Hum segundo dia de creação

30 de setembro de 1808


Luiz Gomes de Carvalho 
escreve uma carta ao futuro rei D. João VI

D. João VI


«Senhor

Tenho a honra de partecipar a V. A. R. o feliz exito da Commissão da Abertura da Barra de Aveiro, que V.A.R. foi servido confiar-me, honrando-me tanto nesta escolha, q.to a questão era diffícil, e até na opinião geral impossivel.
O dia trez de Abril deste prezente anno foi o venturoso dia d’Abertura da Nova Barra de Aveiro; elle foi, em certo modo, hum segundo dia de creação em que se operou, como por hum prodigio hua conveniente e necessaria separação das agoas, e dos terrenos, que estavão na mais fatal confuzão; e este Grande Beneficio, que V.A.R. preparava a estes Povos, desde muito tempo, fez despertar, como eu fui testemunha, a saudade constante que os Povos mais interessados nesta Obra consagravão ao Seu Legitimo Auzente Soberano quando gemia debaixo da escravidão e tyrania de que o Ceo, auxiliando os nossos proprios exforsos, e os dos nossos amigos, acaba de resgatar-nos.


A nova Barra de Aveiro he a melhor de Portugal depois da de Lisboa; ella fará duplicar o valor de toda a Provincia da Beira, e com o tempo a sua população: Por effeito della já estão enchutos, e restituidos á Lavoura campos que estavam submergidos, e outros, que hião perder-se para sempre, que podem produzir annualmente dous milhoens de alqueires de milho e feijão: As vastas Marinhas d’Aveiro, que estavão condenadas a hua perpetua submersão, são hoje das mais ricas do Reino.
Este paiz onde ha pouco a febre e a morte fazião o seu assento he hoje saudavel, e nelle se respira hum ar puro e sadio: Estes Povos desgraçados que noutro tempo tocavão de compaixão o Paternal Coração de V. A. R. quando mandou em socorro delles intentar a grande obra da sua regeneração, são hoje vassalos venturosos, e bem depreça serão opulentos: Emfim Senhor, este vasto paiz que os elementos tinham já uzurpado á Coroa de V.A.R. fica por esta feliz operação reconquistado para sempre.
Mas a Grande Obra que abrio a Barra e que he a mesma que deve segurar e perpetuar os seus grandes resultados, precisa ainda por algum tempo a Particular Protecção de V.A.R. assim como de todos os meus cuidados, para a consolidar, e ultimar como convem afim de segurar para as futuras geraçoens o resultado já obtido, e no maior gráo. Não tendo interrompido os meus trabalhos e cuidados relativos a esta obra senão pellas occupacoens, o obrigaçoens do honroso Posto que me foi confiado no Exercito que marchou a restaurar a Capital, e o Governo, hoje felizmente Restaurado, conservei contudo quanto pude com a mesma obra correspondência para a derigir quanto era possível de longe: Agora que pellas ordens de V. A. R. os Militares que compunhão este Exercito marchão a seus antigos destinos, conto voltar bem depreça ao meu posto e Comissão, o que farei com tanto mais gosto quanto eu estou persoadido de que he ali onde eu talvez por ora, possa fazer a V.A.R. o maior serviço.

Mafra, 30 de Setembro de 1808

Luiz Gomes de Carvalho»



Notas: 
1. Carta citada no livro “Gafanha da Nazaré — 100 anos de vida”;
2. Foi mantida, quanto possível, a grafia usada pelo autor da carta.

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