OS PERIGOS DE UM HOMEM LIVRE

Crónica semanal de Anselmo Borges 

no Diário de Notícias


«O que move Francisco é o bem-estar de todo o ser humano, que deve ocupar o centro. Por isso, "não se pode entender o Evangelho sem a pobreza, mas é necessário distingui-la do pauperismo. Eu creio que Jesus quer que os bispos não sejam os príncipes, mas servidores. Creio que estamos num sistema mundial económico que não é bom. No centro de todo o sistema económico deve estar o homem, o homem e a mulher, e tudo o resto deve estar ao serviço deste homem.»


Do que mais admiro num ser humano é a liberdade e a coragem moral. Nota decisiva do ser humano é a liberdade, que significa autoposse e capacidade de autodeterminação para realizar o que deve ser. Esta é a grandeza humana, sempre ameaçada e tolhida, concretamente pelo medo. E há muitos medos. O medo de fracassar a própria vida, porque somos falíveis e finitos. Depois, o medo dos outros, sobretudo, quando se é dependente e nos podem despedir, humilhar-nos, cortar-nos a carreira. Evidentemente, o medo maior é o da morte: podem tirar-nos a vida, matando-nos.

Duas mortes marcaram a humanidade, concretamente a humanidade ocidental: a morte de Sócrates e a morte de Jesus. A um e a outro foram dadas possibilidades de negociar a liberdade para a verdade. Mas eles não negociaram, não tiveram medo e morreram, dando testemunho da verdade.

Evidentemente, é necessário distinguir bem entre o dar a própria vida pela dignidade, a liberdade e a verdade e o matar outros, incluindo inocentes, na convicção de que se possui a verdade e morrendo. No primeiro caso, temos os mártires da verdade; no segundo, os terroristas da verdade. De qualquer modo, percebe-se os perigos, para o bem e para o mal, de quem é livre a ponto de não temer a morte.

Cá está! Até há pouco, a máfia serviu-se do Banco do Vaticano para a lavagem de dinheiro. Mas, agora, levado pela dignidade, o Papa Francisco impôs reformas para a transparência e foi ao coração da máfia calabresa para condenar os seus membros e ousar o que antes nenhum Papa tinha ousado: excomungá-los: "Aqueles que durante a sua vida escolheram a via do mal, como os mafiosos, não estão em comunhão com Deus, estão excomungados". E fê-lo, porque não tem medo, mesmo sabendo os perigos que corre. Foi ele que o disse a Henrique Cymerman, numa entrevista televisiva, referindo-se à quebra de protocolos de segurança: "Sei que algo me pode acontecer. Recordo que no Brasil me tinham preparado um papamóvel fechado, mas eu não posso saudar um povo e dizer-lhe que gosto dele, dentro de uma lata de sardinhas, mesmo que seja de cristal. Para mim, isso é um muro." E continuou, com humor: "É verdade que algo pode acontecer-me, mas, sejamos realistas, na minha idade não tenho muito a perder".

Consequentemente, condenou a violência em nome de Deus, que "é uma contradição". Reconhece que "nas três religiões monoteístas temos os nossos grupos fundamentalistas", mas "um grupo fundamentalista, mesmo que não mate ninguém, é violento. A estrutura essencial do fundamentalismo é violência em nome de Deus".

O que move Francisco é o bem-estar de todo o ser humano, que deve ocupar o centro. Por isso, "não se pode entender o Evangelho sem a pobreza, mas é necessário distingui-la do pauperismo. Eu creio que Jesus quer que os bispos não sejam os príncipes, mas servidores. Creio que estamos num sistema mundial económico que não é bom. No centro de todo o sistema económico deve estar o homem, o homem e a mulher, e tudo o resto deve estar ao serviço deste homem. Mas nós colocámos no centro o dinheiro, o deus dinheiro. Caímos num pecado de idolatria. A idolatria do dinheiro. A economia move-se pelo afã de ter mais e, paradoxalmente, alimenta-se de uma cultura do descarte": descarta-se os jovens, limitando a natalidade, os anciãos, porque já não produzem, e preocupa-o o desemprego dos jovens, que nalguns países supera os 50%. "É uma barbaridade".

Sobre a globalização: "Bem entendida, é uma riqueza. Uma globalização mal entendida é a que anula as diferenças. É como uma esfera, com todos os pontos equidistantes do centro. Uma globalização que enriquece é como um poliedro: todos unidos, mas conservando cada um a sua particularidade, a sua riqueza, a sua identidade, e isto não está a acontecer."

Na continuidade da memória perigosa que Jesus foi e é, percebe-se que gostaria de ser recordado como alguém de quem se diz: "Era um bom tipo, fez o que pôde, não foi assim tão mau". Um perigo na Igreja e no mundo, correndo ele próprio perigos.

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