Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
A PAZ AO ALCANCE DE TODOS
"New York Times" esteve na Gafanha da Nazaré
(Foto do New York Times)
Jornal americano descobre
o bacalhau na Gafanha da Nazaré
Fim de Ano na Madeira
Logo à saída do aeroporto de Santa Catarina, fomos acariciados no rosto pela brisa morna da noite madeirense. O encanto prolongou-se até à entrada para os autocarros, que nos esperavam, onde dois simpáticos jovens madeirenses, envergando trajes típicos da região, nos presentearam com o perfume de uma orquídea e um minúsculo barrete simbólico.
Fomos conduzidos ao centro de Juventude da Madeira, onde ficámos muito bem instalados, durante a nossa estada na ilha. Dado o tardio da hora e o cansaço da viagem, feita de noite, não pudemos apreciar a qualidade e a beleza das instalações. Só na manhã seguinte nos foi possível contemplar todo o empenho e encanto das ornamentações de Natal. Louvor seja feito às mãos meticulosas que deram o seu toque a toda a casa, realçando a exuberância dos enfeites e o colorido das formas.
Durante a nossa permanência, demos a volta à ilha, em autocarro, e eu não posso esquecer o fascínio e sedução que senti por esta terra encantada; fiquei totalmente rendida a esta obra do Criador. Os grandes penhascos arrojando-se para o mar; as encostas repletas de vegetação luxuriante; as extensas plantações de bananeiras, a desafiar o apetite do mais esfomeado; a aldeiazinha perdida no Curral das Freiras, observada do altaneiro miradouro da Eira do Serrado; as temperaturas mais baixas, do Pico do Areeiro, a convidar à compra do barrete do “Alberto João”... e alguns não resistiram à tentação; o almoço em Porto Moniz, onde saboreámos o famoso espada da Madeira; as temperaturas amenas das águas do mar, cativas em piscina natural; quantos de nós não sentiram a nostalgia do “maillot”, arrumado a um canto, lá no velho continente!... Ficaram as fotos para recordar!
Ao longo da viagem, em autocarro, iam sucedendo em catadupa, ora encostas ensolaradas, ora picos altíssimos que se adivinhavam por entre um nevoeiro cerradíssimo. Daí a pouco tempo, o sol vencia de novo o seu antagonista, deixava-nos admirar as polícromas e variegadas flores que ofereciam ao forasteiro, o sortilégio das suas formas: agapantos, orquídeas, buganvílias, sobrálias, antúrios, hibiscos, maçarocas, estrelícias, etc. Fascinou-me a garridice das “manhãs de páscoa” que proliferavam em muitos jardins madeirenses, a fazer inveja às nossas raquíticas “estrelas de natal”, aprisionadas em pequenos vasos e oferecidas, na época natalícia. Fiquei embriagada de cor e beleza, com as casinhas de colmo de Santana; o colorido das madeiras, a contrastar com a alvura das paredes, fizeram as delícias dos Companheiros.
E que dizer das ornamentações soberbas das ruas, do presépio gigantesco que é toda a baía do Funchal, do mar de luz que ofuscava o transeunte... E para cumular toda esta beleza, a apoteótica passagem de ano com o majestoso fogo de artifício e toda a euforia dos espectadores. Não tenho palavras adequadas para traduzir todo esse arrebatamento. Só a alma o sente e o guarda para memória futura.
Mas, para que todo esse “clima” fosse possível, não devo esquecer todo o empenhamento dos nossos Companheiros da revista Campismo, - a solicitude do Manecas - e a simpatia dos nossos compatriotas da Madeira, na pessoa do Companheiro Isidro. Este fez questão de nos acompanhar no convívio da passagem d’ano, onde houve de tudo à mistura: petiscos saborosos, cantorias, dança... Os Companheiros puderam dar largas ao que lhes ia na alma. Cantámos e dançámos até às tantas, havendo apenas a preocupação de chegar ao Centro de Juventude antes das suas portas fecharem. Houve alegria, camaradagem, confraternização sã. O resto da noite foi para ganhar forças para a viagem de regresso. O tempo passou num ápice ... e... para trás ficou a saudade duma ilha paradisíaca!
A todos quantos nos permitiram esta inolvidável experiência, o nosso grato reconhecimento. Bem-hajam!Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008
Ainda o Estatuto dos Açores
Presidente da Junta quer prendas para os gafanhões
Crise para a história
Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008
CAVACO ZANGADO COM RAZÃO
Santa Maria Manuela, na hora da partida para Espanha
O Leopoldo Oliveira, sabendo da minha impossibilidade de ver sair, barra fora, o Santa Maria Manuela, a caminho de Espanha para os acabamentos necessários, apressou-se a enviar-me uma foto da partida. Obrigado, meu caro, pela partilha, tão oportuna. Então, cá esperamos o Santa Maria Manuela, lá para Outubro, para nosso regalo.Santa Maria Manuela regressa ao mar
Seminaristas de Aveiro
Domingo, 28 de Dezembro de 2008
Rua Júlio Dinis
O Nosso Mar
Em tempo de festas
Suave Aparição
TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 110
A Família
Sábado, 27 de Dezembro de 2008
IDOSOS ABANDONADOS
INVERNO
Assumindo como indiscutível que todas as Estações do Ano têm o seu encanto e a sua beleza, não quero deixar de assinalar, aqui, essa verdade, que sempre me acompanhou na vida. Desde tenra idade. Eu até costumava dizer, como ainda agora digo, que um dia de chuva não deixa de ser belo, tanto quanto nos permite saborear o aconchego da nossa casa e dos nossos recantos dentro dela. Ouvindo a chuva a bater nas vidraças, enquanto se lê um bom livro ou se ouve uma música melodiosa, sentimos um não sei quê que nos faz olhar para o nosso interior, quantas vezes em busca de sonhos à cata de verem a luz do dia. Hoje sinto isso, impedido de sair com uma constipaçãozita arreliadora. Por isso, aqui desta minha tebaida, vendo o sol muito tímido coado pela vidraça e tecido pelos ramos hibernados da árvore, gozo o prazer de alimentar os meus anseios.DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM
Procura...
Há um ser errante em meu destino
Que procura, busca um sentido;
P’ró Além se sente impelido,
Numa vida que tem sido um desatino!
Há castelos no ar, nunca alcançados
Fímbrias de nuvens passageiras,
Emboscadas por vezes traiçoeiras
Sonhos não vividos, mas sonhados!
E minh’alma sedenta do eterno,
Procura em ti esse apoio fraterno
Que como bálsamo para a dor existe!
Mas a busca vem de longe e não termina
Neste espaço sideral não se confina
E no fundo do meu ser a dor persiste!
Maria Donzília Almeida
Dezembro de 2008
Uma pequena pausa para férias
Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008
SANTO NATAL PARA TODOS
Deste meu recanto, desejo a toda a gente um SANTO NATAL. Que a ternura do MENINO nos ajude a descobrir caminhos de paz, de fraternidade e de amor.
Fernando Martins
Conto de Natal
Deambulo, por uma artéria movimentada, desta Veneza Portuguesa. O tropel dos transeuntes, que, aos magotes, percorrem a avenida, deixa transparecer a ansiedade e o nervosismo que os dominam. Está a aproximar-se o Natal e há que ultimar as compras da época. Aquilo que ainda falta para a, b, ou c. Sim, que o Natal vive das compras, dos desejos, mais ou menos sentidos, de Boas Festas, da troca de prendas, no dia de ceia. O Natal sem prendas não é Natal! Sem consumismo, também não! Fica a gratidão dos comerciantes, que, por estas alturas, engordam, significativamente, as suas receitas. A correria é tanta, que quase se atropelam, como figurantes de um presépio virtual. As ornamentações de Natal, que proliferam por toda a parte: árvores iluminadas da avenida e outras artérias, fachadas dos prédios, e os arcos nas ruas, evocam, nas pessoas, a lembrança de outros natais. Em mim, trazem a nostalgia duma harmonia perdida, o sentir que não é só o consumismo, nem a ornamentação garrida do meio circundante, que nos faz vivenciar o espírito natalício. Natal já se comemora há muitos séculos, desde o nascimento do Menino Jesus, em que as pessoas se agregam e congregam para festejar esse evento.
Nos meios rurais, há muitos anos atrás, a comemoração era feita, de modo diverso. As crianças da casa, montavam na “sala do Senhor”, dirigido para a janela, a verdadeira representação do Natal – o presépio. Com a industrialização da sociedade e a e(in)volução dos costumes, esta instituição foi-se perdendo e está, hoje, em agonia. Mas no ambiente rural, a tradição era religiosamente cumprida. A criançada afadigava-se, para produzir o melhor presépio. Iam buscar musgo, à mata nacional, já que ainda não existiam os pinhais particulares. O chão era um tapete de “alcatifa” verde, antecipação da coqueluche das alcatifas. Na fase seguinte, escolhiam criteriosamente as figuras de barro, representativas das personagens religiosas apreendidas na catequese. Os presépios dessa altura eram dignos de um concurso, em que a selecção seria difícil. A imaginação, a criatividade, o espírito laborioso eram dignos de registo. Além do fervor natalício, era uma boa forma de as crianças desses meios rurais, sem acesso nem possibilidade de adquirir as modernices de hoje, darem largas à sua fantasia e espírito criativo.
Hoje, com a evolução dos tempos, essas genuínas manifestações de Natal, foram substituídas por ornamentações de toda a espécie, com fitinhas, velas, plissados, luzes multicores e tudo o que a imaginação e a estética podem conceber. É esfuziante e apelativo para crianças e adultos, que sucumbem à intensidade deste jogo persuasivo. Nos dias de hoje, nos subúrbios das grandes cidades, parece que todos sofrem de falta de imaginação. Repetem com perfeição, aquilo que se passa nas grandes urbes. Mas, para que não sejam apelidados de puros imitadores, acrescentaram a essa panóplia de ornamentações, uma figura bizarra, vestida de vermelho e branco. Colocaram-na num sítio bem visível da casa, normalmente na fachada principal, empoleirada em escada tosca, numa posição de alpinista falhado. Será, seu propósito, subir ao telhado e descer pela chaminé para deixar as prendas aos miúdos e graúdos? Mas, vejo-o sempre numa posição estática, não arreda pé! Chegará à chaminé, no dia de S. Nunca à tarde? Desejo-lhe boa viagem e que vá estugando o passo!
Tentará isto ser um arremedo da fantasia que a tradição cristã criou acerca da existência das prendas? Recordo, ainda, com saudade, os natais da minha meninice; na véspera de Natal, a pequenada era solicitada a colocar os seus sapatinhos, no borralho (=lareira), por baixo da chaminé. Depois de uma noite de sono, sobressaltada, a imaginar a surpresa que os esperava, logo de manhãzinha, muito cedo, acorriam à cozinha para fazerem como S. Tomé: ver para crer. Ouviam-se risos de alegria e crianças aos pulos de contentes, extravasando tudo o que lhes ia na sua alma pura, de seres angelicais.
Tenho bem viva na memória, a cena ocorrida comigo num dia de Natal de há mais de meio século. Ainda ensonada, dirijo-me à cozinha onde encontro o meu pai, que me diz com a voz mais inocente deste mundo: M....D. vai buscar as prendas que o menino Jesus te deixou no sapatinho! Fui acometida do maior espanto do mundo, ao confirmar que aquele pequenino ser, rechonchudo e diáfano, me incluíra na sua lista de entregas ao domicílio! Invadiu-me uma admiração, um espanto, uma gratidão, uma veneração, cujos efeitos, ainda hoje perduram, (no meu relacionamento com as pessoas). Era assim, a entrega de prendas, com beleza e singeleza, às crianças inocentes e puras.
Hoje tudo está mudado; as crianças de hoje, habituadas às Playstations, aos gameboys, aos computadores, às pens, etc, desconhecem por completo a existência de outros costumes do passado. Se calhar, o Menino Jesus ainda não se rendeu à invasão das novas tecnologias, vulgo T.I.Cs. Provavelmente, estará a precisar de umas aulitas de Informática, para se actualizar e informatizar o serviço de recepção no Céu. Temos cá na terra, nomeadamente, numa Escola, bem conceituada, no ranking, pessoal altamente competente nesse domínio, uns verdadeiros experts! Só é pena essa escola simpática ficar num lugar recôndito do Planeta Terra: a Gafanha da Encarnação: talvez haja aliciantes para convencer o Menino a vir cá: a proximidade da ria, como local aprazível; a existência de ovos-moles, na Veneza Portuguesa, a curta distância desta vila, à beira ria plantada, aquelas deliciosas sandes de leitão, provenientes duma cidade tão visitada por forasteiros, a Mealhada, que matam a fome, aos professores famintos; é vê-los a digladiar-se para conseguir a maior (!!!).
Assim, quando lá entrar alguém, no Paraíso, as formalidades de ingresso, o check in,, serão altamente facilitadas. E quando houver filas, será que há candidatos ao céu, neste inferno de vida em que vivemos? Andamos todos com tanto asco (pecado!) à ministra! A burocracia seria significativamente encurtada. Vêem as grandes vantagens da Informática? E eu que demorei tanto tempo a render-me a essa evidência. Agora, não a dispenso!
Tudo veio a propósito de o Menino Jesus, hoje em dia, não trazer prendas, que tenham a ver com esta revolução tecnológica.
O presépio, depois de um curto período de agonia, sucumbiu à mudança dos tempos. Em vez de observarmos, pela época do Natal aquelas maravilhas de arte popular, começamos a vislumbras a figura do Santa Claus, sentado, escarrapachadamente no seu trenó, puxado por resistentes renas. Esta imagem é motivo pictórico recorrente, nos cartões de Natal, que, infelizmente, também estão em vias de extinção. Até isso, que, de alguma forma, constituía um incentivo à escrita e à criação artística, quando eram manufacturados pelo remetente, está no seu estertor de morte. Todos esses salutares costumes se estão a perder, dando lugar a formas estereotipadas de mensagens natalícias. Nos dias de hoje, os computadores, mais precisamente a Internet, conquistaram o terreno e quase que detêm o monopólio da comunicação. Daí, a pertinência das siglas: W(ide) W(orld) W(eb).
Outra das representações natalícias, que se espalha por toda a parte, é a famosa árvore de Natal. Dentro e fora das casas, na rua e nos estabelecimentos comerciais, de maior ou menor porte, ela aí está, imponente e enfeitada de forma soberba. Sabemos, através dos media, que as várias capitais do mundo, se empenham para alcançar o primeiro lugar no ranking, com o objectivo de conseguirem entrar no Guinness; é esta a meta almejada!
Será que o espírito do Natal, apesar de todas as transformações que se deram na sociedade, de toda a evolução tecnológica, de todo o materialismo reinante, ainda consegue resistir, nesta luta desigual? Compete a cada um de nós, fazer com que prevaleça ou desapareça essa tão aconchegante vivência mística. do Natal.
Maria Donzília de Jesus de Almeida
Natal de 2006
Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008
NATAL: Notas do Meu Diário
Daqui a pouco, o "Natal do calendário" está aí!
De novo, o brilho do presépio, os cânticos tradicionais, a comida da consoada, a troca de presentes, os desejos de Boas Festas, os (re)encontros familiares, as campanhas de solidariedade em favor dos menos afortunados, entre muitos outros gestos e expressões de vida, levar-nos-ão, através de uma viagem de amor, à singela e determinante recordação que um Menino nasceu para nos salvar ou, se mais não for, que é possível fazer mais e melhor, em nome da justiça e do respeito que cada pessoa transporta, em si mesmo, desde o seu nascimento, ou seja, desde o seu Natal.
Por tudo isto, o Natal acontece - de uma forma singular e irrepetível - sempre que alguém nasce e é recebido com júbilo e esperança pelos seus.
Não raras vezes, também, nascem aqueles que, tantas vezes, são ignorados, esquecidos ou marginalizados, à maneira dos estalajadeiros que, tal como para Jesus Cristo, teimam em dizer que não têm lugar para o outro na sua hospedaria, que é como quem diz no seu coração.
Celebrar a festa da Incarnação do Deus-Menino é, pois, estar atento ao sofrimento daqueles por quem Ele veio ao mundo e por quem ofereceu a sua Vida.
Vivemos tempos demasiadamente difíceis e incertos para que alguém se dê ao luxo de não aceitar o Natal como o melhor presente que o Homem pode ter. Saiba - saibamos todos - reconhecer, com humildade e empenho esta dádiva.
Vítor AmorimUm Conto de Natal
Tudo começou dois anos atrás. Enviado para a grande urbe pela instituição que lhe substituíra os pais que perdera em criança, depressa abandonou os estudos que viera fazer. Conhecera um amigo com quem tinha alguma afinidade e foi atrás da amizade que a sua presença lhe proporcionava. O amigo trabalhava numa Bomba de Gasolina e este passou a ser o local de vida de João Luís. Disse ao amigo que lhe ia aumentar as vendas e por lá foi ficando. Enquanto o amigo abastecia João Luís limpava os vidros. Em troca do ar sisudo de alguns clientes receando o pedido duma gorjeta, João Luís atirava-lhe: “é oferta da casa”. Outros, porque o serviço era oportuno, contribuíam com alguma coisa. João Luís agradecia não deixando de lembrar que “era oferta da casa”.
O patrão apercebeu-se da presença do simpático colaborador que ia sacando umas sandes e uns sumos nem sempre pagos, mas talvez porque o movimento da caixa vinha aumentando, fechou os olhos à acção do perspicaz assistente. Acabou por autorizar o empregado a proporcionar-lhe meios para uns lanches mais adequados. Saberia ele que João Luís pernoitava no local de trabalho? É verdade: tinha lá o seu cantinho.
O tempo foi passando e já se vislumbrava uma oportunidade de emprego efectivo no local. Mas um dia João Luís ausentou-se e nessa noite houve um assalto à Bomba de Gasolina. Veio a polícia, pergunta atrás de pergunta, não tardou muito, João Luís estava preso preventivamente, por forte suspeita de co-autor do assalto. De nada valeu o aval do patrão e do amigo considerando o rapaz pessoa incapaz de tal gesto.
Na cadeia ninguém percebia como uma tal criatura ali tinha ido parar. Os presos gozavam com a história, os guardas cautelosos ficavam perplexos com o ar bonacheirão do preso e a directora do estabelecimento condoía-se com a situação: tinha um filho da mesma idade e com o mesmo nome. Não tardou muito tempo, João Luís tinha tarefas que lhe permitiam uma certa mobilidade no estabelecimento. Uma delas, zelar o jardim do pátio exterior, altura em que era acompanhado por mais um ou dois presos e um guarda. Durante estas tarefas João Luís regalava a vista para o exterior: uma avenida e mesmo em frente instalavam uma nova Bomba de Gasolina. Isto fascinava-o: saberiam eles conquistar a clientela? Como gostaria de ajudar…
Naquele dia trabalhava sozinho no jardim. O guarda ausentava-se frequentemente para se inteirar do desenrolar do derby futebolístico e a porta para o exterior abriu-se com a força do vento. Alguém não a fechara completamente. Dedicou-se ao trabalho mas não resistiu. Num instante iria oferecer os seus préstimos para quando saísse em liberdade. Teve azar: na bomba retiveram-no indagando da sua experiência no ramo e curiosos pela voluntariedade do moço a conversa foi esticando.
Não tardou muito ouviam-se carros de polícia a tocar e a correr para um e outro lado da avenida. Ficou baralhado: aquilo teria alguma coisa a ver com ele? Ficou por ali. À noite enroscou-se a um canto. Ao outro dia, com tudo mais sereno, resolveu partir. Apanhou boleia num camião que parara para abastecer e seguiu viagem.
Com o sol a pino, ali ia a ermo, a pé, Alentejo adentro. Tinha a roupa que vestia e um boné oferecido pelo camionista. Uma fome desabrida e a goela seca fizeram-no aproximar do monte que avistou. Um casal já idoso regressava a casa fugindo ao calor tórrido. João Luís perguntou se lhe arranjavam um copo de água. Apercebendo-se do estado do rapaz convidaram-no para o almoço. E ele ficou, um dia, e outro e mais outro…
Trabalhava com eles no campo, com eles comia e na sua casa pernoitava. Não dava mostras de pensar partir e ninguém lho mencionava. Afinal onde comem duas bocas comem três e o moço até merecia o sustento. Para Manuel Cortez e Benvinda, João Luís passou a ser o filho que perderam em Angola. O tempo corria devagar e João Luís sentia ter finalmente um tecto. Na vila comentava-se a dedicação do rapaz ao casal.
O Verão estendeu-se, fizeram-se as colheitas e entrou-se no Outono. Manuel Cortez comentava com a mulher a ajuda inesperada. De alguma forma procuravam retribuir ao moço o seu empenho no trabalho. Este ano sim, iriam ter outra vez Natal imaginava ele antecipadamente. E o Natal estava já aí à porta.
Mas quem bateu à porta foi a GNR. Dois soldados vinham com a suspeita de que João Luís era o foragido há muito procurado. Manuel Cortez ficou abatido. Inicialmente não disse nada. Depois, ainda incrédulo pediu que o deixassem ir falar a sós com o rapaz e voltou com a confirmação da suspeita. Mas pediu-lhes por tudo que ignorassem este encontro pois o rapaz se entregaria na vila, depois do Natal, dali a dois dias. Conhecedores da dedicação do rapaz ao casal e da garantia da palavra de Cortez, os guardas olharam atónitos um para o outro pasmados com a insólita proposta. O mais estranho é que concordaram. Efeito da Quadra?!
Nessa noite João Luís esteve muito ocupado: escreveu uma carta onde explicava a sua última decisão, meteu umas coisas num saco e saiu sorrateiramente de casa. De manhã Manuel Cortez sentiu alguma frustração que transmitiu aos guardas. Estes nada podiam fazer além de ficar calados pois foram coniventes numa ilegalidade. O Natal parecia estragado para todos estes intervenientes.
João Luís voltou a tocar a campainha. Algo se passava no interior que demorava o atendimento. Tocou mais uma vez. Ao mesmo tempo a porta abriu-se dando passagem à directora e a um guarda. Ficaram estupefactos com a presença do rapaz. Seguiram-se as explicações e a notícia dos últimos desenvolvimentos. Para já João Luís iria participar da consoada prisional depois de cumpridas as formalidades oficiais. Nessa noite as Rádios e Televisões deram a notícia: “Jovem preso preventivamente, evadido há cerca de um ano, entregou-se hoje no estabelecimento prisional onde estivera retido. O insólito da notícia é que no mesmo dia a polícia prendeu o confesso autor do assalto que levou à prisão preventiva do primeiro por suspeita.” Nessa noite de Natal muita gente gostaria de abraçar João Luís: o amigo da Bomba de Gasolina, o patrão que lhe reiterava o posto de trabalho, os clientes que se habituaram ao seu ar prazenteiro, os soldados da GNR da vila alentejana preteridos pelos da cidade e Manuel Cortez e Benvinda que ganhavam do novo esperança em ter de volta o seu rapaz. A directora sentia-se feliz por ter confiado no seu instinto. E João Luís com redobrada alegria retirou do saco para a mesa da consoada o que carregava: presunto, queijo e vinho. A um canto da sala, no presépio aí instalado alguém foi colocar o Menino Jesus. As luzes ganharam mais brilho e deu-se início à consoada. A Esperança renascia. João Marçal
O natal na poesia portuguesa
Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008
NATAL: Notas do Meu Diário
Faleceu o Dr. Ribau
110 anos da Restauração do Município de Ílhavo
Mensagem de Natal de D. Manuel Clemente
TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 109
Domingo, 21 de Dezembro de 2008
Crónica de um Professor...
“Naquele tempo, a Escola era risonha e franca...” Este excerto dum poema antigo, declamado pelo pai, nos seus tempos de menina, assomava-lhe agora à memória, com toda a acutilância! Chamava-se “O Estudante alsaciano” e era um grito de patriotismo, da época em que a Alsácia foi anexada à Alemanha, na 2ª Guerra mundial. Gravara-se-lhe na memória o tom épico do poema, aliado à voz sonora e bem timbrada do pai, quando, ao serão e à lareira, evocava o seu passado escolar. Estava inscrito no seu livro da 4ª classe, numa época em que o sentimento patriótico era bem inculcado aos alunos! Hoje, que sentimento nutrem os nossos alunos pela pátria? Terão eles alguma noção do que isso é? Preocupar-se-ão a política e os políticos de hoje em preservar e defender esses valores?
Por isso mesmo, os Americanos, com apenas dois séculos de história e uma nação que é um “melting pot”, conseguem transmitir aos seus cidadãos um conceito de patriotismo tão arreigado. De pequenino se torce o pepino e a história americana assim o comprova!
Perde-se a teacher nestas lucubrações, a propósito do aspecto triste, soturno, que a sua Escola, à semelhança de tantas outras deste país, ostenta, nesta quadra natalícia.
Noutros anos, ainda no passado, era ver a Escola a engalanar-se para a vivência do Natal! Mal entrava Dezembro, começavam os preparativos para a ornamentação da mesma. Praticando uma pedagogia de reaproveitamento e reciclagem de materiais de desperdício, os professores das Artes afadigavam-se a dar, ao recinto escolar, um ar de festa e de acolhimento humano. E... louvor lhes seja feito, pois muito bem o conseguiam!
A teacher, que não pertence à área das Expressões, mas que nutre uma admiração enorme pelo esforço, empenho e sentido artístico dos colegas, rejubilava, ao movimentar-se nesse ambiente colorido, alegre e de espírito natalício!
Este ano foi uma tristeza! O litígio que abalou a classe docente e as exigências desmedidas que lhe foram feitas deixaram os professores extenuados, desiludidos e desmotivados. A tutela da educação... esquece que, para alguns alunos, desprotegidos da sorte, é ali, na Escola, que vivem o seu único Natal!
Mª Donzília Almeida
19.12.08TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 108
JESUS É O PRESENTE
Sábado, 20 de Dezembro de 2008
STELLA MARIS: Almoço Solidário
'PROVAVELMENTE DEUS NÃO EXISTE'
É possível que já em Janeiro, nas ruas de Londres, as pessoas se deparem com cartazes no exterior dos autocarros com estes dizeres: "There's probably no God. Now stop worring and enjoy your life" (Provavelmente Deus não existe. Então, deixe de preocupar-se e desfrute a vida).
Trata-se de uma campanha publicitária a favor do ateísmo, promovida pela Associação Humanista Britânica e apoiada pelo célebre biólogo darwinista R. Dawkins, professor da Universidade de Oxford, ateu militante e, segundo muitos, fundamentalista.
A campanha foi um êxito, pois rapidamente conseguiu fundos - dezenas de milhares de euros - mais que suficientes para pô-la em marcha. Segundo a jornalista Ariane Sherine, que a tinha sugerido em Junho, "fazer uma campanha em autocarros com uma mensagem tranquilizadora sobre o ateísmo seria uma boa forma de contrabalançar as mensagens de certas organizações religiosas que ameaçam os não cristãos com o inferno".
Para Dawkins, "a religião está acostumada a ter tudo grátis - benefícios fiscais, respeito imerecido e o direito a não ser ofendida, o direito a lavar o cérebro das crianças". Assim, "esta campanha de slogans alternativos nos autocarros de Londres obrigará as pessoas a pensar. Ora, pensar é uma maldição para a religião".
Logo que apareceu o anúncio da campanha, fui confrontado por um jornalista da TSF: se a achava provocatória. Respondi que até a achava interessante. De facto, era isso mesmo: obrigaria as pessoas a pensar nas questões essenciais, e Deus é uma dessas questões decisivas.
Constatei, mais tarde, que essa foi também a posição de líderes religiosos britânicos, que responderam favoravelmente à iniciativa. Aliás, qualquer um tem o direito de promover as suas ideias através de meios apropriados. A Igreja Metodista agradeceu inclusivamente a Dawkins pelo facto de encorajar um "contínuo interesse por Deus". A rev. Jenny Ellis disse: "Esta campanha será uma boa coisa, se levar as pessoas a comprometer-se com as questões mais profundas da vida." E acrescentou: "O cristianismo é para pessoas que não têm medo de pensar sobre a vida e o sentido."
É significativo aquele "provavelmente". Dawkins não sabe que Deus não existe e, por isso, escreve: "Provavelmente." A existência de Deus não é objecto de saber de ciência, à maneira das matemáticas ou das ciências verificáveis experimentalmente. Nisso, Kant viu bem: ninguém pode gloriar-se de saber que Deus existe e que haverá uma vida futura; se alguém o souber, "esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele".
Afinal, também há razões para não crer, mas, quando se pensa na contingência do mundo, no dinamismo da esperança em conexão com a moral e na exigência de sentido último, não se pode negar que é razoável acreditar no Deus pessoal, criador e salvador, que dá sentido final a todas as coisas. Numa e noutra posição - crente e não crente -, entra sempre também algo de opcional.
Mas, nos cartazes, o mais impressionante é a segunda parte: "Deixe de preocupar-se e desfrute a vida." É claro que o que está subjacente a esta conclusão é a ideia de um Deus invejoso da vida e da alegria dos homens e das mulheres.
Se a primeira parte obriga os crentes a pensar, retirando da fé tudo o que de ridículo - pense-se em todas as superstições - lhe tem andado colado, a segunda tem de levá-los a "evangelizar" Deus. É preciso, de facto, reconhecer que houve e há muitos a quem "Deus" tolheu a vida, de tal modo que teria sido preferível nunca terem ouvido falar no seu nome - pense-se no horror do inferno, nas guerras e ódios em seu nome, no envenenamento da sexualidade, na estreiteza e humilhação a que ficaram sujeitos.
Agora que está aí o Natal, é ocasião para meditar no Deus que manifesta a sua benevolência e magnanimidade criadoras no rosto de uma criança. Jesus não veio senão revelar que Deus é amor, favorável a todos os homens e mulheres e querendo a sua realização plena. Perante um "deus" que os humilhasse e escravizasse, só haveria uma atitude digna: ser ateu.
Anselmo Borges
Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008
NATAL: Notas do Meu Diário
13 de Dezembro
No centro comercial, a multidão, fugidia, olha as montras à cata do provável, mas apenas lhe sai o impossível. No ar, as velhas e sempre novas melodias, que nos embalam e nos transportam a natais de misteriosos sonhos. As crises marcam indelevelmente o ânimo dos desempregados que olham com amargura o fim do mês que está longe com o magro subsídio, sempre recebido como esmola. Mas há os que, sem trabalho, ainda ficam mais ricos, com direito a férias nos Alpes Suíços. Um Natal de mágoas para uns; um Natal de alegrias sem peso nem medida para outros.
Os últimos acontecimentos, carregados de problemas sociais, denunciam a fragilidade de conceitos que tínhamos como certos. A inconsistência de teorias políticas e económicas obriga-nos a repensar a vida presente, numa perspectiva de um futuro com mais segurança e com mais paz. O nascimento do Menino Jesus, que o dia 25 de Dezembro nos oferece, como símbolo da fraternidade universal, pode ser o ponto de partida para opções que nos estimulem e indiquem caminhos para a necessária e urgente construção de uma sociedade mais cristã e, por isso, mais solidária.
Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008
Dia Internacional das Migrações
Crónica de um Professor



