O Marnoto Gafanhão — 5

Um texto póstumo de Ângelo Ribau



Sal de "pedra" fina



Agora, por cerca de três meses, será sempre, todos os dias, uma repetição do que se fará a partir de depois de amanhã, terça-feira.

Hoje, segunda-feira, o tempo continua bom, com sol. A marinha “pegará macia”, o que quer dizer que o primeiro sal a ser colhido, será de “pedra” fina.
Logo que a moira aqueceu, o marnoto e o moço mais velho, pessoas experientes, pegam nos galhos e vão “bulir” (mexer a moira), misturando-a, para que toda aqueça ao mesmo tempo.
Quando o tempo se mantém sereno, sem vento, esta operação tem de ser repetida, à tarde, agora não para misturar a moira mas para quebrar as “peles” (uma camada finíssima de sal que se forma à superfície, quase como farinha, e que serve para temperar as saladas) que, por falta de vento, se acumularam à superfície. Autorizados pelo marnoto, os moços mais novos aproveitavam esse sal que depois vendiam a quem lho encomendava.
Passados dois dias, após a botadela, chegou a altura de começar a colher o resultado de tanto trabalho.
A marinha era dividida em três mãos (três partes, na vertical), o que quer dizer que só passados quatro dias a primeira-mão voltaria a ser rida.
Os meios eram quebrados (o sal era puxado com um galho dos lados dos meios para o centro dos mesmos —  para os vieiros) e daí, era rido (arrastado com a rasoila para o tabuleiro do sal onde ficava a escorrer). Quando todos os meios estavam ridos, puxava-se todo o sal para cima do tabuleiro que, ficando fora do contacto com a moira, escorria mais facilmente tornando-se mais leve, o que facilitava a dura tarefa de o transportar para cima da eira.

A “Novazinha das Canas” ia finalmente “estrelar” (pôr o primeiro sal em cima das eiras)… Os primeiros marnotos faziam-no com certa vaidade, pois era sinal de que tinham trabalhado bem na preparação da marinha… 
A redura (quantidade de sal colhido) neste dia era pequena. Mesmo assim, lá foi a primeira canastra de sal para cima da eira!
— Estrelámos! — Diz o Ti Marendeiro.
Merendeiro, o moço mais velho, teve a honra de carregar com a primeira canastra…
Enquanto púnhamos as canastras a secar, depois de lavadas no esteiro, olhamos em volta.
— Só as “Cortes de Baixo e a de Cima”, que são mais “valentes”, estrelaram antes de  nós! — Diz o Ti Marendeiro, mostrando satisfação.

Não tardariam oito dias que todas as marinhas estivessem “a sal”, e então a vista da Ria seria maravilhosa, com todos aqueles montículos. Um sonho, mas um sonho em que o Tónio nunca pensara colaborar como efetivo, só nas férias… Enfim, a vida tinha-lhe reservado destas surpresas. E não seria a única. 

Começou a época do sal, a mais difícil e trabalhosa das marinhas.
Era levantar cedo, pegar no cesto com o “tacho” - normalmente um tacho com “caldo” uma sopa consistente para o pequeno-almoço, e um mais pequeno com o “conduto”, que juntamente com um pedaço de broa serviria de almoço - preparado pela mãe, que para tal se tinha de levantar cerca das cinco horas da madrugada.
Chegados à casa do João Banca, era pegar na vela da bateira que aí ficava todas as noites, na jarra da água que todos os dias era cheia - era impossível esquecer a água no ambiente salgado onde se trabalhava. Um moço com a vela ao ombro, outro com a jarra, e íamos para a bateira. Chegados, cada um tomava o seu lugar. Dois, um a cada remo. O marnoto ao leme e os restantes sentados no bordo da bateira, abriam os cestos e comiam a primeira refeição (a mais consistente do dia).
— Vá, toca a comer depressa que os camaradas que vão ao remo “tamem” têm de comer antes de chegarmos à marinha, que hoje lá não falta trabalho!
Chegados, os cestos da comida eram pendurados em cruzetas existentes no intervalo, onde corria sempre água, o que evitava que a comida fosse atacada pelas formigas que abundavam nas marinhas de sal.

E começava a faina.
Ugalhos e rasoilas ao ombros e lá íamos nós para a “mão” onde era para colher o sal. Eram cinquenta meios que teriam de ser colhidos naquele dia. Cada um daria cerca de três canastras de sal.
O Tonio ia rendo e pensando: “Mais ou menos três canastras por meio, vezes cinquenta meios, dá cento e cinquenta canastras, a dividir por três (os moços que transportavam o sal para a eira), dá a cada um cinquenta canastras… cinquenta vezes do tabuleiro até à eira… em média cinquenta metros do tabuleiro à eira, metade carregado com cerca de sessenta quilos de sal, e no retorno com a canastra vazia...”
— Anda-me com essas mãos rapaz, senão adormeces! —  Grita lá de longe o marnoto.



Toca a andar era a solução…
Rido o sal, depois transporá-lo para a eira, levou o seu tempo. Quando terminámos era já meio-dia velho. Toca a lavar as alfaias e as canastras e pô-las a secar, foi o serviço seguinte, até que chegou a ordem do marnoto:
— Toca a comer enquanto eu vou abrir o tabuleiro, mas depressa, porque temos que ir limpar aquelas cabeceiras do meio. 
Enquanto estivéssemos naquela malvada marinha havia sempre serviço para fazer. E se não houvesse, parece que se inventava… Maldita vida, a de quem trabalha nas marinhas de sal!
Pegámos nos cestos, comemos o resto do caldo que havia sobrado da manhã, depois o conduto que estava destinado para o meio-dia — normalmente peixe frito, com um naco de broa — e estávamos almoçados, depois de pôr a boca na jarra a beber umas goladas de água valentes.
Estava terminada a manhã desse dia. Entretanto o marnoto, que tinha acabado de “amanhar” o tabuleiro, pega num pedaço de broa, numa posta de peixe frito, pendura o cesto na cruzeta do tabuleiro e vai debicando o almoço enquanto ordena ao pessoal:
— Toca a reformar (renovar) as águas do resto da marinha…

O Toino já chateado com tanta ordem:
— Nem deixa uma pessoa endireitar as costas. É só toca, só toca…” diz, dirigindo-se  ao moço mais velho ao Ti Manel. Este que sabia com quem lidava responde ao Toino:
— Se o marnoto te ouve levas uma pazada pelas costas, que é para ouvires, cumprires as ordens e calado…

Reformada a marinha, os serviços foram nesse dia dados por terminados, as alfaias foram arrumadas no palheiro, que foi fechado à chave e esta escondida no malhadal, entre as ervas, ou no buraco de uma rata.
Antes de regressar, o marnoto corre a vista pelo horizonte, tentando adivinhar o tempo que iria fazer no dia seguinte. O vento norte era fraco. O céu estava azul. Depois correu a vista para nascente. A serra do Muradal, a serra do Caramulo…
— Oh, diabo. Amanhã vamos ter nordeste...
— Como é que sabe? - Perguntou o Toino. 
— Vês aquelas “pombinhas” acolá por cima da serra?” — E indicou pequenas nuvens brancas que se mantinham sobre a serra — É sinal de nordeste amanhã”
— ???
— Amanhã verás que eu tenho razão!
E partiram para a bateira de regresso a casa.
Novo dia, repetição do serviço do dia anterior. Rer, acarretar o sal para o monte que ia crescendo no malhadal, amanhar a marinha…
Só que neste dia o sol já era mais quente que no anterior. Na verdade o marnoto sabia o que dizia. Veio nordeste, vento quente, que aumentou a produção de sal - cada meio produziu mais cerca de uma canastra de sal. Estávamos no mês de Junho, os dias eram mais compridos, havia mais tempo de sol, a produção subia e o trabalho aumentava. Felizmente que ainda não havia feridas nos pés. Quando elas chegassem, com a temperatura da moira, seria um sacrifício enorme. Só quem já sentiu essas dores, pode avalia-las. É de rilhar os dentes… Quando se anda muito tempo com os pés dentro da moira e eles estão feridos os “poços” chegam a atingir o osso…

Mais um dia, quase igual a tantos outros. Só que este mais trabalhoso. E se o tempo continuar com nordeste, a produção de sal aumentará e o trabalho também, já que há aumento de produção, mas não aumento de pessoal para acompanhar o da produção!
Não tardarão muitos dias que de tanto caminhar por machos e pranchas, as solas dos pés comecem a ficar desgastadas e a aparecer “pintassilgos” - pequenas manchas vermelhas provocadas pelo desgaste das solas. Então quando se anda a acarretar o sal e uma pedra maior é pisada pela sola do pé naquele local, atinge a “carne viva”… O Toino, ainda rapaz novo mas que tinha de alombar com a sua canastra, não conseguia evitar uma lágrima rebelde que lhe corria pela cara!

Mais outro dia, este pior que os outros, na perspetiva dos moços, melhor, do ponto de vista do marnoto. A produção aumentava com as temperaturas e os montes de sal era vê-los crescer no malhadal. A “roda” do monte (sítio mais alto onde chegava um homem com os braços esticados e onde ficava assinalado o formato das canastras do sal que aí era depositado) estava cheia. Era necessário agora transportar o sal para o cimo dos montes, para o curuto! Eram colocadas duas pranchas de madeira, uma que ia da base da eira até ao cavalete (uma espécie de dois triângulos ligados entre si por barras de madeira) e a outra do cavalete ao cimo do monte.
Se a tarefa em princípio era dura, agora essa dureza duplicava. As pranchas de madeira cheias de sal “comiam” as solas dos pés. Enfim, era aquela a vida de quem trabalhava nas marinhas de sal e não havia como fugir-lhe. Os trabalhos eram poucos naquela altura e era, para os homens, a agricultura ou as marinhas de sal, e para as mulheres, as secas do bacalhau. Havia ainda os estaleiros navais e as oficinas de serralharia e carpintarias, mas estes eram para pessoal com outras especializações. Nas marinhas de sal, só o marnoto era altamente especializado. O restante pessoal era força bruta…
Havia que trabalhar. Era a solução! O nordeste duraria ainda mais uns oito dias segundo as previsões do marnoto, e a produção sempre a aumentar!
Desanimados, ainda ouvimos o moço mais velho dizer, enquanto comíamos ao meio-dia:
— O pior ainda está para vir…
— Porquê? — Perguntámos.
— Com a temperatura da moira provocada pelo nordeste, todas as pedras de sal se vão transformar em “pregos”. A marinha vai ficar “encaldada” e dará muito mais trabalho. O sal fica tão duro que parecem autênticos pregos que se espetam nas solas dos pés, provocando dores horríveis! 
Assim foi. A temperatura da moira aumentava, a produção subia, e lá apareceram os “pregos” com todas as suas consequências…
Nesses dias vínhamos mais tarde da marinha, porque à tardinha, todos os meios tinham de ser “bulidos” para quebrar todo aquele sal e para que, no dia seguinte, fosse mais fácil “rer”, tentando evitar toda aquela pregaria. O que nem sempre se conseguia… 
Assim passámos quase uma semana. Mas como é que o marnoto sabia que o nordeste iria durar uma semana?! Coisas que só a prática da vida nos dá!
O tempo parece querer arrefecer. Ao fim da tarde, o vento do norte, fresco, parecia querer vencer o do nordeste ainda muito quente… O Toino perguntou ao pai se iríamos ter mudança de temperatura. Este olha desde a boca da barra, passa o olhar por cima do campo de aviação de São Jacinto, por cima da mata, até ao Muranzel. Aí para, aspira o ar com força, olha as serras, e diz: 

— Dentro de uns dois dias vamos ter norte fresco!

(Continua...)

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