-se incapaz de enfrentar esse universo, bem mais difícil do que varrer o campo teológico. Demitiu-se.

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