terça-feira, 30 de Junho de 2009

Educar para os valores?


1. Vem a público um grande inquérito de análise comparativa sobre os valores pessoais e sociais dos portugueses nos últimos dez anos. Este género de documentos interessa a todos os que de algum modo se preocupam com o progresso da sociedade tendo em vista um desenvolvimento pautado por valores com valor. Este inquérito intitulado Dez anos de valores em Portugal é apresentado ao público num seminário na UCP (30-06-09) tendo como pano de fundo a temática: A urgência de educar para os valores. Reveste-se de ampla pertinência o estudo em que, mesmo contando com a densidade das subjectividades, vai ao encontro de questões de fundo futuras da comunidade nacional.

2. A destacar duas linhas força de conclusões: uma que confirma o individualismo dos portugueses, outra que há menos preconceitos raciais nesta entrada do terceiro milénio da sociedade global. Muito mais que enquadramentos e suas justificantes, valerá a pena ir além das conclusões do estudo e lançarmos o olhar sobre quem e como se (?) tem procurado desenvolver as apostas decisivas nesta área dos valores consensuais, apostas que serão educativas em ordem ao futuro. Não chega, de quando em quando, a realização de inquéritos e sondagens sobre as descortinadas variáveis de tipologias comportamentais; feitos os diagnósticos, importará uma reflexão como acção conforme as carências detectadas, e mesmo sobre o que se considera valor e se esse deve ser tido em conta no proceder cidadânico de alguns, de muitos, ou de todos.

3. Sobre esta questão de fundo, sempre aberta, a largueza até pode conduzir à própria indiferença. Estará clarissimamente na hora da designada elite intelectual, cuidadosamente sempre de forma aberta e pluralista, saber construir alguns consensos razoáveis em torno de alguns valores pessoais e sociais, não como imposição mas como proposta gratificante de realização e de vidas com sentido. Especialmente estando a educação tecnológica generalizada, valerá (re)parar em Valores. Dá-se valor?

Alexandre Cruz

Um livro sobre a Gafanha de Maria Donzília Almeida e Oliveiros Louro

Domingos Cardoso, Donzília Almeida e Oliveiros Louro, na apresentação da obra


“Língua e Costumes da Nossa Gente”
é um desafio à memória de muitos leitores


No dia 6 de Junho, na Biblioteca Municipal, foi apresentado pela Confraria Camoniana de Ílhavo o livro “Língua e Costumes da Nossa Gente”, da autoria de Maria Donzília de Jesus Almeida e Oliveiros Alexandrino Ferreira Louro. Ambos gafanhões, da Gafanha da Encarnação, e docentes do ensino secundário.
Trata-se de uma obra que retrata actividades ligadas à ria, que serviu de “matriz das sucessivas gerações que tão prodigamente acolheu e alimentou”, como se sublinha em “Nota Prévia”, assinada pelos autores. Há ainda “expressões e vocábulos que ouvíamos nas nossas meninices”, mais “breves descrições de alguns usos e costumes”, documentos e curiosidades.
Com edição dos autores e Prefácio de Domingos Freire Cardoso, da Confraria Camoniana de Ílhavo, “Língua e Costumes da Nossa Gente” apresenta-se a cores, em bom papel e com arranjo gráfico cuidado. Profusamente ilustrado, o livro é agradável à vista e um desafio à memória de muitos leitores, sobretudo da nossa região.
Domingos Cardoso frisou, na apresentação da obra, que este trabalho é uma “manta de retalhos, no bom sentido”, bonita e interessante, mas também com apontamentos de humor, de leitura fácil e agradável, e para consulta frequente.
Maria Donzília, que falou em seu nome e em nome do seu colega Oliveiros Louro, recordou que ambos estudaram em Coimbra, onde criaram “gosto pela arte literária”. Afastados por obrigações profissionais, como professores que sempre foram, o reencontro deu-se anos depois, em escolas vizinhas, nas Gafanhas da Nazaré e da Encarnação.
O tecido social da terra que os viu nascer foi-se alterando e ganhou consistência. O linguajar das suas meninices corria o risco de se perder, daí a preocupação de registar no papel a riqueza cultural do passado, como frisou Donzília Almeida. E na esperança de que “nestas páginas todos se revejam”, manifestou o desejo de que os registos agora publicados constituam “o princípio de novas investigações.”
Em conversa com os autores da mais recente obra sobre a Gafanha, segundo cremos, ficámos a saber que o prazer que sentiram ao escrever este livro se baseou na experiência enriquecedora de terem remontado às “suas raízes”, sobretudo a Donzília, que viveu 20 anos no Porto. Aliás, “esse facto agudizou o seu amor à terra natal”, como salientou.
Ainda adiantaram que tiveram a preocupação de fixar, por escrito, “a língua antiga, carregada de regionalismos, que são uma preciosidade, nos dias de hoje e para as gerações vindouras”.
Ambos referiram que “o contacto directo com o povo simples foi muito agradável e revigorante”, mas não podem deixar de lamentar a falta de apoio da Câmara Municipal de Ílhavo para a edição deste trabalho.

Fernando Martins

Almoço Missionário: Centro de Recursos Mãe do Redentor, na Gafanha da Nazaré

(Clicar na imagem para ampliar)


Aqui fica o convite para um Almoço Missionário, uma organização da ORBIS - Cooperação e Desenvolvimento. É já no próximo domingo e ainda há alguns bilhetes por vender! Se puder e gostar (porque será moamba, receita tradicional angolana), a sua participação será bem-vinda! As inscrições podem ser feitas em 917494874, 964417249 ou almocomissionario@hotmail.com

segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Museu do Vinho de Anadia recebe Confraria Gastronómica do Bacalhau de Ílhavo

Um aspecto da visita

FESTIVAL DO BACALHAU
- Jardim Oudinot, 19 a 23 de Agosto -

A Confraria Gastronómica do Bacalhau visitou recentemente o Museu do Vinho de Anadia, visita integrada no programa de actividades culturais e lúdicas da instituição gastronómica ilhavense.
Presentes alguns confrades, os quais foram recebidos por responsáveis do Museu, tendo visitado as salas da vinha, vindima, prova e vinificação, com a mostragem dos espumantes, das caves e adegas existentes na zona da Bairrada.
Também foi interessante ver os diversos artefactos que ilustram a evolução técnica da viticultura, que, para alguns dos confrades presentes, não foram novidades, havendo muitos utensílios ainda em uso nas suas propriedades.
O roteiro da Bairrada, a enoteca, a biblioteca e mediateca foram outros espaços visitados pelos confrades, além da colecção de 1400 saca-rolhas oferecidos ao Museu pela família do Comendador Adolfo Roque e das exposições de pintura, fotografia e escultura patentes na altura.
O almoço foi servido na sala de Restauração do Museu e como prato da região foi servido Leitão e espumante da Bairrada.
Esta visita dos Confrades do Bacalhau ao Museu foi aproveitada pela direcção para anunciar o próximo Festival do Bacalhau, que decorre no Jardim Oudinot, de 19 a 23 de Agosto, e cuja organização é formada pela Câmara de Ílhavo e pela Confraria Gastronómica do Bacalhau. Ainda foi anunciado que está para breve a concretização de um desejo de anteriores direcções, que é a existência de uma sede e o aparecimento de um espaço na internet.

Carlos Duarte

Michael Jackson maior que “Si”


1. As últimas décadas viram nascer e crescer um conjunto de grandes artistas que, à medida que o mundo das comunicações se foi globalizando, os tornou presentes em toda a parte. Assim aconteceu com Michael Jackson (1958-2009), que (na internet) é colocado entre os cantores, compositores, actores, dançarinos, escritores, produtores, poetas, instrumentistas, estilistas, ilusionistas e empresários. O artista cresceu muito, tendo sido a sua estrutura de personalidade, de um jovem que não viveu a juventude e de uma criança forçada ao trabalho musical, desafiada fortemente a compreender o preço da fama planetária. O álbum mais vendido da história da música Pop – Thriller – editado em 1982, sendo na altura uma revolução envolvida de dança e inovação de vídeo-clip é marca de recorde de vendas.

2. Por estes dias, na ocasião de seu falecimento, foram muitas as reportagens e entrevistas que ajudam a compreender muitas realidades da vida dos artistas por dentro, do altíssimo preço da fama e da estrutura mental necessária para conviver com a perseguição mediática. Após grandes baixios de imagem pública, o chamado «King of Pop» (Rei da Música Popular) preparar-se-ia bem acima do limite humano para dezenas de concertos, de duas horas imparáveis de dança. A fasquia seria muito alta, a medicina terá atenuado as dores da exigência dos compromissos, a fragilidade acrescentada nos últimos anos tornaram desumana a tarefa. De entrevistas do próprio Michael Jackson gravadas e dadas nestes dias ressalta uma surpreendente pequenez de uma tão grande vedeta da música capaz de entupir as redes da internet.

3. O seu “nome” tornou-se imensamente maior que a sua pessoa humana. O fenómeno global a que quanto mais se foge – de fotógrafos, fãs ou de casos de escândalo lançados sobre si… (?) –mais se é perseguido, fala-nos de uma tremenda factura que se paga, quando a estrela já não pode respirar em liberdade mas é escrava da sua condição. A música fica, o mito nesta morte adensa-se. A história da vida, fala…

Alexandre Cruz

Férias em tempo de crise




Dois livros como sugestão de leituras

Penso que o conhecimento do nosso passado, que tanto nos enche de orgulho, deve ser intensificado. Só amamos verdadeiramente o que conhecemos bem.
O ilhavense Senos da Fonseca escreveu uma obra, “ÍLHAVO - Ensaio Monográfico”, com diversas pesquisas, estudos e informações, sobre terras ilhavenses, que merece ser mais lida.
Também dois gafanhões, da Gafanha da Encarnação, Maria Donzília Almeida e Oliveiros Louro, publicaram recentemente “Língua e Costumes da nossa Gente”, que nos convida a recordar cenas da infância do nosso povo mais velho.
Afinal, são dois livros que podem ajudar a passar umas boas horas ou dias das nossas férias.

Um poema de Orlando Figueiredo


VIAGEM

Sabes o caminho
não sabes os passos

Como uma criança
os teus olhos buscam
a rota dos pássaros no céu
Cabeça erguida
sorvendo o vento
no deserto

Não sabes os passos
apenas
a rota dos pássaros no céu
a estrada aberta pelos veleiros
entre azul e neblina

Não sabes os passos
sabes o caminho
do vento

O deserto
é o orvalho
das noites

Orlando Jorge Figueiredo
25 de Junho 2009

domingo, 28 de Junho de 2009

Dia um tanto ou quanto desagradável para o meu gosto


Maria Filomena Mónica mostra
um sentido crítico muito apurado

O dia está um tanto ou quanto desagradável para o meu gosto. Isto é, não me aconselha a sair de casa. Aliás, é aqui que sinto a intimidade do meu mundo muito especial. Se não dá para sair, dá para ler e ouvir música.
O livro que me ocupou um tempinho, e que vai continuar a ser lido, numa perspectiva de viajar com a autora, tem por título “Passaporte – viagens 1994-2008” e foi escrito pela socióloga Maria Filomena Mónica. Para já, fui com ela ao “Islão Ibérico”, revisitei “Lisboa”, fui a “Fátima fora de horas”, participei numa “Viagem ao fim da pátria” e andei com ela pela terra dos seus avós. As outras viagens ficarão para um dia destes.
Permitam-me que sublinhe o poder descritivo e a cultura multifacetada de Maria Filomena Mónica, sempre com o sentido crítico muito apurado. Porque não quero ocupar, de forma alguma, o lugar dos críticos, apenas refiro que é um livro que se lê com gosto. O leitor, quer queira quer não, sai normalmente enriquecido com obras destas: recorda factos, passa pela história já um pouco esquecida e aprende muito do que ela revela e descobre por onde viaja. Com naturalidade, com conhecimentos que escapam ao comum dos mortais, com saber, com olhar atento.
O leitor pode não concordar com a visão que ela tem do mundo, com as apreciações críticas por vezes contundentes, mas, no fundo, dá sempre gosto ler Maria Filomena Mónica.

FM

FÉRIAS EM TEMPO DE CRISE: Importa descobrir o nosso concelho

Costa Nova em tempo de férias

FÉRIAS ECONÓMICAS: Não há nada como aproveitar o que a terra oferece

Para umas férias económicas em tempo de crise, não há nada melhor do que aproveitar o que a terra oferece, tanto em termos de festas dedicadas aos padroeiros das paróquias, como no âmbito das organizadas pelas autarquias e instituições culturais, recreativas ou desportivas, com larga aceitação junto das populações.
O nosso concelho, como é sabido, tem quatro freguesias, as quais abrangem seis paróquias, estando garantido que haverá festejos em todas elas. Depois, a Câmara Municipal não deixará, à semelhança do que tem acontecido nos anos anteriores, de oferecer ao povo diversos espectáculos, uns mais populares e outros de nível artístico mais elevado. Para todos os gostos, diga-se de passagem. Mas Ílhavo tem muito mais para dar. Importa, pois, descobrir o nosso concelho em tempo de férias.
Permitam-me que sugira visitas ao Museu Marítimo de Ílhavo e ao Museu da Vista Alegre, que nos dão o prazer de apreciar raridades nem sempre conhecidas do nosso povo. O Centro Cultural da sede do concelho continua a programar espectáculos dignos da nossa melhor atenção, para todas as idades e para todos os gostos.
Há festivais de Folclore que são, normalmente, excelentes motivos para recordarmos o viver dos nossos antepassados. E poderão ser, ainda, um forte estímulo para a nossa juventude, de todas as idades, se dedicar ao estudo do nosso passado histórico, com tantas estórias para contar e para divulgar.
Se quiser dedicar um dia à cidade maruja, não deixe de apreciar alguns edifícios de Arte Nova e diversos recantos das nossas paisagens naturais. No mês passado sugeri a frequência da Praia da Barra e hoje viro-me para a da Costa Nova. A primeira mais para os gafanhões e a segunda mais para os ílhavos, por razões criadas ao longo dos tempos e que nem sempre se compreendem muito bem.
Lembro ainda que o Jardim Oudinot deve continuar a ser visita obrigatória para toda a gente das terras ilhavenses, com programação a condizer com o Verão que já nos aquece, e de que maneira!

Fernando Martins

José Tolentino Mendonça: É utópico pensar radicalmente a sociedade do dom e da colaboração

Entrevista publicada na RevistaÚNICA do EXPRESSO
:

(Foto de Tiago Miranda)

"É PRECISO OUVIR O SILÊNCIO DO MUNDO"

"Num dia de denso calor, no fresco jardim da York House, em Lisboa, o madeirense José Tolentino Mendonça, 43 anos, padre e poeta, mas sobretudo, um pensador livre, parou o tempo para falar de utopia. Um homem que admira os místicos, escreve sobre sensualidade e sabores na Bíblia e gosta de cidades. Em Nova Iorque, observa a multidão "numa coreografia de Pina Bausch". Nos mosteiros, escuta a profundidade do silêncio. Esta entrevista é atravessada por essa luminosidade."
Ler toda a entrevista aqui

sábado, 27 de Junho de 2009

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS – 137



BACALHAU EM DATAS - 27
:

Iate Nazareth




I CONGRESSO NACIONAL
SOBRE A PESCA DO BACALHAU




Caríssimo/a:


1920 - «A imprensa ilhavense referia que, no início dos anos 20, os navios franceses estavam já equipados com telefonia sem fios, como podiam contar com um navio-hospital.» Oc45, 86


1921 - «O governo nomeou em 1921 uma comissão com o fim de estudar e propor um conjunto de medidas que conduzissem ao desenvolvimento da pesca do bacalhau.» HPB, 69

«O governo decretou a criação da Junta de Fomento da Pesca, na Póvoa do Varzim, dotada de meios para fomentar a construção de novas embarcações. Mas tal medida não trouxe qualquer alteração significativa.» HPB, 71

«A partir de 1921 a frota bacalhoeira volta a compor-se por mais de 35 embarcações.» Oc45, 86

«Em 1921, Aveiro tinha 11 navios da pesca do bacalhau. O ano foi excelente. “A Gafanha está a abarrotar e nos secadouros já não sabem onde o hão-de arrumar”. Nos finais de 1921, os periódicos locais anunciam a venda de um lugre de 500 t, “acabado de lançar à água, de magnífica construção”. Mas entretanto perguntava: “Para onde vai tanto bacalhau? Escondem-no para o venderem pelo preço que querem, com lucros fabulosos à custa do povo faminto e desgraçado? Na época das colheitas sempre os preços baixam, mas o bacalhau, esse, em vez de descer sobe?”» HPB, 76


1922 - «Localizados na zona norte da Ria de Aveiro, uma zona conhecida por actividades de construção naval ligadas à construção de barcos moliceiros, também aqui foram construídos alguns lugres para a pesca de bacalhau, principalmente pela mão do mestre José Maria Lopes de Almeida, natural de Pardilhó, nos Estaleiros do Bico da Murtosa. Em 1922, este mestre já havia construído nessa paragem, um lugre de madeira para a pesca do bacalhau, o MARIA DA CONCEIÇÃO, para a Sociedade Construtora Naval, L.da, Bola Vilarinho & C.a, L.da, armadores da praça de Aveiro, bem como o hiate LIGEIRO. Não foi executada naquelas instalações outra construção de grande tonelagem até 1945.» Oc45, 115


1923 - «Em 8 e 9 de Outubro, realiza-se em Aveiro o I Congresso Nacional sobre Pesca de Bacalhau, promovido pela Associação da Classe dos Armadores de Navios de Portugal.» Oc45, 86

«Além do iate NAZARETH, com todos os seus pertences, a Parceria de Pesca, L.da, anuncia, a sequência da decisão de dissolução, a venda dos armazéns, utensílios de seca, etc..» Oc45, 86

« ASSISTÊNCIA SANITÁRIA: À semelhança do que se passou com os franceses ao longo dos tempos, também entre nós a assistência dispensada aos nossos pescadores da Terra Nova começaria com um navio afecto à Armada Portuguesa. Primeiro o cruzador CARVALHO ARAÚJO, mais voltado para os estudos hidrográficos do que para a assistência médica propriamente dita, zarpou para a Terra Nova numa viagem embrionária de apoio à nossa gente, em 1923; depois, o GIL EANES...» HDGTM, 43

Apesar
de vida intensa, em 1922, nos Estaleiros do Bico da Murtosa,
das perguntas da imprensa,
da dissolução de uma sociedade,
do surgir da assistência médica,
saliento hoje o PRIMEIRO CONGRESSO NACIONAL SOBRE PESCA DO BACALHAU, EM AVEIRO, EM 1923!
É salutar fazer paragens dando espaço à meditação e reflexão!

Manuel

Imagem de Deus e do Homem

"A glória de Deus é o Homem vivo"


Independentemente do que se pense sobre a concepção de Deus como mera projecção do Homem, penso que mesmo os crentes não terão dúvidas de que a imagem de Deus será decisiva para a imagem que têm de si mesmos, do Homem e do mundo.

Talvez nada possa prejudicar tanto o ser humano como uma imagem malsã de Deus. Por isso, nunca se agradecerá suficientemente àqueles e àquelas, crentes e ateus, que ousaram, até ao sacrifício da própria vida, purificar a imagem de Deus. De facto, é preferível ser ateu a acreditar num deus que humilha o Homem, o escraviza ou diminui aos seus próprios olhos. Uma imagem malsã de Deus envenena a imagem do Homem e vice-versa.

Cá está! Durante séculos, foi pregado um deus irado e mesquinho. Era tal a sua ira que precisou da morte do Filho para ser aplacado e reconciliar-se com a Humanidade. E, devido ao pecado cometido por Adão e Eva, mandou todos os males ao mundo, incluindo a morte. Durante quanto tempo se pregou que foi por causa de terem comido o fruto proibido - uma maçã, segundo a imaginação popular?

Perante a arbitrariedade de um deus assim, o que podia esperar-se senão ateísmo? Não se tratava de um deus mesquinho e invejoso da alegria dos seres humanos? E não criou esta ideia personalidades atormentadas, torturadas, com a obsessão de não ofenderem um deus que tudo proibia? Ainda recentemente, uma jovem estudante me atirou: "quando penso na Igreja, só vejo proibições, como se a alegria estivesse envenenada".~

Mas, depois, foi-se para um outro extremo, não menos pernicioso. Começou-se a pregar um Deus que é amor, mas sem se perceber o que é o amor. Prega-se então um deus "bonzinho", que nada exige, que não impõe regras nem limites, que permite tudo.

No fundo, um deus que não é nada. De facto, um deus que tudo permite e nada exige ainda ama? Sabemos o que acontece aos filhos com a imagem de pais irados. E que lhes acontece, quando os pais tudo permitem e nada exigem? Quando os pais não impõem regras nem limites, os filhos ainda acreditam que lhes têm amor de verdade?

Afinal, onde reside o equívoco? A imagem de um deus irado estará na base de personalidades torturadas, azedas e violentas; a imagem do deus "bonzinho" estará na base de personalidades anárquicas, desestruturadas, sem auto-estima e igualmente destruidoras.

Assim, o que é preciso compreender é que Deus não impõe mandamentos arbitrários, pelo culto de si e para ser tiranicamente obedecido. É igualmente um erro pensar que os homens e as mulheres ofendem Deus directamente. Como pode um ser finito ofender Deus? Pelo menos segundo a compreensão do cristianismo, Deus não se revelou por causa dele e da sua glória, mas por causa dos seres humanos e da sua felicidade, de tal modo que só o que ofende os homens e as mulheres o pode ofender a ele.

O que Deus exige é por causa do Homem. O único interesse de Deus é o Homem. Como escreveu Santo Ireneu, "a glória de Deus é o Homem vivo", isto é, o Homem plenamente realizado em todas as dimensões. De tal modo Deus ama o Homem que quer que tenha um desenvolvimento íntegro de toda a sua pessoa. Não pode desenvolver-se apenas numa dimensão, pois precisa de um crescimento holístico. Deus quer que o Homem vá tão longe no seu ser quanto pode ser.

É necessário sublinhar este desenvolvimento harmónico da pessoa toda, que é o que Deus quer.

A pessoa deve desenvolver-se no seu ser físico - também é preciso cuidar da saúde, por exemplo -, no seu ser intelectual - é preciso esforçar-se por entender a realidade, entender-se a si mesmo e a sociedade -, no seu ser emocional - cada vez estamos mais despertos para a importância das emoções positivas e negativas na existência humana -, no seu ser social - os outros também existem e sem tu não há eu -, no seu ser artístico - sem beleza, não há salvação -, no seu ser moral - é preciso aprender a distinguir entre bem e mal e a saber julgar do bem e do mal - no seu ser espiritual - não é o Homem, constitutivamente, o ser do transcendimento sem fim, até ao Infinito?

Anselmo Borges

sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Férias em tempo de crise


Sem de algum modo querer aceitar a crise como coisa boa, não posso deixar de admitir que, com ela ou sem ela, até podemos aproveitar uma situação destas, como a que estamos a viver, para passar umas férias com sentido muito positivo.
Sem dinheiro para extravagâncias ou para grandes despesas, podemos muito bem usar o tempo livre para visitar alguns familiares e amigos um tanto ou quanto esquecidos, por força da vida agitada que levamos. Alguns, já de idade avançada ou doentes, talvez se regozijem com a nossa visita, provavelmente há muito esperada.
Umas tardes dedicadas a esta meritória forma de preencher os dias de férias serão, por certo, enriquecidas pelo prazer de recordar tempos idos em família ou em encontros de amigos, com episódios e situações que, revividos, nos hão-de dar algumas alegrias do dever cumprido.
Depois, poderá surgir a descoberta de que afinal ainda podemos ser úteis a muita gente, desenvolvendo em nós o espírito de solidariedade, tão necessário nos dias que correm.
Fazendo isto em época de férias, em momentos de crise, afinal saberemos contribuir um pouco para tornar mais felizes os que são menos felizes do que nós.

FM

Bloqueio ético na Internet!


1. Ninguém duvida de que a auto-estrada da informação traz novas possibilidades que transportam as correspondentes responsabilidades. O recente bloqueio da China durante duas horas ao Google (uma das fontes de informação planetária mais usadas onde em cada momento pode ser encontrado de tudo), sugere uma ampla reflexão. As agências noticiosas chinesas criticaram fortemente em termos de regime educativo o livre acesso do Google à pronografia, o que foi a fundamentação estatal para o bloqueio. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian o fundador do site China Digital Times, Xiao Oiang, sublinha que «é claramente um aviso ao Google bem como a outras companhias estrangeiras», ainda que tal facto represente que o governo quer manter o controlo sobre a Internet.

2. Nesta decorrência, uma medida já está decidida: a partir de 1 de Julho todos os milhões de computadores na China deverão ser vendidos tendo incorporado o chamado Green Dam (barragem verde), um filtro que impede o acesso a determinados conteúdos. Claro que em termos comerciais e no que se refere à óptica da liberdade americana, os Estados Unidos criticaram fortemente a aplicação que «viola as regras comerciais, enfraquece a segurança dos computadores e levanta sérias questões quanto à censura na Internet», refere a BBC. Situação que abre novas dimensões delicadas como apeladoras às múltiplas responsabilidades e aos equilíbrios em jogo nestas estradas da comunicação virtual que cada vez mais têm impacto real.

3. Delicadíssimo este bloqueio no Google que vai dar que falar: reflecte o encontro desencontrado de duas liberdades – 1.ª dos estados (China) ao impedir a pessoa/cidadão de aceder livremente aos conteúdos; 2.ª das ferramentas e utilizadores, na formação de uma liberdade à qual não pertencerão conteúdos deseducativos. Pergunta ainda sem resposta: nesta expansão da consciência global que se efectua, conseguirá a liberdade ser ética, das pessoas aos estados?

Alexandre Cruz

quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Ruas da Gafanha da Nazaré: Alameda D. Manuel II

Alameda D. Manuel II


D. Manuel II



D. Manuel II foi o único rei português
que passou pela Gafanha da Nazaré


Tanto quanto sabemos, D. Manuel II, o último rei de Portugal, foi, provavelmente, o único soberano português a passar pela Gafanha. Mereceria, por isso, ter uma rua com o seu nome. Porém, houve uma razão muito mais forte para que os nossos autarcas dele se lembrassem, já que foi D. Manuel II quem assinou o decreto da criação da freguesia da Gafanha da Nazaré, em 23 de Junho de 1910.
Em 5 de Outubro, como é sabido, foi implantada a República, exilando-se o rei em Inglaterra, sem resistência, ao jeito de quem aceita as circunstâncias. Sua própria mãe, a rainha D. Amélia, tê-lo-á acusado de falta de empenho na luta pela causa monárquica. Mas a sua atitude também é vista como a de um homem que soube pôr os interesses da Pátria acima dos interesses pessoais.
A Alameda D. Manuel II é fácil de localizar. Seguindo pela Rua João XXIII, a Alameda dá acesso ao novo mercado da Gafanha da Nazaré. E já agora, permitam-nos que lembremos aqui a pertinência de uma outra homenagem ao rei que, mesmo destituído do trono, nunca deixou de amar Portugal e os portugueses. Merecia ele, na nossa óptica, numa qualquer praça que venha a nascer na nossa terra, um simples busto, sublinhando-se que foi a sua assinatura que determinou a criação da freguesia.
D. Manuel II visitou Aveiro em 27 de Novembro de 1908, já lá vai mais de século. Depois, deslocou-se à Barra de automóvel, “acompanhado pela sua comitiva e por muitas outras pessoas, que se deslocavam, quer em automóveis, quer em carruagens, indo «á frente do cortejo um verdadeiro exercito de cyclistas»”, como recorda Armando Tavares da Silva, no seu livro “D. Manuel II e Aveiro – Uma Visita Histórica (27 de Novembro de 1908)”.
Esteve no Forte da Barra, onde embarcou num barco saleiro, que o transportou até Aveiro. E na sala das sessões da Câmara, “El-Rei poz ao peito do barqueiro Antonio Roque, da Gafanha, uma medalha de mérito, phylantropia e generosidade, abraçando-se ambos enternecidamente”, como recorda Armando Tavares da Silva, no seu livro já aqui citado.
Esta referência a um gafanhão, que foi homenageado por D. Manuel II, merece que alguém tente descobrir quem era este nosso concidadão, provavelmente o único a ser distinguido por um rei português.

Fernando Martins

A ARTE E A ALEGRIA DE EDUCAR


A E.M.R.C. confere à oferta curricular
um contributo essencial de formação
no quadro da educação integral



1. O ano lectivo aproxima-se do termo. Anuncia-se já o desejado e merecido tempo de férias. Um ano lectivo significa e implica muito tempo de trabalho realizado, de preocupações sentidas, de horizontes sonhados, de alegrias vividas, de êxitos alcançados e de dificuldades ultrapassadas. A escola é tudo isto. Mas é sobretudo uma comunidade de pessoas que se sentem responsáveis e se sabem participantes num projecto educativo comum. A escola nasceu para abrir caminhos novos ao futuro e para ajudar a ver mais longe. Em cada escola brilha já o amanhecer do amanhã. O dia de cada escola é sempre um acto de fé num mundo melhor. Esta é, por isso, uma hora de gratidão por tanto trabalho aí realizado e por todo o bem que na escola nasce.
António Francisco,
Bispo de Aveiro

Ler toda a Nota Pastoral aqui

Dia da Igreja Diocesana: Domingo, 28 de Junho, no Santuário de Santa Maria de Vagos

Santuário de Santa Maria de Vagos
:
Todos os diocesanos estão convidados

O Dia da Igreja Diocesana celebra-se no Domingo, 28 de Junho, no Santuário de Santa Maria de Vagos.
Este dia é sempre uma ocasião de convívio, oração e reflexão das paróquias, padres, leigos, grupos, movimentos e outras estruturas que compõem a Diocese. Todos os cristãos estão convidados para este dia, que conclui com a Eucaristia presidida por D. António Francisco, às 16 horas.
No canal de TV Online da Diocese de Aveiro (http://www.diocese-aveiro.pt), será transmitida em directo, pelas 16 horas, a Eucaristia do Dia da Igreja Diocesana, presidida pelo Bispo de Aveiro.

quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Um Livro de Manuel da Cerveira Pinto: “BOASSAS – Uma aldeia com história”


“A neblina da manhã amaciava os longes.
As quebradas dos montes vinham juntar-se em baixo, suavemente, segredando o caminho do rio.
Os refegos, acastelados, ficavam no horizonte, como panejamentos de cores suaves, onde havia cinzentos fimbrados de moreno baço com laivos de neve, tão branco se tornara o nevoeiro com o contacto da luz do sol. Nos primeiros planos das dobras dos montes ainda de desenhavam copas de árvores em borrão; mas, lá adiante, só ficava o dentado dos cerros mais altos em caprichos de formas. E aldeias espalhadas. Porto Antigo e do outro lado do Avestança, Souto do Rio. Depois Buaças, lá longe, onde os homens trazem tatuado nos braços um sino-saimão.”

Alves Redol
In Porto Manso
(Na introdução ao livro)

Para todos os que cuidam
da preservação da nossa identidade

Tenho andado a ler, há meses já, com o cuidado indispensável, que aumenta o prazer, uma monografia interessante, como quase todas as monografias o são. Trata-se do livro “BOASSAS – Uma aldeia com história”, com edição do jornal “Miradouro”, que assino, defensor dos interesses de Cinfães, Castelo de Paiva e Resende. O seu autor, Manuel da Cerveira Pinto, arquitecto, é filho do meu amigo Manuel da Cerveira Pinto Ferreira, director daquele jornal, e distinto cinfanense, que à sua terra deu muito, quer como cidadão culto e empenhado pelas coisas do espírito, como poeta que também é, quer como professor e autarca. Aliás, o autor dedica-lhe uma referência merecida e oportuna, em tempos propícios ao esquecimento dos nossos maiores.
Na apresentação do livro, Manuel da Cerveira Pinto Ferreira diz, com graça, que “Boassas há uma. Apenas esta. Não é, pois, como os chapéus…”. E logo adianta, ao jeito de quem quer abrir-nos o apetite: “Consta, com alguma base histórica, que o Autor defende, que o seu nome provirá de um árabe importante que, antes da reconquista, por cá viveu ou estadeou: Abolaças.”
Por sua vez, o Prof. Doutor António Jacinto Rodrigues, catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, sublinha, na nota que antecede a obra propriamente dita, que “BOASSAS – Uma aldeia com história” se apresenta como “um trabalho de rigor e notável erudição”. E salienta, logo a seguir, o levantamento feito pelo autor do “património riquíssimo daquela área”, com “referências arqueológicas e etnográficas”, enquanto revela “edifícios de importância patrimonial”.
Para aquele catedrático, “esta excelente monografia de Boassas revela não apenas um acervo documental do património local mas abre pistas para um enquadramento de estratégia cultural e histórica cheio de potencialidades”.
Foi, pois, com estes esclarecimentos iniciais, que se tornaram desafios, que li e reli as 180 páginas desta obra, preparada com arte, muito bem ilustrada e com notas bibliográficas e registos de rodapé de suma importância para os estudiosos e interessados pela história das nossas terras e gentes.
Viajei, então, graças ao trabalho de Manuel da Cerveira Pinto, por aquelas bandas com Douro à vista, desde a pré-história aos nossos dias. Calcorreei os caminhos de Boassas, familiarizei-me com apelidos que fizeram história, passei por monumentos e casario de várias épocas, senti a religiosidade do povo, saboreei lendas e tradições que perduram, umas, e se foram, outras. Os usos e costumes foram-me contados com graça e até com ternura, adivinhei superstições e apreciei a gastronomia, marca indelével do ser e viver de gentes que preservam a identidade da sua região.
Figuras históricas e políticas, do passado e do presente, pessoas simples e populares, artesanato e arquitecturas, casas nobres e roteiros turísticos podem visitar-se, graças ao excelente trabalho de Manuel da Cerveira Pinto, um dos quatro filhos do meu amigo, de banca meu companheiro, Manuel da Cerveira Pinto Ferreira.
Os meus parabéns para quem concebeu e fez esta obra, com votos de que ela sirva de estímulo a quantos cuidam da preservação da nossa identidade, em tempos de globalização, que tudo é capaz de diluir, na voragem dos interesses económico-financeiros.

Fernando Martins

Biblista Carreira das Neves em entrevista ao Correio do Vouga: O verdadeiro Paulo é um desafio para a Igreja

Biblista Carreira das Neves



Sem São Paulo não estaríamos aqui a conversar. O Cristianismo seria uma seita, que talvez já tivesse morrido. Não teria universalidade.

São Paulo não teve medo. Movia-se bem nos ambientes gregos e romanos. Pensava converter o mundo inteiro em pouco tempo, diz o biblista Joaquim Carreira das Neves em entrevista ao Correio do Vouga, quando o Ano Paulino está a chegar ao fim. No dia 28 de Junho, Bento XVI preside na Basílica de São Paulo Extramuros (Roma) às Vésperas da solenidade litúrgica dos santos Pedro e Paulo, encerrando um ano que teve como finalidade principal realçar a importância do Apóstolo para o acesso do mundo a Cristo
Leia toda a Entrevista aqui

Uma influência pequena e residual! É isso que o povo pensa?

Só o facciosismo, a ignorância, a cegueira,
o fanatismo podem negar uma realidade,
que se mete pelos olhos dentro
:
"A Igreja, pelos seus membros, tanto é pecadora como irmã universal que luta pelo bem, num mundo onde abundam os acomodados. Reconhece as suas limitações e falhas, mas, também, o seu caminho de conversão, os seus méritos passados e presentes, a sua vocação de serva das pessoas, homens e mulheres, de qualquer raça, religião, língua ou cor. Por isso não se acomoda e se, por vezes, o fez ou ainda o faz, é contra a sua razão de ser e missão permanente. Tudo isto o dizem as páginas da história, nas quais, uma multidão inumerável de procuradores dos pobres, ocupa lugar cimeiro, com destaque para gente da têmpera de Francisco de Assis, Vicente de Paulo, José Cotolengo, João de Deus, Frederico Ozanam, Américo de Aguiar, João XXIII, Teresa de Calcutá…
Alguns governos laicos põem entraves à sua acção, mas não podem negar o que é claro e que o povo agradece como o sempre beneficiado. Só o facciosismo, a ignorância, a cegueira, o fanatismo podem negar uma realidade, que se mete pelos olhos dentro."
:
António Marcelino
Leia tudo aqui

Ninguém seja Estrangeiro

Siri Hustvedt

1. Em inícios de Junho a escritora norte-americana Siri Hustvedt, esposa do reconhecido escritor da actualidade Paul Auster, lançou o seu quatro romance. De ascendência norueguesa, cedo ela sentiu os EUA como a sua terra e nos tempos de estudante (anos 80) foi para Nova Iorque. Nessa cidade cosmopolita sentiu a presença de gentes de todas as paragens, de todos os sotaques, de todos os credos, pois o credo fundante dessa liberdade social é inclusivo e respeitador. Por estes dias, Siri concedeu uma interessante entrevista à televisão portuguesa (claro, no canal 2 e a horas já bem tardias) acerca do novo romance e do sentir da vida e do mundo.

2. O seu pai foi militar na 2ª guerra e assistiu à mortandade horrenda nessas paragens turbulentas da Europa (tal como ela assistiu ao 11 de Setembro). Foi quando da situação do falecimento de seu pai (2003), Lloyd Hustvedt, que Siri começou a redigir a sua obra «Elegia para um americano», escrito de pendor marcadamente autobiográfico como significando um luto pela partida do pai. A crítica aponta para uma ficção «sobre o luto e a transmissão das gerações», para um livro dedicado à filha, actriz e cantora, Sophie Hustvedt Auster. Destacando-se como a enfermidade e morte favorecem o dar-se sentido pleno ao tempo da vida, na referida entrevista a escritora a certa altura lança o olhar de admiração sobre a cidade de Nova Iorque, onde vive: sublinha que «em Nova Iorque, ninguém é estrangeiro!»

3. Pouco importando-se com a ideologia política ou mesmo contrariando um certo e existente imperialismo americano que teve em W. Bush um sinal menor, a admiração pela cidade onde ninguém se sente de fora porque todos vêm de todas as paragens, sendo simbólica, acaba por ser um reflexo do melhor que a condição humana pode sentir. Há 2000 anos Paulo de Tarso, inspirado em textos bíblicos falando da nova condição diz que: «Já não há estrangeiro, nem escravo, nem homem ou mulher». Só no futuro?!
Alexandre Cruz

ALMIRANTE HENRIQUE TENREIRO: Biografia política por Álvaro Garrido



Decorreu hoje, dia 24, na Fundação Mário Soares, em Lisboa, a apresentação do novo livro de Álvaro Garrido, denominado "Henrique Tenreiro - uma Biografia Politica". A obra será apresentada pelo historiador e professor universitário Fernando Rosas.
A apresentação, em Ílhavo, será a 4 de Julho, no Museu Marítimo.
Henrique Tenreiro nasceu em Dezembro de 1901, filho de um professor e neto de um coronel. Após a instrução primária e o Liceu Pedro Nunes, ingressa na Escola Naval. Em 1936, como Primeiro Tenente, entra no aparelho corporativo, onde trabalha às ordens do ministro Ortins Bettencourt, cuja cunhada, abastada brasileira, será sua mulher.
Em 1936, o então ministro Pedro Teotónio Pereira nomeia-o delegado do governo junto do Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau. Durante 38 anos é o verdadeiro patrão das pescas, sendo nomeado delegado do governo nos restantes grémios (sardinha, arrasto, baleia e atum)
Henrique Tenreiro consegue esvaziar a vida associativa dos grémios e vincular os armadores à política de fomento do governo e, até 1974, é ele quem define as directrizes da política nacional das pescas, controlando e dispondo sobre todos as fontes de financiamento dos programas de renovação das frotas pesqueiras.
Para o autor desta obra, "De 1936 a 1974, Henrique Tenreiro, actuou como uma espécie de condottieri para quem todo o poder foi sempre pouco. À medida que consolidou poderes cuja mobilização o regime não dispensou, fez das pescas um património pessoal, para seu engrandecimento político. Com o decorrer dos anos, a racionalidade política cedeu o passo à ambição e uma volúpia de poderes de escrutínio personalista e de fundamentos emotivos”.
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Carlos Duarte

terça-feira, 23 de Junho de 2009

Crónica de um Professor: Pedalada

Prontos para a partida


Finalmente, chegou ao seu termo. Mais um ano lectivo. Mais uma etapa na vida dos alunos, mais um passo para a retirada dos professores. Com muita acuidade, os britânicos chamam à reforma, retirement.
Mas não é isso que hoje motiva a teacher a escrever estas linhas.
Foi, de alguma forma original, o desfecho deste ano de actividades. Enquanto alguns alunos faziam provas de exame, na Escola, outros, em grande número e acompanhados por familiares e amigos faziam uma grande pedalada, em conjunto, em prol do ambiente.
Aqui foi a consumação de todas as aprendizagens, numa formação que se pretende global para o indivíduo. Consumição também houve alguma, quando alguma ovelha tresmalhada se afastava do trilho e exigia a voz dura do pastor a chamá-la outra vez ao redil. Em fila e aos magotes, passou aquela mole de gente a pedalar pelas artérias pouco movimentadas deste canteiro à beira ria. Com efeito, nestes dias, as Gafanhas tiveram mais encanto, pois o dia estava estupendo, como há muito não se vislumbrava tal. Uma luminosidade intensa encharcava de prazer os ciclistas que também suavam as estopinhas para conquistarem um bom lugar no pódio!

Bruno Marinho

No meio deles e com toda a juventude que a idade lhe consente, também a teacher pedalava, pedalava! E como todos os que aprendem com os erros, também o problema que lhe causara, no ano anterior, a perda do 1.º lugar (!?), este ano fora sanado, a tempo e horas, O seu veículo de duas rodas, fora “internado” na clínica de tratamento dos mesmos, antecipadamente! Ficou a brilhar... depois de um check-up completo! Até pedira ao dono da oficina que lhe puxasse o lustro, não fossem alguns adivinhar que a sua bicicleta pertencia ao século passado! Sim, vetusta, mas recuperada e bem artilhada para o evento!
Assim aconteceu! Nem furo, nem qualquer outro percalço a impediram de chegar à almejada meta, dentro dos primeiros vencedores! Às vezes, esquecendo-se que a suas funções docentes não tinham acabado ali, ... fazia de vez em quando, alguma pequena fuga e recuperava terreno num sprint que as suas energias ainda lhe permitiam!

Kevin e Filipe

Os alunos rejubilavam com a competição (!?) e ficavam estupefactos quando a viam afastar-se a larga distância dos outros ciclistas. Era uma fugitiva que não queria deixar os créditos por mãos alheias, à semelhança do que lhe ocorrera no ano transacto.
No final, um suculento repasto, composto por grelhados na brasa, preparado pela Associação de Pais da sua Escola, esperava os participantes que vinham, depauperados de forças, depois daquele esforço titânico, em prol do ambiente. A teacher, neste campo é uma DEFENSORA ACÉRRIMA, pois gosta de ter um bom ambiente em toda a parte, a começar pelo ar que respira e que pretende... seja um bom ar... e nunca um ar que lhe deu! Por ele todos nos devemos esforçar e dar o nosso precioso contributo.
Não faltaram os braços e a colaboração daqueles pais, que numa atitude de aproximação, Escola/meio envolvente, estão sempre prontos a dar o seu precioso tempo. Bem-hajam, pois satisfizeram aquelas bocas famintas, ávidas de uma sardinha a pingar no pão, como é típico nestas vésperas antecipadas de S. João! Houve animação, convívio entre as diversas partes envolvidas neste processo e uma dinâmica de salutar partilha de interesses! E... ficam aí as férias a bater à porta de cada um e a prometer aquele tão necessário quão merecido descanso!

M.ª Donzília Almeida
22.06.09

Gafanha da Nazaré: decreto real da sua fundação

D. Manuel II


Não sei se sabem que neste dia, em Junho de 1910, pouco tempo antes da implantação da República em Portugal, o último rei, D. Manuel II, assinou o decreto da criação da nossa freguesia, como pode ver aqui. Recordo, por isso, uma data que tem sido menosprezada e até esquecida. D. Manuel II, que passou pela Gafanha da Nazaré, aquando de uma visita que fez a Aveiro, deixou o trono, em 5 de Outubro de 1910, quase sem contestação. Um dia destes falarei um pouco mais deste rei, a quem chamaram Patriota, pelo amor que sempre dedicou a Portugal e aos portugueses.

“Mini-Repórteres do Porto de Aveiro”.

Mini-repórteres em acção

A APA vai levar a efeito, no próximo dia 27 de Junho, a segunda etapa da iniciativa “Mini-Repórteres do Porto de Aveiro”.
Esta acção compreenderá uma explicação sumária da actividade dos pilotos do Porto de Aveiro às crianças; passeio, para toma de fotos, na Lancha “Duas Águas”, com partida na Caldeira, passagem pela zona da entrada da barra e pela Ponte n.º 1, junto ao nó da Friopesca.
Envolverá a participação de 20 crianças, com idades compreendidas entre os 8 e os 16 anos.
Depois do sucesso da primeira sessão, realizada em Maio, com a equipa dos mini-repórteres fotografando as obras da ligação ferroviária ao Porto de Aveiro e os trabalhos da NAVALRIA, desta feita o percurso para toma de fotos será feito pela Ria de Aveiro.
Uma tarde que promete ser inolvidável, pretexto para um convívio salutar, para mais umas centenas de fotos, não esquecendo a vertente pedagógica, através do detalhe de alguns pormenores da delicada tarefa dos pilotos do Porto de Aveiro.
Acrescente-se o facto deste segundo raid fotográfico coincidir com a realização de mais uma regata de cruzeiros do Porto de Aveiro, outro aliciante a acrescentar aos já referidos.
Esta segunda etapa conta com o prestimoso apoio da Capitania do Porto de Aveiro, do Instituto de Socorros a Náufragos, da ECORIA, e do Departamento de Pilotagem do Porto de Aveiro.
Fonte: Newsletter do Porto de Aveiro

Igreja e crise



Os portugueses sofrem na pele as consequências da crise que se abateu sobre a sua economia, mas já começam a ficar imunes ao autêntico bombardeamento noticioso que todos os dias explora o tema, das mais diversas maneiras. Neste conjunto de notícias, histórias, dramas e casos de polícia entram, também, as receitas mais ou menos milagrosas que muitos daqueles que não deram pela crise a rebentar querem agora apresentar para se sair da mesma.
A Igreja Católica, ao reflectir sobre estes temas, deve evitar aparecer como mais uma "receitadora" perante a crise, até porque o seu notável trabalho junto daqueles que mais sofrem a torna uma voz muito mais autorizada do que aqueles que têm da pobreza apenas a imagem que lhes chega pela televisão ou nas fotos dos jornais.
Octávio Carmo
Ler todo o texto aqui

Comercial, puro e duro?


1. Há dias o programa de entrevista Diga Lá Excelência convidou o director geral da TVI, José Eduardo Moniz. Para além das novelas geradas pelo jornal de sexta-feira e das “perseguições” à classe política ou da ex-futura candidatura sua à presidência do Benfica, falou-se da realidade da televisão em Portugal, ou não fosse Moniz um dos senhores mais poderosos da TV. Talvez a melhor síntese que se possa apresentar seja a de que, no limite, não valerá a pena termos grande ilusões ou grandes esperanças quanto ao papel das comunicações sociais, especialmente a televisão (?), nomeadamente no que se refere à sua esperada função pedagógica. É certos que as fronteiras da comunicação não tão fáceis de discernir… Mas a televisão que tem como critério o dar o que as gentes gostam fica bem aquém da sua função e missão.

2. Percebe-se o gosto da polémica geradora de audiência e o desejo, então, do contraditório clarificador. Tudo está previsto e tudo é estudado nos (melhores?!) referenciais do marketing do império da comunicação… Enquanto vai decorrendo o contraditório e o esclarecimento, a audiência vai estando garantida, a publicidade pesa mais e o comercial vai-se distanciando a anos-luz da ética. Na avaliação de programas como o Big Brother ou Morangos com açúcar, confirmamos este critério como valor absoluto. Talvez possa parecer ingenuidade o confiar-se e esperar-se frutos efectivos de uma Entidade Reguladora para a Comunicação Social; nos anos da sua vida, em quantos casos e situações conseguiu iluminar os critérios em ordem, por exemplo, à violência não ser uma quase-constante nas televisões?

3. Um alerta, volta e meia, vem do maior país das comunicações, os Estados Unidos: a vida social e as próprias as escolas são assaltadas com violência e criminalidade que quase reflectem filmes de alto espectáculo… Haverá algo que as entidades devidas ou as direcções editoriais poderão fazer? Quando?
Alexandre Cruz

Depois de umas horas de folga...

(Clicar na foto para ampliar)


Depois de umas horas de folga, que nem só de trabalho vive o homem, aqui estou de novo para o contacto quase permanente com os meus habituais leitores e amigos. E se vierem outros, que sejam bem-vindos.
FM

domingo, 21 de Junho de 2009

Figueira da Foz: Forte de Santa Catarina

Forte de Santa Catarina


Para uma visita obrigatória


Quem chega à Figueira da Foz não pode deixar de visitar o Forte de Santa Catarina, ali na embocadura do Mondego, com mar e areal por perto. É, sem dúvida, uma marca histórica de singular significado. Trata-se de uma construção dos finais do séc. XVI, embora tenha sido concluída posteriormente. Serviu para defender da entrada do Mondego e durante a Guerra Peninsular, na luta contra as tropas napoleónicas, foi palco de fortes confrontos, a que me referi há tempos. Ao passar por este forte, não deixe de ler as lápides com anotações históricas interessantes e importantes.

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS – 136

BACALHAU EM DATAS - 26



CONSTRUÇÃO NAVAL EM PARDILHÓ

Caríssimo/a:


1916 - «Em 1916 foi despendida uma verba de 4.789.129$00 na importação de bacalhau e 7 anos depois [1923] este valor subia para 123.775.924$00. Quer dizer, neste período a saída de divisas aumentou quase 30 vezes.» [HPB,69]
1917 - «Os navios bacalhoeiros da Figueira da Foz não irão este ano [de 1917] à pesca nos bancos da Terra Nova, em virtude de o pessoal exigir remunerações exorbitantes”. [...] Também a subida dos preços dos seguros chegou a pôr em risco a companha de 1917. Acresce ainda que a navegação se fazia com receios dos submarinos alemães, o que obrigou diversas empresas a fazer seguro das cargas.»[Oc45, 85/86]
«Apesar das contrariedades, iam surgindo novas empresas. Em 1917, nasce uma sociedade por quotas, com um capital de 32 contos, em que a maior quota pertence a D. Lucília Ferreira Duarte Pinto Basto.» [Oc45, 86]
1918 - «Após o final da Guerra, assistiu-se a um incremento da pesca do bacalhau e da construção naval, especialmente em Aveiro. Em 1918, a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, liderada por um importante comerciante da praça de Aveiro, com ligações fortes ao poder político e económico locais, lança às águas o lugre ALTAIR, construído no estaleiro de Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré. A imprensa local dá um enorme relevo à festiva e mediática cerimónia do “bota-abaixo”.» [Oc45,869]
1919 - «Em Pardilhó (Estarreja), terra conhecida pelos construtores navais de barcos moliceiros, fora construído em 1919, pelo mestre Joaquim Dias Ministro, o lugre de madeira ENCARNAÇÃO.» [Oc45, 120 n. 13]
«Depois de um período florescente durante a I Guerra Mundial e da formação de uma escola de carpintaria naval, em 1919, o renascimento da construção naval em madeira na Figueira da Foz dá-se somente na época da II Grande Guerra. A dinastia Bolais Mónica associou o seu nome à construção naval em madeira na Figueira da Foz, destacando-se os construtores António, Manuel, João, José Maria e Benjamim Bolais Mónica. Este último localizou as suas carreiras na tradicional Murraceira, em frente da cidade da Figueira da Foz.» [Oc45, 115]
«Em 1919, perdeu-se o ARIEL. A arrematação dos salvados não rendeu mais de 3.000$00.» [Oc45, 88]

Em título, realcei a construção naval em Pardilhó... já que Pardilhó foi ( ainda será?...) a sede do Sindicato da Construção Naval!
Contudo, e sem dúvida, qualquer um dos parágrafos daria assunto para pesquisa e muita investigação: aos nossos futuros estudiosos...

Manuel

sábado, 20 de Junho de 2009

Um pouco de História: Aqueduto das Águas Livres

A alergia dos cristãos à política


É interessante constatar que nos anos 60 e 70 os movimentos cristãos juvenis e universitários acalentavam um grande entusiasmo pelo compromisso social e político, discutiam-se acaloradamente as formas de participação política dos cristãos, qual o seu lugar e missão na edificação de um mundo novo ou de um mundo melhor. É verdade que houve ambiguidades e derivas, tornando-se a política não uma dimensão, mas o centro e, em alguns casos extremos, a totalidade, relegando para um plano secundaríssimo a função eminentemente espiritual da proposta cristã. Mas a verdade é que hoje se corre o perigo oposto: o de buscar apenas uma espiritualidade, desenhada à maneira de um bem-estar íntimo, ou intimista, em que a Fé se torna um assunto privado, uma gestão exclusiva do eu, onde as necessárias implicações históricas e colectivas não entram. Será possível conjugar um grande amor por Deus com um grande desinteresse pelos homens? A rarefação do entusiasmo e da presença dos cristãos nas várias dimensões da vida pública é um sintoma preocupante na Igreja portuguesa.
O Deus em que os cristãos crêm não plana acima das questões escaldantes da história: Ele aparece claramente comprometido com a justiça e uma ordem social de equidade, manifestando-se a favor dos mais pobres. A opção pelos pobres, a escolha preferencial pelos sem voz nem vez remonta ao próprio Cristo e ressoa claramente nos textos das origens cristãs. Como resume a 1 Carta de São João (1 Jo 4,20): «Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, mas não amar o seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê». A Fé para ser vital tem de aceitar o risco de ser uma Fé encarnada. O Evangelho para ser vital tem de ser recebido como palavra transformante, como fermento colocado na massa. O cristianismo não coincide com nenhuma realidade política, mas em todas introduz uma tensão de amor, de justiça e de verdade. O cristianismo tem um sonho. Aqueles cristãos que dizem, “eu não quero sujar as minhas mãos na realidade do mundo”, como lembra Charles Péguy, “acabam rapidamente por ficar sem mãos”.

José Tolentino Mendonça

O Estado deve pagar a velhice de famílias ricas?


O Estado deve pagar a velhice de famílias ricas? O Estado é de confiança ou abusa? São questões pertinentes a que José Couto Nogueira responde hoje no jornal i. Vale a pena ler aqui. Ver Coluna Vertical, em Opinião.

Figueira da Foz: sinais de festa


Os sinais de festa indiciam folguedos adequados ao São João, santo popular muito querido dos portugueses, a par do também nosso Santo António e de São Pedro, o primeiro Papa do cristianismo. Não sou muito dado a festas de bailaricos, mas aprecio a alegria espontânea do povo... Bom São João para todos os figueirenses e veraneantes desta terra de muito mar, de muito sol e... de algum vento.

Coro da Catedral de Aveiro vai formalizar a sua constituição


Hoje, em Assembleia Constituinte, pelas 15 horas, vão ser analisados e aprovados os estatutos do Coro da Catedral de Aveiro. A Assembleia vai ter lugar no salão do Centro Paroquial da Glória-Sé. São convidados os responsáveis pela Música Sacra das paróquias da Diocese de Aveiro.

QUE NOS ESPERA?

João Bénard da Costa


Mesmo os mais distraídos colocar-se-ão, nas situações-limite, as velhas perguntas: donde vimos?, para onde vamos?, quem somos? Porque a realidade nos aparece por vezes exultante e, outras, horrorosa, e morreremos, perguntamos: o que é verdadeiramente?, qual o sentido da existência?, que andamos cá a fazer?, que nos espera?
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Cada um de nós vivencia-se a si mesmo como presença de si a si mesmo: sou eu e não outro. Coincidimos, portanto, connosco mesmos. Mas, por outro lado, experienciamo-nos como não plena e totalmente idênticos. Somos nós mesmos e chamados a sermos nós mesmos, pois estamos ainda a caminho de nos tornarmos nós mesmos.

Precisamente deste paradoxo de sermos e ainda não sermos adequada e plenamente surge a nossa inquietação radical e a pergunta que nos constitui: afinal, o que somos?, quem somos?

Eu sou eu, mas ainda não sou o que serei. Cá está, portanto, a pergunta ineliminável: então, o que sou e quem sou? E que devo fazer para ser finalmente eu?

É assim que a pergunta pelo sentido não é uma questão adjacente, que pode colocar-se ou não. Ela é constitutiva do ser humano enquanto tal, questão fundamental da Filosofia, como viu A. Camus.

Sentido tem a ver com caminho, viagem e direcção - nas estradas, por exemplo, encontramos placas em seta a indicar o caminho e a direcção para alcançar uma meta, um objectivo, um destino. Qual é então o caminho e o sentido da existência humana? O que move a minha vida?

O Homem vem ao mundo por fazer e quer queira quer não tem essa tarefa constitutiva: fazer-se a si mesmo. E tanto podemos fazer de nós uma obra de arte como fracassar.

Einstein constatou que quem sente a vida vazia de sentido não é feliz e sobrevive mal. O Homem não pode viver sem sentido. Aliás, a existência humana está baseada na convicção do sentido. A sua própria negação ainda o afirma. No limite, não é possível o "suicídio lógico", pois quem pegasse numa arma para suicidar-se, porque tudo é absurdo, negaria o absurdo e afirmaria o sentido.

O famoso psiquiatra Viktor Frankl, fundador da logoterapia, mostrou, a partir dos estudos que realizou com base na sua terrível experiência nos campos de concentração nazis, que a exigência mais radical do ser humano é o sentido, razões para viver. Contra Freud e Adler, no mais fundo de nós, mais do que a exigência de prazer e de poder está a vontade de sentido.

Nos campos de concentração, verificou que sobreviviam mais aqueles que ainda tinham um sentido para a existência: reencontrar a família, realizar uma obra, lutar para que nunca mais acontecesse o intolerável. O que significa que o sentido não está em nós, mas fora. Se estivesse em nós, não se colocaria a questão, pois estaria sempre presente. O sentido está no encontro com o mundo e com os outros: é saindo de si que o Homem vem a si. Dá um exemplo: quando se começa a ver pequenas manchas à frente do olho, é bom ir ao médico, pois está doente: o olho é intencional, isto é, não foi feito para se ver a si mesmo, mas o que não é ele. Paradoxalmente, só saindo de si é que o Homem encontra sentido. É o amor que dá sentido. Por isso, sente a vida como tendo sentido quem vê a sua existência reconhecida. A nossa vida não tem sentido, quando não vale para ninguém.

A existência caminha de sentido em sentido - o que vamos realizando. Mas, um dia, somos confrontados com a pergunta: qual é o sentido de todos os sentidos? Este é o núcleo da questão religiosa: o quê ou quem dá sentido último à existência, para que não fique na situação da ponte que não encontra o outro lado, a outra margem? Porque, sem o Sentido último, os caminhos de sentido não vão dar a lado nenhum.

"Conhecer Deus" era a maior esperança para João Bénard da Costa, que, por isso, podia dizer: "Acredito que esta vida não pode acabar aqui: nada faria sentido, para mim, se assim fosse."

Anselmo Borges

sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Figueira da Foz: Um Bar no Sítio Certo

O novo Bar

UM OÁSIS PARA RECUPERAR

Hoje foi dia de passear descontraído pela Figueira da Foz, à procura de paisagens conhecidas há muito. Deixei que os pés e a mente andassem ao sabor da maré, durante umas duas horas.
Como é inevitável, nestas circunstâncias, fui atraído para o rio Mondego que aqui desagua e para o mar, com praias de tanta fama, de areais a perder de vista.
Há sempre um momento que me encanta e me faz viajar por paragens de sonho. Quando dou de caras com a marina, com seus barcos e barquinhos, aí vou eu de abalada, mar fora, qual navegador sem rumo certo. É que, tenho a certeza, nas minhas veias, baloiçam navios desde a hora em que nasci, com o som do oceano a entrar-me na alma.
No fim da jornada, junto à marina, exausto mas feliz, encontrei um novo bar. De traço simples, moderno e convidativo, foi oásis para recuperar da caminhada. Entrei, uma água refrescou-me o corpo e um café, saboroso, animou o meu espírito. Olhei então, mais serenamente, os barcos e barquinhos da marina, que ali repousavam com os seus aventureiros.
Tempinho de descanso para repetir quando voltar à Figueira da Foz. Antes de sair, dei os parabéns à jovem que, solícita, me atendeu, pelo espaço fresco e acolhedor que ali está à nossa espera.

Fernando Martins

Faleceu Carlos Candal




UM POLÍTICO DE CAUSAS

Tomei ontem conhecimento da morte de Carlos Candal, um aveirense carismático a vários títulos. Embora saiba que não vou acrescentar nada ao muito que já foi dito sobre ele, penso que é justo sublinhar aqui, neste meu espaço aberto ao mundo, a importância do seu contributo para o reconhecimento da identidade de Aveiro.
Dotado duma força anímica pouco comum, sempre defendeu, desde muito novo, causas de justiça, de liberdade, de democracia e de civismo. E fê-lo, é bom recordar, com garra, com determinação e até com graça, já que era possuidor de dotes oratórios capazes de empolgar quem o ouvisse.
Carlos Candal foi acometido de doença grave no ambiente onde se sentia à vontade, como peixe na água, em plena campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. Seria, pensei então, mais uma batalha que teria de travar. Assim não aconteceu, para tristeza dos muitos amigos que o admiravam.
Porém, não se julgue que só os amigos e correligionários o apreciavam. Também os seus adversários, que não inimigos, o admiravam, pela força da sua reconhecida personalidade. Tudo isto por se saber que Carlos Candal nunca deixou, que me lembre, de apoiar muitas causas, nem sempre saídas das propostas que apresentava.

FM

quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Reconhecer para crescer

A verdade das coisas
não é ou branca ou preta,
também há o cinzento

1. Sabe-se que o poder do criticismo cego, quando aplicado em todo o seu esplendor, não deixa espaço para o reconhecimento de que os outros também sabem pensar e fazer coisas boas. Também se compreende bem que, se o unanimismo de todos concordar com tudo, sendo uma inverdade, não abre espaço à dialéctica, à procura, à nossa e nova síntese que faz crescer. Mas, nem ao mar, nem à serra! Será tão importante o reconhecimento do bem realizado pelos outros, como o sentirmos e despertarmo-nos mutuamente para uma superação sempre mais aperfeiçoada, pois que tudo pode ser sempre melhor, mais amplo, mais envolvente. Talvez a prova da maturidade completa esteja, sem a anulação de identidade própria, o reconhecer-se (aperfeiçoando-se) dos valores e das virtudes do outro.

2. Há dias realizou-se no parlamento português o debate da avaliação da liderança política. Qual pêndulo do relógio, que ora vai para um lado ora para o outro, as oposições da nossa jovem democracia dão ainda pouco espaço para o reconhecimento de que do outro lado também há coisas boas, que nem tudo foi mau. Continua a tornar-se claro que (tal como a verdade das coisas não é ou branca ou preta, também há o cinzento!), enquanto a maturidade destes reconhecimentos das apostas certeiras do outro não fizerem parte do caminho de maturidade política, temos a sensação de que estamos e/ou estaremos sempre a recomeçar, e, neste ponto, estaremos na “estaca zero”. O bem da comunidade, não só nos tempos de crise mas estes mais despertam a urgência, carece da dose “quanto baste” de consensos que abra caminhos e crie pontes.

3. O progresso humano é inimigo do ponto zero da crispação social, das incapacidades estruturantes de gerar consensos básicos em ordem ao bem comum. O querer crescer, sem a ilusão de todos concordarem com tudo e no assumir do debate como abertura a horizontes sempre maiores, obriga ao reconhecer-se de que todos continuamos da obra comum. Reconhecer para crescer!
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Alexandre Cruz

Crónica de um Professor: Fim à vista


“Prima non datur, ultima non recipitur”! Soa como uma melodia, este binómio que agora se vai concretizando. Na verdade, nos alunos que frequentavam o ensino liceal, no século passado, era uma expressão recorrente e que muito lhes agradava. A primeira aula ficava-se pelas apresentações, de mestres e discípulos, a última pela despedida. E... o Latim tinha força de lei!
Caminha a passos largos para o fim mais um ano lectivo e multiplicam-se as tarefas, os esforços, de ambas as partes deste processo, ensino/aprendizagem. Sendo verdade que até ao lavar dos cestos é vindima, como se ouvia aos mestres doutras épocas, também hoje, nas escolas, por todo o país, se esfalfam os professores para dar, aos seus alunos, a possibilidade de alcançar os seus objectivos pedagógicos, isto é, o tão almejado sucesso. Sim, a classe docente, a mesma que é tão maltratada pela opinião pública, é aquela que dá o corpo ao manifesto e a alma ao diabo, para conseguir que os seus alunos ultrapassem as dificuldades.
Ainda há dias, num contexto de comércio local, a teacher travou um duelo verbal, em que o opositor desbaratava a torto e a direito sobre os professores. Foi proferida toda uma série de impropérios, numa generalização redutora e perigosa, que ia sendo rebatida pela argumentação lógica e fundamentada duma profissional do ramo!!!
Aquele género de pessoa, já bem tipificada na sociedade hodierna, que tudo destrói, tudo condena, tudo amesquinha, sem contudo ter soluções para nada, era o interlocutor da teacher! Esta ouviu, ouviu e por fim deixou que o diálogo descambasse para monólogo, pejado de agressividade! E frustração, já que o que este tipo de pessoas denota é, na realidade, um enorme sentimento de frustração perante a vida, que não lhes deixa enxergar nada à frente do nariz. Quem tem este tipo de atitudes, sobretudo para com uma classe tão sacrificada, incompreendida e injuriada, revela, numa interpretação freudiana, um complexo de inferioridade, associado a uma muito baixa auto-estima.
Os professores vão estar aí, novamente no centro das atenções, pois vão proceder a uma das mais delicadas tarefas do seu mister – a avaliação. Processo que incorpora uma grande dose de subjectividade, é grandemente questionado, debatido e exercido.
Parafraseando Jean Foucambert, a Escola seria preciosa se ajudasse todos os alunos nas suas aprendizagens, já que existe precisamente para isso. Muito do que os alunos aprendem é por sua conta e risco, isto é, existem aprendizagens sem ensino, na conhecida escola paralela, mas a Escola tem por função estimular, desabrochar o gosto pela aprendizagem. Ao avaliar um aluno, o professor está a avaliar-se implicitamente, pois dependeu do seu papel interventivo, o desempenho do aluno.
Agora, retirando todo o caudal de água benta aspergida pelos docentes, resta a recompensa para os que se esforçaram e... a libertação para aqueles que consideram a Escola como o inimigo n.º 1 do aluno. Assim se referiu o Caramelo à instituição que frequenta e ao enorme desinteresse que nutre por ela!

M.ª Donzília Almeida
14.06.09

Um poema de Domingos Cardoso



Estrada

Olhando as minhas mãos, assim despidas,
Tão vazias de anéis e compromissos,
Tão desnudas de feitos e feitiços
Penso que as intenções foram perdidas.

Descubro em minhas rugas esculpidas
As marcas dos propósitos postiços
E, nos meus olhos, de brilhos já mortiços,
A dor de renovadas despedidas.

Tive amor no meu peito e não o quis,
Senti m sonho à mão e nada fiz
Por julgar que este mundo era ilusão.

Tendo de meu tão pouco ou quase nada
Vejo, no fim da estreita e erma estrada,
Sorrindo, à minha espera, a solidão.

Domingos Freire Cardoso

quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Uma leitura livre em clima democrático

OS PARTIDOS PASSAM, O POVO PERMANECE

Deixei o país na manhã do dia seguinte às eleições. Já levava comigo os jornais cheios de números e comentários, euforias e pesadelos, justificações e profecias. A meio do dia, em espaço alemão, pude folhear outros jornais da Europa, que comentavam o mesmo tema, no mesmo tom. Lá como cá, uns, sem olharem às contradições em que caíam, outros, justificam os resultados com a crise social geral, outros ainda, com opiniões fixadas no modo de agir dos partidos, que os eleitores acabavam de castigar.
As leituras políticas são, por vezes, monocórdicas e superficiais, ditadas pelo imediato que exprime gosto ou desgosto. O exame das causas, porque exige ponderação, tempo e saber, raramente ultrapassa o trivial. Mesmo quando, de modo crítico, se tenta opinar sobre a crescente abstenção, o leque vai apenas da indiferença pelo acto eleitoral à opção mais agradável pela praia ou pelo passeio, do pouco conhecimento do que está em causa, à falta de confiança nos políticos profissionais. Porque tudo dito, nada muda.
Quem vota é o cidadão do povo. Gente de diferente sensibilidade e cultura, com experiências e projectos diversos, com histórias e intuições não coincidentes. Alguns fazem das coisas políticas uma paixão, carregada de interesses e por isso não faltam. Outros, vão por seu pé, mantendo vivas as dificuldades e agressões que levam consigo e a que nem sempre estão alheios os que se sentam nas cadeiras do poder se acaso esquecem o bem comum e o povo concreto. Se muitas coisas, no dia-a-dia, já se vêem a olho nu, por altura das campanhas eleitorais e depois da contagem dos votos, o quadro torna-se mais ilustrativo, e emoldurado pelo muito que se diz ou se cala.
A gente que decide votar ou anda alienada e ao sabor das opiniões dos seus, ou calada a aguardar atenta a hora de poder dizer, com o voto, a sua opinião determinante, sobre o que se passa no país e atinge a sua vida e a de muitos. As eleições não se ganham nem se perdem com comícios e cartazes, mas nas urnas. O que se grita nas campanhas, o que se diz e as pessoas que o dizem, apenas confirmam o que já se pensa e se sabe. Alguns eleitores, armadilhados contra os da outra cor, fecham os olhos e ouvidos e só dão razão aos seus. Então, as opiniões viram dogmas e as verdades do outro lado não passam de mentiras do seu. O povo sensato observa isto tudo e vai formando o seu juízo.
Mas, já não falta quem, relativizando o alcance das decisões políticas, sabe bem o caminho por onde não se pode ir porque não leva sequer a um bem possível para todos. Como percebe também a linguagem que não respeita ninguém e menos ainda os que pensam de outro modo, a agressão programada a sentimentos comuns e a valores indiscutíveis, a teimosia em impor decisões alheias à verdade e à realidade, o malabarismo das palavras ardilosas que não convencem, a desonestidade política que põe os interesses dos partidos acima do interesse nacional, a pouca seriedade de quem faz da democracia uma palavra que enche a boca, mas que, na prática, frequentemente a denega.
O povo tem intuições de horizontes largos que escapam aos políticos de vistas curtas e depressa esqueceram que “o povo é quem mais ordena”. Pelo menos nas urnas de voto não deixa que se mande nele, com a impunidade de décadas passadas e mesmo de tempos mais recentes. Ainda que abafado pelo poder que o não respeita, o povo já aprendeu a saborear a liberdade que ninguém lhe pode tirar. Assim, não lhe escapa a contra cultura que se lhe quer impor, o desrespeito pela família, seu maior bem, os ultrajes dos corruptos à sua honestidade, as mentiras com que o pretendem iludir, o orgulho de quem não o ouve, os problemas vitais sem solução, as portas do futuro fechadas aos jovens… Este povo também vota. Sabe pouco da Europa, mas sabe muito da vida. Conhece os políticos que ficam e aos que querem entrar. Sabe esperar e sabe dizer “basta!”. Os partidos passam, o povo permanece. Ele é riqueza sem dono. Quem não o escutar, nem respeitar, acaba sempre por ser julgado por ele.

António Marcelino

A Liberdade na EMRC



1. Não é fácil o assunto, também porque os sucessivos sistemas que reflectem visões de educação o foram e vão complicando. A palavra de ordem é sempre a liberdade; educar na e para a liberdade. Educar na liberdade, significará o aceitar que ao projecto social e educativo pertencem um conjunto de valores plurais mas construtivos, e não um habitar na neutralidade do vazio que ao nada conduz. Sejamos objectivos, pensamos: é impossível a neutralidade na educação, tal a força imensa das subjectividades presentes. Pode parecer que a questão pouco importa, mas o esbatimento diluidor da Lei da Liberdade Religiosa numa neutralidade de exclusão do fenómeno sociorreligioso da comunidade social é o reflexo claro do fechamento intencional.

2. Na democracia das liberdades amadurecidas, por isso sempre inclusivas e autenticamente co-responsáveis, tudo deveria ser claro e transparente. Nada de obscuro tornearia e negociação. Atender-se-ia ao princípio de que as pessoas estão mesmo primeiro. Defender-se-ia a existência de programas com valores formativos de personalidades assertivas. Numa abertura de expressão de quem quer ser cidadão do mundo, convidar-se-iam todos os agentes cooperantes e colaboradores com a Escola e desta com as famílias e a comunidade social envolvente. Atender-se-ia ao essencial e às compensações a fim de dar às gerações da tecnologia muito mais lugar às sabedorias, filosofias, religiões. Despertar-se-iam os pais e as comunidades para intervirem mais, pois só participativos virão.

3. O transvazar da opção que quer ir torneando a lei da liberdade religiosa em passo de exclusão das sabedorias e religiões do espaço social, reflectindo a falta efectiva de liberdade inclusiva para com as pessoas, oferecer-nos-á um futuro mais sombrio, fechado, seco, com menores capacidades culturais, humanas e sociais. Lembramo-nos, infelizmente, da vida curta da disciplina DPS (Desenvolvimento Pessoal e Social)… Sim à EMRC!

Alexandre Cruz

Ideias Pela Positiva: É preciso Valorizar os Recursos Naturais


“Com esta crise, a tecnologia vai sair a perder e vão ser valorizados os recursos naturais. Portugal tem tudo a ganhar investindo nos recursos que tem, fruto da nossa excelente localização geográfica. O sol, através do qual podemos reduzir a nossa factura energética; o mar, desenvolvendo ideias concretas para tirar partido dele; e a floresta, que com uma boa gestão pode multiplicar por dois ou três a sua capacidade…”

Carlos Martins, Presidente da Martifer

Citado pelo jornal i

Escrever bem e com graça: Miguel Esteves Cardoso



Faz-nos falta quem escreva bem e com graça. Também com sentido de oportunidade. Um exemplo que vale a pena sublinhar está no jornal PÚBLICO e chama-se Miguel Esteves Cardoso. Leio-o regularmente.
Aqui fica uma passagem digna de registo:

“Falta fazer o elogio do sedentarismo. É o indesporto radical do nosso tempo. Define-nos. Delicia-nos. Sentamo-nos e sentimo-nos bem. Sentemo-nos pois.”

Miguel Esteves Cardoso

FIGUEIRA DA FOZ: Praia deserta, por enquanto!


PRAIA DA FIGUEIRA

Quem passa pela marginal da Figueira da Foz, com mar e areal à vista, não pode deixar de reconhecer que as pessoas fazem falta. O tempo ainda não se convenceu de que tem de se pôr a jeito, oferecendo cor, calor e alegria ao pessoal que gosta de banhos. Mas estou em crer que, mais dia menos dia, ele há-de surgir em força, para prazer de todos nós.

Arquivos da Igreja: entre memória e serviço


Em Braga, nos dias 17 e 18 de Junho, o II Conselho Nacional dos Bens Culturais da Igreja reflecte e debate a problemática dos "Arquivos da Igreja: memória das comunidades ao serviço da sociedade". O assunto é importante e diz respeito a todos.
Expliquem-se os termos: Arquivo - centro dinamizador do respeito pelos nossos maiores, materializado na adequada atenção à preservação dos documentos, ao seu estudo e à sua divulgação (não mero depósito de papel envelhecido) / Igreja - comunidade de baptizados, comprometidos com a vida (não uma associação, um clube, ou um nicho de protagonismos ou de sossegos) / Memória - veículo de comunhão que projecta o futuro na firmeza da experiência (não um atá-vico impedimento da ousadia) / Comunidades - único lugar onde ser cristão é possível / Serviço - a dura realidade do amor (mesmo para quem não queira) / Sociedade - campo muito vasto do testemunho de vida cristã, feito de mulheres e de homens com valores porventura muito diferentes dos da Ecclesia.
Depois de toda a sensibilização para a importância do património documental da Igreja Católica, feita ao longo de anos, as comunidades eclesiais têm pela frente o enorme desafio de encontrarem as respostas mais adequadas - e justas - para que a salvaguarda e a fruição desse património aconteça com inteligência e entrega. Essas respostas passam pela institucionalização e dinamização de Arquivos, também eles geradores de cultura e marcadamente comprometidos com a evangelização e a pastoral.
Afectar recursos, humanos, técnicos e financeiros, aos Arquivos da Igreja será sempre uma epifania de respeito pelos que nos legaram a fé, mas também de respeito pelo que somos - como o somos e como nos verão - no seio de uma sociedade cada vez mais plural. Afinal, que testemunho de Igreja dão os nossos compromissos colectivos a respeito dos Arquivos?

terça-feira, 16 de Junho de 2009

Um poema de Donzília Almeida


Amor é...

Numa esquina da vida se encontraram;
D ‘amizade brotou o sentimento.
Que passo a passo, foi ganhando alento
E em juras de amor, os dois falaram.

Um dia, no altar, ambos selaram
Fidelidade nesse juramento
E com o olhar fixo no firmamento,
D’ mãos dadas estrada fora, caminharam.

E quando a doença os tocou,
Amnésia da mulher se apoderou.
Ao lado dela, digno de se ver,

O homem devotado, sempre ficou
E com todo o carinho demonstrou
Que “Amor é” a força de viver!

Mª Donzília Almeida
22.04.09

Observar para não derrapar

É certo que até um carro,
se não se olha bem para o caminho,
poder derrapar.
Mas o nosso hábito derrapador
é o pior dos travões e dos sinais

1. Também as épocas de menos abundância económica, mesmo para quem tem carta livre, são oportunidades obrigatórias de parar para pensar. Pensando, observa-se uma nuvem cinzenta sobre más práticas económicas e fiscalizadoras que, ao longo de anos a fio, tem quase considerado normal a existência de grandes derrapagens em grandes obras públicas. Para quem ainda tivesse dúvidas, a notícia da agência LUSA é clara e não recebeu, que nos tenhamos apercebido, ruídos de reprimenda ou contraditório: «Face à derrapagem de mais de 241 milhões de euros em cinco obras públicas e dos seus prazos de execução, o Tribunal de Contas recomendou ao Governo a criação de um Observatório de Empreendimentos de Obras Públicas.» Dá para repensar.

2. Se cada cêntimo desse valor público vem dos impostos dos contribuintes, fará sentido o perguntar-se sobre o porquê da indiferença na mentalidade portuguesa que, em vez de exigir o rigor cuidadoso e absoluto, foi lavando as mãos, deixando correr o tempo e a derrapagem(?). Talvez já seja muito tarde este despertar, mas em vésperas de novas eleições e possíveis grandes concursos, decisões e construções, um Observatório independente que passe do papel à obra seria uma das grandes fontes para uma maior justiça social. É possível? Valeria a pena conhecer dados sobre como são as derrapagens financeiras e os atrasos nas obras dos países mais desenvolvidos e com democracias mais maduras. É certo que até um carro, se não se olha bem para o caminho, poder derrapar. Mas o nosso hábito derrapador é o pior dos travões e dos sinais.

3. Para uma visão com maturidade, nestas questões, nunca pode estar em causa qualquer facção sociopolítica, mas todas(os). E as denúncias do Tribunal de Contas em nada poderão esfriar a auto-estima das comunidades. Muito pelo contrário: mais observar, quando a ética da liberdade não consegue vencer, será preparar um melhor futuro. Sem derrapar!

Alexandre Cruz

Estradas mais seguras em Portugal


Com as férias de Verão que ai vêm a correr, se o tempo nos não pregar qualquer partida, as nossas estradas vão-se encher de carros. Os acidentes, infelizmente, sucedem-se.
Hélder Boavida, Director-Geral BMW Group Portugal, recomenda, como li no jornal i:

“Vamos tornar a nossas estradas mais seguras., através de um processo de ensino nas escolas de condução que preveja obrigatoriamente um número mínimo de aulas sobre técnicas de condução defensiva, em complemento ao normal processo de aprendizagem de código da estrada técnico e prático.”

Um poema de Jeremias Bandarra




A SALINEIRA

Rosto ao vento
gemendo sob o peso
da canastra de sal
a salineira carrega cristais de sonho
num sofrimento milenar
consentido.


Pés descalços e encardidos
fazem tape-tape
no lajedo do cais
e o céu se espelha
na doce calmaria da Ria.


Gaivotas nervosas
cruzam o espaço
com gritos estridentes
e os barcos saleiros
cheirando a maresia
balouçam ao ritmo
da descarga


Praguedo inocente
se espalha no ar
saído das bocas de carregadores
atarefados.


Ao longe
a grande planície
se espreguiça nos braços da Ria
e as ervas dos esteiros murmuram
as canções do vento.


De onde em onde
montes de sal
pontilham o horizonte
como seios voltados ao céu


Jeremias Bandarra

ERA ASSIM NA BEIRA-MAR


Sou filho duma simbiose difícil: nasci na freguesia da Glória, ao que me dizem ali para os lados da travessa de São Martinho, mas filho de pai "cagaréu", marinheiro, e de mãe "ceboleira".
Já lá vão os tempos em que se roubavam os andores, se apedrejavam os namorados das freguesias rivais, se ridicularizavam, reciprocamente, as referências caracterizadoras dos nascidos na Vila Velha, a Glória, e na Vila Nova, a Vera-Cruz.
Sou simbiose disso tudo: fruto do salgado do peixe maila cebola e a chanfana.
E, por isso mesmo, quando olho para a freguesia onde nasci — a Glória — não sou capaz de nela pensar sem deixar de também me sentir vestido de camisa de linho branco e de manaia azul, roupas próprias do marnoto da Vera-Cruz.
-
Gaspar Albino

segunda-feira, 15 de Junho de 2009

FIGUEIRA DA FOZ: Ruas Floridas


As flores ficam sempre bem em qualquer lado. Como nas ruas e estradas, e até nas auto-estradas. O importante é que estejam. Para emprestarem colorido à vida e para nos desafiarem a apreciar as riquezas, multifacetadas, que a natureza põe ao nosso dispor. O que é preciso, então, é que os responsáveis pelos espaços públicos, como as estradas e ruas o são, saibam e queiram aproveitar todos os recantos, tantas vezes abandonados e cheios de lixo, para os enriquecerem com flores.

As ruas difíceis de Teerão


1. O Irão e um país muito especial, tendo níveis de progresso científico e cultural notáveis em termos mundiais. País onde o futebol também encanta as multidões…! Mas nestes dias o povo saiu à rua por outros motivos. O Irão viveu recentemente um acto eleitoral decisivo: a eleição do novo presidente iraniano. Como na profundidade cultural de cada país e sociedade, não se pense de modo simplista aquilo que é verdadeiramente complexo. Corria o ano de 1979 quando, após 14 anos de exílio, regressa Aiatola Khomeini, dando início à Revolução Iraniana e instalando-se no poder a República Islâmica. Procurando compreender os antecendentes desta história de concentração dos poderes, verifica-se que o anterior reinado de Xá (com o apoio americano e britânico), ao qual reage Khomeini, havia-se tornado progressivamente ditatorial, esmagando os religiosos xiitas e os defensores da democracia. Este regime ditatorial intensifica-se fortemente nos finais dos anos 70.

2. Quando em 1979 estudantes iranianos tomaram funcionários da Embaixada americana como reféns, as relações foram fortemente abaladas passando, por alguns sectores, a considerar-se a revolução islâmica incompatível com o chamado Ocidente. Neste terreno sensível, num mundo onde cada vez mais as culturas se aproximam a cada dia, este roteiro anti-Ocidente ou anti-Islâmico volta e meia tem sido palco das maiores desumanidades, em que os próprios armamentos militares afirmam-se como os argumentos de um fechado diálogo de surdos. Ahmadinejad, no poder desde 2005 e fortalecendo a dicotomia Oriente/Ocidente com o programa nuclear iraniano, reclama a vitória de 62% nestas eleições. A oposição de Mousavi não aceita e mantém os apoiantes nas ruas, abrindo-se um impasse de incertezas…

3. Também se diz que ganhe quem ganhar as eleições o programa nuclear continua. Um outro poder (teocracia) lidera o plano da ideia. Nas ruas, até quando? (Assis 1986)


Alexandre Cruz

Bispos reflectem sobre a acção social da Igreja


Os bispos portugueses vão estar esta semana reunidos em Fátima nas Jornadas Pastorais da Conferência Episcopal Portuguesa. Num ano profundamente marcado pela crise económica e financeira, e na sequência do Simpósio «Reinventar a Solidariedade (em tempo de crise)» que a CEP realizou a 15 de Maio, os bispos portugueses querem aprofundar a reflexão e por isso, vão centrar-se no tema «Pastoral sociocaritativa: Novos problemas, novos caminhos de acção».

Um comunicado enviado à Agência ECCLESIA dá conta que, para além dos bispos portugueses, estarão presentes dois delegados de cada diocese, "particularmente responsabilizados no campo da pastoral social".

A jornada que começa na tarde desta Segunda-feira e termina no dia 18, Quinta-feira pelas 14 horas, vai contar com a ajuda de "alguns professores da Universidade Católica Portuguesa", do Secretário da Comissão de Assuntos Sociais da Conferência Episcopal Francesa, o Pe. Jacques Turck, entre outras individualidades.

O mesmo comunicado aponta que as conclusões das Jornadas serão apresentadas à comunicação social na tarde de Quinta-feira, às 14 horas. O Pe. Manuel Morujão, porta-voz da CEP afirma ainda que "eventualmente serão abordados alguns pontos da breve Assembleia Plenária dos Bispos que terá lugar na manhã do dia 18".

Na conferência de imprensa estará presente D. Jorge Ortiga, Presidente da CEP, o Vice-presidente, D. António Marto, o Pe. Manuel Morujão, secretário da CEP e ainda D. Carlos Azevedo, Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social.

Ler mais aqui

domingo, 14 de Junho de 2009

Grupo Poético de Aveiro apresenta poesia na Ria de Aveiro

Poesia na ria em 13 de Junho de 2009



Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.

Ricardo Reis

Homenagem do GPA a Fernando Pessoa

CRISTIANO RONALDO vai ganhar, por hora, mesmo a dormir, 1255 euros: Ofensa grave à moral social

O que tem feito o Cristiano Ronaldo
na Selecção Nacional?
Nada que se veja.
Será que a Federação Portuguesa
não lhe paga o devido?


Não gosto de me meter em coisas do futebol porque há muito deixou de ser um desporto, onde se jogava por amor à camisola. Hoje o dinheiro é rei e senhor num mundo dentro do mundo em que vivemos. Inclusive com leis e tribunais à margem do que existe para o comum o cidadãos.
No tal mundo os jogadores são vendidos e comprados como escravos dos tempos antigos. Com uma diferença: os tais escravos antigos não eram remunerados; os jogadores do futebol, agarrados à ideia de que a sua vida profissional é mais curta do que o habitual, ganham fortunas. Não serão todos, é certo, mas muitos, quando deixam o futebol, não precisam mais de trabalhar. Com isto, há clubes que vão à falência e outros que, por artes nem sempre claras, descobrem maneira de pagar somas fabulosas a alguns craques. É frequente ouvir-se dizer que o clube tal está falido, mas na hora das contratações o dinheiro aparece na mesma. Terminam o ano desportivo com dívidas aos milhões, mas a vida continua como se isto tudo fosse coisa normal.
Cristiano Ronaldo, até há pouco jogador do Manchester United, foi transferido por 94 milhões de euros para o Real de Madrid. Em Espanha, como em Inglaterra e em Portugal, e mesmo por toda a parte, há milhões de desempregados e outros tantos a passar fome. E por mais que o povo proteste e reclame medidas para debelar a crise económica e social, os Estados vêem-se e desejam-se para encontrar soluções, que garantam pão para a boca de imensa gente. E não conseguem descobrir a varinha mágica que, por encanto, dê trabalho a quem dele precisa. Mas para um jogador de futebol, o dinheiro aparece.
Pois o nosso compatriota Ronaldo, que marca tantos golos ao clube que lhe paga bem como muda de namorada a qualquer hora do dia e da noite (que exemplo para a juventude!), vai ganhar 211 mil euros por semana, ou seja, 1255 euros por hora. Ganha numa hora de sono mais do que a grande maioria dos trabalhadores portugueses durante um mês. E tudo isto perante a passividade da UEFA e da FIFA, organismos que superintendem nesta actividade escandalosa.
Confesso, como homem comum, que nem sei como hei-de classificar esta pouca-vergonha: se desonestidade social ou outra coisa qualquer. E mais curioso é que há muita gente a rir-se, porque o seu ídolo (que não o meu) vale isso e muito mais. Até pessoas que não têm onde cair mortas de fome deliram com as aventuras futebolísticas e amorosas do craque. Bem vejo a satisfação desses adeptos.
E mais: em países onde não se apoiam condignamente cientistas, artistas de vários matizes, instituições abertas a ajudar quem mais precisa, desempregados, esfomeados, sem-abrigo e empresas que caem na falência, por não haver dinheiro para ajudas, há milhões para uns tantos nos alienarem (eu não vou nisso) com o futebol.
Que mundo este, meu Deus.
Só mais uma ideia. O que tem feito o Cristiano Ronaldo na Selecção Nacional? Nada que se veja. Será que a Federação Portuguesa não lhe paga o devido?

Fernando Martins

Legitimidade democrática

Cada eleição tem a sua finalidade muito concreta,
que deve ser rigorosamente respeitada.
Fugir disso é brincar com a política,
com a democracia e com a vontade do povo.

Todos nós sabemos que o PS foi eleito para governar o nosso País, desta feita com maioria parlamentar. Tem, por isso, legitimidade democrática para levar até ao fim o mandato que recebeu do povo, pese embora o grito de protesto que desde sempre surge, por parte de quem saiu derrotado nas eleições. O actual Governo não fugiu à regra. Outro que fosse passaria pelo mesmo calvário. Dizem que faz parte da democracia.
Houve há dias eleições para o Parlamento Europeu, tendo saído vencedor o PSD, para nos representar, na UE, com maior número de deputados. Tanto bastou para que por todos os cantos se clame contra o primeiro-ministro e o seu Governo, alegando-se que está provado à saciedade que o executivo já não tem legitimidade para ocupar as cadeiras do poder. Diz-se, até, que Sócrates nada mais pode fazer do que administrar um Governo de gestão, limitando-se a dar seguimento a assuntos correntes e sem significado político.
Tenho pena que muitos políticos percam, por doentia visão interesseira e partidária, a noção dos direitos decorrentes de eleições legítimas. Cada eleição tem a sua finalidade muito concreta, que deve ser rigorosamente respeitada. Fugir disso é brincar com a política, com a democracia e com a vontade do povo.

Fernando Martins

Figueira da Foz: Varandas Floridas

Sinal inquestionável de bom gosto
:
Gosto muito de apreciar varandas floridas. Por norma, quem passa olha e volta a olhar. Na Figueira da Foz, como em muitas outras terras, há esse bom gosto. O ar florido é inquestionavelmente visto como sinal de amor à vida campestre. Dizem que flores em casa traduz o prazer e a necessidade de se ter a natureza por perto. Quem diz isto tem razão. Daí o facto de os urbanos ornamentarem as suas casas e varandas com plantas e flores. Cultive-se, então, esse amor à mãe-natureza.

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS – 135

BACALHAU EM DATAS - 25





NAVIOS REQUISITADOS
NA I GRANDE GUERRA 1914-1918



Caríssimo/a:

Já aqui falámos do arrastão ELITE, da Parceria Geral de Pescarias, que tinha sido adquirido para a pesca do bacalhau na Terra Nova em 1909. Apesar de participar nas campanhas de 1909 e 1910, não provou bem por razões várias: máquina grande mas pouco potente para puxar as redes; elevado consumo de carvão; a técnica da pesca com a rede estava na mão do mestre de redes; um francês contratado não colaborava com o capitão do arrastão; o pessoal não estava preparado para este tipo de pesca. O navio foi retirado da pesca do bacalhau.

Entretanto deflagrou a I Grande Guerra...

Todos sabemos que «é prática corrente a maioria das Marinhas, mesmo as mais dotadas de meios, em períodos de crise e em casos de hostilidades declaradas, socorrerem-se de navios de comércio, de pesca e até de recreio, para aumentarem os seus efectivos navais pois em tempo de guerra os navios militares nunca são demais».

Como a Alemanha declarou guerra a Portugal, em 9 de Março de 1916, algumas dezenas de navios (26 de comércio, 13 de pesca e 2 de recreio) foram requisitados, artilhados e incorporados na nossa Armada.

O arrastão “ELITE”, (o primeiro arrastão Português destinado à pesca do bacalhau) foi requisitado em 13 de Junho de 1916, passando a ser o N.R.P. “AUGUSTO DE CASTILHO” que teve vários encontros com submarinos alemães:
Em 23 de Março de 1918, navegando do Funchal para Lisboa, comandado pelo Primeiro Tenente Augusto de Almeida Teixeira, comboiando o paquete “LOANDA”, abriu fogo a cerca de 500 metros sobre um submarino inimigo que mergulhou prontamente.
Em 21 de Agosto de 1918, navegando ao largo do Cabo Raso, comandado pelo Primeiro Tenente Fernando de Oliveira Pinto, atacou com tiros de artilharia um submarino alemão de grandes dimensões que desapareceu rapidamente.
No dia 14 de Outubro de 1918, navegando do porto do Funchal para o de Ponta Delgada, comandado pelo Primeiro Tenente José Botelho de Carvalho Araújo, escoltando o paquete “SAN MIGUEL”, da Empresa Insulana de Navegação, o qual, por sua vez, era comandado pelo Capitão da Marinha Mercante Caetano Moniz de Vasconcelos e transportava 206 passageiros e muitas toneladas de carga diversa.

Às primeiras horas da manhã foram os dois navios Portugueses avistados pelo submarino alemão U-139 que tentou atingir o paquete o que só não conseguiu porque o “AUGUSTO DE CASTILHO” se interpôs entre o atacante e o atacado.

No combate desigual, que se seguiu e que incrivelmente se prolongou por mais de duas horas, perdeu a vida o heróico Comandante Carvalho Araújo e mais seis elementos da sua guarnição de 42 homens.

Ora, a nossa geração muito falou da heroicidade do Comandante Carvalho Araújo e alguns ainda se lembrarão duma poesia de Adolfo de Simões Müller (na página 272 da antologia «Portugal Gigante»):

Comboiava o «S. Miguel»
A caminho dos Açores
Um barquinho português
Que fora de pescadores.
Quando os nossos iam quase
Seguros do seu destino,
Surgiu de repente ao longe
Um enorme submarino.

...

Travou-se um longo combate,
Como outro nunca se deu:
Era assim como um gigante
A lutar contra um pigmeu!

Dentro em pouco o nosso barco
Era um monte de madeira,
Tendo dentro um coração
E no topo uma bandeira.


...

Carvalho Araújo expira,
Dizendo com altivez:
- «Morro..» (e mal se ouviu o resto)
«... Como morre um Português!»

O seu corpo lá ficou
Tendo as ondas por coval,
Aquelas ondas que foram
O berço de Portugal...

...

Além do patrulha de alto mar “AUGUSTO DE CASTILHO” perdeu-se nesse período também o caça-minas “ROBERTO IVENS”, anteriormente arrastão da pesca do alto.

Manuel

VISITA À LOJA DE DEUS


Na loja de Deus só temos sementes e não árvores

Fui à feira do mundo. Atraído por um slogan, entrei na zona das lojas. Encontrei de tudo, até uma que, em reclame publicitário, reluzia ao longe: “Loja de Deus”.
Cheio de curiosidade, entrei com cuidado e pus-me a observar. Aproxima-se de mim o empregado que, solícito, me pergunta: “que deseja, senhor?”
Eu, que ainda não tinha desejos claros, senti-me cúmplice e disse, a conta-gotas, com humilde simplicidade: “Eu preciso de algo que suavize as minhas necessidades: paciência, sobriedade, atenção aos outros, delicadeza, humor, olhos limpos de preconceitos, coração sem pressas de julgar”.
«Quero felicitá-lo porque acertou em cheio. Aqui temos o que procura e ainda mais» – respondeu, sem demora, despertando em mim uma enorme curiosidade e alegria.
Ia a retirar-se quando lhe disse a quantidade dos produtos que pretendia. Anotou, sorridente, e foi-se.
A minha expectativa era enorme... Os momentos de espera foram longos e sofridos. Era desta vez que alcançaria o que há muito procurava.
Finalmente, vejo por trás da estante a silhueta do funcionário que regressa. Entro em agitação exultante. Aproxima-se de mim com uns saquinhos que continham pequenas quantidades, bem doseadas e arrumadas.
“Mas”… ia eu a perguntar, quando ele me disse com voz clara e ar sorridente: «Na loja de Deus, só temos sementes e não árvores. Ofereço-lhas, de boa vontade, pois aqui tudo é gratuito. O resto é consigo e com a sua família ou colegas de trabalho, com a sociedade e a comunidade cristã a que pertence.
A árvore e os frutos que produz são o símbolo da nossa vida. Hão-de brotar, crescer, amadurecer e serem saboreados com esforço persistente e ambiente favorável. Embora a seiva que lhe imprime tal ritmo e vitalidade ultrapasse a nossa compreensão. Pertence a Deus!»
Agradeci ao Anjo do Senhor o seu sábio conselho e, desde então, vou tentando ser um ramo novo da Árvore da Vida que um dia foi semente em germinação.

Georgino Rocha

sábado, 13 de Junho de 2009

Martini: o outro Papa?

Cardeal Martini


Lembro-me de há anos um professor de Teologia, em Tubinga - encontrava-me lá na altura -, aquando da proibição pelo Vaticano de homilias feitas na Missa por leigos e leigas, ter feito apelo à greve às Missas no Domingo seguinte. Aquando da expulsão do bispo de Nampula, em 1974, os padres, porque a Diocese estava de luto, fizeram greve às celebrações litúrgicas da Semana Santa. Agora, foram padres da República Centro-Africana que anunciaram - depois, fizeram marcha atrás - que, como sinal de respeito e carinho para com o arcebispo de Bangui, P. Pomodino, destituído pelo Vaticano, bem como Fr.-X. Yombandje, Presidente da Conferência Episcopal, por terem mulher e filhos, não celebrariam sacramento algum.


Entretanto, a Cúria Romana apressa-se a estabelecer penas mais severas para os padres que violem a promessa de castidade ou a doutrina oficial.


Independentemente da questão da greve religiosa, é-se hoje convocado para alguns problemas complexos da Igreja institucional, que exigem debate livre, plural e responsável. Entre eles, a questão da democracia interna, da igualdade das mulheres, da sexualidade e, neste domínio, concretamente, da lei do celibato obrigatório para os padres.


Neste contexto, evoco o Cardeal Carlo Martini, biblista eminente, antigo arcebispo de Milão, apontado por muitos como "papabile", no seu último livro. O padre Luigi Verzé encontrou-se com ele de Fevereiro a Abril deste ano, e, das suas conversas, nasceu o livro Siamo tutti nella stessa barca (Estamos todos no mesmo barco), que acaba de ser publicado.


Martini começa por confessar o sofrimento que lhe causa "o facto de ver que a cultura do mundo avança com um passo mais veloz do que o da Igreja oficial". Exemplificando com a biologia, depois de afirmar que o embrião não pode ser considerado "de modo puramente instrumental", também diz que compreende que "se ponha hoje o problema de tantos embriões destinados um dia a morrer congelados e que poderiam ser utilizados para a investigação".


Precisamente quanto ao celibato, reconhecendo que é "uma questão delicadíssima", afirma que é preciso caminhar no sentido da opção livre: "Creio que o celibato é um grande valor, que permanecerá sempre na Igreja: é um sinal evangélico. Mas isto não significa que seja necessário impô-lo a todos. Aliás, nas Igrejas orientais católicas já não é exigido a todos os sacerdotes". Alguns bispos propõem ordenar homens casados com experiência e maturidade. Martini chama a atenção para o perigo do clericalismo, acrescentando: "Estou certo de que haverá sempre muitos que optarão pela via celibatária. Porque os jovens são idealistas e generosos. Mas há no mundo algumas situações particularmente difíceis, especialmente nalguns continentes. Penso que compete aos bispos desses países apresentar estas situações e encontrar soluções".


O cardeal confessa, em comunhão com Verzé, que há múltiplos problemas que mostram uma Igreja "demasiado afastada da realidade". Outro exemplo disso é a sua atitude para com os católicos divorciados e recasados, que se encontram entre "as muitíssimas pessoas que na Igreja sofrem porque se sentem marginalizadas". Evidentemente, é preciso distinguir, pois "não devemos favorecer a leviandade nem a superficialidade, mas promover a fidelidade e a perseverança. No entanto, há alguns que se encontram hoje numa situação irreversível e sem culpa. Talvez tenham contraído novos deveres para com os filhos do segundo casamento, não havendo nenhum motivo para voltar atrás; pelo contrário, esse comportamento não seria adequado. Assumo que a Igreja deve encontrar soluções para estas pessoas".


A eleição dos bispos merece igualmente atenção. É uma questão muito complexa, mas o actual modo de elegê-los "deve ser melhorado". O problema existe e "deve poder fazer-se uma discussão pública sobre o tema".


Martini não é o outro Papa, no quadro de uma cisão na Igreja. Ele exprime a sã multiplicidade de opiniões na Igreja. Como ele próprio diz, "é necessário que a Igreja toda se ponha a reflectir e, guiada pelo Papa, encontre vias de saída".


Anselmo Borges



sexta-feira, 12 de Junho de 2009

NOVA LETRA PARA O HINO NACIONAL?


“Tem de haver uma mudança radical no nosso olhar para nós mesmos. Portugal vive praticamente a duas cores. Cor-de-rosa e cinzento. Pouco adequado a um país com muito sol e um enorme mar azul à frente. Há cada vez mais gente a cantar em inglês (especialmente na zona centro, vá-se lá saber porquê), o que denota um afastamento gradual da língua mãe, e portanto da nossa razão de ser povo. Porque não voltar a ter uma bandeira bonita? Já a tivemos, era azul e branca. E, já agora, tirar aquela ridícula letra do hino e deixar a música viver em pleno, que o hino é muito bonito.”

Rui Veloso

Citado pelo jornal i


IDEIAS PARA PENSAR

:
Ora aqui está uma ideia para pensar. Eu sei que as nossas prioridades estão centradas na política e no mais feroz e avassalador objectivo, que é a economia. Sem ela, não creio que haja vida digna. A velha teoria do amor e duma cabana já lá vai há muito. Mesmo assim, acho que há ideias interessantes, como esta lançada por Rui Veloso.
Diz ele que o nosso mar e o nosso céu, com sol que baste para tornar o nosso País bastante luminoso, poderiam inspirar uma bandeira diferente, com cores mais consentâneas com a nossa realidade. O verde e vermelho, duas cores que casam tão mal, apenas terão surgido por oposição agressiva às tradicionais cores da bandeira nacional, em que o azul e o branco pontificavam. E assim ficou, até hoje, explicando-se o facto com argumentos que de outra forma também se arranjariam a contento de todos.
Depois abordou a questão da letra que considerou ridícula. Aliás, não é primeira vez que alguém a contesta. Que eu saiba, o primeiro a fazê-lo foi Alçada Baptista, em Chaves, no discurso (depois publicado num dos seus livros) do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Na altura, não faltaram protestos contra o autor da ideia. Mas ele, com a sua bonomia, ria-se e dizia, com graça, que há muita gente que canta o Hino Nacional, sem sequer pensar no que está a dizer. Pois é. Então, por que razão não se há-de pensar no assunto?
Alçada Batista tinha destas coisas. Um dia também contestou a oração que nós, católicos, muito rezamos e que é a Salve, Rainha. Afirma ele que não faz sentido usar palavras e expressões como “os degredados filhos de Eva”, “vale de lágrimas” e “desterro”. Expressões e palavras que denunciam pessimismo e uma visão negativa da vida.
Seja como for, acho que o Hino Nacional merece outra letra, já que a música, como diz Rui Veloso, é muito bonita.
Quanto à Salve, Rainha, não acredito que alguém lhe mexa. Mas como há tantas outras orações expressivas e optimistas, o melhor é optar por elas.
Que dizem os meus leitores e amigos?

Fernando Martins

Crise dos padres, uma oportunidade?



O papel do padre, em vez de se esboroar, tem-se afirmado com um relevo inédito. Pode mesmo dizer-se que o padre se torna cada vez mais importante.

Por bizarro que possa parecer, tornou-se muito raro ouvir falar da identidade ou da função do Padre na Igreja Católica sem associar imediatamente a palavra crise. Se este termo só muito recentemente entrou na gramática do quotidiano para designar a economia e a sociedade, há muito que ele acompanha a definição da figura e da missão do presbítero. Primeiro, porque as estatísticas desenham uma diminuição das vocações sacerdotais e religiosas que não pode não ter consequências.

Segundo, porque o modo como o padre era olhado do exterior também se alterou (o padre detinha um poder simbólico e exercia um magistério social inquestionáveis). E, por fim, e para resumir, a maneira como o Padre olha para si mesmo reflecte também novas interrogações, expectativas e possíveis caminhos. A grande questão é como transformar esta crise, que não é de ontem nem de hoje, numa oportunidade para a perspectivação e vivência deste ministério fundamental.

Há, num contexto de nem sempre fácil leitura, algumas linhas que vão sublinhando a esperança. Uma delas é a percepção paradoxal de que o papel do padre em vez de se esboroar se tem afirmado com um relevo inédito. Pode mesmo dizer-se que o padre se torna cada vez mais importante na vida dos cristãos e das comunidades. À medida que a visibilidade sociológica do padre parece diminuir, cresce a procura para o diálogo e o confronto da vida, as solicitações para acompanhar pequenos grupos e equipas, para estar presente nos momentos mais variados e em contextos mais íntimos. Lendo alguns sinais deste tipo, vemos emergir três eixos que constituem outros tantos desafios para o Padre de hoje:

1. O Padre é chamado a ser cada vez mais um homem da Palavra. Espera-se dele que tenha mergulhado a sua vida e a sua inteligência na Palavra de Deus e possa ser um anunciador, com capacidade de traduzi-la numa linguagem pertinente e actual, agindo com sentido profético e verdadeira sabedoria evangélica.

2. O Padre é chamado a exercer a paternidade espiritual de modo mais intenso, pela disponibilidade para acolher e acompanhar, sublinhando nos momentos diversos o essencial da esperança.

3. O Padre é chamado, até por fidelidade à tradição da Igreja, a sondar e a valorizar as novas fronteiras onde o Espírito se revela.

José Tolentino Mendonça

Não percamos a Tradição


1. Aproximam-se tempos de festas populares. Uma oportunidade de, bem mais cuidadosamente, apreciarmos aquilo que são os dinamismos das comunidades que vão fazendo perdurar no tempo um conjunto de valores de pertença. Sendo certo que existirão tradições a aperfeiçoar, senão mesmo a purificar neste ou naquele aspecto, valorizemos essa vontade de expressão comunitária e deixemo-nos sensibilizar para o sentido de que a tradição também se constrói. Diz-se que em tempo de crise também o mesmo fim poderá acontecer às tradições. Nem por isso as coisas terão de ser assim, pois que o segredo das tradições sempre esteve e estará em serem simples e populares. Até porque no sentido espiritual mais profundo, a tradição religiosa procurou sempre aproximar as comunidades simples de ideais divinos, por vezes bem complexos para a mente humana.

2. Assim se compreende que as devoções aos santos – veja-se o caso exemplar universalista de Santo António –, sendo verdade teologicamente que quem salva não é o Santo mas Deus, consegue tirar de casa gente que de outro modo não sairia. É certo que em muitas faces os caminhos das tradições poderão ter contra-sensos, mas na grande maioria da sua expressão a tradição repleta de tradições consegue o milagre de unir, reunir, gerar elos de ligação das raízes das gentes ao sentido de projecto com futuro pessoal e social. Um valor inestimável que em palavras mais “caras” se poderá designar de antropológico, cultural, espiritual, educativo, filosófico e mesmo ético, habita o seio das tradições, valores a compreender para mais e melhor preservar.

3. Importa, por isso, não esperar que elas acabem para depois procurar as suas raízes. Importará investir não tanto em criticá-las como mais em reorientá-las no sentido mais pleno da reconstrução contínua da tradição. As tradições, na sua maior expressão não são museu que o tempo levou, mas transportam consigo a alma das gentes, um sentido de vidas com projecto comunitário. Tão preciso!
Alexandre Cruz

quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Um poema de Donzília Almeida: Gratidão


Ao Domingos Cardoso
:
GRATIDÃO

Tantas horas de profundo labor
Assim, de mão beijada, oferecidas,
São pérolas de amizade imerecidas
E alvo de um rasgado louvor!

Com avanços e recuos e amor
Pela arte de narrar coisas sentidas,
Tiveram duração de horas compridas,
Nesta dura tarefa de revisor!

Não sei se vou conseguir reconhecer
Tanta dádiva que vem do coração,
Mas quero aqui deixar transparecer,

Que a mais nobre e pura gratidão,
Em explosão, brota do meu ser,
Apenas e tão-só para o enaltecer!


M.ª Donzília Almeida
08.06.09

Humoristas sem graça

Quem pode esquecer o Raul Solnado?

Humorismo em crise deixa país mais entristecido

Nos tempos de crise fazem falta bons humoristas que proporcionem a toda a gente, pela sua criatividade, momentos de alegria e de esperança, de bem-estar e de confiança. O que se vê é que há mais gente irritada e azeda a agredir e a encobrir o sol por tudo e por nada, que artistas do humor, sábios e serenos, a desmontar agressividades e a conciliar diferenças, com um dito apropriado ou uma rábula, rica de saber e de graça.
O humorista, julgo eu, é uma pessoa inteligente e criativa, um artista. Caso contrário, refugia-se na graçola, banal e pestilenta, acabando a rir sozinho com os bacocos, sem convicção, nem consolo. Onde não há inteligência não há criatividade. Sem inteligência e estro artístico, o humor nasce tão doente, que logo morre à nascença. Criar humor é mais que contar anedotas ou entreter com cantigas picantes.
Há páginas de antologia em alguns dos nossos humoristas. Quem pode esquecer o sentido acutilante, irónico e pedagógico da “guerra do Solnado”?
Há no humorismo verdadeiras peças de arte que não envelhecem, nem se desfiguram. Ouvem-se hoje, como há dezenas de anos atrás. O mesmo gosto e prazer. A mensagem, que nunca é uma simples piada ou uma graçola insonsa, continua viva e actual.
Coisa rara, hoje, na produção dos chamados humoristas. Nem inteligência, nem criatividade, nem graça, nem saber, nem verve. O pretenso humoris-mo de hoje, como a pobreza do tempo, tornou-se descartável como a moda: ver, ouvir, rir, deitar fora.
Os canais de televisão e as estações de rádio conservam os seus humoristas, como a corte manteve o seu bobo. Alguns bem tristes, mesmo quando pretendem fazer graça. A gente da programação ou já não sabe o que é o verdadeiro humor, ou quer vender gato por lebre, ou, então, pensa que para um país desiludido e alienado, qualquer coisa serve para divertir e provocar gargalhadas.
As anedotas são brejeiras, os trocadilhos sem gosto, os ditos não dizem nada. E, quando se trata de intelectuais recentes a querer fazer humor em grupo, a desgraça parece ainda maior. Com um ar superior, brincam com tudo e com todos, não respeitam nada nem ninguém, nivelam tudo com a mesma rasa. O objectivo será o prazer do grupo, inebriado com seus dizeres vazios, seu saber pretensioso e suas gargalhadas histéricas. Ouve-se, vê-se e tira-se logo a prova de “como vai mal o humor em Portugal”.
O povo ri se as piadas cheiram a sexo, religião ou política. Mas humor não é isto, porque, mesmo quando faz rir, também faz pensar.
Sempre que se deixa de pensar, as referências válidas para ajuizar e avaliar o que se ouve, se lê, se pensa e se vive, desaparecem. Assim, o humor é impossível. Impossível fechar a boca aos insensatos e abrir o coração aos incautos, se a cabeça está oca e vazia.
O bom humor é tempero da vida diária. Mal vai a um povo quando o humor se serve estragado ou dele não se sente falta. Os latinos diziam que “rindo se castigam os costumes”. Um dito sábio a mostrar que se pode fazer mais com uma palavra breve de verdadeiro humor, que com um discurso longo de pretenso saber. Porém, os costumes vão hoje de tal ordem, que castigá-los se tornou tarefa difícil, senão impossível.
Muitos políticos agridem-se e picam-se, por tudo e por nada; há governantes a prometer o impossível e não suportar críticas: muitos intelectuais viram narcisistas e olham a plebe por cima do ombro; até os jovens, agora mais suficientes e surdos, fazem caminho por conta própria; restam os excluídos sociais que carregam a sua dor, cada dia mais desiludidos.
O ambiente está mais carregado. Ninguém espere que o sol da esperança e da alegria alimente tristezas e desilusões. Com o futebol no defeso as coisas vão piorar. Deixemos que os humoristas, poetas e outros artistas, dêem beleza à paisagem humana e digam a toda a gente que o tempo não é de parar, nem de chorar, porque cada dia o sol nasce.

António Marcelino

Um poema de Domingos Cardoso: Foi o vento

Foi o vento

Foi o vento cortante como gume,
Que me fez companhia nessa espera
Em que só a saudade mais austera
Me falava de ti, como um queixume.

Foi o vento que trouxe o teu perfume
Nessa clara manhã de Primavera,
E, então, eu senti, que antes de quimera,
Eras rosa vermelha em fogo e lume.

E os dias se passaram a correr
Num tempo de alegrias e prazer
Como só haveria em pensamento.

E essa ardente harmonia em nossa vida
Foi repartida ao mundo, a toda a brida,
Por esse arruaceiro que é o vento!

Domingos Freire Cardoso

quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Do discurso do Presidente da República
nas comemorações do 10 de Junho

SOMOS CAPAZES DE VENCER



Hoje é o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o dia em que evocamos os nossos maiores e prestamos homenagem àqueles que continuam a sua obra e se distinguem por feitos notáveis em prol da nação.

Neste dia tão cheio de significado para os Portugueses, estamos aqui, em Santarém, para celebrar a nossa identidade como povo e os laços que desde há séculos nos unem, seja onde for que tenhamos rumado, em busca de um futuro melhor.

Estamos aqui, além disso, para honrar a obrigação que temos para com aqueles que nos antecederam e legaram um País soberano, manifestando a nossa vontade de deixar esse mesmo legado, se possível engrandecido, àqueles que nos irão suceder.

Gostaria, neste momento, de evocar a memória de João Bénard da Costa, que, nos últimos dez anos, desempenhou de forma notável as funções de Presidente da Comissão Organizadora destas Comemorações.

As comemorações do 10 de Junho representam, antes de mais, uma manifestação de fé e confiança nas capacidades do povo português, tantas vezes demonstradas ao longo dos tempos.

Capacidade para resistir em momentos adversos e defender a integridade do território e a independência nacional, como a que demonstrou, por exemplo, Nuno Álvares Pereira, que a Igreja Católica ainda recentemente canonizou.

Capacidade para planificar com rigor e executar com determinação as ideias mais arrojadas, como a que demonstrou o Almirante Gago Coutinho, nascido há precisamente 140 anos, que realizou com Sacadura Cabral essa proeza extraordinária que foi a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

Capacidade, ainda, para ir à aventura, arriscar e descobrir novas terras e novos mundos onde vencer, como a que podemos ver ainda hoje em tantos dos nossos emigrantes.

O exemplo destes e de tantos outros homens e mulheres, nossos compatriotas, sejam eles famosos ou simples anónimos, é um justificado motivo de orgulho.

Mas deve igualmente constituir um estímulo, uma prova de que somos capazes de vencer, mesmo perante os maiores desafios ou as piores adversidades.
Leia todo o discurso aqui

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Do discurso de António Barreto
nas Comemorações do 10 de Junho


Os portugueses
precisam de exemplos






As comemorações nacionais têm a frequente tentação de sublinhar ou inventar o excepcional. O carácter único de um povo. A sua glória. Mas todos sentimos, hoje, os limites dessa receita nacionalista. Na verdade, comemorar Portugal e festejar os Portugueses pode ser acto de lucidez e consciência. No nosso passado, personificado em Camões, o que mais impressiona é a desproporção entre o povo e os feitos, entre a dimensão e a obra. Assim como esta extraordinária capacidade de resistir, base da "persistência da nacionalidade", como disse Orlando Ribeiro. Mas que isso não apague ou esbata o resto.

Festejar Camões não é partilhar o sentido épico que ele soube dar à sua obra maior, mas é perceber o homem, a sua liberdade e a sua criatividade. Como também é perceber o que fizemos de bem e o que fizemos de mal. Descobrimos mundos, mas fizemos a guerra, por vezes injusta. Civilizámos, mas também colonizámos sem humanidade. Soubemos encontrar a liberdade, mas perdemos anos com guerras e ditaduras.

Fizemos a democracia, mas não somos capazes de organizar a justiça. Alargámos a educação, mas ainda não soubemos dar uma boa instrução. Fizemos bem e mal. Soubemos abandonar a mitologia absurda do país excepcional, único, a fim de nos transformarmos num país como os outros. Mas que é o nosso. Por isso, temos de nos ocupar dele. Para que não sejam outros a fazê-lo.

Não usemos os nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista.

Pela justiça e pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplo do que de lições morais.
Pela honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem mais do que de sermões.


Pela eficácia, pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo.


Pela liberdade e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo do que com declarações solenes.


Contra a decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do que com discursos pomposos.


Pela recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o exemplo com mais elevado sentido de justiça.

Leia todo o discurso aqui

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Fortaleza de Diu
:
É urgente repensar Portugal


“Refundar a Nação dando-lhe um sonho.
Nós fundámos a Nação com o sonho
de autonomia relativamente a Castela,
refundámos com a ideia dos Descobrimentos
e está na altura de um novo sonho
que nos projecte para melhores dias.”

António Martins,
Presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses

UM POVO LIMITADO E SEM SONHOS? PORQUÊ?
:
Esta citação, transcrita hoje do jornal i, vem mesmo no dia certo, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Vem no dia certo porque é "o sonho que comanda a vida", no dizer poético e profético de António Gedeão. Sem sonhos que nos acordem e que nos projectem, muito para além da pequenez linha de horizontes fechados, jamais seremos dignos dos que "deram novos mundos ao mundo", como ensinou Camões.
Confesso que às vezes fico inquieto sem saber o que pensar sobre as razões que nos levaram a pôr de lado o ânimo dos nossos antepassados que construíram Portugal, à custa de sonhos, é certo, mas também de muita determinação e de muita coragem.
A RTP tem estado a mostrar imagens do nosso glorioso passado, espalhadas um pouco por toda a parte. E quando ouço que uns tantos portugueses souberam, porque quiseram, semear nas mais recônditas paragens do globo as marcas da nossa identidade, de que tanto nos orgulhamos, não posso deixar de pensar no povo que somos hoje. Um povo limitado e sem sonhos? Porquê?
FM

terça-feira, 9 de Junho de 2009

Presidente da República vetou alteração à lei do financiamento dos partidos políticos


Não há a necessária
transparência
das fontes
de financiamento

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Cavaco Silva vetou alteração à lei do financiamento dos partidos políticos, no pressuposto de que essa “alteração ocorre sem que se encontre devidamente acautelada a existência de mecanismos de controlo que assegurem a necessária transparência das fontes de financiamento privado, no quadro de um sistema que, sublinhe-se, adopta um modelo de financiamento tendencialmente público, do qual já resultam especiais encargos para o Orçamento do Estado e para os contribuintes”, conforme se pode ler no “site” da Presidência da República.
Às vezes fico confuso com algumas decisões emanadas da Assembleia da República, obviamente aprovadas pelos nossos parlamentares. Como neste caso, está bem de ver. Fala-se tanto de honestidade, mas esta ideia de angariar fundos pecuniários sem indicação das respectivas fontes não tem nada de transparente.
Que os nossos legisladores elaboram leis confusas e sem rigor gramatical, já se sabia. Mas virem agora com uma lei destas, onde a transparência fica afastada, é que não se pode tolerar.

FM

As Grandes Navegações Marítimas


Permitam-me que chame a atenção dos meus leitores para um blogue que muito interessa aos amantes das coisas do mar. Trata-se do blogue do Eng. Senos da Fonseca, "As Grandes Navegações Marítimas", que vai ser, pela competência do seu "dono", uma fonte expressiva de informações, que todos nós, gentes do mar, poderemos usufruir.
NOTA: Foto do blogue "As Grandes Navegações Marítimas"

E voltando-se então, verá as águas mansas da extensíssima ria

Ria de Aveiro

“E voltando-se então, verá as águas mansas da extensíssima ria fulgurando de todos os lados: e, entre elas, as salinas, recticuladas pelos tabuleiros em evaporação, com os seus montes cónicos de sal novo dando a impressão de um largo acampamento de tendas imaculadamente brancas espalhadas a perder de vista pela vastidão dos polders."
Leia mais aqui

Imagens de Aveiro: Janelas Floridas

O bom gosto pode surgir a cada esquina. Esta casa, em Aveiro, no Rossio e virada para a Ria, mostra isso mesmo. Janelas floridas podem ser, sem dúvida, uma mais-valia na apresentação de uma edifício. Como este, com as suas cores de sempre, penso eu, com o azul e o amarelo a sobressaírem. E não me digam que as flores não ficam ali tão bem, em ligação com azulejos e com a pedra de calçada à portuguesa no passeio.

O que torna uma obra de arte uma obra religiosa?

Actos dos Apóstolos (det.) Ilda David

“O estilo artístico encontra
em si mesmo uma significação religiosa”


1. Depois do sigilo divino esboçado nas Catacumbas, depois do ouro bizantino, da soberana epifania dos ícones, depois do Românico e do Gótico, do Barroco e de tudo o que, Modernidade adentro, se seguiu, torna-se imperioso perguntar: o que é que nos dá, na relação com uma obra de arte, a consciência de estarmos também diante de uma obra religiosa?
2. O século XX deve ao teólogo que orientou a tese de doutoramento de Adorno, Paul Tillich, a resposta mais esclarecedora. Ousando contrariar séculos de redundância, ele defende que aquilo que une Arte e Religião não é, em última análise, o motivo tratado, mas sim o estilo. Não basta moldar um crucifixo ou um santo, nem escolher como tópico da produção artística uma cena bíblica. Precisamente um entendimento assim conduziu à banalidade e à dispersão que avultam na representação do sagrado. Segundo Tillich, “o estilo artístico encontra em si mesmo uma significação religiosa”. Esta, ou existe no interior dele ou não existe de todo, pois não pode ser infundida, nem acrescentada. Nessa linha, a frase certeira de Matisse: “Na Arte, o que se pode dizer por palavras não conta”. O estilo é que constitui a genuína “experiência do Espírito”, o fluxo de criação que faz estalar pelo fundo da forma “os limites da forma”, que torna o visível invisível e, talvez, e talvez, vice-versa.
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José Tolentino Mendonça
Leia tudo aqui

segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Liberdade: um anseio a conquistar

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Exclusão e pobreza têm impedido
crescimento global dos cidadãos


Olhando para o Portugal contemporâneo, o professor universitário [Marcelo Rebelo de Sousa] considera que há diversos obstáculos ao exercício da liberdade. Desde logo porque muitas pessoas vivem em condições de exclusão, pobreza, dependência, ignorância e ausência de um percurso educativo adequado. Para esta parte da população, a liberdade garantida pela Constituição não pode ser aplicada.
Ser livre é, para D. Manuel Clemente, muito mais do que agir sem prejudicar ninguém; é sobretudo uma capacidade de acolher e estar disponível. Não estamos sós no mundo, pelo que esta pedagogia da exigência, que deve começar com as crianças, é essencial para conjugar a liberdade individual com a das pessoas que vivem em sociedade.
Pensa-se por vezes que a liberdade justifica todos os comportamentos; segundo Marcelo Rebelo de Sousa, este ponto de vista reflecte-se na disseminação da violência familiar e laboral, na dificuldade em viver no espaço público e na intolerância face às opiniões discordantes.
No que diz respeito à manifestação pública da opção crente, o comentador defende que se está a assistir ao "ressurgir de posições iluministas, não apenas anti-clericais", que revelam dificuldades em entender o que é a liberdade religiosa.
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As nossas Maravilhas

Macau

1. Neste 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, será apresentado o resultado da eleição das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo http://www.7maravilhas.sapo.pt/ De 27 monumentos que retratam percursos da nossa história universalista, o convite à eleição de sete ergue-se como uma oportunidade privilegiada de melhor conhecermos aquilo que foram os passos absolutamente inovadores de nossos antepassados dos séculos XV-XVI. Fortalezas, mosteiros, igrejas e tantos outros monumentos reflexo de sociedades daquela época ficaram como registo de presença cuja nossa memória deverá preservar. Não, todavia, num olhar saudosista que paralisa os desafios do presente, mas sim numa visão atenta que saiba capitalizar a matriz globalista e intercultural dos portugueses.

2. Na medida em que entramos no conhecimento destes monumentos e da sua história ficamos maravilhados com tantas edificações surpreendentes. Tantas vezes o que parecia impossível foi realizado e edificado, mesmo em tempos recorde e na defesa de gentes e patrimónios. É um valor inestimável estar pelo mundo semeada uma presença dos portugueses que, para além de grandes monumentos, contém o património linguístico e mesmo uma interculturalidade sanguínea. Facto histórico indesmentível: outros povos descobridores ou conquistadores fechavam-se em seus castelos e fortificações; os portugueses, na generalidade, procuraram o contacto, geraram prole, assumiram a miscigenação como modo de presença pessoal.

3. Se o tempo ajuda a purificar as memórias dos abusos tidos na história, todavia, o tempo não deve fazer perder e esquecer o melhor dos passos andados. Sem mitologias nostálgicas de que somos um povo predestinado, mas sem o pessimismo arrastador que nos impede de avançar e arriscar, valerá a pena acompanhar este concurso das sete maravilhas como uma aula de história rica de memória e, também, de projecto.
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Alexandre Cruz

O povo que vota sabe muito. E quando quer, pode mudar tudo ou não

Os vencedores

A abstenção é fruto da falta de cultura política

Ontem, na hora de votar, cruzei-me com uma pessoa amiga, com curso superior. Mostrando uma ignorância política absoluta, questionou-me assim: Afinal que eleições são estas? Serão assim tão importantes? Que ganhamos nós com isso?
Com os resultados conhecidos, dei razão àquilo que já sabia. Somos bons políticos para dizer mal de tudo, para criticar opções governamentais, para contestar as posições dos partidos políticos, para lutar encarniçadamente contra reformas, para contestar quem quer acabar com privilégios, mas, no fundo, há uma grande ignorância a muitos níveis e um grande egoísmo na cabeça de gente que podia olhar o mundo com espírito solidário.
A abstenção, vivida muito entre nós, é fruto dessa falta de cultura política e dum desinteresse geral pelo que à sociedade, no seu todo, diz respeito. O bem comum, que deve sobrepor-se aos interesses individuais e de classe instalados, tem que ser ensinado e treinado desde tenra idade. Doutra forma, corremos o risco de alimentarmos gente abúlica, sem opiniões criativas, sem gosto pela inovação, sem sentido estético, sem capacidade solidária e sem gosto pela política.
Sobre os resultados eleitorais, está tudo dito. Ganhou o PSD e perdeu o PS. Mais concretamente: Ganhou Manuela Ferreira Leite e perdeu José Sócrates. Enquanto o PS desceu, todos os partidos da oposição subiram.
O PS insiste na ideia de que estas eleições eram para o Parlamento Europeu e que nada tinham a ver com a governação. Penso que está enganado, pese embora a má escolha de Vital Moreira feita por Sócrates. O povo que foi votar é o que nunca falta. Sabe bem o que quer. O povo que vota tem sempre razão. O que falta não tem razão nenhuma. Nem tem o direito de criticar seja o que for, embora tenha a liberdade de viver indiferente à causa pública.
Nessa altura, quando pega no boletim do voto, sente-se com o poder que a democracia lhe dá. E também sabe que, protestando, e muitas vezes o faz, raramente é ouvido. Mas na hora das eleições ele sabe que, com o seu poder, pode reorientar a história.
Será que Sócrates aprendeu a lição? Não sei. O tempo o dirá. Porém, os portugueses sabem bem o que querem, sobretudo o povo que sofre no dia-a-dia, o que não tem privilégios, nem regalias, nem ordenados dignos, nem trabalho garantido, nem pensões de reforma milionárias, nem carros de luxo, nem férias de sonho, nem pão para matar a fome a filhos…
O povo que vota sabe muito. E quando quer, pode mudar tudo ou não.

Fernando Martins

Temos de acreditar mais em nós próprios


“Acima de tudo, temos, definitivamente, de acreditar mais em nós próprios. Portugal e os portugueses, ao contrário do que muitas vezes pensamos, são respeitados e apreciados no estrangeiro. Há inúmeras provas disso ao longo do tempo. É preciso acabarmos de vez com o choradinho dos coitadinhos e termos confiança em nós.”

Fernando Santos, treinador de futebol

domingo, 7 de Junho de 2009

Um poço sem fundo?


1. A novela de alguns bancos portugueses afogados pela incúria e pelo interesse único do deus dinheiro continua imparável. Mundos e fundos transferidos para os chamados paraísos fiscais são o reflexo dessa estratégia multiplicadora mas fugidia de um paradigma de economia que, mais ano menos ano, teria de ter o seu próprio fim. Não menos preocupante poderá ser a estratégia da generalização acusatória para com facções políticas, como se o “crime económico” fosse desta ou daquela corrente de pensamento. Esta atitude continua a espelhar que ainda não se aprendeu com a história… De todos os lados do pensamento social e político, infelizmente, poderá existir a suspeita de pertenças ao poço sem fundo, que cresce tanto mais quanto menos a ineficiência justiceira.

2. Do ano 2000 para cá um conjunto de situações, suspeitas de grandes crimes que entroncam na corrupção, têm assolado este paraíso à beira mar plantado. Da sensação de que seriamos um povo pobre mas honrado, passou-se, com meia dúzia de grandes casos envolvendo personalidades mediáticas, a uma nova consciência de que havíamos andado enganados. Não se transfira só a responsabilidade para entidades de estatuto nacional, pois que as obrigações cívicas e éticas nunca podem passar de moda pessoal e social, pelo contrário: vão sendo tanto mais publicadas e defendidas quanto menos agilidade nos sistemas educativos e de justiça parece existir. Também seja sublinhado e interrogado sobre: qual o papel eficiente das entidades de supervisão? O que faltou/falta?
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3. O prior que pode acontecer será o colocar-se tudo no mesmo saco. Como em tudo, existem papéis diferentes para diferentes actores. O cumprimento das regras do jogo conduz a que é lícito e meritório o procurar a gestão dos rendimentos, o arriscar nas bolsas, o avançar para esta ou aquela entidade bancária que, pressupostamente, cumprirá os requisitos oficiais. Mas, sem ética da confiança tudo se desmorona… Não será?
Alexandre Cruz

2.ª Regata de Cruzeiros do Porto de Aveiro: 27 e 28 de Junho


Programa aposta forte no convívio
entre as várias tripulações

Nos próximos dias 27 e 28 de Junho vai realizar-se, ao largo da Barra de Aveiro, a 2.ª Regata de Cruzeiros do Porto de Aveiro. A organização é da Administração do Porto de Aveiro (APA), em parceria com o Clube de Vela da Costa Nova (CVCN). A BP associa-se a esta importante prova desportiva como Patrocinadora Oficial.
A prova é aberta a barcos de cruzeiro à vela agrupados em classes IRC, ANC e OPEN. A 19 e 20 de Junho começarão a chegar a Aveiro as embarcações forasteiras. As provas decorrem nos dias 27 e 28, inseridas num programa que aposta forte no convívio entre as várias tripulações.

Pormenores da Ria de Aveiro


Às vezes, ou frequentemente, passamos a correr pela nossa Ria. Mas se passarmos por ela com calma, é certo e sabido que nos ângulos da nossa visão há sempre motivos para contemplação. Como os que esta imagem mostra, com a Ria por pano de fundo.

Nos 65 anos do Dia D, Obama homenageia os homens normais que redefiniram o futuro da história

Obama

Salazar retirou-nos o orgulho
de podermos cantar vitória


Obama continua a marcar a nossa história contemporânea com intervenções certas na hora certa. Ontem, em França, nas celebrações do Dia D, batalha em que se definiu o rumo de um futuro democrático, o Presidente norte-americano homenageou os homens normais que defenderam a liberdade da Europa, face ao terror Nazi. Foi um combate entre duas visões da humanidade. Venceu a visão que ainda hoje nos anima, embora carregada de sombras prenunciadoras de perigos, tudo por causa das injustiças sociais.
Falou dos homens normais. Os eternos esquecidos nos registos da história. Os chefes, os que ficam nos anais e que são também fundamentais, ensombram ou ignoram os que dão o corpo à luta. Esses que, muitas vezes, semeiam os campos de batalha, marcando com o seu sangue as areias que testemunham o seu esforço. Honra, portanto, aos homens normais e quase sempre esquecidos.
Já agora, só mais uma palavra. Nessa luta por uma liberdade digna para a Europa e para o mundo, os portugueses, pelas decisões dos seus chefes, ficaram de fora. Salazar não passou de um cobarde que negociou, ora com os aliados ora com os nazis, uma neutralidade indigna, retirando-nos o direito e o orgulho de podermos cantar vitória com esses homens normais, que reorientaram a história do nosso tempo. Não deixou que os portugueses lutassem pela dignidade dos homens livres.

Fernando Martins

FEIRA DO LIVRO EM AVEIRO: Uma desolação

Pouca gente na Feira do Livro
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Velhas edições e monos
não são serviço útil à cultura
:
Fui um dia destes à Feira do Livro, em Aveiro, no Rossio, onde era suposto encontrar muita gente. Meia dúzia de pessoas por ali andavam e, que se visse, pouco ou nada compraram. Tal como eu. Custa-me dizer isto, mas foi verdade. Nos barracas que, à partida, deviam ter as obras que procurava, nada. Questionei a empregada, que me atendeu solícita, sobre a ausência de certos livros, e a resposta foi pronta: Com as percentagens de lucro que as editoras nos dão, não temos hipóteses. A Feira "exige" uma baixa de preços e nós não podemos perder dinheiro.
Claro que as Feiras do Livro servem para atrair pessoas e criar leitores. Os descontos são um estímulo. Mas estar numa Feira destas a vender velhas edições e monos, daqueles que se vendem ao molho, não é um bom serviço para a promoção da leitura e da cultura. Se isto continuar nestes moldes, a Feira do Livro em Aveiro cai no descrédito, o que é pena.
FM

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS – 134

BACALHAU EM DATAS - 24


A PRIMEIRA GRANDE GUERRA

Caríssimo/a:

1911 - «1911 fora um ano mau. Queixavam-se as empresas “de que os seus barcos trazem menos que no último ano alguns contos de réis da preciosa salga... Apanharam quase todos os restos de um tufão e tiveram na viagem um mar tormentoso. No regresso, o lugre SOPHIA perdeu um pescador, “o infeliz Cipriano José, natural de Ílhavo”. O capitão Manuel dos Santos Labrincha: “Ia o rapaz a sair das escadas da câmara quando um golpe de mar entrou por aí dentro e mo levou. [...] A câmara ficou com meio metro de água dentro. Os vidros desapareceram, rebentou-lhes com as portas, e lá vai o pobre rapaz sem o poderem salvar [...].” »[Oc45, 88]
1912 - «Em 1912, um ano fraco para a pesca do bacalhau, nasce uma nova sociedade, a “Boa União”, que inicia a construção dos seus armazéns.» [Oc45, 84]
«Em 1912, ao sair para a Terra Nova, o LUCÍLIA, da praça de Ílhavo, “esteve em risco de naufragar. Já fora da barra, amainando o vento, o iate encostou numa restinga do sul, tendo de alijar parte da carga de sal para poder safar-se”. Nesse mesmo ano de 1912, no regresso da Terra Nova, perdeu-se o ATLÂNTICO: ”encostou à praia, ao entrar, e se partiu perdendo-se. A carga, anunciada para vender em leilão, foi arrematada pela firma Pinto Leite, do Porto, à razão de 6$000 réis o quintal”.» [Oc45, 88]
«Tanto a Murraceira como o Cabedelo, Carneiro e outros locais da Figueira da Foz serviram para a construção de lugres bacalhoeiros já no primeiro quartel do século XX, quer pela mão dos Mónica, quer pela mão de outros mestres construtores navais como Sebastião Gonçalves Amaro ou Jeremias Novaes, destacando-se, entre outras, as seguintes unidades: GOLFINHO (1912), JÚLIA IV (1914), GUERRA SEGUNDO (futuro CORÇA e futuro GRANJA – 1919), SARAH (futuro GASPAR – 1919), CISNE (1920), MARIA DOMINGAS (futuro BRETANHA – 1923), SÃO PAULO I (futuro MARIA PRECIOSA – 1925).» [Oc45, 120 n. 14]
1913 - «Em 1913, eram já 38 os navios portugueses na Terra Nova. Aveiro contribui com 6 unidades. Nesse mesmo ano, a empresa Cunha & C.a constrói uma nova seca na Gafanha da Nazaré. No final desse mesmo ano, nasce uma nova empresa para a pesca do bacalhau, para o que adquiriu o lugre LUCÍLIA. Mas o crescimento da frota era lento e irregular.» [Oc45, 84]
1914 a 1918 - «Mas a pesca do bacalhau decaiu com a Primeira Grande Guerra. Depois do Armistício, o Estado disponibilizou algum auxilio aos armadores, assistindo-se a um incremento da pesca do bacalhau e da construção naval associada, que originou um novo relançamento da frota. Esta compunha-se de navios de madeira, de propulsão à vela, construídos maioritariamente nos estaleiros da Figueira da Foz, Aveiro e Viana do Castelo e armando em lugre, lugre-patacho, lugre-escuna, patacho escuna e iate.»[Creoula, 10]
«O período da I Guerra Mundial foi marcado por dificuldades várias, a começar pela irregularidade do volume do pescado, que de resto se fez sentir durante as primeiras décadas do século XX.» [Oc45, 85]
«Alberto Souto, membro da Comissão de Pescarias da Câmara dos Deputados: [...] “[E]nquanto nas Escolas Industriais dos centros piscatórios se não fizer um curso de aquicultura com as competentes demonstrações nos Viveiros Nacionais e nos Laboratórios de Zoologia Marítima, a indústria aquícola em Portugal continuará a ser o que hoje é – o atraso, a rotina e a devastação”. O papel do Estado não podia ser, em seu entender, “apenas o de um fisco avaro e de um polícia severo”.» [Oc45, 85]

Pelas palavras que lemos, ficamos com algumas certezas e muitas dúvidas.
Certamente que estou com Alberto Souto lá isso estou... mas parece que estas “guerras” estão perdidas antes de tempo!

Manuel

sábado, 6 de Junho de 2009

Bispos europeus reflectem sobre crise actual

D. António Marcelino

Os bispos europeus do Conselho das Conferências Episcopais da Europa responsáveis pelas questões sociais estarão reunidos em Zagreb, Croácia, dia 9 de Junho, para reflectirem sobre a crise económico-financeira. Neste encontro que terá 34 participantes de 21 conferências episcopais reflectir-se-á sobre as experiências, iniciativas e respostas da Igreja na Europa sobre a temática da crise actual.
Portugal estará representado por D. António Marcelino, bispo emérito de Aveiro.

Cuidado, medicina e hospital

Porque a sua essência reside no cuidado, o Homem, ser-no-mundo e temporal, precisa de ser cuidado e de cuidar. Cuidar de quê? Cuidar de si, dos outros, da Terra, da transcendência. Por afectos, palavras - ah!, a cura pela palavra! - e por obras
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Numa obra essencial da Filosofia no século XX, Ser e Tempo, o seu autor, M. Heidegger, retoma a famosa fábula sobre o Cuidado, de Higino, um escravo culto (64 a.C.-16 d.C.). Retomo-a, traduzindo literalmente.

"Uma vez, ao atravessar um rio, o 'Cuidado' viu terra argilosa. Pensativo, tomou um pedaço de barro e começou a moldá-lo. Enquanto contemplava o que tinha feito, apareceu Júpiter. O 'Cuidado' pediu-lhe que insuflasse espírito nele, o que Júpiter fez de bom grado. Mas, quando quis dar o seu nome à criatura que havia formado, Júpiter proibiu-lho, exigindo que lhe fosse dado o dele. Enquanto o 'Cuidado' e Júpiter discutiam, surgiu também a Terra (Tellus) e queria também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora ela a dar-lhe um pedaço do seu corpo. Os contendentes tomaram Saturno por juiz. Este tomou a seguinte decisão, que pareceu justa: 'Tu, Júpiter, deste-lhe o espírito; por isso, receberás de volta o seu espírito por ocasião da sua morte. Tu, Terra, deste-lhe o corpo; por isso, receberás de volta o seu corpo. Mas, como foi o 'Cuidado' a ter a ideia de moldar a criatura, ficará ela na sua posse enquanto viver. E uma vez que entre vós há discussão sobre o nome, chamar-se-á 'homo' (Homem), já que foi feita a partir do húmus (Terra)'."

Heidegger, um dos maiores filósofos do século XX, mostrou que o cuidado é estrutura essencial do ser humano. O Homem, que tem a sua origem no cuidado, pertence-lhe ao longo da vida e não será abandonado por ele. O cuidado é duplo: preocupação ansiosa - a mãe diz ao filho: tem cuidado, filho! - e entrega abnegada, pois a perfeição do ser humano na realização das suas possibilidades mais próprias é uma tarefa do cuidado.

Viemos ao mundo e cuidaram de nós. Mas o cuidado não pode abandonar-nos nunca. Sem o cuidado, ao longo da vida toda, do nascimento até à morte, o ser humano desestrutura-se, sente-se perdido, não encontra sentido e acaba por morrer.

Não sei se o cuidado é mais próprio das mulheres. De qualquer modo, como escreve a filósofa M. L. R. Ferreira, "o tema do cuidado é o lugar por excelência em que se revela o pensamento maternal". E continua: "O cuidado é uma ternura vital, fruto do conhecimento e do afecto que temos pelos que estão a nosso cargo. Em todas as grandes religiões, em todos os mitos fundadores, em todas as culturas humanas a atitude de cuidado surge na sua dimensão compassiva de atenção ao outro. E as guardiãs do cuidado são as mais das vezes mulheres."

Cuidado, em latim, diz-se cura, que, para lá de cuidado, significa incumbência, tratamento, cura, inquietação amorosa, amor. Por esta via, chegamos também à medicina, que provém do latim mederi - a raiz é med: pensar, medir, julgar, tratar um doente -, que significa cuidar de, tratar, medicar, curar e que está também na base de moderação e meditação, sendo deste modo remetidos para um conceito holístico de saúde e de cura, que resultam e têm no horizonte sempre um equilíbrio harmónico.

Porque a sua essência reside no cuidado, o Homem, ser-no-mundo e temporal, precisa de ser cuidado e de cuidar. Cuidar de quê? Cuidar de si, dos outros, da Terra, da transcendência. Por afectos, palavras - ah!, a cura pela palavra! - e por obras.

Fragilizado ou doente, o Homem necessita de cuidados especiais. Aí aparece o médico ou o clínico (do grego klinein, inclinar-se), debruçando-se sobre ele/ela com o seu saber e técnica e também afecto e palavra, num pacto solidário. Em princípio, esse encontro dá-se no hospital ou na clínica.

Hospital vem do latim hospite, que significa hóspede, também em conexão com hotel. Como ser-no-mundo, o Homem é, logo na raiz, hóspede: somos hospedados no mundo. Significativamente, a palavra está ligada também a hoste, donde provém hostil. Não nos pedem, à chegada a um hotel, que em inglês também se diz hostel e em espanhol hostal, a identificação, pois não se sabe quem chega por bem ou por mal?

Espera-se que o hospital seja lugar de hospitalidade e não de hostilidade. Em francês, para hospital, também há o composto Hôtel-Dieu. Lá no termo, quem não espera ser hospedado pelo Deus da graça?
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quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Vasco Lagarto alerta: as pessoas cada vez mais se interessam menos por aquilo que acontece à sua volta


A importância da Terra Nova só seria reconhecida se ela se calasse

A Rádio Terra Nova (RTN-105FM), como a grande maioria dos órgãos de comunicação social, está, desde há muito, a encontrar sérias dificuldades para sobreviver. O fenómeno é conhecido, mas nem por isso as comunidades locais, nas quais ela se insere, se mobilizam para a apoiarem. Como nos dizia Vasco Lagarto, seu principal responsável desde a primeira hora, as pessoas e instituições só reconheceriam a importância da RTN se ela se calasse de vez.
“Toda a gente se habituou à ideia de que a rádio está ali, que funciona 24 horas por dia, e só reclamam quando há um programa que vai para o ar com uns dez minutos de atraso ou quando, por qualquer razão, não há possibilidades de fazer a cobertura de provas desportivas ou de outros eventos”, salientou.
O director da Terra Nova garante que a rádio só se mantém em actividade porque existem algumas pessoas que lhe dedicam o seu tempo, mas urge compreender que há “encargos e que é preciso chegar ao fim do mês com meios financeiros para os suportar”, referiu.


A RTN nasceu na década de 80 do século passado, num período de baixa de preços dos equipamentos de emissão. Um pouco por todo o mundo, e em Portugal também, surgiram rádios locais, muitas vezes direccionadas para simples bairros. Pretendia-se divulgar iniciativas de instituições dos mais variados ramos, que nunca tinham vez nem voz nas rádios nacionais. O boom das “rádios piratas” foi de tal ordem elevado, que as entidades oficiais não tiveram qualquer hipótese de impedir o seu funcionamento.
Em 12 de Julho de 1986, a RTN, mesmo sem baptismo, foi para o ar, na sede da Cooperativa Cultual. Diz a sua história que eram 11.30 horas de um sábado. “Ligámos apenas um amplificador e passámos música gravada”, recorda Vasco Lagarto.
Em 31 de Dezembro de 1988 “calou-se”, por imposição do processo de legalização entretanto iniciado. Mas em 26 de Março de 1989, num domingo de Páscoa, agora com alvará e com as exigências de legislação entretanto aprovada, reiniciou as suas emissões, assumindo um projecto voltado para as realidades culturais e sociais das comunidades envolventes, num raio de acção que hoje chega aos 50 quilómetros.
Posteriormente, adoptou o nome Terra Nova, não só em homenagem a quantos viveram a saga da Faina Maior – pesca do bacalhau – nos mares do mesmo nome, mas ainda por reflectir o sonho de quantos apostam numa terra nova, no respeito pelo progresso sustentado e pelos direitos humanos.

Rádio Terra Nova aposta na WEB

Reconhecendo que os princípios que enformaram as rádios locais estão um pouco “adulterados”, o director da RTN reafirma que não consegue conceber o projecto Terra Nova sem as componentes da primeira hora. E adianta que actualmente há muitas que, por força das dificuldades económicas, cederam a antena a grandes rádios nacionais, ficando o nome como pequena “máscara”. Essas rádios nacionais operam assim, ”aproveitando as sinergias da sua dimensão, para atingirem o mercado local da publicidade”.
Vasco Lagarto insiste na ideia de que a ligação da RTN à sociedade é importante. “Isto é uma coisa que ao longo do tempo tem vindo a diminuir; as pessoas cada vez mais se interessam menos por aquilo que acontece à sua volta e pela riqueza da sua própria comunidade”, frisou.
Questionado sobre a atracção exercida por outros meios de comunicação social, nomeadamente a Internet, o director da Terra Nova admite que tal possa estar a acontecer. Porém, sublinha de imediato que a RTN também se adaptou a essa realidade, ocupando o seu espaço na WEB (www.terranova.pt), onde regista um sucesso que não pára de crescer, com um milhão de visitas por mês, sendo 80 por cento de Portugal e as restantes do estrangeiro.
A RTN, que opera nos 105 FM, procura reflectir nos seus conteúdos a vida concreta, a vários níveis, dos concelhos à volta de Ílhavo, sendo garantido que “é isso que nos diferencia de qualquer outra rádio de outra região, quer seja local, quer nacional”, garante o nosso entrevistado.
Entretanto, numa constante procura de ligação às mais diversas instituições, Vasco Lagarto não perde a oportunidade de sensibilizar toda a gente para uma envolvência mais dinâmica, tanto sob o ponto de vista técnico como humano, tanto científico como económico. Assim, apresentou um projecto no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, no sentido de criar “uma relação mais próxima, mais pessoal, entre a comunidade (neste caso o mundo inteiro) e a própria rádio”. E acrescentou: “Ficámos surpreendidos quando, no fundo, cinco alunos se entusiasmaram pelo projecto, estando então a fazer um esforço, na perspectiva de criar uma nova página com aquelas funcionalidades.”
Sobre a ligação da Terra Nova a outros projectos de comunicação social, Vasco Lagarto admitiu que houve, há anos, a ideia de criar um jornal, “esperança que ainda não se perdeu”, até porque o que é produzido na rádio poderia ser aproveitado para isso. A questão, que “não saiu da agenda”, talvez possa voltar a ser equacionada, “quando a rádio completar 25 anos”.



Rádios Locais também fazem serviço público


O Estado apoia a indústria automóvel e aquilo que tem a ver com a preservação do emprego. Depois, apoia a RDP e a RTP, porque cumprem um serviço público. E todos nós, os que pagamos energia eléctrica, contribuímos, mês a mês, para isso. Mas todas as rádios locais, que exercem esse papel, nada recebem. “Eu posso achar que a RDP faz serviço público, mas as rádios locais também o fazem”, frisou. E explica: “Quando divulgamos as actividades das associações e outras organizações estamos a fazer serviço público, coisa que a RDP não faz, porque considera como sua comunidade local o grande centro urbano que é Lisboa.”

Fernando Martins

Crónica de um Professor...

Johnny Holliday

Irreverência II

“Sleep is my only homework.
And I wish I had more of it”



(O meu único trabalho de casa é dormir. E gostaria de ter mais trabalho desse...)
Em letras brancas, garrafais, sobre fundo preto, ostentava com ar desafiador, aquela inscrição na sua t-shirt nova. Era aquele aluno, oriundo dali, da Costa Nova, com uns olhos verde-água, quase transparentes, penetrantes.
A língua inglesa era para ele uma toada estranha, que em nada se assemelhava aos pregões que ouvia no mercado, onde a sua família vendia o pescado. Não vislumbrava qualquer utilidade nela, nem sequer na época balnear, em que a sua zona era visitada e frequentada por uma multidão de turistas estrangeiros. A ocupação nos tempos de férias, em restaurantes e bares, onde podia usar, dar utilidade à língua estrangeira, não era suficientemente atractiva para o demover da sua inércia. Deixava-a passar ao lado! P’ra quê falar Inglês, se os seus compinchas tão bem o entendiam e as suas aspirações na vida, não tinham acompanhado o seu crescimento, tinham ficado anãs?
Aquela inscrição, subversiva, em Inglês, despertara-lhe o apetite! Era “in” exibir um dito jocoso, na língua mais falada do planeta!
A teacher esteve atenta e aproveitou, pedagogicamente, aquela intencionalidade irreverente. Pelo menos, aquela frase entrara-lhe e sabia o seu significado! Atrás desse, outros viriam, também provocadores, mas... o que interessa é que lhes visse a utilidade.
T-shirts com inscrições, em Inglês, mescladas com certa conotação humorística, sempre foram do agrado da teacher, que ainda hoje as usa no seu quotidiano. Desde cedo que exerceram fascínio na sua mente feminina e a aquisição dessas peças de vestuário tem sido uma prática recorrente. Evoca aquela fase dos seus verdes anos, na Faculdade, em que se pavoneava pelas ruas da Lusa Atenas com a efígie do cantor pop Johnny Holliday. A revista jovem da altura, Salut les coupains promovera a venda dessas t-shirts a troco de uma pequena quantia em francos. Fã que era do cantor, lá vai a jovem universitária encomendar e receber, pelos CTT, a almejada encomenda. Ah! Aquilo é que foi um delírio! Toda ufana e ostentando uma coisa original (ninguém fora tão excêntrico (!?) percorria o caminho para a universidade e ouvia, com a timidez duma teenager, o piropo avulso de algum transeunte com quem se cruzava! O rosto estampado no peito daquele cantor francês era o mote para uma comunicação unilateral... mas que dava algum gozo àquela aspirante a teacher!
Afinal, aquela criatura ingénua, com ar de santinha, introvertida e sonhadora, tinha lá no fundo, aprisionada, a sua fracção de irreverência que haveria de explodir num futuro longínquo... quiçá na idade madura!

M.ª Donzília Almeida
05.06.09

Emigrantes solidários com a construção do Hospital de Cuidados Continuados da Misericórdia de Ílhavo


Mais de 800 emigrantes de vários locais dos EUA reuniram-se em Newark numa festa, tipicamente portuguesa, e cuja receita reverte, integralmente, para a construção do Hospital de Cuidados Continuados da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo.
Presentes nesta festa o provedor da Santa Casa, professor Fernando Maria, o presidente da Câmara, Ribau Esteves, e dois vereadores da Câmara de Newark, que entregaram às entidades portuguesas a medalha daquela cidade Americana.
A receita prevista será de mais de 20 mil dólares e vai ser entregue em Ílhavo pela comissão organizadora do encontro, composta por emigrantes de Ílhavo e das Gafanhas.
O professor Fernando Maria visitou o Hospital Saint Barnabás acompanhado pela Direcção do hospital, tendo ficado satisfeito com a visita, pois a estrutura funcional deste estabelecimento americano é idêntica à de Ílhavo.

O obsceno e o sentimental invadem o nosso espaço público

Os ecologistas estão muito atentos ao gato morto que se abandona na rua ou ao lixo lançado fora dos contentores, mas passa-lhe ao lado a preocupação pelo ambiente humano deteriorado e cada dia mais inquinado pelo que se publica, se vê e ouve, até na rua, que, por enquanto, ainda é espaço de todos


Será que foi sempre mais ou menos assim ou estaremos perante um fenómeno novo a que a comunicação social se encarrega de dar permanente e vistosa publicidade?
O inquinamento doentio da mente e do coração sempre pôde atingir a todos com gravidade. Em tempos foi-se muito longe, quando a manifestação pública deste inquinamento produziu vidas depravadas e chegou à exaltação, como se se tratasse de grandeza da raça ou de um melhor estatuto cívico. Ainda aí há sinais disso.
Como quer que tenha sido antes, a verdade é que estamos hoje a viver ou a reviver uma época de pan-sexualismo, reduzido à manifestação de obscenidade que o ambiente farisaicamente favorece e dá dinheiro a quem o promove, acabando por manchar, socialmente, a maravilhosa dimensão da afectividade e da sexualidade humana.
Como que a fazer eco do que se passou há poucos anos nos Estados Unidos da América, surge agora, como realidade ao longo de décadas, igual mazela na Irlanda. Acontecimentos que são, descontados embora os exageros de alguns relatos, a todos os títulos lamentáveis e condenáveis, mais ainda por estarem relacionados com instituições cristãs. Ninguém está imune do mal e de passos mal andados, devendo reconhecer-se, no entanto, que não é isso que se espera de pessoas e de obras sociais, que se propuseram ter a mensagem evangélica como instância educativa permanente.
Quem folheia jornais e revistas de generalidades e pára na rua para observar os escaparates dos quiosques da imprensa ou passa pelos canais de televisão, de cá e de fora, se tem sentimentos de dignidade e preocupação por uma sociedade sadia e liberta, não pode deixar de ficar perplexo e preocupado ante o que lê e vê.
A educação sexual, sempre e muito mais neste contexto, torna-se, de facto, necessária para os mais jovens, chamados a ser gente responsável, não por caminhos modernos tortuosos ou a agir sob sentimentos imediatos, mas pela transmissão lúcida de valores perenes que levem ao respeito por si e pelos outros. Muitos adultos necessitam, também, de um forte safanão que os acorde e os leve a quererem ser mulheres e homens, pessoal e socialmente dignos, e a trocar os atoleiros e o chafurdo por ambientes sadios, onde se viva de modo feliz e liberto. Do mesmo modo, haja quem atento tome conta do que se publica. Os ecologistas estão muito atentos ao gato morto que se abandona na rua ou ao lixo lançado fora dos contentores, mas passa-lhe ao lado a preocupação pelo ambiente humano deteriorado e cada dia mais inquinado pelo que se publica, se vê e ouve, até na rua, que, por enquanto, ainda é espaço de todos.
Quando a vergonha e a responsabilidade pessoal não são censura válida, qualquer outra se torna odiosa. Quando o poder económico é rei e senhor, não faltam outros poderes a dobrar-se reverentes, ante os que mais têm e podem sempre ser úteis.
Tem começado pela desagregação moral o declínio dos povos que se julgavam pioneiros de uma liberdade sem controlo. Por aí vamos, porque as crises económicas são antes morais e éticas. Comer, gozar e agradar não é modo de viajar rumo a bom porto.
E a família? Muito se tem feito para a dignificar e capacitar para as suas tarefas. Mas muito se tem feito, também, para a destruir e anular na sua dignidade e nos seus direitos e deveres. A fonte que gera todas as crises humanas é sempre a mesma numa sociedade adormecida, manietada e desvirtuada nos seus objectivos normais. Se houver coragem para o reconhecer haverá também determinação para dar resposta.
A intoxicação do obsceno e do sentimental debilitou os sentimentos mais nobres e os vínculos que unem as pessoas. O problema é cultural, com inevitáveis reflexos no humanismo reinante. As grandes vítimas estão aí à mostra: as crianças e os mais idosos. Ambos, pela sua natural dependência, se tornam manejáveis a interesses. Sem respeito e amor às crianças e gratidão aos idosos, para onde ruma e onde vai parar a sociedade?

António Marcelino

Só se pode Participar!

1. Cada acto eleitoral afirma-se como um forte desafio à cidadania. Sendo verdade que a motivação em participar, muitas vezes, é bem mais desperta em situações de não liberdade ou quando existem regimes ditatoriais…o certo é que a plena consciência de uma cidadania efectivamente activa conduzirá a saber dizer «presente» mesmo, porventura, em situações em que não dá jeito ou a urgência parece não ser tanta. Torna-se essencial o nunca perder da memória histórica para apreciar o direito de votar e o valor do voto como das conquistas sociais mais dignificantes; é importante o considerar que cada dia, cada pessoa e cidadão, é convidado a ser actor sócio-político de modo generalizado, o que implica a noção dos «deveres para com a comunidade» (Declaração Universal DH, artigo 29º).

2. Nunca a «desculpa de mau pagador» das más imagens ou menos boas práticas políticas poderá ser justamente argumento para a não participação. Poderão, porventura, existir muitas condicionantes, circunstâncias e até dúvidas sobre o «peso» de cada voto; poderão existir visões ou distracções promotoras de uma indiferença generalizada diante da distância dos centros de poder (europeus) para que se vota… Mas nada nem nenhum argumento, numa sociedade madura que se deseja, justificará qualquer sentimento e prática de abstenção. Sociedade não participativa será comunidade social adormecida. Esse adormecimento, depois consequentemente, deita por terra o terreno activo de credibilidade reclamadora e estimulante.

3. Sendo que por vezes até pode interessar a indiferença ou um não pensamento de visão crítica integral a determinados agentes políticos, a verdade é que nada poderá afectar a necessidade de alimentar a democracia diária de que também a possibilidade de votar é expressão inequívoca. Uma certa anemia social da sociedade civil portuguesa, que se denuncia volta e meia, é desafiada a ser superada nas eleições europeias(?).
Alexandre Cruz

Férias em tempo de crise: É preciso pensar nisso

Um bom petisco com pouca despesa



Um bom petisco, com imaginação, não obriga a muitas despesas. Se não puder apreciar a caldeirada de enguias à Zé-Zé, no sítio próprio, compre as enguias e ensaie fazer a dita, em família, aproveitando as sugestões deste e daquele. Se não tiver dinheiro para comprar as enguias, compre outros peixes quaisquer, mais em conta, e coma-os como se fossem enguias. Não se esqueça de regar a caldeirada e a garganta com um vinho branco fresquinho.
Quanto a doce, opte pela aletria, bem açucarada, que toda a gafanhoa que se preze sabe fazer.

Há um livro à sua espera


Se olhar para a sua estante, há decerto um bom livro que por ali deve estar à espera que lhe pegue. Se puder comprar um, aqui fica a sugestão. O livro “Regresso ao Litoral – Embarcações Tradicionais Portuguesas”, de Ana Maria Lopes. É, seguramente, uma boa opção cultural.
Se não tiver dinheiro para livros, então passe pelo pólo da Biblioteca Municipal, no Centro Cultural da Gafanha da Nazaré, onde pode requisitar um livro, para ler durante 15 dias. A bibliotecária pode dar-lhe algumas sugestões.

quarta-feira, 3 de Junho de 2009

A condição humana


1. Na madrugada de segunda-feira o voo 447 da Air France desapareceu no Atlântico, tendo, entretanto, sido descobertos seus vestígios. Saído do Brasil com 228 pessoas de 32 nacionalidades, esta tragédia poderá ser oportunidade de reflexão sobre a condição do ser humano. A hora presente é a do conforto possível, atitudes também manifestadas nos três dias de luto nacional brasileiro, nas celebrações em Paris das diferentes religiões no respeito pelas sensibilidades dos passageiros do voo fatídico. Têm sido nestes dias partilhadas muitas afirmações e realidades que são reflexo desta face humana humilde diante da grandeza surpreendente deste acontecimento. Quer de pessoas que embarcariam e por várias circunstâncias não partiram, quer diante da profundidade possível dos mais de 4000 metros onde possivelmente estarão os destroços do Airbus e a essencial caixa negra reveladora.

2. Para quem procura continuamente um sentido para a vida estas questões da condição humana não ficam esquecidas na periferia mas estão no centro dos valores e ideais nos quais se procura alicerçar a caminhada diária. Acontecimentos como o que acima referimos fazem parte de um autoconhecimento contínuo de quem sabe que a história humana por si mesma é limitada ao tempo e ao espaço; uma consciência clara de que tudo passa e tudo é breve (facto objectivo que não pode conduzir ao descompromisso), ficando de nós o bem que procurámos semear. Aquele que se descentraliza das “coisas” para os ideais que vencem as coordenadas temporais, esse conhece-se acima da ordem física e calculista, eleva-se! Mas para o pensar humano que absolutize a ordem do mundo de um “Titanic” perfeito, diante deste choque abre-se um abismo...

3. (Re)Conhecer-se a si mesmo na humildade da condição humana e ver acima do olhar das coisas é tarefa fortalecedora dos sentidos e oferece novas aberturas… Capazes de gerar a flexibilidade pessoal e comunitária dadora de qualidade e sensibilidade a cada dia presente.
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Alexandre Cruz

"Praceta Carlos Roeder", na Praia da Barra



Carlos Roeder foi um empresário
com visão de futuro


Na Praia da Barra há uma praceta com o nome “Comendador Carlos Roeder”. Fica mesmo ao lado do molhe da Meia-Laranja e tem no centro um obelisco, evocativo das obras da barra, com legendas que são uma boa lição de história para quem se der ao cuidado de as ler.
Quando as nossas autarquias avançaram com esta simples mas justa homenagem a Carlos Roeder, não pude deixar de intimamente aplaudir o gesto. É que este industrial foi um dinâmico empresário que deu trabalho a muitas centenas de pessoas, quer no Estaleiro de S. Jacinto, quer noutras empresas que também fundou, ou das quais foi sócio de relevo.
Carlos Roeder foi, e ainda é, uma figura de referência na região, sendo considerado, por um dos seus fiéis admiradores e colaboradores, Henrique Moutela, “um homem de invulgares qualidades de trabalho e de capacidade técnica”.
Aparece na região, lembra Henrique Moutela, a “vender motores para os veleiros da Empresa de Pesca de Aveiro (EPA). Fá-lo a crédito, na década de 30 do século passado”. Na altura, “é convidado a entrar como sócio nessa empresa, com o valor da venda dos motores”.
Carlos Roeder, com uma visão de futuro bastante nítida, convence os sócios da EPA a abandonarem “a pesca à linha em dóris” e em 1935 aparece o primeiro arrastão português, o ‘Santa Joana’, mandado construir na Dinamarca.
O Estaleiro de S. Jacinto foi construído em 1940, “com amigos e colaboradores”. Mas o seu primeiro trabalho de engenharia foi o hangar da base da então Aviação Naval. Depois, quase até aos nossos dias, o Estaleiro foi, realmente, uma fonte de trabalho e de riqueza para muita gente da região, em especial de S. Jacinto, Gafanhas, Aveiro e Ílhavo.
De ascendência alemã, Carlos Roeder estudou na Escola Politécnica de Lisboa, seguindo posteriormente para a Alemanha, onde cursou engenharia. Diz-se que a sua origem e formação muito contribuíram para a sua capacidade organizativa, para o sentido empresarial e para uma visão universal do trabalho. O seu gosto era, de facto, criar riqueza, dando emprego a centenas de pessoas, enquanto procurava destacar, sobretudo, a competência profissional e a lealdade dos seus colaboradores. Muitos dos seus encarregados eram pessoas sem grandes estudos, mas cumpridores rigorosos das suas decisões.
No fim da vida, determinou a criação de uma fundação, a Fundação Roeder, destinada a contribuir para o bem-estar de todos os seus trabalhadores ou ex-trabalhadores.

Fernando Martins

Bordados com arte, na Junta de Freguesia de S. Salvador


No salão da Junta de Freguesia de S. Salvador, Ílhavo, vai ser inaugurada, no próximo dia 5, pelas 21 horas, com a presença do presidente da Câmara, Ribau Esteves, uma exposição de Bordados, Macramé, Arte Floral e Pintura, por iniciativa da Colectividade Popular da Coutada. A exposição ficará patente ao público até 11 de Junho, com o seguinte horário:
Dias úteis, das 16 às 20 horas;
Sábado, domingo e feriado, das 15 às 20 horas.

terça-feira, 2 de Junho de 2009

É possível Paz na Justiça?


1. Ninguém duvida que a complexidade da justiça, na sua multiplicidade de organismos e instâncias, nos conduz a uma reflexão que não seja simplista nem superficial. Todos temos a certeza de que uma sociedade que consiga “ter” uma justiça de qualidade garante meio caminho andado para o desejado progresso humano e social. Façamos o exercício de ver a justiça de trás para a frente, das finalidades e dos finalmentes serem redefinidos os meios, de olhar para o que chega diariamente ao cidadão comum com o intuito de reinterpretar as estruturas. É bem verdade que a revolução de comunicação humana que está a acontecer cada dia desafia à reinvenção dos modelos e estruturas sociais que muitas vezes se foram cristalizando no tempo.

2. Talvez a justiça, a par de outras estruturas, seja um destes pilares da sociedade ainda em défice de ajustamento contínuo, também porque não é fácil responder com a agilidade dos dias de hoje na base de procedimentos provindos de outros tempos e ritmos. Aos organismos práticos da justiça pede-se tudo: um tratamento de qualidade em quantidade. Mas para este salto qualitativo poucos envolvimentos e investimentos são reconhecidos e atribuídos. O mesmo se poderá dizer da Escola para que a Educação (para além da Escola) seja outro baluarte seguro, sempre em aperfeiçoamento, para que das experiências realizadas se elaborem as sínteses que permitem avançar…e nada caia em saco roto quando tudo o vento leva. Não nos referimos meramente a técnicas ou tecnologias; talvez o segredo seja outro: um Humanismo estimulante.

3. O exagerado e desordenado “barulho” que implode o reino da justiça na sociedade democrática, a par da desordenança subjacente que impede os consensos mínimos razoáveis para se seguir em frente, comprovam-nos a existência do défice de humanismo de sentido de bem comum. Até porque o segredo de toda a Paz não reside no tratado assinado em papéis mas carece de um pouco de boa vontade… Isto!

Alexandre Cruz

Faz sentido votar nas Europeias?

António Rego

Pertencer à Comunidade Europeia é um privilégio e um risco. E quando a Comunidade não se define primariamente como económica, aproxima os países mais ricos e mais pobres na procura da identidade histórica, política e cultural. E estimula uma aproximação social ainda que a velocidades diferentes. Os chamados fundos estruturais continuam voltados para os que chegam mais tarde e têm de andar mais depressa. Não faria qualquer sentido que em termos de saúde, habitação, cultura - desenvolvimento - algum dos países membros vivesse em situações de carência sem quaisquer condições de parceria ou negociação com os restantes membros.
Neste conjunto e apesar dos muitos queixumes, Portugal quase se tornou irreconhecível a partir da sua pertença à União Europeia. Mesmo que a muitos pareça, ou dê jeito dizer, que se vive pior hoje que há trinta ou quarenta anos.
Todos os dias somos confrontados com números europeus. Vindos de diferentes instâncias e abrangendo múltiplas áreas, fazem de nós um objecto de percentagens em radiografia permanente, não deixando por vezes que respiremos em ligeira passagem do positivo para o negativo. Se por vezes tem aspectos próximos do ridículo, apresenta outros interessantes: coloca-nos em contínuo exame de consciência ou numa autoavaliação que não nos deixa sossegados no adquirido.
Corremos também riscos: dissolver a nossa identidade em tantos segmentos para alcançarmos um padrão europeu; vender a alma ao diabo para nos apresentarmos modernos e progressistas; renunciarmos a um património que é muito nosso em troca dum incerto prato de lentilhas.
Aqui entra o papel dos nossos deputados ao Parlamento Europeu. Na assiduidade das suas presenças, nas questões que levantarem, nas propostas que fizerem, nos votos que emitirem, nas prioridades de ideologia, progresso, cultura, desenvolvimento que escolherem. E nos valores que defenderem. Não é indiferente um ou outro candidato. Eles têm de ser o reflexo de todos nós seja qual for o partido que lá os coloque. Sabe-se que são representantes de grupos políticos. Mas antes disso, dum país que é o nosso. O nosso passado e o nosso futuro são mais que um jogo partidário ou palavras que o vento leva. A isso não é alheio o conjunto de valores cristãos que tecem a nossa comunidade nacional.
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António Rego

“Língua e Costumes da Nossa Gente”, um livro que faltava


Obra que merece ocupar um lugar especial nos nossos interesses culturais


“Língua e Costumes da Nossa Gente” é um livro de Maria Donzília Almeida e de Oliveiros Louro, ambos docentes do Ensino Secundário. Vai ser lançado no próximo sábado, 6 de Junho, pelas 15.30 horas, no Auditório da Biblioteca Municipal de Ílhavo. A organização do evento é da Confraria Camoniana de Ílhavo.
A identidade do povo da Gafanha vai decerto sair reforçada com a publicação deste livro de dois gafanhões, que se orgulham das suas raízes. Conheço-os o suficiente para fazer esta afirmação. Digo isto mesmo sem ter lido o livro que agora vai ver a luz do dia. Contudo, se não li esta obra, li já bastante dos seus autores, em trabalhos dispersos e escritos ao longo de anos. Escrevem muito bem e das suas almas sai expressiva poesia.
O livro é uma “manta de retalhos”, no bom sentido. Fala de trabalhos na água e na terra, actividades que se complementavam. Basta pensar que era da ria que se tirava o moliço, fertilizante para as areias áridas que haveriam de dar o sustento a quem aqui se fixou. Contém, por isso, palavras e expressões relacionadas com o trabalho agrícola e com as fainas piscatórias. Contém, também, expressões de uso local e outras de uso mais alargado.
Relata usos como a matança do porco, a festa da Páscoa e os Reis, fala de orações, responsos, canções infantis do tempo da escola, lengalengas, provérbios e ditos da sabedoria popular.
São inúmeras as referências a alfaias e utensílios usados na pesca, na agricultura e na vida doméstica, ilustrados com dezenas de fotografias.
Nele se inserem actas e documentos históricos e no fim tem uma surpresa para muita gente que eu não desvendo.
Trata-se, portanto, de um livro muito belo, que merece ocupar um lugar especial nos nossos interesses culturais, em tempo de uma globalização que tudo dilui, com avidez mortífera, se não estivermos atentos.
FM

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Crónica de um Professor: Dia Mundial da Criança


“Deixai vir a mim as criancinhas!”

Não pretende usurpar Direitos de Autor a Quem proferiu, há milénios, estas palavras, mas tão-só evocar quão partilhadas o têm sido, na sua tão penosa quanto longa carreira docente.
Neste dia, em que está no centro das atenções, das preocupações e comemorações, a criança merece algum debate e reflexão, por parte da teacher.
Desde muito cedo, foi alvo de estudos de comportamento, não fosse ela a matéria-prima duma profissão tão nobre, como é a lapidação de diamantes brutos. Das mãos dos professores, após muitas operações de profundo labor, saem as pedras preciosas que vão embelezar a vida e gerir os destinos do amanhã. Quando forem adultos! Quando tiverem ultrapassado, com sucesso, as várias etapas da sua formação, na qual os mestres são agentes activos e modeladores. Pretende-se que saia o melhor produto, que ganhe a excelência! Para isso se esfalfam e hoje, por todo o país, se desdobram em esforços para lhes proporcionarem alguns momentos agradáveis e em que elas são os únicos protagonistas.
Sim, as criancinhas merecem-nos o melhor e o maior empenho. Vêm à memória, episódios de violência contra as crianças em que a mais abominável, execrável a todos os níveis, é sem dúvida a pedofilia. Não há palavras de repúdio que possam expressar a intensidade da revolta e indignação que qualquer cidadão de bem possa sentir. Ultrapassa os limites da capacidade humana. É uma ignomínia!
Por outro lado, há que usar de bom senso e não cair no extremo oposto de tanta protecção, tanto facilitismo, tanta permissividade, que estão a conduzir as crianças de hoje a verdadeiros e pequeninos déspotas!
Vejamos como as políticas educativas têm conduzido o ensino em Portugal e como os seus agentes têm sido maltratados e vilipendiados com a pseudo-liberdade dada aos alunos em geral.
Foi moeda corrente em determinada época, que o ensino deveria ser ministrado com carácter lúdico, para que as crianças aprendessem a brincar! De tal modo isso ficou arreigado, que hoje, nas nossas salas de aula, deparamos com bandos de indigentes que nada mais fazem que boicotar sistematicamente o trabalho do professor.
Sempre teve alguma dificuldade em aceitar que a pura brincadeira, sem carácter de responsabilização, possa conduzir a uma interiorização de valores, como por exemplo o trabalho.
Se é dada, ao aluno, a possibilidade de recompor energias de descontrair, de brincar, em suma, nos intervalos das aulas que até são generosos, por que cargas de água não se deverá encarar o estudo, a aprendizagem como algo de sério, de consequente e não apenas um prolongamento do recreio? Vamos formar uma multidão de ociosos, de irresponsáveis, de parasitas?
Quem está no ensino há décadas vê com tristeza como as coisas têm acontecido neste país de brandos costumes, onde a transgressão e a violência estão a ganhar foros de práticas rotineiras.
Preconiza a teacher que... é de pequenino que se torce o pepino... e também com as abençoadas criancinhas deveria acontecer a mesma coisa!

M.ª Donzília Almeida
01.06.09

Generosidade dos portugueses respondeu, pela positiva, aos apelos do Banco Alimentar Contra a Fome


A Justiça Social virá quando não forem precisos os Bancos Alimentares

Quem há por aí capaz de duvidar da generosidade dos portugueses? Só os pessimistas, os que olham apenas e só para o seu umbigo. Afinal, pese embora as dificuldades por que todos passamos, o nosso povo soube responder ao apelo do Banco Alimentar Contra a Fome, durante o último fim-de-semana.
Segundo números já apurados, e que apontam para 1935 toneladas de alimentos recolhidos, houve um aumento, em relação a Maio do ano passado, da ordem dos 18 por cento. Ainda bem.
Contudo, é bom que nos habituemos à ideia de que esta é a solução imediata para responder à fome de muitos milhares de portugueses. A solução definitiva virá quando os Bancos Alimentares não forem precisos. Nessa altura, não haverá injustiças sociais.

FM

Debater a Europa?


1. A campanha já vai alta, mas os níveis de reflexão efectiva sobre a Europa continuam muito baixos. A preferência pela intriga também já é elemento característico, como companhia dos vários processos eleitorais. Não se pense que é só em Portugal que ocorre este desvio; a Itália debate-se com a crítica a Berlusconi, a França debruça-se sobre Sarkosy. E parece que quanto mais os cidadãos estão “longe” da Europa ou a entendem só como dadora de subsídios, tanto mais o debate vai arrefecendo uma desejada reflexão ampla e aberta sobre a Europa para o século XXI. É natural que as grandes questões nacionais acabem por ser essa Europa mais perto em que a maturidade cívica tem dificuldades em reconhecer as virtudes e está logo pronta no apontar os defeitos.

2. Mas as lideranças teriam outra obrigação despertadora para os máximos possíveis de ligações entre os cidadãos e os lugares e poderes de decisão. Ao fosso que existe (e que acaba por ser lógico) entre Bruxelas e as comunidades locais e regionais, a elite política parece rendida à insignificância do debate sobre a Europa. Os problemas nacionais, também na conjuntura de crise, acabam por afogar as tentativas de uma reflexão de cidadania europeia. Talvez na actualidade terá sentido perguntar se «é mesmo possível debater a Europa?» Mesmo os que criticam o défice democrático da não realização de referendos sobre questões deste velho continente, a verdade é que o tempo e o modo de suas actuações parecem fazer desta época mais uma oportunidade eleitoral perdida.

3. Já bastava a distância geográfica dos centros de decisão europeia, já seria difícil ao nosso país de limitada intervenção cívica, quanto mais com a generalidade de um género crispado de campanha… Os apelos à não abstenção são esse último apelo a vencer as indiferenças que vão reinando, para mais em acto eleitoral de que não se vê o benefício imediato… Campanha terá de significar mais pedagogia... Cidadania? A faca e o queijo vão ficar na mesma?
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Alexandre Cruz