segunda-feira, 31 de março de 2008

Comunicação social sabe, mas não cumpre

Toda a gente na comunicação social sabe que não deve entrevistar uma criança que foi vítima de um pedófilo (como o de Loures), mas entrevista; toda a gente sabe que não deve repetir à exaustão as imagens do vídeo do telemóvel, mas repete; toda a gente sabe que não deve ir para as portas do Carolina Michaelis entrevistar alunos menores sobre o que se passou, mas vai; toda a gente sabe tudo, mas faz de conta que não sabe.
JPP, no Abrupto

Arcebispo de Braga reconduzido na presidência da CEP

D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga, foi reconduzido, hoje, na presidência da Conferência Episcopal Portuguesa para o próximo triénio (2008-2011). A eleição decorreu no início dos trabalhos da 168ª Assembleia Plenária da CEP, que se prolonga até 4 de Abril, em Fátima. Para a vice-presidência foi eleito D. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima.
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Na Linha Da Utopia



Cristiano Ronaldo, o dom e o trabalho


1. A magia de Cristiano Ronaldo vai contagiando o mundo (do futebol). Este passado fim-de-semana o “génio da bola” fez novamente das suas, mais uma vez, surpreendendo não só os adversários dentro do campo mas mesmo o mais leigo espectador (do futebol). Um dom especial, ninguém duvida. Muito trabalho, disciplina de treinos e rigor, já talvez nem tantos assim o saibam. Valerá a pena compreender, como sentido de exigência e espírito de sacrifício e luta, que o que se passa dentro das quatro linhas do futebol terá muitas lições a dar à vida diária, especialmente daqueles que estão na fase da sua primeira formação humana. Quando se pergunta a uma criança ou adolescente o que queres “ser”, na resposta imediata de “jogador de futebol” estará uma ideia de que para o ser quase não é preciso trabalhar, que é só chutar uma bola e marcar golos; e receber toda a admiração popular e os aplausos de reconhecimento. Puro engano, que esconde os sacrifícios necessários para atingir tal patamar de altíssima competição como no triunfo de qualquer atleta.
2. Talvez na sociedade de hoje a ideia fácil de ser jogador de futebol seja das maiores falsidades de que essa “felicidade” heróica se atinge com a maior das “facilidades”. Para que as ilusões se esbatam, mesmo sobre o melhor jogador do mundo da actualidade (há dúvidas?!), Ronaldo não esconde de que só com muito trabalho é que lá se chega. É verdade que o “dom”, a arte e a “magia” também nascem com as estrelas; mas a fatia decisiva do sucesso exige muita disciplina, rigor, método, auto-domínio, sentido de equilíbrio. Que o digam alguns documentários sobre a vida de Cristiano Ronaldo, dos sacrifícios feitos, das horas a fio de treinos mesmo depois dos outros atletas irem embora, as palavras fortes e directas de exigência do treinador, o sentido de camaradagem. Nada se faz sem trabalho, nem um jogador de futebol; e nada se faz sozinho, tudo terá de ser “jogo de equipa”. O Ronaldo brilha na equipa do Manchester; na selecção nacional, quando (ainda) não há equipa, não se pode esperar todos os milagres dos pés dele!
3. Talvez nos tempos actuais, especialmente também diante dos estatutos (permissivos) dos alunos, nas escolas, a “parábola educativa” que pode ser o futebol sublinhará a insistência de que só com trabalho (muito treino) venceremos. Sem “assiduidade”, sem rigor, sem espírito de equipa, sem método (que com toda a criatividade nos surpreenda), seremos o jogador que ao fim de uma corrida cai para o lado. O futebol, como escola de formação, também nos pode iluminar como referencial de exigência educativa. Quando não, a “derrota” será certa. Os treinos de Ronaldo à chuva, ao granizo, ao sol, poderão ser o espírito de luta naquilo que se quer. Com o exacerbar das facilidades não iremos lá! Ficaremos a ver o jogo passar…, a apanhar as bolas que sobram. O segredo serão as pequenas vitórias de cada dia!

Alexandre Cruz

“Parem com isto, deixem os alunos em paz"

:
Concordo... Mas há jornalistas que não desarmam. Serão sádicos ou exigem-lhe isso? Ou serão os consumidores de notícias que precisam de "telenovelas"? Ou serão todos, por não terem mais em que pensar?
FM

OS POBRES ESTÃO PROIBIDOS


"O mundo moderno orgulha-se da sensibilidade social e preocupação com os necessitados. O Governo faz gala nisso. O nosso tempo acaba de conseguir uma grande vitória na vida dos pobres. Não acabou com a miséria. Limitou-se a proibi-la. É que, sabem, a pobreza viola os direitos do consumidor e as regras higiénicas da produção."

Abertura da Barra: 3 de Abril de 1808

Molhe Norte - 1934

A homenagem a Luís Gomes de Carvalho

Tenho por hábito dizer que a sociedade é injusta. Que é uma entidade sem alma, porque esquece, facilmente, os seus maiores. Assim foi, penso eu, com Luís Gomes de Carvalho, que abriu a Barra de Aveiro, há dois séculos, seguindo os planos iniciais do Engenheiro Oudinot, seu sogro. Chegou a ser, inclusive, perseguido e difamado pela obra que realizou, unicamente por razões políticas. Naquele tempo, como hoje, quem não era da “cor” estava sujeito a estas coisas. Luís Gomes de Carvalho foi, na opinião de alguns, um precursor do liberalismo. E todos sabemos como absolutistas e liberais se digladiavam, com ódios de morte.
Houve um poeta, porém, que não se esqueceu de Luís Gomes de Carvalho. Foi ele António Feliciano de Castilho, o poeta cego, romântico, que chegou a viver em Castanheira do Vouga, onde escreveu muitos poemas. Ali se terá inspirado para escrever “O Presbitério da Montanha”.


Arduas fadigas, derramadas somas
Ao Vouga nunca destruir poderão
A barreira que entrada ao mar tolhia;
Em teus dias, Senhor, um génio grande,
(O preceito fôi Teu, e Tua a glória)
As cadeias quebrou que o Ria atávão
………………………..
………………………..
O nome de Oudinot, que o sábio plano
Deo qual déste também, qual desempenhas
Engenhoso Carvalho em nossos dias;
Mas teu grande sabêr a mais se avança.

António Feliciano de Castilho


In “A faustíssima exaltação de S. M. F. o Senhor D. João VI ao trono”
Transcrito por Silvério Rocha e Cunha, Capitão do Porto de Aveiro, na Conferência realizada em 5 de Maio de 1923, na sede da Associação dos Engenheiros Civis Portugueses

NOTA: No excerto do poema, respeitei a ortografia da época. A foto é da "Exposição Histórico-Documental do Porto de Aveiro: Um imperativo Histórico"

HOJE HOUVE BRONCA NA MISSA!


- Sabes, hoje, de manhã, fui à missa e houve uma bronca de todo o tamanho! – afirmou o meu colega e amigo Rodrigues, ao telefone, logo após me ter inteirado do estado de saúde da sua filha mais nova.
- Bronca? Como assim? – perguntei-lhe eu.
- O Padre deu cá uma descasca no pessoal, que nem imaginas! Foi na homilia! – respondeu-me e acrescentou o Rodrigues.
O Rodrigues, aveirense de nascimento, vive e trabalha, por conta própria, há anos a esta parte, perto de Braga.
Também lá, a vida é difícil e o encerramento de empresas de têxteis, calçado, confecções ou produtos electrónicos, tem colocado muita gente no desemprego, havendo situações dramáticas, a nível da sobrevivência diária de muitas famílias.
A Cáritas Diocesana, pelo que ele me disse, tem sido uma das instituições que mais anda no terreno, na busca das melhores soluções e ajudas para estes dramas humanos.
Mas, como tudo na vida, um pólo tem sempre o seu oposto, ou seja, há miséria, de um lado, não admirando que surja a riqueza no outro.
De há três anos para cá, o responsável paroquial tem procurado sensibilizar, sobretudo na Quaresma, aqueles a quem a fortuna sorriu, para terem em conta as dificuldades dos outros irmãos, serem solidários com eles e evitarem todo o tipo de ostentação, que acaba por ferir a dignidade de quem já está fragilizado na sua vida diária.
Esta ostentação surge, ainda com mais vigor, durante a Visita Pascal, e, parte dela, passa-se no interior de umas duas dezenas de moradias (“mais que luxuosas” no dizer do Rodrigues), que abrindo as portas ao anúncio do Ressuscitado, não dispensam, ano após ano, o requinte e os luxos exuberantes – que passam pelos carros, roupas e não só, durante o resto do ano.
Pelo que me disse o Rodrigues, as mesas são autênticas montras de tudo o que há de bom e do melhor, com as mais variadas e caras iguarias que se possam imaginar, em quantidades muito para além do bom senso e das necessidades dos seus proprietários. Fazem-se festas com convidados vindos de fora da freguesia.
Já na Páscoa passada, o pároco fez “ameaças” de que deixava de fazer a Visita Pascal nas casas que não soubessem receber, com respeito, dignidade e humildade, Aquele que deu a vida para nos salvar.
Como se costuma dizer, em bom português, parece que os avisos e os apelos paroquiais entraram por um ouvido e saíram logo pelo outro!
Haverá, aqui, uma provocação gratuita? Será que querem uma Igreja à sua medida e ao seu gosto? Será que desejam algum confronto? Será que desconhecem que Cristo se fez pobre por nós? (cf. 2 Cor 8,9).
Ainda que não seja um caso isolado, infelizmente, é uma das excepções à regra, mas que exige, a meu ver, medidas pastorais serenas, rápidas e firmes, capazes de fazer da paróquia – qualquer paróquia – aquilo que ela é em si mesmo: uma comunidade de fiéis, baptizados, que se reúnem e celebram a doutrina salvífica de Cristo, e praticam a caridade do Senhor em obras boas e fraternas (cf. CIC 2179).
Quanto à questão da “bronca”, na Eucaristia, tive que dizer ao Rodrigues que me parecia que o pároco não teria dado “bronca” nenhuma, durante a homilia.
- Se houve “bronca” – no sentido de censura ou repreensão evangélica (cf. Mc 16,14; 1,25; 8,33 ou Lc 9,55) – ela foi dada pelo próprio Cristo. – afirmei eu ao Rodrigues – que logo retorquiu: - Mas foi o Padre que falou! Percebendo que o meu Amigo estava confuso, e para ser o mais preciso e conciso, fui à estante buscar o livro “Missa”, do Cardeal Jean-Marie Lustiger, que se tornou participante no nosso diálogo telefónico.
Afinal, o Rodrigues, até aí, ainda não tinha entendido que, quando o celebrante entra na Assembleia de fiéis, Cristo se torna presente na sua pessoa (cf. pag. 48).
Agora, do que ele mais gostou de ouvir foi que a homilia “é verdadeiramente uma acção de Cristo que, pela boca do Padre, torna presente a sua Palavra” (cf. pag 95 e 96).
Decerto que vou ter novas oportunidades de falar com o Rodrigues e, quem sabe, se, até lá, numa outra Assembleia Eucarística, presidida por um qualquer sacerdote, não pode surgir uma outra “bronca evangélica”.
Como em tudo, também na vida da Igreja, o importante é que “aquele que tiver ouvidos, oiça” (cf. Mt 13,9).

Vítor Amorim

domingo, 30 de março de 2008

Na Linha Da Utopia



FACILITAÇÃO LEGAL,
ESPELHO DE “VAZIOS”?

1. No discernimento apurado sobre o valor das leis, chegaremos à conclusão de que elas terão de assumir a matriz da dignidade da pessoa humana em sentido de comunidade, não se devendo diluir a lei meramente nos hábitos e costumes sociais, como se o que contasse fosse sempre a maioria, bastando haver, mesmo para a pior das decisões, 50% mais um. As fronteiras são, naturalmente, delicadas; mas uma função pedagógica, social e ética, das leis sempre foi um referencial em ordem ao progresso humano das sociedades. Mal vai quando, simplesmente, a lei naquilo que pode ser considerado de humanamente importante, já perdeu o seu estímulo e, resignadamente, ajusta-se aos hábitos da facilitação de tudo e dos próprios valores relacionais. Que se poderá dizer ou que sentir diante de leis que parece que visam o contrário do “espírito” dignificante pressuposto da “Lei”? Se uma lei é feita com a finalidade de baixar a fasquia ou gerar permissividades, vindo legitimar formas de vida e acção não conforme os considerados valores universais, que se poderá considerar?
2. Muito acima da casuística de cada situação, as sociedades que ergueram a «liberdade» como referencial colectivo vão ditando formas legais que atingem a «liberdade dos outros». O esboço e a ideia que caminha para a total facilitação legal do divórcio, será já espelho do valor que se dá às relações humanas e nestas à própria conjugalidade? Muito acima de quaisquer questões filosóficas, políticas ou religiosas, pois é uma questão humana e social que está em causa, que considerar quando se procura afastar cabalmente a «razão» e as «razões» da separação do casal? Mesmo em situações complexas e apesar dos sofrimentos e dramas da vida em que o “mal menor” será a separação, não será que, pela ausência de sentido de “verdade” e justiça, se está a esvaziar a ética da própria lei a aprovar? As perguntas podem não acabar…
3. Já há pessoas e analistas sociais que, pelas ideias que movem este perfil de legislação agora em caminho, vão fazendo a caricatura da banalização e do oportunismo que daqui poderá advir. Saberão os promotores ou defensores no parlamento do “divórcio já” tudo o que está em causa e os sinais que vão dando à sociedade? Afinal, que concepção de família, que ideais de pertença e que relações humanas, norteia o que se procura facilitar? Quem diria, onde chegámos nas nossas sociedades: aqueles que efectivamente amam a raiz da vida, ter-se de gastar energias a proteger a comunidade primeira, a família. E agora numa quase bipolarização estratégica e mediática, entre os que são chamados de “conservadores” porque defendem a família e os seus valores essenciais, e os que, no “deixa andar” mais cómodo e prático, facilitador, vão fazendo prevalecer uma liberdade na superficialidade, já sem a responsabilidade. A par dito mesmo diz-se que estamos na “Era do Vazio” e que depois as escolas manifestam uma dificuldade em gerar ambientes relacionais dóceis! Tudo está ligado… Cada vez mais, é na simplicidade todos os dias que fazemos as grandes opções; nestas a concepção de família é hoje uma opção e um valor essencial e inalienável. Ou (já) não será? Perguntar é procurar.

Alexandre Cruz

PARTIDO SOCIALISTA CONTRA A IGREJA CATÓLICA?


Igreja pede a Sócrates que controle
laicismo de alguns membros do PS

Quando D. Carlos de Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, afirma que “Há forças dentro do Governo que têm uma postura de ataque à Igreja Católica”, tem razão. E acrescenta, com inegável oportunidade, que “falta, da parte do primeiro-ministro, uma vigilância coordenadora de actos e medidas avulsas que ferem e atingem quem anda há muito a servir a população”.
Por aquilo que tenho visto, dá a impressão que o PS está agora dominado por uns tantos anticatólicos, ao jeito da primeira república, quando alguns políticos garantiam que acabariam com a religião a curto prazo.
O PS, quando tinha como líderes homens da craveira intelectual e humanista de um Mário Soares e de um católico como António Guterres, nunca ousou, que me lembre, afrontar a Igreja Católica. José Sócrates, prudente em muitos casos, deixa-se ir a reboque dos que consideram a Igreja Católica como uma instituição decadente e com lugar marcado em qualquer museu da história.
Os políticos da primeira República, que perseguiram e humilharam os católicos, não conseguiram acabar com a religião. Agora, em democracia, não serão os políticos actuais que conseguirão levar a cabo os intentos dos anticatólicos de há um século.
Cá para mim, venham as leis que vierem, mesmo as que o primeiro-ministro considera como conquista civilizacional, como foi o caso da lei que liberalizou o aborto, o catolicismo prevalecerá.
Os ataques à Igreja Católica, que são ataques aos católicos, só servirão para mais os unir na defesa dos seus valores, que são os valores da nossa civilização. Portanto, como católico, cá estarei em luta por aquilo em que acredito. Venham as leis que vierem...

FM
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Região de Aveiro: Costa Marinha







Há mil anos, como seria a zona costeira a que estamos ligados? Bem diferente, naturalmente. Haverá, com certeza, quem não faça uma simples ideia do que isto era, por aqui, à volta da Gafanha da Nazaré. Vejam, então, com olhos bem abertos, como era. Talvez, então, possam acreditar que toda esta região lagunar, afinal, se foi oferta da Natureza, também nasceu e cresceu graças à tenacidade de muita gente. E ainda poderei acrescentar que este rincão se deve, empregando palavras de Churchill, ao sangue, suor e lágrimas por aqui derramados.
Nota: Mapas publicados no Boletim Cultural da Gafanha da Nazaré, n.º 2, integrados em trabalho de Monsenhor João Gaspar sobre Formação da Ria e Povoamento da Região de Aveiro.

Gafanha da Nazaré: Filha do Porto de Aveiro


Escrevi há anos que a Gafanha da Nazaré é filha do Porto. Direi hoje, com mais realismo, que ela é filha da Barra de Aveiro, aberta em 3 de Abril de 1808. E poderei acrescentar que, sem a abertura da Barra, toda a região, e não apenas as terras que lhe estão próximas, lucrou e lucra com a entrada e saída de navios, e também com a sua estadia entre nós.
A abertura da Barra e os Portos (Comercial, Industrial e de Pesca Costeira e Longínqua) deram e continuam a dar outra vida à região. Todo o País, logicamente, disso beneficia. Por isso, celebrar esta data torna-se obrigação de todos. Porém, se nem todos puderem participar nas cerimónias ou usufruir das várias ofertas do programa, ao menos sintam e digam, de forma próxima ou mais alargada, que a abertura da Barra e a instalação dos Portos foram uma mais-valia que os homens de há dois séculos souberam oferecer-nos.

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 71


JÁ ... JÁ ... JÁ LÁ VEM!...

Caríssima/o:

Vimos que os edifícios onde funcionavam as Escolas eram alugados e todos com carências estruturais notórias, pois que se tratava de casas pensadas para habitação ou de simples barracões.
Para além disso, o quadro de pessoal era constituído pelo/a professor/a e pelos alunos/as – todas as tarefas passavam pela iniciativa daquele/a e pela colaboração destes/as: desde a abertura da porta da rua até à limpeza e asseio da sala de aula, sem esquecer o bater da esponja do quadro, a obtenção do giz (quantas vezes do estuque de prédios velhos em demolição!...) ou a confecção da tinta para escrever (a célebre solução de azul de metileno)...

A pé ou de bicicleta, o Professor/a chegava, abria a porta e dava início às actividades, muitas vezes com a entoação do Hino Nacional. Ora a sua chegada era sempre um momento de certa expectativa para os alunos e notava-se o respeito na formatura que, ainda na rua e mais ou menos instintivamente, se alinhava ao longo da fachada.
Uma Escola havia em que, quando o Professor era avistado ao longe, o primeiro aluno que o vislumbrava lançava para o ar a cantilena:
- Já... Já... Já lá vem!
As brincadeiras iam cessando e o coro aumentava:
- Já... Já... Já lá vem!
Agora, todos alinhados, era a plenos pulmões que se anunciava ao burgo:
- Já... Já... Já lá vem!

Ora, certa manhã, o Professor meteu a chave na fechadura... e não a conseguiu rodar!
Silêncio!
Nova tentativa. Nada.
Foi dada ordem para que todos regressassem a suas casas.
Era lá possível que alguém se tenha atrevido a introduzir pedritas na fechadura?! E qual a motivação para a “brincadeira”? Feriado? Revolta de algum aluno injustiçado?
Ainda hoje o “processo“está aberto!...

[Perpassou na “aragem” que a obra teve a mão de alguém que, desesperado por não poder brincar com o seu “amigo”, um vitelinho recém-nascido, usou este estratagema!...? Verdade...mentira? Aí fica como nova pista...]


Manuel

sábado, 29 de março de 2008

Barra de Aveiro foi aberta há dois séculos


NAVIO QUE ENTRA E NAVIO QUE SAI
O que agora parece fácil já foi difícil. Há precisamente dois séculos, os navios não entravam na laguma aveirense com a mesma facilidade com que o fazem nos dias de hoje. Dois séculos é muito tempo. E desde então, a Barra de Aveiro passou por inúmeras transformações, que foram, muitas delas, grandes melhoramentos. A região saiu enriquecida com a abertura da Barra, o que aconteceu no dia 3 de Abril de 1808. Inês Amorim escreveu um livro - "Porto de Aveiro: Entre a Terra e o Mar"-, que mostrará toda a história do nascimento e crescimento da Barra de Aveiro, ao longo dos últimos 200 anos. Sobre as celebrações que vão decorrer no próximo dia 3 de Abril, direi algum coisa durante estes dias.

NOVA LISTA DE PECADOS PELO VATICANO?


Quem frequentou a catequese lembrar-se-á, ainda que vagamente, dos sete pecados capitais: soberba, inveja, gula, luxúria, ira, avareza, preguiça. Estes são os sete pecados capitais da tradição, a partir de uma lista do Papa Gregório Magno no século VI.
Durante as festas pascais, não houve jornal, rádio ou televisão que não tenha referido uma nova lista a juntar à antiga. Devo confessar que esse interesse me causou algum espanto, tendo mesmo sido tentado a pensar que poderia haver quem subtilmente, lá no íntimo, imaginasse que talvez o Vaticano tivesse descoberto alguma nova oportunidade interessante para transgredir e pecar. Ah, aquele pedido: Oh God, make me good, but not yet!
Tratou-se de um equívoco, pois o Vaticano não publicou propriamente um decreto com uma nova lista de pecados capitais. Mas, por outro lado, na base do alarido, está uma chamada de atenção para questões complexas e graves que não podem de modo nenhum passar despercebidas.
O que é que se passou na realidade?
O Osservatore Romano, jornal oficioso do Vaticano, publicou, no passado dia 9 de Março, uma peça do jornalista Nicola Gori, com o título "As Novas Formas do Pecado Social", a partir de uma entrevista com mons. Gianfranco Girotti, bispo do tribunal da Penitenciária Apostólica, organismo da Santa Sé.
Nicola Gori perguntou ao bispo quais eram os novos pecados em tempos de globalização. Mons. Girotti, depois de lembrar que o pecado "é sempre a violação da aliança com Deus e os irmãos", respondeu que há várias áreas dentro das quais deparamos hoje com atitudes pecaminosas referentes aos direitos individuais e sociais.
E enumerou-as: "Antes de mais, a área da bioética, dentro da qual não podemos não denunciar algumas violações dos direitos fundamentais da natureza humana, através de experiências, manipulações genéticas, cujos êxitos são difíceis de vislumbrar e ter sob controlo. Outra área, propriamente social, é a área da droga, com a qual a psique enfraquece e se obscurece a inteligência, deixando muitos jovens fora do circuito eclesial. Mais: a área das desigualdades sociais e económicas, nas quais os mais pobres se tornam cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos, alimentando uma injustiça social insustentável. E a área da ecologia, que reveste actualmente um interesse relevante."
Foi a partir daqui que houve quem pretendesse poder elaborar uma lista de novos sete pecados capitais, segundo esta denominação ou semelhante: as violações genéticas; as experiências moralmente discutíveis, como a investigação em células estaminais embrionárias; a toxicodependência; a contaminação do meio ambiente; contribuir para cavar mais fundo o abismo entre os ricos e os pobres; a riqueza excessiva; gerar pobreza.
Embora a lista não exista enquanto tal, é necessário reconhecer que se não pode de modo nenhum ignorar que estas quatro áreas - a área biológica, com as violações genéticas; a área ecológica, com a poluição ambiental; a área da droga, com o risco da toxicodependência; a área das desigualdades sociais, com desequilíbrios socioeconómicos que bradam aos céus - são domínios nos quais existe o perigo real de ferir gravemente a dignidade humana e, nesse sentido, para os crentes, violar a aliança com Deus, pecando.
O que é, de facto, o pecado? Mais uma vez, segundo o catecismo, é a transgressão voluntária da Lei de Deus. Mas, aqui, é preciso perguntar: algo é bom porque Deus o manda ou Deus manda-o porque é bom para o ser humano? Algo é mau porque Deus o proíbe ou proíbe-o porque é mau para o ser humano?
O crente reflexivo sabe da autonomia moral e, assim, sabe que só é proibido por Deus o que prejudica o ser humano e só é mandado o que o dignifica e engrandece. O critério dos mandamentos de Deus é o Homem vivo e a sua realização.
Assim, no quadro da ética do cuidado e do princípio da precaução, quem não verá a urgência de reflectir sobre novas situações pecaminosas, como violações genéticas, poluição ecológica, toxicodependência, um mundo estruturalmente injusto?

Anselmo Borges

sexta-feira, 28 de março de 2008

Discriminação Racial

Ciganos a caminho

Termina hoje a Semana de Solidariedade com os Povos em luta contra o Racismo e a Discriminação Racial. Passou a semana sem que déssemos conta dela voltada para esta temática. E no entanto, ninguém de bom senso nega a pertinência do assunto.
Penso, contudo, que essa solidariedade não pode circunscrever-se a uma semana, das 52 que tem o ano. A luta, actuante e firme, tem de ser durante todos os dias do ano e de todos os anos. O racismo não é doença morta. O racismo é de todos os tempos e de todos os povos e raças. Uns mais do que outros, é certo. Ligado a ele está a discriminação social, que humilha quem é diferente, na cor da pele, na religião, na etnia, na nacionalidade…
Ao contrário do que muita gente supõe, há entre nós, portugueses, quem seja racista e xenófobo. Quantas vezes tenho ouvido e sentido palavras e gestos desses comportamentos de gente normal. Gente que fala comigo e que se mostra, até, cheia de razão. Isto significa que, no dia-a-dia, haverá sempre motivos para nos solidarizarmos com quem sofre a discriminação racial.

FM

GAFANHA DA NAZARÉ - Centro Cultural vai entrar em obras


Por iniciativa da Câmara de Ílhavo, o Centro Cultural da Gafanha da Nazaré vai entrar em obras, ainda este ano, como anunciou a Rádio Terra Nova. Esta obra insere-se num projecto mais alargado daquela autarquia, que visa dotar o concelho de mais e melhores equipamentos culturais. Espera-se, agora, que os arquitectos e outros técnicos sejam mais felizes na concepção de um espaço que proporcione um mais amplo conjunto de actividades culturais, oferendo funcionalidades e comodidades a quem o frequenta.

A ÁRVORE E A FLORESTA



Sem qualquer suporte científico, verifico que, quando alguém procede à leitura de um jornal ou revista, tem uma curiosidade, quase inata, em procurar as “frases do dia”, da “semana”, ou do “mês”, que mais não são do que uma pequeníssima parte retirada de um assunto mais amplo, vasto e profundo.
Porém, não vejo, nestes comportamentos (nem a tal me atreveria), qualquer aspecto mais ou menos positivo que possa prejudicar ou ajudar, séria e eficazmente, quem tem este costume de leituras. Creio é que é preciso ir mais longe!
Não deixa, no entanto, de ser um hábito e, provavelmente, uma necessidade para muitos leitores, funcionando como um bálsamo e um revigorador espiritual, cujo efeito é o da pessoa sentir que não está só no mundo – num mundo em que todos os assuntos podem fazer parte das ditas frases – e em que há sempre alguém que está com ela, que a compreende e conforta, mesmo não a conhecendo.
Procura-se, mesmo, decorar aquela(s) frase(s) que mais nos aconchegam, para as transmitir, o mais fiel possível, aos outros. Tudo soa a boa nova: os diagnósticos, finalmente, foram feitos e as soluções, para muitos problemas, já foram encontradas.
Quase tudo é possível lá caber, pelo que, cada frase, parece ter sido feita mesmo à medida das necessidades de quem a lê.
Todas as nossas críticas, desejos, insatisfações, expectativas, e provavelmente muito mais, estão lá! Parece haver algo mágico em tudo isto!
Assim, não é de admirar que surjam, através destas leituras, sentimentos, mais ou menos generalizados, em alguns leitores, de que alguém já encontrou a fonte milagrosa da cura, a panaceia para todas as dificuldades e – muito melhor, se tal for possível – alguém já é capaz de ser o centro de um unanimismo sagrado, capaz de resolver, de uma vez por todas, os males que possam afectar e afligir a vida de cada um.
Bem sei que pode haver alguma dimensão caricatural nestas palavras, mas também reconheço que a verdade possível de cada realidade vai, e tem mesmo que ir muito, para além de frases ou fórmulas feitas, sejam elas do “dia”, da “semana” ou do “mês”.
Se assim não for, tem-se o caminho aberto para a cultura da demagogia, das promessas fáceis e para a manipulação pessoal e colectiva, ainda que possa não ser essa a intenção do ou dos seus autores.
O sentido crítico da pessoa tende a desaparecer, e nada mais se questiona, pelo que a intolerância instala-se, sem se dar por isso. Já não é preciso acreditar em mais nada!
Claro que não se trata de pôr tudo em dúvida, (era o que mais faltava) muito menos de querer (como se eu tivesse algum poder para tal) em contribuir para uma sociedade paralisante e asfixiante.
Trata-se, isso sim, de lembrar que é preciso, é mesmo muito urgente e necessário, ir para além das palavras enlatadas, que nos tendem a servir, com a melhor das intenções.
Assim como a crítica, as divergências de opinião, os confrontos de ideias, sérios e leais, entre outros exemplos, fazem parte, integrante e indispensável, da continua construção de uma cidadania de verdade, com direitos e deveres para todos, lembro o que Fernando Pessoa escreveu: “O mundo, à falta de verdades, está cheio de opiniões.”
Na sua sabedoria proverbial e ancestral, o povo diz que “de boas intenções está o inferno cheio”. Desejo, humildemente, dizer a este mesmo povo que, ao continuar a ler as tais frases “emolduradas”, não se esqueça que é mais fácil dar uma opinião do que procurar o bem e a verdade, em nome de todos, numa atitude de compromisso assumido e transparente.
Vítor Amorim

MOVIMENTO ESPERANÇA PORTUGAL


Ângelo Ferreira, responsável distrital pelo novo Movimento Esperança Portugal:
«Há clubismo na defesa dos partidos»

O partido que vier a ser criado com base no Movimento Esperança Portugal (MEP), recentemente constituído, poderá vir a concorrer às próximas eleições autárquicas em Aveiro. Em entrevista ao Diário de Aveiro e Aveiro FM, Ângelo Ferreira, um dos fundadores do MEP, adiantou que não exclui a hipótese de o grupo avançar com uma candidatura. «A situação política no seu todo não parece mobilizar muito as pessoas, os melhores recursos, as melhores disponibilidades, as melhores capacidades», diz o ex-presidente da Associação Académica da Universidade de Aveiro, de 38 anos, prometendo um novo discurso político feito por «cidadãos comuns» e não por «estrelas ou vultos conhecidos»
Pode ler a entrevista no Diário de Aveiro de hoje

quinta-feira, 27 de março de 2008

Lição de Dalai Lama


O líder espiritual do Tibete, Dalai Lama, já se manifestou contra o boicote aos Jogos Olímpicos, que vão decorrer em Pequim, na China, ainda este ano. E sobre o seu país, defende a autonomia democrática dentro da grande China.
Como pacifista, não podia aceitar nem seguir outra posição que não seja o diálogo, que a China rejeita. Como rejeita a liberdade, os direitos humanos e a democracia. Porque a guerra nunca leva a parte nenhuma, pode ser que os Jogos Olímpicos, com a mediatização que eles proporcionam e com o exemplo de fraternidade que estimulam, levem os dirigentes chineses a abrir as portas aos valores seguidos pelos homens e mulheres livres. Entretanto, Dalai Lama não desarma, ensinando que a paz se constrói com a paz. Da guerra só sabemos e bem que deixa marcas que o tempo nunca apagará.
FM

A Bíblia: entre culto e cultura



OUSAMOS SABER

Qual o livro bíblico que escolheria e porquê?

Armando Silva Carvalho, Poeta: O Livro de Job. Por razões muito pessoais da minha vida. Sobretudo isso. Sempre que o leio, Job ajuda-me a encontrar uma possibilidade de resistir.
Assunção Cristas, Professora Universitária: Escolheria o Livro dos Salmos, porque é poesia na Bíblia, na Revelação, e eu gosto disso. Porque está ligada à oração de Jesus e permite-nos partilhar a oração que foi a Dele.
Leia mais em "Observatório"

AVEIRO: Jornada Interdiocesana de Reflexão sobre a Prostituição

PRESSÃO CÍVICA PARA CORRIGIR OS PREÇOS

Está decidido que o IVA vai baixar, em Julho, 1%. Esquecendo a contradição do primeiro-ministro, porque não há ninguém que não se engane, vamos admitir que é muito boa esta descida. Será? Para já, não vai incidir sobre o que mais mexe com a bolsa do consumidor: o que se come no dia-a-dia. Depois, no meio de tantas subidas, em Julho, ninguém vai dar pela descida. E nada, tenho cá um palpite, vai passar a custar menos. Dou mesmo um doce a quem me provar o contrário. As empresas, essas sim, fazendo-se esquecidas, talvez acabem por ganhar uns euritos. E de eurito em eurito enche a galinha o papo. Estarei enganado? Contudo, segundo o Público, “O ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, avisou hoje que serão reforçados os mecanismos de vigilância para que a descida do IVA tenha consequências benéficas junto dos consumidores, mas apelou também à pressão cívica para que os preços sejam corrigidos”. Cá para mim, se a ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica) se meter no assunto, com a eficiência com que tem trabalhado, talvez os consumidores venham a beneficiar. A ver vamos, como diz o cego.
FM

Na Linha Da Utopia


GERAÇÃO SUSPENSA?

1. São diversificadas as atribuições aplicadas às novas gerações. Desde os anos 60 (Maio de 68), com o emergir da «juventude» como grupo social, uma multiplicidade de nomenclaturas, umas mais felizes que outras, procuram na actualidade de cada tempo compreender as mentalidades mais jovens. Habitualmente essas atribuições trazem consigo um sabor a injustiça, mas também um pouco de verdade. Injustiça porque a geração que se dá ao luxo de qualificar os vindouros é a geração que lhe está todos os dias a dar (ou não dar) a formação cultural, os desejados valores referenciais e educativos para uma vida repleta de dignidade e autêntica liberdade responsável. Um pouco de verdade, pois, muito acima da “vitimização” sempre mais cómoda (de que as causas de todos os males vêm de trás…), haverá que olhar “olhos nos olhos” das juventudes contemporâneas e gerar climas de absoluta co-responsabilidade sócio-educativa, cívica, dignificante e mesmo ecológica, no esforço de todos, comunidade, caminharmos no aperfeiçoamento daquilo que está aquém do ideal (hoje) ético global.
2. Quem não se lembra do debate levantado há anos quando, diante de manifestações estudantis ao rubro, Vicente Jorge Silva, do então jornal Público, lançou o polémico epíteto «Geração rasca»? Do mesmo modo não podemos ser indiferentes à recente qualificação «Geração em saldo» da revista Visão, referindo-se nomeadamente às dezenas milhares de jovens licenciados que vivem precariamente, no desemprego, ou, quando muito, a recibos verdes. A par de todas estas realidades dolorosas, assistimos a um certo “beco sem saída”, ou melhor, em que a saída é mesmo “sair”, até de Portugal, num novo êxodo de emigração para os mais próximos países europeus ou para países de língua portuguesa. Falta-nos mais sermos cá dentro a energia que temos lá fora! Ainda, hoje, é uma multidão incontável de casais novos (e muita da geração dos 30 anos) que vive “às custas” de seus pais ou fazem dos avós os verdadeiros pais (quando há trabalho) num desenraizamento crescente da essencial ligação paterna.
3. Tempos de profunda transformação, onde, a par do domínio excelente e inédito das tecnologias e de múltiplos conhecimentos, as novas gerações vão reaprendendo todos os dias a conviver com o drama e a ansiedade da incerteza quanto a quase-tudo: incerteza no trabalho, nos juros bancários, no aumento dos preços (de bens tão básicos como pão, leite, combustíveis, água), na própria vida afectiva e conjugal onde, infelizmente, os chamados “valores da família” foram quase retirados para a periferia. Vermos muita da gente das novas gerações a viver a incerteza e o desencanto desta fronteira faz com que o próprio futuro apareça como que “suspenso”… Talvez no meio de todas as incertezas e instabilidades o tempo actual precise mesmo do regresso à comunidade primordial dos afectos, a família. Esta pode ser garantia de serenidade, conforto e paz, mesmo nas turbulências da vida. Mas haverá vontade de enfrentar, problematizar e reflectir estas questões? Qual o lugar dos referenciais modelo, para termos onde “pousar”? Ou estamos mesmo a transferir tudo para uma subjectividade do “cada um é que sabe”, conduzindo a história, o pensamento e a acção, como se fôssemos «gerações indiferentes»? Será esta a qualificação do nosso presente daqui a meio século? A inquietude é sempre dos passos decisivos ao brotar da nova consciência de pertença.

Alexandre Cruz

ÉTICA NOS NEGÓCIOS

“Todos os homens têm direito ao pão para a boca e à verdade para o espírito”

Vitorino Nemésio

Utopia ou Cidadania?

Não sendo economista e não podendo recorrer a Jesus Cristo, que, no dizer de Fernando Pessoa, “não sabia nada de finanças”, apelei à minha memória e recordei-me de uma entrevista que o Presidente da Galp, Eng.º Ferreira de Oliveira, deu, no dia 17 de Janeiro de 2008, à jornalista da RTP1, Judite de Sousa, no programa “Grande Entrevista”.
O Eng.º Ferreira de Oliveira é considerado um dos maiores especialistas nacionais na área das energias, designadamente no sector petrolífero, pelo que as suas palavras não têm um significado nem uma dimensão quaisquer. Bem pelo contrário.
Na entrevista, Judite de Sousa coloca ao Eng.º Ferreira de Oliveira a seguinte questão: “O que determina que o preço do barril de petróleo tenha atingido, nas últimas semanas, os 100 dólares? Há razões para isso?”
A resposta foi imediata: “…no substancial, nada determina um preço a esse nível. Era possível à indústria petrolífera, como um todo, estar a pôr no mercado o petróleo a 40 ou 50 dólares!”, para logo acrescentar:”“Se eu tivesse que fazer uma projecção, diria que, em 2008, vamos ter o preço do petróleo a cair para os 70 ou 75 dólares o barril!” (sic).
Estamos, é certo, em finais de Março, mas infelizmente, até agora, as suas projecções ainda não se concretizaram (ontem, dia 26, o petróleo chegou, em Londres, aos 103,32 dólares o barril) e os “porquês” que daqui imergem são vários e pertinentes.
Terão sido afirmações levianas, precipitadas, demasiadamente optimistas ou foi ignorado algum aspecto importante capaz, só por si, de condicionar o preço do chamado “ouro-negro”?
Desde os impostos, aos custos de produção, transportes, prémios de seguro de risco, passando pelas instabilidades políticas e conflitos armados, que surgem um pouco por todo o mundo, nada ficou de fora, para aquele cálculo, mas, mesmo assim, o preço não dá sinais de descer.
Resta-me, pois, concluir que, neste tipo de negócio, para não falar já de outros, a realidade estará sempre a ser ultrapassada por decisões enigmáticas e por interesses obscuros, onde prevalece a especulação e a corrupção sem rosto, sem pátria e sem fronteiras.
Alguns estudiosos árabes já referem que o negócio do petróleo se está a transformar, cada vez mais, numa “maldição para os próprios países árabes”, devido aos elevados níveis de corrupção e de especulação que tem gerado à sua volta. Ainda por cima, referem que, em muitos países produtores de petróleo, o seu “desenvolvimento é superficial e artificial”, podendo vir a traduzir-se em custos elevados, daqui a alguns anos, para todo o mundo, nomeadamente o mundo Ocidental, que irá ter que os ajudar!
Podem até as projecções do Presidente da Galp concretizarem-se, mas elas já são um indicador claro que a realidade, neste negócio, é a que alguns querem que ela seja num dado momento e a verdade é uma ilusão que se vende na base da mentira, da injustiça e da manipulação.
No meio de todos estes interesses “subterrâneos”, está o cidadão comum que, como eu, vai vendo que ninguém tem capacidade para o esclarecer, minimamente, dos “porquês” deste negócio. Será possível a alguém ser feliz quando só lhe resta pagar e calar?
Como é possível acreditar, assim, num mundo concorrencial, é certo, mas também mais livre e justo?

Vítor Amorim

quarta-feira, 26 de março de 2008

IVA desce 1%

Ontem, uma boa nova do Governo garantia que a crise orçamental estava ultrapassada. A nova encontrou eco aqui, o que me levou a recordar que talvez agora não fosse necessário apertar tanto o cinto. E acrescentei que ficaria à espera de que isso se reflectisse na bolsa dos mais desfavorecidos. Admiti, então, que daqui a uns tempos haveria uma descida estratégica dos impostos, talvez nas vésperas das eleições legislativas, como é normal. O Governo, contudo, prometeu hoje que o IVA iria descer 1%, lá para Julho. O mesmo Governo que há dias jurou que era “leviano e irresponsável" falar em baixar impostos, face ao estado das finanças públicas. Criticava, por esta forma, a proposta do líder do PSD, Luís Filipe Menezes, da necessidade de baixar os impostos. Confesso que fiquei baralhado. E ainda me não recompus!

Na Linha Da Utopia



QUANDO NÃO SE DEVE REPETIR…

1. Sabemos todos das fronteiras da sociedade da informação. Implacável nos seus efeitos modeladores da vida pessoal e social. Com imensas virtudes e potencialidades, mas com contra-valores que por vezes desdizem a sua própria missão. Criam deuses e derrubam regimes; abrem novas vias de sociedade plural mas, mesmo em contextos de liberdade de informação, é ténue e delicada a “linha” entre o que é legalmente permitido e o que eticamente obriga ao discernimento e à contenção. O caso repetido continuamente nas notícias da “corajosa” estudante de telemóvel na sala de aula e da “temerária” e esmagada professora subjugada pela turma ridente, é uma das imagens que merecia um crivo pedagógico, não que viesse de fora como imposição mas fazendo parte da própria função socioeducativa das comunicações sociais. É naturalmente difícil esse consenso em apostarmos todos naquilo que, sem escamotear verdades inconvenientes, pode melhor criar formas de ser e estar em comunidade. Ninguém sabe os impactos (subjectivos) nestes dias das imagens de deseducação escolar; mas ninguém duvida que elas acabam por ser mais uma “acha” para um quadro de referência social e educativo já bem ateado.
2. As repetições sensacionalistas até ao excesso têm efeitos generalizantes e geram consequências contraditórias com o que se quer transmitir. As necessárias éticas da informação e comunicação, no meio das suas sempre ténues fronteiras de uma área concorrencial ao limite, não se podem deixar seduzir com o que o povo gosta ou com o que facilmente tem auditório. Tantas vezes, como neste caso da violência na escola, ao denunciar os males existentes acaba-se por divulgar e multiplicar esse mesmo mal. É uma pergunta delicada mas, pelas dificuldades do diálogo de gerações e numa certa indiferença dos valores onde “tanto faz” quem respeita quem, quantos estudantes da idade turbulenta vão despertando exacerbadamente para os seus direitos (de “passar de ano”) esquecendo-se dos seus deveres de pessoa, aluno, cidadão… Nesta cadeia de relacionamentos, o elo mais fraco tem merecido novamente uma exposição desmesurada e desautorizante: a professora/os professores; enquanto que o recriado sentido corporativo dos alunos vai abrindo os olhos para os seus “galões” da liberdade interminável de que são a razão de ser da escola.
3. Ainda assim esta sedutora casuística, não é verdade que este seja o quadro generalizado das escolas, e o pior que pode acontecer é a repetição caótica do mesmo “caso” que dá a sensação de estar tudo perdido. Neste contexto, também como actor da “cidade educadora”, as comunicações sociais, sendo-lhes permitido, como “ética” nem sempre devem repetir e repetir tudo o que conhecem. Ou já não há margem para isto, e o que conta é o que se quer fazer passar, esquecendo-se e promovendo deformação que se critica?

Alexandre Cruz

PASSAGEM




Nada mais lógico do que a grande festa cristã ser a festa da Passagem. Esta é a marca da nossa existência, uma passagem, em que aquilo que importa é não esquecer que não se fica indefinidamente no mesmo lugar, por mais que o homem sonhe com elixires da imortalidade.
Tomámos este ritmo da Natureza, a mesma que com as suas estações e ciclos lunares marca o calendário das celebrações pascais, este ano mais cedo do que algum de nós irá um dia voltar a ver.
Aprender que o mais importante é passar e não ficar é uma lição dura, que nem sempre estamos dispostos a receber. Percebemo-lo nos mais variados campos, da política à economia, do desporto à religião: é grande a tentação de pensar que não há um fim para o tempo em que se está, como se a vida não fosse, acima de tudo, tempo que passa. E depressa.
Páscoa é, afinal, o condensar da nossa existência: chegar e partir, sempre de novo, num percurso que, para a fé, leva o ser humano rumo ao esplendor da luz que não se apaga.
Inevitavelmente, a Páscoa recorda o núcleo da fé cristã: Cristo morreu e ressuscitou. Uma passagem singular, que marcou a história da humanidade, e que a Igreja apresenta a cada um como o seu caminho, o sentido da existência. Mais do que procurar elaborações complicadas do seu quadro de convicções ou de, supostamente, elaborar listas com novos pecados, procura, com a preparação e a celebração da festa da passagem, centrar-se no que é essencial sobre a vida do homem e sobre a eternidade.
A preocupação com o essencial, a transmissão da fé, foi também a marca do último triénio de trabalho da Conferência Episcopal Portuguesa, que agora chega ao fim. Os novos caminhos, com a preocupação de adaptação aos tempos actuais, respondem, então, a esta necessidade de passagem, fazendo chegar à sociedade pós-moderna os critérios cristãos de leitura da realidade que a Igreja tem para oferecer.
É caso para dizer que, também neste caso, não há nada mais lógico do que a Igreja em Portugal querer falar daquilo que tem mais importância: a vida, a obra e a mensagem de Jesus. Porque há muitos que ainda não se aperceberam, por distracção ou por ingenuidade, de que só estão cá de passagem.

Octávio Carmo

O Papa defende «verdade histórica» da Ressurreição

“A Igreja proclama alegremente que Cristo ressuscitado tem o poder de mudar as vidas e de incidir uma nova luz na história humana. Hoje, tal como em todas as alturas, Cristo vem ao nosso encontro para permanecer no meio de nós com o seu poder salvífico”


Bento XVI

A telenovela continua

Já vi, vezes sem conta, o vídeo da aluna em luta com a professora por causa do telemóvel. A notícia, vista, ouvida e lida, também já cansa. O que agora se diz nada acrescenta ao que já se sabe. Não seria melhor acabar com estas cenas? Ou não há mesmo mais nada para noticiar? Quem procura notícias, durante o dia, está condenado a ver e a ouvir, até à exaustão, sempre as mesmas imagens, com as informações já gastas.

PÚBLICO com a blogosfera

O PÚBLICO passa a colaborar, de forma mais concreta, com a blogosfera. É um passo digno de registo, porque incentiva, por esta forma, a ligação às notícias do dia-adia. A ferramenta, chamada "Twingly", é já usada em alguns jornais estrangeiros, como o "Politiken", da Dinamarca, ou o "Helsingin Sanomat", da Finlândia.

Um poema de Orlando Figueiredo

Escrevo em segredo Escrevo em segredo as veredas do teu nome enquanto o misterioso hálito do teu veneno avança errante dentro de mim Por amor ou fantasia o fogo do teu olhar despe-me a alma em silêncio O que resta de mim apenas existe para tua glória Sou teu escravo o teu triunfo é o meu destino Orlando Jorge Figueiredo
- Fevereiro 2008

Dia do Livro Português


Segundo um “site” que consultei, hoje é o Dia do Livro Português. Bom motivo para lembrarmos, aqui, que Portugal tem dado ao mundo muitos escritores. Prosadores e poetas enchem a nossa memória, desde tenra infância. E ainda agora, com a infância já distante, não deixo de admirar tantos cultores da Língua Portuguesa, espalhados por todos os países lusófonos e pelos mais diversos recantos do globo.
O que mais me impressiona é que, cada dia que passa, novos escritores vão surgindo, oferecendo-nos belíssimos textos que nos permitem sonhar, através de viagens que nos propõem carregadas de histórias e emoções. A literatura portuguesa, afinal, talvez seja um dos poucos sectores da nossa vida colectiva que escapam às crises que nos envolvem. É um sector sempre pujante, não obstante as dificuldades que muitos escritores sentem em entrar nos gabinetes dos editores, mais preocupados, decerto, em divulgar os autores mais badalados.

Dia cinzento


Os dias cinzentos também podem servir para nos deleitarmos com outros prazeres. Por exemplo, lendo um bom livro no sossego dos nossos recantos ou ouvindo música na paz das nossas recordações.

AVEIRO: Prostituição em debate


A globalização confere novos contornos à prostituição. Porque o tráfico de mulheres e jovens para fins de exploração sexual pede um novo olhar, a Cáritas diocesana de Aveiro, em parceria com as suas congéneres de Coimbra, Guarda, Lamego, Leiria/Fátima, Viseu e Cáritas Portuguesa, organizou as I Jornadas Interdiocesanas de Reflexão sobre a Prostituição.
(...)
Diz Inês Fontinha, directora de "O Ninho":
“Vamos tentando encontrar, com as mulheres, alternativas à sua situação”. Quando se trabalha a auto-estima, quando “as pessoas passam a gostar de si próprias, com um projecto de vida alternativo, as mulheres não se prostituem”.
Leia mais em Ecclesia e no Diário de Aveiro

PÁSCOA


VIDA PARA TODOS OS DIAS!

Hesitei se devia voltar a escrever, pelo menos por agora, da Páscoa do Senhor.
Afinal, nestas últimas semanas, toda a Igreja tem estado em reflexão itinerante, na preparação do Dia Pascal, pelo que a vontade em mudar de caminho, durante algum tempo, pode ser grande e apelativa.
Comecei por me lembrar que vivemos num mundo que parece regular-se, cada vez mais, pelo imediato, pelo já e agora, a qualquer preço, onde a tendência é para esquecer ou ignorar o que, aparentemente, já passou, e ficar, desde logo, refém da próxima novidade.
Senti que a paciência, um dos frutos do Espírito Santo (ver: Gal 5,22-23) estava a esfumar-se e a dar lugar a qualquer coisa que soasse também a novo e a imediato.
Deambulando no meio destes pensamentos, surgem-me, num curto espaço de tempo, duas situações que vieram alterar tudo quanto até ali tinha pensado.
A primeira acontece ao arrumar alguns dos meus papéis. No meio destes, encontrei a homilia que D. José Policarpo pronunciou, no dia 7 de Abril de 2007, na Sé Patriarcal de Lisboa.
Reli-a, e a vontade de não ficar calado desapareceu. Era um bom sinal!
Ao sermos criados por Deus, não só somos parte integrante da Sua Criação como Seus colaboradores e membros activos, enquanto baptizados, da História da Salvação.
Como se já não fosse o suficiente, somos convidados a participar nesta “longa vigília da criação e da humanidade, em busca da sua verdade definitiva.”
Perante tais palavras, quem poderá dizer, começando por mim, que a Páscoa já passou?
A Páscoa não passou nem passará, nunca! Tudo, na vida de cada cristão, depende dela e só dela. Ainda que viva muitos anos, sem a Páscoa o cristão jamais existirá.
Deste modo, senti que os argumentos para não falar, do dia em que a Vida venceu, definitivamente, a morte já não tinham validade, pelo que tinha que decidir em pensar noutras coisas, que não passavam necessariamente pela escrita.
Mesmo assim, sentia que a vontade também não era muita.
Decidi, então, dar uma caminhada a pé. Pelo menos daria para ajudar na saúde do corpo.
Eis que, ao sair de casa, encontro o carteiro e, através dele, é-me entregue um postal de um Amigo meu, de Sines, que logo abri. A dado passo da sua mensagem pascal, este meu Amigo, alentejano, cita Santo Agostinho: ”De modo algum nos podemos envergonhar da morte do nosso Deus; pelo contrário, ela é a razão de toda a nossa confiança e de toda a nossa glória; tomando sobre Si a morte que em nós encontrou, assegurou-nos a vida que por nós não podíamos alcançar.”
E assim, acabei por fazer a minha caminhada, convicto de que, também hoje, é dia de Páscoa.
De uma nova Páscoa, como será, sempre, a do outro amanhã.

Vítor Amorim

terça-feira, 25 de março de 2008

Primavera?


Afinal, quando é que poderemos falar de Primavera? Ainda teremos tempo, antes do Verão? Ou vamos aguardar que venha 2009?

Na Linha Da Utopia


REFLECTIR E ACTUAR NA MARGEM DA PROSTITUIÇÃO

1. Realizou-se em Aveiro, a 25 de Março, uma Jornada Interdiocesana de Reflexão sobre a Prostituição. A promoção e organização foi da responsabilidade das Cáritas Diocesanas de Aveiro (www.caritas.pt/aveiro), Coimbra, Guarda, Lamego, Leiria/Fátima, Viseu e Cáritas Portuguesa. Como intervenientes será de destacar a comunicação da responsável da Associação “O Ninho” (Lisboa) e a palestra de docente da UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro). Ainda, e descendo à nossa realidade local da Região Centro do País, contou-se com a intervenção do Lar do Divino Salvador (Ílhavo - Aveiro), do Projecto RIA (Aveiro), das Irmãs Adoradoras (Coimbra), e das Cáritas Diocesanas promotoras e presentes. Achámos oportuno a apresentação de todas estas referências participantes pois elas são, por si, sinal social de uma preocupação de todos e que cada vez mais deve ser vista de forma abrangente e parceira, quer geograficamente quer interdisciplinarmente.
2. Das diversas intervenções iniciais, de entidades da sociedade aveirense, destaque-se a premência de um “assunto” que deve ser trazido com humanidade à luz do dia. A “prostituição” traz consigo uma perturbante conjuntura de causas e promove um leque problemático de consequências, onde, como alguém lembrava, mais uma vez “a mulher é a vítima”. Encarar o flagelo da “prostituição”, em múltiplas vertentes, é reflectir sobre as piores condições de indignidade humana; actuar neste terreno complexo, nunca foi nem será uma questão legislativa, é trazer para a luz do dia como preocupação quem por determinadas circunstâncias (sendo a pobreza uma delas) entrou no precipício. Estamos diante de uma realidade social que, muitas vezes, quase que toca o “faz de conta que não se vê”. Há uma meia dúzia de “podres” sociais que existem e persistem, mas em que a sociedade do bem-estar passa ao lado. Reconhecidos os que, servindo a pessoa na sua dignidade, vivem a inquietude e dão a vida e as suas energias para minimizar, recuperar, “amar” quem vive os submundos da margem desumanizante.
3. Nas questões humanas fundamentais não há soluções fáceis, instantâneas e pragmáticas, mas uma procura concertada que capacite os que vivem a solicitude no terreno concreto. É esse o esforço meritório de entidades como as referidas que fazem “força positiva” em dar um sinal social de que sociedade terá de significar “comunidade”. Neste sentido, o que indignifica alguns deve preocupar todos. Não se espere dos Estados as respostas para tudo, seria diminuir as potencialidades de uma dinâmica e desejada sociedade civil; não se espere que a sociedade civil faça tudo sem a cooperação dos Estados, seria sinal de que estes vivem longe das pessoas. A cooperação tem veias interdiocesanas, intermunicipais, transdisciplinares e interinstitucionais. Desta forma, em rede, a reflexão fica bem mais próxima da acção solícita na “margem” da sociedade que, pelos dados estatísticos, vai crescendo com um rio… É nestas margens delicadas que se vê a “prova dos 9” do verdadeiro serviço à humanidade das pessoas. Não o discurso mas na vida; na restituição da esperança, o mesmo é dizer, na “força” que brota da Páscoa que, com este ou outro nome Altíssimo, quer chegar à Pessoa toda e a todas as pessoas!

Alexandre Cruz

José Sócrates garante: crise ultrapassada

O primeiro-ministro, José Sócrates, afirmou hoje que "os últimos três anos foram de uma governação muito difícil e exigente, com um grande esforço de contenção da despesa pública, mas a crise orçamental de 2002, que voltou em 2005, está ultrapassada, e os factores que a motivaram estão também resolvidos, com as mudanças estruturais feitas no país".
Andávamos todos preocupados, com medo de continuarmos num país sem futuro garantido, mas, afinal, não há razões para isso. Já podemos respirar fundo, encher o peito de ar e acreditar que, a partir de agora, sem loucuras, podemos admitir que haverá menos sacrifícios, sobretudo para quem tem passado estes últimos anos a apertar o cinto.

Delírios Suaves

"Cartas das Finanças que não estranharei se porventura me chegarem: Inquérito sobre os lugares onde compro jornais e revistas, por que raio compro tantos todos os dias, onde guardei as facturas, o que quer dizer “Rita:91123456” nas costas daquela factura da FNAC, onde está o Correio da Manhã de 27 de Dezembro a que corresponde esta factura, por que motivo não apresento facturas comprovativas da aquisição do jornal 'Meia-Hora'."
Leia mais em Pedro Rolo Duarte

LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


O Presidente da República, Cavaco Silva, de visita oficial a Moçambique, tem dedicado largo espaço à Língua Portuguesa, a quinta mais falada no mundo. Isso, porque entende que o Português que deve ser mais apoiado a nível internacional, por todos os portugueses e pelas organizações estatais. “Os nossos interesses comuns impõem um trabalho conjunto em favor de uma maior afirmação internacional da nossa língua, mais consentânea com o seu estatuto de quinta língua mais falada no mundo”, afirmou o chefe de Estado, como li na comunicação social.
Quanto ao polémico acordo ortográfico, de que tanto se fala, penso que se impõe uma maior difusão dos prós e contras do acordo, sem esquecer que a Língua Inglesa, pelo que sei, nunca precisou de qualquer acordo para se impor no mundo. O mesmo se diga do Castelhano, também tão falado em toda a parte do universo.

FM

Fisco questiona os noivos

Mas quem teria pago o bolo?

O Fisco, na ânsia de cobrar impostos e de castigar quem a eles foge, resolveu questionar os noivos, no sentido de descobrir quem pagou o quê e a quem. Acho legítimo que o Fisco procure saber o que se compra e o que se vende, com o intuito de obrigar os transgressores a cumprirem as leis fiscais do País. Mas daí a incomodarem os noivos e a obrigá-los a denunciarem as ofertas que lhes fizeram vai uma grande distância. Penso que o Fisco terá possibilidades de descobrir tudo isso sem recorrer a processos de denúncia e a inquéritos a noivos. Por esse andar, qualquer dia, teremos o mesmo em relação aos baptizados, aos funerais, às festas de aniversário e quejandos.
Acho que os questionários não podem invadir a privacidade de ninguém, muito menos de quem vive uma festa que se pretende única e para sempre. Por exemplo, porque é que o Fisco não avisa que as empresas ligadas à organização de casamentos têm de estar colectadas, com contabilidade organizada? Isso parece-me legítimo. Como é legítimo fiscalizar as lojas que vendem objectos ou produtos conotados com prendas. Agora, procurar saber quem deu prendas… e quem prestou serviços… junto dos noivos, é que não me parece correcto. Parece-me certo, até me demonstrarem que estou errado.
FM

segunda-feira, 24 de março de 2008

Segunda-Feira de Páscoa


Na segunda-feira de Páscoa, o povo da Gafanha sempre a dedicou à Feira de Março. Quando eu era miúdo, os autocarros da Auto Viação Aveirense não paravam, sobretudo depois do almoço. O pessoal não tinha carro, como hoje. O meio de transporte mais usual era a "camioneta da carreira", como então se dizia. Nas paragens, os amigos da Feira apareciam em massa. Depois, era a compra de pequenas coisas que faziam falta ao dia-a-dia: a colher de pau, o tacho de barro, os brinquedos para a criançada, as farturas que sempre ali tiveram espaço, o saca-rolhas, os sapatos e a roupa feita, etc. Compras feitas, uma voltinha nos carrocéis, uma visita ao Poço da Morte, onde o Dias, do Stand Dias, mostrou como um jovem normal também lá sabia andar de mota, era o regresso com a tralha às costas. E as camionetas, com o tejadilho cheio, lá faziam o transporte de regresso a casa. Era um dia de alegria.
FM

ÍLHAVO: Homenagens no Dia do Município

Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré na Polónia

A Câmara de Ílhavo homenageou, hoje, em sessão solene, comemorativa do dia do município, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré e três munícipes considerados “embaixadores de Ílhavo no mundo”, todos com medalhas de vermeil. Ainda foram distinguidos, com medalhas de dedicação, os antigos funcionários Fernando Conde e Hélder Viana. Em minha opinião, os galardoados mereceram o reconhecimento da autarquia, pelo muito que fizeram em prol do Concelho de Ílhavo e da suas gentes.
Os meus parabéns a todos.

ÍLHAVO: Feriado Municipal


E os ílhavos saíram vencedores...
(...)
«Ora os homens do Norte estavam disputando com os homens do Sul: a questão fora interrompida com a nossa chegada à proa do barco. Mas um dos ílhavos – bela e poética figura de homem –, voltando-se para nós, disse naquele seu tom acentuado: “Pois aqui está quem há-de decidir: vejam nos senhores. Eles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais que ninguém, que não há quem lhes chegue. E os senhores, a serem cá de Lisboa, hão-de dizer que sim. Mas nós...”
– “Nenhum de nós é de Lisboa: só este senhor que aqui vem agora.”
Era o C. da T. que chegava.
– “Este conheço eu; este é dos nossos!” bradou um homem de forcado, assim que o viu: “Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi numa ferra, isso é verdade; mas aqui de Valada a Almeirim ninguém corre mais do que ele por sol e chuva, e há-de saber o que é um boi de lei, e o que é lidar com gado.”
– “Pois oiçamos lá a questão.”
–“Não é questão”, tornou o Ílhavo: “mas, se este senhor fidalgo anda por Almeirim, para Almeirim vamos nós, que era uma charneca outro dia, e hoje é um jardim, benza-o Deus! – mas não foram os campinos que o fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que é, e fez terra das areias da charneca.”
– “Lá isso é verdade.”
– “Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar trigo aqui aos nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga. É uma lavoura que a faz Deus por Sua mão, regar e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não fazem eles, que nem sabem ter mão nesses mouchões co plantio das árvores: só lá por cima é que algumas têm metido, e é bem pouco para o rio que é, e as ricas terras que lhes levam as enchentes.”
– “Mas nós, pé no barco pé na terra, tão depressa estamos a sachar o milho na charneca, como vimos por aí abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar na areia por não haver água... mas sempre labutando pela vida.”
– “A força é que se fala” tornou o campino, para estabelecer a questão em terreno que lhe convinha: “A força é que se fala: um homem do campo que se deita ali à cernelha de um toiro que uma companhia inteira de varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores, pelo rabo!...”
E reforçou o argumento com uma gargalhada triunfante, que achou eco nos interessados circunstantes que já se tinham apinhado a ouvir os debates.
Os ílhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciência de sua superioridade, mas acanhados pela algazarra.
Parecia a esquerda de um parlamento quando vê sumir-se, no burburinho acintoso das turbas ministeriais, as melhores frases e as mais fortes razões dos seus oradores.
Mas o orador ílhavo não era homem de se dar assim por derrotado. Olhou para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto expressivo, e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus antagonistas:
– “Então agora como é de força, quero eu saber, e estes senhores que digam, qual é que tem mais força, se é um toiro ou se é o mar.”
– “Essa agora!...”
– “Queríamos saber.”
– “É o mar.”
– “Pois nós que brigamos com o mar, oito e dez dias a fio numa tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, qual é que tem mais força?”
Os campinos ficaram cabisbaixos; o público imparcial aplaudiu por esta vez a oposição, e o Vouga triunfou do Tejo.»


Almeida Garrett
In "Viagens na minha terra"
Nota: O fidalgo "C da T" era o Conde da Taipa

Bento XVI lembra dramas da humanidade


Papa recordou Darfur e Somália,
Terra Santa, Iraque, Líbano e Tibete
antes da Bênção "Urbi et Orbi"


"Na solene vigília de Páscoa, as trevas tornam-se luz, a noite cede o passo ao dia que não conhece ocaso. A morte e ressurreição do Verbo de Deus encarnado é um acontecimento de amor insuperável, é a vitória do Amor que nos libertou da escravidão do pecado e da morte. Mudou o curso da história, infundindo um indelével e renovado sentido e valor à vida do homem."

Bento XVI, na sua Mensagem Pascal

FOLAR DA PÁSCOA


Sinal de tradição ou de compromisso de fé?

Chegado o Domingo de Páscoa, é tradição o Padrinho ou a Madrinha oferecerem o chamado folar da Páscoa ao afilhado ou à afilhada.
Sendo um gesto de carinho e de ternura, pode ser um presente inócuo e sem consequências, onde tudo pode ficar na tradição pela tradição.
Por isso, acredito que o folar da Páscoa pode e deve ir para além da dimensão do mero tradicionalismo, quando é o caso, devendo tornar-se um dos símbolos da renovação e do compromisso baptismal que se festeja em cada Páscoa.
Só uma fé amadurecida pelo itinerário quaresmal pode permitir que, chegado o Dia Pascal, esta se transforme em anúncio, em alegria e em esperança, onde padrinhos e afilhados, madrinhas e afilhadas sintam que são testemunhas do mesmo Cristo Ressuscitado e no qual foram baptizados. Basta isto para o folar ter outro sabor!
Não sei porquê, mas já na sua idade de jovenzinho, um dos meus afilhados começou a oferecer-me o seu folar da Páscoa! Da surpresa inicial, passei à aceitação e, só mais tarde, é que acabei por compreender o sentido daquela oferta.
Inicialmente, comecei por pensar tratar-se de um gesto de cortesia do meu afilhado. Porém, as suas dedicatórias foram-se encarregando de me falarem de uma realidade bem mais profunda e que se traduzia num compromisso de fé deste com o seu padrinho e o reconhecimento da necessidade de partilhar este dom de ser baptizado, através da alegria e da amizade fraterna.
Se as notas escolares, as doenças, as dúvidas, os projectos, as tristezas, as “malandrices” da idade, entre outras vivências já eram, de há muito, partilhadas, porque não o folar?
Este ano, fui presenteado, como sempre, com um novo livro, este de autoria do Arcebispo Bruno Forte, com o título: “Porquê Confessar-se? – A reconciliação e a beleza de Deus”, das edições Paulus, atrevendo-me, desde já, a sugerir a sua aquisição aos leitores.
É um livro com apenas 54 páginas. Lê-se num ápice e a sua mensagem, não sendo nova, soa a frescura e a um prazer pacificador, mesmo abordando um tema nem sempre foi bem compreendido e aceite, mesmo por parte de alguns cristãos.
Naquele livro reafirma-se que somos seres frágeis e em permanente construção: Uma construção inacabada, até ao dia da nossa Páscoa definitiva.
No final, dei comigo a pensar: - Porque é que o meu afilhado não me ofereceu este livrinho mais cedo?
Talvez alguns episódios de sofrimento e de dor, em que estive envolvido, se tivessem evitado ou atenuado, para além das novas janelas que se poderiam ter aberto para melhor compreensão da infinita e compassiva misericórdia de Deus.
Quanto a mim, continuarei esta partilha de folares com o meu afilhado, procurando, em cada um deles, (r)encontrar a Boa Nova que o Deus Ressuscitado nos dirige, em cada Páscoa que se vive e celebra, ano após ano.

Vítor Amorim

domingo, 23 de março de 2008

DOMINGO DE PÁSCOA


Hoje até me levantei mais cedo, porque é Domingo de Páscoa. Quis, e quero, aproveitar bem o dia, para contemplar a Ressurreição de Cristo, na certeza de que a vejo em tudo o que me envolve. Tanto nas coisas boas que sinto e pressinto, como nas coisas menos boas que possam acontecer. A alegria de crer num Deus, num Deus que se fez homem, para um dia e sempre se dar ao Pai pela nossa redenção, inunda-me a alma. Mas também creio que os que não crêem talvez vejam, na Páscoa dos folares com ovos, das amêndoas e do cabrito ou borrego assados no velho forno a lenha, uma festa de ressurreição que lhes alimente a esperança de um dia poderem experimentar a presença do Senhor da vida nos sinais da natureza que se renova, ano após ano.
Boa Páscoa para todos na alegria de Cristo Ressuscitado.

Fernando Martins

PÁSCOA FELIZ PARA TODOS


HOSSANA

Junquem de flores o chão do velho mundo:
Vem o futuro aí!
Desejado por todos os poetas
E profetas
Da vida,
Deixou a sua ermida
E meteu-se a caminho.
Ninguém o viu ainda, mas é belo.
É o futuro...

Ponham pois rosmaninho
Em cada rua,
Em cada porta,
Em cada muro,
E tenham confiança nos milagres
Desse Messias que renova o tempo.
O passado passou.
O presente agoniza.
Cubram de flores a única verdade
Que se eterniza!

Miguel Torga

In POESIA COMPLETA
Foto: Flor de Carlos Duarte

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 70


EDIFÍCIOS ESCOLARES NA GAFANHA

Caríssima/o:

Do que se tem dito facilmente se conclui que a Gafanha era terra mal amada pelas autoridades concelhias, pois quase todos os edifícios escolares funcionavam em construções que deixavam muito a desejar.
Assim escrevia o P. João Vieira Resende em 1940:

«Até hoje, em toda a Gafanha, apenas há quatro edifícios escolares próprios. As outras escolas têm funcionado em casas particulares, por arrendamento.
São os seguintes os edifícios próprios onde funcionam as escolas da Gafanha:
- Um na Gafanha do Carmo, com um só lugar para o sexo masculino, construído e doado ao Estado em 1925 por José Ferreira Jorge, para ali ser colocado o seu filho e actual Professor, Sr. José Cândido Ferreira Jorge.
- Outro na Gafanha de Aquém, com um lugar para o sexo masculino e outro para o sexo feminino. Foi construído e doado ao Estado em 1925 pelo falecido Professor de Ílhavo José Nunes da Fonseca, para ali ser colocada a sua filha, a Sr.ª D. Vicência da Conceição Fonseca. Em 1936, foi reconstruído pela Câmara Municipal de Ílhavo com a comparticipação do Estado. Tem um lugar para cada sexo.
- Outro no lugar da Chave, da freguesia da Gafanba da Nazaré, com um lugar para cada sexo, construído e doado ao Estado em 1921 (?) por António Carlos, para ali ser colocada sua filha e actual Professora, a Sr.ª D. Maria da Luz Carlos. Foi reconstruído em 1930 pelos Srs. Sebastião Lopes Conde e Manuel Carlos Anastácio.
- Um outro na Gafanha da Boa-Hora, com um lugar para cada sexo, construído em 1934 pela Câmara Municipal de Vagos.»
[MG, 211]

Curioso o desabafo que lhe escapou na página 206, em nota, e que lança uma confusão que se encontra desfeita acima:

«Arquivemos aqui a vergonhosa realidade de, ainda hoje, as três escolas da Gafanha da Encarnação funcionarem num acanhado e velho pardieiro de aluguer. Sempre abandonada! A Gafanha do Carmo tem edifício próprio para o sexo masculino, mandado construir pelo seu professor José Cândido Ferreira Jorge. Também no lugar da Chave, da Gafanha da Nazaré, Sebastião Lopes Conde e Manuel Carlos Anastácio mandaram construir um belo edifício para dois lugares de professor.»

Tão pouco se tem escrito sobre a Gafanha que estas linhas do Padre Resende soam como uma bênção, embora nos abram sorrisos descontraídos algumas das suas observações. Bom seria que se pegasse nas suas deixas e se construísse obra de raiz. Sei que não é fácil nem cómodo, mas é urgente!

Santa Páscoa!

Manuel

sábado, 22 de março de 2008

Viver e celebrar a alegria da vocação e da fidelidade


"... O mundo olha-nos igualmente com uma imensa gratidão quando nos sente modelados pela oração e pela palavra de Deus e portadores de um anúncio esclarecido, acolhedor, fraterno e misericordioso da boa nova da salvação. É este mesmo mundo que nos procura na ânsia de quem o ajude a descobrir sinais de orientação para o sentido da vida, para a busca de felicidade e de bem-aventurança, para gestos de comunhão e de fraternidade e para o serviço generoso e solidário dos pobres e dos que sofrem."


GERAÇÃO RASCA?

Há anos, alguém classificou a actual geração de “Geração Rasca”, para justificar alguns comportamentos fora do tom normal de muitos jovens. Nunca concordei com tal classificação, porque gente rasca houve sempre, através dos séculos, como é justo aceitar. E assim será nos tempos que correm. Há dias comentei aqui a violência que existe nas escolas. Outra realidade indesmentível. Também aqui podemos considerar que nunca faltou violência nas escolas, nas famílias, nos empregos, na rua, em todo o lado, em suma. Hoje, com frio e vento cortantes, não deixei de fazer a minha caminhada matinal. Seguia descansado quando senti três jovens que falavam num tom malcriado. Conversa cheia de palavrões, dos três rapazes saíram epítetos obscenos dirigidos aos pais uns dos outros. Coisa incrível, para mim, para quem os meus pais, como os outros pais, são pessoas sagradas. Deram-nos a vida e projectaram-nos para o futuro. O amor que lhes demos ou ainda podemos dar não pode ter limites. Para aqueles jovens, contudo, não é assim. Diziam dos pais o pior. E riam-se e acrescentavam, e concordavam… e repetiam... Horrível! Estes jovens são mesmo dos tais “rascas” com quem nos cruzamos na vida. Muitos outros, mas mesmo muitos, decerto a maioria, seriam incapazes destes dislates. Com estes exemplos, destes jovens e da aluna que violentou a professora, somos levados a pensar que a culpa é toda dos pais. Não creio. Pode ser dos pais, mas também é de toda a sociedade. Os jovens de hoje são, manifestamente, a meu ver, fruto das “tribos” a que pertencem e que ditam comportamentos, gestos, modas, tiques, códigos e leis. Quem não os seguir fica excluído e a luta para (re)ingressar no “grupo” passa a dominar o jovem marginalizado, levando-o a exagerar em tudo o que faz, para se mostrar digno da “tribo”. E os pais? Estão a leste disto tudo e, muitas vezes, sem capacidade para fazerem valer os seus valores. A sociedade tem de pensar em formas contornar esta dificuldade, sob pena de cairmos, então, numa geração sem princípios, sem leis, sem modos de gente civilizada. FM

PÁSCOA E VIDA ETERNA: O QUE QUEREMOS REALMENTE?

Porque em devir e abertos ao futuro, a esperança é princípio constituinte do cosmos, do Homem e da História. A abertura ao futuro torna-se espera no animal, que precisa de procurar o que lhe falta. Tanto o animal como o Homem esperam, com uma diferença: o animal fica satisfeito, quando obtém o que procura, mas o Homem, após a realização de cada projecto, continua ilimitadamente aberto a um para lá, que o move, num transcendimento sem fim. Segundo essa abertura ao futuro aconteça na confiança ou na desconfiança, a espera configura-se como esperança ou desesperança.
A esperança tem um duplo pólo: subjectivo e objectivo, devendo assim falar-se de esperança esperante e esperança esperada. Neste quadro, é fácil constatar no Homem a diferença constitutiva entre a primeira e a segunda: por mais que a esperança esperante se materialize nas suas realizações concretas, nunca se realiza adequadamente, continuando insuperável um abismo, de tal modo que se impõe um plus ultra, um para lá de todo alcançado. Aí está a razão por que todo o ser humano morre inacabado, insatisfeito, sempre por fazer adequada e plenamente.
Insere-se aqui a esperança pessoal para lá da morte, mas uma esperança tal que salve o ser humano real, de modo pessoal, e não numa "imortalidade" impessoal, apenas pela continuação na família, nas obras, na natureza, na sociedade...
A esperança não é certeza. Tem razões, mas não é demonstrável cientificamente. Não consiste em mero desejo, não pode ser wishful thinking. Tem de fundamentar-se no possível, em potencialidades reais. Assim, quando se pensa na vida eterna pessoal, entende-se que só Deus pode ser fundamento dessa esperança. Como viu São Paulo na Carta aos Romanos, "só o Deus que criou a partir do nada pode ressuscitar os mortos". Na sua continuação, Kant postulou a imortalidade, mas simultaneamente postulou o Deus criador como seu garante. Imortalidade pessoal e Deus pessoal criador implicam-se mutuamente.
Mas será que queremos a vida eterna?
Na sua segunda encíclica, sobre a esperança (Spe salvi), Bento XVI debate-se honestamente com esta pergunta. Reconhece que muitos hoje recusam a fé porque "a vida eterna lhes não parece algo desejável". Querem a vida presente, e a vida eterna é "um obstáculo". Continuar a viver para sempre, numa vida interminável, "mais parece uma condenação do que uma graça". Quereríamos adiar a morte, mas viver sempre, sem um final, tornar-se-ia, em última análise, "insuportável". A eliminação da morte - pense-se no romance de José Saramago: As Intermitências da Morte - faria da vida na Terra uma impossibilidade, e que benefícios poderia trazer para o indivíduo? Então, na nossa existência, há uma contradição: por um lado, "não queremos morrer", mas, por outro, "também não desejamos continuar a existir ilimitadamente nem a Terra foi criada com esta perspectiva." Que queremos então realmente?
Esta pergunta abre para outra: "que é realmente a 'vida' e que significa verdadeira-mente 'eternidade'?"
O Papa responde apelando para algumas das nossas experiências - a beleza, o amor, a criação -, em que nos aproximamos do que seria verdadeiramente viver, de tal modo que aí até dizemos: assim deveria ser sempre.
No fundo, queremos esta vida, que amamos, mas plena. Queremos a bem-aventurança, a felicidade. Não sabemos exactamente o que queremos, pois é o desconhecido - um "não sei quê -, mas neste não saber sabemos e experienciamos que essa realidade tem de existir: é ela que nos arrasta e é para ela que somos impelidos.
Não sabemos o que queremos dizer com "vida eterna". Apenas podemos pressentir que "a eternidade não é um contínuo suceder-se de dias no calendário, mas como o instante pleno de satisfação, no qual a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade". Seria o instante da submersão na imensidade do ser, na vida plena, "no oceano do amor infinito, no qual o tempo já não existe."
Na Páscoa, o que se celebra são estes mistérios do cosmos, do Homem e da História, da vida, da morte e da vida eterna.

Anselmo Borges

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