sábado, 31 de Janeiro de 2009

Um livro de Anselmo Borges


JANELA DO (IN)FINITO


Acabei de ler, há dias, mais um livro de Anselmo Borges, padre e professor de Filosofia na Universidade de Coimbra. Melhor dizendo, reli as crónicas que semanalmente escreve no Diário de Notícias e que eu, com muito gosto, coloco no meu blogue, onde também podem ser lidas e relidas.
Deste autor já conhecia Janela do (In)Visível e Religião: Opressão ou Libertação?, duas obras que, como a que apresento hoje, me ajudaram e ajudam a pensar. Mais: que me oferecem conhecimentos, me encaminham para outras leituras e me suscitam reflexões.
Antes de começar a leitura, crónica a crónica, tive o cuidado de ler, serenamente, o Prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins, cujo título, Uma janela que permite olhar o mundo, garante, à partida, a certeza de que sairemos mais enriquecidos quando chegarmos à última página. E assim foi, realmente. A importância das releituras está na descoberta de novas mensagens, novas ideias e novas pistas, por paradoxal que possa parecer.
Como a “janela” volta à liça, o que denota um certo mistério do autor pelo vocábulo, aproveitei a Palavra de Abertura, de Anselmo Borges, para ficar esclarecido. Diz ele que “O fascínio de uma janela está em que se vê de fora para dentro e de dentro para fora, mas de tal maneira que as duas visões não são coincidentes”. Depois continua com o porquê desse fascínio, talvez muito próprio dos filósofos, mas não adianto mais para deixar aos seus leitores, sobretudo aos que ainda não pegaram nesta obra, o prazer de lerem tudo, de fio a pavio.
Voltando ao Prefácio, permitam-me que sublinhe uma curta passagem de Oliveira Martins: “Basta ler com atenção. Eis o apelo permanente que estes textos contêm. Longe da placidez ou da facilidade. Anselmo Borges põe o dedo nas feridas, põe-nos em causa e põe-se em causa. E, longe das receitas, apela constantemente para a liberdade e responsabilidade.”
E noutra passagem, refere que os textos deste livro “são excelentes motivos de reflexão sobre um conjunto vasto de temas relacionados com o fenómeno religioso, com o diálogo entre religiões, com a relação entre fé e razão, com a diversidade das culturas, e também com a evolução da humanidade num mundo globalizado”.
Janela do (In)Finito é, pois, um livro para ter sempre à mão. A qualquer momento, o esclarecimento pode estar lá.

Fernando Martins

DOCUMENTO DE MUMADONA EM EXPOSIÇÃO NO MUSEU DA CIDADE



Até 26 de Abril

A "Exposição 'BI Aveiro' conta já com os originais que estavam em falta, nomeadamente, o documento de doação da Condessa Mumadona Dias ao mosteiro de Guimarães de vários bens patrimoniais, entre os quais se encontra a referência a “Alauario et salinas” com data de 26 de Janeiro de 959.
A mostra, patente no Museu da Cidade até ao dia 26 de Abril, é um reflexo da identidade de Aveiro, os documentos expressam bem essa perspectiva. Neste sentido, as peças seleccionadas prendem-se, em boa parte, com um cariz administrativo tendo subjacente a organização do território, a sua definição e valorização ao nível local e por reconhecimento de instâncias superiores. A mostra pode ser visitada de Terça a Domingo, das 10 às 12.30 horas e das 14.30 às 19 horas. Tem entrada livre.”
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A BARRICA foi remodelada


Embora atravessando graves problemas económicos, A Barrica, com a colaboração da Câmara Municipal de Aveiro e da Federação Portuguesa de Artes & Ofícios, remodelou o seu posto de venda, situado na Praça Joaquim de Melo Freitas, em Aveiro. A reabertura foi hoje, sábado, 31 de Janeiro, pelas 10 horas da manhã. Isto significa que os apreciadores do artesanato já por lá podem passar, com a certeza de que haverá novidades a ter em conta.

GAFANHA DA NAZARÉ: Residências paroquiais

Nesta casa residiu o padre Guerra até deixar de ser Prior da Gafanha da Nazaré

"Quando o padre José Francisco Corujo (Prior Guerra) veio para a Gafanha da Nazaré, foi necessário, então, preparar-lhe uma residência. A comissão da paróquia arrendou, por isso, uma casa, na Chave, pertencente ao proprietário Manuel Cravo. Mais tarde, o prior Guerra mudou-se para uma outra casa, que ainda existe, na actual Av. José Estêvão, e que era pertença do mestre José Lopes Conde, conhecido por mestre José Lázaro. Ali residiu até deixar de ser prior da nossa terra, em 1947."
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O sol brilhou


Não sei se por muito tempo, mas o sol brilhou hoje. Deu, para já, para sair de casa, porque cansado de estar fechado andava eu. Respirei um ar mais fresco, encontrei amigos, cavaqueei com alguns, senti-me outro. Foi bom andar por aí, fotografar umas coisas úteis para mais um texto nos meus blogues. Registei o palpitar de gente apressada e gostei de ansiar por dias agradáveis, sem frio, sem vento e sem chuva. Eles hão-de vir para poder usufruir dos ambientes que me acalentam há sete décadas.

SIMONE WEIL: FILÓSOFA E MÍSTICA


SIMONE WEIL: FILÓSOFA E MÍSTICA



Faria 100 anos na próxima terça-feira. Nasceu no dia 3 de Fevereiro de 1909, mas morreu jovem, com 34 anos apenas. Chamava-se Simone Weil, e era de ascendência judaica. Figura complexa, filósofa de formação - as Obras Completas, na Gallimard, completarão sete volumes -, professora de Filosofia, viveu intensamente os dramas da primeira metade do século XX.
No seu número de Janeiro, Philosophie Magazine consagrou-lhe um dossier, sublinhando "a originalidade" da sua filosofia, na confluência articulada de experiência real, reflexão e acção. Aí se relata como a foram encontrar, com 11 anos apenas, no meio de uma manifestação de grevistas no boulevard Saint-Germain. Simone de Beauvoir refere nas suas Memórias um encontro na Sorbonne: Weil jura apenas pela Revolução que "daria de comer a toda a gente" e a Beauvoir, que sustenta que o verdadeiro problema é o de "encontrar um sentido" para a existência", replica: "Vê-se bem que nunca passaste fome!"
Para perceber a alienação dos operários, tornou-se ela própria operária e sindicalizou-se: "Enquanto nos não tivermos colocado do lado dos oprimidos, para sentir com eles, não se pode tomar consciência." Esgotada pela incapacidade de seguir a cadência infernal da produção, dirá que aí "o pensamento se encarquilha como a carne diante do bisturi". Visionária, viu claramente que a libertação não viria nem do fascismo nem do comunismo, abstracções "ávidas de sangue humano" que remetem para "duas concepções políticas e sociais quase idênticas".
Denunciou a exploração da classe operária e o colonialismo, mas manteve-se crítica face ao comunismo. Pôs-se ao lado da Resistência, reivindicando "uma forma de ofensiva", mas excluindo a violência das armas. Comprometida com a liberdade e a libertação, manteve-se distante dos partidos políticos e da Igreja.
Sobre os partidos escreveu que se trata de "organismos, publicamente, oficialmente constituídos de modo a matar nas almas o sentido da verdade e da justiça". Quanto à Igreja, temia a sua intolerância. Ficou, pois, à porta, pensando que a sua vocação era permanecer "cristã fora da Igreja".
Embora educada no agnosticismo, viveu intensamente à "espera de Deus". Deus não deve ser tanto procurado como esperado como graça. Essa graça consiste em "morrer para si mesmo", ser "des-criado" e depois "re-criado" em Deus.
Nesta espera, foi determinante uma experiência em Portugal em 1935, na Póvoa de Varzim. Ela que sabia o que era o sofrimento, assistindo a uma procissão em honra da padroeira, com velas e cânticos de uma tristeza pungente - "Eu nunca escutei nada mais pungente" -, teve repentinamente "a certeza de que o cristianismo é por excelência a religião dos escravos, que os escravos não podem não aderir a ele, e eu também".
Fui reler a sua obra Carta a um Homem Religioso, onde levanta a lista dos obstáculos que a mantiveram fora da Igreja. Tudo se resume nesta afirmação: "A Verdade essencial é que Deus é o Bem. Ele só é a omnipotência por acréscimo." Por isso, "é falsa toda a concepção de Deus incompatível com um movimento de caridade pura. Todas as outras são verdadeiras, em graus diferentes". Os únicos milagres são os do amor, de tal modo que "Hitler poderia morrer e ressuscitar 50 vezes que eu não o veria nunca como filho de Deus". "A forma de pensar de Cristo era a de que devíamos reconhecê-lo como santo porque ele fazia o bem perpétua e exclusivamente."
A Igreja centrou-se no dogma, que levou ao anátema e, assim, "estabeleceu um início de totalitarismo". "Os partidos totalitários formaram-se devido ao efeito de um mecanismo análogo ao da fórmula anathema sit. Esta fórmula e o seu uso impedem a Igreja de ser católica, a não ser de nome." A parábola do bom Samaritano "deveria ter ensinado a Igreja a nunca mais excomungar quem quer que fosse que praticasse o amor ao próximo".
Só o amor salva: "Qualquer pessoa que seja capaz de um gesto de compaixão pura para com um infeliz (coisa, aliás, muito rara) possui, talvez implicitamente mas sempre realmente, o amor de Deus e a fé."

Anselmo Borges, in DN

sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Presidente da República critica em Fátima a Lei do Divórcio



Cavaco Silva afirmou, esta tarde, em Fátima, que a Lei do Divórcio, aprovada em Abril de 2008 e que entrou em vigor no final do mesmo ano, se trata de uma lei causadora de novos casos de pobreza e, a propósito da mesma lei, manifestou a sua "perplexidade" quanto à forma como se legisla em Portugal.
“Dos contactos que tenho mantido com dirigentes de instituições de solidariedade, recolho a informação de que a maioria dos casos de ‘novos pobres’ está associada a situações de divórcio”, revelou.
Recorde-se que por ocasião da promulgação presidencial da Lei, em Outubro de 2008, em uma mensagem publicada na página oficial da Presidência da República na Internet, Cavaco Silva, que havia vetado inicialmente esta lei a 20 de Agosto, referia que o diploma, incluindo as alterações introduzidas depois do veto à primeira versão, "padece de graves deficiências técnico-jurídicas" e iria introduzir, em sua opinião, “profunda injustiça”, sobretudo para os mais vulneráveis, como são as “mulheres de mais fracos recursos e os filhos menores”.
No Centro Pastoral Paulo VI, no momento inaugural do IV Congresso da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, falou sobre o novo tipo de pobreza em Portugal, agravada pelo desemprego e pelo sobreendividamento de muitas famílias.
Pediu especial atenção para com as crianças e os jovens, para que se reforce a atenção a esta camada da população, para que possa manter as suas condições de bem-estar.
“ (É) o melhor que poderemos fazer pelo futuro do nosso país", disse.
Cavaco Silva destacou que, com esta nova realidade social, "é urgente mobilizar a força solidária dos portugueses" e, neste sentido, as organizações e instituições de solidariedade são "catalisadores" de iniciativas solidárias.
O Chefe de Estado português terminou o seu discurso com um apelo "por um Portugal mais justo e solidário".

Fonte: Santuário de Fátima

TERESA MACHADO: A atleta gafanhoa que chegou mais longe no desporto

A Teresa não esquece o muito que o desporto lhe deu


A única atleta nacional olímpica na disciplina do Disco



Teresa Machado, com quem toda a gente se cruza na Gafanha da Nazaré, porque nesta terra nasceu e sempre aqui viveu, é, até hoje, a única atleta olímpica das Gafanhas. E a nível nacional, é a única atleta olímpica, na disciplina do Disco.
Com resultados muito bons, tanto nos quatro Jogos Olímpicos em que participou (Barcelona, Atlanta, Sidney e Atenas), como em Campeonatos da Europa e do Mundo, para além de bastantes “meetings”, esta atleta gafanhoa não esquece quanto o desporto lhe deu. Considera, como muito valiosos, os benefícios que recebeu, quer no âmbito desportivo e social, quer cultural e económico. Também não esquece a riqueza humana que os contactos internacionais lhe proporcionaram.
Começou cedo a sua paixão pelo Atletismo, quando venceu, em representação da escola do 2.º Ciclo do Ensino Básico, uma prova de lançamento de Peso, em 1986. A seguir esteve no Galitos e em 1987 Júlio Cirino (ver Timoneiro do mês de Janeiro) passa a ser seu treinador, nas disciplinas de Peso e Disco. Ainda foi atleta do Sporting e da Junta de Freguesia de S. Jacinto.
Confessa que se sentia com “capacidade para chegar longe no desporto”, coisa rara para uma menina da época. Nessa altura, “as meninas das minhas idades inclinavam-se mais para “o ballet, a natação e a ginástica artística”, disse.
Os resultados começaram a entusiasmá-la, apesar das improvisadas condições de treino, que a obrigavam a andar com o seu treinador de um lado para o outro. A prática do lançamento de Disco exigia amplos espaços, não fosse dar-se o caso de atingir alguma pessoa ou automóvel que passassem perto.
A atleta ostenta com orgulho uma das muitas medalha que ganhou

Treinou em terrenos baldios da Gafanha da Nazaré, no Rossio e na actual zona do Centro Cultural e de Congressos de Aveiro, na Mata de S. Jacinto e em áreas cedidas onde agora existe o actual Porto de Aveiro, entre outras. Aqui, chegou a perder alguns discos, que ficaram mergulhados na ria.
A sua grande experiência olímpica, por ser a primeira, aconteceu em Barcelona, em 1992. “Só me apetecia chorar, com as sensações de ver um estádio cheio, com as pessoas a aplaudirem e a baterem os pés, incitando os atletas a darem o máximo”, contou-nos a Teresa. E acrescentou: “É que eu estava habituada a ver, em Portugal, pouca gente a assistir; víamos, normalmente, familiares, namorados e amigos.”
A Teresa confessa-nos que desde o início se sentiu muito apoiada e estimulada pelo seu treinador Júlio Cirino, um amigo que “se actualizava constantemente, estudando e participando em muitas actividades”. Aliás, também reconhece que lucrou em estágios da Federação Portuguesa de Atletismo, “onde contactou e aprendeu com ensinamentos e conselhos de outros treinadores”.
Com a experiência de Barcelona, o lançamento de Disco passou a ser a sua modalidade prioritária, conseguindo bons resultados em Atlanta (10.º lugar) e Atenas (6.º). E porque seria fastidioso indicar tudo o que fez nas inúmeras provas em que participou, para além dos campeonatos da Europa e do Mundo, é justo referir que subiu ao pódio em Itália, Brasil, Espanha, Argentina, Irlanda, Bélgica, Holanda, Áustria, Grécia, Marrocos, Chipre, Noruega, Alemanha e Portugal. No nosso País, continua recordista nacional de Peso (17,26 m) e Disco (65,40 m).
Teresa Machado, graças ao seu esforço nos treinos, chegou a ser considerada, por especialistas, a atleta “mais tecnicista na disciplina do Disco”.
A nossa entrevistada adiantou, nesta altura em que decidiu mudar de vida, que não tem visto, com pena, atletas que ocupem o seu lugar. Diz que é fácil atingir bons níveis até à faixa etária de juniores, mas as maiores dificuldades surgem nos escalões seniores. “Aqui, é mesmo preciso muita dedicação, muito esforço, muito treino, muita vontade, muita coragem e muita força, para chegar onde eu cheguei”, explicou.
A Teresa agora precisa de estar mais livre

Durante a entrevista, pudemos testemunhar a alegria e a emoção que lhe inundavam o semblante, ao recordar a sua exemplar carreira de atleta, sem grandes meios à partida. Contudo, não deixámos de registar algumas mágoas. “Quando eu estava no auge, não faltava gente que me incitava e me dava pancadinhas nas costas, prometendo-me mundos e fundos para quando eu abandonasse as competições; depois, na fase descendente, a que ninguém pode fugir, os amigos de outrora começaram a deixar de me conhecer”, sublinhou.
Presentemente, trabalha como Técnica Auxiliar de Fisioterapia numa clínica de Taboeira, não vendo, ao fundo do túnel, qualquer hipótese de voltar a dedicar-se ao Atletismo, em novas funções. Precisa de estar mais livre, ao fim de tantos anos de sacrifícios.

Fernando Martins
NOTA: Texto publicado no TIMONEIRO

A Igreja - Ontem, Hoje e Amanhã


quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Amnistia Internacional mostra realidades chocantes


A Marieke participou, na terça-feira, num encontro do Núcleo de Aveiro da Amnistia Internacional, onde pôde ver e meditar sobre fotos chocantes. Há experiências vividas em encontros como estes a que não podemos ficar indiferentes. Dilacerando-nos, acabam por nos fazer bem. Vejam aqui.

Bíblia na mão, família ao seu lado, testemunho de esperança


Serve mal o país quem se julga dono do povo e se esquece de proclamar bem alto, com convicção e coragem, que ninguém no mundo tem categoria para ser dono de alguém. Há um só Senhor.
Por Ele, todos somos iguais, todos somos livres, todos somos necessários. Quem se esquece que é servidor da sociedade e não defende, de modo claro, a célula básica e indispensável da sua consistência, no presente e no seu futuro, a família, não entendeu ainda o que é estar ao serviço do essencial e do bem comum.
Obama, o presidente para quem o mundo olha, quis, antes de tomar posse, participar com os seus familiares, num acto religioso na sua Igreja; quis fazer o juramento de bem servir o seu país tocando com a sua mão a Bíblia que sua esposa segurava; quis estar ladeado pela sua família em momento tão solene e único, sem se importar se assim o permitia ou não o protocolo do Estado.
Estes e outros gestos significativos não foram gestos de acaso. Foram opções e decisões da vontade livre de um homem responsável, expressões que indiciavam, para além das exigências protocolares da cerimónia, compromissos pessoais com raízes profundas.
Obama, para estimular nos seus concidadãos a união, a esperança e a tomada de consciência das suas responsabilidades, fez memória da história, falou-lhes de crises superadas e de batalhas vencidas, deu-lhes ânimo para poderem juntos ir sempre mais além. Não ocultou nem minimizou as dificuldades do presente, mas também não deixou, pelo modo como se lhes dirigiu, que se sentissem esmagados, por mais graves que sejam tais dificuldades. Onde há crises, há sempre desafios e enfrentar.
Foi um falar de manifesta convicção. O mundo estava vendo e ouvindo. Decerto se apercebeu de que, para além da cor da pele, estava ali um homem crente, lúcido e corajoso.
Os Estados Unidos da América, nos últimos anos, e até já nos penúltimos, têm sido atacados e denegridos, por muita gente, mundo fora e, especialmente, por gente desta Europa que não pára de olhar para o próprio umbigo e de se enredar em ideologias redutoras, perdendo assim a consciência das suas raízes e fechando-se a horizontes de vida. Não é que tudo aí esteja bem e que o novo presidente não deva rever projectos em curso e encontrar caminhos novos de futuro, dada a repercussão dos seus actos num espaço alargado, para além do seu próprio espaço geográfico.
Toda a gente viu, desde a campanha eleitoral e repetidas à saciedade após a sua eleição, que as suas preocupações não o vão deixar dormir sossegado. Pelo realismo do seu discurso, ninguém poderá pensar que ele se julga um iluminado salvador do mundo. Muito do terreno, que tem de pisar todos os dias, está armadilhado. Na América do Norte, como noutros países, os interesses criados e instalados, de pessoas e grupos, que em todo o lado os há e não olham a meios, nunca fazem tréguas definitivas.
O sonho de Luther King, que também foi profecia, está inicialmente cumprido. Não falta agora gente, negra e branca, que sempre aspirou por caminhos novos onde todos se pudessem mover em igualdade, a dar as suas mãos às do novo presidente, transmitindo assim a primeira condição para governar e lutar, de que ele não está só.
Muita gente, em Portugal, se regozijou com a eleição de Obama.
Alguns sentem-se já incomodados com a confissão pública e desassombrada das suas convicções religiosas. São estas mentalidades, no poder ou com influência no mesmo, que lançam suspeições e se mostram incapazes de se libertarem de preconceitos, atávicos ou adquiridos, como se esses fossem riqueza pessoal e social. A separação Igreja-Estado, no país de Obama sempre foi modelar nas relações, no respeito mútuo e na colaboração. Assim vai continuar, por certo, sem intromissões, mas, também, sem açaimos.
Obama mostrou a sua verdade interior, sem medo de críticas, de dentro ou de fora. A grandeza do homem não está no cargo que exerce. Vem de dentro. Alimenta-se num manancial que não seca, não em represas de águas turvas.

António Marcelino

GAFANHA: Coisas de antigamente - 3


As malhadas


"Mas se a malhada com o malho, como é óbvio, era a mais usual, não podemos esquecer outros processos empregados para separar o grão da espiga. Um deles, por exemplo, também teve a sua época. Referimo-nos à utilização de animais (vacas, sobretudo). Caminhando em círculo sobre o cereal estendido na eira, lá iam separando o grão da espiga com uma paciência inaudita, sob o olhar atento das pessoas que, de penico ou balde na mão, impediam que os excrementos e urina caíssem sobre os cereais."
FM
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Dr. Maximiano Ribau

A propósito do falecimento do Dr. Ribau, cuja notícia neste blogue chegou muito longe, o meu leitor e amigo João Marçal enviou-me dois textos, que aqui publico, com muito gosto. Demorei a pô-los no meu blogue, porque estive à espera de uma fotografia.



Assiste doente às 6 horas da manhã

Dizia minha mãe que o Dr. Ribau tinha orientado a escolha do nome com que fui baptizado, pois foi meu médico nos meus primeiros dias de vida. Eu digo que ele talvez a tenha salvado quando, chamado às 6 horas da manhã, logo compareceu em nossa casa assistindo-a num AVC que, felizmente, só leves sequelas lhe deixou e apenas durante algum tempo.
Muitas vezes comentámos esta sua disponibilidade.
Que descanse em paz.



Cebola nos dentes do engaço


Tendo-nos deixado há pouco mais de um mês, a sua memória perdurará no espírito dos que o conheceram. Foi o médico ideal para os seus conterrâneos que compreendia e ao lado de quem estava nos momentos de aflição. Gostava de lembrar esses contactos com toda a compreensão, sabedor da inocência e tradição do povo.
Contava com satisfação o dia em que há muitos anos foi procurado por um camponês que se havia ferido espetando um engaço num pé. Durante a prestação dos cuidados médicos que lhe dedicou, perguntando ao acidentado se já havia tomado alguma precaução quanto ao sinistro, este respondeu com toda a convicção:
- Espetei uma cebola nos dentes do engaço.

João Marçal

No restaurante “O Adriano”

Ao Almoço

Estava eu em meditação!
Será homem ou mulher?
P’ra mim, é uma confusão;
Os traços d’ homem lá estão,
E de mochila na mão,
Escolha o que me aprouver!

Cabelo grisalho aparado,
Vestuário masculino,
O rosto todo enrugado,
No bolso, tabaco arrumado,
Co ’a mão sapuda tirado
P’ra cumprir o seu destino!

Lá chamou o empregado,
P’ra lhe vir trazer à mesa,
Verde branco engarrafado,
E um pouco refrigerado
P’ra poder ser partilhado
Por mais alguém, com certeza!

Nisto chega uma senhora,
Que à sua mesa se senta,
Como a sua antecessora,
De certa idade detentora,
Talvez também fumadora
Que vai consultar a ementa.

Não me pus a adivinhar,
O que terá sido a refeição,
Mas quando a vi levantar,
E sair do seu lugar,
Para as mãos ir lavar,
Terminei a reflexão!

Era uma dama anafada,
Pois alguns pneus eu lhe vi!
Sob a camisa apertada
Que à frente era abotoada
E nuns calções enfiada,
Com bolsos de lado à safari!


M.ª Donzília Almeida

quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

António Rodrigues: Um transmontano com gosto pelo coleccionismo

O rádio mais pesado da colecção

“O prazer do coleccionador está
em pegar em algo inútil e torná-lo útil”


A Gafanha da Nazaré deve muito a pessoas que aqui se radicaram, vindas um pouco de todo o país e até do estrangeiro. Desta feita fomos visitar um transmontano, António Rodrigues, de Vidago, concelho de Chaves, que reside na nossa cidade desde 1995. Licenciado em Física pela Universidade de Aveiro, ingressou na Escola Secundária da Gafanha da Nazaré, como professor, em 1991. Nesta cidade casou e tem um gosto especial pelo coleccionismo, que pratica com paixão. Colecciona rádios antigos, pequenos e de válvulas, que lhe enchem uma sala, devidamente arrumados. E deles fala, com conhecimento e riqueza de pormenores, levando os visitantes a fazer mais e mais perguntas, às quais ele responde com prontidão e entusiasmo.
Essa paixão começou com um rádio TELEFUNKEN, avariado, que o sogro lhe ofereceu. Entusiasmou-se com a ideia de o pôr a funcionar, com a ajuda de um amigo, e tanto bastou para nunca mais parar. Depois desse outros vieram, também avariados, após visitas a Feiras de Velharias em Aveiro. “O gosto começou com a recuperação dos rádios”, adiantou o nosso entrevistado. E logo acrescentou que “o prazer do coleccionador está em pegar em algo inútil e torná-lo útil”.


Pelo interior de um rádio é possível saber a sua proveniência

António Rodrigues tem cerca de 220 rádios quase todos a funcionar, havendo sempre o cuidado de utilizar peças originais e das próprias marcas e épocas, que adquire na Feira da Ladra e outras, mas também pela Internet, mais no estrangeiro do que em Portugal.
Coleccionador atento e estudioso, apoia os seus conhecimentos em literatura que vai comprando e em consultas que faz, no sentido de obter a mais fidedigna informação. A sua colecção não é um armazém de rádios, pois cumpre as mais elementares regras do coleccionismo. Os rádios estão catalogados, com registos técnicos e históricos fundamentais, condições em que os adquiriu e onde. Por isso, visitar a colecção de rádios do professor António Rodrigues é ouvir uma belíssima lição de história, impossível de reproduzir no pouco espaço de que dispomos no jornal.
De relance, pudemos testemunhar a existência de rádios das mais diversas partes do mundo, nomeadamente, da Holanda, Inglaterra, Alemanha, França, Itália, América, Portugal, Checoslováquia, Áustria e Suíça, ente outros países. E durante a conversa ficámos a saber que o nosso entrevistado consegue identificar a proveniência geográfica e a marca de cada rádio, pois todos denunciam características próprias.
Como raridade, na sua óptica, mostra-nos um aparelho conhecido por EMISSORA NACIONAL, português, também chamado SALAZAR, de 1935. A ele está ligada a Emissora Nacional, ao tempo dirigida pelo Capitão Henrique Galvão, e destinava-se a funcionários públicos. Cada rádio custava 200$00 e podia ser pago em prestações. Mas o mais valioso é um FADA 1000, americano, 1946, custando hoje uns mil euros. É dos primeiros rádios assimétricos e o plástico exterior, “Catalim”, muda de cor conforme a luz ambiente.


O gosto pelo coleccionismo está bem patente quando fala dos seus rádios

Sobre o aproveitamento político deste meio de comunicação social, António Rodrigues exibiu um rádio alemão, o VOLKSEMPFANGER, o rádio do povo. Foi uma criação destinada a difundir a propaganda nazi. Fabricaram-se dezenas de milhões de aparelhos e eram vendidos a preços baratos, para chegarem a todas as famílias. De cor preta, com a águia imperial bem à vista, funcionava apenas em onda média, de curta captação, para impedir a audição de programas radiofónicos estrangeiros. No quadrante estavam indicadas as cidades alemãs que tinham retransmissores.
O professor da Secundária da Gafanha da Nazaré falou-nos, durante a visita que fizemos à sua colecção, da evolução dos rádios, desde os anos 20 do século passado até aos nossos dias. Os primeiros eram produzidos artesanalmente por técnicos, a pedido dos interessados. A caixa era de metal e nos anos 30 começou a usar-se a madeira. Mais tarde veio a baquelite, que, pelo facto de permitir o fabrico de caixas em série, a partir de moldes, fazia reduzir o preço dos aparelhos.
No seu “site” – http://www.cfeci.pt/sites/radiosantigosnoar –, os nossos leitores podem ficar a saber muito mais.
Fernando Martins
NOTA: Texto publicado no TIMONEIRO

Crónica de um Professor



“É em CASAIS NOVOS
que se fazem os Bolinhos d’Amor”


Na diversidade doceira que abundou nesta quadra natalícia, assomou à sua memória, esta inscrição, lida em grandes parangonas e colocada a toda a largura da rua!
Na verdade, deparava-se com este anúncio, quando passava por Penafiel, no seu périplo docente, por este país rural. Os ocupantes do Mercedes amarelo, liam, sorriam e comentavam! Era tema para uma dissertação filosófica, entre os professores, com formações académicas diferentes, logo, cada qual, com uma visão particular do assunto.
– Pois! Claro que é nos casais novos que se fazem os bolinhos de amor! Pudera! Com todo o manancial que possuem!
E... um sorriso brejeiro aflorava ao rosto daquelas criaturas, arrancadas ao sono, a altas horas da matina. Até esqueciam o sacrifício feito, para cumprirem o seu dever profissional.
Era esta a afirmação mais recorrente, no grupo, que andava todo na faixa etária dos anos 30! Só o M. mais maduro e experiente nas liças da vida docente e noutras, contrapunha com alguma reserva. Era o mais velho e o único cavalheiro.
– E nos casais mais velhos, maduros, experientes? Acham que aí já não há ingredientes para o amor? Eu discordo!
Sem o conhecimento empírico que hoje tem do tema, a teacher não podia opinar, com convicção e conhecimento. Mas, como sempre, gostou de ouvir os mais velhos, fonte de sabedoria catalogada (!?), arquivou na sua jovem memória este episódio, mais um, enriquecedor da sua, hoje, ampla experiência de vida.
No regresso da Escola, de quando em vez, havia sempre lugar para estacionar o automóvel. Sim, que o veículo conduzido pela M. tinha estofos e gabarito para essa designação! Os outros, dos colegas acompanhantes, a descansar na garagem, lá em casa, eram uns meros carros de passageiros na sua humildade de meio de transporte! Aquele merecia, inteirinho, ser apodado de um automóvel! Por detrás, havia o suporte de um marido industrial...
Cansados de um dia de actividade lectiva, não tanto como hoje (!!!), mais por estarem afastados geograficamente das suas residências, ainda sem a comodidade e celeridade dos IPs que tanto aproximam e encurtam as distâncias, lá paravam. Era numa enorme cozinha rústica, de lavrador, que eram confeccionados, vendidos e saboreados, aqueles deliciosos bolinhos de amor! Um forno de larga boca era o foco das atenções dos fregueses, enquanto degustavam os apetitosos docinhos, sentados em toscas mesas, dum ambiente, acolhedoramente, rural.
Ainda hoje, volvidos 24 gloriosos anos, a teacher guarda bem, nas suas papilas gustativas, o sabor requintado, exótico, DIFERENTE, daquela especialidade doceira! Que saudade, desses bons velhos tempos!
À guisa de conclusão, atreve-se a desafiar o teor daquele anúncio: o amor... tem sabor em qualquer idade!!!

Mº Donzília Almeida

02 Janeiro 09

GAFANHA: Coisas de antigamente - 2


"Sementeiras e colheitas eram feitas em espírito de entreajuda. Os lavradores e seus familiares ajudavam os amigos e vizinhos para ganhar tempo. Os ajudados tinham de pagar na mesma moeda. Estas reminiscências comunitárias, que num ou noutro aspecto ainda perduram, constituem prova evidente da vivência de uma certa fraternidade e das necessidades económicas por eles sentidas. É que os gafanhões de antanho não tinham dinheiro que abundasse para pagar jornas.As sementeiras do milho e as plantações da batata eram feitas por processos muito simples e rudimentares, já que a escassez de recursos lhes não permitia a aquisição de máquinas agrícolas. E o mesmo se diga em relação a outras sementeiras e plantações."
Leia mais em Galafanha

CHOCOLATE QUENTE




UMA HISTÓRIA... UMA LIÇÃO DE VIDA



Um grupo de jovens licenciados, todos bem sucedidos nas suas carreiras, decidiu fazer uma visita a um velho professor da faculdade, agora reformado.
Durante a visita, a conversa dos jovens alongou-se em lamentos sobre o imenso stress que tinha tomado conta das suas vidas e do seu trabalho.
O professor não fez qualquer comentário sobre isso e perguntou se gostariam de tomar uma chávena de chocolate quente.
Todos se mostraram interessados e o professor dirigiu-se à cozinha, de onde regressou vários minutos depois com uma grande chaleira e uma grande quantidade de chávenas, todas diferentes - de fina porcelana e de rústico barro, de simples vidro e de cristal, umas com aspecto vulgar e outras caríssimas.
Apenas disse aos jovens para se servirem à vontade. Quando já todos tinham uma chávena de chocolate quente na mão, disse-lhes:
- Reparem como todos escolheram as chávenas mais bonitas e dispendiosas, deixando ficar as mais vulgares e baratas... Embora seja normal que cada um pretenda para si o melhor, é isso a origem dos vossos problemas e stress. A chávena por onde estais a beber não acrescenta nada à qualidade do chocolate quente. Na maioria dos casos é apenas uma chávena mais requintada e algumas nem deixam ver o que estais a beber. O que vós realmente queríeis era o chocolate quente, não a chávena; mas fostes conscientemente para as chávenas melhores. Enquanto todos confirmavam, mais ou menos embaraçados, a observação do professor, este continuou:
- Considerai agora o seguinte: a vida é o chocolate quente; o dinheiro e a posição social são as chávenas. Estas são apenas meios de conter e servir a vida. A chávena que cada um possui não define nem altera a qualidade da vossa vida. Por vezes, ao concentrarmo-nos apenas na chávena acabamos por nem apreciar o chocolate quente que Deus nos ofereceu. As pessoas mais felizes nem sempre têm o melhor de tudo, apenas sabem aproveitar ao máximo tudo o que têm.
Vivei com simplicidade. Amai generosamente. Ajudai-vos uns aos outros com empenho. Falai com gentileza. E apreciai o vosso chocolate quente.

(Autor desconhecido)

Enviado por João Marçal

terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Jacinta canta “Songs of Freedom”

:Jacinta enfrenta mais um desafio

A cantora de jazz Jacinta canta, no São Luiz, em Lisboa, “Songs of Freedom”, entre de 29 de Janeiro e 7 de Fevereiro.
Neste espectáculo, Jacinta interpreta temas célebres dos anos 60, 70 e 80, de músicos como Ray Charles, Sting, Stevie Wonder ou Michael Jackson.
Trata-se de mais um desafio à altura daquela que é considerada uma das melhores vozes femininas do jazz nacional e a primeira a gravar sob o selo “Blue Note”.
Os espectáculos estão marcados para as 22 horas, de quinta a sábado.

Um sistema penal não pode ser só castigo


Cardeal-Patriarca lembrou necessidade
de reabilitar os condenados

Esta tarde, o Cardeal-Patriarca, D. José Policarpo, celebrou, na Sé Patriarcal de Lisboa, a tradicional Eucaristia por ocasião da abertura do Ano Judicial.
Na homilia, D. José Policarpo lembrou a necessidade de reabilitar os condenados ao afirmar que “a justiça humana deve olhar para o conjunto da pessoa e do culpado. É difícil conceber uma pessoa que se identifique com a sua culpa. Um sistema penal que seja só castigo e não tenha no seu dinamismo a recuperação humana dos condenados, o mínimo que se pode dizer dele é que está desactualizado. Mas isso só é possível se olharmos para a pessoa no conjunto das suas potencialidades”.
O Cardeal Patriarca concluiu, referindo que “não podemos exigir que se pratique formalmente a justiça para com Deus, mas nós os crentes sabemos que qualquer recuperação é redenção e que a força do Espírito de Deus é real, mesmo para nos ajudar a julgar”.
Fonte: RR

AÇORES: Praia da Vitória

Praia da Vitória

A Praia da Vitória, nos Açores, é a cidade onde vivo e trabalho. É um local muito agradável para quem gosta de paz e sossego. Não há muita confusão e tem espaços para fazer boas caminhadas junto ao oceano. E eu, tendo nascido e vivido junto ao Atlântico, sinto-me mesmo muito bem, quando olho para o mar e imagino que estou a cinco minutos da minha casa na Gafanha. Fico logo com outro espírito!

João Martins
NOTA: Pode ver, aqui, mais fotos dos Açores

AVEIRO: História do CETA



50 anos ao serviço do teatro e da cultura

O CETA (Círculo Experimental de Teatro de Aveiro) apresenta uma “Exposição Retrospectiva da Sua História” no Teatro Aveirense, que decorrerá até 15 de Fevereiro. Desta forma dá início às comemorações do seu quinquagésimo aniversário.
No dia 7 de Fevereiro, data oficial do seu aniversário, entre outras actividades, haverá um debate sobre a História do CETA e a sua importância como pólo de dinamização cultural, social e política para a nossa cidade, que decorrerá no salão nobre do Teatro Aveirense, às 18h30m.
A exposição pode ser visitada de terça a sábado, entre as 13 e as 20h.

Consagradas e Consagrados por amor


Num mundo transtornado por tantas razões, as sérias e também as fúteis, vale a pena saber que há gente com coração largo. Quando pouco ou nada vemos à nossa volta, vale a pena saber que há mulheres e homens que enxergam a esperança, mesmo de olhos fechados. Quando não se calam as vozes que anunciam mais amarras, vale a pena saber que há pessoas que dão uso ao ouvido do coração, abrindo um porto seguro.
A vida consagrada é hoje um esteio de humanidade. Para todos, mesmo os nãos crentes. Para a Igreja continua a ser, como sempre foi, aquele tesouro frágil que tanto mais a enriquece, quanto não lhe pertence a iniciativa do dom, sempre da Graça. Para uma sociedade cada vez mais secularizada, entre o incompreensível e o admirável, ela avulta como sinal de radicalidade, profundamente questionador das entregas e dos sonhos. Para uns e outros, percebendo-o ou não, a vida consagrada torna visível um amor encarnado, um amor louco de entrega, um amor chamado à glória pelo caminho da cruz.
As religiosas e os religiosos que conhecemos, que não conhecemos, de quem ouvimos falar, ou que nos passam pela existência com a discrição de quem se apaga para servir, dão do ser cristão no mundo de hoje um testemunho único. E como seria diferente o mundo que conhecemos sem eles. Mais pobre, sem dúvida, talvez mesmo mais brutal ainda, de qualquer modo menos atraente. O amor destas mulheres e destes homens, tantas vezes provado, há-de sempre fazer lembrar, aos mais despertos e também aos outros, que a vida entretecida na gratuidade e no dom é por Deus abençoada com fecundas realizações.
Que a Igreja estime com particular afecto aquelas e aqueles que lhe mostram o amor de Jesus com os traços da autêntica caridade fraterna, não parece de estranhar. Que também cada um de nós o faça com genuína alegria de coração é caminho a fazer todos os dias.

João Soalheiro

GAFANHA: Coisas de antigamente – 1

Jardim e esteiro Oudinot de antigamente


"O povo que se instalou na Gafanha era gente pobre. Foi no século XVII que os primeiros, como caseiros, começaram a agricultar estes areais. Acossados certamente pela fome, no dizer do Padre João Vieira Rezende, procuraram melhores condições de vida. As areias não os assustaram, já que a elas andavam de certo modo habituados.A instalação não deve ter sido difícil. Era gente não muito exigente e com grande capacidade de sacrifício e de adaptação. As casas de habitação eram modestíssimas. De madeira ou de barro amassado com felga, limitar-se-iam à cozinha e a um ou outro compartimento que servia de quarto de dormir. As camas seriam esteiras ou pobres enxergas estendidas sobre bicas ou junco. Outras divisões e comodidades só muito mais tarde. Mas deixemos hoje estas coisas, aliás curiosas, e falemos da agricultura dos gafanhões dos fins do século XIX. Dos outros pouco reza a história.Terra para cavar não lhes faltava e vontade de a fazer produzir também não. A ria logo os atraiu, não tanto para a aventura da pesca, mas para o aproveitamento do que ela de mão beijada lhes oferecia: o moliço. Rapado na borda por ancinhos de dentes de madeira, lá ia curtir nos areais à espera da hora das sementeiras."
Leia o texto completo em Galafanha


Fernando Martins

segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Um livro de João Lobo Antunes




O Eco Silencioso


João Lobo Antunes, conhecido neurocirurgião e professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa, publicou em Novembro passado mais um livro de ensaios, O Eco Silencioso, que vem na sequência de Um Modo de Ser, Numa Cidade Feliz, Memória de Nova Iorque e Sobre a Mão e Outros Ensaios, merece ser lido e meditado.
Irmão de outros médicos e também escritores, António Lobo Antunes e Nuno Lobo Antunes, este novo livro, lido e apreciado por um homem comum, como sou eu, revela o talento multifacetado do seu autor, que o leva a escrever sobre os mais variados assuntos. Mas não se vá supor que escreve por escrever, já que tudo o que afirma está imbuído de uma cultura exuberante.
Lê-se na Introdução que escreveu estes textos porque “teve gosto em fazê-lo”, tendo-os publicado porque teve “vontade de os partilhar”. Razão por que não podemos deixar de aceitar a oferta.
Ao ler Eco Silencioso, temos acesso a um conjunto de informações científicas que doutra forma ficariam de posse apenas de gente da ciência, mas também é verdade que João Lobo Antunes nos conduz, para quem o quiser e puder seguir, na senda de temas mais acessíveis, que merecem, contudo, ser reflectidos com elevação e interesse, pois que se trata de um professor e médico que assume, em pleno, a vivência da cidadania.
Também revela quanto a sua formação cultural e humanista nasceu no seio da própria família, mostrando, aqui e ali, como seu pai, médico próximo de Egas Moniz, sabia incutir nos filhos o gosto pelas artes e pela ética.
Questões sobre a vida e a morte, sobre as relações entre médicos e doentes, críticas a livros e homenagens a artistas e a colegas, neles incluído o irmão António, mais o seu relacionamento com o mundo da cultura, nomeadamente, da poesia, do romance, da pintura, da música e até da religião, bem como a evocação de mestres que o marcaram, de tudo um pouco podemos encontrar na caminhada de João Lobo Antunes, prosseguida com uma serenidade que só nos faz bem, se o soubermos imitar.

Fernando Martins

Alameda Prior Sardo

Prior Sardo (1873-1925)

Alameda Prior Sardo

Figura preponderante na construção da Gafanha da Nazaré


A Alameda Prior Sardo é uma justa homenagem ao primeiro gafanhão que concluiu um curso superior e que desempenhou, nesta sua e nossa terra, um papel relevante a nível religioso, social, cultural, administrativo e até político.
Uma alameda é, por definição, em resumo, uma rua ladeada de árvores. Mas, apesar de as árvores não serem assim tão expressivas, lá há-de vir o tempo em que a Alameda Prior Sardo se apresente bem arborizada.
Quem vai pela Av. José Estêvão, pode entrar na Alameda junto à Pastelaria Gafapão. No seu trajecto, que se estende até à rua Gago Coutinho, o viajante encontra o monumento dedicado ao Mestre Manuel Maria Bolais Mónica e a Escola EB 2,3.
Não há dúvida de que o Prior Sardo foi figura preponderante na construção da Gafanha da Nazaré, pela sua intervenção multifacetada. Do seu empenho, nasceram a freguesia e a paróquia, em 1910, de que foi seu primeiro pároco. Antes, fora capelão, desde 1902.
Lê-se na Monografia da Paróquia, “Gafanha – N.ª S.ª da Nazaré”, que o Prior Sardo “não era alto, mas era forte”. Dotado de “uma força física extraordinária”, era “muito activo” e tinha muita “paciência”. Também se dizia que era muito “genicoso”, a par de grande pregador. “Num sermão, chorava mais do que uma criança”, acrescentava-se.
Além disso, tinha uma empresa de bacalhau, de que era gerente, e foi político, exercendo o cargo de vice-presidente da Câmara de Ílhavo. Chegou, inclusive, a ser presidente interino, durante dois períodos, como adiante se especifica.
E quem hoje circula pela estrada velha que ligava a capela da Chave [primeira matriz] à ponte de Ílhavo, na Gafanha de Aquém, atravessando a que é, presentemente, a Av. José Estêvão, talvez nem saiba que esse melhoramente se deve ao Prior Sardo, obra que reclamou muito antes de exercer o cargo de vice-presidente da autarquia. Foi durante o desempenho do cargo de Presidente da Câmara de Ílhavo, lugar que ocupou, interinamente, durante dois períodos (entre 27 de Março de 1909 e 2 de Janeiro de 1910; e entre 4 de Julho de 1910 e 4 de Setembro), que se procedeu ao pagamento das despesas da referida estrada. Depois, dinamizou o processo da construção da igreja Matriz, que foi inaugurada em 1912, tendo falecido em 20 de Dezembro de 1925, com apenas 52 anos de idade.
Entretanto, o Padre Vieira Rezende, referido noutros contextos, sublinha, na sua “Monografia da Gafanha”, o zelo com que o Prior Sardo desempenhou o seu múnus sacerdotal, transcrevendo uma lapidar informação do nosso primeiro prior: “O asseio que hoje já se nota nas habitações da Gafanha tem alguma coisa de instrutivo. É o resultado das persistentes insinuações da limpeza que eu sempre prego, quer nas homilias, quer no confessionário, e que é em parte complementar do asseio que desejo e quero nas almas.”
Sobre o Prior Sardo falaremos mais desenvolvidamente na data da criação da paróquia e a propósito do Largo 31 de Agosto.

Fernando Martins

A CRISE

Não sei se já todos os portugueses (para falar apenas de nós) se aperceberam, com realismo, da periclitante (para não dizer dramática) situação económico-financeira que estamos a viver. É certo que toda a gente fala de crise e não faltam os que, com rostos sérios, atiram para o ar propostas com garantias de milagres. Leiam “A solução da bendita crise”. Pode ser que vislumbrem algum optimismo.

domingo, 25 de Janeiro de 2009

SINAL +

Navio-museu Santo André

1. A minha recente visita a uma escola, relatada no meu blogue, por razões sentimentais, levou-me a refletir sobre a contribuição de cada um de nós para valorizar o muito que já se faz com os alunos. Sempre aprendi que a comunidade educativa é constituída por todos os que, direta ou indiretamente, estão ligados à escola, razão por que é obrigação de todos colaborar, quando necessário, na medida das suas possibilidades.
Eu sei que não é fácil deixar o nosso comodismo e vencer os nossos receios, quando somos solicitados a dar o nosso contributo. Mas também sei que colaborar não é somente contar histórias ou substituir os professores durante alguns minutos, para se falar de experiências que transcendem as vivências dos docentes. Há imenso a dar à escola e aos alunos, esperando-se, apenas, que se programem os apoios de pais, amigos e instituições diversas, da freguesia ou de fora.

2. Diariamente sou informado, por variadíssimas fontes, de ações de âmbito cultura relevantes na região. Exposições, museus, teatro, concertos, cinema, música, conferências, livros, CDs, DVDs, artes e artesanato, entre muitas outras. Em todas as informações vem o apelo à participação das pessoas, pois que gente culta é sempre, à partida, gente mais livre. É certo que há eventos que apenas se ficam pelas grandes cidades, mas também é verdade que nos concelhos mais recônditos já há, por norma, equipamentos culturais em número mais do que suficiente para as mais variadas iniciativas culturais. Penso, no entanto, que faltam campanhas de sensibilização, capazes de motivar as pessoas. Assunto a ponderar pelos promotores desses eventos.
Fernando Martins

NOTA: Texto em harmonia com o Acordo Ortográfico

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos


Encerra-se hoje a Semana de Oração pela Unidade dos Cristão. A ideia de procurar a unidade entre todos os que aceitam Jesus Cristo como Salvador torna-se cada vez mais urgente. Não que isso signifique à partida a integração plena na Igreja Católica, mas que leve todos os cristãos a assumirem a defesa, de mãos dadas, de tudo o que consideram essencial na Mensagem de Cristo, para a instauração do Reino de Deus no mundo.
Mas porque é muito difícil, porque tem sido complicado pôr de lado questões que até geraram guerras há séculos (e ainda hoje), temos de esperar que o Espírito Santo nos ilumine a todos nos caminhos da aproximação mútua, na base do amor fraterno, vivido no dia-a-dia.
Santo Agostinho deixou-nos um lema lapidar que urge pôr em prático, se é que queremos dar passos significativos na procura da unidade de todos os cristãos: “Unidade no certo, liberdade no duvidoso e caridade em tudo.”
Seria interessante que começássemos a pensar nisto. E então, para que o Espírito Santo sinta o nosso interesse e as nossas convicções, não podemos dedicar à questão da unidade apenas uma semana de oração, mas o ano todo e todos os anos que forem precisos.

Fernando Martins

Tecendo a vida umas coisitas – 115


BACALHAU EM DATAS - 5

Lugre Santa Joana


A PESCA NA TERRA NOVA DOS BACALHAUS

Caríssimo/a:

Curiosidade para saber como se processava a pesca do bacalhau nesses recuados séculos?
É natural; leia-se então o que nos diz um dos nossos entendidos e experimentados:

«Vejamos agora como se processava a pesca na Terra Nova nos seus primórdios.
A primeira modalidade de pesca praticada na Terra Nova foi chamada "pesca na costa", por ser aí e não no alto mar que ela era praticada.
À medida que os navios iam chegando, aproximavam-se o mais possível de terra, e os respectivos capitães escolhiam de entre as baías livres, aquela que lhes proporcionasse um fundeadouro abrigado e uma boa extensão de praia. O navio fundeava normalmente com dois ferros, o mais próximo possível da margem. Só então eram arriadas para a água as duas chalupas que transportavam para terra todo o pessoal encarregado de proceder à montagem das instalações destinadas ao processamento e armazenamento do pescado.
Estas instalações consistiam num trapiche rudimentar, feito de estacaria, onde o peixe seria descarregado da chalupa e imediatamente processado, isto é, trotado, eviscerado, aberto e lavado, e depois de escorrido, salgado em pilhas dentro de um barracão igualmente muito rudimentar, feito também de estacas de madeira, coberto com um toldo ou ramaria de pinheiros a fazer de telhado, para o abrigar das intempéries.
A pesca era feita com redes de cerco, do tipo ainda hoje usado na pesca da sardinha, onde o bacalhau, uma vez enxugado na enorme bolsa fechada por baixo, era transferido por meio de capinetes para uma das duas chalupas de manobra que o ia descarregar ao trapiche de processamento. Após algumas semanas de salga, durante a qual o sal retirava do peixe a sua água de constituição, substituída por uma solução salina ao nível celular, com o peixe já parcialmente desidratado, passava-se à última operação, a secagem.
Esta operação extremamente importante, não se fazia de forma contínua, mas sim por etapas, com vários dias de exposição ao sol em cima dos seixos da praia, ou, na falta destes, em cima de um estendal feito com ramagens de árvores ou arbustos, seguidos de alguns dias de repouso. Esta alternância no tratamento do pescado repetia-se várias vezes, até que o peixe atingisse o grau de cura desejado. Era pois uma operação morosa, pelo que só uma parte do peixe capturado era trazido completamente seco, pronto para a exportação.
Grande parte, ou seja, todo aquele que era capturado e tratado a partir de determinada fase da viagem, vinha na condição de bacalhau frescal, a ser seco depois em terra.
No início toda a gente vinha dormir a bordo, como medida de precaução contra qualquer ataque dos indígenas que habitavam a ilha. Mas com o passar do tempo, depois de verificada a índole pacífica dos habitantes que cada vez mais se foram refugiando no interior, o navio passou a ser desarmado e todos os materiais transferidos para terra.
Agora que toda a gente dormia no próprio local de trabalho, numa grande cabana comunal onde cada um dispunha do seu catre individual feito a seu gosto e à sua medida, evitava-se o constante vaivém terra-navio-terra com uma considerável economia de tempo. O navio, ancorado perto da margem, permaneceu sempre como a principal base de apoio de todas as operações.
Era assim que as coisas se processavam no início da pesca naquelas paragens, em que havia lugar para toda a gente, pois eram muitas as baías e enseadas onde cada um assentava o seu arraial. Basta lembrar que a Ilha da Terra Nova, com os seus 110.000 km quadrados de superfície, tem um perímetro de costa da ordem dos 9000 km. Este número impressionante deve-se ao facto da costa ser profusamente recortada, sobretudo na parte leste da ilha, por efeito de uma terrível erosão glaciar no passado longínquo.»
[HDGTM, 29]

Manuel

sábado, 24 de Janeiro de 2009

A crise da economia instalou-se




URGÊNCIAS DO TEMPO

A crise da economia instalou-se. Começou por desacelerar o ritmo anunciado, depois estagnou o crescimento previsto e entrou em recessão. Agora é mais do que se vê e ouve. Que virá a seguir?!
Tende a alargar-se a nível nacional e mundial. A economia real, a das pessoas que contam os cêntimos para custear as despesas obrigatórias, vai dando sinais alarmantes: os que chegam aos meios de comunicação de multidões e os que ficam nos grupos de atendimento caritativo da vizinhança ou de alguma associação humanista e cristã.
O tempo urge novas medidas. A consciência humana tem de mostrar a sua face social e fazer-se solidária. Os cidadãos devem fazer ouvir a sua voz humanista e reivindicar os valores em todas as iniciativas de superação. As empresas, na sua organização e produção, são chamadas a revalorizar a sua componente ética. As forças sociais e políticas hão-de convergir nas suas propostas de acção.
A Igreja, ao verificar como estão em jogo a pessoa e os direitos fundamentos que explicitam a sua dignidade, há-de posicionar-se correctamente, com firmeza e humildade, defendendo propostas que eliminem ou atenuem os sacrifícios das pessoas e das classes mais desfavorecidas, reforcem a participação de todos, desenvolvam a solidariedade entre os grupos socioprofissionais, fomentem a cooperação no âmbito nacional e internacional.
A Igreja, dentro da sua missão específica, há-de opor-se a que sejam os empobrecidos a pagar “a factura da crise” e fomentar correntes de pensamento e de intervenção que evitem privatizar os benefícios e generalizar as perdas. Há-de, com lucidez e valentia, cultivar e promover o sentido do bem comum, ainda que contrariando os interesses privados, próprios ou alheios, praticar e difundir um estilo de vida sóbrio e solidário, educar para o uso dos bens, destacando o comércio justo e o consumo responsável num mundo de recursos escassos.
O tempo do mercado desregulado e da globalização comandada pela “mão invisível” de quem pode dispor dos mecanismos controladores; o tempo da colectivização anónima e despersonalizante e da centralização planificada e asfixiante da liberdade de iniciativa e de associação, esse tempo encurtou ou melhor devia ter “chegado ao fim”.
Uma nova forma de vida organizada está em construção. Uma cultura que privilegie os valores dignos da condição humana tem de ser preferida e desenvolvida. Uma religião que desvele à pessoa a sua autêntica “estatura e vocação” que germinalmente está em si mas precisa de desabrochar continuamente, deve ser encarada como um bem para a humanidade e um valor a integrar nos dinamismos da sociedade.
Entre o mercado livre e o Estado centralizador está a pessoa e a multiplicidade das associações em que expressa a sociabilidade e constrói a solidariedade, dimensões fundamentais para a sua realização humana. São estas que constituem parte indispensável do tecido social que dá consistência e vitalidade ao circuito económico: da extracção e produção de bens à sua comercialização e consumo ou conservação.
A urgência do tempo surge clara no episódio da prisão de João Baptista. Encarcerado por ordem de Herodes, cala-se a voz do profeta que reclama o direito e a justiça, que aponta o machado posto à raiz da árvore pronto para a cortar, que proclama estar presente Alguém que vem inaugurar uma “nova era”.
Este Alguém é Jesus Cristo que, sabendo do que haviam feito a João, irrompe em público com a boa nova de que é urgente uma mudança radical e total, a começar pelo interior de cada pessoa. A inteligência devia colocar-se ao serviço da verdade e procurá-la incansavelmente; o coração abrir-se a todos e estabelecer relações solidárias e fraternas de convivência; a vontade querer efectivamente o bem dos demais, tanto como se deseja o bem próprio; enfim, um olhar novo em que se espelha esta forma original de ser, de estar e de conviver ou seja um olhar que transmite a realidade nova vivida e anunciada por Jesus Cristo e confiada aos cristãos, seus discípulos.

Georgino Rocha

ÉTICA E RELIGIÃO NA ECONOMIA


Perante o estrondo da crise financeira, que está a chegar, avassaladora, à economia real, há da parte de muitos um enorme apelo à ética e aos valores na finança, na empresa e na economia em geral. Há vantagens nisso, como diz Josef Wieland, professor de Ética: os valores éticos trazem enormes bens à empresa, como, por exemplo, a segurança jurídica; "a reputação da empresa aumenta e ela acaba por receber os melhores e mais motivados colaboradores". É preciso ter em conta que a corrupção vai recuar e "as regras éticas defendem em todo o mundo os empresários da prisão".
Não é por acaso que são esperados quatro mil participantes no sexto congresso cristão de empresários e gestores, que se realiza em Düsseldorf, Alemanha, de 26 a 28 de Fevereiro próximo, sob o lema Avançar para a Chefia com Valores. Isto não significa de modo nenhum que a ética empresarial seja um exclusivo dos crentes, mas a fé tem de ter influência no mundo dos negócios.
Na Alemanha, 66% dos empresários dizem acreditar pessoalmente em Deus e, segundo impulse, revista para empresários, no seu número de Janeiro, a união de empresários católicos atingiu o número histórico de mais de 1200 membros e, no caso dos empresários protestantes, o número multiplicou-se em poucos anos por dez, sendo agora 600.
Segundo uma sondagem da Forsa, as normas éticas e morais desempenham um grande papel para 50% dos empresários alemães, sendo interessante verificar que essa normas são mais importantes para os empresários protestantes (58%) do que para os católicos (47%). Segundo a mesma sondagem, da fé derivam deveres: responsabilidade pelos trabalhadores (71%), sinceridade, justiça, lealdade (31%), decisões socialmente compatíveis (18%) e há limites morais para o rendimento pessoal: católicos (62%), protestantes (42%), sem confissão religiosa (56%), empresários em geral (52%).
Haverá contradição entre a fé em Deus e a maximização do lucro? Os crentes em geral respondem: sim (28%), não (68%). Os passos da Bíblia mais citados pelos empresários crentes são: "ama o teu próximo como a ti mesmo", "o Senhor é o meu pastor" e os dez mandamentos.
Segundo o bispo Wolfgang Huber, presidente do Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha, a maximização do lucro e o amor do próximo podem ser compatíveis: "a Igreja não é estranha à realidade". A responsabilidade económica precisa de ter os pés assentes na terra e a proximidade ao Homem. A presente crise financeira não pôs em causa a economia social de mercado. De qualquer forma, o sistema desequilibrou-se e é preciso corrigi-lo. Quanto à justiça, há um critério importante: "As diferenças na sociedade devem estabelecer-se de tal modo que também as pessoas que se encontram no fundo da escala possam estar convencidas de que o sistema em geral é justo e lhes é favorável também a elas."
Dos debates tensos de Gerd Kühlhorn com os empresários para impulse, resultaram dez mandamentos para os empresários cristãos, que "talvez sejam um pouco simples, mas certamente mais claros do que todos os fanfarronantes Codes of Conduct". Aqui ficam:1. Trata dos negócios de tal modo que a tua empresa tenha um bom lucro. 2. Sê justo com os teus parceiros de negócio. 3. Mostra estima pelos teus colaboradores. 4. Faz negócios prospectivamente e assegura o futuro da tua empresa. 5. Procura parceiros que como tu acreditem em Deus. 6. Cultiva a humildade. 7. Coloca os teus talentos e recursos ao serviço dos outros. 8. Não te percas no trabalho. 9. Reconhece que a tua empresa não te pertence a ti, mas a Deus. 10. Respeita todos os que não partilham a tua fé.
No fundo, como diz o bispo W. Huber, encontramo-nos num "ponto de viragem". A confiança é "um capital tão importante para a economia como o dinheiro". Por isso, é preciso que os empresários estabeleçam "um equilíbrio entre a eficiência económica e as consequências sociais do negócio empresarial".
Afinal, a economia não é fim em si mesma, pois é o Homem que tem de ocupar o centro. Daí, como lembrou Martin Buber, o sucesso não ser "um dos nomes de Deus". A solidariedade, sim.

Anselmo Borges, in DN

OFICINA DA FORMIGA reproduz peças do Museu Alberto Sampaio

Reproduções feitas pela "Oficina da Formiga"


AOficina da Formiga” dedica-se a reproduzir cerâmica tradicional, respeitando os elementos essenciais (Mar, Terra e Ar), nomeadamente, peixes, galos, flores e pássaros. Alguns destes desenhos surgiram há mais de 100 anos, sendo todos de autores desconhecidos. Diz-se, por isso, que são motivos tradicionais. No “site” de a “Oficina da Formiga” pode ler-se que “As formas são principalmente os pratos e as travessas oitavadas ou ovais. As cores são todas de alto fogo predominando o azul, o verde, o rosa, o castanho e o amarelo”.
Isabel Maria Fernandes, que foi Conservadora do Museu de Olaria (de 1983 a 1995), trabalha desde 1999 como directora do Museu Alberto Sampaio, em Guimarães.
Dedica-se ao estudo da cerâmica portuguesa em geral, mais especificamente da louça preta e da faiança oitocentista. Para além disso procura desenvolver a reflexão sobre temáticas ligadas aos museus, ao estudo e inventariação do património móvel. É autora de obras sobre a cerâmica portuguesa, mas também sobre algumas temáticas relacionadas com a museologia e a arte sacra.
Quando visitou a “Oficina da Formiga”, encantou-se com os trabalhos ali produzidos e mais tarde forneceu algumas fotos de peças existentes no Museu Alberto Sampaio, para que fossem reproduzidas e posteriormente vendidas aos visitantes do museu.
Apresento, neste meu espaço, para apreciação, o resultado dessas reproduções.

Nota: Informações fornecidas pela “Oficina da Formiga”

sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

TERCEIRA: Património e Serenidade

Praia da Vitória: Marina
"As Ilhas Misteriosas"

“Bela e pitoresca, a Ilha Terceira entrelaça com mestria a riqueza natural com a história documentada por um património de excepção.” Assim começa o texto alusivo à Terceira, nos Açores, como desafio a uma vista às “Ilhas Misteriosas”, de recantos virgens, que uma revista me trouxe há dias.
Deixei então voar a minha imaginação até à Praia da Vitória, na Terceira, onde vive e trabalha o meu filho João, que me relata, com frequência, quadros pintados de cores únicas, que a humidade aviva e mantém frescos.
Pudesse eu visitar as ilhas açorianas com serenidade e vagar quanto baste, para delas colher flores que enfeitassem histórias de penedos e mar, de vulcões fechados, de tremores de terra, das graças do Espírito Santo, das touradas à corda, de caminhos com marcas de coloridos aristocráticos. Mais ainda: para saborear o peixe fresco de águas cristalinas, a saborosa alcatra de vaca, os doces de “chorar por mais”, sem esquecer o “verdelho” criado em chão ou muros de pedra solta.

FM

Crónica de um professor


A cadelinha…

Na antecessora NAC, (Nova Área Curricular, não disciplinar) Área – Escola, várias vezes, fora tratado o tema. Era um dos predilectos dos alunos, pois a ligação afectiva com os animais de estimação, vulgo pets remonta aos primórdios da vida do homem na Terra.
Na verdade, “Animais de companhia”,” Animais abandonados”, "Animais de estimação”, revestindo-se de qualquer uma destas designações, o assunto era muito pretendido, no início do ano, quando se impunha a discussão e posterior selecção do tema, a ser tratado por cada turma.
Quantas vezes se maravilhou com as descobertas que os seus alunos faziam e lhe davam a conhecer, sobre as manifestações comportamentais e outras, dos nossos queridos cãezinhos, Sim, porque a teacher também nutre um afecto muito especial pelos caninos! Nesse dia, a seguir aos Reis, a propósito de um episódio ocorrido com um suposto cachorrinho perdido, foi notável o movimento de solidariedade gerado, pela descoberta de uma cadelinha abandonada. Acontecera no dia anterior, durante o Cortejo dos Reis, nesta abençoada vila, quando a Sara e a Joana notaram que a cadelinha que entrara distraidamente num supermercado local, fora vista com animosidade e intromissão num espaço restrito aos humanos,
Aí, tenham paciência, mas reserva-se uma parte dos louros, no trabalho de sensibilização e solidariedade para com os desprotegidos da sorte. Afinal, qual é o papel do professor, se não ajudar a criar no aluno uma consciência cívica de respeito e tolerância para com os seus pares, ainda que nele incluamos os animais nossos amigos? Aqui, sentiu a teacher algum regozijo, quando constatou que um aluno tão “difícil” como o J…… estava ali pronto, com um papel na mão, a escalonar os tectos de abrigo da Queenie, enquanto não se chegasse a um consenso! Na rua é que a pobrezita não iria ficar. Já ficara uma noite na casa da M…., iria ficar esta na da Jo……, a seguir seria o J. a abrigá-la….e por ai adiante. Até uma ida ao veterinário ficara agendada, para lhe tratar da saúde com orientação médica! Exemplar! Notável!
A Sara, que tivera uma formação em Primeiros Socorros, prontificara-se, de imediato, a fazer-lhe os curativos, até à ida ao Veterinário!
Aplaudiu veementemente e até aconselhou a que baptizassem a cadelinha para ter um tratamento mais personalizado e afectuoso. Como o episódio ocorreu na aula de Inglês, seguida de Estudo Acompanhado, foi também sugerido pela colega, que apoiou e corroborou, a atribuição de um nome inglês.
E… depois de largo debate sobre os cuidados a dedicar ao novo elemento da turma, conclui a teacher que da condição de homeless, passara à condição de Princess… não tivesse ela já subido ao pedestal de Queen..ie!

M.ª Donzília Almeida

Papa anula excomunhão de bispos ultraconservadores de Lefebvre




Bento XVI decidiu anular a excomunhão decretada em 1988 por João Paulo II contra os bispos ultraconservadores do movimento católico fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, segundo informa o jornal italiano «Il Giornale».
O decreto já teria sido assinado pelo Papa de acordo com o jornal. O texto suprime a excomunhão para os quatro bispos ordenados pelo monsenhor Lefebvre, entre eles seu sucessor Bernard Fellay.
A decisão pontifícia deve ser divulgada no fim de semana, afirma Andrea Tornielli, vaticanista do jornal.
Anular a excomunhão constitui um passo importante para a reconciliação com o movimento tradicionalista e dogmático, que tem 460 padres espalhados por quase 50 países, com maior comunidade na América Latina, em particular na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e República Dominicana.
Desde o início de seu pontificado em 2005, Bento XVI fez vários gestos de abertura em direção ao movimento católico fundado pelo arcebispo francês, entre eles a introdução em Julho de 2007 da missa em latim, uma exigência dos «lefebvristas».
Em Junho do ano passado, o Vaticano desistiu de exigir dos adeptos de Lefebvre, reunidos na Fraternidade de São Pio X, fundada em 1969 em Econe (Suíça) pelo monsenhor Lefebvre, o reconhecimento das disposições do Concílio Vaticano II.
A ordenação de quatro bispos por parte do próprio Lefebvre (falecido em 25 de Março de 1991), desobedecendo e questionando a autoridade do Papa, está entre as razões que o levaram a criar outra Igreja, com a separação da Igreja oficial em 1988, o primeiro desde 1870.

Fonte: Ecclesia

ÍLHAVO: X Capítulo da Confraria Gastronómica do Bacalhau

Membros da Confraria Gastronómica do Bacalhau

Amanhã, 24, em Ílhavo, vai decorrer o X Capítulo da Confraria Gastronómica do Bacalhau, prevendo-se a presença da maioria das Confrarias Gastronómicas portuguesas e espanholas.
Este ano, as festividades decorrem na Vista Alegre, com a concentração às 10 horas, no Centro de Visitas da fábrica, onde será servido a "patanisca de honra", seguindo-se, às 11, a Missa Solene na Capela Nossa Senhora da Penha de França onde actuará a Banda Música Nova.
No edificio do teatro da fábrica, às 12 horas, serão entronizados os novos Confrades e os Confrades de Honra, seguindo-se o almoço no refeitório da VA.
Os novos Confrades são Amândio Costa, António Pinho, Guedes Vaz, Hugo Filipe Coelho, Luís Leitão, Rui Dias e Vasco Lagarto.
Os Confrades de Honra a serem entronizados são Carlos Martins (Martifer), Bernardo Vasconcelos (V.A.), Pedro Machado (Turismo do Centro) e o Presidente da Câmara de Viseu.

ORBIS forma voluntários


Cerca de 30 pessoas já manifestaram interesse em participar na “Formação de Voluntariado Missionário e Formação Permanente” ministrada pela Organização Não Governamental para o Desenvolvimento ORBIS - Cooperação e Desenvolvimento, em parceria com o Secretariado Diocesano de Acção Missionária (SDAM) de Aveiro. A sessão de esclarecimento está agendada para o próximo dia 24 de Janeiro, pelas 15 horas, nas instalações do Centro Universitário Fé e Cultura (Campus Universitário de Santiago), na cidade de Aveiro, altura em que serão formalizadas as inscrições.
Durante o período de formação, os voluntários irão realizar acções a título pessoal e de grupo, assim como serão esclarecidos sobre voluntariado especificamente missionário. Participação e cidadania global, conceitos e modelos de solidariedade, história e factos do percurso do voluntariado, história das religiões, promoção humana e inculturação serão alguns dos temas abordados por elementos da ORBIS e SDAM.
A experiência de voluntariado missionário desenvolve-se em dois momentos distintos: um a decorrer em instituições de acolhimento a grupos vulneráveis em Portugal e outro a nível internacional (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau ou Moçambique).
As pré-inscrições podem ser feitas até dia 23 deste mês de Janeiro, para o endereço electrónico info@orbiscooperation.org. Os candidatos deverão ter a idade mínima de 18 anos e manifestar facilidade de “adaptação a diferentes culturas, sem julgamentos” e “consciência que é necessário trabalho e empenho para ajudar a mudar o mundo”.
Fonte: ORBIS

quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Estado e Religião


O discurso inaugural do Presidente Obama foi um apelo aos valores éticos da tradição americana. Tendo reconhecido e valorizado que os Estados Unidos são um país de muitas religiões e de gente sem religião, Obama referiu várias vezes Deus e citou a Bíblia. A cerimónia do juramento foi precedida de uma oração, por um pastor protestante evangélico. No final, um outro pastor, metodista, deu a bênção.
Se isto tivesse acontecido na Europa e nomeadamente em Portugal ter-se-ia armado um enorme alarido. Logo surgiriam protestos de que se estava a violar a laicidade do Estado. No entanto, se há país onde, desde a sua fundação, existe um enorme cuidado em separar a esfera do Estado da esfera religiosa, esse país é a América.
Com o republicano Bush e a sua ligação à direita religiosa surgiram alguns problemas. Mas agora trata-se de Barack Obama, um democrata que não pode ser acusado de misturar Igreja e Estado.
Acontece, apenas, que o povo americano é sensato e não despreza os valores que estiveram na base da sua nação – valores que Obama exaltou como essenciais para vencer a crise.

Francisco Sarsfield Cabral

In RR

Câmara de Ílhavo oferece Enriquecimento Curricular


A Câmara Municipal de Ílhavo disponibiliza, pelo terceiro ano consecutivo, as Actividades de Enriquecimento Curricular, para todos os alunos do 1º Ciclo do Ensino Básico do Município.
No presente ano lectivo, concretizou-se o alargamento do ensino do Inglês a todas as crianças, desde o 1º ao 4º ano de escolaridade, estando inscritos cerca de 94 por cento da totalidade dos alunos do 1º Ciclo do Ensino Básico.
Foram entregues manuais e livros de exercícios de Inglês aos alunos, sendo esta uma aposta da Câmara na criação de mais e melhores condições para o processo ensino-aprendizagem de todas as crianças.
No presente ano lectivo, são várias as actividades disponibilizadas para os alunos, nomeadamente, o ensino do Inglês e a Actividade Física e Desportiva, as quais são complementadas com o ensino da Música, para os 3º e 4º anos, e das Artes e Expressões, para os 1º e 2º anos de escolaridade.
De modo a dar resposta às 1564 crianças inscritas nas várias actividades, a autarquia contratou, no início do ano lectivo, 61 professores para as várias áreas, tendo ainda estabelecido acordos de cooperação com as Associações de Pais, para assegurar as Artes e Expressões, num trabalho que tem o devido acompanhamento dos Agrupamentos de Escola.
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Nota: Este texto teve como fonte uma informação camarária. Permitam-me que sublinhe a importância do envolvimento das autarquias nos processos educativos, num trabalho louvável de complementaridade. Penso que a Escola lucrará bastante se souber aproveitar estes apoios que vêm de fora, embora de membros da Comunidade Educativa, dando asssim uma sapatada no individualismo. Hoje, mais do que nunca, o progresso exige cooperação, sendo garantido que de mãos dados chegaremos muito mais longe.
FM

O JURÍDICO E O PASTORAL NAS LEIS DA IGREJA




Completaram-se vinte e cinco anos do Código de Direito Canónico, compilação oficial das leis da Igreja católica. O Código apresenta e propõe, em forma de lei, as orientações conciliares, dando-lhe sentido normativo e pastoral. Tarefa cuidadosa e morosa, por isso mesmo, ele só foi dado por terminado para entrar em vigor dezoito anos depois do Vaticano II se ter encerrado. De 1965 a 1983, foi publicada legislação avulsa, sempre que era exigida.
Passar a letra de lei o espírito e as orientações de um grande acontecimento eclesial, como foi e é o Vaticano II, e era essa a missão do novo Código, deixou-nos desde logo a percepção, confirmada pelo tempo, de que algumas leis teriam de se ir aperfeiçoando, senão mesmo substituídas e outras iriam aparecer.
O dinamismo que a Igreja Universal recebeu do Concílio faria, por certo, sentir maior necessidade de colmatar falhas e derrubar muros que dificultavam a vida e o agir da Igreja e, consequentemente, de promover a renovação necessária e desejada, para ser ela um verdadeiro espaço de comunhão e uma presença significativa no mundo. Uma comunidade tradicional, com hábitos de séculos, e um mundo novo, complexo e em permanente mudança, como este que cada dia se vai desdobrando aos nossos olhos, assim o exigiam.
Algo se foi fazendo ao longo do tempo. Agora, cada dia, se verifica que é necessário ir mais além. O vinco de séculos de história e a morosidade habitual das respostas não têm solução fácil nem rápida.
Para além disso, ainda há na Igreja quem pense que qualquer mudança operada é um empobrecimento do seu tradicional prestígio.
A vida mostra-nos, porém, que, em qualquer sector, o imobilismo teimoso, tanto das pessoas como das instituições, é caminho aberto, no mínimo, para a inutilidade e para a insignificância.
O Código do Direito Canónico é um instrumento indispensável na vida da Igreja. Exige, porém, acolhê-lo no seu valor, e saber ver os seus cânones como normas de vida e de acção, passando da sua dimensão jurídica à sua função pastoral. É neste sentido e neste acolhimento que, normalmente, surge o apelo à necessidade de alguma mudança, actualização e clarificação do que está determinado e que pode beneficiar ao rever-se.
Li, há dias, em revista atenta à vida da Igreja, a reflexão de dois professores de Direito Canónico em universidades de Espanha, relacionada com os vinte e cinco anos do Código. Um deles fixava-se mais na avaliação de como se cumpriu nestes anos o estatuído. Era um padre. O outro, olhando a razão de ser do Código em ordem à vida e missão da Igreja no mundo, procurava o que é necessário considerar hoje para fomentar a comunhão na Igreja e tornar mais activa e operante a sua missão no mundo. Era uma mulher. É significativa esta diferença de olhares ao ver a Igreja, como organização sempre certinha e sem falhas, ou como servidora atenta das pessoas e das comunidades concretas, para melhor promover a vivência espiritual e apostólica e atender aos seus problemas.
As leis, por sua natureza, são estáveis, dizem respeito a todos, são promulgadas para servir a comunidade na sua totalidade. Assim no Estado e na Igreja. Não se alteram leis por razões menores, passageiras ou ocasionais, ninguém se pode arvorar em legislador do seu pequeno mundo, não se legisla para tempo determinado. As leis não são simples decretos e, menos ainda, portarias ou normas de circunstância. Legisla-se para servir a comunidade, muda-se para a servir melhor. Então, está em causa a competência e a responsabilidade do legislador legítimo, que deve estar atento ao que se passa e se generaliza, para agir em consequência.
Há situações concretas com repercussão pastoral que exigem esta atenção. Alguns exemplos: tradução prática da Igreja Comunhão, situação da mulher na comunidade cristã, divorciados recasados, famílias em situação irregular, celebração Eucaristia e dificuldade em a ter, paróquias urbanas e não só, sem referência real a um território, subalternidade não justificada do leigo, novos ministérios laicais, centralidade em Jesus Cristo e sublinhar da hierarquia como serviço, teologia da Igreja Diocesana, papel das conferências episcopais. Todos estes casos flúem da compreensão da doutrina conciliar. A sua consideração, como ajuda ao legislador, depende também da formação e da sensibilidade dos cristãos activos, da sua participação responsável na comunidade cristã, e do seu compromisso apostólica na sociedade.

António Marcelino

quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Voltei à escola


A Escola, afinal, está melhor do que eu pensava


Por amável convite do professor Vítor Bártolo, da Escola da Cambeia, na Gafanha da Nazaré, ontem voltei à escola. Não foi a primeira vez desde que me aposentei, mas não posso deixar de referir esta visita no contexto da blogosfera. Pelo prazer que me deu.
O professor Vítor solicitou-me, há dias, que fosse falar aos seus alunos do 3.º ano do 1.º Ciclo do Ensino Básico, ao jeito do avô que conta histórias da sua infância. Os alunos, na área do conhecimento do meio, andavam a estudar motivos históricos referentes à terra, e era importante ouvirem um “avô”.
Ao contrário do que se diz sobre a Escola, por muitos de nós acusada de ter caído num caos, de que urge levantar-se, para bem de todos, encontrei na turma que me recebeu uma realidade completamente diferente. Sala aquecida e bem iluminada, crianças cuidadas no vestir e no estar na sala, com capacidade para ouvir e dialogar, interessadas no tema, curiosas no gostar de saber.
Entrei numa sala onde tudo estava em ordem, com meninas e meninos risonhos e delicados, na forma como receberam o “avô”. Ponto importante, este, para eu logo começar a estabelecer a comparação entre esta escola (bonita, airosa, arejada, limpa, decorada e com meios técnicos para o trabalho) e a que eu frequentei (pobre, casa velha, fria, com vento e chuva a entrar por todos os cantos, com alunos sentados no chão, muitos descalços, com lousas em vez de cadernos).
Falei da pobreza de há mais de 60 anos, dos professores com as quatro classes, dos exames. E contei histórias, porventura algumas descabidas, cada uma a partir das perguntas com que as crianças me desafiavam a memória.
Uma hora de conversa, de diálogo quase permanente. E quando terminei, quando o professor Vítor aconselhou os alunos a saírem da sala para desentorpecerem os membros e arejarem o espírito, os alunos cercaram-me para me falarem dos trabalhos que já tinham feito sobre a Gafanha da Nazaré, a partir de alguns textos do meu blogue e de outras fontes. Vi que estudaram o Farol, o Forte, o Cruzeiro, o Cortejo dos Reis, entre os mais diversos assuntos. E cada um quis sublinhar o que tinha desenhado e pintado na capa para arquivo dos trabalhos feitos.
Confesso que falei ao “sabor da maré”, sem me preocupar com as exigências psicopedagógicas, algumas das quais já se me varreram da memória há muito. Falei como costumo falar aos meus netos.
Por gentileza e amizade, o professor Vítor agradeceu-me a visita. Eu é que lhe estou grato.

Fernando Martins

Câmara de Ílhavo promove regras de boas práticas Ambientais



“Dividir para Reinar”


A Câmara Municipal de Ílhavo, em parceria com a empresa SUMA (entidade responsável pela recolha indiferenciada dos Resíduos Sólidos Urbanos do Município), promove, até 26 de Janeiro, a campanha “Dividir para Reinar”, junto dos Jardins de Infância e Escolas do 1.º Ciclo do Ensino Básico do Município.
Esta iniciativa tem como principal objectivo dinamizar, junto dos mais novos, a prática de acções relacionadas com a correcta triagem, acondicionamento e deposição de resíduos, melhorando o desempenho ambiental de cada uma das Escolas, assumindo ainda o particular formato de uma história de encantar, com «Reis, Magos e Sereias, e um menino chamado Bartolomeu, que quer muito ser um Eco-mosqueteiro defensor do Ambiente», sonho ou desejo desde logo partilhado pelas Crianças deste Município.
Esta iniciativa pretende ainda reforçar temáticas desenvolvidas em anteriores campanhas de Sensibilização Ambiental, conferindo-lhes o novo formato de estória de encantar, em suporte Livro e CD Áudio, destinados a apoiar a dinamização desta temática em situação formal de aprendizagem e em contexto de sala de aula.

Actualidade do Vaticano II



Neste artigo, o Padre Georgino Rocha «mergulha» no II Concílio do Vaticano e apresenta alguns pontos pertinentes sobre o «maior evento eclesial do século XX». Pode ler todo o texto aqui


"2. Situada no tempo e sentindo o seu impacto, a Igreja aprofunda a consciência do seu ser mistério de comunhão em ordem a configurar de forma mais adequada o seu ser sacramento de salvação. A fidelidade a Jesus Cristo impele-a a estar atenta à cultura, aos contextos, às linguagens e a procurar inserir-se para melhor servir.
Sendo una e única, realiza-se numa pluralidade de comunidades dispersas, mas em comunhão orgânica e dinâmica; sendo santa e apostólica, traz consigo a marca das limitações e deficiências humanas acumuladas ao longo da história; sendo católica está aberta ao universal e condensa num local os meios indispensáveis à salvação.
Esta auto-compreensão eclesial manifestou-se de forma significativa em iniciativas emblemáticas como os Sínodos e a criação de órgãos reconhecidos de participação: assembleias e conselhos, designadamente. Mas expressa-se igualmente em gestos e atitudes eloquentes, embora discretas, como a solidariedade espiritual, a partilha de bens, o apostolado de vizinhança, o voluntariado social e missionário.
A consciência assumida desta realidade contrasta radicalmente com a lentidão de processos de renovação global, com a raridade de projectos comunitários, com a debilidade da rede de comunicações no interior das comunidades e destas com a sociedade envolvente e distante."

Um Poema de Maria Donzília Almeida


OBSESSÃO...


D’ tua imagem se nutre minha mente,
Numa etérea voluptuosidade;
E me preenche minha ociosidade,
Num estado de euforia permanente!

É um quadro de perfeita harmonia
Que une corpo e espírito num anelo!
Seguindo do meu coração, o apelo,
Me evado p’ró mundo da fantasia!

Aí fico, longo tempo desfrutando
Nas asas deste sonho esvoaçando,
Vagamente soltando os pés da terra.

Mas a dura realidade não perdoa,
Em meu franzino ser a voz ecoa
E com a fantasia entra em guerra!
Mª Donzília Almeida
Dezembro/08

terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Barack Obama


E Pluribus Unum


Eu sou só mais um, dentre os cidadãos do mundo, que hoje assistiu à tomada de posse do “seu” Presidente.
Barack Obama é verdadeiramente um presidente do mundo, por aquilo que representa, pelos ideais que defende.
No dia em que pela primeira vez ouvi falar em Barack Obama, anunciava-se a sua candidatura ao cargo de presidente dos Estados Unidos da América.
A partir daí comecei a estar atento, não sei porquê.
Na segunda vez em que ouvi o seu nome, tratava-se de uma notícia em que se aludia ao facto de um qualquer pivot de TV ter confundido o seu nome, trocando Obama por Osama, uma alusão clara ao primeiro nome de Bin Laden.
Hoje, passado mais de ano e meio, e depois de conhecer e continuar a ler acerca do pensamento do novo presidente da América, percebo que tal inocente deslize exemplifica os obstáculos por que Obama teve de passar para se alcandorar ao cargo mais importante do planeta.
Lutar contra o preconceito da cor da pele, contra o preconceito acerca das suas origens e ascendência social (filho de um queniano que foi estudar para a Universidade do Havai onde conheceu a americana, com quem casou e que viria a dar à luz o pequeno Barack), foi sem dúvida o primeiro dos desafios que se colocaram a este homem que, no princípio da sua vida adulta, não só trilhou o caminho do autoconhecimento e da compreensão do seu lugar no mundo, mas também o caminho da ajuda às comunidades maioritariamente negras dos subúrbios de Chicago.
Este é um homem que se entregou desde sempre ao serviço aos outros, aos mais desfavorecidos, aos desempregados e excluídos da vida, dos primeiros anos da década de oitenta do século passado, na capital do Illinois.
Não encontro, nem se vislumbra, no percurso de Barack, um qualquer calculismo, um objectivo velado, um desejo secreto de ambição política, de busca do poder.
Um homem que, apenas há três anos, mais de metade da população norte-americana desconhecia, não sabia de quem se tratava.
Sou assim só mais um, dentre os cidadãos do mundo, que vê algo mais em Barack Obama, para além daquilo que nos ofereceram até hoje os líderes do mundo.
E estou certo de que a razão, que faz de Barack alguém que inspira o mundo, reside numa coisa muito simples e singular. A defesa dos valores em que acredita, a começar, como ele muito bem diz, pelo supremo valor da liberdade, secundado pelos valores que ajudam a realizá-la, ou seja, "os valores de autoconfiança e de auto-aperfeiçoamento e da assunção de riscos. Os valores da força de vontade, da disciplina, da temperança e de trabalho árduo. Os valores da parcimónia e da responsabilidade pessoal."
É nos valores, nestes valores, que, segundo Barack, reside a força da América, muito para além do poder que advém da riqueza ou da força militar. Nestes alicerces, na defesa destes ideais, cresceu algo de novo, foi esta a semente que permitiu a Barack Obama apresentar uma nova esperança, a audácia da esperança resumida na frase yes we can, sim nós podemos.
Serão estes valores que deverão guiar a América e o mundo, nos tempos conturbados que se vivem.
Mas há um fermento que permite ligar esta massa.
Há um entendimento do modus operandi de Barack Obama que se vê em poucos políticos que conhecemos. Isto é, a capacidade de construir pontes entre os dois principais partidos da América, o democrata e o republicano, saber contar com as diferentes sensibilidades e cores políticas: por essa razão o governo que acaba de constituir para a América, conta com personalidades democratas mas também republicanas.
Revela-se assim um presidente capaz de unir a nação, sem excluir, no esforço que se avizinha de voltar a colocar a América e, consequentemente, o mundo, nos trilhos do desenvolvimento e da justiça social.
Muito mais haveria a dizer, mas, só por isto, vale a pena referir que eu sou só um, dentre os cidadãos do mundo, que hoje assistiu à tomada de posse do “seu” presidente.

Pedro Martins

Expectativas de mudança


São de crise, os dias que passam. Multiplicam-se análises, variam as atitudes e são diversas as consequências reais nos percursos de vida de muitas famílias. Única é essa certeza de que a recessão está nas estatísticas nacionais, sob ameaças de tumultos sociais. Por causa do dinheiro.
Para ultrapassar o problema, interessa fazer alguma coisa. Por vezes, parece bastar prometer que se faz, ou transmitir a intenção de, chegando a instâncias de poder, concretizar esta ou aquela ideia.
Às opções políticas e leis da organização da sociedade, acrescente-se o que é da responsabilidade de cada pessoa, na construção da cidadania: o rigor que se reivindica para o governo da coisa pública só será sustentável quando parte do seu exercício no ambiente doméstico. Porque não se podem estender os recursos, gastando mais do que aquilo que se tem; porque, sobretudo, não se podem endividar constantemente os dias do amanhã.
Sem soluções e com muitas dúvidas em relação a cálculos, verdades e salvadores da crise, alimentam-se expectativas neste ou naquele, em pequenos ou grandes projectos, próximos ou distantes. O início de um novo mandato na presidência dos Estados Unidos da América catalisa esperanças, dentro e fora do país. Cresce a expectativa de mudança de rumo, de novas atitudes diante dos problemas do mundo e, consequentemente, de soluções alternativas para as relações internacionais, para políticas económicas, ambientais, militares, sociais...
Que aconteça essa diferença no governo de um país; que beneficie todo o globo com o que a cabeça de um homem é capaz de colocar em marcha. Mas que sejam transformações integrais, a partir do "miolo das coisas" e à espera de resultados profundos, porque não imediatos. Esse o segredo para a renovação da relação com o mundo criado, com a sua sustentação e preservação.
Na Igreja Católica, essa é a atitude renovadora, institucional, doutrinal ou espiritualmente. Esse o projecto do II Concílio do Vaticano, convocado surpreendentemente pelo Papa João XXIII há 50 anos. A sua realização durou mais tempo do que o previsto; muito mais tempo está a ser necessário também para concretizar as propostas que dele saíram. Porque apontam para transformações de atitude, não para resultados imediatos.

Paulo Rocha

segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Vaticano II foi convocado há 50 anos



O Espírito Santo evitou
que o povo fugisse porta fora

Faz no próximo dia 25 de Janeiro 50 anos que o bom Papa João anunciou a convocação de um concílio, que ficou na história da Igreja com o nome de Vaticano II. Começou em 1962 e terminou em 1965. Na altura, andava eu na casa dos 20 anos, dizia-se que este concílio foi uma corrente de ar fresco que entrou na Igreja para acabar com teias de aranha e bolores que infestavam as salas do Vaticano e que impediam a grande abertura ao mundo, com novos problemas e novos desafios.
Por muitos foi classificado como o maior e mais expressivo acontecimento eclesial do século XX, deixando na maioria dos católicos a esperança de uma nova Igreja, capaz de revitalizar a acção do Espírito num mundo que pregava há bastante tempo a morte de Deus.
Passados estes anos todos, em que houve a tal e esperada abertura, ainda se diz que o Vaticano II continua fechado em algumas gavetas de sacristias, quiçá no coração e na acção de muitos católicos, clérigos e leigos.
De imediato, o que mais extraordinariamente me impressionou, no dia-a-dia da Igreja, não foram tanto os documentos que o Concílio produziu, e que estiveram na génese de uma vida renovada, em muitos aspectos, mas tão-só o facto de as missas começarem a ser celebradas em diversas línguas (até aí eram em latim), de forma a que todos participassem, realmente, na eucaristia. Como foi possível que a Igreja tivesse implementado a celebração da missa de costas para o povo e em língua que pouquíssimos entendiam, durante séculos? Penso que só a força e a paciência do Espírito Santo conseguiram o milagre de impedir que os crentes saíssem porta fora.
Para mim, que vivi esses acontecimentos com emoção e entusiasmo, estava aberto o caminho à dignificação dos leigos. Deixaram de ser apenas assistentes para se tornarem agentes activos da eucaristia, espelhando na vida o que nela recebiam, talvez não tanto como todos desejaríamos.
Não sei se esta data diz alguma coisa aos católicos de hoje. Mas seria bom que dissesse, e que, a partir dela, se fizesse uma séria reflexão, no sentido de descobrir se há por aí, por alguma gaveta ou coração, o Vaticano II escondido.

Fernando Martins

OBAMA



Vamos ser realistas

Os EUA vão ter, a partir de amanhã, um novo Presidente. Pela primeira vez na história da mais poderosa nação do mundo, um negro vai ocupar a cadeira principal. Depois da desastrosa política de Bush, Obama está a ser esperado como um Messias. Muitos acreditam que, a partir do seu juramento, o mundo vai mudar radicalmente. Nem se acredita que os graves problemas que ensombram a terra possam esperar uns dias.
Vamos ser realistas. Vamos acreditar que Obama possa ser um ponto de partida para uma nova ordem social. Não esqueçamos que ele tem de conhecer os cantos à Casa Branca e ao mundo. Não esqueçamos que haverá problemas complexos a estudar, passos difíceis a dar, muros a derrubar, inimigos a dominar e a conquistar, mensagens inovadoras a catequizar, gestos proféticos a mostrar.
Não queiramos que o novo presidente americano faça tudo num dia. E lembremo-nos de que os seus inimigos entrarão em cena no dia seguinte à tomada de posse do Presidente Obama.

FM

Alice Vieira, no “Público”



"Aconteceu uma coisa terrível na Educação"


Em entrevista ao jornal “Público”, a escritora Alice Vieira teceu algumas considerações, pertinentes, sobre a situação que se vive nas Escolas. Disse que "Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo tem de ser divertido, nada pode dar trabalho". E acrescentou: “As leis são iguais para todos, mas há escolas onde dá gosto ver o trabalho que os professores fazem e a ministra é a mesma! Não é na totalidade das escolas, mas, sobretudo no interior, encontro gente motivada.” Leia a entrevista em Público online, página 3, no caderno principal.

domingo, 18 de Janeiro de 2009

110 anos da restauração do Município de Ílhavo

Ribau Esteves, António Neves e Neves Vieira

A chuva ajudou a ver o farol com iluminação

Monumento com marcas da nossa história e cultura


As comemorações dos 110 anos da restauração do Município de Ílhavo encerraram hoje, domingo, pelas 15.30 horas, com a inauguração de um conjunto escultórico, na Rotunda Sul do Nó 3 da A25, junto à Friopesca, da autoria do artista ilhavense António Neves. Chuva miudinha, irritante, incomodou a cerimónia, mas nem assim deixaram de aparecer ílhavos e gafanhões nesta hora com algum simbolismo.
Farol com iluminação e lâmpada rotativa, à semelhança do que acontece com o Farol da Barra de Aveiro, capitão, pescador no dóri, bacalhau e velas, estas em representação da força da natureza, que é o vento, são os elementos concebidos pelo autor. Trata-se de um monumento com traços figurativos, estilizados, que assinala a entrada na área portuária, para quem vem da cidade-sede do concelho, como sublinhou o presidente da autarquia, Ribau Esteves.
A escolha desta rotunda, para implantação do monumento dos 110 anos da restauração do município, tem a ver com o ponto estratégico que une "as três cidades com as quais mais nos identificamos, Aveiro, Ílhavo e Gafanha da Nazaré", no dizer do presidente Ribau Esteves. E os motivos aproveitados pelo artista António Neves, mais conhecido como aguarelista, espelham bem "as marcas da nossa história e cultura, em que sobressaem o Farol, o bacalhau e o mar", referiu o autarca.
Ribau Esteves frisou que a Câmara de Ílhavo tem apostado em deixar a nossa arte, “com simbolismo, no domínio público”. Daí a escolha do artista ilhavense, António Neves, que representa, de alguma forma, “um dos melhores que o município tem”, neste momento.
O monumento importou em 75 mil euros, para além das obras circundantes, da responsabilidade da câmara.

FM

"250 anos de Aveiro, uma ideia para o futuro"

Do blogue dos Amigos da Avenida, de Aveiro, recebi o comunicado-convite que aqui publico, por conside-rar muito pertinente o desafio que é lançado à comunidade aveirense. Desejo, obviamente, os maiores êxitos, para este grupo de cidadãos da nossa capital do Distrito.

FM


Desafio à comunidade aveirense


As comemorações dos 250 anos podem ser uma excelente oportunidade para Aveiro celebrar o seu passado e a sua identidade, projectar-se no contexto regional e nacional e afirmar a cultura e criatividade como factores de desenvolvimento e de competitividade urbana.
Para isso é fundamental mobilizar a comunidade aveirense e os agentes culturais, sociais e económicos da cidade para que participem de uma forma mais activa nas comemorações.
Nesse sentido, um conjunto de cidadãos aveirenses, organizados à volta do blogue dos Amigos da Avenida (http://amigosdavenida.blogs.sapo.pt/), entendeu lançar um desafio à comunidade e procurar promover um conjunto de iniciativas a desenvolver no âmbito das presentes comemorações.
Pretende-se com esta iniciativa promover os jovens artistas e criativos de Aveiro (do sector da cultura, arte, design, tecnologias,...), dinamizar formas de expressão que privilegiem a animação dos espaços públicos da cidade e estimular a participação dos cidadãos em intervenções criativas nas suas unidades de vizinhaça (ruas, bairros,...).
Para dinamizar este programa "250 anos de Aveiro, uma ideia para o futuro", os promotores do blogue Amigos da Avenida vêm por este meio convidar todos os interessados a participarem numa reunião pública a realizar no próximo dia 22 Janeiro (quinta-feira) pelas 21h no Salão Nobre da Associação Comercial de Aveiro.
Solicitamos a confirmação da vossa presença para o email:
amigosdavenida@gmail.com.

Compareçam, vamos celebrar Aveiro!


José Carlos Mota

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS – 114

Lugre Rainha Santa Isabel


BACALHAU EM DATAS - 4


A TERRA NOVA DOS BACALHAUS


Caríssimo/a:

Século XVI (início) - «A presença de pescadores portugueses na Terra Nova remonta certamente a uma época muito remota; foram, no entanto, as viagens dos irmãos Corte Real, no início do século XVI que marcaram o reconhecimento efectivo da que viria a ser baptizada de "Terra Nova dos Bacalhaus". A partir desta época, uma frota de navios portugueses passou a efectuar campanhas de pesca anuais, largando dos portos do Minho, Douro, Mondego e da Barra de Aveiro, com destino aos férteis pesqueiros da Terra Nova. Segundo alguns autores, a frota quinhentista portuguesa chegou a contar cento e cinquenta navios, quase todos de Aveiro e Viana do Castelo. A partir do último quartel do séc. XVI, Portugal começou a experimentar, naquelas paragens [Terra Nova], uma situação desfavorável relativamente a outras potências.» [Creoula, 09 (Creoula – Notas e Fotos de Embarque no Navio de Treino de Mar, por António Santos Carvalho e Ana Lúcia Esteves, Ideias e Rumos, 2005)]

«Viagens de Gaspar Corte Real, ao estreito de Davis, ao qual numerosos autores atribuem a descoberta da Terra Nova.» [HPB, 19]

«Baseando-se em autores e informações tardias várias, Marques Gomes afirmava, em 1923, que os aveirenses teriam estado entre os primeiros a pescar o “fiel amigo”, na Terra Nova, conjuntamente com pescadores de Viana do Castelo e da Ilha Terceira, aí por volta de 1500 ou 1501.» [Oc45, 77]

«Gaspar Corte Real, considerado o descobridor oficial da Terra Nova, em 1501, ali aportou e tomou posse da terra em nome do seu rei. João Álvares Fagundes e João Fernandes Labrador também não desistiam das buscas da passagem para o outro mar naquela parte do continente americano, cuja obstinação havia de custar a vida a muitos deles. Das várias expedições levadas a cabo ao longo de toda a costa do continente norte-americano, muitas das quais terminaram em tragédia, uma realidade ressalta e se impõe, tal a ênfase com que era relatada por todos os marinheiros que nelas haviam tomado parte: a indescritível abundância de bacalhau naquelas águas. Ora foram essas informações, essas notícias entusiasticamente comentadas e espalhadas pelos pescadores da Europa Ocidental que deram origem à grande corrida para os pesqueiros recém-descobertos. E dito isto, não restam quaisquer dúvidas de que a pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova foi a primeira e grande consequência directa da Grande Epopeia dos Descobrimentos naquela parte do mundo.» [HDGTM, 25/26]
«Há a certeza de que em 1504 já pescadores portugueses iam à Terra Nova.» [FM, 7 (Faina Maior – A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova, por Francisco Marques e Ana Maria Lopes, Quetzal Editores, Lisboa, 1996, p. 7)]

Manuel

sábado, 17 de Janeiro de 2009

CASA ZÉ-ZÉ respeita a tradição

Caldeiradas de enguias de sabor único


Eu sei que gostos não se discutem, mas cá para mim, caldeiradas de enguias só no ZÉ-ZÉ, na Gafanha da Nazaré. Conheço-as desde a minha juventude, como já referi no meu blogue. E hoje, por estranha coincidência, no dia em que se recorda o falecimento do meu amigo ZÉ-ZÉ, de seu nome de baptismo Manuel José da Silva, que nos deixou em 17 de Janeiro de 1983, já lá vão, portanto, 26 anos, voltei a saborear uma esplêndida caldeirada de enguias. A regá-la, apenas um vinho da casa, muito bom. A fechar, um doce caseiro e um café.
Tive o prazer de ser servido pela sua neta Elsa, que conheço desde menina. Na cozinha, mostrou o seu bom gosto o neto Duarte, actual responsável pela casa. Os herdeiros do ZÉ-ZÉ continuam, assim, a respeitar a tradição de uma casa, cujo primeiro alvará data de 1936.
A enguia é rainha por estas bandas desde a primeira hora, tanto quanto sei. E o segredo da sua fama, como frisou a Elsa, está na família. Não há registo escrito da lavra do ZÉ-ZÉ, mas a sua neta garantiu-me que está bem guardado e gravado nos genes familiares. Daí, portanto, a fidelidade dos sabores a que nos habituou o fundador da casa.
Questionada sobre a relação entre a caldeirada à ZÉ-ZÉ e as outras, logo adiantou que não pode compará-las porque não as conhece. O que sabe é que a caldeirada criada pelo seu avô é conhecida em todo o lado. Há clientes que, periodicamente, aqui vêm de propósito para se deliciarem com um prato diferente.
A sala apresenta-se decorada com motivos marítimos, ao jeito da região. E não faltam registos de quem veio, comeu e gostou.
Por exemplo, em destaque, há um prato com dedicatória oferecido por um grupo de funcionários de um Banco, de Coimbra, com data de 4 de Abril de 1976, comemorativo de visitas gastronómicas entre 1967 e 1976, na quinta-feira santa. Reza assim:

Para sair
O totobola
Jogamos todos
Com fé
Mas só nos sai
Caldeirada
Preparada no Zé-Zé

A CASA DA LEITURA: Um espaço a ter em conta



O meu blogue lembra hoje, com certo destaque, um espaço já aqui referenciado à margem: CASA DA CULTURA. Chamo a atenção dos meus leitores para o que se diz na apresentação do “site”:

“A Casa da Leitura nos seus distintos níveis de leitura, oferece não apenas a recensão de mais de 1400 títulos de literatura para a infância e juventude, organizados segundo faixas etárias e temas, com actualização periódica semanal, como desenvolve temas, biografias e bibliografias. Tudo dirigido preferencialmente a pais, educadores, professores, bibliotecários, enfim, a mediadores de leitores. Em simultâneo, responde às dúvidas mais comuns sugerindo um conjunto de práticas destinadas às famílias e aos mediadores.”

Agora, há que seguir as propostas da CASA DA CULTURA, no sentido de sugerir a crianças e jovens o que vale a pena ler.

A MAIOR RIQUEZA: SEMELHANTES


Há algo essencial que aqueles que quereriam imortalizar-se, mediante a clonagem, esquecem: mesmo os clones, quando dissessem "eu", di-lo-iam de modo único e intransferível. Não é isso, aliás, o que acontece com o gémeos verdadeiros? De facto, cada um de nós é sempre o resultado de uma herança genética e de uma história única, história com cultura.
Nenhum de nós é sem o outro, sem outros. Sem tu, não há eu. Fazemo-nos uns aos outros em interacção. Só com outros seres humanos nos tornamos humanos. A nossa identidade é constitutivamente atravessada e mediada pela alteridade, concretizada em outros.
Ora, não havendo outros sem a interpenetração de biologia e cultura, é inevitável o diálogo intercultural. O encontro com o outro acontece sempre no quadro da cultura, porque não há outro "puro", sem cultura. Assim, na presente situação do mundo, em contexto de multiculturalismo, não basta a mera junção de culturas, vivendo umas ao lado das outras e respeitando-se mutuamente. É preciso passar do multiculturalismo da justaposição ao pluralismo cultural interactivo, deixando-se desafiar por uma identidade interrogativamente aberta.
Neste quadro, há hoje a tendência para valorizar sobretudo a diferença: é a diferença que nos enriquece, diz-se. Quem pode pôr essa afirmação em dúvida, quando se percebeu que a identidade é atravessada pela alteridade? No entanto, se podemos entender-nos, é porque somos fundamentalmente iguais.
Como recordava recentemente, em Santa Maria da Feira, num debate sobre o diálogo intercultural, o filósofo Fernando Savater, a semelhança entre os seres humanos é que cria a riqueza e funda a humanidade. Reconhecemo-nos, porque somos semelhantes. Só porque o fundamental é a nossa semelhança é que há igualdade de direitos e só porque não há diferença de direitos fundamentais é que há o direito à diferença. Afinal, "não há ninguém tão convencido da diferença como um racista".
Claro que, no encontro com o outro, nunca se pode esquecer que o outro é um outro eu e ao mesmo tempo um eu outro, de tal modo que nunca nenhum de nós saberá o que é e como é ser outro enquanto outro, eu outro. Mas o que mais nos interessa é a semelhança, pois, nas diferenças, somos todos humanos, reconhecendo-nos.
Se me perguntam pelo fundamento último da dignidade humana, digo que é a nossa comum capacidade de perguntar. O que nos reúne é uma pergunta inconstruível, sem limites, que tem na raiz o infinito e nele desemboca, sendo as culturas tentativas de formulá-la e perspectivar respostas.
Aqui, assenta a convivência fraterna e digna da Humanidade, reconhecendo todos como humanos. Mas, como também lembrou Savater, inimigos maiores desta convivência são a pobreza e a ignorância. Rejeitamos os pobres, porque metem medo: nada nos dão e obrigam-nos a dar. A ignorância é outra fonte de susto: quando se não reconhece a semelhança, teme-se o diferente.
Aí está, pois, a urgência da solidariedade, assente no reconhecimento da semelhança.
Nesta solidariedade, justiça e caridade têm de abraçar-se. Sobre este abraço, Bertolt Brecht, o famoso escritor marxista, que lia a Bíblia, escreveu estes versos inultrapassáveis: "Contaram-me que em Nova Iorque,/na esquina da rua vinte e seis com a Broadway,/nos meses de Inverno, há um homem todas as noites/que, suplicando aos transeuntes,/procura um refúgio para os desamparados que ali se reúnem.//Não é assim que se muda o mundo,/as relações entre os seres humanos não se tornam melhores./Não é este o modo de encurtar a era da exploração./No entanto, alguns seres humanos têm cama por uma noite./Durante toda uma noite estão resguardados do vento/e a neve que lhes estava destinada cai na rua.//Não abandones o livro que to diz, Homem./Alguns seres humanos têm cama por uma noite, / durante toda uma noite estão resguardados do vento / e a neve que lhes estava destinada cai na rua. / Mas não é assim que se muda o mundo, / as relações entre os seres humanos não se tornam melhores. /Não é este o modo de encurtar a era da exploração."

Anselmo Borges,
In DN

Eis-me de regresso

Ontem foi dia de folga no meu blogue. Descansar também é preciso. Não cultivando o ócio, mas olhando para outros assuntos. Deu tempo para ler, para um encontro sobre a história de uma instituição, para uma caminhada longa na Av. José Estêvão, para responder a e-mails de amigos, para ouvir música. Eis-me de regresso ao contacto com os meus leitores., nesta ânsia de estar no mundo da comunicação. Vida sem comunicação não faz sentido. Bom fim-de-semana para todos.
FM

quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

A propósito do prémio atribuído a Cristiano Ronaldo

"Há nestes prémios um frágil desequilíbrio (não é equívoco!) entre quem será melhor no seu desempenho. Será quem abre ou quem fecha, quem faz chegar a bola lá à frente ou quem evita que o adversário dê uma “abada”!? Imagine-se aquele futebolista que treina, carrega com o “piano”, ganha menos, faz brilhar os outros e ninguém olha para ele? São esses que fazem o passe, evitam que os outros sejam melhores. Depois, a máquina da propagando faz o resto."

Manuel Oliveira de Sousa

Música na Escola



Filarmonia das Beiras oferece
música a alunos do 1.º Ciclo

Nos dias 12, 13 e 15 de Fevereiro, a Filarmonia das Beiras vai oferecer às crianças do 1.º Ciclo do Município de Ílhavo o projecto Música na Escola, dando-lhes a oportunidade de vivenciarem e sentirem a experiência de assistir a um concerto de música clássica. Haverá marcação prévia das escolas e os concertos, dirigidos pelo maestro António Vassalo Lourenço, decorrem no Centro Cultural de Ílhavo.

VINDE VER


Mas onde mora Jesus?
:
É este o convite-apelo que Jesus dirige a André e a João que, cheios de inquietação e timidez, lhe haviam feito uma pergunta curiosa: “Mestre, onde moras”? A curiosidade estava alicerçada na confiança da palavra do seu mestre João Baptista e, sobretudo, na força encantadora do olhar de Jesus. A resposta não podia ser mais atraente e sedutora. Foram, viram e ficaram. Passaram a andar, a seguir e a conviver.
Deste modo, se vão fazendo discípulos e apóstolos.
Além de histórico, este episódio tem um alcance simbólico. Nele se condensa a vocação de cada pessoa. Deus chama-te. Pelo teu nome. Em momentos fugazes. Servindo-se de meios normais. Oferece-te a sua companhia. Quer comunicar-te o seu jeito de ser humano. Quer fazer contigo uma experiência feliz e confiar-te uma missão.
A nossa vida está marcada por imensas chamadas. Todas ficam registadas como no telemóvel, mesmo as não atendidas, embora nem sempre identificadas. A nossa consciência nas suas zonas mais profundas vai fazendo o seu arquivo vivo que, de vez em quando, emite sons que dão origem a aspirações adiadas que aguardam a hora da realização.
Também nós chamamos outros e, se somos correspondidos, quantas conversas e alegrias ocorrem, quanta satisfação alimenta a nossa auto-estima, quantas iniciativas de bem se promovem.
Mas onde mora Jesus? – continua a perguntar a nossa vontade de obter respostas objectivas. E com razão, embora a vida humana ultrapasse imenso o objectivado, o materializado e o quantificado.
Jesus encontra-se na consciência humana que tem valor em si mesma e se dignifica procurando a verdade, na igualdade fundamental a todos reconhecida por natureza e pelas culturas ou pelo direito, na libertação dos egoísmos que permitem ao ser humano desabrochar as suas capacidades de solidariedade generosa, na humanização da vida, na ecologia social, na erradicação da pobreza imposta, no sentido nobre da vida, na comunhão universal, na harmonia cósmica.
Viver com Jesus é aprender a ser humano com horizontes rasgados de proximidade e de Infinito.
Georgino Rocha

Museu de Ílhavo na Rede Portuguesa de Museus

Museu Marítimo assume novas parcerias
O Museu Marítimo de Ílhavo concluiu, em Dezembro último, o processo de candidatura à Rede Portuguesa de Museus. A sua integração naquela Rede reforçará a cooperação com outros museus portugueses, nomeadamente através da partilha de projectos expositivos. O importante agora é sensibilizar as nossas gentes a visitá-lo com frequência, em especial quando houver, e há com frequência, novas exposições, com novos motivos de interesse.

LUTA DE AUTOCARROS OU HORA DA ACORDAR?


A militância ateia não termina, nem desarma. A nova modalidade, a do autocarro que prega e provoca, começa em Londres, já duplica em Barcelona e já é acontecimento em Madrid. A coisa, na sua expressão visível, reduz-se a pouco. Autocarros do serviço público rodam pelas ruas da cidade com grandes letreiros publicitários, que dizem assim: “Provavelmente Deus não existe. Deixa de te preocupar e goza a vida”.
Como era de esperar, surgiu logo, na capital espanhola, a resposta ao desafio. Outra faixa publicitária responde à provocação ateia, dizendo: “Deus existe. Goza a vida em Cristo”. E, assim, se entra numa guerra em que, certamente, Deus não está interessado.
A lógica é bem visível e traduz-se em poucas palavras. Se ateus e agnósticos assim professam e publicitam as suas convicções, porque não hão-de também os crentes mostrar a sua fé e serem dela militantes? Mundo laico, democrata e plural, na vida das pessoas dá direitos iguais, a menos que os crentes parem para ler o “sinal dos tempos”.Para os meios de comunicação social tudo isto é notícia que ajuda a vender e a aumentar audiências. Já estão dando sinais e, por um tempo, as coisas vão continuar. Até que o autocarro pare. A publicidade deixa de interessar, quando já não diz nada e não vende. Publicitários e consumidores apercebem-se desse momento. Há que saber esperar.
Sabemos que onde há militância, há também criatividade. Passados meses, vai surgir nova provocação, que o tempo se encarregará de que se lhe pague igual tributo. Por isso mesmo, o mais importante não é rasgar vestes por razão do escândalo, nem fomentar campanhas portadoras de repulsa, nem disputar formas de melhor imaginação.
De há muito se vem dizendo que os cristãos têm de aprender a viver, a estar de pé, a testemunhar convicções, num mundo que não é uniforme nem no pensar, nem no agir.
O Vaticano II diz que “recusar Deus ou a religião ou não se preocupar com isso, não é, ao contrário de outros tempos, um facto excepcional ou individual… Em muitas regiões o ateísmo e o agnosticismo não se exprimem só ao nível filosófico, mas, também, em larga escala afectam a literatura, a arte, a concepção das ciências humanas e da história e as próprias leis civis”. Aparecem assim como “uma exigência do progresso científico e de um qualquer novo humanismo”. Quarenta anos depois é ainda assim, não obstante o abrir do coração de muitos que, então e depois, se diziam ateus e que hoje já não são.
A Igreja e os cristãos, mais do que entrar em batalhas inúteis, usando armas e meios iguais quando vêem desrespeitadas as suas convicções por gente que pensa de outro modo e faz da sua “crença” uma militância pública, têm de perceber este fenómeno nas suas diversas expressões, ir ao fundo das razões que o provocam, saber discernir, serenamente, a mensagem que lhes chega, por parte do Deus em que acreditam.
Deus não é uma prova da razão, é razão da fé. E a fé é um dom que dá razões para viver com liberdade e dignidade, dá sentido ao agir diário, provoca relações marcadas pelo amor e pelo respeito, fomenta um humanismo real em que o homem e mulher são pessoas integrais e nunca mutiladas.
A fé leva o crente a aceitar o desafio de mostrar pela sua vida que Deus está vivo e que o contágio da fé se dá pelas boas obras, não por argumentos racionais, influências humanas ou gritos de vitória. A fé mostra que acreditar não é um absurdo, mas caminho de felicidade e de realização humana.
A campanha contra Deus vem mostrar a necessidade de saber dizer Deus com a vida e sublinhar a necessidade da formação. A fé não é simples tradição. Os pais e os outros crentes são mediadores da transmissão da fé, não seu fundamento ou razão profunda. O que vem de Deus, conhecendo-se melhor a fonte de onde provém, tem força de convicção e de comunicação. Ao crente não apavoram as investidas do ateu. Há que enriquecer a razão de crer para viver liberto num mundo velho, que se nega à eterna novidade de Deus. Aos novos fautores da “morte de Deus”, a história não ensina nada?
António Marcelino

AULA DE SUBSTITUIÇÃO


Alguém falta!
Uma substituição.
Lá vai a malta,
Alunos, animação!

dar e receber
em tudo há aprender...

Sem imposição
Uma partilha...
Boa disposição
Sem inibição
Trabalho? Não!
Improvisação!
Temas tratados
Uns...... complicados
Induzem debate!
Ça! Com quem os trate
Amistosamente
Ou/e sabiamente!

M.ª Donzília Almeida

Aula de substituição, 8ºC
6 de Janeiro de 2009

quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Deputados querem reduzir sal no pão

"Deputados socialistas apresentaram na Assembleia da República [diz o Público] um projecto de lei que pretende reduzir o sal utilizado no pão e que as quantidades deste tempero usadas na confecção de alimentos pré-embalados estejam claramente visíveis nos rótulos. A proposta socialista pretende que "o teor máximo permitido para o conteúdo de sal no pão, após confeccionado", seja de 1,4 gramas por 100 gramas de pão (ou seja, 14 gramas de sal por quilo de pão)."
Não sei até que ponto é legítimo estabelecer regras rígidas como estas para serem aplicadas naquilo que comemos no dia-a-dia. Por este andar, qualquer dia não podemos fazer pão em nossas casas nem comer as couves do nosso quintal. Não seria melhor educar para uma alimentação sadia, sem proibições rígidas? Eu penso que sim... Mas se calhar os deputados é que sabem.

Cardeal-Patriarca não "discriminou" muçulmanos



Diálogo inter-religioso não será afectado
Ontem, na Figueira da Foz, falando na tertúlia «125 minutos com Fátima Campos Ferreira», D. José Policarpo deixou um conselho às jovens portuguesas quanto a eventuais relações amorosas com muçulmanos, afirmando: “Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam” – realça a LUSA. Ler mais aqui

Foral de Ílhavo em edição fac-similada

Ribau Esteves, Saul Gomes e Alfredo Marques

JUSTA HOMENAGEM A TODA A NOSSA GENTE


“D. Manuel per graça de Deus rey de Purtugal e dos Alguarves d’aquem e d’alem mar em Africa e Senhor de Guine e da conquista, neveguaçam, comerçio d’Etiopia Arábia Pérsia e da Imdea.” Assim inicia, D. Manuel I, o Venturoso, o Foral de Ílhavo, em 8 Março de 1514. Mas só em 2 de Setembro de 1516, perante as autoridades ilhavenses, juiz e vereadores, se procedeu à sua aplicação, como reza o auto de entrega do documento, cujo original se encontra religiosamente guardado nos cofres camarários.
Ontem, no Museu Marítimo, em cerimónia integrada nas comemorações dos 110 anos da restauração do Município de Ílhavo, o presidente da autarquia, Ribau Esteves, afirmou que o lançamento da edição fac-similada do Foral de Ílhavo simboliza uma justa homenagem “a toda a nossa gente”, sublinhando que urge investigar mais o nosso passado para melhor “prepararmos as gerações vindouras”.
Disse que importa valorizar permanentemente o nosso património e promover a cultura a todos os níveis, nomeadamente, em torno de tudo o que estiver ligado às nossas tradições, como o mar e o bacalhau.
Na sua intervenção, o presidente ilhavense salientou as apostas feitas no âmbito cultural, frisando os dinamismos comunitários, mas também os de cidadãos sem quaisquer ligações associativas. Referiu que o pilar estratégico da cultura, em que a autarquia tem investido, é fundamental para o desenvolvimento sustentado.
Lembrou que o individualismo que nos caracteriza tem sido a causa do nosso atraso, face aos países europeus, adiantando que o desafio que se nos impõe exige a cooperação à escala intermunicipal e com o sector universitário, essencial para implementar candidaturas a ajudas com sabor a êxito. Ainda sublinhou que é tempo de se cultivar a solidariedade em favor de municípios menos desenvolvidos da nossa região.
Mas se é verdade que o Foral se apresenta como marco essencial da vida do nosso município, já que representa uma certa autonomia em relação aos Senhores de então, também é verdade que Ílhavo é uma povoação já referenciada no século XI, como atestam alguns documentos citados por Saul Gomes, docente universitário e responsável pela introdução histórica e revisão científica desta obra digna de qualquer estante. E acrescentou que Ílhavo se reafirma no contexto da reconquista cristã e da rota dos cruzados a caminho da Terra Santa, de passagem por terras do Vouga.
Recordou que Ílhavo foi desde tempos imemoriais uma terra de agricultores e de pescadores, tendo-se destacado pela força comunitária das suas gentes, mais do que pela extensão do seu território.
Por sua vez, Alfredo Marques, presidente da CCDR (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro), garantiu que Ílhavo desempenha na região um papel preponderante que vai para além do seu desenvolvimento territorial, económico e demográfico, graças ao dinamismo do presidente Ribau Esteves, bem patente nas suas intervenções junto das instâncias regionais.
As comemorações dos 110 anos da restauração do Município de Ílhavo encerram no próximo domingo, 18 de Janeiro, pelas 15.30 horas, com a inauguração de uma estátua, na Rotunda Sul do Nó 3 da A25, junto à Friopesca, da autoria do artista ilhavense António Neves. Depois, pelas 17.30 horas, no Centro Cultural de Ílhavo, vai ter lugar um espectáculo evocativo: "Carlos Paião – Uma vida de canções"

Fernando Martins

Crónica de um Professor...



Todo o indivíduo precisa de uma oportunidade
para revelar as suas potencialidades


Sorvia os últimos goles do café da manhã, quando foi interpelada pela D.ª... Depois de um bloco de 90 minutos, há que repor energias!
O ar pesaroso da funcionária indiciava, de imediato, ao que vinha! Precisava duma substituta, para suprir a falta de um colega! - Mais uma aula de substituição, pensou a teacher!
Substituída, substituta, substituinte... Na vida todos os papéis são dados ao professor! Não sabe qual lhe deu mais gozo, já que ambos lhe trouxeram novas perspectivas de vida. Ali, na Escola, até granjeara alguma boa reputação como substituta, sobretudo nas turmas do 3º ciclo, em que os alunos gostavam que a teacher abordasse o tema da Educação Sexual! Detentora da “cátedra” durante alguns anos e na sequência da vontade do Ministério da Educação, criara com os adolescentes uma relação de empatia. Baseada na teoria de que a educação para a vida passa por uma boa e sólida Educação dos Afectos, a teacher recordava, de forma gratificante, os bons momentos que passara com os alunos mais crescidinhos da sua Escola.
Desta vez, dirigiu-se para uma turma, composta em grande parte, por ex-alunos seus, alguns dos quais, um tanto problemáticos. Recorda que as suas cordas vocais sofreram um pouco, com a necessidade imposta de elevar os decibéis do seu discurso pedagógico. Mas... não se intimidou, quando foi recebida com assobios e apupos! Há sempre alguma na manga, para estas ocasiões difíceis!
Depois de alguma troca de palavras sobre a actividade a desenvolver, e porque o professor goza de autonomia, na decisão a tomar, lá foi com os alunos para o campo de jogos. Nunca tinha pegado numa bola, a não ser para lhe limpar o pó!!! Se “Em Roma, sê romano" a teacher encetou o treino para jogar futebol com os seus ex-alunos! Era vê-los pressurosos a dar dicas e instruções à teacher, sobre como deveria driblar a bola, como deveria situar-se no meio campo, como deveria correr atrás do esférico! A teacher exultava de alegria a saborear os seus pequenos sucessos! Quando, por grande golpe da sorte (!?), tocava na bola, pensava já que iria destronar o Cristiano Ronaldo e extorquir-lhe os louros! A alegria dos alunos, ao verem a aselhice, mas simultaneamente a vontade de superar as dificuldades da teacher, era transbordante! E... acima de tudo, ali, eram eles os mestres e a teacher a aprendiz, a aluna, a aprendente! A certa altura da jogada, por um golpe de azar, uma bola perdida foi embater, em cheio, no baixo ventre da teacher! Esta apenas se surpreendeu e confirmou: - Foi mesmo em cheio! Nada lhe aconteceu, pois essa parte do seu corpo já estava habituada a distender-se e a contrair-se, pelo menos, já acontecera duas vezes! Pensou, com humor, e evocou a frase de alguém, num outro contexto, com outros protagonistas: - Se fosse mais acima... fazia estrago!
Ficou sensibilizada a teacher, ao verificar como aqueles alunos, que num passado recente a tinham marcado pela negativa, ali estavam tão preocupados com o seu bem-estar! Queriam até que ela se deitasse no chão, paras se recompor... Fantástico! Como pode a natureza humana ser tão surpreendente, desde que tratada com respeito e dando-se-lhe a oportunidade de mostar o que valem. Todo o indivíduo, seja ele bom ou menos bom, precisa de protagonismo, de afirmação pessoal, e de ter a oportunidade de revelar as suas potencialidades. Todo o ser humano é bom em alguma coisa, apenas é necessário que lhe dêem protagonismo!
A partir daí, sempre que se cruzavam com a teacher nos corredores da Escola, inquiriam se ela estava bem!
E... dos pequenos diabretes... emergiram, ali, uns anjinhos, aos olhos daquela professora!

Mª Donzília Almeida
30.12.08

SEMANA DA UNIDADE DOS CRISTÃOS


SERÃO UM SÓ, NA TUA MÃO

Como é habitual, decorrerá, de 18 a 25 deste mês, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que este ano terá como tema central a frase bíblica do profeta Ezequiel: “Serão um só, na tua mão” (37, 17).
No contexto do ano Paulino, este será também um momento muito especial para nos reunirmos em oração, todos os cristãos que habitam na área da Diocese, para em conjunto fazermos caminho, tendo como meta a unidade que Cristo nos pede. Assim, todos somos convocados para a celebração que decorrerá na terça-feira, dia 20, às 21h30, na Sé de Aveiro, contando com a presença das diversas comunidades cristãs, como a Igreja Evangélica Metodista e a Igreja Ortodoxa.

terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Há ou não um cavalo na história de Paulo?


Não se sabe. Pelo menos nenhum texto dos Actos ou das Cartas o refere. Mas se nos fizessem a pergunta, e sem pensar muito, quase todos diríamos que sim. Simplesmente porque a tradição iconográfica representou o Apóstolo dessa maneira, e numa intensidade tão impressiva, que estávamos prontos a jurar ter lido em qualquer passo acerca dele. Há, de facto, um inesquecível cavalo, mas nas imagens de Dürer, Miguel Ângelo, Tintoretto, Rubens, Parmigianino… - uma lista interminável! Frequentemente referido é o da pintura de Caravaggio, intitulada "Conversão de São Paulo": Paulo surge caído por terra, com os braços abertos e levantados, como quem acolhe o invisível; os olhos completamente cerrados, ligados agora a um outro entendimento. E, no centro, um cavalo imenso, a deslocar-se suavemente para fora de cena, como se não fosse já necessário, ou adivinhasse que começava, precisamente aqui, outro tipo de viagens para o seu cavaleiro derrubado.
Se o texto bíblico não alude à presença de um cavalo, como se chegou a essa representação? Há um motivo que joga com aquilo que o relato não diz, mas que é previsível (de facto, o cavalo seria um meio de transporte utilizado). E há uma importante razão simbólica. O texto de Actos 9 conta que Paulo "respirava ameaças e mortes contra os discípulos do Jesus" e foi pedir ao Sumo Sacerdote "cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, se encontrasse homens e mulheres que fossem desta Via, os trouxesse algemados para Jerusalém". O seu retrato é, portanto, o de um homem investido de força, acorrentado a uma convicção implacável. Ora o que a narrativa vai, em seguida, mostrar é a prostração e a fragilidade de uma personalidade assim perante a revelação de Jesus ("Saulo, Saulo, porque me persegues?").
Os textos bíblicos não dizem que Paulo tombou de um cavalo, apenas que "caiu por terra". Mas interpretando a reviravolta que este encontro provocou, artistas e comentadores espirituais não hesitaram em enfatizar esta queda. A globalidade da história de Paulo mostra que estão certos.

José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Gafanha da Encarnação: Cortejo dos Reis



(Clicar nas fotos para ampliar)
Grande adesão de gente laboriosa

Ontem, 11 de Janeiro, realizou-se o tradicional, esperado e sempre aplaudido, Cortejo dos Reis. Efeméride de relevo, do calendário religioso, vai ganhando forma e colorido, à medida que a gente nova e cheia de vigor integra e dinamiza esta actividade.
Este ano, foi de destacar o esforço, trabalho e dedicação, com que as inúmeras tarefas, relativas ao evento, foram levadas a cabo.
Em vários pontos da vila, palcos improvisados, artística e minuciosamente decorados, serviram de cenário aos vários actos do auto que aí era levado à cena.
É de louvar o empenho e a adesão da imensa gente que colaborou na concretização deste acontecimento.
Os actores, amadores na sua totalidade, incluindo várias faixas etárias, em que contracenaram crianças, jovens e adultos, contribuíram com o seu melhor para darem corpo e brilhantismo à representação. Esteve à altura o guarda-roupa, criteriosamente escolhido e confeccionado por mãos de mestra, bem adequado às características das diferentes personagens. Houve colorido, colaboração e saudável confraternização, numa actividade que tem o mérito de envolver e congregar a população desta pacata vilinha.
Até o novo pároco da Gafanha da Encarnação, o jovem Pe Paulo, integrou o cortejo, com a sua jovialidade e alegria próprias, fazendo jus ao seu papel de pastor de almas.
À tarde, foi feito o leilão das oferendas recolhidas no cortejo, verificando-se mais uma vez uma grande adesão das gentes desta terra laboriosa.

M.ª Donzília Almeida

domingo, 11 de Janeiro de 2009

SINAL +

Cortejo dos Reis de 2009
1 – Saí um dia destes de máquina digital em punho à cata dos sinais do frio. Não os vi. Mas confesso que me apetecia tirar uma fotografia à neve, aqui à beira do oceano, onde ela não tem condições para se impor. Que me lembre, só uma vez nevou na Gafanha da Nazaré, por estranho fenómeno atmosférico. Na escola onde leccionava, professores e alunos deixaram o aconchego da sala para se deliciarem com a neve. Como surgiu sem ninguém contar, não preparei a máquina para registar o acontecimento, com pena minha. Agora, que a neve caiu quase em todo o país, sempre esperei que tivéssemos também essa sorte de a ver e de a pisar. Mas pode ser que um dia isso possa acontecer, de novo, ao vivo, na planura gafanhoa.
Porquê o SINAL + para a neve? Simplesmente porque ela foi motivo para grandes reportagens das nossas televisões, que nos ofereceram imagens dignas dos melhores postais ilustrados, onde o branco puro se salientava. E se é verdade que o frio é triste, apenas bonito quando o desfrutamos à lareira, a verdade é que a neve dos últimos dias trouxe uma certa alegria. Apesar das contrariedades que provocou e de algum mal que tenha feito, vi o ar feliz das pessoas quando se pronunciavam sobre a neve ou com ela brincavam. Habitual nuns sítios, original noutros, espectacular em todos.

2 – Hoje vivi o Cortejo dos Reis experimentando a proximidade com as pessoas, muitas delas envolvidas na vivência desta antiga e sempre renovada tradição. Para quem gosta da sua terra, o encontro com alguns conterrâneos proporcionou-me a oportunidade de voltar aos tempos em que eu, menino, com meu irmão, mais novo três anos, participámos no Cortejo dos Reis, de uma ponta à outra, cada um com a sua cana às costas. Na ponta da cana lá ia a prenda para o Menino Jesus. Não consigo recordar toda a pequena carga, mas dela fazia parte um chouriço, um pequeno bacalhau e umas laranjas. Tudo o mais se varreu. Mas também é verdade que os nossos frágeis ombros não suportariam muito mais. O meu pai levou-nos até Remelha de bicicleta, como era hábito na altura, entregando-nos ao cuidado de pessoa sua conhecida. Ainda me lembro de ouvir a minha mãe dizer que estaríamos assim a pagar uma sua promessa, coisa que na altura não compreendi. Mas se ela dizia que tínhamos de ir no Cortejo, não haveria razões para discordar.
Afinal, as tradições são sempre excelentes motivos para reconstruirmos as nossas histórias de vida.

FM

Gafanha da Nazaré: Cortejo dos Reis

Para todos os meus leitores e amigos, em especial para os que gostam das nossas tradições.

Gafanha da Nazaré: Cortejo dos Reis




(Clicar nas fotos para ampliar)

O mais importante é a alegria


No final do Cortejo dos Reis, depois de todos os participantes terem beijado o Menino, o Prior da Freguesia, Padre Francisco Melo, antes da bênção, louvou o envolvimento do povo nesta manifestação de fé, que é também uma antiga tradição das gentes das Gafanhas. E sublinhou que este Cortejo dos Reis faz parte da nossa identidade, que é preciso preservar.
Depois, frisou o facto de muitos intervenientes mudarem de papéis, nos autos de Natal apresentados, durante o Cortejo, “como quem muda de camisa”, por tudo isto lhes estar, decerto, no sangue e na alma. A tradição oral, que se mantém entre nós há mais de um século, está enraizada na memória da nossa gente.
Quem como eu presenciou de perto o desenrolar do Cortejo dos Reis, mais na parte final, pôde confirmar o interesse e o carinho com que o nosso povo viveu esta festa. Representando, cantando, animando e valorizando, com os mais diversos contributos, uma festa popular com marcas indeléveis dos nossos antepassados.
Como disse o nosso Prior, o mais importante não será o dinheiro que se recolhe das “ofertas para o Menino Jesus”, como diz o povo, porque o que conta é esta alegria, este interesse e este respeito pelas nossas tradições, que fazem parte da nossa cultura e da nossa identidade.

FM

Tecendo a vida umas coisitas – 113

BACALHAU EM DATAS - 3





ATÉ FINAIS DO SÉCULO XV


Caríssima/o:


1371 - «Já em 1371 el-rei D. Fernando dispunha uma lei que dizia: “As naus que forem das vilas de Aveiro e de Viana e de qualquer parte de meus Reinos e Senhorios à pescaria de bacalhau, irão armadas e elegerão entre si, ao tempo que partirem, capitão-mor.”» [M-FM II, 43 (Murtosa- FotoMemória II, por Alexandra Farela Ramos, 2005)]
1415 - «Uma prova da importância do seu valor [do sal], nessa época de transição [da Idade Média] para a Idade Moderna, é-nos dada pela utilização do sal no pagamento dos fretes das tropas para a tomada de Ceuta.
Foi a única mercadoria, das que Portugal importava [exportava?] durante a Idade Média, que não se ressentiu com as alterações introduzidas pela chegada de novas mercadorias ultramarinas, aumentando mesmo a sua importância.» [Oc45, 67]
1470 - «O pai de Gaspar, João Corte Real, tomou parte numa expedição nos mares do norte, mandada efectuar por Cristiano I, Rei da Dinamarca, a pedido do Rei de Portugal, D. Afonso V.
Esta expedição comandada por Pinning e Pothorat realizou-se por volta de 1470 e atingiu a Gronelândia e a “Terra do Bacalhau”, tal é a opinião de Sofus Larsen expressa na sua importante obra Dinamarca e Portugal no Século XVI. Se a terra foi chamada “do Bacalhau” sem dúvida que a pesca já aí seria praticada antes.» [HPB, 20]
1472 - «É no contexto das navegações para ocidente que vamos encontrar dois navegadores portugueses – João Corte Real e Álvaro Martins Homem – integrados numa expedição luso-dinamarquesa, saída de Reykjavick, em 1472.
Naquela exploração, verificaram a existência de cardumes que, de tão compactos, faziam lembrar o fundo, ilusão desmentida pelas sondagens feitas com os prumos de mão. [...] Quando chegaram a Portugal, os dois navegadores comunicaram ao seu rei tudo quanto tinham visto, falaram-lhe da nova terra descoberta e o nome com que a tinham baptizado – Terra dos Bacalhaus - , devido à incrível abundância deste peixe que tanto os impressionara.» [HDGTM, 24]
1477 - «[...] Colombo terá falado português antes de ter aprendido o castelhano, pois era casado com uma portuguesa, e conhecia a fundo os avanços cartográficos portugueses e as suas viagen em navios portugueses – que incluíram, segundo pesquisas recentes efectuadas pelo explorador norueguês Thor Heyerdahl, a participação numa expedição luso-dinamarquesa em 1477 que partiu da Gronelândia através do estreito de Davis e se dirigiu ao Norte do continente americano – lhe forneceram um conhecimento prático sobre correntes e ventos que lhe assegurou que, se viajasse para Ocidente da Europa, os ventos do Atlântico Norte favoreceriam o seu regresso.» [in Um Mundo em Movimento- Os Portugueses na África, Ásia e América (1415-1808), de A. J. R. Russell-Wood, DIFEL- Difusão Editorial, S.A., Lisboa, 1998, pp. 7-8.]
Século XV (finais) - «Desde finais do século XV, os portugueses navegavam nas águas da Terra Nova. A pesca do bacalhau terá começado a interessar os pescadores portugueses na viragem do século XV para o século XVI, como mostrou Mário Moutinho.» [Oc45, 67 e 77]

Manuel

sábado, 10 de Janeiro de 2009

Janeiras na Gafanha da Nazaré

O Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré cantando as Janeiras, na noite de hoje. Aqui fica uma singela prenda para os gafanhões espalhados pelo mundo, em vésperas do Cortejo dos Reis, de tantas tradições entre nós.

Janeiras na Gafanha da Nazaré


Grupo Etnográfico canta Janeiras


Cumprindo a tradição, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré veio esta noite cantar as Janeiras a minha casa. Sabe quanto aprecio o respeito pelas tradições, e, por isso mesmo, brinda-me todos os anos com cânticos que vêm dos nossos pais ou avós. Ainda bem. E o mais curioso é que, no grupo, há jovens que asseguram a continuidade das tradições entre nós.

O Foral Manuelino de Ílhavo


A Carta de Foral, ou Foral, é um documento concedido unilateralmente pelo Rei ou por um senhorio durante a Idade Média.
Era atribuído para concessão de aforamento ou foro jurídico próprio, a título perpétuo e hereditário, aos habitantes de uma povoação que se queria libertar do poder senhorial, não tendo os cidadãos qualquer intervenção na elaboração e aprovação do mesmo.

Os Forais Antigos concedidos pelos primeiros monarcas, após a Reconquista Cristã, constituíam uma medida para promover o povoamento e defender os territórios conquistados aos muçulmanos.
Eram diplomas que consagravam direitos, privilégios e obrigações, específicos aos habitantes de uma dada comunidade, sob o ponto de vista económico, social e político que, com o passar do tempo, acabou por originar fragmentação, ou seja, cada município regia-se pelas suas leis particulares, desajustadas já da sua época, sobrepondo-se o foro e privilégio dos senhorios ao direito público, o que gerava muitas injustiças e constituía uma fonte de conflitos, principalmente a partir do séc. XV.
A este suceder de contrariedades, adveio a reforma manuelina dos forais contra os abusos praticados pelos alcaides e governadores dos castelos, no que respeita à aplicação da justiça, cobrança indevida de impostos, opressões às populações e falsificação ou interpretação errada dos forais medievais, mormente nas questões relacionadas com a cobrança de direitos reais, em que a coroa acabava por sair prejudicada.
Assim, num contexto de modernização do país e centralização do Estado, D. Manuel advoga a aplicação de leis gerais e uniformizadoras para todo o País, consignadas nas Ordenações Manuelinas, substituindo os Forais Antigos obsoletos na linguagem (escritos em latim) e introduzindo preceitos regulamentares na vida económica com a aplicação do sistema tributário, um dos seus principais objectivos desta reforma.

Os Forais Novos pretendem ajustar os conceitos normativos à realidade político-social do séc. XV, em que a sociedade portuguesa conhece profundas transformações estruturais com a ascensão da burguesia e o comércio da Expansão Ultramarina, já muito aquém do contexto político-social da Idade Média.
Assim, por alvará de 20 de Julho de 1504, D. Manuel mandou que, de cada foral, fossem realizados três exemplares: um para a câmara do concelho, outro, sendo caso, para o senhorio ou donatário do mesmo
e, finalmente, um terceiro, em registo de chancelaria, para o próprio arquivo real.
É neste contexto que surge o Foral de Ílhavo, concedendo autonomia legislativa, fiscal e económica ao concelho, marco de uma nova idade na vida municipal. Manuscrito lavrado por mãos de exímio calígrafo, em fólios de pergaminho e encadernado com planos de tábua, coberto de couro lavrado com ferragens evocativas da simbólica áulica de D. Manuel, Ílhavo é presenteado com a entrega deste documento, assinada pelo punho do próprio soberano, no dia 8 de Março de 1514. No entanto, só dois anos mais tarde, a 2 de Setembro de 1516, seria entregue ao juiz e vereadores do concelho.
Preservando no seu arquivo camarário este precioso original da carta de foral assinada pela mão do próprio Rei D. Manuel, a Câmara Municipal de Ílhavo decidiu, em tom de desfecho das comemorações dos 110 anos da Restauração do Município, lançar no dia 13 deste mês uma publicação com a respectiva transcrição e reprodução em fac-símile, num acto de partilha deste precioso documento com toda a comunidade.
Fonte: "Viver em...", da CMI

MARX ESCREVE A MARX


De passagem pelo aeroporto de Colónia, lá estava. Lançado nos finais de Outubro, é best-seller há semanas. Estou a referir-me ao livro Das Kapital ("O Capital"), de Marx - desta vez, porém, não Karl Marx, mas Reinhard Marx, arcebispo de Munique. Ele foi professor de Ética Social Cristã e, antes de chegar a Munique, passou seis anos como bispo auxiliar de Trier, a cidade na qual Marx, o Karl, passou a meninice e a juventude e conheceu a sua futura mulher, Jenny.
Reinhard Marx abre com uma carta ao seu homónimo, esperando que, após a morte, tenha verificado que se enganou quanto à não existência de Deus e, assim, possa ser mais benevolente para com um homem da Igreja. O diálogo pode ser frutífero, pois consta que, pouco antes de morrer, terá dito: "Só sei que não sou 'marxista'."
Karl Marx enganou-se, quando pensou que o seu programa se podia resumir na "abolição da propriedade privada". Também não se realizou, no conflito entre o trabalho e o capital - concretamente na Alemanha e outros países industrializados -, o seu vaticínio de uma revolução radical. Contra as suas previsões, a revolução acabou por ter lugar onde não devia: a Rússia.
Mediante contratos sociais de trabalho, sindicatos activos, toda uma regulação sócio-jurídica e a participação dos trabalhadores, criou-se uma sociedade na qual estes passaram de vítimas do sistema de mercado a participantes dos seus sucessos. "Pareceu possível o bem-estar para todos", a ponto de o próprio J. Habermas ter escrito: "O designado portador de uma futura revolução socialista, o proletariado, dissolveu-se enquanto proletariado."
Mas isto foi uma ilha com sol de pouca dura. Com a globalização, as novas possibilidades de troca de informações, bens e serviços a nível global tornaram o antigo conflito indiscutivelmente favorável ao capital, tanto mais quanto, como disse Manuel Castells, na actual sociedade em rede, está em vigor a fórmula: "O capital é essencialmente global, o trabalho é em geral local." Aumentam assim as possibilidades dos investidores e especuladores. O lema é: "Demolição do Estado social e desregulação."
O abismo entre ricos e pobres é cada vez mais fundo no mundo e nos países. Mais de 2, 5 mil milhões de pessoas têm de viver com menos de dois dólares por dia, mas há mil milhões em pobreza extrema, pois têm de sobreviver (?) com menos de um dólar. Mais de metade da riqueza mundial está nas mãos de dois por cento da Humanidade.
Parece que Marx tinha razão quanto à sua tese da acumulação e concentração progressivas do capital. De facto, de ano para ano sobe o número dos super-ricos. E a crise financeira internacional veio mostrar a força com que "já hoje o capital anónimo determina o nosso destino". Os bancos e os fundos com as suas especulações deitaram a perder milhares de milhões. Mas, agora, depois de tanto se ter propagandeado a necessidade de o Estado se não intrometer no mercado, "tem de ser o contribuinte a responder pelas perdas especulativas". "Os lucros são privatizados e as perdas, socializadas."
Será a História a dar razão a Marx? O capitalismo vai afundar-se por si próprio? Responde o bispo Marx: "Dr. Marx, espero que não. E por várias razões." Ele sabe que não foi o seu homónimo, mas os seus discípulos bolchevistas a pôr em marcha o comunismo soviético. Mas o que é facto é que o programa da socialização dos meios de produção levou à estatização, desembocando numa ditadura política, por vezes totalitária.
É necessário distinguir entre um capitalismo sem limites e uma economia social de mercado. Um "capitalismo primitivo" é injusto, contra a pessoa, e, por isso, não aceitável. Mas um capitalismo enquadrado politicamente, no sentido de uma economia social de mercado, foi "o único caminho correcto, e este caminho continua hoje sem alternativa razoável".
Há uma pergunta que preside ao livro: as pessoas são para o capital ou o capital deve estar ao serviço das pessoas? A resposta é: "Um capitalismo sem humanitariedade, solidariedade e justiça não tem moral nem futuro."

Anselmo Borges

sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Aos católicos do Ocidente



No discurso de Ano Novo que o Papa fez ontem ao Corpo Diplomático, há várias preocupações. Sublinho a que se refere directamente aos católicos no Ocidente.
Primeiro, recorda o Papa que uma sociedade que discrimine os cristãos está doente, sofre de pobreza moral. Pode até ser rica de bem-estar material, mas é uma sociedade moralmente pobre porque não reconhece o valor da fé na construção de uma sociedade mais livre e justa.
Mas o Papa vai mais longe ao desejar que o mundo ocidental não cultive preconceitos nem hostilidades contra os cristãos, simplesmente porque, nalgumas questões, a sua voz é incómoda. Aos cristãos vítimas do laicismo, Bento XVI pede que não percam a coragem e que, apesar das tribulações, testemunhem que a salvação de Cristo é para todos e que, por isso, não se pode confinar à esfera privada.
Belo conselho também para nós, portugueses!

Aura Miguel
Fonte: Página 1 da Renascença

Na Rádio Terra Nova


SOLTAR A CORRENTE

SOLTAR A CORRENTE é o novo programa da Pastoral Juvenil da Diocese de Aveiro na Rádio Terra Nova. Quinzenalmente, às sextas-feiras, entre as 21 e as 22 horas, em 105 FM. Entrevistas, ligações em directo com os grupos de jovens da diocese, sugestões para os teus fins-de-semana e a música dos teus ritmos. E, claro, o tal minuto e meio de reflexão. Porque a semana terminou, vem daí SOLTAR A CORRENTE. Podes acompanhar o programa online em http://www.terranova.pt/
O programa tem apresentação de João Matos, com repórteres que vão percorrer a diocese, Sónia Neves, Priscilla Cirino e Álvaro Ramos. A condução técnica é de Márcio Conceição e a produção de Catarina Pereira

Leituras


Não escondo que o meu grande prazer, diário, está na leitura. Quando acordo, até parece que os meus olhos começam logo à procura de letras, palavras, frases, jornais, revistas, livros. Sempre foi assim, desde que me conheço. E quando abuso, é certo e sabido que desabrocham as dores de cabeça. Prometo a mim mesmo que no dia seguinte serei mais contido e até prometo rejeitar leituras. Mas não consigo.
Agora ando a contas com os livros da colheita do meu aniversário, do Natal e do Ano Novo. Há muito que ler. E reler.
Quando acabo uma leitura, ocorre-me de imediato falar do livro em termos encomiásticos, para que outros, lendo-o, possam usufruir do prazer que eu senti. Mas é impossível. Não teria tempo para isso. Alguns há que não merecem qualquer referência, de tão banais que são. Hoje, qualquer bicho careta publica livros. Acordou com uma notícia escaldante debitada na rádio e zás. Aparece logo um livro. No fundo, não passa de um oportunista para enganar papalvos. E por vezes também vamos na onda, comprando molhos de folhas escritas sem nexo nem arte.
Porém, há livros que merecem mesmo ser lidos e comentados no meu blogue. Estão aqui à espera de vez. E de tempo, valha a verdade, para alinhavar meia dúzia de frases, sem preocupações de análise crítica, que não é esse o meu mister. Um dia destes vou começar a aliviar a mesa de trabalho. Livro lido e comentado, se o merecer, vai para a estante, onde há sempre um cantinho para o acolher. Com carinho. Porque há livros que são, realmente, grandes amigos.
FM

Calor humano

Edifício onde funcionou a minha escola


Quando eu era menino o frio vinha e ia sem ninguém dizer nada. Sentia-se no corpo e na alma e sofria-se em silêncio. As escolas não tinham aquecimento nenhum, e o vento, húmido e gelado, entrava por todos os cantos. Os mais pobres, sem calçado e sem roupa que agasalhasse, tiritavam o tempo todo.
Recordo-me dos truques de que o meu professor, Manuel Joaquim Ribau, de saudosa memória, se servia para enfrentarmos o frio. Antes de abrir a porta da escola, mandava-nos correr, na que é hoje a Av. José Estêvão. E a corrida aquecia. Mas dentro da sala de aula o frio atacava de novo, com força. Então, quando as mãos enregeladas não conseguiam pegar no ponteiro com que se escrevia na lousa, todos de pé, a um sinal do mestre, de braços estendidos, abraçávamo-nos a nós próprios, com genica, para que as nossas mãos nos batessem no corpo. E assim passava o tempo.
Uma ou outra vez fizemos uma fogueira no caminho de terra batida, onde nos aquecíamos. E quando havia temporal, com vento, chuva e frio de rachar, a escola era triste. Mesmo muito triste.
Hoje, com tantas comodidades, merecidas e justas, outros problemas haverá que também, por vezes, a tornam triste. Mas não há, julgo eu, tanto frio como antigamente, onde só o calor humano pontificava.

FM

quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

AMIGOS E AMIZADES


Há tempos especialmente propícios para apreciar melhor o que na vida teve, tem e terá sempre, um valor de excelência para nós, os mortais. Esses tempos não se encomendam. Vão acontecendo sem que a vida os possa engolir. Um coração sensível e atento dá por eles e deles sabe tirar as lições de ser e de saber que lhe são proporcionadas.
Disse alguém que “um belo ancião é a mais formosa de todas as ruínas”. Formosa, rica e sábia, porque sempre capaz de discernir e apreciar, com rectidão, o que a vida lhe foi e vai proporcionando, por força da sabedoria adquirida no tempo, da experiência de ultrapassagem das portas estreitas da vida e da finitude dos túneis, por longos e lúgubres que sejam. E, também, pela vivência libertadora das mais complicadas contingências humanas, que acompanham todos os resistentes da vida no seu dia a dia, e persistem, encorajados e com sentido, para ir um pouco mais além.
Os amigos, que sempre o foram e o são de facto, e as amizades advenientes por força das mais variadas circunstâncias, constituem privilegiados elementos de interesse dessa leitura da vida, que o tempo e os tempos vão permitindo fazer.
Diz a sabedoria da Escritura que “um amigo é um tesouro”. A vida mostra que os tesouros são raros e de leitura nem sempre unívoca. Alguns amigos volatilizam-se quando os julgávamos de sempre e para sempre. Outros foram deixando que o coração se endurecesse aos apelos de ajuda e aos desabafos de compreensão. Ainda outros desaparecem rápidos como os tempos em que nasceram. Restam sempre poucos que, presentes e ausentes, mantêm o mesmo tom de voz, o mesmo calor das palavras, a mesma abertura de alma, a mesma disponibilidade para estar ou para vencer, num instante, distância de quilómetros. Mantêm a mesma alegria incontida, a mesma capacidade de alegria e de dor, vividas em comum, a mesma certeza do ontem e do hoje. São estas atitudes de vida que traduzem a verdade de que “um amigo é um tesouro” e de que os verdadeiros amigos não são como o vento que dá sinal de si, mas passa à frente e depressa.
Das amizades e encontros que surgem ao longo da vida, tanto nascem amigos verdadeiros, coisa rara, como expressões de respeito que só enraizaram por tempos de relação necessária e que logo passam, como atitudes que escondiam interesses e não foram além da satisfação destes. Há, ainda, amizades de honra, propaladas por um tempo, que depois se transformaram em indiferença ou desconhecimento..
A vida de hoje, com padrões de relação mais frequentes mas mais superficiais, vazada em interesses imediatos a que repugna toda a gratuidade, não é propícia nem ao respeito pelas raízes mais antigas, mesmo as humanas, nem à conservação duradoira daqueles que o tempo parece ter tornado mais ou menos inúteis, senão mesmo desvalorizados, assim se diz, por incapazes de ler e falar o presente fluido, que a muitos seduz.
Nesta depreciação entraram também instituições respeitáveis, por vezes mais propícias a ser museu de velharias inúteis, peças de ontem em prateleiras douradas, que salva guarda cuidadosa e carinhosa de gente a respeitar pela riqueza humana que nela perdura.
As festas cíclicas não são mera tradição. Constituem ocasião de reforço das amizades verdadeiras. Os amigos, porque então, de alguma maneira, se manifestam sempre, ficam ainda mais amigos. Os que o não são, vão caindo e saindo, deixando recordações, nem sempre as melhores. Amizades por interesse ou respeito que não chegam ao coração.
O verdadeiro tesouro conserva-se como presentes de amor, que é isso que de facto é. Um amigo verdadeiro dá segurança e alegria de viver. Tesouro raro. Mas o pouco é muito, quando verdadeiro, e o muito é nada, quando lhe falta o rosto e calor de verdade.
Em cada ano não faltam ocasiões para agradecer os amigos e para pesar o valor das amizades de circunstâncias e, também, das utilitárias e compostas para a ocasião.
António Marcelino

Situação absurda


Um estudo recente revela que o número de habitações praticamente duplicou em Portugal nos últimos 30 anos. Sendo o nosso país um dos mais pobres da Europa, no entanto é o segundo com maior número de casas por habitante. Um enorme desperdício de recursos num país que não é rico.
Este absurdo não é novidade. Como também se sabe haver mais de meio milhão de casas desocupadas em Portugal, ao mesmo tempo que inúmeras pessoas não possuem habitação digna desse nome.
Ou, ainda, que muitas famílias estão com a corda na garganta por causa do empréstimo que fizeram para comprar casa. Este é o resultado desastroso de décadas em que faltou coragem política aos governos para reanimarem a sério o mercado de aluguer.
O que implicaria uma revisão realista das rendas antigas. E uma justiça rápida e eficaz, não permitindo que um inquilino permaneça numa casa anos e anos sem pagar renda.
Mas ninguém espere uma correcção a curto prazo desta situação absurda, apesar de o crédito estar agora mais caro e difícil. 2009 é ano de eleições.
Ponto de Vista de Francisco Sarsfield Cabral na Renascença

CORREIO DO VOUGA COM NOVA CARA


Jornal feito para os leitores e com os leitores
Chegou-me hoje às mãos um Correio do Vouga com nova cara. Diz a direcção, em nota de esclarecimento, que este semanário da Diocese de Aveiro “muda para ser mais agradável de ler, ter mais informação, ter outra informação”. Assumindo que “parar é morrer”, o Correio do Vouga apresenta-se com outra cara, na “imagem e no conteúdo”, sendo feito “com o mesmo empenho profissional e paixão”.
Sendo suspeito em qualquer juízo de valor (não posso esquecer que fui seu director durante 12 anos), não quero enjeitar a obrigação de apoiar as mudanças verificadas, mudanças que são sempre sinais de aposta no futuro, neste mundo de competição desenfreada. Alguma comunicação social não se coíbe de pôr de lado a ética profissional, apenas para vender mais notícias, em especial de sinal negativo, as tais que atraem mais publicidade.
O Correio do Vouga, que alinha pela positiva, com boa informação e com a formação adequada, oferece agora, em mais páginas, outras razões para ser mais lido.
Além das secções e colaboradores habituais, há novas rubricas, mais notícias um pouco de todos os âmbitos. E até nem sequer foi esquecido o passado, que poderá ser, para muitos leitores, mais um motivo de interesse. O mesmo se diga da “Espiritualidade”, do “Ver, Ouvir, Sair” e do “Almanaque”. E porque é feito para os leitores e com os leitores, esperam-se sugestões.
Os meus parabéns para a direcção do Correio do Vouga e para quantos semana a semana o fazem.

FM

VIA DE CINTURA PORTUÁRIA DE AVEIRO



Ana Paula Vitorino preside hoje
ao auto de consignação da 3.ª fase


Hoje, 8 de Janeiro, vai proceder-se à assinatura do auto de consignação da terceira fase da Via de Cintura Portuária de Aveiro, obra com custo previsto de 6,9 milhões de euros e um prazo de execução de oito meses.
A cerimónia, a decorrer na sede da Administração Portuária, será presidida pela Secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, que já em Julho havia estado em Aveiro para o lançamento do concurso desta importante obra.
O projecto original da Via de Cintura Portuária de Aveiro foi concretizado, em duas fases anteriores, no âmbito da construção do Terminal Norte.
O objectivo pretendido era o de permitir que o núcleo da futura área portuária comercial e industrial que veio a ser desenvolvido a partir de 2001, gravitando à volta do referido Terminal, ficasse dotado de um eficiente acesso rodoviário.
Actualmente ainda falta completá-la com a 3ª fase que fechará a actual Via, ligando-a desde a zona da Chave até ao IP5, no chamado nó da “Friopesca”.
O projecto da Via de Cintura Portuária de Aveiro – 3ª Fase, tem como objectivos fundamentais e prioritários: Assegurar uma adequada ligação entre o Nó do IP5, junto à ponte do Rio Boco e a actual Via de Cintura Portuária; Melhorar a acessibilidade da zona portuária, constituída essencialmente por unidades industriais de transformação de pescado; Permitir uma fácil circulação dos veículos pesados de transporte de matérias-primas e mercadorias, sem congestionar o restante tráfego; Contribuir para a dinamização socioeconómica da zona portuária; e gerar atractivos para a fixação de novas potenciais indústrias.
Fonte: Newsletter do Porto de Aveiro

quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

Sobriedade e solidariedade


Não seria possível acolher
os sem-abrigo nos lares?

Face à crise económico-financeira, anunciada no mundo ocidental, o Papa já fez o seu apelo para que vivêssemos com sobriedade e em espírito de solidariedade. Os políticos e demais responsáveis pela sociedade também não se cansam de nos alertar para a necessidade de cuidarmos do futuro, ensaiando e levando à prática comportamentos de contenção nas despesas.
Por outro lado, importa implementar nas instituições de solidariedade social e de caridade uma redobrada atenção, no sentido de ajudarmos os que mais precisam.
Ontem, por causa do frio, até tendas foram montadas para proteger os sem-abrigo, reforçando-se a distribuição de roupas, outros agasalhos e alimentos quentes. Era o mínimo que se poderia fazer. Mas continuo a pensar nesta triste realidade, que nos leva a aceitar, como indiscutível inevitabilidade, a existência dos sem-abrigo.
Eu sei, por conversas que já mantive com alguns que prestam apoio aos que vivem na rua, que o problema é muito complexo. Por exemplo, há pessoas que se recusam, pura e simplesmente, a ingressar num qualquer lar. São pessoas marcadas por contingências diversas e complicadas, que as levam a optar por essa forma estranha de viver. Mas não seria oportuno que técnicos credenciados estudassem a fundo a questão, tendo em conta que cada caso é um caso, para que os sem-abrigo fossem acolhidos nos lares?

FM

CORTEJO DOS REIS



Tradição continua a ser respeitada
na Gafanha da Nazaré


Como todos os anos, vai realizar-se o Cortejo dos Reis na Gafanha da Nazaré, no domingo depois da Epifania, 11 de Janeiro. Trata-se de uma tradição bastante enraizada nesta paróquia, com o povo a viver, de certa forma, a alegria da visita ao Menino-Deus, seguindo a Estrela de Belém que há mais de dois mil guiou os Reis Magos.
Previamente, o povo organiza-se para participar condignamente. As comissões dos lugares distribuem tarefas, ornamentam os carros, ensaiam cânticos apropriados e outras modinhas e formam grupos para recolha de donativos. No meio de tudo isto, há os espontâneos, que procuram vestir-se de maneira original: à moda antiga, uns, e de qualquer forma, outros.
Durante o cortejo, que começa manhã cedo no lugar de Remelha, com a aparição do anjo a anunciar aos pastores o nascimento do nosso Salvador, não falta quem cante e quem apresente autos natalícios, repetidos há muitas décadas. São ensaiados, no tempo certo, pelos mesmos actores, que sabem de cor o que têm a dizer, quando é chegada a hora de entrar em cena.
As ruas da Gafanha da Nazaré tornam-se mais animadas ao som dos cânticos, muitos deles exclusivos deste povo. A fechar o cortejo, lá vão os Reis Magos, montados nos seus cavalos, seguindo a estrela que os guia até ao presépio. E no final, na igreja matriz, todos vão beijar, como muita devoção, o Menino Jesus.
Depois, a festa continua com o leilão dos presentes, nunca faltando os que fazem “render o peixe”. O rendimento reverterá para as obras da residência paroquial da Gafanha da Nazaré.

Fernando Martins
NOTA: Ilustração do artista Manuel Correia

Seria melhor saber o futuro?


Não é por acaso que o mundo inteiro dá saltos de espanto, festa e medo nos primeiros momentos de cada ano. Nem todos dizem, cantam ou dançam o mesmo. Há um oculto ritual, um desejo de espantar o mal, o medo, a guerra, a dor, a morte. Quase todos arrancam para a festa com a experiência de duros e fantásticos dias vividos num passado, próximo ou longínquo, pintado de tempo. O advir é um atalho de mil caminhos que pode desembocar em mil alegrias ou prantos. Tudo isso se encaixa no tempo que nos é dado viver. Com todas as hipóteses e nenhuma certeza definitiva. Trata-se do futuro. E o futuro, como dizem os crentes e não poucos ateus, a Deus pertence.
Nada se passa apenas no singular. Todos vivem, convivem, estão ligados a uma família ou a um grupo de amigos. E nessa esfera de relações há íntimos frágeis, idosos, crianças, filhos, irmãos, pais. Afectos e rancores, desejos e repulsas. Mesmo os solitários que vivem a milhas de todos, têm um repente de irmão, pai ou amigo, no momento de aflorarem a porta do futuro que ninguém adivinha como se abrirá e quem por ela poderá passar.
Assim vivemos, envoltos neste mistério que astrólogos e cartomantes procuram explorar e vender nas franjas da magia ou adivinhação. Olham para os astros, olham para o tempo, fixam-se na palma da mão e dizem o possível, tão convictos do futuro como o apostador do euromilhões que esgota o mais rigoroso cálculo de probabilidade sem nunca lá chegar. Ou lá chega contra todas as lógicas.
Nas mãos de Deus está o futuro. Mas também nas nossas.Com a nossa cumplicidade se levantam as muralhas de guerra e paz, os frutos da justiça e da opressão, abraços de festa ou as armas de morte. Temos os cordelinhos de muitos acontecimentos. Falta-nos a chave da historia. Que, como o futuro, a Deus pertence. Para nós, previsões seguras só no fim do jogo. E ainda bem.

António Rego

Peregrinação à Terra Santa



Peregrinação!
Espaço interior,
Reflexão,
Elevação,
Grande harmonia!
Ressurreição
Iniciada
Na nossa alma,
Angustiada
Carente, cansada,
A lutar, para alcançar
O almejado sonho!

Afastemos mágoas!

Temos as águas que purificam
E que correm no Jordão!
Reavivam o coração
Reforçam o débil ser
Alimentam o nosso crer!

Serenidade, santidade?
Alcançámos, sonhámos?
Não importa a quantidade!
Trouxemos, em convicção,
A Terra Santa, no coração!

M.ª Donzília de Jesus de Almeida
05.07.07

Bateira berbigoeira

Bateira berbigoeira (Foto do blogue Marintimidades)

Tenho para mim que nas Gafanhas, como, aliás, na beira-ria, não falta quem aprecie as embarcações tradicionais, muitas delas a marcarem presença nos museus, por terem caído em desuso. Outras ficarão a apodrecer em qualquer canto, sem honra nem glória, pelo desinteresse de quem poderia cuidar destas riquezas do nosso património histórico e cultural. Fico sempre agradado, no entanto, quando vejo que alguém se ocupa destes assuntos que a todos nós dizem respeito. Hoje, por exemplo, ao visitar o Marintimidades (ver aqui ao lado), tive o prazer de ler uma história muito bonita sobre a bateira berbigoeira, protagonizada por dois apaixonados pelo mundo do mar, da ria e dos barcos. Leiam-na, por favor.
FM

terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

DIA MUNDIAL DO MIGRANTE E DO REFUGIADO: 18 de Janeiro

Um Estímulo para Viver o Amor Fraterno

Certamente para nos estimular a vivência do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que acontece a 18 de Janeiro de 2009, o Papa Bento XVI acaba de publicar uma Mensagem bastante oportuna, que importa ler e reler, numa perspectiva de mudança, em ordem ao acolhimento e ao apoio fraternos dos migrantes e refugiados. Aqui fica para reflexão.
"Queridos irmãos e irmãs, o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que será celebrado a 18 de Janeiro de 2009, seja para todos um estímulo a viver em plenitude o amor fraterno sem quaisquer distinções e sem discriminações, na convicção de que o nosso próximo é quem quer que tenha necessidade de nós e a quem nós possamos ajudar (cf. Deus caritas est, 15). O ensinamento e o exemplo de São Paulo, humilde-grande Apóstolo e migrante, evangelizador de povos e culturas, nos leve a compreender que o exercício da caridade constitui o ápice e a síntese de toda a vida cristã. O mandamento do amor - sabemo-lo bem - alimenta-se quando os discípulos de Cristo participam unidos na mesa da Eucaristia que é, por excelência, o Sacramento da fraternidade e do amor. E como Jesus no Cenáculo, ao dom da Eucaristia uniu o novo mandamento do amor fraterno, assim os seus "amigos", seguindo os passos de Cristo que se fez "servo" da humanidade, e sustentados pela sua Graça, não podem deixar de se dedicar ao serviço recíproco, responsabilizando-se uns pelos outros segundo quanto o mesmo o próprio São Paulo recomenda: "Carregai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo" (Gl 6, 2). Somente deste modo cresce o amor entre os fiéis e por todos (cf. 1 Ts 3, 12)."

Fórum::UniverSal lança livro


"3 anos – 30 ideias: debate aberto sobre a actualidade"

Com a chancela da Universidade de Aveiro, Fundação João Jacinto de Magalhães e Centro Universitário Fé e Cultura (CUFC), foi publicado o livro “3 anos – 30 ideias: debate aberto sobre a actualidade”, nascido no âmbito das Conversas Abertas do Fórum::UniverSal. Nele se reflectem temas abordados na primeira quarta-feira de cada mês, com organização do CUFC e da Fundação João Jacinto de Magalhães, numa perspectiva de nos sensibilizar para as nossas responsabilidades, na linha dos direitos humanos. O livro acabou por ser lançado em 10 de Dezembro de 2008, aquando das comemorações da Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada em 1948, em Paris, naquele mesmo dia.
A riqueza e a variedade dos assuntos tratados só por si são um desafio a cada um de nós para uma leitura cuidada. E se soubermos que pelo CUFC passaram convidados de alto gabarito cultural, académico e humano, mais fortemente seremos impelidos a procurar o livro para o ler, não como quem lê um romance ou um livro de contos, mas como quem se debruça, com serenidade, sobre os temas apresentados em resumo ou em esquemas alargados, ao jeito de quem nos convida a reflectir sobre eles.
Por esta casa de encontro de ideias e de projectos, passaram pessoas tão diversas como Guilherme d’Oliveira Martins, José Ferreira Mendes, Fernando Nobre, Júlio Pedrosa, Manuel Augusto Oliveira, Rui Marques, Laurinda Alves, Adriano Moreira, Margarida Santos, Fernando Vieira, José Carlos Vasconcelos, Ximenes Belo, João de Deus Ramos, Paulo Borges, Victor Sérgio Ferreira, João Gaspar, Élio Maia, Luís de Matos, Martinho Pereira, João Fernandes, Luís Antero Reto, Eduardo Marçal Grilo, Francisco Sarsfield Cabral, José Alfredo Martins, Nuno Rogeiro, Amaro Neves, Barbosa de Melo, Isabel Alçada, Polybio Serra e Silva e José Matoso. Saberes diversos, culturas diferentes e até divergentes, de tudo houve nestas Conversas Abertas, espelhando o livro sinais do que se passou no CUFC, nestes últimos três anos, em serões normalmente bastante participados.
No prefácio, que o Bispo Emérito de Aveiro, D. António Marcelino, intitulou de “um diálogo libertador”, síntese perfeita do que realmente aconteceu, foi sublinhado que “O verdadeiro diálogo não tem vencedores. Tem colaboradores honestos na investigação e beneficiários comuns dos resultados obtidos. O diálogo é sempre orientado a uma procura respeitosa e aberta da verdade que interessa a todos, que é um bem de todos e para todos e cada um”.
Por sua vez, Alexandre Cruz, a alma grande deste projecto, manifesta o desejo, na Nota Introdutória, de “que este Sal, partilhado em fórum plural, complemente a autocrítica de justo sabor como sentido de ética mundial, por forma ao reencontro apurado das actualidades em direitos e responsabilidades humanas”. E mais adiante sublinha que o Fórum::UniverSal, se traduz numa “experiência essencialmente errante de tertúlia em diálogo cultural e de saberes disciplinares que vence o unilateralismo fechado das dicotomias”, tendo sido, por isso, “um contributo aberto à reflexão”.
Ler esta obra será, pois, uma boa oportunidade para cada um olhar o mundo à sua volta, nos mais diversos sentidos que nos são indicados pela rosa-dos-ventos.

Fernando Martins

segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Centenário da freguesia da Gafanha da Nazaré

Farol em construção

A propósito da entrevista que o presidente da Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré, Manuel Serra, me concedeu, para publicação no TIMONEIRO e que aqui transcrevi, tenho recebido algumas sugestões interessantes, muito variadas e todas respeitosas. Gosto de comportamentos dignos de gafanhões, que nos prezamos de ser.
Na impossibilidade de me referir a todas, de uma só vez, tenciono pegar nelas para, de tempos a tempos, voltar ao assunto. Penso que poderão ser, deste modo, mais rendíveis.
Diz o Hélder Ramos, docente numa escola de Ovar, que seria importante que a Junta estabelecesse “protocolos com as escolas para pôr os alunos a estudar a identidade da Gafanha da Nazaré, garantindo futura publicação”, porque, acrescenta, “precisamos dos mais jovens para aprofundar a memória da nossa gente, sob pena de a estarmos a perder irremediavelmente”.
O meu amigo Hélder tem razão. É preciso, de facto, envolver os nossos jovens nesta tarefa ingente e urgente de descobrir, estudar, preservar e divulgar a nossa identidade. Sei que algo tem sido feito, mas reconheço que tudo quanto se fizer será sempre pouco.
Das muitas iniciativas já levadas a cabo pelas nossas escolas, neste âmbito, julgo que falta uma divulgação adequada. Sei que existem, porque frequentemente tenho sido solicitado para prestar um ou outro esclarecimento e até já fui falar, há anos, a algumas escolas, sobre o nosso passado. Mas é evidente que urge fazer mais.
Talvez as nossas escolas, de vários graus, estejam um pouco fechadas à sociedade, ou, melhor dizendo, nem sempre terão sabido envolver os gafanhões nos seus projectos educativos. Assunto a rever, em meu entender.
Se então pegarmos no Centenário da freguesia, que chega em 2010, para a partir dele desenvolvermos iniciativas na linha proposta pelo Hélder, estaremos decerto a contribuir para preservação e divulgação da nossa identidade. Eu, como é óbvio, farei o que estiver ao meu alcance.

Fernando Martins

Primeiro dia depois das festas

SEMPRE INTERESSADO PELA VIDA
Depois das festas todas, do Natal ao Ano Novo, hoje recomeça o trabalho. Parece estranho, um aposentado, como eu, dizer que recomeça o trabalho, com a normalidade da vida. Mas é verdade. Não a vida de horários para cumprir, mas a vida sem tanto sofá, com doces variados à mistura.
Gosto de sentir que o meu espírito tem anseios para alcançar e projectos para realizar. Gosto de saber, por experiência do dia-a-dia, que, afinal, não sou um conformado com a vida, o que me impele a procurar a acção, do corpo e da mente. Para me sentir pessoa com planos de futuro.
A vida, como é normal, não se resume ao tempo que dedico ao meu blogue, espaço onde retrato o que penso, a partir da leitura que faço dos acontecimentos da sociedade. Outras solicitações me desafiam.
De alguém que me leu recebi um pedido de ajuda para um trabalho académico. De outro veio um voto de sucesso para o Pela Positiva. Um comentário sobre um escrito meu é um incentivo para continuar. Um leitor que gostou de saber que o TIMONEIRO reapareceu e que vai contar com a minha colaboração também é estímulo para não me quedar por aqui à espera, simplesmente, que o tempo passe. Que passa, sei eu que é inevitável, mas que me encontre sempre interessado pela vida, é o meu grande desejo.

FM

domingo, 4 de Janeiro de 2009

ROSTOS


JÚLIO CIRINO:
Uma vida dedicada ao Atletismo com muita paixão

Quando contactei o Júlio Cirino, estava ele a chegar de uma viagem à Guiné-Bissau, onde se deslocou na qualidade de formador de treinadores de Atletismo. Antes, andou por Espanha, Hungria e Croácia, entre outros países. Em breve irá a Cabo Verde e Angola.
Membro da IAAF – Federação Internacional de Atletismo Amador, dá o seu contributo do muito que sabe, ensinando alunos universitários e treinadores de Atletismo, sobretudo na área dos Lançamentos, de que se tornou especialista, no país e no estrangeiro.
Júlio Cirino esteve ligado à FPA – Federação Portuguesa de Atletismo, entre 1997 e 2007, como treinador nacional de Lançamentos. Presentemente, é colaborador da mesma federação, para os sectores do Peso e Disco, abrangendo jovens com idades compreendidas entre os 13 e os 17 anos.
Em conversa com o Júlio, percebe-se facilmente a sua paixão por este desporto, paixão que começou ainda jovem, como atleta de meio-fundo, sobretudo nos 1500 metros obstáculos. Chegou a ser detentor do recorde nacional dos 1000 metros, no âmbito escolar, com a marca de 2’ 41’’, mais tarde batido pelo Fernando Mamede, com 2’ 39’’.
A sua grande campeã foi Teresa Machado (de que falaremos em breve), possuidora de um palmarés invejável, tanto em Portugal, como nos campeonatos da Europa, do Mundo e nas Olimpíadas. Mas não se pense que o fim da carreira desta atleta corresponde ao fim da paixão do Júlio Cirino.
Aposentado da sua actividade profissional, não está conformado e continua à procura de potenciais campeões. Hoje, tem sob sua orientação sete atletas no Peso, Disco e Martelo. E diz, com a certeza de quem conhece do que fala, que todos eles poderão vir a participar em competições internacionais, “ao mais alto nível”, se forem “persistentes e se seguirem as suas orientações”.
Na altura em que começou no Atletismo, não havia na Gafanha da Nazaré qualquer clube que se interessasse por esta modalidade desportiva. E no Distrito de Aveiro, em 1966, só havia o Estarreja e o Espinho, o que o levou a recorrer ao primeiro, para poder praticar o desporto da sua eleição. Mais tarde, recebe convites do Benfica, do Sporting e do Futebol Clube do Porto, optando por este último, por ser o que ficava mais à mão. Neste clube, conseguiu alguns recordes do Norte, em 1500 metros obstáculos.
A tropa, cumprida em Lisboa, levou-o a virar uma página na sua vida desportiva, optando por aprender com o mítico Prof. Moniz Pereira. Desse mestre, diz que colheu frutos “fundamentais para a sua função de treinador”, como “A pontualidade, a disciplina que impunha e a teimosia que o levava a chegar onde queria”. E recorda uma célebre frase ouvida ao mestre: “Se dispensassem os atletas das suas ocupações profissionais, da parte da manhã, os resultados do nosso Atletismo seriam outros.” À sombra desse princípio, Carlos Lopes começou a mostrar a sua têmpera de campeão, dando enormes alegrias aos portugueses.
Sobre o trabalho desenvolvido na Gafanha da Nazaré, Júlio Cirino lembra que, em 1972, a convite de João Fidalgo e de José Alberto Loureiro, dirigentes do Grupo Desportivo da Gafanha, aceita colaborar como treinador. Um mês depois, já tinha 87 jovens, entre os 10 e os 16 anos, a treinar no campo do Forte. E sublinha: “O recrutamento foi feito através do TIMONEIRO; batíamos à porta das famílias, para se obter autorização, e os treinos começaram, com muito entusiasmo.”
“Por falta de energia eléctrica, os treinos não podiam continuar a partir de Novembro. Mas com a colaboração do Padre Domingos, prior da Gafanha da Nazaré, foi possível utilizar o salão paroquial. A seguir, passámos ao Mercado. E com a iluminação do campo do Forte, voltámos de novo para lá”, esclarece.
Reconhecendo que pela sua vida de treinador já passaram mais de 1000 atletas, Júlio Cirino frisa que a Teresa Machado foi a sua campeã mais credenciada. Apareceu-lhe, em 1986, por indicação do Leopoldo Oliveira, ao tempo professor de Educação Física.
Informado das potencialidades da Teresa, soube orientá-la, levando-a a obter resultados nunca antes alcançados por atletas gafanhões, em especial nos Jogos Olímpicos de Barcelona, Atlanta, Sydney e Atenas, que o nosso entrevistado teve o prazer de acompanhar.
Paralelamente à sua actividade de treinador, Júlio Cirino participa em inúmeros congressos, seminários e acções de formação, nacionais e internacionais, tanto para aprender como para ensinar, como o atestam os muitos diplomas, medalhas e troféus.
Diz que ao longo da vida aprendeu bastante pelo estudo e pelo convívio directo com grandes treinadores, de que destaca, para além de Moniz Pereira, Raimundo Fernandez, espanhol, que o levou a acompanhar, de perto, a selecção cubana de Atletismo, e Renato Carnevali, um italiano que o ensinou a planificar treinos intensos e curtos, que conduzem a excelentes resultados.
Júlio Cirino já escreveu dois livros: um sobre “O Corredor de Meio-Fundo – Fundamentos Gerais” e outro sobre “Fundamentos Gerais do Treino para Lançadores”. Na forja está “O Lançamento do Peso – da Iniciação ao alto Rendimento”. E tem ainda, em preparação, “Histórias da Minha Terra”, o seu primeiro trabalho fora da área desportiva.

Fernando Martins
Nota: Texto publicado no TIMONEIRO

SINAL +

1.Em cada início de um novo ano renascem as esperanças de um mundo melhor. No coração do homem, esta ânsia renova-se, desde que o ser humano tomou conta do mundo. Ainda é assim nos tempos que correm. Será assim nos tempos vindouros.
Para além das contingências das épocas, o futuro está, seguramente e em grande parte, nas mãos dos homens. Só eles, sem ambições desmedidas, poderão ser agentes activos do seu futuro, que tem de passar pela construção de uma sociedade mais solidária.
Nestes primeiros passos de 2009, marcados por crises económicas e guerras que parecem sem fim à vista, ouso acreditar que o velho ditado, “Depois da tempestade vem a bonança”, acabará por triunfar, para bem da humanidade. Sempre, naturalmente, com o contributo de todos, em especial de gente que aposte no bem, no belo, mas ainda na paz, na justiça, na verdade e na fraternidade.
Para todos estes vai o meu Sinal + deste primeiro domingo de 2009.

2. O meu Sinal + vai também para o Presidente da República e para a sua Mensagem de Ano Novo. Bem ordenada e lida sem gaguejar, com frontalidade e sentido de Estado. Disse verdades e apelou à verdade para enfrentar a crise. Teme, como todos tememos, o desemprego, a pobreza e a exclusão social. Condenou a pregação de ilusões e a insistência em políticas desastradas. Disse que se gasta mais no país do que aquilo que se produz. Mas não deixou, também, de nos alertar para a necessidade de cultivarmos a esperança, olhando para o essencial, a que urge dar prioridade. “Este é o tempo de resistir às dificuldades, aos obstáculos, às ameaças com que cada um pode ser confrontado”, afirmou Cavaco Silva.

FM

NOTA: Em cada domingo do ano, esta minha nova rubrica vai sublinhar os acontecimentos ou as pessoas que mais se distinguiram, pela positiva, na minha óptica.

Tecendo a vida umas coisitas – 112


DATAS DE BACALHAU- 2

NO PRINCÍPIO...

Caríssima/o:


Como bem se compreenderá não está no meu entendimento a pretensão de grandes explicações ou profundos esclarecimentos; apenas e só me limitarei a apontamentos ligeiros que nos poderão ajudar a fazer uma leitura da pesca do bacalhau através da nossa vida e ...história. Tentativa de outro calibre ultrapassa a minha pesca à linha...
Assim sendo, iniciemos a pescaria.
Como se verá a nossa relação com o bacalhau é anterior ao início da nossa nacionalidade...

Século IX- “Em todos os portos Bretões e Normandos, havia um considerável comércio de bacalhau fresco, frescal e salgado; como se sabe também que a sua exportação em barricas para os países mediterrânicos e portos do Levante remonta a essa época”.
Histórias Desconhecidas dos Grandes Trabalhadores do Mar, Valdemar Aveiro, Papiro Editora, Porto, Novembro 2006, p. 20 [De futuro será referenciado: HDGTM, 20]

Século XII- “D. Henrique o Navegador, estava sem dúvida ao corrente do conhecimento geral da navegação nessas paragens [Labrador e Terra Nova], pois em sua vida continuaram a desenvolver-se as relações entre as coroas portuguesa e dinamarquesa, atestadas pelo casamento de uma sua prima com o rei Erik da Dinamarca.
No século XII já uma filha de D. Sancho I casara com Valdemar II, rei da Dinamarca.”
História da Pesca do Bacalhau: por uma antropologia do “fiel amigo”, Mário Moutinho, Editorial Estampa, Lisboa, 1985, pp. 17/18 [HPB, 17/18]

Século XIII- “Berengária, filha de D. Sancho I, casou na Páscoa de 1214, com Waldem da Dinamarca.
Leonor, filha de D. Afonso II, sobrinha da anterior, casou [em 1229] com outro príncipe dinamarquês.


A partir do século XIII, muito provavelmente devido a alterações climatéricas – desvios de correntes, etc. - o bacalhau começou lenta e progressivamente a desparecer, rarear, primeiro no Mar Cantábrico, depois na Biscaia e a seguir na Mancha, acabando a pesca por cair nestas zonas para níveis desencorajantes”. [HDGTM, 22]

1353 - “Na condição de portugueses, já como nação e reino independente, o primeiro acordo de pesca que se conhece entre nós remonta ao século XIV, mais concretamente ao ano de 1353, firmado entre D. Afonso III de Portugal e Eduardo III de Inglaterra, autorizando, por um período de 50 anos, as caravelas pesqueiras portuguesas [de Lisboa e do Porto] a pescar nas costas de Inglaterra e a demandar portos, assim como os da Bretanha, sem qualquer risco ou impedimento, conquanto pagassem os respectivos direitos ao senhor do país. A assinatura dum tratado deste género só se compreende se a actividade piscatória tivesse já adquirido alguma magnitude em anos anteriores.” [HDGTM, 22; HPB, 15 e Oc45, 67 (Oceanos, n.º 45, Janeiro/Março 2001, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses)]

A vós o dizer se vale a pena prosseguir nesta rota...

Manuel
NOTA: Foto da capa da revista OCEANOS

sábado, 3 de Janeiro de 2009

Viver com o Salário Mínimo

O EXPRESSO desafiou o jornalista Hugo Franco a viver com o salário mínimo (450 €) durante um mês. O jornalista aceitou o desafio e vai dar conta aos seus leitores, em crónicas diárias (expresso.pt), das experiências vivenciadas. Não sei se vai ter alegrias para contar (E daí, quem sabe?) ou se as suas crónicas, de tão cheias de dificuldades, passarão a ser um espaço de reflexão para todos nós. Já agora, seria interessante que o Governo encarregasse um dos seus ministros de fazer semelhante experiência. Estou em crer que muita coisa mudaria na governação do nosso país.

Como o simples é belo!


Há imagens que valem por mil palavras. Esta tulipa, que mão amiga me fez chegar com votos de Bom Ano Novo, é um sinal de frescura, de tranquilidade e de paz, numa certa solidão vivencial. Aqui a deixo para mostrar como o simples é tão belo. É também um convite para que o saibamos procurar e preservar durante 2009.

PROVIDÊNCIA E ECONOMICÍDIO


Antes, era a Providência divina. Deus, no seu saber, bondade e poder infinitos, governa o mundo, e a Humanidade está sob a sua protecção. Mesmo quando a dor, a desgraça e a morte se abatem sobre os seres humanos, deve-se conAlinhar à esquerdafiar, pois Deus tudo dirige segundo o seu desígnio. Aliás, Leibniz escreveu a sua Teodiceia precisamente para, como diz a própria palavra, justificar Deus perante a razão, por causa do mal do mundo. A justificação é: sendo Deus omnisciente, omnipotente e infinitamente bom, este é o melhor dos mundos possíveis.
Hegel de algum modo secularizou a teodiceia, substituindo-a pela historiodiceia: a História autojustifica-se, pois ela é a manifestação e realização do Espírito Absoluto no seu autodesenvolvimento dialéctico, a caminho da plena autoconsciência. A negatividade é momento do processo e a "astúcia da Razão" consiste em colocar mesmo o particular e negativo ao seu serviço. Se a historiodiceia toma o lugar da teodiceia, a Razão na sua astúcia substitui a Providência.
Na economia, a teodiceia e a historiodiceia são substituídas pela mercadodiceia - o mercado justifica-se a si mesmo. Entregue livremente a si próprio, o mercado fará com que, apesar de cada um procurar o seu interesse, tudo convirja para o maior bem de todos. Nele, habita a Providência, agora com o nome de "mão invisível", como disse Adam Smith.
Mas Kant chamou a atenção para o "falhanço" da teodiceia: como pode a razão finita justificar Deus? A "astúcia da Razão" não é suficientemente forte para assumir as negatividades improdutivas. Quanto à "mão invisível", deixou mesmo de se ver. Quem tinha dúvidas esbarrou agora com a evidência. O antigo presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos Alan Greenspan recuou na fé de 40 anos: "Cometi um erro ao confiar que o mercado livre pode regular-se a si próprio sem a supervisão da Administração."
A crise está aí, imensa, imprevisível. Começou com o sistema financeiro e está a chegar, à maneira de tsunami, à economia real, e teme-se um economicídio.
Agora que o mundo do negócio se afunda, é tempo de parar no ócio - quantos se lembram que a palavra escola vem do grego scholê, que significa ócio, não no sentido de preguiça, mas de liberdade para pensar? -, precisamente para pensar.
Quando se pensa, percebe-se que afinal não há alternativa à economia de mercado, mas ela tem de ser economia social e ecológica de mercado, acentuando os dois adjectivos: social e ecológica. Economia quer dizer etimologicamente lei da casa; ora, a casa tem de ser a casa de todos e para todos e a casa é o planeta Terra, que é obrigatório preservar.
Quando se pensa, vê-se claramente a urgência de apelar para a necessidade da regulação e da ética no universo da finança e da economia. Ética - mais uma vez, segundo o étimo grego - tem a ver com o comportamento que se deve ter para habitar a casa comum.
Quando se pensa, espera-se que a justiça funcione. De facto, houve incompetência, aventuras especulativas irresponsáveis e também se fala em corrupção e crimes vários. Sem justiça, como repor crédito e confiança no sistema? Problema maior: quantos acreditam e confiam real e verdadeiramente na justiça em Portugal?
Pensando bem, precisamos de distribuição mais justa da riqueza - não se lia há dias no DN que "os rendimentos dos presidentes executivos das 50 maiores empresas europeias equivalem a 441 salários mínimos da Zona Euro"? Não continua também entre nós a cavar-se cada vez mais fundo o abismo entre a ostentação obscena da riqueza e a iniquidade cruel da pobreza?
Quando se pensa a fundo, talvez se conclua que é tempo de pôr mais o acento na cultura do ser do que na cultura do ter. E não será urgente viver com mais moderação - de mederi, donde vem também meditação e medicina?E torna-se absolutamente claro que está aí o tempo da solidariedade. Se não for por humanidade, ao menos por egoísmo esclarecido. De facto, a acumulação sucessiva de frustração, impotência, fome, degradação, injustiça, pode levar a confrontos sociais de consequências imprevisíveis.
Anselmo Borges

sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

Casas Gafanhoas

Na década de 40 do século passado, as casas gafanhoas não tinham, naturalmente, as comodidades das casas dos nossos dias. Algumas da Cale da Vila, na Gafanha da Nazaré, contudo, já competiam com habitações de certas vilas e cidades portuguesas.

Taizé: Encontro de Bruxelas


"O que procuramos no mais profundo de nós mesmos é a paz, a paz do coração e a paz para toda a família humana. Santo Ambrósio dizia: «Começai em vós a obra da paz, para que, uma vez pacificados vós mesmos, leveis a paz aos outros»."
Meditações do Irmão Alois

quinta-feira, 1 de Janeiro de 2009

Mensagem de Ano Novo do Presidente da República


Conselhos oportunos a ter em conta



Na sua Mensagem de Ano Novo, o Presidente da República, Cavaco Silva, fez um apelo, veemente, à verdade que deve ser dita aos portugueses:

"Não devo esconder que 2009 vai ser um ano muito difícil.
Receio o agravamento do desemprego e o aumento do risco de pobreza e exclusão social.
Devo falar verdade.
A verdade é essencial para a existência de um clima de confiança entre os cidadãos e os governantes.
É sabendo a verdade, e não com ilusões, que os portugueses podem ser mobilizados para enfrentar as exigências que o futuro lhes coloca.
A crise financeira internacional apanhou a economia portuguesa com algumas vulnerabilidades sérias.
A crise chegou quando Portugal regista oito anos consecutivos de afastamento em relação ao desenvolvimento médio dos seus parceiros europeus.
Há uma verdade que deve ser dita: Portugal gasta em cada ano muito mais do que aquilo que produz.
Portugal não pode continuar, durante muito mais tempo, a endividar-se no estrangeiro ao ritmo dos últimos anos."

Na sua Mensagem, cheia de recomendações e de apelos, Cavaco Silva também mostrou confiança na capacidade dos portugueses para Portugal vencer a crise.

Já passámos por outras situações bem difíceis. Não nos resignámos e fomos capazes de vencer.
O mesmo vai acontecer agora. Tenho esperança e digo-o com sinceridade.
Cada um deve confiar nas suas competências, nas suas aptidões e capacidades.
Este é o tempo de resistir às dificuldades, aos obstáculos, às ameaças com que cada um pode ser confrontado.
Não tenham medo.
O futuro é mais do que o ano que temos pela frente.
O futuro será 2009, mas também os anos que a seguir vierem.
Acredito num futuro melhor e mais justo para Portugal, porque acredito na vontade e no querer do nosso povo.

Podem ler toda a Mensagem aqui.

Dia Mundial da Paz


Papa Bento XVI apela ao fim da violência e do ódio em 2009

O Papa Bento XVI apelou hoje ao fim da "violência" e do "ódio", em 2009, aludindo ao Médio Oriente onde, segundo garantiu, a grande maioria da população israelita e palestiniana quer "viver em paz".
"A violência, o ódio e o desencorajamento são também formas de pobreza a combater e talvez mesmo as mais terríveis. Que elas não vençam!", apelou o Papa, no Vaticano, por ocasião do primeiro dia do ano, celebrado pela Igreja Católica como o Dia Mundial da Paz.
Bento XVI disse ter "confiado a Maria, mãe do filho de Deus, o desejo profundo de viver em paz, que emana do coração da grande maioria da população israelita e palestiniana, mais uma vez colocada em perigo devido à violência massiva que eclodiu na Faixa de Gaza em resposta a outras violências".
Bento XVI desejou ainda "o dom da paz para a Terra Santa e para toda a humanidade".
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Um poema de Orlando Figueiredo

MÃOS DADAS


Mãos dadas
sem querer dominar o outro
Apenas
amamos os malmequeres
com o mesmo amor
que amamos as rosas

Mãos abertas
sem medos e sem ódios
Apenas
abominamos a guerra
e buscamos as raízes
da alma

Mãos fechadas
Apenas
para agarrar o amor
e o espalhar depois
como quem semeia
girassóis
numa planície descoberta


Orlando Jorge Figueiredo

Farmácia Morais serve as Gafanhas há 68 anos

Ester Morais mostra as formas onde fazia as pastilhas


Ester Morais: a mais antiga farmacêutica da Região Centro

Quem entra na Farmácia Morais, ao lado da igreja matriz da Gafanha da Nazaré, talvez nem lhe passe pela cabeça que se trata da mais antiga de todas as Gafanhas. E tem, desde a primeira hora, como proprietária e Directora Técnica, a Dra. Maria Ester da Silva Ramos Morais, que é, segundo informação colhida junto da Ordem dos Farmacêuticos, a Directora Técnica com mais anos de actividade na Região Centro.
A Farmácia Morais também é, pensamos nós, o estabelecimento com mais anos de porta aberta na Gafanha da Nazaré, nunca tendo mudado de ramo, como farmácia que sempre foi.
Embora delegue a maior parte do trabalho de atendimentos nos empregados, a sua presença responsável e tutelar não passa despercebida a ninguém, olhando muitos clientes como conhecidos de longa data, com quem troca algumas palavras, em jeito familiar.
Um dia destes procurámo-la para a entrevistar, porque consideramos justa uma referência no TIMONEIRO, o jornal da Gafanha da Nazaré, ou não estivesse a Dona Ester, como é conhecida e tratada pelos gafanhões, ao serviço dos doentes, desta terra e região, a caminho dos 69 anos.
Maria Ester Morais é natural da freguesia de Santo Ildefonso, no Porto, em cuja Faculdade de Farmácia se licenciou em 1936. Casada com José Rodrigues Morais, já falecido, começou a exercer a sua profissão em Fermentelos, em farmácia própria de que foi Directora Técnica. Depois, reconhece que o mundo dá as suas voltas, nem sempre esperadas.
Seu marido veio à Gafanha da Nazaré com um amigo e aqui conheceu o mestre António Bolais Mónica. Conversa puxa conversa, o mestre António acabou por convencê-lo a transferir a Farmácia Morais para a nossa terra, o que veio a acontecer precisamente em 11 de Maio de 1940. Até hoje.
Estaria na base desta mudança a perspectiva de um promissor crescimento da Gafanha da Nazaré, onde estaleiros e indústrias a eles ligadas seriam sinal evidente de progresso.
Edifício onde foi instalada, há 68 anos, a Farmácia Morais

A Farmácia Morais transferiu-se para um edifício que ainda existe, na esquina do entroncamento da rua Dr. Josué Ribau com a Av. José Estêvão. Depois, passou para o outro lado da Avenida, para a residência que foi do professor Manuel Joaquim Ribau. A última mudança foi para junto da igreja matriz.
Ester Morais recorda-nos os primeiros tempos, em que os medicamentos eram manipulados pelos farmacêuticos, nos seus laboratórios. Os médicos receitavam, indicando as doses dos produtos químicos que, livres ou associados, curavam as doenças dos pacientes. Lembrou as maleitas de há 60 anos: tosse coqueluche, diarreias, lombrigas, tuberculose e sífilis, entre outras mais passageiras.
Considera que o relacionamento com os médicos, ao longo de todos estes anos, foi sempre excelente. Quando a Farmácia Morais se fixou na Gafanha da Nazaré, havia o Dr. José Rito, o primeiro médico gafanhão. Logo a seguir veio o Dr. Joaquim António Vilão. E a nossa entrevistada, conta, com gosto, o dia em que ele lhe apareceu, na sua farmácia, a apresentar-se. “Fiquei admirada, quando o vi; é que ele tinha sido meu colega na Universidade do Porto, onde frequentámos disciplinas comuns; veio de Figueira de Castelo Rodrigo e aqui se fixou; a seguir montou consultório o Dr. Maximiano Ribau, falecido no passado dia 22 de Dezembro", esclarece Maria Ester.
Recorrendo à sua memória, a Directora Técnica da Farmácia Morais evoca os tempos recuados em que, “mesmo gente de bens”, tinha uma certa “aversão aos médicos”. “Havia pessoas que adoeciam e não se tratavam”, por razões que nunca compreendeu.
Frisa como procurava levá-las a vencer a barreira da “ignorância e dos preconceitos”, estimulando-as a consultarem um médico, porque “a saúde é preciosa”.
Ester Morais sente o carinho dos gafanhões e refere que alguns, que mudaram de residência, continuam a procurar a sua Farmácia, tão identificados estão com ela.

Fernando Martins
NOTA: Artigo publicado no TIMONEIRO de Janeiro

Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz



Na Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz, sublinha-se que «a disparidade entre ricos e pobres tornou-se mais evidente»


"Combater a pobreza implica uma análise atenta do fenómeno complexo que é a globalização. Tal análise é já importante do ponto de vista metodológico, porque convida a pôr em prática o fruto das pesquisas realizadas pelos economistas e sociólogos sobre tantos aspectos da pobreza. Mas a evocação da globalização deveria revestir também um significado espiritual e moral, solicitando a olhar os pobres bem cientes da perspectiva que todos somos participantes de um único projecto divino: chamados a constituir uma única família, na qual todos – indivíduos, povos e nações – regulem o seu comportamento segundo os princípios de fraternidade e responsabilidade"

Tecendo a vida umas coisitas – 111


BACALHAU EM DATAS- 1


APRESENTAÇÃO

Caríssima/o:

Hoje, com todo o gosto, iniciamos com uma data de bacalhau, o que pode ser lido de várias maneiras; mas, das duas mais correntes (muito bacalhau e... bacalhau em datas), escolhi a última. Assim, se tivermos saúde e audácia, e enquanto o espaço no-lo permitir, com as vossas paciência e sábia colaboração, iremos descobrindo e penetrando no reino do “fiel amigo”.
Não, não se iludam que não trarei novidades nem muito menos descobertas impensáveis; também não apelarei para a minha experiência nesses domínios, que a não tenho; ainda muito menos poderei apresentar-me como estudioso nessa área...
Então, perguntareis com toda a lógica, que vem este patarata escrever aqui e sobre o bacalhau?
Tão-só apresentar uns linguados (perdão, uns apontamentos rabiscados...), alinhavados ao longo destes últimos anos e que fui pescando nas arcas dos entendidos. Serão enfadonhas tais águas para os peritos; uma chatice para os bravos pescadores; uma incursão desnecessária para os empresários...
Apesar disso rumarei mesmo contra-corrente e com o vento contrário, convencido como estou que uma acha será sempre uma achega para uma boa fogueira onde todos nos poderemos aquecer, petiscando uma isca de bacalhau salgado e conversando mano a mano para acertar agulhas...
E a porta fica sempre aberta para uma boa corrente de ar, refrescante e purificadora; com tal brisa a jornada será mais pronta e a barra abrir-se-á para uma entrada ansiada e festiva...
Como navegaremos?
De vela latina, bolinando, sabendo onde fica a arribação e procurando nunca perder o norte.
Porém, se tal acontecer, estou pronto a ceder o leme para que alguém corrija a rota...
E... vamos com Deus!

Próspero Ano Novo!

Manuel