São Jacinto

Uma curta visita
para matar saudades



Passei há dias por São Jacinto para matar saudades dos tempos em que lá trabalhei e onde conheci e convivi com gente trabalhadora e muito simpática. Eram tempos de muito trabalho nos Estaleiros de São Jacinto, mais conhecido por Estaleiros do Roeder, nome do seu fundador e grande industrial de visão de futuro. Os estaleiros eram um grande empregador da região, mas também lá estava a Aviação Naval, que entretanto se virou para a Força Aérea. Houve uma seca do bacalhau e muitos homens e rapazes dedicavam-se à pesca, atividade que ainda se mantém. Estaleiros e seca deixaram tristes e abandonados vestígios, mas o povo se São Jacinto precisava de muito mais para sobreviver com trabalho digno, sem ter que se deslocar, que as viagens são caras. 
Andei pelas ruas, passei por lugares mais centrais, apreciei a serenidade da terra separada da sede do concelho (Aveiro) pela ria, que nunca se vislumbrou vontade férrea de construir uma ponte, à semelhança da Ponte da Varela, que liga Murtosa à Torreira. Mas isso é outra história. Dizia-se, há anos, que era preciso manter a praia com toda a sua virgindade, de braço dado com a virgindade da Reserva Natural da Mata de São Jacinto. 
Vi muitas pessoas. Nas mais velhas tentei adivinhar nomes de eventuais alunos de há 50 anos. Com medo de errar, não fiz perguntas, mas as feições até me pareciam de gente que me era familiar. Alguns cafés fecharam (dizia-me um transeunte que a ASAE foi a causadora). Num deles, onde almoçava, as caldeiradas não faltavam, com peixe fresco a saltar da laguna. Nunca me cansei desse prato. E recordei o dia em que me armei em esperto quando quis comprar na lota ao ar livre e à beira-ria um lote de pescado. Saiu-me caro. Mas uma senhora, que me conhecia, perguntou-me, baixinho: «Quer levar mais peixe?» Eu respondi que sim e então ela entrou na lengalenga, com conhecimento das regras. Comprou-me o dobro do peixe pelo mesmo preço. Por que motivo me armei em esperto?

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