O CELIBATO NÃO É DOGMA

Crónica de Anselmo Borges

«É contraditório afirmar que o celibato é um carisma e, depois, impô-lo como lei. Como lei, é contra o Evangelho e pode ser contra a natureza humana. O celibato obrigatório não vem de Jesus, é uma lei dos homens, e, como disseram os apóstolos, "importa mais obedecer a Deus do que aos homens". E os bispos e os papas são apenas homens. Não se pode impor como lei o que Jesus entregou à liberdade.»


Numa entrevista recente, o Papa Francisco disse que a lei do celibato dos padres não é nenhum dogma; por isso, a porta está sempre aberta ao debate e a lei pode ser revista.
Isso foi considerado tão revolucionário pelos media mundiais que eles se centraram nessa declaração, esquecendo outras, mais importantes. Ora, Francisco apenas disse o óbvio, repetindo aliás o que, há muito, vem sendo repetido por figuras eminentes, como o cardeal C. Martini, o cardeal P. Parolin, primeiro-ministro do Vaticano, e muitos bispos em todo o mundo. Mais significativa foi a revelação feita pelo cardeal F. König, de Viena, em 1985, de que o Papa Paulo VI estava na disposição de abolir a lei do celibato, se no Sínodo sobre o sacerdócio, em 1971, a maioria dos bispos se tivesse pronunciado nesse sentido: "De facto, o Papa pediu à assembleia um voto deliberativo a propósito, ao qual ele se teria vinculado. Se a maioria da assembleia se tivesse pronunciado pela sua abolição, Paulo VI teria agido em consequência, abolindo o celibato obrigatório dos padres, introduzindo a possibilidade do casamento."

Jesus foi celibatário como também São Paulo, mas eles não exigiram o celibato a ninguém. Há a certeza de que alguns apóstolos eram casados, incluindo São Pedro. Na Primeira Carta a Timóteo, lê-se: "O bispo deve ser homem de uma só mulher." No primeiro milénio do cristianismo, houve papas casados normalmente.
Foi lentamente e com imensas dificuldades que a lei do celibato se foi impondo na Igreja Católica, e com excepções: nas Igrejas orientais unidas a Roma manteve-se a liberdade e, quando pastores protestantes entram na Igreja Católica, continuam com a sua mulher e os seus filhos.

As razões para impor o celibato obrigatório foram múltiplas: imitar os monges e o seu voto de castidade, não dispersar os bens eclesiásticos, evitar o nepotismo, a desconfiança em relação ao corpo, ao sexo e ao prazer, manter os padres e os bispos mais disponíveis para o ministério. Determinante foi a reinterpretação da Eucaristia, que era um banquete em memória da Última Ceia e dos banquetes de Jesus enquanto experiência da presença do Reino de Deus, como sacrifício. Esta concepção sacrificial pôs duas questões cruciais e desastrosas: por um lado, é contraditória com a revelação de que Deus é Amor incondicional, Pai querido, Mãe querida, que não precisa de sacrifícios, mas de misericórdia, e, por outro, impôs o sacerdote, embora a palavra hiereus (sacerdote), no Novo Testamento, tenha sido evitada, e a consequente pureza ritual, com o celibato. As mulheres, evidentemente, dada a impureza ritual, ficavam definitivamente excluídas.

Neste movimento, a Igreja tornou-se cada vez mais rigorosa, tendo papel decisivo o Papa Gregório VII (1073-1085), com a sua famosa reforma gregoriana, de que fazem parte o centralismo romano e o celibatismo. Foi o II Concílio de Latrão (1139) que decretou a lei jurídica do celibato, com invalidade do casamento dos padres e proibindo os fiéis de frequentarem missas celebradas por padres com mulher.

No entanto, a distância entre a lei e o seu cumprimento obrigou a constantes admoestações e penas para os prevaricadores. Lutero levantou-se contra a lei, respondendo o Concílio de Trento: "É anátema quem afirmar que os membros do clero, investidos em ordens sacras, poderão contrair matrimónio." Aí, Frei Bartolomeu dos Mártires pediu compreensão ao menos para os de Barroso. Os escândalos sucederam-se, mesmo entre papas: Pio IV, por exemplo, que reforçou a lei, teve três filhos; no Concílio de Constança, como lembrou o famoso exegeta H. Haag, centenas de prostitutas estiveram à disposição dos participantes.

É contraditório afirmar que o celibato é um carisma e, depois, impô-lo como lei. Como lei, é contra o Evangelho e pode ser contra a natureza humana. O celibato obrigatório não vem de Jesus, é uma lei dos homens, e, como disseram os apóstolos, "importa mais obedecer a Deus do que aos homens". E os bispos e os papas são apenas homens. Não se pode impor como lei o que Jesus entregou à liberdade.

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