segunda-feira, 30 de Junho de 2008

NA LINHA DA UTOPIA

A mitologia do futebol

1. Se no final, com realismo absoluto, se fizessem contas à vida, muitos clubes e selecções já teriam fechado as suas portas. Só a equipa Espanha, justa vitoriosa do Euro 2008, teria totais razões para sorrir e sentir os frutos do investimento realizado. Mas há muito tempo que as razões foram vencidas, fazendo deste desporto colectivo mais popular do mundo um autêntico caudal de expectativas e representações. Mitologicamente, a aposta do futebol é mesmo essa, encontra-se sempre assente fora da realidade, está no futuro expectante e poucas vezes se tiram, até às últimas consequências, as lições das práticas presentes. Quantas avaliações objectivas não são feitas no mundo do futebol? E se se comparasse o futebol com uma empresa…? Quantas vedetas desiludem e quantos os que se deixam iludir? Quantos nomes famosos nas camisolas representam bem mais o ir à boleia de feitos passados que o empenho dedicado no presente? Estas e tantas outras perguntas pouco se fazem e pouco se respondem…, pois o facto de só um poder ser o vencedor até justifica todas as apostas no futebol muito acima das quatro linhas: publicidade, TV’s, apoios públicos, que parecem superar todas as crises.
2. Segundo registo histórico, tudo começou a 26 de Outubro de 1863, numa reunião entre representantes de 21 clubes, em Londres, tendo sido criado a Football Association. A universidade, instituição secular europeia, esteve na origem da organização do futebol: foram as regras da Universidade de Cambrigde a primeira base de estruturação do futebol. Ebenezer Cobb Morley foi o idealista da Football Association, entidade a que presidiu entre 1867 e 1874. O fenómeno foi-se estendendo; a primeira partida internacional foi entre Inglaterra e Escócia. Na expansão crescente, e contra a visão inglesa que pretendia ter e manter o formato da gestão do futebol, um grupo de países europeus criou, em 1904, a FIFA, Fédération Internationale de Football Association. Com esta organização o futebol popularizou-se e, com “amor à camisola”, começou a difundir-se pelo mundo, tendo sido a África do Sul o primeiro país não europeu a aderir ao novo desporto de equipa em 1909. Depois aderiram a Argentina e Chile (1912) e os Estados Unidos e Canadá em 1913.
3. O crescimento foi tal e continua a ser que ao futebol tudo se junta: moda, canção, política, a par de uma publicidade férrea (como diz Lipovetsky). Uma futebolização social tornou-se, pelo menos na Europa, uma nova espécie de “religiosidade” laica: tudo se escalpeliza, tudo se analisa, tudo se prepara, tudo se agita e grita, festeja ou sofre, numa catarse que por vezes se manifesta até como risco e violência pública. Mesmo nos tempos de crise sócio-económica, a mágica mitológica que contém já o futebol faz com que não pare o seu crescimento. O saldo positivo para a UEFA do Euro 2008 é ainda bem superior ao do Euro 2004 realizado em Portugal. Até onde irá a força dominante do futebol (que ao longo do ano consegue condicionar noites de semana que baralham por completo as agendas da desejada participação social e cultural)? As coisas são como são! Contra factos não há argumentos. A “coisa” cresce, e de que maneira… Os caminhos da Europa andam à volta do estádio, parece que tem que se jogar mesmo com a bola! O que era só entretenimento está tornado a vida colectiva?

Figueira da Foz: Forte e Capela de Santa Catarina

Capela de Santa Catarina em estado de abandono


Comentei ontem, aqui, a traços largos, alguns eventos culturais levados a cabo na Figueira da Foz, para celebrar a intervenção dos figueirenses e povos vizinhos na tomada do Forte, então ocupada pelas tropas napoleónicas, há dois séculos. Disse, também, que dentro do Forte havia uma capela dedicada a Santa Catarina.
Volto hoje ao assunto porque me parece oportuno sugerir que a capela seja recuperada, podendo, muito bem, proporcionar momentos de reflexão a quem chega para conhecer a terra, de praias famosas.
No domingo, ao visitar, no Forte, uma exposição evocativa dos acontecimentos à sua volta vividos há 200 anos, alguém segredava a amigos que seria muito importante que aquele espaço fosse mantido aberto com regularidade, para oferecer aos visitantes páginas da história local. Concordo inteiramente, embora reconheça que, neste país de burocracias, não hão-de faltar complicações que obstem à intervenção no Forte.
De qualquer forma, penso que vale a pena equacionar a questão, no sentido de tornar útil aquele património, símbolo de glórias passadas.
A capela estava fechada e com sinais evidentes de abandono e degradação por fora. Julgo que por dentro estará no mesmo estado lastimável.
Dizem os folhetos turísticos que “a capela, de planta centrada e cúpula de nervuras, dedicada a Santa Catarina de Ribamar”, se deve ao arquitecto Mateus Rodrigues, nos finais do séc. XVI. Ainda se diz que em 1645 serviu como tribunal da Inquisição.
Não ficaria bem, nos espaços anexos à capela, um pólo museológico do Museu Municipal, dedicado à inquisição? Com capela restaurada e funcional, mais pólo museológico, a Figueira da Foz teria ali mais um motivo de interesse para quem chega.

FM

Shabab no Porto de Aveiro

Veleiro Shabab Oman


O veleiro Shabab Oman acostou ao Porto de Aveiro na passada sexta-feira. Proveniente de Omã, a embarcação participará na Tall Ship Race, no próximo mês de Setembro. A passagem pelo Porto de Aveiro destinou-se a conhecer melhor o porto e a região. Partiu já para Rouen, mas vai voltar.

Construído em Buickie, na Escócia, em 1971, o RNOV “Shabab Oman” entrou ao serviço da Armada Real de Oman em 1979, funcionando como navio-escola para a formação de pessoal militar e civil. A tripulação é composta por sete oficiais, sete sub-oficiais de Marinha e 18 marinheiros. Tem capacidade para alojar 26 estudantes com mais de 17 anos. Para além das actividades formativas, o veleiro tem também servido como embaixador de boa vontade do sultanato, com quatro continentes já visitados, escalas em cerca de 100 portos de 43 países diferentes.
Permitam-me que sublinhe a beleza deste veleiro que passou por aqui. Como ele, outros sulcam as nossas águas, quantas vezes sem lhes podermos pôr os olhos em cima. Vale bem a pena, pois, andarmos com mais atenção.


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PONTES DE ENCONTRO


Onde estão os medicamentos para a loucura do mundo?

No dia 25 de Junho de 2008, o jornal Público noticiava que o Presidente do INFARMED (Autoridade Nacional do Medicamento e dos Produtos de Saúde, dependente do Ministério da Saúde, que tem a seu cargo, a nível nacional, a regulação, avaliação, autorização, disciplina, inspecção e controlo de produção, distribuição, comercialização e utilização dos medicamentos), Professor Doutor Vasco Maria, reconheceu, num fórum, em Lisboa, que a contrafacção de medicamentos, é um "problema crescente, à escala mundial, grave e com consequências muito importantes."
O Professor Vasco Maria sublinhou que este problema não se passa só nos países pobres, mas também nos países desenvolvidos, exemplificando que, em 2006, nas fronteiras da União Europeia, foram apreendidas mais de 2,7 milhões de unidades de medicamentos, o que se traduz num aumento de 380%, em relação ao ano anterior.
Acrescentou, ainda, que a contrafacção também deixou de estar limitada às áreas tradicionais, como era o caso da impotência sexual e do emagrecimento, para já se ter situado em áreas do suposto tratamento do cancro, das doenças cardiovasculares ou neurológicas. Sendo, "um problema global, só é possível combatê-lo de maneira global, através de todos os agentes envolvidos, como fabricantes, autoridades reguladoras, profissionais de saúde, polícias, magistrados e consumidores", afirmou.
Que o mundo está a caminhar para a loucura, o desnorte e a irresponsabilidade total já não é novidade nenhuma. Os paradoxos instalam-se, a confusão reina, os infractores tornam-se invisíveis e os tentáculos e as redes clandestinas que se vão criando, metodicamente, chegam perfeitamente para alimentarem este e outros negócios que envolvem, à escala mundial, quantias astronómicas de dinheiro. Toda a gente sabe que, à custa do lucro fácil, países como a India ou a China (que não são exemplo para ninguém) passaram a produzir toda uma série de medicamentos, em condições de rigor mais que duvidosas, que, depois, são enviados para a Europa (a Islândia é um dos principais entrepostos europeus), onde ganham o estatuto de credibilidade e de garantia, passando a ter o nome de genéricos. Segundo o INFARMED, no caso português, estes medicamentos são em tudo iguais aos medicamentos originais, seja em qualidade, equivalência, biodisponibilidade e biocompatibilidade. Não sei porquê, mas creio que, não fosse esta alteração, meramente geográfica, todas estas equivalências não seriam aprovadas, de acordo com o rigor científico exigido aos medicamentos originais que lhe deram origem, após terem perdido o prazo da protecção comercial da sua patente.
Não bastavam já estas questões, não tão disparatadas como se possa pensar, e que me criam sérias dúvidas entre optar por medicamentos genéricos ou de marca, quando sou confrontado com esta notícia da contrafacção de medicamentos, onde a India e a China, entre outros países, são apontados como locais de fabrico. Quem apostou neste processo de contrafacção viu que o podia fazer, e uma das condições para tais projectos, à margem da lei, avançarem é darem a certeza de lucro garantido, na medida em que sabem que as autoridades, que têm a seu cargo a fiscalização e o controle de qualidade dos fármacos, não têm condições para uma fiscalização suficientemente eficaz. Mais uma vez, é o lado mais obscuro e louco do mundo a procurar vencer o mundo dos valores e da ética. Porque será? O que está a falhar para esta barbárie não parar?
Ao contrário do que parecem querer fazer passar na notícia, estas vendas não são só feitas via Internet, mas, provavelmente, também numa qualquer respeitável farmácia ao pé da nossa porta. Quem é que pode garantir, honestamente, o contrário? Uma certeza parece óbvia: já, antes, foram abertas as portas e as condições para que tudo isto esteja a suceder. Não é de admirar que este abrir de portas e da criação de condições, que levou à contrafacção de medicamentos, tenha sido iniciada em nome de cortes nas despesas de saúde de um qualquer Estado do globo. Diz-se que o barato sai caro; esperemos que não seja este um exemplo disso mesmo. Resta-nos saber se, ainda, é possível fechar esta caixa de Pandora, pois, se não for, é caso para dizer que pode-se não morrer da doença, mas as probabilidades de morrer da cura vão aumentado, cada vez mais!

Vítor Amorim

Tempos de Guerra: A boroa para fazer sopas de café

"Atravessámos a velha ponte de madeira, que ligava o Forte à Barra, e seguimos apressados, porque o João sabia bem que não era chegar e comprar. Tínhamos de esperar numa fila a nossa vez e se não fôssemos lestos, o meu vizinho corria o risco de ficar sem boroa.
Chegámos e a fila estava longa. Saía da padaria e prolongava-se pelo passeio lateral. A fila não era singela, mas compacta, o que levava a responder ao “quem é a seguir?” a dois ou três balconistas, patrão e empregados. Outro patrão andava de porta em porta e vender pão de trigo, numa bicicleta com cesto, de vime sem casca, de duas abas, que pendiam para cada lado do porta-bagagens.
À medida que nos aproximávamos do balcão, começámos a ouvir, com alguma insistência, as recomendações dos atendedores, ditadas maquinalmente, “leve menos, que a boroa não chega para toda a gente”. Mas todos atiravam, receosos, que havia em casa muitas bocas a comer, e nem sempre se via outra coisa na mesa, para além da boroa, que se tragava com café, que mais não era do que água tingida com cevada torrada moída."

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domingo, 29 de Junho de 2008

Figueira da Foz: Recriação da Guerra Peninsular – 2







Legenda: De cima para baixo e da esquerda para a direita: Estudantes participaram na luta; Painel da exposição na Biblioteca; Populares deram um contributo decisivo, não faltando as mulheres; Placa comemorativa do bicentenário; Luta corpo a corpo; Populares no fim da luta; Soldados à espera do combate; Não faltaram os mortos. (Clicar nas fotos para ampliar)

Este fim-de-semana, como referi há dias, foi dedicado na Figueira da Foz às celebrações do Bicentenário do envolvimento desta região na Guerra Peninsular (1807 - 1814), mais conhecida por Invasões Francesas, por ordem de Napoleão Bonaparte.
Ontem, sábado, pude apreciar, na Biblioteca Municipal, uma exposição alusiva ao evento, que deu bem para recordar o que foi esse período em que a Corte Portuguesa se transferiu para o Brasil, assumindo o povo a sua quota parte na defesa da dignidade da Pátria, com os inerentes sofrimentos que isso implicou. Na eucaristia das 19 horas, celebrada na igreja matriz de S. Julião, foram recordadas as vítimas das Invasões Francesas. Participaram nesta cerimónia, que foi animada musicalmente pelo coral David de Sousa, as autoridades políticas e militares.
Hoje, domingo, durante a manhã, também participei no descerramento da Placa Comemorativa do Bicentenário da Tomada do Forte de Santa Catarina, que ocorreu em 27 de Junho de 1808. Diz o folheto distribuído no local que, por força da presença das tropas de Napoleão, “o povo vive à míngua de tudo, [sendo] ameaçado e ultrajado. A revolta popular iniciada no Porto alastra-se. Correm rumores de que a Inglaterra prepara um desembarque de tropas para se aliar ao exército português na luta contra o invasor.
“Para ajudar a alcançar este objectivo, forma-se, em Coimbra, um Batalhão Académico, formado por 40 voluntários, 25 dos quais estudantes, que, sob o comando do sargento de artilharia Bernardo Zagalo, parte em marcha, dia 25 de Junho, rumo à Figueira com a missão de atacar de surpresa os franceses que ocupam a vila e o Forte de Santa Catarina.”
Pelo caminho, muitos populares juntaram-se ao Batalhão, com as suas foices, piques e lanças. Era imperioso vencer os franceses e criar condições para o desembarque das tropas aliadas, comandadas por Wellington. Efectivamente, isso veio a acontecer entre 1 e 5 de Agosto, na Costa de Lavos.
Ora, hoje foi oferecido ao povo a recriação da tomada do Forte, com a consequente substituição da bandeira francesa pela bandeira de Portugal. Depois da vitória, uma salva de artilharia anuncia a libertação da vila e a prisão dos militares franceses, que são levados para Coimbra. A recriação desta passagem histórica foi da responsabilidade da Associação Napoleónica Portuguesa – Grupo de Recriadores Históricos do Município de Almeida.
Muito povo associou-se a esta manifestação cultural, na manhã deste domingo.
Permitam-me que destaque a importância destas celebrações, num tempo em que tanto se esquece, segundo creio, o passado. Apesar da distribuição de informações sobre o evento, penso que os mais novos pouco ficaram a saber do que aconteceu há 200 anos. Mas nestas situações, os mais velhos têm de assumir as suas responsabilidades, transmitindo aos mais novos, com os seus conhecimentos de história, se é que os têm, o que foi o viver dos nossos avós. Aqui está, pois, o mérito, destas recriações. Cá por mim, confesso que já dei o meu contributo, respondendo a algumas questões que me puseram.
FM

Pão e Vinho

Temos uma área marítima de fazer inveja. Está globalmente subaproveitada, qualquer que seja o ponto de vista: ecológico, económico, científico, energético, de navegação ou turismo. Sem falar nos portos e na construção naval. Portugal tem uma superfície florestal interessante. Tem a maior área do mundo de montado e é o maior produtor de cortiça, mas não se conhece um esforço proporcional dedicado à investigação e ao melhoramento do sobreiro, da azinheira e do sistema de montado. O mesmo pode ser dito do pinheiro, da oliveira e de outras espécies. Portugal não tem clima para a agricultura tradicional, nem para a agricultura europeia. Mas as condições naturais são favoráveis a certos tipos de cultivo, como sejam a floresta, as culturas arbustivas, as plantações permanentes (a vinha, por exemplo), certas pastagens, os prados sob montado e outras espécies, nomeadamente as que podem beneficiar dos Invernos amenos e das Primaveras temporãs. A hortofruticultura tem também, em certos casos, excelentes condições. Nestas áreas, assim como nas do regadio, da correcção de solos, da vinha, da vinificação, da investigação científica, da formação profissional e do processamento industrial, há espaço e necessidade para investimentos colossais, a longo prazo e muito produtivos, sem danificar o ambiente. O ministro Jaime Silva pensa que não. E outros antes dele. Coitados: limitam-se a dizer o que lhes mandam dizer. Em Bruxelas, por causa da política comum. Em Lisboa, por causa das estradas.
António Barreto

In «Retrato da Semana» - «Público» de hoje

NA LINHA DA UTOPIA

Paulo de Tarso, 2000 anos

1. Talvez exista com Paulo de Tarso uma certa injustiça, talvez a primeira fase (perseguidora) de sua vida tenha condicionado a sua aceitação popular. É incontornável que Paulo (conhecido como São Paulo) foi das personalidades mais importantes da história do Cristianismo nascente e, consequentemente, da própria história da humanidade na matriz ocidental. Mas Paulo não caiu no “goto” popular como Santo António, São João Baptista ou o seu contemporâneo São Pedro. Estes, ainda que muitas vezes quase de modo contrário em relação à sua vida de entrega generosa e sacrificial, foram angariando a dimensão popular festiva e afectiva, que o digam as inúmeras tradições e romarias que nestas semanas têm percorrido as vivências comunitárias em Portugal, onde os seus nomes representam encontro, convívio, festa…
2. Já Paulo, uma das personalidades essenciais reconfiguradoras do Cristianismo, não tem assim tantas famas de “festeiro”. Não tem grandes romarias nem muitas tradições, não passou nessa faceta para as gentes, ele que deu mundos e fundos no anúncio da boa mensagem a todas as gentes e como fundador itinerante de comunidades… Será que Paulo não entrou tanto na dimensão popular por ter sido um intelectual da fé? Ou pelo seu confronto de ideias com Pedro? Ou ainda, pela, sua conversão tardia e não se ter libertado da fama de perseguidor? Ou pelas preferências terem sido orientadas mais para a vertente papista de Pedro que para a irreverência da “fé inculturada” de Paulo… Enfim, as perguntas poderiam não mais acabar nesta busca de (compreendendo a sua importância decisiva na Igreja primitiva), reconhecer em Paulo o impulso enérgico que, todavia, não entrou no popular tanto como seria de desejar para um designado dinamismo universalista implementado por ele próprio.
3. Começam nestes dias (28 de Junho 2008 a 29 de Junho 2009) as comemorações do chamado Ano Paulino. Faz 2000 anos do nascimento de Paulo de Tarso. Este incansável líder fundador de comunidades, anunciador de uma mensagem (cristã) na diversidade das gentes e culturas, reinterpretador na origem (abraâmica) da genuína essência do sentido da vida de Jesus, escritor de 13 cartas que continuam a ser dos documentos mais estudados da Escritura, incontornável e decisiva personalidade da história das ideias mesmo sociopolíticas e religiosas… Paulo terá muito a dizer ao nosso tempo. Que o diga a urgência ecuménica, o aprofundado diálogo inter-religioso, a percepção do novo discernimento entre o essencial a aprofundar e os acessórios a actualizar diante dos tempos interpelantes, estimulantes e inadiáveis do séc. XXI. Que nos diria, hoje, Paulo como a sua frescura reinterpretativa e o seu enérgico dinamismo viajante? Este ano, como sempre, pode ser uma oportunidade inédita ou pode ser um pró-forma... Não chega aprofundar modelos dinâmicos de existência (cristã) e…permanecermos na mesma. Os próprios “acessórios” a rever hoje são essenciais. Não é fácil, é preciso mesmo coragem Paulina!

Alexandre Cruz

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 84

AS ERVILHAS

Caríssima/o:

Veio-me às mãos um velho texto de 1976, publicado em “O Timoneiro”, no Postal do Porto; curiosamente está na linha do que se teceu na última semana e, sendo assim, fica como adenda:

«Naqueles velhos tempos, vínhamos da escola à noitinha, quando o sol desaparecia no horizonte. No regresso ficava-nos a casa mais perto, se atravessássemos os campos. A fome cegava-nos! Surgiu-nos uma terra com apetitosas ervilhas. Estás a ver o que aconteceu ao nosso estômago delicado? Teve de trabalhar ervilhas sem frango.
Que rico manjar! Ficámos tão consolados que só nos apetecia esticar e dormir uma soneca como a lebre da história.
Mas ... de repente, demos às de vila-diogo ... É que, à nossa frente, a apanhar ervilhas tranquilamente para um cesto, andava o dono. Ao ver-nos, não fez um gesto nem deu um grito ... Nós é que não esperámos e fomos tão mal educados que nem lhe agradecemos ...
Agora, garantido: se ele fosse candidato às eleições rumo ao socialismo, o meu voto era para ele, pois provou, sem palavras, que “as ervilhas quando nascem são para todos”.
Isto, porém, é utopia ...
E acredita, até hoje, foram as ervilhas que melhor me souberam e tenho pena de não te poder oferecer.»

Permiti que termine como o fiz então:

Na falta de melhor, aí vai um abraço do


Manuel

De volta...

De volta aos hábitos de todos os dias... Na ausência, aqui estive quando me foi possível. Saudações para todos os meus amigos do ciberespaço.
FM

sábado, 28 de Junho de 2008

Mandela: símbolo da liberdade e da tolerância


Assisti ontem, na televisão, a um concerto comemorativo do 90.º aniversário de Nelson Mandela. Para além da música e dos testemunhos de admiração pela figura ímpar de Mandela, este concerto levou-me a reflectir sobre a personalidade do homem, do político, do lutador pela causa da liberdade e da fraternidade universais.
O concerto ostentava um número – 46 664 – , que seria o número de presenças no espectáculo. Mas lembrava, também, o número da cela que Mandela ocupou na cadeia às ordens dos tribunais do “apartheid”, o regime que defendia a segregação racial.
As pressões dos países livres e democráticos levaram o regime a libertá-lo. Depois foram as eleições, a ocupação da cadeira da chefia do Estado e o Prémio Nobel da Paz.
Toda gente minimamente informada conhece a história de vida deste herói universal e o seu exemplo de amor à paz, à fraternidade e à tolerância. Durante a presidência do seu país, a África do Sul, mostrou como soube aproximar-se e dialogar com os que antes o perseguiam e condenavam. Sem rancores nem espírito de vingança.
Mas hoje e aqui também recordo, a propósito deste evento, alguns diálogos que mantive com um amigo, religioso, que acreditava nas virtualidades do “apartheid”. Que era importante para brancos e negros, dizia-me ele. E por mais que eu argumentasse, à luz da fé católica, que todos os homens eram iguais, em direitos e obrigações, independentemente da cor da pele, das opções religiosas e políticas, o meu amigo teimava em acreditar que, na África do Sul, a separação de raças só trazia vantagens. Aceitava, portanto, que houvesse escolas, lugares públicas, hospitais, autocarros, igrejas, etc. etc., para negros e para brancos, separadamente. Morreu o meu amigo sem eu conseguir convencê-lo de que o “apartheid” era a mais estúpida forma de sociedade.
Quando me lembro desta posição de um amigo meu, não posso deixar de pensar que, afinal, ainda perduram nas sociedades democráticas, como a nossa, resquícios destas ideias. Vejam, por exemplo, como as nossas televisões não conseguem contratar apresentadores negros, como o nosso Governo não tem ministros negros, como a nossa Assembleia da República só tem um deputado negro, do CDS, que alguns confundem como um segurança, com todo o respeito que os seguranças nos merecem.
Afinal, ainda temos muito que caminhar para expurgarmos a sociedade de ideias racistas.

FM

S. Jacinto sem Ferry-boat

Segundo noticia o Diário de Aveiro, o director-geral da Navalria, Nuno Santos, adiantou que a demora na entrada em funcionamento do “ferry-boat” se deve a um atraso na colocação de um equipamento na casa das máquinas da embarcação.
Os que lêem o Diário de Aveiro ficam a saber que só para a próxima semana terão o ferry-boat a funcionar. Com uma ponte, onde fosse possível, nada disto aconteceria.
Há tempos recebi um convite de pessoa amiga para me deslocar a S. Jacinto. Gostava ela e eu, com minha esposa, de recordar vivências de tempos que já lá vão. Se vier, dizia-me ela, como não há Ferry-boat, por causa de uma avaria, eu arranjarei alguém para o ir buscar à lancha. Prometi que só quando pudesse atravessar com o meu carro poderia aceitar o convite, para não causar transtorno a ninguém.
Nunca, com todo o meu amadorismo, vi bem o ferry-boat. A passagem natural, por meio de ponte, mais a norte ou mais a sul, seria o ideal, para proporcionar outra vida a S. Jacinto e às suas gentes, privados da ligação natural à Gafanha da Nazaré. Mas os nossos políticos, regionais e mesmo nacionais, decidem, muitas vezes, sem olhar às realidades locais. Nuns sítios nascem pontes com a maior das facilidades. Noutros, como aqui, nem sequer equacionam a questão. Depois é isto. A ligação por ferry-boat entre a Gafanha da Nazaré e S. Jacinto está suspensa há muito tempo. Uma simples avaria altera a vida de toda a gente.
FM

Nova barbárie invade a nossa sociedade



As invasões dos bárbaros fustigaram a Europa nos séculos IV e V, ocuparam metade do Império, foram virulentas pelo ódio sanguinário dos vários “átilas”, serenaram com a progressiva instalação em terras espoliadas e a conversão de Clóvis ao cristianismoHistoricamente significaram destruição de vidas, de monumentos históricos, de novas culturas que se enraizavam. Provocaram medo, revolta, desolação de pessoas e de terras, ocupação de cidades habitadas e destruição impiedosa de campos arroteados e cultivados. Os bárbaros destruíram, ocuparam, mataram para se instalarem e dominarem. O seu objectivo residia na satisfação de interesses concretos, de ordem económica e política. Satisfaziam-se, por momentos, com ofertas graúdas que os faziam amainar, mas recrudesciam, em ódio e vingança, quando não chegavam logo ao que procuravam. Valia tudo para conseguir o que se almejava. Todos os meios justificavam os fins. A nossa sociedade está a ser dominada por nova barbárie. A palavra é dura, mas com palavras moles vamos sendo submergidos na avalanche dos que, organizadamente, dão mais atenção ao dinheiro e ao poder que ao serviço digno e dignificante às pessoas. Chegou-se, impunemente, à propaganda da devassidão, como se pode ver numa visita breve aos jornais diários conhecidos e vendidos, a alguns programas de televisão, à enxurrada das revistas banais, expostas em profusão em qualquer quiosque da rua. Alguns exemplos esclarecedores:
O CM publica todos os dias à volta de mil pequenos anúncios, pornograficamente ilustrados, de prostitutas a oferecer os seus serviços. O DN anda normalmente por uma página diária com o mesmo estendal. O JN e o 24 horas não querem ficar atrás na informação de igual mercado. Até o Público dá, diariamente, um cheirinho ao tema. Já nem falo dos jornais da especialidade, que também se vêem por aí, ao alcance de todos.
São ainda frequentes páginas de jornais, nos menos esperados, a enxovalhar o casamento, a denegrir a família, a entrevistar apenas sobre a vida sexual ao nível do irracional. Se passarmos às revistas semanais publicadas, com nomes sonantes, e muitas delas ligadas a jornais diários e a estações de televisão, nelas abundam os casamentos em série, os amores traídos, as devassas à vida pessoal. Tudo cor-de-rosa, mas para muitos com muito sangue oculto. Os heróis deste país estão entre a gente das telenovelas, do teatro, do futebol, dos escândalos diversos, das tendências sexuais à procura de apoiantes e até mesmo de praticantes. E, para estes casos, não faltam jornalistas de opinião e programadores zelosos. Quem sabe se também interessados.
É esta a cultura que se expande e se protege, na qual vai crescendo muita gente nova que já aprendeu com os mais velhos a festejar datas com bebedeiras, a gabar-se de experiências sexuais irresponsáveis, a fazer do “serve-te e deita fora” modo de vida, a fugir aos pais e à família sem medir as consequências dos seus actos. É a cultura das telenovelas, nacionais e brasileiras, cheias de pessoas simpáticas a destilar com arte, do princípio ao fim, o lixo da vida misturado com odores de convidativos manjares.É o pluralismo e cada um é livre para fazer o que lhe apetece ou deseja. Assim se diz.
Desde que se deixou de falar de bem comum e de direitos humanos, desde que se menosprezaram e esqueceram valores espirituais e morais, desde que a família perdeu o valor e se considerou mais um peso que um dom, desde que, impunemente, se deixou que os meios de comunicação social se tornassem os grandes mentores sociais e culturais, ruíram as comportas da seriedade e da vergonha e avançaram os bárbaros, senhores de muitos bens e muitos amigos, fazendo do dinheiro o seu deus e da amoralidade a sua lei. O povo só interessa como produtor incauto de riqueza. Tudo isto pode dar que pensar, já que o futebol, com festa antecipada, acabou tão ingloriamente.
António Marcelino

Pontes de Encontro

São Paulo: bimilenário do nascimento e início do Ano Jubilar

Por proclamação do Papa Bento XVI, inicia-se a partir de hoje, dia 28 de Junho, e até 29 Junho de 2009, o Ano Paulino.
A celebração deste ano jubilar, dedicado ao Apóstolo Paulo, foi anunciada por Bento XVI na Basílica de São Paulo Fora de Muros, em Roma, no dia 28 de Junho de 2007, por ocasião das Vésperas da Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo.
Nessa altura, o Papa recordou que Roma é o local privilegiado para a celebração deste ano jubilar, já que a cidade conserva o túmulo de São Paulo, exactamente na Basílica com o seu nome, salientando que durante este período de tempo terão lugar uma série de eventos litúrgicos, culturais, ecuménicos, pastorais e sociais, todos eles associados à espiritualidade paulina.
Contudo, segundo Bento XVI, vai ser dado um destaque especial às peregrinações ao túmulo do Apóstolo dos Gentios e à publicação de textos paulinos, para “fazer conhecer, cada vez melhor, a imensa riqueza dos ensinamentos de São Paulo, verdadeiro património da Humanidade redimida em Cristo”.
Também a Conferência Episcopal Portuguesa publicou uma Nota Pastoral com o título “Ano Paulino, Uma Proposta Pastoral”, na qual se podem encontrar inúmeras orientações que ajudam, e muito, a conhecer, compreender e a viver melhor o espírito e o vigor da acção paulina, não só a nível da dimensão pessoal de cada cristão, mas, não menos importante, no seio da igrejas locais, comunidades e movimentos eclesiais.
O nascimento do Apóstolo Paulo situa-se, segundo os historiadores, entre o ano 7 e o ano 10, depois de Jesus Cristo, a quem não conheceu, pessoalmente, enquanto Ele andou pelos caminhos da Judeia, Galileia, Samaria, até Jerusalém. Este Ano Jubilar coincide, portanto, com o bimilenário do seu nascimento, na cidade de Tarso, da província da Cilícia (cf.:Act 21,39), na actual Turquia.
Do cristianismo primitivo, não há outra pessoa sobre quem se saiba tanto e as fontes para a sua reconstrução biográfica encontram-se, essencialmente, nas cartas paulinas e nos Actos dos Apóstolos. As Cartas de Paulo têm, declaradamente, uma profunda expressão pastoral, através das quais dá orientações doutrinais, faz exortações à fé em Cristo e aconselha as primitivas Comunidades cristãs a ultrapassarem algumas dificuldades porque passavam, tivessem ou não sido fundadas por ele. Os traços autobiográficos são imensos, pois o Apóstolo compromete-se, existencialmente, com a sua pregação, ou seja, ele apenas vive para pregar a Boa-Nova, como ele próprio afirma: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
Esta sua forma de viver, testemunhar e evangelizar, “à maneira de Jesus Cristo”, levou-o a estar em diferentes mundos, línguas e culturas, a ser um homem em permanente movimento, à descoberta de novas encruzilhadas, caminhos e desafios. Pertos ou longínquos, esteve nos principais centros do saber e do poder, da civilização urbana e cosmopolita do seu tempo.
Era um verdadeiro corredor de fundo que percorreu milhares e milhares de quilómetros a pregar no que acreditava, no que amava e no que se tinha comprometido.
Atravessou grande parte dos territórios que fazem, presentemente, parte da Grécia e da Turquia. O Mar Mediterrâneo por diversas vezes, fez parte de todo este seu itinerário, estando entre outras, nas ilhas de Creta, Chipre, Rodes, Malta, Sicília e, por fim, termina o seu caminho de evangelizador determinado, de todos os povos e nações, na cidade imperial de Roma, onde veio a morrer, provavelmente no ano 67 d.C., por decapitação.
Diz a Nota Pastoral da CEP que “Paulo protagonizou, na sua experiência de Apóstolo, o alargamento do horizonte dos destinatários do Evangelho”, pelo que o cristianismo tornou-se uma realidade salvífica, fraterna, libertadora, histórica, social e cultural abrindo-o, definitivamente, à universalidade de todos os povos e de todos os tempos.

Vítor Amorim

“Da Janela dos Outros”


Algumas das reacções sobre a directiva da União Europeia, do dia 10 de Junho de 2008, que pretende passar o horário de trabalho até a um máximo de 65 horas semanais:


“A Europa pretendia ser um exemplo. Mas isto vem ao arrepio de tudo, copiando o modelo asiático que se deve evitar”

Manuel Pires de Lima – sociólogo do ICS

“A directiva é um mau sinal dado aos trabalhadores, que ficam mais desprotegidos”

João Proença – Secretário-geral da UGT

“Estamos a querer criar uma sociedade de escravos”

D. Januário Torgal Ferreira – bispo

“O mundo é o inferno. Não vale a pena ameaçarem-nos com outro inferno, porque já estamos nele. A questão é saber como é que saímos dele”

José Saramago – escritor

In jornal Expresso – 21 de Junho de 2008


Vítor Amorim

CONVERSAS NOCTURNAS EM JERUSALÉM

Acaba de aparecer, com o título Jerusalemer Nachtgespräche ("Conversas Nocturnas em Jerusalém"), uma série de diálogos entre dois jesuítas, em Jerusalém, noite dentro: o padre G. Sporschill, austríaco, e o cardeal Carlo Martini, antigo arcebispo de Milão e um dos nomes mais famosos da Igreja, durante anos considerado papabilis (possível Papa), que aos 75 anos se retirou para Jerusalém: "Jerusalém é a minha pátria. Antes da pátria eterna."
"Houve um tempo em que sonhava com uma Igreja que segue o seu caminho na pobreza e na humildade, uma Igreja que não depende dos poderes deste mundo. Sonhei com o extermínio da desconfiança. Com um Igreja que dá espaço às pessoas que pensam mais longe. Com uma Igreja que anima sobretudo aqueles que se sentem pequenos e pecadores. Sonhei com uma Igreja jovem. Hoje já não tenho esses sonhos. Aos 75 anos, decidi-me por rezar pela Igreja. Olho para o futuro. Quando o Reino de Deus chegar, como será? Como será, depois da minha morte, o meu encontro com Cristo, o Ressuscitado?"Significa esta confissão desânimo? De modo nenhum. É certo que o que lhe causa preocupação é "a falta de coragem".
Aliás, a palavra "Mut" (coragem, ânimo) e, consequentemente, "animar", "ter coragem" são expressões constantes e recorrentes. "A Igreja deve ter a coragem de se reformar." "A Igreja precisa permanentemente de reformas." "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!"A situação da Igreja, sobretudo na Europa, "exige hoje decisões". E lá vem a questão da sexualidade e da comunhão dos divorciados recasados e da ordenação das mulheres e da lei do celibato. Questão essencial são os jovens, apresentando-se, neste domínio, um novo princípio pastoral: "Deixar-se ensinar pela juventude."
Critica a encíclica Humanae Vitae, de 1968, com a proibição da chamada "pílula contraceptiva". "O mais triste é que a encíclica é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra." Confessa que a encíclica Humanae Vitae foi negativa. "Muitos afastaram-se da Igreja e a Igreja afastou-se de muitos. Foi um grande estrago." Mas, após quarenta anos, "poderíamos ter uma nova perspectiva". "Estou perfeitamente convicto de que a direcção da Igreja pode mostrar um caminho melhor do que o da encíclica." Procuramos "um novo caminho" para falar sobre a sexualidade, o casamento, a regulação da natalidade, a procriação medicamente assistida.
Quanto ao preservativo e atendendo à sida, ele próprio diz que acabou por tornar-se o "cardeal da camisinha", como lhe confessou a sorrir um padre do Brasil.
Sobre a juventude e a sexualidade, vai avisando: "Nestas questões profundamente humanas, não se trata de receitas, mas de caminhos." A direcção da Igreja fará melhor ouvir e "familiarizar-se com o diálogo".
Quanto à homossexualidade: "No meu círculo de conhecidos há casais homossexuais, pessoas muito respeitadas e sociais. Nunca ninguém me fez perguntas e também nunca me teria ocorrido condená-las."
É verdade que não poucas mulheres criticam justamente a Igreja porque se sentem discriminadas. Martini reconhece que "a nossa Igreja é um pouco tímida" e que o Novo Testamento trata melhor as mulheres do que a Igreja. A direcção de comunidades por mulheres é bíblica e não pode excluir-se o debate sobre a sua ordenação.
O celibato exige uma verdadeira vocação. Ora, "talvez nem todos os que são chamados ao sacerdócio tenham este carisma." Depois, hoje, com a falta de padres, são confiadas cada vez mais paróquias a um sacerdote ou então dioceses importam padres do exterior. Mas isto, a longo prazo, não é solução. De qualquer modo, é preciso "debater a possibilidade" de ordenar homens casados, de fé reconhecida e provados no trato com os outros.
A Igreja de Cristo é a favor do Homem, da justiça e do Deus vivo. Mas não tem o monopólio de Deus. "Não podes tornar Deus católico." Por isso, a Igreja dialoga com os crentes das outras religiões e igualmente com os não crentes, também para conhecer as suas razões.

Na Linha Da Utopia

Folclore, raiz de identidades


1. São muitos os festivais de folclore que são realizados de norte a sul do país nesta época do ano tão especial em termos de festas populares. E é muita a generosidade que, percorrendo todo o ano neste “amor à camisola” das colectividades, agora se intensifica nas várias preparações para que tudo decorra pelo melhor. Há em Portugal uma multidão de gente heróica que, dedicando uma grande parte do seu tempo, vai conseguindo preservar o que de melhor existe nas culturas locais. Por vezes só em épocas políticas especiais ou em apresentações de embaixadas a entidades sociais é que o folclore surge como efectivo aliado da vida pública, sendo muitas vezes grande parte do tempo deixado na periferia da difícil luta pela sua própria sobrevivência.
2. Quem olha para um rancho é como quem repara num moliceiro. O que no barco da ria são a beleza das pinturas no folclore serão todo o conjunto de artefactos que nos falam das lides mais simples e ancestrais das nossas gentes. Todos os utensílios da terra, do mar, da ria, das fainas agrícola ou piscatória, transportados nos trajes e objectos do folclore querem ser o esforço de manter na raiz das comunidades a alma e a vida das gentes. A isto chamar-se-á o preservar das identidades regionais, algo cada vez mais importante até pela distância afectiva que cresce das novas gerações em relação a toda esta riqueza patrimonial. Chegará o tempo em que essa distância será tanta em relação à sobrevivente “tradição” das culturas que serão feitos estudos sobre cada uma dessas peças que ganharão valor acrescido.
3. Cada região tem as suas gastronomias, os vinhos, doçarias, pratos típicos e as suas bandas filarmónicas de música; dessa tradição, e consoante a área de referência em relação ao mar, aos rios ou à serra, vem também a força das suas ocupações e trabalhos onde o cultivo da terra representa um valor inestimável, no aproveitar das épocas de sol e de chuvas. Mas se muitas vezes estas realidades mesmo do campo são epocais, têm épocas em que existem e noutras não, o folclore procura perpetuar e prolongar no tempo a existência contínua desses bens pelos seus próprios cantos, danças e utensílios. Os ranchos folclóricos de cada localidade acabam por ser um dos mais belos emblemas regionais, diante dos quais talvez nos falte parar, valorizar mais e apreciar a riqueza dos seus ínfimos pormenores…
4. É significativo destacar-se que, na generalidade, essa riqueza traz consigo uma bondade e generosidade dignas de registo. Os ranchos não dão lucro e os apoios, se nunca abundaram, com realismo, na actualidade portuguesa são praticamente insignificantes em relação à sua realidade. Só com grande entrega das gentes é que se conseguem manter vivos e dinâmicos; mesmo remando contra tantas marés o folclore consegue ser um dos brilhantes símbolos da vitalidade cultural da sociedade civil que tem amor em preservar as suas raízes. Até pelo factor turismo, vamos apoiar mais!

Alexandre Cruz

sexta-feira, 27 de Junho de 2008

Figueira da Foz: Centro de Artes e Espectáculos

A frescura do jardim interior do CAE


Quando me encontro na Figueira da Foz, de passagem ou em férias, passo sempre pelo Centro de Artes e Espectáculos (CAE), voltado para o Parque das Abadias, de verde, de vários tons, permanentemente vestido. Estão, nesta altura, a ser recordados os seus primeiros seis anos de existência, com uma exposição fotográfica, que mais não é do que uma “síntese, em imagens”, da sua actividade cultural ao longo destes anos, como se lê no texto de apresentação da mostra, patente ao público até 15 de Julho.
São fotos de arquivo representativas de momentos altos da vida do CAE, mostrando artistas e personalidades, as mais variadas, do mundo da arte, da política e da cultura, nacionais e internacionais.
O CAE mora ao lado do Museu Municipal Dr. Santos Rocha e da Biblioteca Municipal. Trata-se de um edifício bem dimensionado e integrado no espaço envolvente, típico da Arte Contemporânea, projectado pelo arquitecto Luís Marçal Grilo, com espaços para todas as idades e para todos os gostos, de que destaco dois auditórios, salas de exposições, livraria e café-bar, com esplanada para o Parque das Abadias, de onde nos vem um ar fresco, tão apetecível nos dias de calor.
No exterior, para espectáculos de Verão, sobretudo, há um anfiteatro situado num jardim mais intimista.
Se vem de férias à Figueira da Foz, não se esqueça de passar por lá. Leve um livro, um jornal ou uma revista, tome um café e delicie-se com o ar diferente que lhe é oferecido. De graça, claro.

FM

Figueira da Foz: recriação da Guerra Peninsular

O Forte de Santa Catarina foi construído nos finais do século XVI para reforçar a defesa da Foz do Mondego, fazendo parte, com a Fortaleza de Buarcos e o Fortim de Palheiros, do sistema defensivo do porto e da baía da Figueira da Foz e de Buarcos. Com estrutura triangular, tem três cortinas, um meio baluarte e dois baluartes. No seu interior há uma pequena capela dedicada a Santa Catarina de Ribamar, devendo-se a sua construção ao arquitecto Mateus Rodrigues.

Placa comemorativa do primeiro centenário da Guerra Peninsular


Do programa comemorativo dos 200 anos da Guerra Peninsular, destaco, para além de uma sessão solene nos Paços do Concelho, hoje, 27 de Junho, pelas 17.30 horas, presidida pelo Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, com a intervenção de dois oradores convidados, a inauguração, amanhã, 28, pelas 17 horas, de uma exposição, no Museu Municipal Santos Rocha, intitulada “Figueira da Foz e a Guerra Peninsular”. A seguir, às 19 horas, na igreja matriz de S. Julião, será celebrada a eucaristia, em memória das vítimas das Invasões Francesas, acompanhada pelo Coral David de Sousa.
No dia 29, domingo, pelas 11.15 horas, todos poderão assistir ao descerramento de uma Placa Comemorativa do Bicentenário da Tomada do Forte de Santa Catarina, seguida da recriação histórica dessa mesma tomada, pela Associação Napoleónica Portuguesa, com o Grupo de Recriadores Históricos do Município de Almeida. Depois será a abertura do Forte e a visita à Exposição Evocativa das Comemorações.
Em Agosto prosseguem as celebrações, com programa que tenciono divulgar neste meu espaço.

NA LINHA DA UTOPIA

Inter-dependemos


1. Mesmo para quem considere o contrário, todos dependemos uns dos outros. A montante ou a jusante, a interdependência acompanha-nos de forma tão viva e andante que até pode parecer estranho ter de sublinhá-la. Mas a verdade é mesmo essa, temos de salientar, como diz a canção, que «sozinho não és nada, juntos temos o mundo na mão!» Após as transformações sociais dos anos 70, desde os anos 80 que a Pedagogia da Interdependência - Gentle Teaching: www.gentleteaching.com) vem construindo um caminho centrado na dignidade da Pessoa humana. Decorreu nestes dias (25 de Junho, na UA), fruto de oportuna parceria transdisciplinar ESSUA, DCE-UA e ASSOL, uma conferência com o autor mundial desta teoria de relacionamentos humanos para uma sociedade efectivamente inclusiva.
2. Vale a pena interiorizar algumas linhas fundamentais do pensamento do Professor John McGree que correspondem a uma visão, diríamos, enraizada no sentido afectivo da “maternidade” da própria pedagogia como relação. A pergunta lapidar ajuda-nos a recentrarmos o caminho: «o que é a qualidade quando as pessoas não estão lá?» Talvez esta pergunta essencial ajude a resgatar dimensões essenciais do ser que têm ficado nas periferias dos esquemas pré-concebidos. As sociedades tendencialmente tecnocráticas, lucrativas e racionais têm potenciado outros dinamismos que, muitas vezes, travam esta determinante inclusão da experiência humana mais profunda, a face afectiva da vida como motor de motivação e vontade. É na base da profundidade da comum dignidade humana que o autor da teoria pedagógica da interdependência constrói os seus quatro pilares: ser e estar SEGURO, AMADO, CAPAZ DE AMAR, ENVOLVIDO.
3. Nesta matriz de itinerário (que compromete quem o comunica pois vem de dentro), mas de forma sempre aberta às novas situações e intuições, destaque-se que em casos de profundas diferenças (deficiências) partilhadas pelo autor, a noção de segurança e amor exerceu força restauradora da pessoa, reconstruindo pelo afecto o sentido de Humanidade, este muitas vezes perdido, oculto ou desprezado por formas de relacionamento mais frias, de “autoridade autoritária”, ou mesmo de uma registada violência. Sejam, para quem vive o espírito de procura diária, as ideias e as práticas sempre itinerantes, errantes, procuradoras do melhor para bem da finalidade última da realização de cada ser humano. É aqui que a própria natureza no sentido da própria maternidade oferece o justo entendimento: ninguém é por si mesmo e crescer para a autonomia será tomar consciência das crescentes responsabilidades.
4. Neste patamar de inclusão da diversidade de cada um na comunidade de todos terá de triunfar uma vivência e aprendizagem na ordem mais da sensibilidade humana que da técnica burocrática. O subjectivo de cada um é a força que quererá alargar o seu horizonte para a objectividade interdependente dos sistemas e estruturas, humanizando-as e tornando-as efectivamente significativas como serviço à humanidade das pessoas.
Alexandre Cruz

Recuperar o religioso


Diferentes razões, ao longo do ano, comprometem estruturas políticas em acontecimentos de âmbito religioso. Tanto naqueles que a tradição coloca no presente de cada sociedade, como na análise de problemáticas que podem afectar a relação entre comunidades e Nações.
São disso exemplo, por um lado, a salvaguarda e promoção de tradições religiosas em diferentes contextos onde, por iniciativa autárquica, não se poupam esforços ao trabalho de reconstrução da memória cristã, incontornável pelo Natal, pela Páscoa ou noutros momentos de festividades populares. Por outro lado, na atenção redobrada à emergência de atitudes e comportamentos fundados em convicções religiosas ou de conflitos que só falsamente se podem sustentar no fenómeno religioso. É o propósito da Comissão de Liberdade Religiosa, nomeadamente nos Colóquios Internacionais que promove.
E tudo isto ao mesmo tempo que se tentam apagar da memória colectiva e institucional legados históricos, como os do cristianismo.
A integração de todas as convicções religiosas na construção social é um imperativo mundial. E permite a valorização efectiva de cada religião, apurando os contributos que deixa à solidificação da justiça e paz nas sociedades.
Para aquelas que se fundamentam na Palavra, no Livro dos livros, é crescente a necessidade do confronto com as linhas que inspiraram comportamentos e determinaram a arte ao longo de gerações. Essa certeza foi sabiamente apresentada, por estes dias, em debates culturais. É também experimentada nos momentos de confronto com o Texto, possível quando se contornam excertos de apresentações litúrgicas ou releituras que afastam o leitor da integralidade do original
Para o crente, o desafio do confronto com a Palavra surge como premente e único capaz de lhe oferecer razões sólidas para a fé. Para os que com ele fazem sociedade, nomeadamente os que se responsabilizam pelo poder público, é a atenção permanente à salvaguarda da liberdade religiosa, à garantia dos mesmos direitos e deveres para todos os que partilham diferentes convicções religiosas o desafio de todos os programas: para as tradições, nomeadamente religiosas, que surgem com novos contributos à justiça e paz nas sociedades e, já agora, também para aquelas que já muitas provas deram nesse âmbito.

Paulo Rocha

Festival de Folclore na Gafanha da Nazaré



No próximo dia 12 de Julho, vai realizar-se o XXV Festival Nacional de Folclore da Gafanha da Nazaré, por iniciativa do Grupo Etnográfico desta cidade. Será, também, o XI Festival Internacional. Esta vai ser mais uma ocasião para os amantes do folclore poderem apreciar danças e cantares de várias regiões do País, bem como o que um grupo estrangeiro nos vai oferecer.
Depois da recepção, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré vai proporcionar a toda a gente que o desejar uma visita à Casa Gafanhoa, pólo museológico representativo do quotidiano vivido por lavrador abastado dos inícios do século XX. O desfile começará às 21 horas, estando previsto o início do festival para as 22 horas, na Alameda Prior Sardo, junto à Escola Preparatória.

NA LINHA DA UTOPIA

A Mugabocracia


1. Quando Aristóteles (384-322 a.C.) escreveu a sua obra magistral Política, apresentou seis formas de governo. A sua noção de politeia (traduzida como res-publica, “coisa pública”), viria a corresponder ao ideal modelar de governo que habitualmente designamos de “democracia”, um sistema justo governado por muitos. Vale a pena sempre ir à origem das palavras: demo (povo) em cracia (poder). Esta consciência de que nas sociedades ditas democráticas o povo está mesmo no poder precisa de ser alimentada e participada continuamente, quando não só do simbólico passa-se à indiferença e desta à relativa insignificância real da própria democracia.
2. Das condições fundamentais para o exercício mínimo democrático são as eleições realizadas em total liberdade. Não chega que esta seja parcial, não pode haver qualquer coacção, sendo neste caso exaltada só a cracia (poder) ficando esquecido o povo (demo). Este assalto da cracia (dos poderes) ao povo é o espelho mais claro da miopia da condição humana. Mesmo em regimes de liberdade democrática e com todas as formas, mesmo que representativas, esta fronteira é sempre de difícil definição. Os necessários laboratórios da democracia das sociedades fechadas precisam, hoje, tanto da ordem exterior de uma presença viva da comunidade internacional (especialmente quando da declarada ingerência), como de uma abrangente compreensão profunda das sociedades e do ser das culturas, a partir da chave da dignidade da pessoa humana.
3. A situação do Zimbabwe respira esta fronteira. O líder da oposição, sentindo não haver condições de liberdade para o acto eleitoral, dá o “salto” denunciador: refugia-se na embaixada da Holanda. O que se sabia acontecer tem agora eco diplomático de pressão sobre o ditador Robert Mugabe que viu a sua “cracia” ameaçada desde as últimas eleições. O braço de ferro agora tem a confirmação do Conselho de Segurança da ONU que declara unanimemente ser «impossível» a normal realização do acto eleitoral. O ambiente adensa-se. Ao pedido do Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, para o adiamento da segunda volta das presidenciais, o embaixador do Zimbabwe na ONU manifestou-se admirado e rejeitando o pedido.
4. Quando as cracias (os poderes concentrados) crescem desmedidamente, as violências e restrições tornam «impossível a realização de eleições livres e igualitárias», como refere a Declaração do Conselho de Segurança da ONU. Nestas circunstâncias navega-se na inverdade, não é possível escutar o sentir do povo, tudo pode acontecer, até a violência. Triste ilusão e recorrente drama, quando o tempo da vida, mesmo dos pretensos poderosos, é sempre tão breve. Mas o povo vencerá porque a liberdade é o grito humano mais profundo!
Alexandre Cruz

terça-feira, 24 de Junho de 2008

Férias

De férias por uns dias (não há nada melhor do que poder gozar férias repartidas, ao sabor da maré), por aqui passarei quando puder e se puder.
Fernando Martins

segunda-feira, 23 de Junho de 2008

A União vai sair desta crise

"A União vai sair, aparentemente, desta crise. Dentro de um ou dois anos, uma nova enge-nharia terá sido encontrada. Dentro ou fora, a Irlanda deixará de incomodar. Novas perturbações serão evitadas por novos mecanismos. Alguém virá dizer que a crise está ultrapassada e que a União entrará numa nova era. A mecânica da Comissão, do Conselho e do Parlamento Europeu estará oleada e preparada para funcionar a 27 ou mais. As decisões serão mais fáceis. Evidentemente, sabe-se, haverá alguns problemas. Na economia, na sociedade, no comércio externo, na ciência e na tecnologia. Forças centrífugas em acção. Dificuldades no emprego e no crescimento económico. Problemas sociais e demográficos. Conflitos laborais e desigualdades sociais. Deriva dos sistemas de saúde, educação e segurança. Aumento dos preços da energia e dos alimentos. Certo. Mas são todos problemas locais. Nada disso é europeu. A grande Europa, a grande União passa ao lado disso. Passa ao lado de questões menores."
"Retrato da Semana" de António Barreto, no PÚBLICO de domingo. Ler em Sorumbático

"Olhos na Floresta"


De “Olhos na Floresta” destina-se a jovens voluntários que estejam disponíveis para percorrer circuitos fechados predefinidos de Buga pelas Freguesias de Eirol, Nossa Senhora de Fátima, Oliveirinha e Requeixo para procederem a acções de vigilância móvel que iniciam já no próximo dia 2 de Julho.
Esta é uma acção pedagógica de grande interesse social. Começa em 2 de Julho, altura de fogos na floresta. Os jovens envolvidos neste projecto vão ter uma boa oportunidade de conhecer recantos menos vistos pela nossa juventude, em especial a que vive na cidade, entre as aulas e os pontos de encontro mais ligados à diversão.

PONTES DE ENCONTRO

A exploração, a dignidade do trabalho e o lugar do homem

No passado dia 10 de Junho, o Conselho Europeu dos Ministros do Trabalho e Assuntos Sociais aprovou uma proposta de directiva que permite que os 27 Estados-membros da União Europeia possam alargar o limite de trabalho semanal das actuais 48 horas para as 60 horas por semana, se os trabalhadores aceitarem, ou, em caso de acordo colectivo, até às 65 horas. O Documento ainda vai ter que ser aprovado pelo Parlamento Europeu, para entrar em vigor.
O ministro português do Trabalho e Solidariedade Social, Vieira da Silva, declarou que Portugal não fez parte da maioria qualificada que, aprovou esta directiva, por entender que, "apesar de haver uma evolução positiva", a directiva deveria ser mais "equilibrada" e ter mais em conta "a salvaguarda das condições de saúde, higiene e segurança dos trabalhadores".
Sublinhou, ainda, que este projecto de lei deverá sofrer algumas alterações, antes do voto dos parlamentares europeus, esclarecendo que a nova lei mantém a duração máxima de 48 horas semanais e 8 diárias, actualmente consagrada na UE, como regra, e apenas reformula as condições de excepção que pode levar alguns países, em certos sectores e actividades, a recorrerem a este tecto de horas de trabalho.
Em Portugal, a nível da Concertação Social, está-se a discutir a revisão do Código de Trabalho, onde está prevista a adaptabilidade dos horários de trabalho. No entanto, o ministro Vieira da Silva não apresentou, ainda, qualquer proposta sobre este assunto.
Seja como for, a precariedade laboral vai aumentar e vai-se trabalhar mais por menos dinheiro, na medida em que Portugal, mesmo que quisesse, não tem alternativas a esta política ditada pela União Europeia, em nome da concorrência globalizada.
Mais uma vez, a lógica da competitividade selvagem e a qualquer preço prevaleceu sobre o princípio da dignidade do trabalho e do trabalhador. São medidas como estas que vão, gradualmente, desumanizando o mundo, as pessoas e o trabalho. Numa altura em que, na Europa, se discute, a vários níveis e com toda a justificação, as inúmeras crises que a instituição familiar enfrenta e atravessa, não são políticas deste género que contribuem para o reforço da unidade familiar. Bem pelo contrário. Não é com pais ausentes dos seus lares, a chegarem ou a saírem à hora que as entidades patronais decidem, que a família se constrói, fortalece e se torna uma célula activa e solidária da sociedade. Da China e da Índia, ao longo destes anos, temos recebido informação, mais que suficiente, sobre as condições com que os trabalhadores destes dois países, entre outros, exercem os seus empregos, de onde se destacam os salários baixíssimos; a quase inexistência de direitos sociais; proibição de reivindicações; horários de trabalho que chegam ás 15 e 18 horas diárias; exploração infantil; falta de segurança laboral, entre muitos outros abusos desumanizantes que poderiam ser citados.
Nessa altura, alguns ilustres políticos e economistas ocidentais, para justificarem algumas medidas restritivas que eram já impostas aos trabalhadores europeus, em nome da dita “concorrência” asiática, argumentavam que eram países atrasados (hoje, já são “países emergentes”) e que, com o tempo, atingiriam os níveis de protecção (e de desenvolvimento) que, em regra, se aplicam (ainda) na Europa, pelo que tudo tenderia, com o tempo, para o equilíbrio justo, leal e concorrencial necessário. Afinal, bem vistas as coisas, são os dirigentes europeus que estão a começar a adoptar os padrões que antes condenavam nos outros. A prova está à vista e vê-se qual é o lado que está a vencer. Isto é perverso e só é possível de acontecer por falta da imposição de regras, mesmo que faseadas, para todos os intervenientes, a nível mundial, designadamente por parte da Organização Mundial do Comércio. A não ser que, o futuro, nos reserve a reposição da escravatura!

Vítor Amorim

Directiva sobre regresso de imigrantes ilegais

"A possibilidade de detenção de imigrantes ilegais por um período que pode chegar aos dezoito meses representa um desproporcional e discriminatório atentado ao direito à liberdade. Desproporcional, porque não está em causa uma conduta que, pela sua danosidade social ou perigosidade, possa ser equiparada a um crime. A esmagadora maioria dos imigrantes ilegais desempenha actividades laborais que satisfazem necessidades económicas e sociais dos países de acolhimento e, em muitos casos, a entrada ilegal de imigrantes não tem impedido a sua posterior legalização. Não pode ignorar-se, também que, com frequência, os imigrantes ilegais, não só não representam um perigo social, como são verdadeiras vítimas de redes de imigração ilegal, quando não até vítimas de tráfico de pessoas. Trata-se de um atentado à liberdade discriminatório porque não seria certamente aceitável uma tão severa restrição da liberdade (superior, em duração, até à que corresponde a crimes já com alguma gravidade) no que aos nacionais diz respeito."
Para saber mais sobre esta directiva comunitária, clique aqui

Flor perdida?

A flor branca, no meio do verde, não está perdida. Nasceu ali e ali quer ficar para usufruir da paz que este jardim lhe oferece. E mesmo que outros caminhos sejam um desafio a correr mundo, ela teima em viver no seu espaço, não trocando o certo pelo incerto.
(Clicar na foto para ampliar)

NA LINHA DA UTOPIA


A maior herança


1. A maior herança serão sempre os valores e não as coisas. Com valores que dão sentido à vida e com princípios que nos façam vivermos em paz no caminho comum, constrói-se uma vida feliz. Assim, o decisivo da vida depende do profundo do ser, interior humano, e nunca daquilo que exteriormente pode hoje ser tudo mas amanhã não ser nada. Antigamente dizia-se que a melhor herança eram as terras, depois passou a ser o curso. Acrescente-se que o determinante mesmo, e cada vez mais nos dias que correm, são os valores humanos que fazem persistir a pessoa no cultivar dos ideais mais elevados. Com valores, com persistência e polivalência, pode-se construir o edifício belo da vida; já com coisas, mesmo que herdadas, mas sem valores, toda essa construção corre o perigo de ruir, pois que não tem os alicerces de sustentabilidade humana que são os valores profundos que iluminam as sábias atitudes e opções.
2. No meio de todas as heranças, a cultura clássica e judeo-cristã são esse património de valores que foram edificando, mesmo que à “revelia”, modos de vida em sociedade, fraternidade, justiça, paz e democracia. Talvez no nosso tempo de globalização, em que todas as convicções e certezas entram em questionamento (num certo sentido bem vindo como “prova dos 9” da sua própria autenticidade), é mesmo importante ir à fonte da nossa maior herança: a cultura clássica que ergueu o humanismo cristão, na aprendizagem das múltiplas faces da liberdade e da tolerância que permita o reconhecimento das diversidades. Renegar a história é apagar-se no tempo. Aprofundar a nossa própria identidade de que somos herdeiros, e ler nela o que foi “salto” impulsivo, acolhedor e abrangente, será perscrutar os tempos das novas recepções transculturais que estão aí. O fechamento de fronteiras será a asfixia; o não pensar permeável a tudo o que vier, será anulação própria. O futuro precisa do pensamento humano…
3. Vem esta reflexão a propósito do reconhecimento prestado à maior investigadora portuguesa dos estudos clássicos, a Professora Maria Helena da Rocha Pereira. Há breves dias, pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, foi-lhe atribuído o Prémio Padre Manuel Antunes. Sabiamente, o reconhecimento visou destacar a «importância dos Estudos Clássicos numa sociedade cada vez mais refém da tecnologia». É pertinente e, olhando as mais novas gerações tecnológicas, surge como sinal de grande interpelação, pois a humanização da sociedade assim o reclama e o próprio sentido de humanidade dos humanos fará com que se sublinhem os valores subjacentes à triunfante vida científica e tecnológica. Não está em causa o prescindir das novas forma de conhecimento científico, mas trata-se de apontar-lhes uma finalidade última que seja o sentido de humanidade. Se se rejeitar a herança clássica, que edificou o designado mundo ocidental, este andará na crise à deriva, como barco perdido no meio do mar. Os pensadores da cultura clássica precisam de ser (mais) ouvidos!

Aveiro: ADERAV critica “marasmo” na protecção do património



A recente atribuição do estatuto de Imóvel de Interesse Municipal ao coreto do parque municipal D. Pedro V, na Glória, e à Casa dos Areais, em Esgueira, foi recebida com “agrado” pela Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro (ADERAV); mas, segundo a instituição, esta decisão não esconde o “marasmo” na protecção do património local.
Em declarações ao Diário de Aveiro, Luís Souto, presidente da associação, afirma que a listagem de património com a classificação de interesse municipal é “confrangedora” e denota “pouca coragem e menos iniciativa”.
Apesar deste vazio, não existirá um plano de classificações de âmbito municipal, adverte; por isso propõe, entre outras acções, o levantamento e classificação das “poucas” casas senhoriais e brasonadas de Aveiro.
Leia mais em Diário de Aveiro

O que mais te surpreende na humanidade?



NB: Enviado pelo João Marçal (clicar na imagem para ampliar)

PONTES DE ENCONTRO


O “comissário” Robin dos Bosques e os desafios do século XXI

Por várias vezes, temos feito referências, no Pela Positiva, aos brutais aumentos do preço do petróleo e dos alimentos, a nível mundial, e as enormes dificuldades que tais encargos significam para a maioria dos cidadãos, aumentando, por exemplo, o número de mortes, por falta de alimentos. Temos referido que estas crises, entre outros factores, têm uma dimensão global, estrutural e especulativa, o que significa que não pode ser um único país a tentar resolver estas múltiplas questões, pois o fracasso seria sempre o resultado final. Tudo isto levará a que nada fique como dantes, pelo que os hábitos de vida dos cidadãos, dos países mais desenvolvidos, irão sofrer alterações devendo estes começar a dar os primeiros passos nesse sentido, como seja a utilização racional a dar ao carro, ao consumo de energia e da água. É no meio desta confusão toda que, para ironia da história, aparece o nome de Robin Hood, mais conhecido por Robin dos Bosques, o famoso e lendário herói inglês que, a ter existido, teria vivido no século XIII, provavelmente nas florestas que circundavam a cidade de Nottingham, onde roubava aos ricos para dar aos pobres.
Inspirados neste bom fora-da-lei, alguns governos da União Europeia começaram a falar na aplicação de uma Taxa Robin dos Bosques, a cobrar só às companhias petrolíferas que exploram e produzem petróleo, de forma a que as receitas daí resultantes sejam canalizadas em programas de assistência social às famílias afectadas pelos aumentos dos combustíveis e dos alimentos. O Governo de Sílvio Berlusconi, em Itália, já aprovou a aplicação deste imposto especial e o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, referiu, na passada quinta-feira, dia 19, que a Comissão não se opõe a que os Estados-membros adoptem a Taxa Robin dos Bosques, por ser uma medida de competência nacional. Em Portugal, esta taxa incidiria só sobre a GALP.
O Primeiro-Ministro português, José Sócrates, nos trabalhos do Conselho Europeu, que decorreram em Bruxelas, nos dias 19 e 20, afirmou que governo português estava a estudar a possibilidade da introdução da referida taxa, ao mesmo tempo que defendeu apoios da UE à inovação e às energias alternativas, para combater a dependência energética do petróleo. As alternativas devem passar, segundo disse, por carros eléctricos, baterias recarregáveis e outras fontes de energias limpas, propondo, ainda, iniciativas para travar eventuais movimentos especulativos no preço do petróleo.
Ainda que isto demonstre, talvez como nunca, a gravidade da situação actual, tendo-se já recorrido ao Robin dos Bosques, nem sempre o que parece é. Assim, há que dizer que esta taxa só incidirá sobre 10% do total do petróleo produzido no mundo, ou seja, sobre as companhias privadas, já que os restantes 90% pertencem a companhias nacionais, caso da Arábia Saudita, Irão, Iraque, entre muitos outros países, pelo que a subida do preço do petróleo não irá desaparecer por esta via, mesmo no caso da generalização e aplicação deste imposto na UE. Por outro lado, as companhias privadas podem começar a argumentar que não têm lucros suficientes para o reinvestimento na exploração e produção do petróleo, devido aos acessos, cada vez mais difíceis, a que se encontram, as suas jazidas. Há, pois, que aguardar e ver da justeza, ou não, destas possíveis medidas, pois os líderes europeus, há largos anos, transmitem mais depressa desconfiança do que confiança e era bom que eles compreendessem, de uma vez por todas, que este é o estado de espírito dos cidadãos europeus, como se viu, recentemente, no referendo irlandês. Podemos estar, assim, perante uma acção concertada de marketing político e publicidade enganosa, à custa do simpático e mítico Robin dos Bosques. Convém recordar que algumas das consequências negativas destas crises são geradas e surgem dentro dos próprios sistemas político-económicos de que estes senhores Comissários fazem parte e onde são líderes políticos, há vários anos.
O sector petrolífero não é a única actividade a necessitar de impostos especiais (veja-se o caso da banca), pelo que, se vier uma nova taxa, lembrem-se do Zé do Telhado (1818-1875), nascido no lugar do Telhado, perto de Penafiel. Sempre foi um português, de carne e osso, que, ao que dizem, também, roubava aos ricos para dar aos pobres!

Vítor Amorim

domingo, 22 de Junho de 2008

A falsa identidade na Internet pode ser crime


O PÚBLICO de hoje aborda a questão da falsa identidade na Internet, uma praga intolerável a que urge pôr cobro. Presentemente, um qualquer indivíduo pode, a todo o momento, abusar da clandestinidade para fazer e dizer o que lhe apetece, sem que ninguém consiga identificá-lo.
Na blogosfera, então, o uso e abuso do anonimato, quer para escrever quer para comentar, em blogue próprio ou nos outros, é norma corrente no dia-a-dia, com prejuízo para a credibilidade de quem se serve destes meios para partilhar sentimentos, saberes e emoções, com sentido positivo.
A partir de hoje, nos meus blogues, os anónimos ficarão interditos, porque gosto muito da liberdade responsável e construtiva. Sempre, afinal, pela positiva.

Fernando Martins

Lar S. José recebe apoio da American Foundation for Charites of Portugal


Após diversas candidaturas de instituições de solidariedade social a verbas atribuídas anualmente pela American Foundation, o Lar de S. José foi uma das escolhidas para receber vinte mil dólares da instituição americana, cerimónia que decorreu recentemente em Ílhavo com a presença do Comendador Alfredo Santos, um dos fundadores da Fundação Americana, de Ribau Esteves, presidente da Câmara, e do prior de Ílhavo, padre Fausto de Oliveira.
Cerimónia simples mas cheia de significado para o responsável do Lar de S. José, já que a obra de ampliação e requalificação do Lar está quase pronta e agora todas as contribuições são necessárias para a ultimar.
A American Foundation foi criada em 1984 pelo Ilhavense Alfredo Santos juntamente com um grupo de emigrantes portugueses radicados em New York. Todos os anos, em Setembro, organiza um jantar, onde, além das contribuições de todos os convidados, é leiloado um automóvel topo de gama.
Mais de dois milhões de dólares já foram entregues a várias instituições de apoio aos mais desfavorecidos, existentes em Portugal, sendo esta a segunda vez que o Património dos Pobres recebe o contributo daquela Fundação (a primeira vez foi em 1984). Também o Centro Paroquial da Gafanha da Nazaré, em 1989, e a Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, em 1996, foram contemplados.
Como reconhecimento pela sua obra filantrópica, Alfredo Santos tem sido homenageado por vários responsáveis políticos nacionais, possuindo as Comendas da Ordem da Benemerência e da Ordem do Infante D. Henrique. Em 1992 recebeu do governo português a medalha de Mérito das Comunidades Portuguesas e da Câmara de Ílhavo uma condecoração honorifica.

Carlos Duarte

NA LINHA DA UTOPIA

A concorrência


1. Tudo tem o seu lugar. A concorrência tem também o seu lugar, como oportunidade em que se espera sempre um melhor «serviço ao cliente», como tantas vezes se diz. Se é verdade que não haver concorrência será sinal de não liberdade e de uma sociedade apática, também é verdade que a absolutização desmedida da concorrência pode ultrapassar as fronteiras do bom senso. O agravamento da situação social e económica tem vindo a fazer crescer fortemente as chamadas queixas do consumidor, o que demonstra que tantas vezes se procura vender «gato por lebre», e sendo, como diz o povo, que «o que parece barato sai caro».
2. Em qualquer coisa a adquirir há sempre imensas linhas e entrelinhas, em letra minúscula e numa linguagem incompreensível para o cidadão comum. Muitas vezes, na pressa do «não há tempo a perder», só depois é que se descobre que se foi iludido com o que parecia a melhor opção. O tempo que vivemos actualmente é favorável, de forma crescente, a todos os malabarismos para vender e comprar. A “bola” terá de estar do lado dos cidadãos que, atentos, procuram saber justamente aquilo em que estão a apostar. Saber perguntar, ainda que não se conheça nem saiba muito bem como, saber ver «com olhos de ver», não como quer desconfia mas como quem procura efectivamente assumir os seus direitos, são atitudes de uma cultura viva e atenta às realidades mais simples do dia-a-dia.
3. Claro que a publicidade vai desenvolver-se cada vez mais, mas muitas vezes a sua própria ética intrínseca não conhece o mesmo desenvolvimento. Com frequência demasiada procura-se iludir em vez de servir. Toda a megaespeculação dos mercados internacionais que continua são essa ponta do iceberg do que acontece nas bases, nestas regras de um jogo que multiplica as ansiedades e faz crescer a desconfiança. Hoje, a concorrência desenfreada ocupa quase todos os espaços e idades, só não se verifica é tanta concorrência na cultura, nos valores e nas atitudes que são a generosidade desinteressada. Uma renovada consciência de sociedade e de sentido de humanidade torna-se um novo imperativo ético, que faça crescer os sentidos da complementaridade e da interdependência.
4. Há dois mil anos Alguém perguntava de forma tão pertinente: «De que vale ao Homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua própria vida?» É esta interrogação, a par daquela dos Génesis «onde está o teu irmão?», que quererão entrelaçar os dinamismos da não resignação, do inteiro compromisso em oferecer verdade e generosidade onde parece reinar a concorrência do férreo vencer o outro. Sem utopias, porque na esperança que se quer construir cada dia. Se não formos por este edifício humano ético das complementaridades, a concorrência será a nova “guerra” do século, multiplicando ansiedades e inverdades. Não haverá saúde que aguente!

De cada popa se vê um Portugal diferente


“É certo que de cada popa se vê um Portugal diferente, conforme a latitude: verde e gaiteiro em cima, salino e moliceiro no meio, maneirinho e a rilhar alfarroba no fundo. Camponeses de branqueta e soeste a apanhar sargaço na Apúlia, marnotos a arquitectar brancura em Aveiro, saloios a hortelar em Caneças, ganhões de pelico a lavrar em Odemira, árabes a apanhar figos em Loulé. Metendo o barco pela terra dentro, é mesmo possível ir mais além. Assistir, em Gaia, à chegada do suor do Doiro, ver transformar em húmus as dunas da Gafanha, ter miragens nos campos de Coimbra, quando a cheia afoga os choupos, fotografar as tercenas abandonadas do Lis, contemplar, no cenário da Arrábida, a face mística da nossa poesia, ou cansar os olhos na tristeza dos sobreirais do Sado. Mas são vistas… Imagens variegadas dum caleidoscópio que vai mudando no fundo da mesma luneta de observação.”
Miguel Torga
In PORTUGAL

PONTES DE ENCONTRO

A Salvação de Deus e o poder dos homens


No passado dia 20, do corrente mês, escrevi, aqui, no blogue, um texto de partilha sobre umas, breves, declarações, proferidas pelo Professor Marcelo Rebelo de Sousa, ao jornal Expresso, do dia 13 de Junho, onde este fazia algumas referências a movimentos eclesiais de leigos que, ideologicamente, estão situados entre aquilo que, convencionou estarem à esquerda ou à direita do espectro político português. A meu ver, tais afirmações, não têm que ter quaisquer conotações partidárias, ainda que não seja de excluir tal hipótese. Pois bem, tive a bondade de algumas reacções a este texto e, algumas delas, interpelavam-me mesmo se existem ou não partidos políticos que se identificam mais com a Igreja Católica, do que outros, para logo me darem a resposta e a conclusão: existem estes partidos e é natural, por via disso, que os movimentos de leigos, ideologicamente próximos destes, tenham maior aceitação, compreensão e apoio no interior da Igreja. Sinceramente, creio que, quem assim pensa, não está a prestar um bom serviço à Igreja e à sociedade e ainda deve estar a pensar nos tempos em que o Estado português se dizia católico e reconhecia o catolicismo como a sua religião. Hoje, a sociedade, também religiosamente, é plural, pelo que o Estado não pode ter religião. Antes, tem que respeitar todas as confissões religiosas, através do reconhecimento dos seus plenos direitos. Por outro lado, a laicidade [do Estado] tem que se afirmar neutra em matéria religiosa, neutralidade esta que exige que a não religião ou o laicismo não se transformem em doutrina do próprio Estado. Estes pressupostos são a essência da separação entre Igreja e Estado, esteja este organizado da maneira que estiver, ainda que esta separação jamais possa significar que Igreja e Estado estejam de costas voltadas. Pelo contrário: tanto a Igreja como o Estado têm que estar ao serviço e em busca do bem da sociedade, no seu todo.
Deste modo, num Estado democrático, como é o português, e citando D. José Policarpo, na sua mensagem “A Igreja no tempo e em cada tempo”, de 18 de Maio de 2008, "O único caminho democraticamente legítimo de a Igreja influir nas estruturas do Estado é a participação consciente dos membros da Igreja nos processos democráticos. A Hierarquia respeita a pluralidade de opções partidárias por parte dos católicos. Deve, entretanto ajudá-los a formar a sua consciência cívica e a visão dos problemas da sociedade em chave cristã.” (…) “A Hierarquia não deve intervir no processo democrático com métodos de confronto. Os católicos sim, esses podem e devem fazê-lo.” Mais à frente, na sua mensagem pastoral, o Cardeal-Patriarca escreve: “…a natureza da missão da Igreja na sociedade é a Igreja que a define e não o Estado.”
Ir para além disto, para os cristãos, é confundir a autenticidade da missão da Igreja com uma qualquer ideologia ou um qualquer programa político-partidário, sempre passageiro, frágil e limitado às suas conveniências e circunstâncias de momento, que jamais a Igreja poderia aceitar ou apoiar, em nome da sua perene fidelidade evangélica “… para que todos sejam um só…” (cf.: Jo 17,21); da liberdade de cada cristão poder dar, segundo a sua consciência moral, formada pelos e nos valores cristãos, “…a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (cf.: Mc12, 17); não entender que a Igreja está para servir e não para ser servida (cf.: Mc 10, 42-45); que a mera lógica de poder e de domínio, no seu interior [da Igreja], ou deste para o exterior, é um pecado contra Deus e contra o homem, que o conduz à perdição eterna, pois ” Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a sua alma?” (Cf.: Mt 16,26); que qualquer poder humano só vem de Deus (cf.: Jo 19,11), pelo que a liberdade do homem é finita e falível, o que o deve levar a ter consciência das suas próprias limitações, à medida que busca e descobre, por si próprio, a vontade de Deus e que “não há salvação em nenhum outro” [Jesus Cristo], pois “não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar” (Cf.: Act 4,12), ou seja, não é o poder, a riqueza ou os partidos que nos salvam, mas a forma como tratamos o nosso semelhante (cf.: 25, 34-40).

Vítor Amorim

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 83

A ALIMENTAÇÃO

Caríssima/o:

Vontade de rir nos invade quando falamos sobre as nossas comidas desses recuados tempos de meados do século passado. [Concordemos ou não estamos em plena recuperação de juventude, atravessando eufóricos a terceira idade! Quem é que não rasgou a face quando um conhecido nos bate nas costas e diz prazenteiro “olha como fulano está velho... acabado!”... sabemos onde ele está a bater!...]
Cum diacho, já meia dúzia de linhas e ainda não falámos na malga de sopas de café do almoço antes de irmos para a Escola; esclareça-se sopas de boroa!
Ao meio-dia, ia-se a casa pelo jantar: um prato de caldo com um olho de azeite, couves e batatas; quando o rei-fazia-anos um naco de toucinho, melhor, de carne branca. Muitas vezes, íamos com sorte com o resto da ceia da véspera: umas batatitas com couves e um pedacito de peixe que escapou escondido em alguma folha verde.
Nova corrida, que o botão ou o pião nos esperavam...

O “problema” apareceu quando a Escola foi mudada para a Marinha Velha, para a Escola do Ti Lopes: era muito longe e não dava tempo para vir jantar a casa; levávamos a boroa e a sardinha que sobrou da véspera embrulhadas num papel de jornal.
Como facilmente se adivinha fome era coisa que não se via, porque na altura se afirmava que era negra! Muitas vezes a enganávamos com mais uma golada de água.

Temos de concordar que durante os exames a coisa mudava muito: sandes de marmelada e pirolito, pois então!

Já do lado chamam que são horas da merenda e que fiz grande confusão com as refeições... Pelo sim pelo não, vou ao meu suplemento alimentar para manter a linha.



Manuel

sábado, 21 de Junho de 2008

ESTAR DO LADO DE JESUS


Não há alternativas. Estar ou não estar do lado de Jesus. Aqui, agora e sempre. A opção é nossa, de cada um. Pode tomar-se em qualquer ocasião. E refazer-se em todas as circunstâncias. “Quem se declarar por mim, eu me declararei por ele” é afirmação sentenciosa clara, firme e comprometedora.
Estar do lado de Jesus é ser presença junto daqueles que Jesus ama: os construtores da paz, os mensageiros da justiça, os arautos das boas notícias do mundo, os voluntários de todas as causas humanitárias, os defensores da dignidade humana, os amantes de uma vida sóbria, os íntegros de carácter e honestos de atitudes, os transparentes e puros de coração.
Estar do lado de Jesus é viver a confiança e cultivar o risco ousado, é alicerçar convicções nobres e nutrir emoções positivas, é preferir a promoção das pessoas à eficácia do êxito, é amar gratuitamente dando preferência aos empobrecidos de tudo, sobretudo de consideração, de estima, de atenção.
Onde está Jesus está o melhor do ser humano, de toda a humanidade: respeito sagrado pela consciência, proximidade solícita face aos excluídos dos bens da vida, entrega generosa e abnegada pelos indefesos e perseguidos, perdão incondicional aos ofensores, amor sem limites aos inimigos.
A pessoa humaniza-se na medida em que estiver ao lado de Jesus, cultivar a sua opção de vida, preferir o seu estilo de relação e assumir a sua forma de compromisso.
A sociedade é espelho da condição humana que Jesus dignificou, repondo as leis ao serviço das pessoas, abolindo tradições sem sentido, transgredindo normas menores opressivas, abrindo horizontes de cooperação, dando espaço aos marginalizados, purificando as aspirações dos sonhadores e propondo a todos uma qualidade de vida de excelência no amor e na paz.
Com Jesus nada se perde nem desvirtua. Tudo se assume e eleva, a fim de condizer com a nossa comum dignidade humana. Vale a pena estar do seu lado, apostar nele, correr o risco com ele.

Georgino Rocha

Língua à Portuguesa

Reconhecer o valor estético da Língua
A língua não é apenas um veículo de comunicação. É também o meio pelo qual expressamos os nossos pensamentos, as nossas emoções, os nossos afectos...
Eu diria que a língua não tem somente o género gramatical feminino; ela é 100% feminina, e, como tal, também ela é vaidosa!
Por trás dos bastidores, que são as regras firmes da gramática, está também o encanto de ela aparecer em palco e mostrar a beleza das suas roupas, que são as palavras; das suas jóias, que são as figuras de estilo; da sua maquilhagem, que são as reticências e os pontos de exclamação a mais!!
E ninguém ouse censurar esta vaidade de “alguém” que não envelhece, mas que, pelo contrário, rejuvenesce a cada dia que passa!

Reconheceram o valor estético da língua?!!
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NOTA: Aqui ao lado, em CULTURA, coloquei um blogue que se dedica a questões da Língua Portuguesa, com saber, arte e bom humor. Como amostra do que pode ler em Língua à Portuguesa, ofereço aos meus leitores o texto desta página. Passe por lá para ver mais e para aprender.

Casa Gafanhoa

Há tempos escrevi aqui um texto, ilustrado com fotos da Casa Gafanhoa. Volto a ele e às fotos, por me parecer pertinente, neste início do Verão, época das férias grandes. Grandes significa com mais tempo para visitar o que há de importante.

Campos de Aveiro


Vejo os campos de Aveiro…
Árvores verdes, brancas velas
Em fugitivo idílio,
Na planície cortada de canais;
E no centro a lagoa, ébria de cor, dormindo.

Teixeira de Pascoaes

Manuela Ferreira Leite: o que mudaria com ela?


"Chegou a hora de Manuela Ferreira Leite nos dizer o que é que o país mudaria com um Governo seu".


João Marcelino, "Diário de Notícias", 21-06-2008

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NOTA: Ora aqui está uma boa questão, que aplaudo. Cansados de ouvirmos falar mal uns dos outros, chegou a hora de a nova líder do PSD (ou PPD-PSD, como alguns gostam) nos dizer, olhos nos olhos, o que é que faria ou fará se um dia estiver à frente do Governo. De diferente e melhor, já agora. Já estamos todos cansados de mais do mesmo..., deixando o país e os portugueses a ver passar o comboio do progresso, rumo a outras bandas.

FM

APONTAMENTOS SOBRE RELAÇÕES IGREJA(S)-ESTADO (5)

Nas concepções tradicionais, o divino acabava por identificar-se com o universo, necessário e eterno. "Tudo está cheio de deuses", afirmou Tales. O cosmos era um deus perceptível sensorialmente, a totalidade do divino e do humano. Deus era mais um atributo do cosmos do que um sujeito. Confundia-se com a profundidade numinosa da realidade.
Neste quadro, a afirmação do Deus pessoal transcendente e criador constituiu uma revolução na História da consciência religiosa e é o legado bíblico essencial à Humanidade. Num processo que culmina com os últimos profetas, no tempo do exílio na Babilónia (séculos VI e V a.C.), Israel, erguendo--se acima da hierogamia e do politeísmo, operou, com a fé monoteísta, "a sua grande revolução religiosa", como escreveu o teólogo X. Pikaza.
Deus é transcendente ao mundo e, criando-o em liberdade, retira-lhe o carácter sacral. O mundo, agora, é simplesmente mundo, distinto de Deus. As realidades mundanas têm verdade em si mesmas, as suas próprias leis e autonomia. Esta foi a condição de possibilidade da secularização. Deus não se identifica com nada do mundo.
Deus é, pois, infinitamente transcendente, independente e distinto e distante do mundo. Mas, paradoxalmente, por isso mesmo, é sumamente presente ao mundo enquanto criador e, porque o mundo é mundo e o Homem é Homem, pode revelar-se e o Homem pode aceitar pela fé ou rejeitar a sua manifestação. Na sua diferença, a proximidade de Deus com o Homem é de diálogo, ficando aberta a possibilidade do próprio ateísmo, que não existia numa concepção sacralizada do mundo. O mistério cristão da encarnação também pressupõe a diferença de Deus, do Homem e do mundo.
Não admira, pois, que, nas suas origens, o cristianismo aparecesse como uma religião surpreendentemente "secular". Nas comunidades cristãs, havia ministérios e carismas, mas não uma casta sacerdotal. A liturgia consistia essencialmente numa refeição fraterna nas casas dos cristãos. Os presbíteros e quem presidia vestiam normalmente, mesmo na celebração eucarística. Usava-se a língua habitual, não havia templos. Foi tal o choque sobretudo por causa da inexistência de sacrifícios que os cristãos foram acusados de ateísmo.
Como mostrou L. González-Carvajal, com o reconhecimento do cristianismo como religião oficial do Império, tudo se foi modificando, passando inclusivamente o cristianismo de religião perseguida a religião perseguidora. Apareceram os templos e a mesa comum da refeição familiar deu lugar ao altar. Se, no Novo Testamento, todos os cristãos eram considerados "santos", impôs-se a distinção entre o clero (a parte "sagrada") e os leigos (a parte "profana"). Ergueram-se barreiras entre o "presbitério" e o resto do templo: o lugar próprio do sacrifício eucarístico ficava reservado aos sacerdotes, que foram retirados da vida normal e sujeitos à lei do celibato. Só o clero podia distribuir a comunhão, pois as mãos "impuras" dos fiéis não deviam tocar os santos mistérios.
Depois, monarcas reivindicaram o direito divino dos reis e papas formularam a teoria das duas espadas. Durou séculos a luta entre a Igreja e a modernidade e ao clericalismo contrapôs-se o anticlericalismo.
De qualquer modo, mesmo se teve de impor-se à Igreja oficial, havia na Bíblia um fermento de laicidade. Foi assim possível o Estado moderno laico, no quadro de uma racionalidade da organização da vida colectiva, etsi Deus non daretur (como se Deus não existisse): não compete ao Estado decidir se Deus existe ou não, mas tratar dos negócios da existência em comum no mundo e defender a liberdade religiosa de todos.
Claro que, de ambas as partes, haverá sempre a tentação do poder. E quem não sabe que, na sua dinâmica, o poder tende a ser total? Pelo seu lado, a Igreja só deveria reclamar liberdade. Sem privilégios. A título de exemplo: que interesse pode ela ter no casamento católico com efeitos civis? Não seria preferível, também aqui, separar águas? De qualquer modo, como escreveu o teólogo E. Schillebeeckx, a Igreja será cada vez mais uma "Igreja de voluntários".

Anselmo Borges

sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Igreja distingue Maria Helena da Rocha Pereira


Prémio homenageia percurso de vida e lembra importância dos Estudos Clássicos numa sociedade cada vez mais refém da tecnologia


A professora e investigadora de Estudos Clássicos Maria Helena da Rocha Pereira, catedrática da Universidade de Coimbra, recebeu esta Sexta-feira, em Fátima, o Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes, na sua quarta edição.
Ao receber a distinção, a universitária de Coimbra revelou-se grata, em especial pelo destaque dado à “área contemplada”, que considera estar “nos alicerces da cultura europeia e de todas aquelas, tributárias destas, de outros continentes”.
“Podem muitos dos nosso contemporâneos esforçar-se por esbater ou ignorar esta relação (com o mundo greco-latino, ndr), mas a verdade é que tentar fazê-lo é renegar a história, desconhecer a necessidade de aprender”, acrescentou.
Maria Helena da Rocha Pereira realçou que o latim e o grego têm estruturas “propícias ao desenvolvimento do raciocínio” e que dessas línguas brotam a maioria dos termos da linguagem científica e técnica de que nos servimos.
O Prémio, instituído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), procura destacar anualmente um percurso ou uma obra, onde os valores do Humanismo e da Experiência Cristã se achem reflectidos. Para a Igreja, a distinção entregue a Maria Helena da Rocha Pereira visa também lembrar a importância dos Estudos Clássicos numa sociedade cada vez mais refém da tecnologia.
Leia mais em Ecclesia

As Novenas

"Se a promessa era cumprida numa igreja ou capela das redondezas da Gafanha da Nazaré, regressávamos a casa onde nos era servido um pequeno lanche à base de tremoços, pevides e um ou outro bolito. Para regar o que se comia, bebia-se água do poço e em casos especiais lembro-me bem de ter bebido um pirolito (gasosa em garrafinha com uma bola de vidro a servir de rolha, fixa no gargalo pela pressão do gás do próprio líquido). Se era longe, a merenda era mesmo ali, no largo da capela ou da igreja, numa sombra qualquer, que naquelas idades nem se sentia a sua falta. Contavam-se umas histórias, cantavam-se umas cantigas, algumas religiosas e ao gosto da “dona” da novena, olhávamos uns para outras, e vice-versa, brincávamos, corríamos e saltávamos, e a um sinal da chefe estávamos de volta a casa, com uma tarde vivida de forma bem diferente, que naqueles tempos não havia televisões nem rádios para passar o tempo."
Leia mais em GALAFANHA

Há Verão este fim-de-semana


Há garantias de que temos Verão (duplo sentido) este fim-de-semana. Então aproveite e não deixe que a nossa Praia da Barra fique assim, deserta e sem gente. Vá e goze em pleno a maresia temperada pelo sol que aquece o corpo e a alma. Descanse e afugente o stresse para longe da vista e do coração. A vida tem de ser aproveitada. Bem aproveitada que se faz tarde! Mas se caírem uns pinguitos, não se aflija. Deve ser coisa passageira.

Dia Mundial do Refugiado



37,4 milhões de refugiados à espera de respostas humanitárias

Um dia para lembrar o drama por que actualmente 37,4 milhões de pessoas estão a passar. 20 de Junho é o Dia Mundial do Refugiado este ano sob o mote da protecção.
Todos os anos o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, presidido pelo português António Guterres, aborda este dia numa perspectiva diferente. “Trata-se de uma palavra que lança a atenção sobre o problema e que procura soluções duradouras para estas pessoas”, aponta à Agência ECCLESIA Mónica Frechaut, Assistente da Direcção de Informação Pública do Conselho Português para os Refugiados – CPR.

Portugal está murcho, mas com fé em novas vitórias


Portugal ficou murcho com a derrota frente à Alemanha. Ontem à noite ouvi muitas lamúrias de comentadores e de compatriotas mais ligados ao mundo do futebol. Também ouvi críticas contundentes, contra o seleccionador e alguns jogadores. A tristeza dominava. Até parece que convivemos mal com a derrota, sobretudo na área do futebol. Resultados menos bons em provas de outros sectores desportivos passam despercebidos. E acontece o mesmo, quase, quando alguns atletas ocupam um lugar no pódio. Mas no futebol, alto lá. Aí, porque nos convencemos de que somos os melhores, não se admitem deslizes.
De qualquer forma, gostei de ouvir hoje de manhã o presidente da FPF, Gilberto Madail, sublinhar que somos, afinal, do grupo das oito melhores selecções da Europa. Já não é mau para um país como o nosso, onde não há muitos jogadores para escolher, embora tenhamos, de facto, dos mais completos do mundo.
O Presidente da República, afirmando-se com pena de termos perdido, referiu que há mais vida e mais desafios para além do futebol. É verdade. Por isso, há que acreditar que outros campeonatos hão-de proporcionar-nos grandes vitórias. Se houver esforço, preparação, motivação e estímulos capazes de nos fazerem chegar mais alto e mais longe. Há que ter fé, também!

FM

PONTES DE ENCONTRO


A Igreja Católica e o poder dos outros

“Marcelo Rebelo de Sousa defende que há falta de “vozes em defesa da doutrina social da Igreja”, porque os movimentos de leigos têm sido dominados pela direita.
Em declarações ao Expresso, o professor defendeu que “os movimentos de leigos com mais força actualmente, são de direita e apostam nas questões fracturantes, como o aborto, divórcio, eutanásia e casamento homossexual.”
Em contrapartida, “há que falar, também, contra as desigualdades sociais, a globalização meramente economicista e em defesa dos emigrantes”, matérias tradicionais dos movimentos de esquerda, que “continuam a existir, mas não têm o peso dos outros.” “É errado, porque a Igreja não é de esquerda nem de direita”, diz Marcelo Rebelo de Sousa”
Este texto faz parte de uma notícia publicada no jornal Expresso, do dia 13, do corrente mês, sobre uma Carta Pastoral, de dezasseis páginas, do Cardeal-Patriarca de Lisboa, de 18 de Maio de 2008, dirigida à Igreja de Lisboa, com o título “A Igreja no tempo e em cada tempo”, onde também é referida a diminuição de fiéis que tem tido lugar, em algumas paróquias de Lisboa, “nos últimos sete anos”.
Já li este documento pastoral e, se me é permitido, convido todos os católicos a lê-lo e a reflectir sobre a sua mensagem, sempre actual, para a vida da Igreja. Para os cristãos que não façam parte da Igreja do Patriarcado de Lisboa sugiro, se possível, que esta leitura e reflexão sejam feitas em comunidade eclesial. Por agora, fico-me pelas breves e importantes afirmações do Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Será por ele ser um conhecido comentador político que não resistiu à tentação de dizer que na Igreja (só na de Lisboa ou noutras, também?) há como que uma aparente luta pelo poder, entre o que ele designou por “movimentos de leigos dominadas pela direita” e os de esquerda, “mas [estes] não têm o peso dos outros”?
Ele diz – e com isso não posso estar mais de acordo – que “a Igreja não é de esquerda nem de direita”, mas será que todos sabem ou querem saber disso para alguma coisa?
Se assim for, as probabilidades das igrejas, paróquias e comunidades cristãs viverem num ambiente de tensão e de desgaste, mais ou menos permanente, e a busca da marginalização ou afastamento do outro é enorme e torna-se insustentável a comunhão fraterna, pelo que as rupturas, pessoais ou de grupo, têm todo o caminho livre para acontecerem, das mais variadas formas, sem ninguém assumir responsabilidades por elas, porque, cada um, está de bem com a sua consciência, como é costume dizer-se.
A expressão de Tertuliano (155-122), na sua obra Apologia 39,9, “Vede como eles [os cristãos] se amam”, citada por D. José Policarpo, na sua Carta Pastoral, só nos pode fazer olhar para os cristãos dos primeiros séculos e para aqueles que, nos nossos dias, continuam a ter como único poder a Mensagem de Jesus Cristo e o testemunho que dão dela (cf.: Act 3,6) e deixar-nos corados de vergonha e cobardia.
Rebelo de Sousa não é ingénuo nem irresponsável e tocou, goste-se ou não, num ponto delicado na vida e no futuro da Igreja, enquanto “una, santa e apostólica”, e a quem os pecados dos seus membros não só a fazem sofrer, por caprichos, intolerâncias, vaidades, protagonismos, poder, invejas, calúnias ou projectos pessoais, sem se darem conta (?) que as suas fragilidades acabam por ser, também, as fragilidades da própria Igreja.
“A caridade é o grande desafio para a vida interna da Igreja. A sua primeira expressão é o amor a Deus e ao Seu filho Jesus Cristo, o que nos levará a amar todos os homens como nossos irmãos.” – refere D. José Policarpo. Assim, para o cristão, não é possível amar a Deus se não amar o seu irmão em Cristo, seja ele quem for. A Salvação, graça gratuita do amor de Deus, para que todos os homens se salvem, exige destes actos e acções concretas, de dimensão e expressão humana, no seio do próprio mundo, pelo que estes actos e estas acções não se podem opor àquilo que o próprio Deus nos convida, incessantemente, a fazer, através da Sua Igreja: amar o próximo, como a nós mesmos (cf.: Lc 10,25-37). Fora disto, por muito que nos custe, não há redenção!

Vítor Amorim

quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Forte da Barra precisa de mais atenção


(Clicar para ampliar)


Texto enviado ao IPPAR


Há tempos mandei-vos um mail pedindo que me informassem como seria possível recuperar o edifício classificado de interesse publico designado por «Forte da Barra de Aveiro».... Já recebi uma resposta a dizer que alguém me iria responder..... e até agora nada.... Faço essa pergunta porque me lembro, quando era director de um museu em Coimbra, de o IPPAR ter apoiado a recuperação de algum património em Coimbra....
A situação de ruína em que se encontra o «Forte da Barra», e pelo menos dois edifício do Estado perto dele, é simplesmente vergonhosa e perigosa... E ainda é mais vergonhoso quando ao lado do Forte se fazem grandes obras no «Jardim Oudinot», se construiu no local uma réplica de uma vigia sem qualquer interesse histórico e se espera em Setembro uma visita de uma regata de grandes veleiros históricos....
Lembro que o Forte da Barra tem uma história longa no período das fortalezas pirobalísticas.... existindo já a indicação de uma guarnição na zona no século XVI para protecção e controlo dos navios que fundeavam no local..... situação confirmada por dois achados arqueológicos encontrados nas escavações do terminal norte do Porto de Aveiro, a algumas centenas de metros do local e por um livro de acordos de Aveiro da época...
Infelizmente o Forte da Barra é o que nos resta de outros fortes existentes no litoral de Aveiro e de diversas vigias ao longo da costa .... das quais destaco a torre da «Senhora de Vagos», do início da nacionalidade, já desaparecida, e da «Senhora das Areias», em S. Jacinto, ainda existente como capela...
Penso que devia ser destruído todo o casario em ruínas que colaram ao Forte...... mantivessem a bateria rasa ainda existente..... recuperassem a antiga linha defensiva da tenalha com a pedra retirada da demolição.... fosse mantido o Forte como era no tempo em que tinha função de defesa.... e limpos os subterrâneos, fazendo-se algum trabalho arqueológico.
António Angeja

NA LINHA DA UTOPIA

Gerar proximidade


1. Proximidade ou distância, depende do lado da vida em que nos colocamos. Se formos a apreciar a fundo a dignidade de cada pessoa humana, logo nos apercebemos que o mistério da vida, na sua riqueza da diversidade, manifesta-nos, acima de tudo, a radical comum pertença à humanidade. Por vezes, muitas das divisões e distâncias que as culturas, interesses ou políticas, foram ou vão gerando (e gerindo), precisam deste regresso à condição ancestral da comum dignidade humana. Talvez, em determinadas circunstâncias tenhamos mesmo de colocar a mente e os olhos que só sabem dividir diante dessa imagens fecundas do embrião e do bebé no ventre materno. Imagens estas que, do seu pressuposto rigor científico do milagre da vida, muito poderão sensibilizar e transformar afectiva e racionalmente muitos pensamentos.
2. Quantas divisões que existem no mundo (porque nas pessoas do mundo) que precisam desse respirar fundo e do justo apreciar do dom da vida comum a todos e cada um! O tempo sociológico que vivemos propõe-se reinterpretar todas as coisas. É a globalização na sua dinâmica impulsiva que, partindo das forças dos interesses das economias, coloca as diversidades mais próximas. Tal facto pode trazer o melhor quando se aprecia e integra, ou o pior quando se exclui quem pensa diferente. Saber cultivar a proximidade inclusiva das culturas, não como sobreposição ou anulação, será um dos grandes desafios do século XXI. A tecnologia põe-nos em contacto; mas serão os princípios, critérios e valores, que darão o tom a este novíssimo encontro.
3. O ano (2008) europeu para o diálogo intercultural testemunha e impulsiona a necessidade premente desta mesma reflexão, a ser levada até às últimas consequências. É neste contexto que a prestigiada Fundação Calouste Gulbenkian (http://www.gulbenkian.pt/) abriu um programa sugestivo: Distância e Proximidade. Para todos os cidadãos humanos do mundo e do Portugal actual, trata-se, este género de reflexão não de uma abordagem lateral que se possa prescindir, mas sim de um enfrentar as problemáticas de fundo das sociedades contemporâneas, a partir das mais pequenas coisas em que, no fundo, todos vivemos a mesma interacção de diferentes culturas, numa interdependência diária; até as crises sociais, como a recente dos combustíveis, nos demonstram isso mesmo: precisamos e só sobrevivemos uns-com-os-outros.
4. Para comissário da pertinente iniciativa da FCG foi convidado Arjun Appadurai, natural de Bombaim e residente actualmente em Nova Iorque (esperemos que regresse um dia à sua terra!), que é «uma das personalidades que mais tem reflectido sobre as questões da violência cultural, do reconhecimento da diferença cultural como valor da modernidade e sobre as consequências da globalização». Venha o tempo em que estas questões da proximidade das diversidades estarão todos os dias em cima da mesa como factor decisivo de desenvolvimento humano. Será por aqui!

Alexandre Cruz

REGATA 200 ANOS DA ABERTURA DA BARRA DE AVEIRO.

A Regata, integrada no programa das Comemorações do Bicentenário da Abertura da Barra de Aveiro, foi uma organização conjunta da Administração do Porto de Aveiro e do Clube de Vela Costa Nova. Decorreu nos dias 14 e 15 de Junho e ofereceu, a quem a presenciou, imagens inesquecíveis.

O LIVRO E OS LIVROS, OS CATÓLICOS E A BÍBLIA

A Bíblia


Zade Smith, uma inglesa de origem oriental, das mais respeitadas escritoras britânicas na actualidade, ao dar conta, em entrevista recente (Expresso 31.5, em Actual), da sua carência de educação religiosa, diz textualmente: “Eu cresci numa família sem filiação religiosa. Quando não se tem um grande Livro, é natural olhar para um data de livros pequenos”. Uma palavra de largo e ponderado sentido, que a vida ilustra em cada dia.
Para aos cristãos, o grande Livro é e será sempre a Bíblia. Sair dela ou prestar-lhe menos atenção é deixar sem alimento a fé pessoal e a fé comunitária sem fundamento sólido e inspirador.
Recentemente, uma sondagem feita na diocese de Lisboa, e da qual se deu notícia muito alargada, trouxe ao de cima a consciência de como há ainda muitos cristãos que não lêem, não meditam, nem rezam a Bíblia, mesmo quando a têm em suas casas e sabem o seu valor e importância para a vivência da fé e para a vida segundo Cristo.
Os cristãos da reforma protestante e outros que, ao longo do tempo, foram nascendo, separando-se das correntes iniciais, mantiveram sempre grande ligação à Bíblia. O mesmo fazem hoje as incontáveis seitas que vão proliferando por esse mundo fora, muitas vezes sem pejo de utilizarem e manipularem o Livro Sagrado para justificar opiniões e interesses.
Num contexto histórico conhecido, a Igreja Católica durante séculos, preocupada em defender a fé tradicional do povo, ameaçada por uma livre interpretação bíblica, deu prioridade, na sua acção, à catequese das crianças, apoiando-a no testemunho activo da família, primeiro espaço de transmissão e expressão da fé. A Bíblia, suporte doutrinário do catecismo, foi um Livro usado sobretudo pelo clero, a quem competia ensinar as verdades cristãs às crianças e motivar os pais para o seu dever de primeiros educadores da fé dos seus filhos. Muito tempo assim, tempo de mais dada a evolução das mentalidades e da sociedade. Maior preocupação em continuar a defender, sem garantia, a fé dos crentes, e menor em evangelizar e alimentar essa fé, cada vez mais débil. Mesmo nos seminários, o estudo da Escritura foi deficiente, por haver mais preocupação com os problemas exegéticos, que com a riqueza espiritual inesgotável da Palavra Revelada.
Já em pleno século XX a Bíblia, traduzida em português e com notas explicativas, tornou-se mais acessível aos católicos. Os padres capuchinhos tiveram grande mérito neste acordar bíblico com a pregação popular, os grupos paroquiais, as Semanas Bíblicas nacionais, a publicação contínua da Bíblia e a Revista Bíblica. Milhares de pessoas e muitas centenas de paróquias vêm beneficiando desta acção. O Vaticano II fez acerca da Palavra de Deus uma Constituição conciliar ainda pouco conhecida. Dá-se, agora, cada vez mais atenção à leitura espiritual da Bíblia, dita “Lectio Divina”, que leva à participação pessoal de quem escuta ou lê a Palavra. As celebrações litúrgicas, mormente a Eucaristia, dão lugar central à Palavra de Deus e ao ministério de leitor, ajudando a crescer o amor à Bíblia.
Nos últimos tempos faz-se a campanha “ Em cada casa uma Bíblia”. Vê-se, porém, que não chega colocar o Livro nos lares cristãos, se antes ou ao mesmo tempo, não se mete, com cuidado e persistência, no coração dos crentes, o amor à Palavra e a capacidade de a ler e meditar, com fruto espiritual e apostólico.
A preparação do próximo Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus, está acordando a Igreja das suas rotinas, omissões e demoras. Se evangelização, iniciação cristã, formação dos adultos e agentes pastorais são hoje urgências na Igreja, não se dará passo válido sem dar à Bíblia ou à Palavra de Deus o lugar indispensável que lhe compete.


António Marcelino

Bens Culturais das igrejas

Museu Paroquial da Gafanha da Nazaré (clicar na foto para ampliar)


“Não é possível fazer catequese e pastoral, se houver alheamento dos Bens Culturais” e “muitos padres não estão sensibilizados para estas questões” - afirmou esta manhã (19 de Junho) Fátima Eusébio, Directora do Departamento dos Bens Culturais da diocese de Viseu, no Conselho Nacional para os Bens Culturais da Igreja.
:
Não me espanta esta afirmação. Sei que é assim, por experiência própria. Há padres sobrecarregados com trabalho em diversas funções, paroquiais e outras, e sem tempo para mais. Outros há sem sensibilidade para a arte e para a cultura… como em qualquer actividade humana.
Há anos, ao visitar uma igreja romana, senti, como habitual, vontade de conhecer histórias do templo, com alterações de várias épocas e estilos. Dirigi-me à sacristia, no final da missa, e o padre, de pronto, muito simpático, atirou-me logo: Disso não percebo nada; o sacristão sabe mais do que eu. E foi o sacristão quem me elucidou, com agrado meu, porque sabia mesmo umas coisas interessantes.
Esta denúncia de Fátima Eusébio não pode cair no esquecimento. É preciso mesmo motivar os agentes de pastoral, padres, diáconos e leigos, para a arte sacra.
Há tempos, li que houve obras em igrejas pagas com peças de arte sacra. Fiquei, naturalmente, triste com estes desmandos praticados por padres. A ser verdade, há que responsabilizar quem os fez. Mais uma razão para se educar para o valor, artístico e outro, das peças que estão a enriquecer os nossos templos ou os nossos museus paroquiais.

FM

Diário de Aveiro celebra aniversário



O Diário de Aveiro celebra hoje 23 anos de vida. Foram 23 anos de vida cheia, sempre ao serviço de Aveiro e sua região. Não há acontecimento que não tenha a presença dos seus jornalistas e que não ocupe lugar certo nas suas páginas.
Por força do jornalismo que também exerci, fui testemunha, inúmeras vezes, do seu esforço para dignificar a região e para valorizar as pessoas nos seus misteres quotidianos. Por isso, os meus parabéns a quem dirige o Diário de Aveiro e a quantos nele trabalham.

Dia da Igreja Diocesana: 29 de Junho

Santuário de Santa Maria de Vagos

Da Mensagem do Bispo de Aveiro
"Convido e convoco toda a Diocese: presbíteros, diáconos, seminaristas, consagrados(as) e leigos(as) para, no próximo dia 29 de Junho, celebrarmos no Santuário de Santa Maria de Vagos, o Dia da Igreja Diocesana.
Vamos aí sentir a alegria da nossa fé, fortalecer a comunhão da Igreja diocesana e celebrar a Eucaristia, sacramento da caridade e “dom de Deus para a vida do mundo”.
Vamos reencontrar e unir no Dia da Igreja Diocesana todos os dias do Ano Pastoral já vividos, afirmar passos já dados, avaliar o caminho percorrido e delinear o novo ano pastoral que daqui se anuncia.
Vamos saudar e agradecer quantos na vida sacerdotal, consagrada ou matrimonial celebram durante este ano momentos jubilares marcantes.
Alegra-me convidar de forma especial e acolher com particular dedicação todos aqueles para quem este ano pastoral significou uma etapa nova ou marcou um modo diferente de ser Igreja ou de viver em Igreja: os sacerdotes recebidos na Diocese, as irmãs religiosas aqui regressadas ou recém-chegadas às suas Comunidades, os que iniciaram a sua caminhada no Seminário ou no Pré-Seminário, os novos diocesanos, as famílias que celebraram o seu matrimónio ou o baptismo dos seus filhos, as crianças que pela primeira vez receberam a Eucaristia e os jovens e adultos crismados ao longo do ano.
Tem profundo significado sentir a presença dos grupos de acção sociocaritativa das diferentes Comunidades."

Pode ler toda a Mensagem de D. António Francisco

quarta-feira, 18 de Junho de 2008

NA LINHA DA UTOPIA

O labirinto europeu


1. Queremos uma Europa dos cidadãos, mas quando estes se manifestam livremente, ainda que a sua opinião solicitada não vá ao encontro da vontade das lideranças, nesse momento, já preferimos a Europa das instituições. Se os cidadãos não participam, há queixas justificadas pelo alheamento das pessoas do processo europeu; quando participam corre-se o risco a que a quase totalidade dos estados-membros procurou fugir evitando o referendo; quando participam efectivamente, quase que não se quer democracia nessa participação, pois o caso do não irlandês, e particularmente das sucessivas reacções, deixa transparecer claramente que de deseja que a vontade dos cidadãos pouco valha para os líderes europeus. A encruzilhada do labirinto.
2. Não é fácil descortinar os caminhos de saída deste labirinto, em que se respeite efectivamente a opinião dos cidadãos, pois se esta não é acolhida como parte integrante todos os cenários fazem crescer o alheamento e a insignificância da participação. Para os líderes, os cidadãos parecem ser um problema, pois estes não seguem cegamente o caminho trilhado pelos acordos parlamentares. É certo que muitos desses cidadãos que votam não até podem viver de subsídios europeus, e que para votar é preciso muita formação e consciência comunitária. Mas, ainda que toque a subjectividade indescortinável, a noção da Europa de Valores parece hoje uma utopia longínqua que faz de Bruxelas já uma capital fugidia que pouco une e que, no dia-a-dia se manifesta mais pelo Banco Central Europeu nos anúncios das taxas de juro ou nas greves do que numa consciência da riqueza das identidades e culturas que habitam a Europa agora alargada.
3. A hora é de pausa e de reflexão. E imagine-se se em todos os estados-membros se tivesse realizado o referendo sobre a ratificação do Tratado de Lisboa. Talvez a festa se tenha comemorado antes do “jogo” começar. E quanto mais as lideranças procuram nestes tratados a afirmação da «carreira política pessoal», como afirmou peremptoriamente o primeiro-ministro de Portugal, mais os cidadãos se sentem usados no seu voto e mais repelente criam em relação às lideranças. Estas foram-se, progressivamente, distanciando das bases e dos problemas reais das populações. É, naturalmente, muito difícil manter a liderança do geral atendendo a todas as situações particulares. Mas neste caso a Europa tem feito história, todavia, tendo-lhe faltado nos últimos tempos a prudência que brota da sabedoria. Esta não vem da tecnologia mas da arte de prever todas as possibilidades em questão.
4. Neste contexto parece haver algo de ingénuo (sinal de pragmatismo não sábio?) neste processo, pois nele não se prevê como lidar com o não. O não irlandês está aí, como um sinal inquietante, numa caminhada europeia que é irreversível mas que tem de respeitar a opinião dos cidadãos. Como foi possível tanta festa antes do tempo, sem ouvir os cidadãos e sem um «plano B» como previsão sábia de todas as possibilidades? Quanto mais depressa mais devagar? Em frente, na convergência, pelo aprofundamento plural dos Valores dos povos Europeus. Quem agora tomará a dianteira?

Alexandre Cruz

Cultura do Queijo


"Um queijo fresco de cabra que ficou esquecido não se deita fora, deixa-se acabar de secar. Vai-se voltando e ao fim de uns dias, passa a ser um queijinho seco, que cortado em fatias finas, com um fio de azeite e umas bolachas de água e sal, é petisco dos bons."
Aqui ao lado, em Cultura, destaquei um blogue que faz falta a toda a gente: Chama-se ARDEU A PADARIA e vai servir para nos orientar em momentos de indecisão, quando chegamos à cozinha sem saber o que fazer para o almoço ou para o jantar. Mais ainda: também serve para preparar um petisco, em maré de apetites. Vá lá já!

O Beira-Mar não vai por água abaixo


Tenho estado atento às dificuldades sentido pelo Beira-Mar. Clube alicerçado na cidade dos canais é, sem dúvida, um certo símbolo de Aveiro. Tem dado a todos os aveirenses grandes alegrias, mobilizando, nessas alturas, multidões de sócios e simpatizantes. Nesses momentos de entusiasmos esfusiantes, as multidões seriam capazes de lhe dar tudo. O pior é depois…
Depois, quando está na mó de baixo, a debandada é quase geral. Tenho pena destas gentes que só sabem cantar Beira-Mar… Beira-Mar…. Beira-Mar em tempos de vitórias e de euforias. Nas horas de tristezas, fogem com o rabinho entre as pernas…
Ainda bem que foi possível encontrar quem segure o leme…
O Beira-Mar não vai nem pode ir por água abaixo…

As mulheres amanham a terra

“Nas Gafanhas da Nazaré, da Encarnação, na d'Aquém, na do Carmo, na Vagueira,... em todas as Gafanhas de Ílhavo, as mulheres amanham a terra..."

Leia mais em GALAFANHA

Projecto de qualificação urbana da Gafanha alterado



O edifício da Junta de Freguesia da Nazaré será ampliado e, na sua envolvente, será criado um piso subterrâneo para estacionamento e uma área comercial
A autarquia ilhavense decidiu proceder a algumas alterações ao projecto base de qualificação urbana da área envolvente ao antigo Mercado da Gafanha da Nazaré, que havia sido seleccionado no concurso de ideias. De acordo com o vereador das Obras e Equipamentos, Fernando Caçoilo, foram-lhe acrescentadas algumas valências consideradas necessárias, nomeadamente um espaço subterrâneo (espécie de cave com 25 mil metros quadrados), com capacidade para acolher cerca de 100 viaturas, a criação de uma zona comercial nas laterais dessa zona envolvente, “de forma a criar um intercâmbio com a Junta de Freguesia, e o aumento da parte do edifício em que funcionarão os serviços da Junta de Freguesia em cerca de 20 por cento, “para que reste mais espaço para os CTT”, bem como para a instalação de um bar.
Estas intervenções, que passam a representar um investimento de cerca de 3.800.000 euros (mais 300 mil euros que o projecto inicial), serão executadas pela sociedade Mais Ílhavo, SA.
E tendo em conta a entrega da obra a este consórcio privado, João Roque, vereador da oposição socialista, questiona a futura legitimidade de posse por parte da Junta de Freguesia da Nazaré, ao que Ribau Esteves responde estar assegurada. “O nosso trabalho é desenvolvido em conjunto com a Junta de Freguesia, enquanto seu proprietário e utilizador exclusivo”, sublinha o autarca.
À questão de João Roque acerca das acessibilidades para deficientes, o edil garante estarem previstas, com um “elevador para circulação entre os dois pisos do edifício”.


Manuel Serra congratula-se com as obras

Manuel Serra, presidente da Junta da Gafanha da Nazaré, entidade parceira neste projecto, congratula-se pelas obras que serão efectuadas, considerando que “vêm ao encontro das necessidades sentidas e constituem uma resposta ao desenvolvimento futuro” daquela freguesia.


PONTES DE ENCONTRO


Os protestos de hoje e as opções (urgentes) para o futuro

Nas primeiras duas semanas deste mês de Junho, o país foi confrontado com a greve dos pescadores e com o bloqueio dos camionistas. Seguiu-se a paragem dos carros de reboque, sobretudo na zona Sul e, ontem, os buzinões rodoviários, fizeram-se ouvir, um pouco por todo o país. As ameaças de novas suspensões, caso das ambulâncias, taxistas e manifestações dos agricultores já se fizeram, também, anunciar. Motivo: a escalada dos preços do petróleo e os custos acrescidos que representam para estes (e outros) sectores de actividade. Em alguns países europeus (França, Itália, Holanda e Espanha, por agora), alguns destes protestos também têm tido lugar, pelo que não é sério dizer (ou tentar induzir) que se trata de um problema só português, como tenho ouvido.
Com mais ou menos habilidade, com algumas vulnerabilidades à mistura ou, como referiu a oposição, com uma total incapacidade em prever estes acontecimentos e da falta de autoridade demonstrada, o Governo português tem negociado com os representantes dos sectores em luta e as coisas têm voltado, para já, ao ritmo normal de funcionamento. Ao mesmo tempo, o Governo vai dizendo que aquilo que concede às reivindicações, que estão na base destas lutas, não põe em causa o equilíbrio das contas públicas, ainda que sejam os contribuintes, como sempre, a pagar a factura. Seja como for, tudo o que se está a fazer, não passa de paliativos de curto alcance. O problema de fundo (o preço de petróleo) persiste sem solução e parece não querer inverter a tendência de subida. Deste modo, se nada mais for feito, as preocupações, os conflitos generalizados, as lutas e convulsões sociais irão agravar-se, nestes e noutros sectores que, até agora, ainda não se manifestaram. A nível interno, o Governo pode descer o ISP (demasiado elevado para o nível de vida português) ou não permitir que as gasolineiras tenham tanto lucro. Mas, mesmo que o venha a fazer (o que acho muito pouco provável), não passariam de medidas com efeitos de médio prazo e não orientadas para um futuro que tem que assentar num consumo cada vez menor de petróleo, não só porque este não é eterno, os seus preços tornar-se-ão incomportáveis e a transição para uma sociedade pós-petróleo é uma realidade reconhecida como inevitável e algumas medidas, insuficientes, têm sido dadas nesse sentido, à escala mundial.
De resto, querer manter o estilo da baixa e velha política, em que tudo serve para o bota abaixo e os argumentos utilizados falam de tudo menos dos novos desafios de hoje e amanhã, sugerem que alguns ainda não entenderam (ou fazem que não entendem) que o mundo está a viver uma crise diferente das anteriores e que esta vai obrigar, a bem ou a mal, a alterar, radicalmente, os hábitos de vida pessoal das populações, a nível global, mesmo sabendo que há sempre alguém que passa ao lado de tudo isto.
O país necessita, pois, de intervenções lúcidas e corajosas e de responsáveis capazes de as levarem a cabo. Destaco a excessiva e crónica dependência petrolífera que o afecta e a insuficiente aposta que se tem feito na rede ferroviária, que deve ser modernizada, ampliada e incentivada, para o transporte de pessoas e mercadorias. Se no caso do petróleo deve haver uma política coordenada com a União Europeia, para que esta aposte, em conjunto, na diversificação das suas fontes energéticas, no segundo caso, há que deixar de apostar tanto nas vias rodoviárias. Deste modo, o Governo tem o dever e a obrigação de deixar de lançar concursos atrás de concursos de novas auto-estradas ou SCUT, pelo que irá ter de rever todos os seus projectos neste tipo de infra-estruturas, que tão onerosas são para o país, apostando na ferrovia, na modernização da frota comercial, com veículos menos poluentes e económicos, e na revitalização das estruturas portuárias. Também o plano aeroportuário nacional vai ter que ser adaptado a estas novas realidades, a fim de não se criarem autênticos elefantes brancos que podem comprometer gerações e gerações de portugueses e o futuro do país.
Ainda que tudo isto não traga resultados a curto prazo, urge que as medidas para a sua implementação não fiquem esquecidas algures numa secretária e se tornem prioritárias. De outro modo, haverá toda a razão para dizer que o Governo (este ou outro) não soube ler os sinais dos tempos nem prever o futuro das gerações vindouras.

Vítor Amorim

terça-feira, 17 de Junho de 2008

Igreja católica cria conselho nacional para harmonizar gestão de bens culturais

A Igreja católica portuguesa vai reunir pela primeira vez quarta e quinta-feira o seu novo Conselho Nacional dos Bens Culturais para optimizar a gestão do património existente.
«A Igreja tem de estruturar melhor a gestão dos bens culturais nas dioceses», considerou o bispo do Porto e presidente da Comissão Episcopal da Cultura, na véspera do primeiro encontro magno dos organismos católicos nesta matéria. Na primeira assembleia do Conselho Nacional, representantes de todas as dioceses vão apresentar a avaliação dos bens existentes para depois estabelecer regras comuns de gestão «desde a organização dos serviços diocesanos vocacionados até à definição de políticas globais de actuação nas mais diversas áreas patrimoniais (material e imaterial)», refere a organização do encontro.
Ler mais no SOL

NA LINHA DA UTOPIA

Valores comuns?


1. Foi na América que há dias um acidente especial foi notícia de destaque. Tratava-se de um senhor idoso que ao atravessar uma estrada foi atropelado. Ficou caído no chão. Veio o carro seguinte e passou por cima. As pessoas, quer dos carros quer dos passeios da berma abrandavam um pouco, mas logo seguiam a sua vida. A pessoa atropelada logo viria a falecer. Mas o mais gritante do acontecimento foi a passividade dos transeuntes até alguém “pôr a mão” ao acidentado. A notícia foi badalada, e abordada mesmo a questão de fundo do individualismo e da indiferença dos caminhantes perante um “irmão humano” estendido na estrada. Foram as imagens da câmara de filmar da estrada que gravaram esse indiferentismo e o salve-se quem puder da vida tida de moderna das designadas grandes cidades do mundo. Mesmo sem as generalizações sempre injustas, dá muito que pensar sobre o modelo de civilização em andamento pelas estradas da vida ocidental.
2. Foi já no mês passado que um grupo musical francês, da chamada arte de música electrónica, provocou um aceso debate sobre a polémica de um vídeo colocado na internet, no Youtube. A arte do vídeo da música tinha como título «stress». As imagens, acompanhadas de enérgica música electrónica, mostravam um grupo de jovens dos subúrbios de Paris a saírem do seu bairro e, por onde iam passado, a provocarem graves distúrbios públicos: «Roubo, assédio, destruição de um café, confrontos com a polícia, carjacking, terminando com a queima de um veículo», foram as fortes imagens seleccionadas para passar a mensagem musical. Polémica instalada, os defensores deste estilo de liberdade respondem com arte cinematográfica, dizendo que o vídeo é uma magnífica obra de arte semelhante a filmes como «O Ódio» e «Manual de instruções para crimes banais». Títulos evocadores de arte mortífera.
3. Deste caso francês, que quase regista os motins dos bairros pobres incitando a violência, o grupo musical e a respectiva editora dizem que se trata de arte e que é inofensivo, pretendendo caracterizar a cobertura que os média fazem quando ocorrem os motins dos subúrbios de Paris. Dá que pensar, e para mais novamente no país da razão que parece continuar a extravasar a própria ordem da racionalidade. A montante e a jusante, quer como facto polémico quer na sua resposta, sente-se que um certo património de valores comuns de dignidade da pessoa humana e da não-violência se vão expirando. Claro que há que ter cuidado com a referência a «valores comuns» em tempos da proclamação exaltada dos «valores individuais». Não existam ilusões, sem sobreposições, precisamos mesmo de valores comuns na base da dignidade da Pessoa, esta na sua vocação ao sentido de pertença e de comunidade. Quando não, este género de «acidentes» tem grave tendência para a multiplicação. A sensibilidade e o bom senso, enxertados na sólida formação humana e cívica, serão os valores comuns que garantem a dignificação pessoal e o sentido da história comum. Mas que lugar estes ocupam na formação contemporânea?

Peditórios


Com muita frequência, sou abordado, em casa ou na rua, com pedidos de contribuição para instituições diversas, maioritariamente dedicadas, segundo me dizem, a apoiar toxicodependentes em recuperação, doentes com SIDA e crianças abandonadas.
Há tempos, ao indagar a sede da instituição que pedia o meu apoio, recebi como resposta que se situava numa rua por sinal perto da minha. Fiquei espantado. E disse que achava estranho existir uma instituição com essa vocação tão perto de mim sem eu saber. Eu que julgava conhecer a minha terra e a sua vocação para apoiar quem sofre.
Claro que se tratava de mais um grupo que anda por aí a governar a vidinha à custa da boa-fé dos outros. A partir daí, confesso que fiquei mais desconfiado.
Hoje aconteceu mais um desses peditórios. Vêm de longe, aterram e pedem. E se porventura não contribuímos, não faltam, por vezes, os azedumes… E se pergunto, como perguntei, se o Estado não apoia a sua instituição, logo vem a resposta de que não, o que as abriga a recorrer às pessoas para poderem sobreviver.
Eu gostava de saber se as autoridades não têm possibilidades de averiguar a honestidade e veracidade destas instituições. Penso que as forças policiais, delicadamente, podem muito bem fazer isso, sem molestar ninguém. Não serão essas pessoas obrigadas a apresentar credenciais para poderem fazer esses peditórios?

FM

Congresso Missionário, Oportunidade a Valorizar

Carmelo de Aveiro

"Recomendo insistentemente a todos os párocos que valorizem os subsídios recebidos da Comissão Episcopal das Missões e do nosso Secretariado Diocesano de Animação Missionária. Peço que se aproveite o envio dos jovens voluntários que nos meses de Verão fazem experiências missionárias e se promovam encontros de reflexão e de oração, convívios e festas em que haja espaço para a partilha de bens e para o testemunho. Exorto vivamente as famílias, sobretudo as que sentem a urgência da causa missionária, a que tomem iniciativas que julguem adequadas e acompanhem com solicitude e gratidão os que se dedicam inteiramente à Missão."

Nota Pastoral do Bispo de Aveiro sobre o Congresso Missionário 2008

Uma Europa de Valores

Mais uma vez, a União Europeia foi despertada do seu adormecimento institucional pelos cidadãos. Neste caso, o «Não» da Irlanda tem um impacto que ultrapassa, em muito, o âmbito nacional, podendo colocar em risco o Tratado de Lisboa de que os governantes portugueses tanto se orgulham.
Os cidadãos europeus parecem ser um problema para quem lidera a União e está, muitas vezes mergulhado em questões menores ou demasiado virado para si mesmo: quando os europeus não participam, há queixas do seu alheamento; quando participam, são pouco dóceis aos desígnios comunitários e têm o mau hábito de se lembrarem dos problemas com que convivem no seu dia-a-dia e castigarem quem comanda os seus destinos.
“Bruxelas” está a deixar de ser o símbolo de paz e unidade europeias para passar a ser uma espécie de papão para as faixas da população mais desprotegidas. Se quiserem ser levados a sérios, os mentores desta nova Europa (reunificada, para os políticos; reconciliada, para a Igreja) têm de estar atentos às necessidades concretas das populações que são chamados a servir – esse fim nobre da política que cada vez mais parece mais esquecido...
Enquanto a vida passa lá fora e a União discute sobre o que há-de fazer com os seus documentos, o preço do petróleo não pára de aumentar, as greves e as manifestações de descontentamento multiplicam-se, a crise alimentar adensa as nuvens negras no horizonte. O papão não será o culpado de tudo, mas tem de fazer mais para esclarecer e ajudar os habitantes deste Velho Continente, uma referência para todo o mundo.
A Europa dos 27 precisa de redescobrir-se, nos valores que lhe deram origem e nas intuições que fundamentam esses valores, de forma a querer ser “seguida” pelos seus e pelo mundo. Negligenciar este património é comprometer o futuro deste projecto político.
Neste contexto, é impossível neglicenciar a importância do diálogo com a sociedade civil e com as confissões religiosas. A presença da Igreja neste continente é um dado incontornável, visível na construção dos valores que moldaram a Europa e, pelo seu património cultural, praticamente nas ruas de cada cidade.
O diálogo com o passado tem neste campo dos Bens Culturais da Igreja um desafio particular, simbólico. Vale a pena investir naquilo que distingue a nossa casa e nos ajuda a reconhecê-la.
Octávio Carmo

Espírito de Entreajuda

"Afinal, como tantas vezes me confidenciou o tio João, as rivalidades não eram as-sim tantas entre os diversos lugares da Gafanha da Nazaré. Aliás, tem-se mantido na índole dos gafanhões das diversa gerações um certo espírito cordato e de cooperação mútua, bem patente nas inúmeras associações que ao longo dos tempos nasceram e se desenvolveram nesta terra."
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PONTES DE ENCONTRO


Deus: Criador do Homem e do Universo!

E se, de repente, qualquer um de nós tivesse um contacto com um ser extra-terrestre, o que aconteceria, para além da natural estupefacção e possível receio de tão inesperado encontro?
Não é fácil de responder a uma questão destas, sobretudo quando colocada no campo das hipóteses ou das probabilidades de poder, um dia, acontecer. No entanto, esta é uma questão que exige uma séria e profunda reflexão, tanto pela parte dos que acreditam em Deus, como por parte daqueles que não são crentes.
Para aqueles que acreditam no Deus Único, Trinitário, Criador de todas as coisas do Universo e de todos os seres vivos nele existentes, a sua fé ficaria inalterada, seria motivo para a pôr em dúvida ou mesmo deixar de acreditar?
Recordo, em especial, os muitos cristãos que rejeitam, em absoluto, qualquer forma de vida para além do planeta Terra e os que fazem interpretações literais de algumas passagens bíblicas.
No inicio do mês de Maio, do corrente ano, o Director do Observatório Astronómico do Vaticano, o padre jesuíta José Gabriel Funes, de 45 anos de idade, concedeu uma entrevista ao jornal oficial da Santa Sé, L´Osservatore Romano, cujo título é “O extra-terrestre é meu irmão”. Nessa entrevista, o sacerdote argentino indicou acreditar na possível existência de vida extraterrestre e que esta, a existir, não se opõe necessariamente à doutrina católica.
O Padre Funes disse que "a astronomia tem um valor profundamente humano. É uma ciência que abre o coração e a mente. Ajuda-nos a colocar, na justa perspectiva, a nossa vida, nossas esperanças e os nossos problemas. Neste sentido – e aqui falo como sacerdote e como jesuíta – é também um grande instrumento apostólico que pode aproximar-nos de Deus", explica na entrevista, realizada por Francesco M. Valiante.
Em relação à origem do Universo, o presbítero argentino precisou que, pessoalmente, considera que a teoria do "Big Bang" parece ser a mais plausível, e que não contradiz a Bíblia. "Não podemos pedir à Bíblia uma resposta científica. Ao mesmo tempo, não sabemos se, num futuro próximo, a teoria do “Big Bang” não será superada por uma mais completa e precisa sobre a explicação da origem do Universo".
Ao ser-lhe perguntado pela existência de vida extraterrestre, o Padre José Funes indicou que "é possível, mesmo se, até agora, não temos prova dela. Certamente, em tão grande Universo, esta hipótese não pode excluir-se", assinalando que "assim como existe uma multiplicidade de criaturas sobre a Terra, assim também pode haver outros seres, inclusive inteligentes, criados por Deus. Esta não é uma contradição com a nossa fé, porque não podemos estabelecer limites à liberdade criadora de Deus.”
"E o que se passaria se fossem pecadores?", questionou Valiante. "Jesus encarnou uma vez e para sempre. A encarnação é um evento único. Então, estou seguro que eles, de algum modo, teriam a opção de desfrutar da misericórdia de Deus, assim como aconteceu com os seres humanos", respondeu o sacerdote. "Como astrónomo, continuo a acreditar que Deus seja o Criador do Universo e que nós não somos um produto do acaso, mas filhos de um Pai bom" – acrescentou, durante a entrevista.
"Observando as estrelas, emerge claramente um processo evolutivo, e este é um dado científico, mas não vejo nisso uma contradição com a fé em Deus."
O Observatório do Vaticano tem a sua sede em Castel Gandolfo (perto de Roma), e o observatório no Estado do Arizona (EUA). Foi fundado em 1891, pelo Papa Leão XIII, já que “a Igreja e os seus pastores não se opõem à ciência autêntica e sólida, tanto humana como divina.”

Vítor Amorim

segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Câmara Clara sem Sombras

Germana Tânger (foto de 1962)


Ontem à noite, na RTP2, assisti ao programa "Câmara Clara", de Paula Moura Pinheiro. A conversa, de mistura com recordações e informações culturais, teve, como ponto de partida e fonte, Germana Tânger, uma senhora na arte de dizer poesia. Dizer e não declamar, como sublinhou. Arte que ensinou a outros artistas, alguns dos quais ainda hoje a consultam. Com a serenidade dos seus 88 anos, falou, com palavras bem medidas e bem ditas, da sua convivência com grandes poetas e vultos da cultura lusa. Simplesmente belo o momento em que disse de cor o poema Aniversário de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), um poeta que lhe é muito caro.
Almada Negreiros, José Régio, João Villaret, Mário Sá-Carneiro, Mário Viegas, Vitorino Nemésio e Fernando Pessoa, entre outros, vieram até nós pela memória de Germana Tânger, com a ajuda ou desafio da responsável pelo programa. Foram momentos agradáveis.
Depois deste momento televisivo, dei comigo a pensar na mediocridade que reina nas nossas TVs. Há programas bons, é verdade, mas também muitos outros de lixo autêntico. Não há por aí um caixote perto?
FM
::
Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos

NA LINHA DA UTOPIA

As mazelas da Competitividade


1. Já são várias as ocasiões em que pais de crianças e adolescentes, verdadeiramente interessados com a melhor educação dos seus filhos, o maior tesouro, manifestam uma profunda preocupação com os efeitos maléficos da competitividade feroz. Já não é só no 12º ano de escolaridade, na fronteira delicada de grandes decisões e transições, que os adolescentes sofrem os abalos de um sistema de vida que coloca os resultados práticos acima de quaisquer valores, mesmo, muitas vezes, acima dos valores da ética pessoal e social. Logo a partir de uma «publicidade férrea» nos meios de comunicação, no dizer de Lipovetsky, os mais novos vão entrando numa lógica em que o outro se apresenta mais como “concorrente” e menos como um “irmão”; que o digam muitos dos entretenimentos reinantes, onde a força e o domínio do outro é o objectivo primordial.
2. A reafirmação contínua da competitividade nos grandes discursos sócio-políticos faz transferir para o quadro educativo das gentes mais novas a lei da superioridade. O delicado refrão de que os melhores é que triunfam na vida pode fazer regressar a lei de Darwin, fazendo emergir uma selecção natural dos mais fortes por vezes menos respeitadora e integradora das diversidades. Não são casos isolados, já entre alunos do básico e secundário, os registos de desumana “inveja” escolar, de egoísmo na não partilha de conhecimentos, de angústias profundas ou mesmo cansaços (e até quase-esgotamentos) diante de resultados não tão excelentes. Parece que tudo se encontra formatado mais na ordem do melhor sucesso para mais dinheiro ganhar no futuro, que propriamente na ordem da descoberta progressiva da vocação a uma área de conhecimento para servir a sociedade.
3. Pode ter efeitos bloqueadores da totalidade da experiência humana a focalização exclusiva na obtenção dos melhores resultados para mais e melhor poder competir. É verdade, sem dúvida, que o esforço, rigor e trabalho, terão de acompanhar o crescimento da vida. Mas quase que valerá a pena pedir-se que as crianças sejam crianças e que os adolescentes não sejam adultos competitivos antes do tempo. Uma vida equilibrada na razoabilidade é que proporcionará o cidadão humano do futuro, aquele que sabe que a vida é um todo social e não uma caminhada solitária em leituras de vida vividas na competitividade como valor absoluto. As mazelas deste modelo de sociedade estão aí, espelhadas nas ansiedades stressantes acalmadas com milhões de anti-depressivos. A vida é desafio diário; mas quanto mais desenvolvermos as capacidades de humanidade pessoal e social mais conseguiremos ser resposta estimulante.

Histórias do Mar e da Ria


Por iniciativa da Rádio Terra Nova, em cooperação com a Comissão das Comemorações do Bicentenário da Abertura da Barra de Aveiro, decorreu um concurso literário sobre “Histórias do Mar e da Ria”.
Para além dos prémios, que são sempre um estímulo à participação, é justo realçar a importância destes concursos, nem sempre acarinhados devidamente pelas nossas escolas e outras instituições educativas e culturais.
Quando tanto se fala da Língua Portuguesa, como riqueza nacional que urge preservar e valorizar, impressiona-me a indiferença que há face a iniciativas que a promovem, aceitando, passivamente, que ela seja bombardeada no dia-a-dia por novos termos oriundos de outras latitudes, sobretudo nas conversas entre jovens, nas mensagens via telemóvel e nas comunicações pela Internet.
Se o estudo do Português fosse mais apoiado e se os nossos jovens fossem sensibilizados para a participação em Concursos Literários, talvez houvesse mais gosto por falar e escrever com correcção a Língua Portuguesa.
Porém, não é com o alheamento de tantos professores, escolas e instituições que poderemos acreditar no futuro do Português. Mais do que ensinar as regras gramaticais, importa estimular a nossa juventude a escrever com sentido estético, sendo certo que a participação em concursos pode ser uma excelente forma de a levar a gostar da nossa Língua.

FM

PONTES DE ENCONTRO


BENTO XVI: ENTRE O ESTRANHAR E O ENTRANHAR

Durante a visita que o Papa Bento XVI efectuou aos EUA, entre15 a 21 de Abril, do corrente ano, recordei-me da célebre expressão de Fernando Pessoa (1888-1935) que “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.
Esta lembrança e a relação que dela fiz fizeram-me recuar ao dia 19 de Abril de 2005, altura em que o Cardeal Joseph Ratzinger foi eleito para a Cátedra de São Pedro.
Lembro-me muito bem das manifestações de júbilo que se viam no rosto das milhares de pessoas que aguardavam, na Praça de São Pedro, que o “fumo branco” saísse da chaminé da Capela Sistina e de muitas outras expressões de alegria que os Órgãos de Comunicação Social transmitiam, incessantemente, um pouco de todo o lado do mundo, logo após a eleição papal.
A esta realidade contrapunha-se, em simultâneo, uma outra, onde um estado de ânimo, menos exuberante, porventura mais céptico ou de desilusão, era bem visível.
De tudo isto me recordo e, até, de algumas afirmações (e dos seus autores) feitas, poucos minutos, depois do anúncio “Habemus Papam”.
Bento XVI sucedia a um Papa – João Paulo II – que tinha exercido um pontificado de cerca de 27 anos, tempo este que está para lá do próprio “entranhar” de Pessoa, para se situar no nível daquele que já se identifica connosco e nós com ele, numa unidade construída de ternura e afecto espiritual e que está para além da admiração e do respeito.
Para alguns, o Cardeal Joseph Ratzinger, trazia consigo referências pouco favoráveis, das quais se destaca o ser uma pessoa conservadora e o ideólogo da linha dura da Cúria Romana. Provavelmente, os seus 24 anos como Prefeito da Congregação Para a Doutrina da Fé muito podem ter contribuído para o surgimento destas opiniões.
Algum tempo, após a sua eleição, Bento XVI começou a despertar a compreensão e o acordo dos mais cépticos e os discursos e outros escritos seus, analisados à lupa, tanto por crentes, católicos ou não, como por ateus e agnósticos muito ajudaram a alterar a opinião inicial que havia sobre ele.
Durante a visita de Bento XVI, aos EUA, ouvi um padre americano afirmar que, enquanto Prefeito, não podia ser bom, pois o cargo não dava para isso, pelo que só depois de ser eleito Papa passou a ter condições para o poder ser, ou seja, a velha questão entre a liberdade da pessoa e a sua lealdade à instituição que serve.
Dizem alguns, que o homem é ele e as suas circunstâncias, pelo que as contradições destas duas dimensões podem ser incompatíveis. Assim, quem se vergue à força dos circunstancialismos de um momento, de um lugar ou de uma tarefa está a deixar de lado o seu próprio eu. Quem diz isto parece, contudo, esquecer-se que as circunstâncias também podem ajudar o homem na procura das certezas que não tem, na satisfação e na coerência que descobre e que o podem levar a mudar as próprias circunstâncias. Estamos, pois, perante uma questão para a qual não há uma só saída, mas que não nos pode inibir de tomar opções, em função do que somos e conhecemos, em vez de ficarmos à espera que algo surja, fale, pense e aja por nós.
O Padre Anselmo Borges escreveu, um dia, que “qualquer homem existe compreendendo e interpretando, mas de tal modo que nunca interpreta de modo adequado e pleno o que quer compreender”, pelo que o homem,só se vai completando através do futuro que atravessa e vive e, mesmo assim, não deixa de ser um homem inacabado.
A afirmação do padre americano, não sendo única, é um mau exemplo do que se pode fazer, mesmo sem intenção, para rotular, negativamente, uma pessoa e o seu carácter, sobretudo quando se pensa que a liberdade, a responsabilidade, o descobrir o nunca atingido ou a satisfação pela realização do bem variam em função da hora, do local e do cargo que se exerce. No fundo, é querer fazer do homem um irresponsável, prisioneiro do tempo e do espaço, quando ele está para além da sua e da nossa compreensão.

Vítor Amorim

domingo, 15 de Junho de 2008

NA LINHA DA UTOPIA


Era uma vez… A carreira

1. Era uma vez, algures lá longe em outro mundo, um governante de um país. Mergulhado nas águas sedutoras do poder omnipotente, um dia afirmou que a ratificação de um tratado europeu, na Europa de 27 países, era um dos passos «mais importantes da minha carreira pessoal». No dia seguinte o referendo acabaria por ser chumbado. Era uma vez um treinador de futebol, de uma selecção de um país em que o futebol tinha proporções colectivas enérgicas e em que esse líder treinador, mesmo com os prós-e-contras, havia conseguido um popular lugar ao sol. Na hora de continuar ou deixar a equipa, o próprio confessa que «a federação não cobriu a parada», pelo que «o dinheiro foi a razão para partir» rumo à Inglaterra. No dia seguinte, os rigorosos ingleses exigem a língua inglesa!
2. “É uma vez”, e é bem verdade, que alguns acontecimentos deste género vão fazendo vir à tona da água a qualidade, ou sua ausência, das lideranças que vão comandando os barcos sociais. Não é novidade que a fasquia da generosidade das grandes lideranças vai baixando e que vestir a camisola do serviço desinteressado é realidade, hoje, quase tida como ideia irrealizável. Mas talvez o pior de tudo seja que quase todos os vedetismos contemporâneos afirmam-se com as suas exorbitâncias, em termos económicos ou éticos, absolutamente escandalosas. (Quanto “pior” melhor?!) O generoso amor à camisola parece ser uma espécie em vias de extinção, e as mais novas gerações vêm vindo para este mundo e aprendendo desta escala de valores que dá primazia ao que se tem em vez do que se é.
3. Valorizar-se e sublinhar-se a «carreira pessoal» acima das causas a defender é ver tudo ao contrário, quase que fazendo dos eleitores-cidadãos o joguete de afirmações mais interessadas no prestígio pessoal que no autêntico espírito de serviço ao bem comum. É essencial rebater cada vez mais esta tecla! Confessamos que já nos parecia estranho um programa televisivo com o título «corredor do poder», mas afinal tudo faz parte do mesmo carreirismo, este que é um elemento perturbador da vi(d)a de uma sociedade democrática mais saudável. Quanto aos milhões que giram em torno dos grandes carreiristas famosos do futebol, neste escândalo, valerá a pena perguntar, nem que seja como inquietude inconformista com a realidade do ser pessoa: para quem já se vangloria dos “trilhões” que tem, de que valem mais uns milhões de euros?!
4. Não será tudo um profundo engano de pura ilusão, e logo de quem todos os dias tem uma visibilidade mediática extraordinária. Sinal de desumanidade? Império dos milhões de euros mas do vazio de valores? Enquanto esta forma de lideranças tiver todos os palcos, os valores humanos da educação para a generosidade serão praticamente impossíveis. Ou não será?!...

D. Manuel II e Aveiro

(Clicar na foto para ampliar)

"Quem, nos dias de hoje, entrar na Sala das Sessões da Câmara Municipal de Aveiro e lançar um olhar atento sobre o conjunto das cadeiras de alto espaldar que a ornamentam, tenderá a reter no seu cérebro uma certa impressão de assimetria. Para além das dez que, em posição frontal, se encontram alinhadas ao longo da vasta mesa, uma outra se encontra encostada à parede do seu lado direito, mas faltando no lado oposto a que formaria o seu par. Não é de crer que se tivessem adquirido apenas onze cadeiras para aquela Sala e não se tivesse adquirido a que completaria a dúzia. Quase ninguém sabe hoje que essa outra cadeira, que foi pertença da Câmara Municipal de Aveiro, se encontra actualmente no Paço Ducal de Vila Viçosa, desconhecendo-se, até há muito pouco tempo, a sua proveniência. Foi a cadeira ofertada a El-Rei D. Manuel II que, durante a sua visita a Aveiro, em Novembro de 1908, manifestou desejo de a possuir e que nela se sentou durante o memorável passeio fluvial que o levou da Barra ao desembarque no Canal Central da cidade. Encontra-se descrita na obra “Cadeiras Portuguesas” de Augusto Cardoso Pinto.

Também muito poucos terão hoje conhecimento dessa visita, e menos ainda saberão como ela decorreu, que cerimónias, festas e realizações populares tiveram lugar. Aproximando-se o seu centenário, e embora “a descrição dos esplendorosos festejos com que Aveiro solenizou a visita do Soberano [seja] tarefa bastante difícil e quase impossível” (Districto de Aveiro, n.º 3767, 30 de Novembro de 1908), parece apropriado relembrá-la para que, de facto, ela “nunca [seja] esquecida por este povo” (Acta da sessão extraordinária da Câmara Municipal de Aveiro de 28 de Novembro de 1908)."


In Preâmbulo do livro "D. Manuel II e Aveiro", de Armando Tavares da Silva

O veto da Irlanda

Com o veto da Irlanda ao Tratado de Lisboa, não faltam as análises ao sucedido e às consequentes implicações que essa atitude arrasta. Cá para mim, a UE vai continuar como até aqui… Com ou sem Tratado, vai ficar tal como tem estado. E não morre ninguém.
Estou convencido de que, se houvesse referendos, mais países votariam contra, embora não acredite que isso fosse o resultado de grande reflexão. O veto de outros países seria o resultado lógico de quem é chamado a votar um Tratado, feito à margem do povo. O povo terá pensado: se o fizeram, agora entendam-se.
Por princípio, os Governos assinam Tratados, muitos de altos interesses, sem consultarem o povo. Os Governos estão mandatados para gerir, por período certo, os destinos dos seus países. É assim numa democracia representativa.
Ora a UE tem funcionado sem grande envolvimento das pessoas nos seus próprios destinos. Há eleições, de facto, para o parlamento europeu, mas nem aí os eleitores correm em massa. As abstenções são, como se sabe, elevadas. Então há que escolher um caminho que leve os europeus a assumirem, como seus, os seus destinos. Como? Elegendo, realmente, quem dirige a UE. Talvez assim nos habituássemos à ideia de sentir a Europa como espaço comunitário.

FM

PONTES DE ENCONTRO


Vasco Santana: um actor à medida do seu peso!

Nem sempre os afazeres da vida nos permitem fazer tudo aquilo que desejamos, mesmo quando a nossa vontade procura contrariar algumas dessas situações, como foi o caso, mas sem êxito. Vem isto a propósito da evocação, atrasada, dos 50 anos do falecimento do actor Vasco Santana, ocorrida precisamente no dia 13 de Junho de 1958, ou seja, no dia de Santo António, em Lisboa, cidade que também o viu nascer, em 28 de Janeiro de 1898.
Falar de Vasco Santana é recordar o Vasquinho da Anatomia, do filme A Canção de Lisboa (1933), onde contracenava com Beatriz Costa, que faltava às aulas semana após semana, e que dizia que “Chapéus há muitos, seu palerma!”; é sentir ternura pelo Senhor Narciso, do filme Pátio das Cantigas (1942), que bebe para afogar as mágoas dos seus desgostos de amor pela D. Rosa, ficar encantado com a cena da bêbado que pede lume para acender o seu cigarro a um candeeiro da via pública e que anda sempre em conflito com o seu vizinho Evaristo (António Silva), a quem está sempre a provocar com: “Ó Evaristo, tens cá disto?”; é o estar atento à sabedoria e aos conselhos do grande ensaiador e profundo conhecedor de teatro no filme Pai Tirano (1941), onde participou, igualmente, Ribeirinho. Para além destas personagens, Vasco Santana desempenhou outros papéis, não tão proeminentes, mas não menos relevantes, em outros filmes, como, por exemplo, Camões (1946), História de Uma Cantadeira (1947) e Ribatejo (1949).
Para além do cinema, a sua carreira dividiu-se entre o teatro de revista e a comédia, géneros onde não foi só actor, mas também autor, tradutor e adaptador.
Muitos dos seus êxitos ficaram na história do teatro ligeiro em Portugal e na primeira metade dos anos quarenta foi figura de topo no panorama artístico português, onde só entrar em cena já era o suficiente para ele pôr o público a rir.
Na antiga Emissora Nacional também conseguiu alcançar êxitos assinaláveis, através dos diálogos do Zequinha e da Lelé.
Igualmente conhecido pela sua faceta de grande conquistador dos encantos femininos, este actor português soube aproveitar, profissionalmente, todas oportunidades que teve e, passados 50 anos do seu desaparecimento, continua, através dos filmes em que participou, a encantar e a agradar a todas as gerações de espectadores que o vêm.
Numa altura em que as razões para sorrir se tornam cada vez mais escassas para a grande maioria dos portugueses, há que preservar e divulgar este e outros actores nacionais, a fim de que não se perca o saudável hábito de rir, até porque ainda não se paga imposto para tal! Vasco Santana e outros grandes colegas seus fizeram-no de uma forma admirável, no seu tempo. Convém, no entanto, não esquecer que, em Portugal, continuamos a ter grandes profissionais que nos podem ajudar neste excelente exercício salutar que é o rir. É só uma questão de, quem de direito, lhes darem a oportunidade devida, como foi o caso que sucedeu com Vasco Santana, e acreditar no talento, na qualidade e na criatividade dos actores portugueses contemporâneos. Ficamos, todos, a ganhar. O “Vasquinho”, mesmo sem fazer o exame de anatomia, não discordaria, estou certo, deste meu desejo nem enjeitaria, para nos animar, de cantar, de novo, o Fado do Estudante!

Vítor Amorim

"MAR de SONHOS"





Integrado nos festejos comemorativos dos 200 anos da abertura da Barra de Aveiro, realizou-se, ontem à noite, na Praia da Barra, um espectáculo piromusical. É um cheirinho desse espectáculo, "MAR de SONHOS", que aqui ofereço aos meus amigos.

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 82


OS COMPANHEIROS

Caríssima/o:

Comum e comovedor quando encontramos companheiros do tempo da Escola: aquilo são abraços, abanar de cabeças, recordações infindas e uma que outra lágrima furtiva.
Quem está aí que não tenha passado por essa prova?
São muitos dias, muitas horas de convívio...
Falar disto é uma pura perda de tempo por demais evidente e conhecido.
Mas estou a ver a cara de alguns a dizer que não é bem assim: antigamente, etc e tal; agora, não...
Está bem, há sessenta anos, antes de irmos para a Escola, brincávamos com os nossos vizinhos e vizinhas nos caminhos, nas margens da ria, enquanto nossos pais e mães iam trabalhar. As brincadeiras desenrolavam-se perto dos mais crescidos, que nos deitavam os olhos, ou junto das mães enquanto elas cavavam,...
Criavam-se os primeiros laços de amizade...
O leque de amigos se alargará nos bancos da Escola, mas aqueles/as do nosso canto tinham, sempre a primazia. Lutas e rixas entre moradores de cantos diferentes provavam isso mesmo... A seguir virão os “encontros” entre freguesias vizinhas... [Uma nota avulsa: no nosso tempo, que “batalhas” verbais e não só travávamos contra os “da terra da lâmpada”!...]
Era notório, quando nos juntávamos para a preparação dos exames, a realização dos desafios entre as diferentes escolas. Só quando éramos confrontados com a saída para os estudos é que se dava a evolução e a integração...
Não era por esta via que gostaria de ter desenvolvido o tema; o teclado do computador traiu-me...
Que me desculpem todos os meus bons Amigos, gostaria de recordar o Oliveiros, o Silvério Oliveiros, o Amílcar Madail, o João Gandarinho, o Necas, o Manuel Roque, o Amadeu Vilarinho e o Arlindo... que andaram comigo na quarta classe. Um ou outro já nos deixou a saudade. Alguns tentamos a resolução de difíceis problemas de saúde... O hino à Amizade continuará!

Manuel

sábado, 14 de Junho de 2008

AO VER A MULTIDÃO ENCHE-SE DE COMPAIXÃO


1. Jesus inicia a missão que pretende realizar. Percorre cidades e aldeias na região de Cafarnaúm. Provoca encontros nas ruas, entra nas sinagogas, detém-se na praça pública. Observa atentamente as pessoas, a organização da sociedade e as condições de vida. O seu olhar penetrante chega ao mais íntimo do ser humano. Os seus ouvidos escutam o inaudito que o faz vibrar. O seu coração estremece de emoção cheia de amor. E, sem mais demoras, dá largas à acção que liberta e à palavra que rasga horizontes. E numa ousadia, sem precedentes, chama pelo nome os homens que quer, começando assim a lançar os fundamentos da Igreja. Considera tão importante o que lhes vai pedir que reconhece a sua identidade pessoal, transmite-lhes a mensagem que hão-de anunciar, define-lhes as prioridades no agir e apresenta-lhes uma espécie de regras de actuação.
2. Outrora eram as multidões; hoje é o povo, de que fazem parte os indivíduos. O cansaço e o abandono espelham o seu estado de ânimo, mostram o seu desalento perante as condições de vida, a sem esperança com que encaram o futuro, prolongamento cego de um presente amargado. E, hoje como ontem, o cortejo dos abatidos integra os empobrecidos de bens indispensáveis, os solitários de todas as companhias, os explorados da dignidade inalienável, os ignorantes de todos os direitos, os “atirados” para as margens da vida como material descartável, os sujeitos às mais diversas formas de trabalho precário, os “mal vistos” pelas instituições do poder e pelos fazedores da opinião publicada: os rebeldes sociais e políticos, as mulheres libertárias, as vítimas das atrocidades autoritárias, os pesquisadores de energias alternativas e de organizações mais participativas da sociedade, os “cobradores” de outras economias que sabem fazer do lucro um meio para gerar bem estar social para todos. Os cansados da vida constituem presa fácil do desespero, da violência e do fanatismo, sobretudo quando abandonados e vilipendiados.
3. Hoje e sempre é Jesus que, de muitos modos, vai à frente na manifestação de reacções positivas, vencendo a indiferença e a distância, no apreço pela consideração de cada um e de todos, nas propostas inclusivas de humanização, nas atitudes de solidariedade, nos gestos de amizade, nas parcerias de acção. Se vai à frente, outros vão com ele, são seus companheiros desejosos de se tornarem discípulos, apóstolos e testemunhas. Outrora foram uns que têm o seu nome nos Evangelhos. Hoje somos nós os convidados para tão nobre e entusiasmante missão. Somos nós o “coração” de Igreja solícita e compassiva, o rosto sensível da humanidade nova, os artífices confiantes de uma sociedade inclusiva das pessoas e do bem integral para todos.
Georgino Rocha

Recordações

"O ti Atóino vinha da borda, onde andara ao moliço para o aido. Antes da maré, po-rém, deitara-se a descansar, com o corpo moído, na proa da bateira que ia à rola (à deriva). Sem saber como, e com uma nassa, apanhou uns peixitos para a ceia (o jantar de hoje). Já não era mau. Naquele dia não comeriam caldo de feijão com toucinho, com um bocado de boroa. Sempre seria melhor. Então ouviu a Ti Maria:"
Leia em Galafanha

Um poema de Sophia



LIBERDADE

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Felipão


Anda toda a gente triste com a saída de Luiz Felipe Scolari para o Chelsea, o clube de um multimilionário russo. O Felipão estava identificado com o povo português e o povo português gostava dele. Deu boas alegrias às gentes lusas, porque soube, como poucos, ser um líder autêntico, com rara capacidade para mobilizar multidões.
Muita portugueses até já pensavam que este brasileiro, que tem o bom gosto de apreciar a nossa comida e os nossos vinhos, ficava por cá. Esqueceram-se de que este mundo é dominado pela “grana” e que Scolari é um homem que também sabe cuidar do seu futuro. Por mim, ele pode ir. Mas, já agora, que nos traga a taça do Europeu de Futebol.
Mais uma palavrinha: vai ser muito difícil encontrar um seleccionador como este. Um homem que tem o coração perto da boca, frontal, que se comove e que se zanga; que sabe motivar os jogadores, que consegue criar um grupo de trabalho coeso. E que, dizem, até leva os jogadores a rezar o Pai Nosso antes dos jogos. O Felipão é mesmo um tipo fixe.

FM

FRAGILIDADES


As fragilidades da nossa economia têm-se feito sentir nos últimos tempos. E como a economia é a mola-real do nosso viver social, o pânico instalou-se entre nós. Portugal paralisou com o descontentamento dos camionistas, que obrigaram o Governo a avançar com regalias, em detrimento de outras classes sociais, também seriamente afectadas com a subida, em flecha, dos combustíveis.
O Governo cede com esta classe social, alimentando o risco de ceder, a partir de agora, com os pescadores. Depois, um dia destes, com os agricultores e com todos os que tiverem capacidade de mobilização. E como as eleições não tardam aí…
Há, contudo, uma classe que não pode pensar em reivindicar. Tem de se calar perante as sucessivas reduções no seu poder de compra. São os aposentados. O seu único poder está nas eleições. Aí, sim, pode mostrar o seu descontentamento.

FM

APONTAMENTOS SOBRE RELAÇÕES IGREJA(S)-ESTADO (4)


1.Dou hoje continuidade ao texto aqui publicado na semana passada. Nele, tentei dar o essencial da minha exposição sobre a laicidade, num "jantar branco", portanto, com a presença de "profanos", em Lisboa, organizado por uma loja maçónica e no qual se debateu precisamente o tema O Futuro da Laicidade. Os intervenientes foram o grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, António Reis, e eu próprio.
Foi gratificante para mim constatar uma convergência fundamental de pontos de vista.
2. O grão-mestre do GOL citou a frase célebre de Jesus: "Dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César." A separação da Igreja e do Estado, da religião e da política, portanto, um Estado laico, é essencial para a paz e como garantia da liberdade de todos, para se ter uma religião ou outra, mudar de religião, não ter religião. Neste contexto, disse que é necessário estar atento às perseguições religiosas em muitas países do mundo.
3. O Estado confessionalmente neutro e a separação da(s) Igreja(s) e do Estado não significam que a religião e as Igrejas tenham de ficar confinadas ao foro íntimo. Deve ser-lhes garantida expressão no espaço público, entendendo-se por isso liberdade de crítica e defesa das suas doutrinas e ensinamentos, tentando mesmo influenciar as leis. O que nenhuma Igreja pode é ceder à tentação de querer impor as suas leis, normas e mandamentos ao Estado.
Por isso, o grão-mestre, depois de reconhecer o esforço feito pela Igreja católica para abandonar a constantinização e a era constantiniana, que veio até Pio IX e a sua condenação da modernidade, criticou o fundamentalismo islamista e o criacionismo de certos sectores cristãos, concretamente nos Estados Unidos da América.
Evidentemente, também as Igrejas não podem pretender ficar imunes à crítica. Desde que não haja incitação à violência, no espaço público e livre, podem ser criticadas e até satirizadas.
4. Distinguindo entre laicismo fechado, intolerante, e laicismo aberto, tolerante, reconheceu que concretamente no primeiro período da Primeira República, o Estado não foi religiosamente neutro, ao impedir o culto público e limitar a liberdade de expressão da Igreja católica. Ao clericalismo seguiu-se o anticlericalismo e um laicismo intolerante. No fundo, "duas atitudes dogmáticas". Ora, a um dogma não se pode contrapor outro.
Opondo-se ao cesaropapismo, ao regalismo, ao ateísmo estatal e a uma religião civil, António Reis mostrou-se defensor de um laicismo aberto e tolerante, esperando que a Igreja se liberte dos resquícios de constantinismo e os republicanos laicos deixem o laicismo intolerante.
Neste quadro, embora também não seja partidário de uma Concordata com a Santa Sé, lembrou que tem andado mal o Estado, que a assinou e ainda a não regulamentou, concretamente no referente às capelanias militares e hospitalares.
5. A minha divergência fundamental com António Reis esteve em que quereria que substituísse a diferença entre laicismo aberto e tolerante e laicismo fechado e intolerante por laicidade e laicismo simplesmente.
Por mim, não gosto de "ismos", porque não gosto de totalizações. É assim que, felizmente, a nível religioso, mesmo que se diga cristianismo e catolicismo, não há "cristianistas" nem "catolicistas", mas cristãos e católicos. Também chamo a atenção dos estudantes para que distingam islão e islamismo, islâmicos e islamistas.
6. Penso que problema mais complexo e com enorme futuro, não directamente tratado, mas que esteve na base do famoso debate entre o então cardeal Ratzinger e o filósofo Jürgen Habermas, na Academia Católica da Baviera, em 2004, é o do papel público das religiões sobretudo nas sociedades liberais democráticas.
A(s) Igreja(s) não precisam de pequenos e reles privilégios, que deviam evitar. Mas, garantidos os direitos humanos e no quadro do respeito pela autonomia dos indivíduos e pelo pluralismo democrático, as religiões podem dar, como escreveu J. Habermas, contributos significativos mediante os seus recursos simbólicos e a sua capacidade superior de "articular a nossa sensibilidade moral".

sexta-feira, 13 de Junho de 2008

PONTES DE ENCONTRO

Vítor Amorim

A decepção de uns e a mediocridade de outros

O Arcebispo de Trento (Itália), D. Luigi Bressam, considerou, num Encontro Inter-religioso Europeu, que decorreu em Itália, entre 22 e 25 de Maio, do presente ano, que os textos dos políticos europeus são “decepcionantes e que os Documentos oficiais europeus não contêm uma “missão” para a Europa e critica a visão “eurocêntrica” dos mesmos.
“São decepcionantes – como diz – porque não têm na mente uma missão para a Europa e só prevêem novas estruturas com uma visão eurocêntrica do mundo, sem estarem prontos para reverem as regras de intercâmbios internacionais e económicos, se estas não tiverem como resultados proveitos para o chamado primeiro mundo.”
Numa altura em que o mundo está a passar por profundas alterações, com dinâmicas sociais e económicas a surgirem a um ritmo vertiginoso e, tantas vezes, inesperado, onde os centros de decisão da economia parecem, cada vez mais, estarem a deslocarem-se para outros países, estas recentes palavras do Arcebispo D. Luigi Bressan são tudo menos portadoras de confiança no futuro.
Durante a sua intervenção, D. Luigi Bressan referiu “que todos nós somos co-responsáveis pela paz e afirmamos o princípio que todas as pessoas têm de ser livres para conseguir a felicidade, de acordo com a sua natureza, como criaturas dotadas de razão e livre arbítrio.”
Contudo, o Arcebispo Bressan, reconhece que na Europa há uma “falta de interesse pela solidariedade e a promoção dos direitos dos outros”, considerando que “o desafio está em construir uma sociedade dinâmica, onde os membros poderão compartilhar uma consciência da sua unidade, apesar das convicções filosóficas, políticas e religiosas.”
Dificilmente o mundo volta a ser o que era e se os líderes europeus fazem de conta que nada de novo e definitivo está a acontecer só se podem estar a enganar a eles próprios.
Quando D. Luigi Bressan diz que os textos políticos europeus são decepcionantes está, pelo menos, a meu ver, a transmitir duas mensagens: que faltam líderes de qualidade à frente dos destinos da Europa e que estes já parecem não saber fazer melhor, nem sequer para defenderem os legítimos interesses dos seus cidadãos, tendo em conta, também os anseios dos outros continentes e países.
Por vezes, dou comigo a pensar quais serão os reais critérios que estão na base da nomeação ou eleição de um determinado líder, político ou não, para as funções que, supostamente irá exercer com honra, carácter, verdade e, quando necessário, até sacrifício pessoal.
Falo assim, porque sei que dirigir seja o que for, muito mais um país, não é uma tarefa fácil, a não ser que esse país, supostamente, não tenha nenhum problema para resolver, pois, como se costuma dizer: “Qualquer um toma o leme quando o mar está calmo.”
Ouvimos dizer, com alguma frequência, que as pessoas mais capazes se afastam da política, não só porque ao exercerem as suas profissões no sector privado ganham muito mais do que em tarefas de governação, assim como dificilmente seriam eleitos, na medida em que não se encaixam, muitos deles, no perfil plastificado e artificial que se foi instituindo e que as empresas de imagem alimentam e o povo parece gostar. Ter uma boa presença, ser fotogénico, possuir uma bonita voz, irradiar dinamismo e nunca se atrapalhar, quando sabe que até está a faltar à verdade, fazem parte deste folclore.
Assim, se a lógica não for sempre uma batata, a conclusão mais óbvia a retirar é que as probabilidades de serem os mais incapazes a acederem às múltiplas áreas de poder é muito grande. É evidente que todos somos responsáveis por este estado de coisas, quanto mais não seja por omissão ou por não termos coragem de dizer que já basta. Nem que, para isso, seja necessário, por vezes, dar um murro na mesa.

Vítor Amorim

quinta-feira, 12 de Junho de 2008

ÍLHAVO: VIII Grande Pedalada

Centro Cultural de Ílhavo
A Câmara Municipal de Ílhavo vai organizar no próximo dia 15 de Junho, domingo, mais uma edição da Grande Pedalada. Esta iniciativa surge no seguimento do balanço extremamente positivo das edições anteriores, que reuniram centenas de participantes, de todas as idades, oriundos de todo o Concelho e também de fora dele, que puderam, durante esses dias, apreciar a grande beleza natural desta região, ao mesmo tempo que praticavam uma actividade tão saudável e amiga do ambiente como é o ciclo-turismo.
A Grande Pedalada 2008 terá início pelas 10 horas (concentração na Praça do Centro Cultural de Ílhavo), partida às 10.30, passando depois por vários pontos do Concelho, terminando cerca das 17 horas na Piscina Municipal de Vale de Ílhavo, que nesse mesmo dia reabre ao público, possibilitando assim um refrescante mergulho após o esforço. O almoço-piquenique será realizado no Parque de Merendas da Gafanha da Encarnação.
Fonte: "Site" da CMI

PARA PENSAR: Patriarcado de Lisboa terá perdido em sete anos cem mil católicos

D. José Policarpo
Falta qualidade nalgumas homilias, nas leituras e nos cânticos. A crítica é do cardeal-patriarca de Lisboa e o alerta foi feito recentemente aos católicos numa Carta Pastoral que D. José Policarpo enviou às paróquias da sua diocese. Numa altura em que a própria Igreja reconhece uma diminuição de católicos praticantes, o cardeal-patriarca defende a renovação da liturgia.
Segundo contas feitas pelo Expresso, a partir de indicadores fornecidos pelo Patriarcado, Lisboa poderá ter perdido em sete anos cerca de cem mil pessoas. Mas se algumas igrejas não se enchem nas missas de domingo, outras, com a da paróquia do Campo Grande, rebentam pelas costuras. "Aqui, a eucaristia é sempre uma festa e a homilia está sempre ligada à vida real", conta o padre Feytor Pinto.
Para o sacerdote e teólogo Peter Stilwell, que também tem missas cheias na capela do centro comercial das Amoreiras, a quebra de fiéis em Lisboa tem origem, entre outras causas, "numa cidade hostil e desumanizada". Mas o teólogo defende que tem de ser feita "uma reflexão sobre a formação dada nos seminários". Para Anselmo Borges, também ele padre e teólogo, com "a invasão do materialismo, Deus tem cada vez menos lugar". "Há sinais de que o cristianismo se pode tornar minoritário na Europa", avisa.
Segundo Steffen Dix, especialista em Sociologia da Religião e investigador no Instituto de Ciências Sociais, a quebra da prática religiosa não representa uma quebra da religiosidade. O padre Peter Stilwell partilha daquela ideia e realça que as peregrinações a Fátima e a Santiago de Compostela ''têm vindo a crescer continuamente''.
Texto publicado no Expresso online

NA LINHA DA UTOPIA


António de Lisboa e do mundo

1. Talvez seja quando saímos do país que mais e melhor apreciamos as raízes que, quase sem darmos por isso, continuamente nos habitam. De há muitos séculos que o 13 de Junho tem um carácter eminentemente popular, na melhor acepção do termo. Na essencial liberdade, são muitas as povoações que o desejam, muitas as terras que trazem inscrito o seu nome como patrono, o nome do santo mais famoso de todo o mundo, Santo António. Desconhecer ou não reconhecer a sua obra extremamente inventiva na sua época é refugiar-se no presente solitário, ocultando o melhor dos valores e dos princípios universalistas que, como antecipação (dos tempos das descobertas), fazem de António o eminente cidadão do mundo. Um dos primeiros.
2. Nasceu em Lisboa a 15 de Agosto de 1195, de nome, no seu “bilhete de identidade”, Fernando Martim de Bulhões e Taveira Azevedo. Após a entrada, aos 15 anos, no convento de Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, aos 25 anos, a sedução pela palavra (de que ele conhecia grandes exímios enquanto estudava no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra) viria a proporcionar a sua transferência para a Ordem dos Franciscanos, a par da mudança de seu nome para “António”. Destacou-se pela cultura e pelo poder da palavra, leccionou em várias universidades europeias, assumiu (também na conjuntura) o horizonte viajante da vida, que o viria a conduzir a Pádua, cidade italiana onde viria a falecer (no bairro de Arcella) a 13 de Junho de 1231. De sua breve vida ficara um rasto imenso da palavra como sentido de justiça, evangelização, serviço aos pobres e profético horizonte de universalismo.
3. É significativo em António de Lisboa (de Pádua, do Bonsucesso, de Canelas, …) o sentido itinerante do gosto da pertença que vence todos os muros do tempo e do espaço. Não será excesso dizer-se que, conhecendo bem a sua época, a história de vida de António pertence as páginas mais belas e corajosas da história humana. Temos de ter a necessária distância crítica para compreender que na sua época não seria comum, como nos séculos posteriores, o sentido de partir viajante e em que o barco desse tempo – que teria o brilho lendário de Marco Pólo e das suas viagens venezianas à corte mongol (China) –, esse barco não era um cruzeiro seguro dos nossos tempos. Tudo aconteceu de forma arriscada, ousada, na partilha corajosa dos tesouros da mensagem (cristã) como força dignificante da vida toda, do encontro com o outro e dos valores comunitários. Mesmo que, por vezes, o excesso tenha registo histórico…
4. Se hoje verificamos o enraizamento de um conjunto de tradições e romarias, estas terão de ser o espelho de uma adesão ao seu conteúdo que redescubra os impulsos estimulantes que nos faça sair (de nós, ao encontro dos outros) para nos reencontrarmos. Não é uma questão espacial. É tarefa existencial que enriquece de sentidos e valores a própria vida. Talvez hoje seja esta a viagem mais importante.

Centenário da República: Presidente da República dá hoje posse à Comissão Nacional para as Comemorações


O Presidente da República nomeou, sob proposta do Governo, a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República.
A Comissão será presidida por Artur Eduardo Brochado dos Santos Silva e terá como vogais Francisco Sarsfield Pereira Cabral, João José de Sousa Bonifácio Serra, Maria Fernanda Fernandes Garcia Rollo e Maria Raquel Henriques da Silva.
Aníbal Cavaco Silva dará posse à Comissão no Palácio de Belém, hoje, dia 12 de Junho, pelas 19 horas.
Em 5 de Outubro de 2010, como é sabido com certeza por todos os portugueses, celebra-se o centenário da República. Penso que esta é uma excelente oportunidade para se fazer mais luz sobre esse período da nossa vida colectiva. Não têm faltado historiadores que se debruçaram sobre a revolução republicana e sobre a chamada primeira República, com as intermináveis guerras político-partidárias, que levaram ao "Estado Novo" de Salazar.
A Igreja, como é sabido também, sofreu bastante, directa ou indirectamente apanhada pelo ricochete das contendas. Não vejo mal nenhum em se ficar a saber, com verdade, a causa dessas contendas, embora seja útil sublinhar que, no fundo, as metas da democracia, da liberdade, de mais justiça social e da alfabetização, entre outras, encontraram campo para se estabelecerem entre nós. Em alguns casos tardou o progresso, mas algum chegou.
FM

Raciocínios limitados, o país a empobrecer-se


Muitos políticos, felizmente que não todos, têm, por vezes, raciocínios sobre a vida social e política, que não saem das baias estabelecidas pelos seus partidos. Nota-se, assim, a falta de horizontes mais largos e profundos e alguma prisão interior que não os deixa ser livres, nem expressar-se livremente. A disciplina de voto passa muitas vezes a ser, também, disciplina de pensamento e de opinião. Quando se sonham ou esperam favores, não se ousa dissentir dos que mandam ou influenciam as decisões, ou ir mais longe nas opiniões pensadas e reflectidas. É perigoso sair do estabelecido, se não se tem estofo para aguentar consequências, que podem ser fatais para quem sonha. O terreno da política partidária está, frequentemente, armadilhado e com percalços inesperados.
Gostava, e é legítimo esperá-lo, de ver gente com lugar na Assembleia da República, em postos de governação ou em estruturas políticas e administrativas, ser livre no seu pensamento e não se sentir acorrentado por interesses pessoais ou outros de qualquer ordem. Ponderar as próprias opiniões deve ser uma coisa normal, à luz das exigências do bem comum, da convivência sadia e do serviço à comunidade, sob a inspiração de postulados democráticos, princípios fundamentais e valores universais, como a subsidiariedade, a solidariedade, o respeito pelos outros, a intimidade e a interioridade pessoal, a liberdade de consciência, princípios e valores sempre enriquecedores, quando bem entendidos e respeitados.
Há chavões que passam na política de pais a filhos, ou seja, de veteranos a novatos, sobre os quais já não se perde tempo a reflectir. Afirma-se, e pronto. Uma pobreza ainda generalizada. As ideologias perderam cor e vigor, nivelaram-se ou construíram muros inacessíveis de incomunicação e as pessoas vivem de interesses.
Raciocinar à superfície é raciocinar de modo pobre, interessado e não gratuito. O medo de ir mais longe, descobrir novos horizontes de vida, aceitar confrontos é, para muita gente, uma fuga à verdade e à realidade, e um aconchegar-se no ninho. Só a verdade liberta, só a verdade é fundamento da liberdade interior, só ela tem futuro.
Um dos aspectos mais comuns na pobreza do raciocínio e dos confrontos, normais e necessários para um enriquecimento mútuo, vê-se na confusão entre governo e Estado, fazendo-se do primeiro o senhor e dono das pessoas e dos seus bens, dono de tudo como Estado providência. As iniciativas privadas e as ideias dos outros nunca são boas porque diminuem ou beliscam o poder e a missão de um tal Estado. Basta reflectir um pouco, libertos da cegueira dos preconceitos, para logo se ver a pobreza em que se foi caindo.
Esta reflexão, sempre incómoda porque a realidade a isso leva e nunca é agradável tocar feridas ocultas, veio-me agora ao de cima, quando li num diário (DA, 26.5.08) artigo assinado por um deputado em exercício com este título: “Mais e melhor escola pública, sim. Privatização, não”. Se o signatário se despisse do preconceito partidário, o raciocínio seria mais aberto e objectivo e teria uma dimensão de serviço ao país, para além do pendor partidário. Quem é que não deseja uma melhor escola pública? O mal, a meu ver e como parece evidente, está em dizer “mais e melhor escola pública”, porque, então, cai-se no facciosismo de pensar que só o que é estatal é que é público. Será que o signatário está mesmo convencido? É o raciocínio, fascista e totalitário, do “único” e do “nós”, que nega valor à participação democrática plural, porque só vê inimigos nos que não pensam segundo o sistema. Assim não vamos longe. Os partidos políticos passam e, quando estão, têm de aceitar o jogo democrático aberto. De contrário, anulam tudo à sua volta que não seja concordância acrítica com o dito e o decidido. Pensamento pobre é pobreza de decisão. Já todos vimos que calar os dissidentes é empobrecer o país. A diferença é riqueza a acolher e a aproveitar, se o respeito pelos outros ainda tem lugar.


António Marcelino

O Catitinha

"Foi em casa do tio João que um dia, aí por 1945, conheci uma figura típica e algo misteriosa. Aparecia de tempos a tempos e fixava residência em casa de alguns gafanhões, que o recebiam como se fora um parente próximo. Cediam-lhe um quarto, comia à mesa com as famílias que o acolhiam, conversava e dava conselhos a todos. Das suas palavras, serenas e bem medidas, saíam conceitos cheios de filosofia, que eu não entendia, mas que os sentia nos rostos extasiados de gafanhões iletrados e pouco viajados. Era o Catitinha, que até os fotógrafos da região gostavam de registar para a posteridade."
Ler mais em GALAFANHA

Conselhos para o dia todo e para todos os dias


Trabalha como se não precisasses de dinheiro.

Ama como se nunca tivesses sido magoado.

Dança como se ninguém te estivesse a ver.

Canta como se ninguém ouvisse.

Vive como se fosse o Céu na Terra.



NOTA: Frequentemente recebo mensagens lindíssimas e cheias de sentido, mas ainda não descobri a forma de as publicar no meu blogue. De uma dessas mensagens, enviada pelo João Marçal, leito assíduo e amigo de há muito, retirei estes conselhos para o dia todo e para todos os dias.

Regata dos 200 anos da Abertura da Barra – Cruzeiros à Vela


Realiza-se no próximo fim de semana (14 e 15 de Junho) a “Regata 200 anos da Abertura da Barra – Cruzeiros à Vela”. Esta Regata é organizada pela APA – Administração do Porto de Aveiro SA e pelo CVCN – Clube de Vela Costa Nova, tendo por Patrocinador Oficial a PRIO – Advanced Fuels. A prova irá concretizar-se ao largo da Barra e contará com a participação de inúmeros Cruzeiros de várias localidades.

A Base de Regata está instalada no Porto de Abrigo do PPC – Porto de Pesca Costeira. Uma tenda com 250 m2 permitirá a recepção dos velejadores e convidados bem como o serviço de refeições e animação. Faz parte do programa a actuação de um excelente conjunto musical, que manterá os participantes bastante animados, dando à regata um carácter festivo. A animação será igualmente ponto alto quando às 22.30 horas se iniciar o Grande Espectáculo Piro Musical, oferta da Comissão das Comemorações do Bicentenário da Abertura da Barra a toda a população e visitantes.

O segundo dia de provas começa com a largada dos Veleiros para o mar, a partir das 10 horas. No regresso, cerca das 17 horas, será servido um lanche durante o qual haverá o imprescindível convívio entre os participantes. A entrega dos prémios realizar-se-á no final do jantar que se inicia às 19 horas.

De referir ainda que, a todos os participantes, serão oferecidas várias lembranças. As entidades organizadoras convidam toda a população a assistir a esta importante iniciativa desportiva.

PONTES DE ENCONTRO


Do 25 de Abril ao 10 de Junho

No dia 5 de Março, do corrente ano, fiz algumas humildes e breves considerações ao discurso que o Presidente da República proferiu na cerimónia da 34ª Sessão Comemorativa do 25 de Abril, na Assembleia da República. Na altura, o Presidente da República afirmou que “Num certo sentido, o 25 de Abril continua por realizar-se”. Tive ocasião de escrever, então, que “o 25 de Abril de 1974 será, sempre, passado sem sentido e um memorial de recordações e nostalgias, que jamais poderão fazer parte do futuro”, se a classe política não tiver capacidade de se organizar e de se mobilizar, definitivamente, a fim de que os cidadãos deste país cumpram, na parte que lhes cabe, os desafios iniciados, após Abril de 1974. De outro modo, Abril (ou outro mês qualquer, para quem o desejar), continuará, em muitos sentidos, por realizar-se, para sempre!
De lá para cá, não sei se o “tal sentido” (não explicitado) do 25 Abril já começou a realizar-se ou se o estudo encomendado pela Presidência da República, “Os jovens e a política”, de Janeiro de 2008, já está a alterar esta letargia sacrificial em que vamos vivendo, ano após ano.
Procurando, dentro do possível, estar atento ao que a classe política vai dizendo, ou desdizendo, fazendo, ou desfazendo, do país e pelo país, ouvi com toda a atenção as palavras do Presidente da República, na Sessão Solene Comemorativa do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que se realizou, este ano, em Viana do Castelo.
Sabemos que nem sempre os políticos podem dizer tudo o que lhes vai na alma, mas há coisas que podem e devem evitar, sobretudo se contribuírem para aumentar as dúvidas de quem as já tem, como é o meu caso. A dado passo do discurso, o Presidente Cavaco Silva interroga-se (ou interroga-nos?): “Estarão as nossas instituições, as nossas empresas, a nossa sociedade, a responder aos desafios do presente?”
Custa-me a acreditar que ele não saiba a resposta, o que seria muito grave!
Partindo, pois, do princípio que a resposta é conhecida pelo Presidente, não será que ele queria dizer que nem tudo se está a fazer para que, “aquele sentido” do 25 Abril, de que falou, há cerca de mês e meio, se realizasse, nem que fosse só um pouco, mas de forma firme e decidida? É possível que sim, ainda que eu não saiba se existem, nesta altura de crises nacionais e internacionais, condições para tal. Quando as coisas não são claras dá nisto! “Temos de começar por ser exigentes e rigorosos connosco, se queremos que o imenso património que herdámos e de que justificadamente nos orgulhamos se transforme num verdadeiro instrumento ao serviço do progresso e da prosperidade do nosso povo” foi uma das outras declarações que também me levantou dúvidas. É muito provável que esta frase do Presidente tenha um sentido de exortação, ainda que seja possível dar-lhe um sentido imperativo. Digo isto porque, não raras vezes, as coisas não vão lá só com apelos nem com discursos estilo”soft”, mas sim com muito trabalho e disciplina para todos: governantes e governados.
Seja como for, a exigência e o rigor, enquanto valores que elevam e dignificam qualquer pessoa, têm que fazer parte natural da matriz de qualquer país que se queira respeitado e desenvolvido. Deduzo, pois, das palavras do Presidente da República, que estes princípios devem andar bem arredados de muitos portugueses e, quem sabe, se, na primeira linha, não estarão os dirigentes políticos que têm governado Portugal, ao longo de mais de trinta anos de democracia. Se assim for, e não pondo em causa a sua honestidade e as suas boas intenções, não deixa de ser mais um contributo negativo para que “o tal sentido” do 25 Abril ainda não se tenha realizado.
Assim, de discurso em discurso, quem sabe se, um dia, por milagre, tudo se realize de vez, a começar pelo país que, não o dizendo, afinal, também, ainda não se realizou.

Vítor Amorim

quarta-feira, 11 de Junho de 2008

Não será euforia a mais?


Confesso que não compreendo tanta euforia. Hoje à tardinha, depois da vitória de Portugal sobre a República Checa, em algumas ruas da Gafanha da Nazaré, decerto à semelhança do que acontecia por todo o país, a alegria era esfuziante. Como se Portugal acabasse de vencer o campeonato do Mundo de Futebol. De outra coisa qualquer, o silêncio seria igual ao de todos os dias, com o povo mais preocupado com a crise que provoca angústias. Mas com o Futebol, não é assim.
Carros cheios de gente, bandeiras e bandeirinhas agitadas ao vento, também em casas particulares e nos estabelecimentos comerciais, buzinadelas ensurdecedoras, gritos e gritinhos de entusiasmo! Quase todos vestidos ou decorados com as cores nacionais, aos pulos, nas ruas e em carrinhas de caixa aberta. Todo o pessoal se saudava de braços bem abertos e de bandeiras desfraldadas! Até vi um carro de museu na festa!
Cada um é quem é. Mas eu, que gosto que Portugal vença e seja campeão, não sinto necessidade de todo este espalhafato. Por esse andar, se a nossa selecção perder, se ficar num lugar fora do pódio, então a tristeza é mesmo de morrer.
Nunca li qualquer explicação para esta reacção nacional. Será uma resposta espontânea às crises económicas por que temos passado? Será uma vontade explosiva para afugentar as preocupações? Será uma atitude natural de quem tem andado na mó de baixo e se vê agora, com o Futebol, só com o Futebol, a bater forte nos outros?
Expliquem-me, por favor, porque eu não entendo isto!

FM

Mensagem do Bispo de Aveiro: Dar valor e sentido à vida

"As aulas de EMRC inscrevem-se necessariamente neste ho-rizonte de serviço aos alunos e à Comunidade Educativa e prestam um inalienável contributo nesse sentido. Ajudar os jovens a crescer com valor, oferecendo-lhes um percurso com sentido cristão, é uma das missões primeiras das aulas de EMRC. Abre-se este horizonte em cada aula e em cada etapa do tempo escolar para um desafio de vida cristã marcada pela coerência, pela disponibilidade, pela verdade e pela alegria manifestadas no testemunho exemplar de cidadania e de fé, no serviço entusiasmante do Evangelho e na entrega generosa às causas do bem comum, da justiça e da paz.A matrícula nas aulas de EMRC é assim também um testemunho de fé, nascido no coração dos jovens e das famílias."

Clique aqui para ler toda a mensagem

NA LINHA DA UTOPIA

Bénard da Costa

Universalismo, Valor a rentabilizar


1. Com a actualidade em polvorosa com outras questões, o 10 de Junho parece já ter sido esquecido. Sobra a polémica de uma ou outra “frase” dita que também faz apagar, rapidamente, algumas questões de fundo salientadas na celebração deste dia das comunidades que vivem em português. Destacamos o discurso de João Bénard da Costa, aprofundando a raiz profunda do universalismo característico dos portugueses. De uma noção de língua, que em Heidegger (1889-1976) é a «casa do ser», os portugueses, efectivamente, assumiram e assumem, na generalidade, uma capacidade de relacionamento e interlocução que continua a registar páginas de história viva com os outros.
2. Nos tempos que vivemos, como foi sublinhado nos diversos discursos, as relações entre os povos não podem ser um factor lateral mas essencial. A história dos cinco milhões de emigrantes portugueses espalhados pelo mundo, mesmo que contenha grandes lutas e sofrimentos, também espelha esse facilitador do relacionamento humano. Vivemos já o tempo em que, pese embora tantas condicionantes de vária ordem, o sentido de universalismo é um dos eixos que faz a diferença. Daqui em diante, em tempos de globalização e mega-aceleração da vida diária, os factores de diferenciação talvez se venham a transferir das potencialidades técnicas para as capacidades de relação humana.
3. Se o presidente da República «desafia os portugueses a serem “exigentes e rigorosos” consigo próprios», estímulos positivos que ninguém de bom senso colocará de parte, todavia, esta mesma correspondência terá de ser assumida de modo total. Os portugueses habitam em famílias, instituições, escolas, mundo do trabalho. Esta procura do rigor «cá dentro» não é incompatível com um universalismo de rasgados horizontes. Casa mais arrumada é projecto que, não perdendo todo o potencial criativo, vai mais longe. O ser da cultura portuguesa, mesmo a partir da matriz da língua, em português, contém em si o gérmen da totalidade. Mesmo acima do mitológico exaltado por escritores e poetas, e ainda que racionalmente não se queira assumir o desígnio da portugalidade (até para não deixar que as emoções comandem as razões), o certo e o facto é que o universalismo está no bilhete de identidade dos portugueses.
4. É verdade que de todos os povos, pois que todos somos cidadãos de um mesmo mundo em relação. Mas se formos ao código genético cultural, este que não depende da riqueza mas está assente em valores, há povos que se relacionam melhor uns que outros e entre estes estão os portugueses. É um facto que também quer derivar em responsabilidade e, actualmente, em valores e oportunidades, até como nova relação que seja impulso de ligação das nossas comunidades emigrantes às suas terras de origem…Será possível?

A Igreja precisa de um plano nacional de leitura?


Os dados trazidos agora a lume pelo Patriarcado de Lisboa, sobre os hábitos de leitura bíblica dos católicos, não são uma tragédia, mas desassossegam bastante. A grande falta parece não ser de material, pois a maioria até possui um exemplar da Bíblia e/ou acede comunitariamente a ela. O problema é mesmo ler a Bíblia, esse «livro complicado» - como justamente o refere o Cardeal-Patriarca (Ecclesia 05/06/2008), mas ao mesmo tempo fundamental para a construção da existência eclesial e cristã. É precisamente por ser um «livro complicado» que a Igreja tem a responsabilidade de promover uma apaixonada iniciação à leitura, entregando a cada crente o gosto e as chaves para a sua interpretação, cuidando que o encontro com o Texto Sagrado aconteça. Encontrar a Palavra de Deus é encontrar a Cristo, dizia São Jerónimo. Sem ela, o cristianismo torna-se vago, insustentável, insuficiente.
Há um grande desafio que se coloca, portanto, às comunidades cristãs: estas são chamadas a assumir-se, talvez de modo mais consciente e certamente mais activo, como comunidades de leitura. Quando D.José Policarpo lembra que, por vezes, nas próprias celebrações «a palavra é mal lida» e «a homilia nem sempre ajuda» está a colocar o dedo numa das feridas: a necessidade de formação, e de uma formação com qualidade. Não basta reproduzir um certo automatismo de modelos. De forma humilde, persistente e criativa importa fomentar uma iniciação ao conhecimento religioso. É verdade que muito já se faz, mas as estatísticas recentes mostram bem como esta é uma meta longe de estar ganha. E enquanto ela não for inscrita no centro das preocupações…!
Recentemente, o Ministério da Educação lançou o «Plano nacional de leitura», com o objectivo de «elevar os níveis de literacia dos portugueses e colocar o país a par dos nossos parceiros europeus». No específico da sua realidade, não é caso para perguntar se a Igreja portuguesa não carecerá de uma mobilização nacional para a leitura da Bíblia? Em que medida o Sínodo dos Bispos do próximo Outono e o Ano Paulino que este Verão começa podem constituir a Primavera de que precisamos?

José Tolentino Mendonça

Serra da Boa Viagem




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Ontem andei a desfrutar os ares puros e o silêncio da Serra da Boa Viagem, na Figueira da Foz, com mar à visto. Que tarde maravilhosa, de tempo ameno, sobretudo no vale por onde me quedei, por entre árvores e ervas. E no meio delas brotavam flores silvestres de cheiros que me envolviam e me transportavam aos tempos em que, menino, era capaz de dormir uma soneca no meio da seara, com vento a passar-me por cima.
Ali, olhando os pinheiros, uns altos e velhos, e outros mais rasteiros e ramosos, com arbustos à mistura e aves que passam e repassam, dei comigo a olhar a paisagem virgem, por onde correm carros cheios de gente de olhos fechados ou indiferentes.
A Serra da Boa Viagem, um ex-libris da Figueira da Foz, de tantas e tão grandes tradições de um cosmopolitismo que já faz parte da história, ou não se tivesse, há muito, democratizado a sua praia, de areais amplos e finos, continua a ser uma extensa área a necessitar de mais divulgação, para um maior usufruto.
Pois ontem andei por lá. E de lá voltei com vontade de ficar na paz que ali senti. Até breve, Serra da Boa Viagem.

Papa destaca papel da Igreja na construção da Europa


Bento XVI dedica audiência geral à figura de São Columbano, e lembra mosteiros medievais como centros «de irradiação de cultura»

Bento XVI destacou esta Quarta-feira a importância do Cristianismo na construção da identidade europeia, ao falar da figura de São Columbano, monge irlandês do século VI. "Com a sua energia espiritual, com a sua fé, com o seu amor a Deus e ao próximo, tornou-se realmente um dos Pais da Europa: ele mostra-nos também hoje onde estão as raízes das quais pode renascer esta nossa Europa", assinalou.
Na audiência geral desta semana, o Papa lembrou este abade da Irlanda, nascido por volta do ano 543, frisando que “juntamente com os irlandeses do seu tempo, tinha consciência da unidade cultural da Europa nascente”.
“Homem de grande cultura e rico de dons da graça, seja como incansável construtor de mosteiros seja como intransigente pregador penitencial, gastou todas as suas energias para alimentar as raízes cristãs da Europa que estava a nascer”, afirmou.
São Columbano foi o “irlandês mais conhecido” da Baixa Idade Média e os mosteiros por ele fundados, explicou o Papa, eram verdadeiros centros de irradiação de cultura e evangelização, bem como lugares que atraíam muitas pessoas pela sua vida de trabalho, austeridade, penitência e oração.
Clique aqui para ler mais

"PORÃO" vence concurso gastronómico


III Concurso Gastronómico de Ilhavo, juntou 13 restaurantes do Concelho e o "Porão" da Gafanha da Nazaré foi o vencedor

Pelo terceiro ano consecutivo, a Câmara de Ílhavo organizou o III Concurso de Sabores a Maresia, juntando 13 restaurantes que apresentaram pratos de peixe, com especial incidência na ementa de bacalhau, que estava a concurso.
O júri foi composto pelo Presidenta da Câmara, Ribau Esteves, e por três Confrades das Confrarias Gastronómicas do Bacalhau, da Carne Barrosã, da Chanfana de Poiares e das Papas de S. Miguel.
Tarefa árdua, mas decerto gostosa, para o júri, que teve de provar os pratos a concurso dos 13 restaurantes concorrentes. Os quatro primeiros prémios ficaram assim distribuídos: "Porão", Gafanha da Nazaré; "Marisqueira", Costa Nova; "Casa Velha" (Hotel de Ilhavo); e "Mestre Palão", Gafanha da Nazaré.

PONTES DE ENCONTRO




A “liberdade dos sistemas” e a liberdade do Homem

No passado dia 6 de Julho, o ex-comissário europeu António Vitorino escreveu no “Diário de Notícias”, um artigo sobre “a tripla crise” que afecta as várias regiões do globo. Focando-me, apenas, na crise financeira, o Dr. Vitorino escreve que “o sistema capitalista tem a inegável vantagem comparativa de ser o único até hoje que passou a prova dos factos, contemplando ao mesmo tempo liberdade e desenvolvimento económico…”, ao mesmo tempo que está “crente” que tudo isto se voltará a reequilibrar, através da “reconfiguração de variáveis essenciais do próprio sistema” capitalista, que, segundo ele, não está “isento de perversões e excessos.” Também no dia 2, do mesmo mês, o “Diário Económico”, publica uma entrevista com o Presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, na qual este diz que a crise actual é “um fenómeno global: o assunto é global, o desafio é global e precisamos de uma resposta global.” Mais adiante, reconhece que “Há códigos de boas práticas, de conduta que poderão ser voluntariamente discutidos e adoptados e se “tais códigos voluntários são insuficientes (…) ou se o sector privado for incapaz de concordar com as regras necessárias para promover e garantir estabilidade, estaremos claramente perante um caso de regulação pública.”
Estas declarações, nos tempos que correm, não deixam, se é que as havia, margens para dúvidas: a subida do preço do petróleo e dos alimentos e toda a desregulação financeira que anda por aí a afectar, gravemente, a vida de milhões e milhões de pessoas por todo o mundo, que leva a que outras tantas não tenham acesso aos alimentos básicos para a sua sobrevivência tem uma fonte: o sistema capitalista ou, se alguns quiserem, as suas “perversões e excessos”, como diz António Vitorino, ou, como diz o Senhor Trichet, estes são os riscos inerentes em vivermos numa economia de mercado.
Como em tudo na vida, nestas coisas de teorias económicas, “cada cabeça cada sentença”, pelo que uns dirão que é necessário, ainda, uma maior liberalização dos mercados; outros já estão a ver em tudo isto o fim, inevitável, do sistema capitalista; para outros tantos, estas crises são fenómenos cíclicos e naturais, pelo que o tempo se encarregará de recolocar tudo outra vez no lugar, enquanto outros já pensam que há que encontrar sistemas económicos e políticos alternativos, aos seguidos até aqui.
Como cidadão e cristão, não deixo de me interrogar e de me preocupar, seriamente, com o caminho que o mundo está a levar. O Presidente Trichet, reconhecendo que as coisas não estão bem (ele não especifica para quem) transmite a ideia de que há que evitar, tanto quanto possível, qualquer atitude de regulação dos mercados, por via dos Estados, dando a primazia que esta seja feita pelos próprios mercados e que paciência é coisa que não lhe falta para ficar à espera que tal aconteça. Mesmo assim, a fazer-se tal regulação, os seus resultados e alcance serão sempre discutíveis. O mundo está assim tão refém destes conceitos tão pouco transparentes, complexos e injustos?
Ou será, então, este o preço apagar pela anunciada “liberdade”, de que fala António Vitorino? Mas que liberdade? Uma pessoa que morre de fome é livre? Uma família que não tem dinheiro suficiente para as suas despesas é livre? Uma pessoa que perdeu o seu emprego é livre? Em resumo: onde está, a liberdade de quem não tem possibilidade de escolha ou de decisão, mesmo que um certo sistema económico diga que a respeita? E a liberdade intrínseca à essência do ser humano, onde fica no meio de tudo isto? Só por si esta também não basta, se não estiver acima da “liberdade do(s) sistema(s)”, nem se deixar condicionar por esta “oferta”. A liberdade não se oferece! Ou se tem ou não se tem! Confundir pobreza ou riqueza com a liberdade pessoal é uma falácia. Quem assim o fizer, já transformou a liberdade numa mercadoria e a riqueza num meio para a comprar, como se tal, aliás, fosse possível. Este é um dos pecados do capitalismo, seja sobre que forma se apresente, procurando confundir, quanto muito, liberdade com sonho, supostamente ao alcance de ser concretizado por todos, com a promessa de uma vida cheia de êxitos e fortuna. Fora disto, só existem os fracassados ou os vencidos da vida, que nem direito têm ao reconhecimento da sua própria liberdade, baseada, sempre, na dignidade pessoal e no reconhecimento que é devido a cada ser humano.
Vítor Amorim

terça-feira, 10 de Junho de 2008

NA LINHA DA UTOPIA


Escravos da Economia?


1. Os noticiários das últimas semanas, de sobremaneira, procuram ser autênticas aulas de economia. Especialistas das diversas áreas económicas convergentes procuram explicar, até ao limite, todos os pormenores do que está a acontecer na economia mundial. As múltiplas greves confirmam na rua o mal-estar consequente às loucuras petrolíferas e financeiras. Da Europa a notícia do alargamento das horas de trabalho semanal. Os próprios governos de chancela tipicamente social estão vergados de tal forma que a primeira palavra de todos os discursos é sempre «economia» e só depois, lá para o final, então vem a palavra «social». A competitividade, sem olhar a grandes meios para atingir todos os fins vitoriosos, é palavra-chave já desde criança, para quem até a “lavagem” noticiosa dos juros e dos combustíveis vem dizer que parece não haver mundo para além da economia.
2. Juntando a toda esta feira económica, estamos em pleno campeonato europeu de futebol, Euro 2008, onde, a par das festas colectivas, são exorbitantes os números económicos das transmissões televisivas, para já não falar das loucuras clubísticas que conseguem sempre uns largos milhões para “comprar” novos deuses, os jogadores de futebol. Talvez tudo pareça surreal demais para ser a verdade da nossa actualidade. Apelidamo-nos de mundo desenvolvido, e muitas vezes como contraposição ao mundo subdesenvolvido de que temos também grande quota de responsabilidade histórica (pois que os países europeus assim proporcionaram). A Europa e o mundo estão em plena transformação, numa corrida atroz para ver quem chega primeiro a tudo; nesta corrida (que demonstra tão pouco desenvolvimento humano), regressa o triunfo da lei do mais forte.
3. Das realidades mais importantes dos dias de hoje, e com a aprendizagem da história (económica), talvez seja o tornar bem patente dos mecanismos de interacção económica. Não ver só o agora, mas perscrutar o depois. O endeusamento económico será a fatalidade de uma selva mortífera para os mais frágeis; o regressado deus-economia agrava as fracturas e desigualdades já existentes mas, simultaneamente, fará crescer sempre essa revolução da multidão “contra” a meia dúzia de senhores do mundo. É um erro dizer sempre a palavra economia em primeiro lugar, pois esta opção demonstra a menor visão das funções humanas da própria economia. Sendo verdade que o realismo obriga a enfrentar com inovação e esperança as complexas questões económicas, todavia estas não são um fim em si mesmo, mas sim um serviço com sentido de humanidade. A ética do trabalho (para todos) e a dignidade humana, nunca perdem a validade; antes são factor primordial de desenvolvimento. Este não se esgota, está muitíssimo acima dos factos da economia.

segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Um poema de Armindo Rodrigues


LIBERDADE

Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)

A frescura do verde

(Clicar na foto para ampliar)
Finalmente chegou o calor que aquece o corpo e a alma. Tardou mas já deu para perceber que mais dia menos dia virá de vez. Para um Verão quente e acolhedor que todos esperamos. E quando isso acontecer, a sério, o verde será sempre reconfortante.

A arte de ser português


Guilherme d'Oliveira Martins, Presidente do Centro Nacional de Cultura, apresenta o livro PORTUGAL E OS PORTUGUESES de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto

As interrogações têm pelo menos mil anos. Quem somos, como povo e como pessoas? Que relação temos com Portugal? E se essa relação é normalmente difícil, a verdade é que nos deparamos a cada passo com a comparação histórica, com distância geográfica dos centros, com o confronto entre as ilusões e as desilusões, com a ironia e o remorso.
Afinal, a questão que temos connosco próprios, de que falava o poeta, começou por ser garantia e definição e prosseguiu entre restaurações e perdas, em ciclos de euforia e de depressão, de sucesso e de decaimento. E no entanto a nossa matéria-prima continua a ser a mesma. E “olhamos Portugal como uma personalidade colectiva portadora de uma alma, no sentido romântico do termo, ainda que referido a algo muito anterior ao Romantismo”. E que é o Romantismo senão o tentar reviver tempos imemoriais? Povo eleito? Povo enjeitado? O Padre Vieira compreendeu bem esse conflito íntimo. E, como diz o nosso autor(*), a “relação que mantemos com esse gostoso e custoso colectivo vem na esteira de um outro povo, que se descobriu eleito e portador de uma missão universal”. Ourique e o seu milagre (1139) têm como berço teórico Santa Cruz de Coimbra – “A partir da profecia de que se fundaria um reino tão imortal como a sua origem e com idêntica projecção religiosa”. E ainda há a sucessão de acontecimentos que passa pela promessa dionisíaca, pela afirmação joanina, pela ambição dos Altos Infantes, pela visão do Príncipe Perfeito, pelo maravilhoso cristão de Camões, pela ilusão sebástica, pela Restauração profética do Padre António Vieira e, por fim, pelo ouro e pela dissolução da nação antiga. E passámos a viver (se não vivíamos já, como mostraram Gil Vicente e Sá de Miranda) “geralmente mal connosco próprios, por nos acharmos sempre aquém do que teríamos sido ou do que poderíamos ser…”. E há nisto (prossegue Manuel Clemente) “algum auto-ressentimento independentemente da nossa extracção religiosa ou não-religiosa. Todos nos embebemos de um Portugal que não achamos”.
Ler todo o texto em Ecclesia

A nossa gente: Mestre Rocha

Quando procurava um livro de interesse imediato, veio-me à mão um outro do meu amigo de saudosa memória, Joaquim Duarte, “Hidro-Aviões nos céus de Aveiro”. Foi uma boa ocasião para reler uma ou outra passagem e para ver fotos que fazem parte da Escola da Aviação Naval de S. Jacinto.
De página em página, cheguei a uma que recorda um gafanhão que deixou a sua marca na Gafanha da Nazaré, pela maneira como lutou pelos seus interesses, enquanto presidente da Junta de Freguesia e para além dela. Trata-se do Mestre Rocha, com quem conversei inúmeras vezes sobre o que seria melhor para a nossa terra. Recordo, bem, o que ele me dizia, quando vinha em defesa das suas ideias: “Eu fui testemunha ocular e auricular!” Perante isto, eu tinha mesmo de acreditar nas suas convicções.
Contudo, hoje não quero falar das conversas que tive com Mestre Rocha, mas, sim, do que dele disse Joaquim Duarte, no seu livro “Hidro-Aviões nos céus de Aveiro”.
Leia mais em GALAFANHA

Homenagens aos nossos maiores

Amanhã, 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o Presidente da República, Cavaco Silva, vai homenagear os nossos maiores. Sobretudo aqueles que, de forma significativa, se distinguiram nas suas actividades profissionais, sociais, culturais, artísticas ou científicas. Normalmente todos estamos de acordo com as escolhas feitas.
Contudo, temos de convir que há muitos outros portugueses, gente menos conhecida pela maneira humilde como vive e age em prol dos que mais sofrem, que ficam de fora. Há, por isso, sempre injustiças. Mas, no fundo, esses que se dão aos outros, desinteressadamente, no silêncio das suas comunidades e longe dos holofotes dos grandes media, também nem reparam nas honrarias que atribuem a outros e nem precisam que os tirem dos seus cantos para pisar as passadeiras vermelhas que conduzem à mesa da presidência. Que ao menos as suas comunidades se lembrem desses servidores que, no dia-a-dia, espalham o bem e a alegria.

PONTES DE ENCONTRO


A crise da família na Europa

A FIDES, órgão da Congregação Para a Evangelização dos Povos, publicou, com data de 29 de Março de 2008, um dossier intitulado «A crise da família na Europa», no qual se reúnem dados sobre a diminuição da população no continente europeu e os graves problemas que ameaçam a instituição familiar, a começar pelo aborto, em referência à Rede Europeia do Instituto de Política Familiar, que, por sua vez, apresentou, no passado dia 7 de Maio de 2008, no Parlamento Europeu, um Relatório sobre a “Evolução da Família na Europa – 2008”.
De acordo com o dossier da FIDES, entre 1994 e 2006 a população europeia cresceu 19 milhões de pessoas, sendo 80% deste crescimento devido à entrada de quinze milhões de imigrantes, pelo que, não resultou de um aumento da taxa de natalidade, que permaneceu estável, ou seja à volta de 310.000 crianças por ano.
Segundo os cálculos apontados pela Agência FIDES, crê-se que, a partir de 2025, a Europa começará, lentamente, a despovoar-se, ainda que a mobilidade migratória possa alterar estes dados, não se conhecendo, contudo, os seus resultados, se tal suceder.
Em relação ao envelhecimento, o dossier da Agência FIDES afirma que, a Europa, tem mais pessoas idosas do que crianças. A população com menos de 14 anos representa apenas 16,2% do total da sua população, o que corresponde a 80 milhões de crianças, nos 27 países da União Europeia.
Sobre a taxa de natalidade, o dossier adverte que, na Europa, nascem cada vez menos crianças. Em 2006, apenas se registaram 5,1 milhões de nascimentos. A situação foi estável de 1995 a 2006, com um aumento entre 2005 e 2006 de apenas de 1,1%, o que está longe dos valores necessários para a renovação de gerações.
Quanto ao aborto, o mesmo dossier afirma que, a cada 25 segundos, se realiza um aborto na União Europeia, a 27 países, e onde, em cada dia, se fecham três escolas, por falta de crianças.
A Espanha é o país onde mais aumentou o número de abortos, nos últimos dez anos, com um aumento de 75%, seguida pela Bélgica, com 50% e da Holanda, com 45%.
Deste modo, o aborto é a primeira causa de mortalidade na União Europeia, a 27 países, onde fez mais vítimas que as enfermidades cardiovasculares, os acidentes de trânsito, a droga, o álcool e os suicídios.
Em relação aos gastos destinados às políticas sociais, o dossier refere que 27% do PIB da UE é destinado a esta rubrica, enquanto que só 2,1% deste orçamento global é destinado a políticas de apoio familiar, o que é um sinal claro da falta de prioridade que as políticas de apoio à família têm perante as autoridades comunitárias. Isto significa que a UE destina menos de um euro a cada família, em relação aos treze euros destinados aos restantes gastos sociais, o que até pode ser insuficiente para estes.
Sobre a pobreza infantil e da adolescência, há 97,5 milhões de pessoas na União Europeia entre 0 e 17 anos, e, destes, 19 milhões estão em risco de pobreza. Mesmo assim, já, hoje, a média de pobreza europeia está na casa dos 19%.
Sobre os matrimónios na UE, o dossier refere que, em 25 anos (1980-2005), o número de matrimónios diminuiu 692.000, o que corresponde a uma queda de 22,3%.
Por cada dois matrimónios que se celebram na Europa, um acaba em separação, lê-se no dossier.
Pena é que estas questões não sejam mais divulgadas e debatidas, mesmo no seio das Comunidades cristãs. Ao menos, sempre poderíamos ficar a saber se anda por aí alguém com vontade de despovoar a terra e repovoá-la com seres de outras galáxias ou, então, se andamos, todos, a ser enganados por aqueles responsáveis políticos que se dizem a favor de uma renovação de gerações.

Vítor Amorim

domingo, 8 de Junho de 2008

NA LINHA DA UTOPIA

Ateísmo, Fé e Liberdade

1. Esta é uma das fundamentais fronteiras do entendimento humano e da tolerância. Toca uma respeitabilidade que quererá ser iluminada pela ordem da racionalidade. Por sua vez, a noção de liberdade (da pessoal à social) assume-se como o terreno garantido pelos estados para a ocorrência partilhada da diversidade de propostas; mas estas também não poderão ser estanques, haverão de procurar, de forma ascendente e dinâmica, responder ao sentido de vida do ser humano e à saudável convivência da humanidade.
2. Vem esta reflexão a propósito da recentemente criada Associação Ateísta Portuguesa (AAP). A liberdade dos estados, chamados de modernos, nem pode fermentar a sua criação nem impedir a sua realização. O mesmo sucede aos terrenos da religião, como expressão da fé: o estado, nem pode orientar nem impedir. Mas o que não significa que os estados devam ser indiferentes; muito diferentemente disso, os estados deverão estar vigilantes… Esta vigilância só pode estar em conformidade com a matriz da convivência democrática que assenta na dignidade da pessoa humana que brota da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Assim, a bitola de referência transversal terão de ser «as acções que», no sábio dizer de Vieira, «dão o ser».
3. Há dias, sobre esta criação da AAP, D. José Policarpo foi interpelado. A resposta, única certeira, foi o claro princípio da comum respeitabilidade. Afirmou D, José que «cá estaremos para respeitar e dialogar, esperando também ser respeitados». É bom acolhermos este horizonte, também porque ele coloca as pessoas como o verdadeiro centro das opções de consciência, facto que não significa o absoluto privatismo das convicções, mas sim o assumir da relacionalidade (racionalidade tolerante) como princípio fundamental de uma sociedade adulta.
4. Não é pela negativa que se deve ver esta problemática de fundo que toca o sentido da vida, da história e da misteriosa esperança que bota da dignidade única da pessoa humana. No princípio da autêntica liberdade religiosa dos estados – o que é diferente de serem confessionais (felizmente que esses tempos já passaram) ou de serem laicistas (como que querendo apagar com os sentidos profundos da vida das pessoas) –, neste patamar da liberdade e da cooperação em ordem ao bem comum, brota como desafio decisivo a formação: dos que são ateus, a atitude filosófica e existencial da procura incansável de algo mais; dos que professam alguma fé confessional, a premência de uma formação contínua (que supere os vazios pragmáticos e) que dê o sentido da beleza fascinante que é a VIDA… esta que, da profundidade do ser, faz brotar a poesia, a esperança, o sentido inapagável do absoluto de Deus.
5. O enquadramento autêntico da liberdade proporcionará não o silêncio que fecha, mas a abertura dos melhores diálogos sobre a vida, sobre o que somos e a que esperança nos sentimos chamados. É mais esta grandeza, como possibilidade crescente, que brota deste facto; terá de ser a racionalidade razoável a presidir às opções conscientes de cada pessoa no referente às suas âncoras mais profundas. Seja esta frescura dialogal o terreno futuro! Há sempre tanto a aprender uns com os outros!

MANIFESTO DE CAFARNAÚM


A todos quantos este Manifesto virem, saúde e paz!
Eu, Mateus, e meus companheiros cobradores de impostos na região de Cafarnaúm no tempo de Herodes Antipas, estivemos sentados à mesa com Jesus de Nazaré numa refeição de amigos, após ele me ter chamado para seu discípulo.
O meu chamamento aconteceu de forma simples: vi um homem decidido a avançar para mim e aproximar-se do meu posto de cobrança. Senti a profundidade e sedução do seu olhar. Escutei o convite/apelo que me dirigiu: “Segue-me”.
Imediatamente, me levantei e deixei o trabalho. Uma força interior se apoderou de mim, me atraiu e encantou. Fiquei de tal modo “apanhado” que nem sequer fiz perguntas. Nada me preocupava: nem família, nem profissão, nem obediência ao meu chefe nem ao delegado do Imperador. Confiei simplesmente e aventurei-me sem calculismos. A inteligência não entendia, mas o coração dizia-me que aquele convite era uma “caixa” de surpresas para mim. E foi! Posso comprová-lo com abundantes provas que vivi mais tarde.
Atesto, por minha honra, que à mesa todos eram tratados por igual. Na conversa não se perguntava o que fazia cada um nem donde procedia, embora todos soubéssemos que partilhávamos a mesma condição. Constava que este era o modo de proceder de Jesus de Nazaré: mais do que as profissões e as condições de vida, interessava-lhe a pessoa e a sua dignidade, por vezes esquecida e espezinhada. Do seu olhar surgia uma serenidade e compreensão que nos dava alegria e paz. No seu convívio todos nos sentíamos bem, sem medos nem discriminações. Éramos verdadeiramente uma família!
Estar à mesa com Ele foi para nós uma maravilha surpreendente. Pelo que sentimos, pois nunca ninguém nos tinha tratado de modo semelhante: ser considerado digno de ouvir os segredos mais íntimos, alimentar as mesmas aspirações em relação ao futuro, reforçar os laços de união no presente. Pelo que augurava aquele gesto. De facto, era o núcleo mais expressivo do sonho de Deus: sentar todos os humanos à mesa da fraternidade em que Ele possa mostrar o seu amor de Pai na dignidade de cada um. Era o princípio da sociedade nova em que as pessoas têm prioridade absoluta sobre as tradições e as coisas, em que os bens pertencem a todos, antes de serem de cada um, e o bem comum constitui o dinamismo e a meta que dão sentido a tudo quanto se faz e se pretende.
Eu e os meus companheiros ouvimos críticas que nos parecem completamente injustas ou, então, temos de negar a nossa comum humanidade e de considerar ridícula a mensagem que Jesus de Nazaré – o Filho Deus – nos transmitiu como Palavra de Salvação para todos os tempos.
Negar a mensagem, é para nós de todo impossível. Estamos absolutamente convencidos do seu valor a ponto de, sendo preciso, dar a vida em sua defesa. Aceitamos com humildade a crítica que nos é feita e que nos ajuda a viver de modo mais pleno o exemplo de Jesus, o Mestre que nos abre horizontes mais plenos da fraternidade de todos os humanos chamados a reconhecer a sua filiação divina. Protestamos contra os que falseiam os nossos ideais, desvirtuam e ridicularizam as nossas razões e, presos ao passado, não mostram capacidade de entender as “coisas novas” que vão surgindo em relação a Jesus Cristo e à sua mensagem. Anunciamos com alegria criativa e esforço confiante que um dia virá em que a mesa posta para todos não será recusada por ninguém.
Em Cafarnaúm, com Mateus

Georgino Rocha

SCHOENSTATT







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Um jardim de silêncio, de paz e de encontro...
Passei por Schoentatt, na Colónia Agrícola da Gafanha da Nazaré, esta semana. Conheço, há muitos anos, este Movimento Apostólico, fundado em 1914 pelo padre alemão José Kentenich, com o objectivo de criar um homem novo para uma sociedade nova. Confirmei, in loco, mais uma vez, que este recanto, em boa hora vindo para a Diocese de Aveiro, é mesmo um jardim de silêncio, de paz e de encontro. Ali, junto ou dentro do Santuário, onde é bom estar, como desde a primeira hora sonhou o fundador, sentimo-nos libertos das inquietações do dia-a-dia, do que nos bloqueia interiormente, do que nos perturba nas caminhadas da vida.
Olhei o Santuário. À sua volta, como que a abraçá-lo com ternura, há flores e cheiros, objectos e geometrias, símbolos e caminhos que convergem para um altar onde está e espera, por quem chega, o bom Deus. Quem entra, fica, e reza, e conversa sem perturbar quem está, e escuta, e ouve a paz, e aceita a harmonia que tudo invade, e recebe a força que almeja. Cá fora, à saída, os nossos olhos sentem-se atraídos pelo amor e pela sensibilidade dos que cuidam de tudo para que todos se sintam bem, consigo próprios, com Deus e com o mundo.
Um dia destes, se puder, passe por lá. Verá que vale a pena.
FM

Lusodescendentes

"Hoje 12 portugueses ou lusodescendentes vão ser homenageados por Portugal numa cerimónia em Lisboa, transmitida pela televisão. É uma excepção, num país que se esquece vezes demais da enorme comunidade portuguesa que está espalhada pelo mundo. E não devia.
Só uma sociedade que vive de costas para a sua comunidade emigrante pode desconhecer o facto de termos uma portuguesa à frente da Orquestra Sinfónica de Toronto, como é contado na página 18 deste jornal. Mesmo os jornais e restantes órgãos de comunicação social esquecem muitas vezes esta realidade.
Segundo os dados estatísticos, haverá 5,5 milhões de emigrantes portugueses. Isto sem contar com os lusodescendentes. Mesmo sem contar com sentimentalismos, estes são números impressionantes. Já é bom ouvir falar a nossa língua em todo o lado, ou contar com os estratégicos apoios que, por exemplo, os 180 mil portugueses na Suíça dão à selecção nacional, fazendo-a sentir em casa. Mas é mais importante pensar que estes portugueses e lusodescendentes estão em áreas e lugares-chave.
Os portugueses devem começar a pensar na comunidade emigrante como uma grande rede onde se podem agarrar. E isto funciona, por exemplo, no meio universitário e científico, mas também, e sobretudo, nos negócios. Os chineses sabem isso há muito e é assim que se espalham pelo mundo. Já tarda a hora de Portugal o compreender e pôr em prática."
In Editorial do DN

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 81


OS ALUNOS

Caríssima/o:

Com toda a razão alguns perguntarão quando chegam os alunos à sala de aula. Creio ser a hora de os sentarmos, tudo está preparado para os receber.
Aliás, lá para trás ficou um ligeiro apontamento sobre as matrículas; vimos também que o número de escolas foi aumentando, sinal de que o número de alunos subia constantemente. Mais uma vez recorremos à Monografia do Padre Resende que nos apresenta valores supostamente de toda a Gafanha; contudo, lemos que na Nazaré, em 1936, há 411 crianças recenseadas; em 1941, 509, sendo 261 do sexo masculino e 248 do feminino; e em 1942, 515, sendo que a diferença é de mais 9 crianças do sexo masculino.
Aproveitando ainda os números fornecidos pelo Padre Resende, em 1942, os lugares dão-nos o seguinte : Cale da Vila=> 83 M, 80 F, total 163; Cambeia=> 68 M, 69 F, total 137; Chave=> 75 M, 65 F, total 140; Marinha Velha=>41 M, 34 F, total 75.
Podemos agora imaginar a «ginástica» de pais e professores para «arrumar» estes alunos se pensarmos na exiguidade dos espaços postos à sua disposição. Assim, cada um/uma frequentava a escola da sua área, conforme o «canto» onde morasse. Claro que isto, por vezes, não era linear. Os professores conheciam muito bem a população e todas as suas características prevendo, dentro da normalidade, o aproveitamento de determinados alunos. Por outro lado, também os pais e as crianças sabiam com o que contar se lhes calhasse tal ou tal professor/a. No início do ano escolar, desenrolavam-se conversações mais complicadas do que nos actuais hemiciclos ... Envolviam-se mães e professores, e as concessões só eram recebidas com trocas de alunos que compensassem as perdas ou os ganhos. Caso vivi, que me revelou a fibra de uma Mãe: fez várias viagens (claro, todas a pé!...) entre as escolas da Cambeia e da Marinha Velha, falando, argumentando até convencer ambos os professores ...
Os alunos podiam ser divididos em dois grandes grupos: os de pés calçados e os descalços. Do primeiro saíam os que receberiam as distinções e que prosseguiriam os estudos, fazendo exame de admissão. Nem sempre era assim: algumas vezes, as cabeças pregavam partidas à norma; e quando tal se verificava, estava instalado o “estado de sítio” e o professor confrontava-se com um sério quebra-cabeças...

Manuel

sábado, 7 de Junho de 2008

Portugal no topo; Portugal em crise



Faz hoje anos que Portugal e Castela assinaram o Tratado de Tordesilhas. Para os que não sabem o que isso foi, eu adianto que, em 1494, precisamente no dia 7 de Junho, o mundo descoberto ou por descobrir foi entregue a duas potências da época. O apoio para esse acordo veio da Santa Sé, que era, na altura, quem aprovava estas decisões políticas.
O Tratado de Tordesilhas dizia que uma linha traçada, de pólo a pólo, 370 léguas a poente das ilhas de Cabo Verde, definia que, tudo o que ficasse a nascente dessa mesma linha, seria do rei de Portugal e de todos os seus sucessores, para todo o sempre. A outra parte do mundo ficaria para Castela.
Este tratado diz bem da grandeza e do prestígio das duas potências. Portugal deixou há muito o topo do mundo e caiu numa crise que os portugueses saberão ultrapassar. Sem nunca mais, no entanto, poderem aspirar à posição hegemónica que há mais de meio milénio protagonizaram no mundo conhecido ou por conhecer. Pese, embora, muitos ainda sonharem com o 5.º Império.

Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré


"Porque um projecto destes não pode apoiar-se no improviso, quantas vezes deturpador da realidade, alguém propôs que se contactassem pessoas mais velhas, sempre fundamentais a qualquer trabalho do género. Manuel Retinto Ribau (o tio Retinto), Maria do Carmo Ferreira (tia Maria Ruça) e Maria dos Anjos Sarabando (a tia Sarabanda), entre outros, que antes haviam participado num rancho sem grandes preocupações de rigor, foram os primeiros a ensinar o que se cantava e dançava no seu tempo de jovens.No salão paroquial, os encarregados de pôr de pé e no palco as danças dos nossos avós, aqueles convidados foram ouvidos, tendo mesmo exemplificado como se cantava e dançava a “Farrapeira”. Depois avançaram com o “Vira de quatro” e foram essas as duas primeiras peças que hoje, e desde então, começaram a fazer parte do repertório do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, como ex-libris da nossa terra, sobretudo a primeira."
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APONTAMENTOS SOBRE RELAÇÕES IGREJA(S)-ESTADO (3)


Uma loja maçónica promoveu, em Lisboa, num "jantar branco", portanto, também com a presença de "profanos", u