O Papa e o maldito sexo. 2

Crónica de Anselmo Borges 

Papa Francisco


Num gesto sem precedentes, o Papa Francisco enviou aos católicos de todo o mundo um inquérito com 39 perguntas, para saber directamente e não já só pelos bispos o que se passa em domínios considerados tabu: novas formas de família, casais homossexuais, uniões de facto, relações pré-matrimoniais, divorciados que voltam a casar e a sua relação com os sacramentos, adopção, contracepção, uniões à experiência, educação religiosa das crianças...




Os resultados, que ajudarão na preparação para a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre "Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização", em Outubro próximo, ainda não são totalmente conhecidos, mas nomeadamente as Conferências Episcopais da Alemanha e da Suíça já publicaram os referentes aos seus países. Em ambos os casos, bem como num inquérito realizado pela Bendixen & Amandi para a cadeia de televisão norte-americana Univisión a católicos dos cinco continentes, conclui-se que a maioria dos católicos não está de acordo com a doutrina oficial da Igreja. Concretamente nos relatórios alemão e suíço, pode ler-se a valorização do casamento católico. Textualmente, no alemão: "A ideia do casamento enquanto sacramento, que implica a fidelidade e a exclusividade do cônjuge bem como a transmissão da vida, é normalmente aceite por quem se casa na Igreja." Mas logo a seguir: "Pelo contrário, as afirmações da Igreja sobre as relações sexuais pré-matrimoniais, a homossexualidade, os divorciados recasados e o controlo da natalidade são aceites por pouquíssimos ou prevalentemente rejeitadas de forma explícita."

Não se deverá esperar um simples aval do Papa e do Sínodo ao resultado do inquérito mundial. Marcello Semeraro, secretário do G8 cardinalício que aconselha o Papa, já preveniu contra a ideia de ver as maiorias aprovadas: "O papel do Papa e dos bispos não consiste em serem notários de uma maioria." Mas é igualmente claro que algo tem de ser feito.

Como escreveu Miguel Oliveira da Silva, deve perguntar-se se, no universo sexual, que continua a ser "um imenso, incómodo e multifacetado mistério", vale tudo. É claro que não, e reconhece que "a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade, que a múltipla oferta de uma sexualidade por vezes devassada sem pudor na praça pública e passível de excessos não consegue minimamente preencher - ao contrário".

De qualquer modo, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. E lá está, por exemplo, o famoso número 14 da encíclica Humanae Vitae contra a contracepção artificial. Neste domínio, o equívoco fundamental da encíclica encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica, pois envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual, e é preciso superar o dualismo de fim primário (procriativo) e fim secundário (unitivo) e a argumentação moral centrada nos actos isolados. Por outro lado, não é o homem interventivo e transformador da natureza? E ainda serão naturais os métodos que têm que ver com uma descoberta e aproveitamento humanos dos períodos inférteis da mulher?

Como pedia o cardeal Carlo Martini, "é um sinal de grandeza e autoconsciência alguém confessar os seus erros e visão limitada". Assim, "o Papa talvez não retire a encíclica, mas pode escrever uma nova e ir mais longe. É legítimo o desejo de que o Magistério diga algo de positivo sobre o tema da sexualidade". "Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a homossexualidade, a contracepção."

Mas, aqui, impõe-se uma outra pergunta: enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório, que Martini também interrogava, não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita?

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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