A vida dos defuntos


A fronteira da morte 
sempre me impressionou 
de forma interpelante


A fronteira da morte sempre me impressionou de forma interpelante. E agora?, pensava. Sinto-me só face aos desafios da vida Tenho de resolver problemas que não esperava, nem dependiam de mim. Recorro à memória e configuro o rosto dos meus familiares. Peço-lhes que me digam algo, me deem um sorriso, me inspirem uma solução. E o que recebo é um silêncio profundo, definitivo, que procuro interpretar.
Ressoa, então, o eco das suas vidas, das conversas havidas, das respostas dadas para as situações com que nos deparávamos. E a memória faz-se presença e a saudade encontro e comunhão. Nasce o desejo de entrar em contacto com eles, de os abraçar, de conhecer a sua sorte, de experienciar a qualidade da sua vida nova.



Sei que esta aspiração tão natural não pode ser inconsequente, nem ficar defraudada. E vem-me a sábia sentença de Santo Agostinho: Fizeste-nos, Senhor para Vós e o coração humano andará inquieto, enquanto não repousar em Vós. E surgem em catadupa os ensinamentos de Jesus Cristo, o morto que agora vive para sempre. Acresce o testemunho auspicioso de tantos homens e mulheres de todas as idades a abonar a ideia de um final feliz para a aventura humana.
“Eu sou a ressurreição e a vida; quem acredita em mim viverá para sempre”. Eu creio, Senhor, mas aumenta a minha fé! E Jesus prossegue: Quem se fizer como eu, assim como eu me fiz humano como ele, tem a mesma vida, vida definitiva, vida eterna. E a melhor maneira, depois do baptismo, de sermos como Jesus é a eucaristia, celebração sacramental em que Jesus, por meio do pão e do vinho, se faz nosso alimento espiritual. Ele humaniza-se e nós divinizamo-nos. Já agora. De forma germinal, sacramental. Mas real.
É esta a vida eterna: iniciada no tempo, atinge a plenitude na eternidade. É esta a vida que já saboreamos e que, de forma qualitativamente diferente, enche de alegria e satisfação os nossos queridos defuntos.

Georgino Rocha


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