O sonho da democracia



«Não falta quem aponte os outros para acusar e condenar, desviando, assim, a atenção de si próprio. Um dia, que pode não demorar muito, os acusadores dão em acusados e os juízes em réus. Nos tempos, ainda pouco longos da vida do país democrático, já assistimos a tudo isto: um dia gente válida e noutro dia pouco menos que canalhas…»

António Marcelino


“A verdadeira democracia é um sonho não realizável a curto prazo”, ao contrário do que  pensam muitos dos que julgaram que tudo estava conseguido na manhã dos cravos e que se ficava democrata de um momento para o outro e não sem  esforço próprio.

Dizer à gente do poder, aos dirigentes partidários, sindicais e agentes da comunicação social e, até, a alguém do povo anónimo que, pelo seu modo de pensar e agir, não são democratas, é grande ofensa que se lhes pode faz. A verdade, porém, é que a ligeireza com que nas relações se espezinham direitos fundamentais e se alimentam privilégios sociais, o orgulho com que se opina sem apelo, a facilidade com que se ataca quem tem opiniões e opções políticas e sociais próprias, o modo como se julga na praça pública, por suspeitas não provadas, a vida de muita gente, a crescente dificuldade de se reconhecerem deficiências graves na legislação, no governo e na oposição, a esperteza dos que leem as leis sempre em seu favor, os juízos apressados e infundados ditados por preconceitos, o facto de pensar que se sabe tudo e os outros são ignorantes e incapazes, faz pensar que estamos de novo em clima de ditadura, onde nem todos têm lugar. São nichos com influência social, é verdade. O conjunto é gente sensata.

O modo como se julgam cidadãos de cor política diferente faz pensar que o país está cheio de gente impoluta, os acusadores, com alguns execráveis, os acusados, a estragar a paisagem. Quando se conhecem os acusadores, a viola que de há muito tocam e a sua folha de comportamentos cívicos, e que agora apanharam a onda que lhes dá realce e encobre misérias, sente-se o farisaísmo corrente de quem engole os seus camelos e filtra os mosquitos dos outros. O farisaísmo, pela sua incoerência, é repugnante. Com razão a Bíblia chama aos fariseus “sepulcros caiados de branco”.

Em todos nós há grãos de trigo e grãos de joio, ambos aguardando o tempo da colheita ou o cair do pano. Em todos subsiste a fraqueza do engano e a capacidade de erro e, ao mesmo tempo, a possibilidade de bem, de emenda de erros cometidos por fraqueza ou negligência, e o direito de participação e de colaboração. É hipocrisia e orgulho cego condenar alguém como se fosse incapaz de melhorar e até de reparar o que fez de menos bom, como o é colocar a linha da moralidade pública a separar direitas e esquerdas. A história diz-nos como políticos veneráveis de ontem baralham agora as mãos, segundo interesses pessoais e partidários.

Não falta quem aponte os outros para acusar e condenar, desviando, assim, a atenção de si próprio. Um dia, que pode não demorar muito, os acusadores dão em acusados e os juízes em réus. Nos tempos, ainda pouco longos da vida do país democrático, já assistimos a tudo isto: um dia gente válida e noutro dia pouco menos que canalhas…

A verdadeira democracia exige aprendizagem e esforço diário, em que se aprende, de modo humilde, a procurar e a viver a verdade, a respeitar as diferenças, a apreciar o bem de cada um, a olhar o bem de todos acima de proveitos pessoais de qualquer ordem, a dialogar, sem rótulos nem preconceitos. Quem não olha o bem de todos e não se empenha no enriquecimento mútuo, não tem sentido de cidadania. Quem é incapaz de alargar os seus horizontes a uma visão mais larga, como a do bem comum, está, sempre que intervém, a empobrecer-se a si e à comunidade. Quem orienta, pessoas ou grupos, uma intervenção para bem próprio ou de classe, sem olhar à realidade social que o cerca, desconhece o que é ser solidário e responsável e, pelas suas atitudes públicas desatentas agrava a situação dos mais desprotegidos e o empobrecimento do país. A sociedade é um corpo que, nas suas alegrias e dores, nos seus êxitos e fracassos, toca a todos e não ninguém indiferente.

Mas não é verdade que na nossa sociedade há injustiças, corrupção, discriminações, decisões erradas? Certamente. Mas nada disto se resolve com julgamentos fáceis na praça pública, atitudes pidescas, condenações sem apelo nem contraditório, manifestações comandadas. Um país democrático tem meios legais para corrigir.

A moral republicana e os valores com o mesmo nome beberam de uma matriz cultural cristã de séculos, e valem na medida em que se mantêm alimentados por esta matriz, independentemente da adesão religiosa. Sem conteúdos sérios, pontos permanentes de referência, não há construção de democracia, nem passos que permitam a sua solidez. Em Portugal não falta gente séria e válida, tanto nos meios urbanos como nos rurais, empenhada na construção de uma sociedade democrática. Ouçam essa gente.

António Marcelino



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