sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

CATÓLICOS E VIDA PÚBLICA



Teve lugar no passado fim-de-semana, em Madrid, a nona edição anual do Congresso 'Católicos e Vida Pública'. Com mais de 1500 participantes, o evento decorreu num ambiente de tensão crescente entre o Governo socialista e a Igreja católica. No centro das preocupações dos congressistas esteve a procura de um equilíbrio entre a presença pública da Igreja e o reconhecimento do pluralismo da sociedade espanhola.
George Weigel, o biógrafo norte-americano do Papa João Paulo II, apresentou uma das muitas contribuições interessantes para esta reflexão. Apresentando-se como teólogo católico e cidadão de uma das mais antigas democracias do mundo, Weigel perguntou o que pede a Igreja ao Estado. E respondeu basicamente duas coisas: espaço e abertura intelectual. Nada mais, porque a Igreja não tem uma proposta política, e nada menos, porque ela também não abdica do seu ministério independente da palavra, do sacramento e da caridade.
Exigir espaço - social, legal, político, até psicológico - implica reclamar que o Estado seja uma entidade limitada: pelo costume, ou pelo hábito moral e cultural, e pela lei. Esta limitação do Estado é a primeira condição de uma democracia pluralista. Ao recusar a absolutização da política, o princípio do Governo limitado abre espaço a uma interacção livre, vigorosa e civilizada entre várias propostas de ordenação da vida pública, nenhuma das quais é investida de autoridade última. A democracia é impossível quando a política é absolutizada, porque a política de absolutos é necessariamente a política da coerção.
A segunda coisa que a Igreja pede ao Estado, segundo George Weigel, é que mantenha uma atitude de abertura intelectual. Isto significa em termos gerais, que o Estado não pode adoptar uma filosofia particular, muito menos tentar impô-la aos cidadãos (ou aos seus filhos). Em particular, a Igreja reclama do Estado que ele mantenha uma abertura intelectual relativamente a um aspecto específico: a possibilidade de redenção.
Este é um aspecto curioso, que ilustra a interpretação não jacobina de laicidade. Por um lado, a Igreja recusa a teocracia e a existência de religiões oficiais. Por outro lado, a Igreja recusa que o Estado adopte como sua filosofia a hostilidade contra a religião. Por outras palavras, a Igreja reclama do Estado uma posição de abertura que contenha a possibilidade da verdade da religião.
Em termos práticos, isto significa que as duas principais reclamações dos católicos, segundo George Weigel, devem ser a liberdade religiosa e o respeito pelo pluralismo das instituições intermédias. O resto cabe aos católicos conquistar pela persuasão e pelo testemunho.

João Carlos Espada



Advento à porta




Hoje, na cidade, passei pelo Fórum, uma bela sala de visitas de Aveiro. Os sinais da festa que se avizinha aí estão, como desafio à nossa imaginação para a vivermos em plenitude, dentro do possível. O sector comercial, importante na vida, já está a mexer-se, acordando-nos para a realidade natalícia, revivida ano após ano. E que estaremos nós a fazer para, ao nível espiritual e social, não perdermos a ocasião de renascermos para mais um ano?

Dificuldades técnicas continuam

Continuo com limitações técnicas neste meu espaço da blogosfera. Há problemas, cujas soluções, não dependendo directamente de nós, nos incomodam bastante. Há que aceitar essa realidade. Há pouco tive a confirmação de que só na próxima semana tudo ficará resolvido. Até lá, tenho que ter paciência. Os meus amigos também. De qualquer forma, vou fazendo o que puder.
Fernando Martins

Na Linha Da Utopia


Adeus MadreDeus?

1. Tudo tem o seu tempo. Mas há tempos que são marcados por referências culturais de relevo. Foi precisamente há 21 anos que começou este projecto musical MadreDeus que viria a tornar-se emblemático da cultura portuguesa, percorrendo todos os mares da cultura internacional. O primeiro disco Os Dias da MadreDeus (1987), apresentava-se como um enigma musical que respirava dessa nostalgia e do horizonte oceânico do ser português.
2. Por trás deste simples e grandioso projecto está o génio Pedro Ayres de Magalhães, autor-compositor que tem criado maravilhas na música portuguesa do género. Agora, a voz que ele há duas décadas encontrou nos bares de Lisboa libertou-se noutros projectos mais individuais... Essa voz que, mediante as sensibilidades, repetitiva para uns, única para outros (como nós), levou por esse mundo fora, mais que o “nome”, a partilha da identidade portuguesa.
3. Se no estrangeiro o apreço e o mérito cedo foram reconhecidos, no Portugal pessimista da falta de autoconfiança a banda MadreDeus fora inicialmente vista com desconfiança. A sua chegada (regresso) a Portugal espelha também essa realidade tão típica nossa: foi necessário, primeiro, um reconhecimento mundial para depois apreciarmos e valorizarmos o que é nosso. Somos assim, felizmente já somos menos. Uma energia positiva de autoconfiança vai-nos abrindo as portas, dizendo que somos tão capazes como os outros, de que não podemos estar à espera das soluções mas teremos de ser parte delas.
4. Neste projecto musical, que talvez seja muito mais que simples música pois trata-se incomparavelmente da mais internacional banda portuguesa que do oriente ao ocidente recebeu a aclamação, a “hora” é de pergunta sobre o futuro. Estando o grupo a terminar este ano sabático de 2007, a voz da Teresa Salgueiro, por outros projectos pessoais, não tem disponibilidade para tanta solicitação... Para quem aprecia a guitarra do Pedro e a sua voz em conjunto, pena. Sobreviverá a banda MadreDeus, quando, afinal acabou por ser a voz de Teresa a dar a identidade ao projecto? Eis a questão!
5. Mas, acima de tudo, sem nostalgias, o tempo cultural português recente agradece os Dias e os anos de tão embaixador projecto cultural. Haja o que houver, MadreDeus são história viva!

Alexandre Cruz

Nova Encíclica do Papa


SALVOS NA ESPERANÇA

Spe salvi (Salvos na esperança) é o título da segunda encíclica de Bento XVI, dedicada ao tema da esperança cristã, num mundo dominado pela descrença e a desconfiança perante as questões relacionadas com o transcendente.
"O homem tem necessidade de Deus, de contrário fica privado de esperança", pode ler-se. O Deus em que os cristãos acreditam apresenta-se como verdadeira esperança para o mundo contemporâneo porque lhe abre uma perspectiva de salvação.
Bento XVI considera que só é possível viver e aceitar o presente se houver "uma esperança fidedigna" e destaca a importância da eternidade, não no mundo actual - "a eliminação da morte ou o seu adiamento quase ilimitado deixaria a terra e a humanidade numa condição impossível", aponta - mas como "um instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade".
"Deus é o fundamento da esperança, não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto", observa.
A carta do Papa, hoje divulgada pelo Vaticano, defende que só Deus é a "verdadeira esperança" e aborda por diversas vezes a questão da "vida eterna", frisando que "ninguém se salva sozinho".
O documento começa por apresentar um enquadramento teológico da esperança cristã, a partir dos textos bíblicos e dos testemunhos das primeiras comunidades eclesiais. O Papa apresenta ainda os ensinamentos de vários Santos da Igreja a respeito do tema da encíclica e escreve que "conhecer Deus" significa "receber esperança".
Depois de negar que Jesus tenha trazido uma mensagem "sociorrevolucionária", Bento XVI aborda a questão da evolução para afirmar que "a vida não é um simples produto das leis e da casualidade da matéria, mas em tudo e, contemporaneamente, acima de tudo há uma vontade pessoal, há um Espírito que em Jesus se revelou como amor".
O Papa cita, entre outros, Platão, Lutero, Kant, Bacon, Dostoievski, Engels e Marx para falar de esperança e de esperanças, de razão e liberdade, da construção de um mundo sem Deus que pretende responder aos anseios do ser humano. "Nenhuma estruturação positiva do mundo é possível nos lugares onde as almas se brutalizam", declara.
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Fonte: Ecclesia

quinta-feira, 29 de Novembro de 2007

Na Linha Da Utopia


O 29º LUGAR
DO RELATÓRIO DH

1. Em termos de desenvolvimento humano, na recente lista de 70 países com desenvolvimento humano elevado, Portugal ocupa o 29º lugar, sendo a cauda da Europa ocidental. No geral, foram analisados pelas Nações Unidas um total de 177 países, na procura de cruzar os dados existentes e assim ficar com uma visão de conjunto que privilegia as pessoas na sua sociedade concreta. A listagem (dos 70) começa na Islândia e termina no Brasil. Como todos os rankings deste género, as abordagens não são lineares, o que, por exemplo, se prova quando o Japão surge no oitavo lugar, tendo este país uma média de esperança de vida à nascença de 82,3 anos, maior que a fria Islândia, país que é o topo da tabela.
2. Mesmo nos limites naturais de tão complexo (e essencial) estudo, existe um extraordinário potencial meritório neste género de estudos (a que também juntamos o Relatório Anual sobre a Liberdade Religiosa no Mundo) que colocam, na generalidade, a claro aquilo que são as virtudes e os limites das sociedades contemporâneas, sempre no sentido de colmatar, solucionar, melhorar a vida das pessoas. No Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH), entre outros, entram factores essenciais como a esperança de vida à nascença, taxa de alfabetização de adultos, taxa de escolarização bruta combinada (dos ensinos básico, secundário e superior) e o PIB per capita. O presente relatório, sublinhando, dá, ainda, um especial destaque à mudança climática que elege (a par do combate à pobreza extrema, um dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio) como o maior desafio que se coloca à humanidade neste início do séc. XXI.
3. Como em tudo, o primeiro passo para a cura é o diagnóstico. Estes diagnósticos anuais querem ser ponto de partida contínuo, num desejado progresso para a humanidade. Estes relatórios interessam a todos, pois, hoje mais que nunca em tempo global, não há solução que não passe pela parceria ampla que potencie soluções sustentáveis. Todos, desde os maiores actores sociais (políticas, educação, religiões, filosofias,…) até aos cidadãos que todos os dias trabalham e vivem (ou sobrevivem), estão incluídos como visão de projecto, neste desejado integral desenvolvimento humano das nações. O encontrar de soluções no tempo actual, que pressupõe um pensar global e acção local, obriga a ver como estamos para solidificar o (sempre mais e melhor) que queremos. Também para o 29º classificado, em que subimos a média esperança de vida à nascença para 77,7 anos. Relatório DH em:
http://hdr.undp.org/en/reports/global/hdr2007-2008/

Alexandre Cruz

ARES DO OUTONO












MESMO NO OUTONO...


Mesmo no Outono, como noutra estação do ano qualquer, os nossos olhos podem sempre descobrir algo de novo, algo de belo.... Estas imagens da Figueira da Foz são disso uma prova concludente. O povo que gosta de praia já se foi há muito, deixando para trás belezas porventura ignoradas pelas grandes rotas turísticas. Se quiser confirmar o que digo, passe por lá. Vá à descoberta daquilo que muita gente não quer ver.


Novo esilo de organização: renovar ou reformar?


Numa palavra de ordem à Igreja em Portugal, o Papa assinalou a necessidade de mudar o estilo de organização da comunidade eclesial e a mentalidade dos seus membros. Só assim, acrescenta, a Igreja poderá caminhar ao ritmo do Concílio Vaticano II.
Esta recomendação vem muito a propósito e com marcas de urgência. Teremos de nos interrogar se este objectivo se procura por reformas ou por um processo de renovação.
É um facto que a Igreja, em alguns campos e aspectos, não se desprendeu ainda de formas e de estruturas que hoje mais dificultam a circulação da vida que a favorecem. As estruturas são um serviço à vida das pessoas e das comunidades. Por isso mesmo, são, por sua natureza, avaliadas periodicamente e substituídas ou renovadas, quando deixam de servir os objectivos desejados.
A Igreja está, em nome do Deus em que acredita e da Mensagem que lhe foi confiada, ao serviço das pessoas, construindo comunidades, animadas pela graça de os seus membros se sentirem uma família nova de filhos e de irmãos. Quando a vida das pessoas muda ou as mudanças sociais dão origem a novas culturas, nas quais se alteram valores, critérios e modelos de vida, logo tem de surgir a interrogação sobre os novos caminhos a abrir e percorrer para melhor se poder servir. De outro modo, a Igreja fica fora do tempo e começa a funcionar e a gastar as suas melhores energias em função de si própria e não daqueles aos quais é enviada. Fica assim em causa a sua condição de servidora do Evangelho de Cristo, uma Boa Nova nunca esgotada, nem envelhecida, e sempre necessária, para que as pessoas vivam e comuniquem segundo a dignidade que lhes é própria e, pelas relações mútuas, exerçam o seu protagonismo de construtores responsáveis de uma sociedade humanizada e fraterna.
Séculos houve em que, no aspecto religioso, o campo invadiu a cidade e aí assentou arraiais com formas de vida e de acção eminentemente rurais. As paróquias são estruturas rurais na sua origem e medievais na sua óptica e concepção.
Numa sociedade estática, na qual a cidade não era senão um campo alargado onde vivia um maior número de gente rural, a estrutura territorial ajudava a coesão por via da delimitação de fronteiras e da concretização de tarefas religiosas. Os leigos em geral não eram mais que membros passivos da Igreja que dela recebiam a Palavra e os Sacramentos. A eles mais não se pedia que a ajuda material.
De depressa, por motivos ridículos, se foram gerando bairrismos e conflitos. Muitos destes ainda perduram sensíveis a formas novas que se pretendam implementar.
Pela explosão das ordens religiosas, ao tempo com clero mais abundante e preparado, foram surgindo no tecido religioso alguns quistos, que não favoreceram e ainda hoje nem sempre favorecem a renovação desejada.
O mundo das pessoas mudou nas suas expressões, objectivos e relacionamentos e as fronteiras territoriais amoleceram, no sentido da coesão e até da expressão comunitária. O urbanismo, como pensamento e expressão de vida, invadiu o que restava de mundo rural. A mobilidade cresceu pelas mais diversas razões e é hoje expressão normal da vida de muita gente.
Democratizaram-se a vida pública e os regimes políticos, a escola e as relações pessoais; alteraram-se os valores tradicionais e multiplicaram-se as fontes de informação, com manifesta influência nos ideais de vida e nos comportamentos pessoais e colectivos. De repente, tudo mudou. Porém, algumas estruturas eclesiásticas, nomeadamente as paróquias, mas não só, perduram neste século XXI, embora com algumas reformas, com o colorido de formas estruturais de séculos longínquos. A palavra de ordem passou, por isso mesmo, a ser outra: Tempos novos, novas formas de acção pastoral e de expressão apostólica.
Esta reflexão, que vai continuar, pretende ser uma ajuda operativa ao apelo do Papa.


António Marcelino
Foto: Padres conciliares

terça-feira, 27 de Novembro de 2007

Na Linha Da Utopia



SOCIEDADE CIVIL

1. A vivência da sociedade civil é o reflexo dos níveis de desenvolvimento que se atinge. Um corpo social dinâmico e todo responsável pelo que é de todos, eis o espelho claro de uma liberdade bem entendida e de uma correspondente democracia justamente amadurecida. Sempre a favor de tudo quanto é bom para o bem comum (das pessoas), sempre com todos os actores do tecido social que cooperam com essa presença e proposta de uma sociedade civil não adormecida mas construtiva.
2. Normalmente, na busca do equilíbrio referencial, falar-se de sociedade civil remete-nos para uma plataforma comum onde a vida da “classe média” representa essa dinâmica criativa ou a sua ausência indiferente. Assim sendo, tanto as revoluções históricas reflectem essa insatisfação da grande maioria de cidadãos (na sua negação da dignidade e direitos), como nas situações de pobreza extrema dificilmente se consegue vislumbrar uma réstia de expectativa transformadora.
3. Mas, que considerar quando os bens essenciais parecem garantidos e a indiferença generalizada substitui a energia interventiva? O facto de em alguns países europeus o voto eleitoral ser obrigatório (como na Holanda) reflecte essa passividade, que faz pensar (?), das terras da liberdade. Também para nós portugueses, como compreender e desenvolver mais as potencialidades (e que esperar mais) de uma sociedade civil que se reconheça (como centro da vida) em que a preocupação pelo “pão de cada dia” sobreocupa o tempo social?
4. O desenvolvimento (integral) dos povos e a consolidação dos valores fundamentais, hoje, reclama o aprofundamento desta ideia chave de uma sociedade que vive a civilidade como compromisso social. Numa visão sem antípodas (ou, ou), estes são sempre o reflexo de subdesenvolvimento reflexivo. Uma civilidade de pessoas livres, numa liberdade que integra as linhas referenciais (de ética comum) dos dignos estados.
5. Uma certeira perspectivada sociedade civil em que ninguém se põe no lugar dos outros, nas onde todos (pessoas livres e estados co-responsáveis) cooperam em ordem à plena realização pessoal e social. Quando se pede aos Estados para resolver todos os problemas da sociedade (de todos), ou quando as liberdades não conseguem integrar os referenciais pluralistas “qb” (dos poderes públicos) em ordem à realização da vida em sociedade, ou, ainda, quando os Estados se querem sobrepor forçadamente às pessoas optando por elas… será porque haverá muito que caminhar em termos de sociedade civil, de modelo civilizacional.
6. Esta sociedade civil, quando está morta ou é indiferente às questões do bem das pessoas, gera a anemia social (somos na letra, mas não somos na realidade!), normalmente permeável ao avanço do que menos interessa ou à fácil (im)posição. Precisamos de uma sociedade civil mais atenta e comprometida (que pense consequentemente as questões da família, do trabalho, da educação, escola, ambiente, …)? Sim, sempre!


Alexandre Cruz

ARES DO OUTONO





TORREIRA
Os sinais do Outono são bem visíveis na Torreira. Praia deserta, que o frio já incomoda, e há mais que fazer nesta altura do ano. Mas um passeiozinho por ali, mesmo de fugida, vale sempre a pena.

POR CAMINHOS JÁ ANDADOS


De todos é sabido que o Seminário dos Olivais nos seus 75 anos de existência, foi um marco para o país. Um marco e um sintoma. Vinte e seis antigos alunos e professores, distanciados das celebrações oficiais (e a maior parte fora do exercício sacerdotal) decidiram juntar fragmentos de memória e reunir descompassadamente histórias e reflexões que tiveram a ver com os itinerários pessoais e comunitários numa casa comum. Assim se construíram análises híbridas de afecto e crítica, muitas vezes na óptica dos caminhos percorridos por cada um. Mas reconheça-se a importância deste livro - será livro, na sua desarrumação despretensiosa e eloquente, reveladora talvez das turbulências do tempo a que se refere? É escrito a quente quarenta anos depois da maioria dos factos. É livre porque não enferma do mais pequeno pendor apologético. É útil porque recapitula factos que podem ajudar a ler um tempo rico e complexo. É grato, porque reconhece ao Seminário um lugar privilegiado no terreno da cultura, da fé, da espiritualidade, mesmo nas encruzilhadas da dúvida e da contestação. É útil porque recapitula gestos proféticos de mestres que fizeram a heróica travessia de Trento para o Vaticano II, em particular no campo da liturgia. É pedagógico porque ensinará aos mais novos que o projecto vocacional de Deus está para além de todos os formatos. É um sinal do Espírito porque transpõe todas as atrapalhações em que a mudança dos anos sessenta foi envolvida. É útil à Igreja e ao mundo porque grande parte dos fenómenos ultrapassam os muros do Seminário, se ligam a uma Igreja universal onde muito de semelhante acontecia. Mergulha no próprio mundo que, sem se aperceber, anda na barca onde navegam crentes e não crentes, leigos, consagrados e abúlicos.
Muito interessante seria se outros Seminários do país contassem a sua história e histórias para todos melhor entendermos os tempos que vivemos, as exigências do mundo, a vocação prioritária da Igreja, o confronto das laicidades e dos laicismos. Há caminhos já andados de que importa tirar lições. Com os vivos, enquanto é tempo, mesmo com as ópticas que cada um oferece à história a partir da sua história. Ver-se-á, ao fim e ao cabo, que os tecidos do Espírito vão juntando fios de aparente incompatibilidade e luz duvidosa no momento em que acontecem. Mas fazem, irmanados com todos, a história da salvação.


PS - O nome certo do livro é “POR CAMINHOS NÃO ANDADOS”.

António Rego

segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Maria José Senos da Fonseca


FALECEU UMA LUTADORA PELA CAUSA DOS MAIS POBRES


Soube hoje do falecimento de D. Maria José Senos da Fonseca. O seu funeral, em Ílhavo, foi, decerto, uma manifestação de respeito e admiração por uma mulher determinada que, à causa dos mais desfavorecidos, deu uma vida cheia de lutas, de canseiras e de preocupações, nem sempre bem compreendidas e nem sempre bem apoiadas.
Ao nível da solidariedade social, na sua expressão mais genuína de uma entrega total aos outros e sem vínculos religiosos, que não são fundamentais para fazer o bem, foi um exemplo de inconformismo perante a situação de pobreza de muitos dos seus e nossos conterrâneos. Teimosamente, com uma capacidade de trabalho capaz de mover montanhas, estava continuamente, no dia-a-dia, à procura das melhores respostas para os mais pobres dos pobres, carentes de toda a ordem, deficientes, vencidos da vida, marginalizados, sem nunca mostrar cansaço face aos desafios que teimava em ultrapassar, nem que para isso tivesse de gritar bem alto a sua indignação perante a passividade de muitos.
A instituição que fundou e durante muitos anos dirigiu, o CASCI (Centro de Acção Social do Concelho de Ílhavo), procurou instalar-se, quantas vezes de forma inovadora, nas zonas mais frágeis da nossa sociedade, mexendo, com larga visão de futuro, nos mais diversos departamentos estatais, com quem estabeleceu parcerias que mostraram a rara intuição de quem estava atenta ao mundo em que se movimentava.
Sempre nutri por esta senhora, de personalidade muito forte, uma admiração muito grande. Senti, por isso, a sua morte, como grande perda para o concelho de Ílhavo. No entanto, resta-me a certeza de que o seu exemplo, tenaz, abnegado e atento a quem mais sofria, deixou frutos que a hão-de continuar entre nós.

Fernando Martins

NA LINHA DA UTOPIA




Afinal, que renovação da Igreja em Portugal?

1. Eis a questão! Depois da visita dos bispos à sede (da unidade) romana, após uma semana de “ecos”, uns mais entusiastas que outros, alguns (primários) demonstrativos do não entendimento destas “realidades”, outros (na reacção ou de “mãos atadas”) defensores de uma serenidade descomprometida, a pergunta sobre o futuro continua… A resposta será mais complexa que um “pedido” de renovação, como se esta significasse o retorno das multidões ou uma ordem de importância das coisas do mundo. Também seja dito, a fundamental aposta nas “razões da fé” de Bento XVI precisa da sua correspondência nas questões fundamentais da Igreja para o séc. XXI. Ou nestas (problemáticas) afastamos a razão?
2. Naturalmente, a renovação desejada passa pelo “fermento” na massa, pelo “sal” na comida, pelo sentido de dignidade divina a proporcionar à história humana, num horizonte de diálogo ecuménico, inter-religioso e intercultural… sendo certo que a ordem das realidades da comunidade Igreja não podem ser lidas com critérios meramente humanos. Se dos documentos desse encontro com o Santo Padre nos vem uma visão de Igreja (ainda) clerical e por isso de necessária renovação estrutural (de todos os que se dizem de “cristãos”) à luz do Concílio Ecuménico Vaticano II (1962-65), o entender (a atender) deste “pedido”, só pode, pressuporá o seguir o exemplo renovado que vem de cima… Como vamos de renovação em Roma? Na evidente reciprocidade, a resposta a esta pergunta será (também) a resposta para a renovação das comunidades locais…
3. Felizmente já vão os tempos em que o “questionar” seria visto com olhos menos positivos. Hoje, o horizonte da liberdade cristã efectivamente comprometida levar-nos-á, em cada tempo histórico, a (re)definir o essencial das renovações em coerência evangélica… Neste ponto, seja dito, é um som difícil de captar, os apelos à renovação da voz de quem foi “fechando” o espírito da pluralidade do Concílio Vaticano II. Como compreender o apelo à renovação local diante da “limitação” por Roma do progresso das chamadas teologias locais (das Américas, da Ásia, de África), espelhada em múltiplos afastamentos de teólogos que por uma “parte” (de pensamento diferente) é-lhes fechado o “todo” do seu esforço de inculturação?
4. Enfim, nada de novo! Se a Igreja fosse uma “entidade” qualquer, podia-se compreender um apelo “dirigido” de renovação de quem (podendo) não renova a casa... Não é fácil, mas o primeiro passo será a abertura teológica às “questões”… Ao ser comunidade “discípula” toda ela, a Igreja, não consegue conciliar essa “falta”… Ou, será que, num pluralismo das comunidades locais, poderão os seus pastores avançar com renovações nos “ministérios”? Para já não falar nas urgentes renovações (aprofundamentos dogmáticos como renovação) de linguagem sobre a fé no mundo de hoje? Claro que se pode aplicar o refrão (conformista) de que a renovação começa pela base… Enfim! E quando esta, nas suas necessidades, colide com (ainda) uma ideia de unidade como uniformidade (em vez de pluralidade)? Ou será uma renovação para continuar (na mesma)? Já agora, na recente grande entrevista da Rádio Renascença sobre esta temática (só com três bispos), onde estavam os essenciais LEIGOS?
5. Vale a pena ler o livro do grande teólogo (na prateleira) Hans Kung, “Porque Sou Cristão?”. Deste(s), num espírito ecuménico e universalista nascerá o futuro. No encontro gratificante onde ninguém perde a identidade! (Ainda estamos aqui?…) Pelo contrário, aprofunda-se a essencialidade que nos une. O tempo o exige para ser possível a renovação em ordem ao FUTURO. (Enfim, tudo isto, nada de novo! Ou melhor, tudo sempre novo, na Pessoa divina que comanda este pesado Barco! Procurámos, numa forma de escrever, não dizer tudo o que tem sido dito, de que está tudo quase bem e que o mundo é que não entende… Temos mesmo de renovar! Mas, sem simplismos, não chega “remendo novo em pano velho”!)
Alexandre Cruz

domingo, 25 de Novembro de 2007

Na Linha Da Utopia



UM MERCADO POLÍTICO?

1. A estratégia do líder da oposição, como resposta ao semelhante modelo de liderança governativo, tem dado azo ao catapultar do conceito de “empresa” para um universo social e político, quase universalizando a ideia de que tudo tem que dar lucro porque para tudo terá de haver um mercado. Já das últimas décadas, mesmo o fenómeno futebol, que lida com multidões, foi trazendo, de sobremaneira, à ribalta, essa obrigatória compensação de um popular investimento, a que se junta a conquista a todo o custo em palco de uma vitória sempre procurada, e onde, a certa altura, pouco importa o que acontece no meio, ou qualidade, do jogo.
2. No plano sociopolítico, o árbitro acabará por ser o critério. E este vai-se moldando ao jeito do melhor terreno para escolher o melhor ponto de partida rumo à vitória. Ver um partido político (que se julgava ser um espaço criativo e comprometido eticamente na visão de coerente proposta social) ao jeito da gestão de uma empresa (divinização da empresa?) significará centrar na lógica de mercado-lucro toda a visão de vida e da sociedade. No pressuposto da salvaguardada dignidade, nada temos a opor ao “mercado” quando ele representa o esforço da proposta concorrencial na base da qualidade… Mas, transferir tudo (e as ideias sociopolíticas especialmente) para a lógica de consumo não será o fim das ideias, ou fazer delas um negócio?
3. Neste cenário para que caminhamos (?) as ideias irão contar cada vez menos, e as lideranças provirão do laboratório fermentado da oportunidade estratégica, em vez de tudo brotar duma serena e profunda visão da vida experienciada e dos valores sociais que se buscam. São algumas, neste corredor da fama, as realidades que espelham a pequenez defraudada das ideias. Poderemos colocar neste escalão menos superior, por exemplo, muitas das linhas de pensamento-acção das juventudes partidárias? Serão estas, na essência, hoje, uma expectativa de potencialidades esfumadas? A liberdade, para uma igual dignidade humana (e de oportunidades), que nos trouxe ao presente, está a deixar-nos a meio do caminho, prisioneiros (agora pelo não andar das ideias) da quantidade (populista)?
4. Em Portugal, quando da expansão dos canais TV, esse “mercado” omnipotente trouxe-nos os maiores espectáculos da vulgaridade. Deu-se mais o que mais vendia! Na generalizada indiferença de uma possível sociedade democrática, democracia ao que parece estar a ser deixada só para o parlamento (que temos…), estaremos a caminhar para este beco mercadorista em termos sociopolíticos? Se de um lado do jogo são os números que reinam e do outro a resposta eleva a “empresa” como modelo de vida, que futuro social?! Antes do mercado, já havia (e há) pessoas. (E ainda - “Mercado”: Também como o regularmos “qb” se nos deixarmos comandar por ele?)

Alexandre Cruz

DIA INTERNACIONAL PARA A ELIMINAÇÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES



Vivemos, infelizmente, num mundo cheio de violência. Desde sempre, aliás, a violência foi uma triste realidade na humanidade, que se desejava fraterna e solidária. O tema da violência faz parte dos nossos quotidianos e não admira que haja, portanto, um dia consagrado à luta contra a que é exercida sobre a mulher. Normalmente por homens, maridos e outros, numa atitude covarde de quem, sabendo-se fisicamente mais forte, descarrega a sua ira contra a mulher. Gostaria de ver esses valentões a desafiarem um qualquer da sua igualha, mas mais possante…
Sabe-se que, infelizmente, há muitas mulheres espancadas que calam, temerosas ou por vergonha, a agressividade de que são alvos. Também, julgo eu, numa tentativa de evitar o desmembramento da família, com consequências gravíssimas para os filhos, eternas vítimas. Mas penso que estas mulheres, vítimas silenciosas, deviam merecer mais apoio da sociedade e das instituições a vários níveis. Não estamos em tempos de uma pessoa sofrer violências toda a vida, tanto de ordem física como psicológica. Há que estudar e implementar estruturas de apoio às vítimas de maus-tratos. Sei que existem algumas instituições para isso, mas também sei que tudo corre bem nas primeiras impressões, caindo as mulheres, depois, em situações de sobrevivência deprimentes.
Que este dia sirva, realmente, para todos nos debruçarmos sobre esta questão. A vida tem de ser vivida em ambientes de paz e de compreensão, de amor e ternura, mas nunca em climas de violência.

FM

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS – 48


PEDRO SEM

Caríssima/o:

O nosso primeiro neto nasceu no Porto, como aliás todos os outros, à excepção dos que vivem na Escócia.
Portanto, e se mo permitis, indo à descoberta das suas raízes, dedico a lenda do Pedro Sem ao Tomás, já que a esta cidade do Porto anda ligada, de uma forma especial, a sua Família paterna.
Aparece assim na versão de Viale Moutinho:

«Bem, mas uns escrevem com S outros com C, mas será com S. Pedro Sem e não Pedro Cem. O homem vivia naquela torre hoje adossada ao antigo paço episcopal. Era rico, usurário e tinha pena de não ser nobre. Mas um dia arranjou um expediente através de um nobre arruinado a quem saldaria a dívida se o outro lhe desse a filha em casamento. Deu, seja: vendeu-a assim. E em plena boda, num belo dia de sol, foi anunciada a chegada dos seus barcos vindos do Oriente, carregados de riquezas. Pedro levou os convidados à varanda para verem chegar as suas naus à foz do Douro.

E suspirou que Deus o poderia empobrecer. Naquele instante produziu-se uma tempestade tamanha que estragou a festa. Os barcos, um a um, afundaram-se. E toda a gente fugiu de ao pé dele, assustadíssima.

Reconheceram-no, tempos depois, mendigando pelas ruas da antiga baixa portuense, estendendo a mão à caridade pública:

-Uma esmolinha para o Pedro Sem que já teve muito e agora nada tem!»
[V. M. , 210]

Manuel
Foto: Torre de Pedro Sem, no Porto

sábado, 24 de Novembro de 2007

Os anos passam


Os anos passam
Apressados
Como vento fugidio
Em tardes de inverno
Friorento

E agora sinto
Feliz
Que o correr dos anos
Deixou marcas
Bonitas
Na ternura do teu
Olhar


Fernando Martins
24-11-207

O DIÁLOGO CIÊNCIA-RELIGIÃO

A história das relações entre a religião e a ciência está cheia de conflitos. Por vezes, foi a guerra declarada.
Falando desses conflitos, é inevitável que venham à ideia sobretudo os casos de Galileu e Darwin. Ora, na raiz do equívoco, esteve - e ainda está, quando se pensa nos criacionistas americanos, que defendem o ridículo de uma leitura literal da Bíblia - o facto de se não ter percebido que a Bíblia não é um livro de ciência, mas de carácter religioso. Nisso, Galileu foi mais avisado do que os seus censores: a Bíblia não diz "come va il cielo, ma come si va in cielo", pois não é um livro de astronomia, mas de religião.
Percebeu-se, finalmente, a autonomia de cada uma das esferas e dos respectivos campos de intervenção. Esta compreensão também significa que a ciência, apesar da acumulação dos seus sucessos gigantescos, não pode reivindicar o monopólio da racionalidade, como se fosse a única via de conhecimento verdadeiro. A razão é multidimensional.
O fim dos conflitos não significa que não possam e devam dialogar, com vantagens mútuas. É sabido, por exemplo, que o cristianismo, ao desdivinizar o mundo, pela fé bíblica na criação, abriu espaço à investigação científica livre. Por outro lado, também a partir da lição que ela própria teve de aprender, a teologia prevenirá para o perigo de imperialismo da ciência.
A religião tem de colocar-se no seu domínio próprio e saber claramente que não pode contradizer a ciência. Também aprendeu que a experiência religiosa tem um carácter "verificável-plausível": a fé não pode ser cega nem irracional e tem de dar razões, que convencerão uns e não outros, mas são razões publicamente argumentáveis.
A teologia está atenta aos avanços da ciência e respeita a sua autonomia, que a impede de utilizações apologéticas indevidas. Mas, como escreve o teólogo A. Torres Queiruga, "tendo em conta o enriquecimento do conhecimento do real trazido pela ciência, reelabora a partir de si mesma e na sua lógica específica os seus próprios conceitos".
Assim, por exemplo, se, tradicionalmente, se pensou que, enquanto a realidade sublunar estava submetida à mudança e à corrupção, a supralunar era incorruptível, imutável e perfeita, desde Galileu sabemos que não há esta diferença e que a realidade empírica toda é contingente, impondo-se com mais intensidade a pergunta: porque existe algo e não nada? Precisamente a contingência radical leva a pensar o Absoluto, fundamento último da realidade contingente.
Também os cientistas são humanos e, por isso, põem inevitavelmente perguntas que transcendem o domínio da ciência: qual a origem última do mundo, o seu fundamento e o seu sentido? Estas perguntas não têm resposta científica, pois, referindo-se ao todo, ultrapassam a capacidade do método científico da verificação empírica. Trata-se de questões de ordem metafísica e religiosa, para as quais, simplificando, há três respostas.
Uma é a do agnosticismo quase místico. É assim que o filósofo Luc Ferry diz: "Como todos os crentes, tenho, sem dúvida, o sentimento de que há um mistério neste mundo. Mas não desejo ir além desta constatação."
Outra, no limite, diviniza a Natureza como força criadora do novo. O filósofo M. Conche acaba de escrever que Deus é inútil, pois a própria Natureza cria seres que podem ter ideias de todas as coisas, inclusive da própria Natureza. Não se trata, porém, da "natureza oposta ao espírito ou à história ou à cultura ou à liberdade, mas da Natureza omni-englobante, a physis grega, que inclui o Homem nela. Essa é a Causa dos seres pensantes no seu efeito."
Ao crente monoteísta parece mais razoável uma interpretação da realidade que co-implica a presença do Deus transcendente, amor pessoal e criador. Afirma-se desse modo a infinita transcendência de Deus e a sua mais íntima presença à criatura, tornando-se então claro o que parece paradoxal: precisamente porque Deus está sempre presente como criador, faz o mundo fazer-se autonomamente, seguindo as leis próprias da natureza e a liberdade.
Anselmo Borges,
In Diário de Notícias

sexta-feira, 23 de Novembro de 2007

COM LIMITAÇÕES TÉCNICAS

Com algumas limitações, impostas pela ausência do meu computador, em hora de reparação, que estas coisas não duram sempre em bom estado, sinto-me na obrigação de informar os meus leitores desta realidade. O nosso computador, aquele que utilizamos no dia-a-dia, é o grande baú onde guardamos, em diversas caixas, os nossos diários e aquilo de que mais precisamos nos momentos certos. Hoje, e durante uns dias, estarei sem esse baú. Mas por cá continuarei, como mandam os hábitos estabelecidos e por respeito, também, pelos meus muitos amigos.
Fernando Martins

quinta-feira, 22 de Novembro de 2007

NÃO FIQUE PARADO A VER PASSAR O MUNDO

Tenho para mim que se um leitor meu ali-nhar com as minhas sugestões já valeu a pena o que escrevi no meu blogue. É sinal de que há gente atenta ao que se diz e, mais do que isso, acredita na verdade com que falo e escrevo.
Há dias um leitor disse-me, com toda a naturalidade, que tinha aderido a uma oportunidade de voluntariado, seguindo o que eu tinha recomendado. E acrescentava que estava muito sa-tisfeito, porque, na aposentação, sentia necessidade de se envolver em qualquer coisa de útil. Congratulei-me, obvia-mente, com isso.
Vem isto a propósito de às vezes, nas minhas caminhadas por aí, deparar com os cafés cheios de gente, notoriamente na situação de aposentada. Dias e dias sem nada fazer de importante, quando a sociedade está tão carente de que a ajudemos a progredir. E não é verdade que há tantas hipóteses de o fazermos, nos mais variados campos da solidariedade e em tantas vertentes da vida?
Então, caro leitor, encha-se de coragem e dê uma volta para descobrir onde é que pode ser útil, pondo à prova as suas capacidades humanas e criativas. Não fique parado a ver passar o mundo…

FM
Foto do site Diário de Medicina Preventiva

Na Linha Da Utopia


AJUDAR É NO BANCO ALIMENTAR

1. Por vezes poderemos andar tão envolvidos em grandes projectos para o resto do mundo que esquecemos que o mundo mais próximo terá de ser esse início. Sublinhe-se que a renovação da humanidade longínqua passa, necessariamente, pela nova “chama” solidária para com a humanidade próxima e diária. Claro, uma e outra, perto como longe, esse ideal transformador quer agarrar, envolver, gerando aqueles novos sentimentos que nos despertam para o essencial da vida, esta que para ser plena obriga a reparar (n)as situações difíceis de cada outro como nós. Afinal, “somos” com o outro!
2. Nos últimos anos já nos fomos habituando, por estas alturas pré-natal, tanto a proclamar os números da pobreza e da fome (bem mais de duzentas mil pessoas em Portugal), como a destacar projectos, tanto diárias e semanais nas comunidades locais, como as grandes e exemplares campanhas como o Banco Alimentar. Mas falta algo de muito importante, parece que as potencialidades desta sensibilização nacional tardam em chegar a todos, mesmo aos que estão nos essenciais processos de formação, numa necessária reinterpretação “indutiva” de tudo, onde a realidade (hoje humanitária) obriga à renovação das teorias (da razão), para mais e melhor.
3. Vendo de dentro (pois de “fora” as ideias precipitadas, e logo redutoras, também podem abundar), no nosso tempo, o Voluntariado afirma-se como um valor essencial e de efeitos transversais sensibilizantes para a sociedade de todos. O viver o Voluntariado (e todos o seremos de algum modo…, também na verdade de que existem variados níveis de compromisso com o voluntariado) reveste-se de uma grandeza que vence as simples ideias teóricas tantas vezes simpáticas mas pouco realmente serviçais. O Voluntariado cria proximidade surpreendente entre os valores universais da dignidade humana e a sua realização nas situações mais variadas e tantas vezes tão difíceis.
4. É por isso que, insistimos volta e meia nesta tecla, falar de educação e formação obrigará à recepção em sistema educativo da experiência de inúmeras organizações (muitas delas transnacionais) que promovem a solidariedade sem fronteiras antecipando o futuro de unidade. Também estas organizações haverão de crescer cada vez mais para “partilharem” a sua visão calorosa que, muitas vezes, poderá iluminar de calor humano a partir da prática esperançosa a frieza por vezes de sistemas teóricos estruturalistas menos abertos.
5. Mesmo diante de todos os prós-e-contras que tudo quanto é humano pode ter, é imenso o potencial de valor educativo (muitas vezes ainda não devidamente abraçado por todos os quadrantes sociais e educativos) de acções e campanhas de Voluntariado como esta do Banco Alimentar. Afinal, numa cidadania humana e atenciosa, toda a sociedade está interessada, mesmo como sensibilização e co-responsabilidade social. (Os interessados em colaborar na Campanha podem contactar pelo 234 381 192 ou 962 814 355.) Nos dias 1 e 2 de Dezembro, AJUDAR É NO BANCO ALIMENTAR! (http://www.aveiro.bancoalimentar.pt/)


Alexandre Cruz

LIÇÃO DE PORTUGUÊS


Um homem rico estava muito mal, agonizando. Pediu papel e caneta. Escreveu assim:"Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres." Morreu antes de fazer a pontuação.
:
A quem deixava a fortuna?
Eram quatro concorrentes.

1) O sobrinho fez a seguinte pontuação:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

2) A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito:
Deixo meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

3) O padeiro pediu cópia do original. Puxou a brasa prá sardinha dele:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

4) Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta interpretação:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres.
:
Moral da história: Assim é a vida. Pode ser interpretada e vivida de diversas maneiras. Nós é que colocamos os pontos.
E isso faz toda a diferença.
:
NOTA: O Acácio Rodrigues, da UA, teve a amabilidade de me enviar este texto, que me recorda, com que saudades!, os tempos de uma aula de Português, em que o mesmo texto era dado a cada aluno para que fizesse a pontuação. Era assim que se aprendia, noutros tempos e penso que ainda hoje, a partir de casos concretos.
FM

Ainda as Novenas

É LINDO RECORDAR COISAS PITORESCAS DO PASSADO


É lindo recordar coisas pitorescas do passado. Também participei em novenas: uma à Sra das Dores em Verdemilho, outra à Sra da Boa Viagem na Gafanha de Aquém e outra naquela capelinha que fica frente ao Largo de St. Johns na Gafanha da Nazaré. No final havia a tremoçada, às vezes com uns amendoins à mistura, e pelo menos uma vez houve vinho a acompanhar. O encomendador da novena era um homem. O termo novena pode ter sido adaptado a estes eventos em que participavam nove meninos e nove meninas pois verdadeiramente designa um período de oração de nove dias seguidos.Creio que hoje as crianças ainda gostariam desta prática se lhes fosse solicitada. Esse papel pertence aos adultos que deixaram cair bons usos e costumes que faziam parte da nossa identidade.Era bom que se ocupassem as mentes juvenis com algo simples e saudável que lembrariam sobretudo numa etapa mais calma da sua vida.Á S.ta Maria Manuela de Tabueira ainda devo vinte e cinco tostões por me ter limpo os cravos das mãos, isso já na área das promessas. Tenciono cumpri-la só que agora pagarei em euros. Ela sabe que gosto de recordar a promessa e a dívida.

João Marçal
NOTA: Obrigado, João, pela tua achega. É assim que se constrói a história da nossa terra e da nossa gente. Manda sempre, que eu acolho tudo o que vem pela positiva. Mas o convite vai para toda a gente.
FM

Bispo de Aveiro em entrevista ao Correio do Vouga



"NO ENCONTRO COM O SANTO PADRE,
SENTI A PRESENÇA
DE TODA A DIOCESE COMIGO"


Correio do Vouga - A Imprensa transmitiu a ideia de que Bento XVI se manifestou desagradado com a realidade da Igreja portuguesa. Foi essa a impressão com que ficou?
D. ANTÓNIO FRANCISCO DOS SANTOS - Compreendo que a comunicação social, numa leitura marcada pelo imediatismo, tenha entendido a mensagem do Santo Padre como se fosse uma nota de desagrado face à Igreja em Portugal.
Mas a realidade vivida em Roma e a mensagem recebida do Santo Padre revelam-nos outros sentimentos, apontam-nos outros caminhos, relançam-nos noutros desafios e exigem-nos sobretudo respostas noutros horizontes.
A visita Ad Limina proporcionou aos bispos portugueses tempo de oração, de partilha fraterna entre todos, de diálogo com as Congregações Romanas e sobretudo esses momentos únicos que são o encontro pessoal de cada bispo e o encontro de todos os bispos com o Santo Padre.
No diálogo pessoal que tive com o Santo Padre e nas orientações dele recebidas, senti o acolhimento afável, a solicitude fraterna e o estímulo confiante de Bento XVI. É de esperança esta hora que vivemos em Igreja.
O Santo Padre dialoga connosco, escuta o que lhe dizemos e perscruta atentamente os caminhos percorridos e os projectos pastorais acalentados. Deste encontro, brota uma imensa alegria e emerge um incontido ânimo de viver e trabalhar em comunhão com o sucessor de Pedro.
:
Toda a entrevista no Correio do Vouga

Discurso do Papa, um só sentido, muitas interpelações


Ainda bem que o discurso do Papa aos bispos portugueses não passou despercebido e deu ocasião a muitas interpretações e reflexões, não faltando quem julgasse e pensasse que o Papa os censurou duramente e os humilhou perante os seus diocesanos, a Igreja e a sociedade. O discurso está publicado desde a primeira hora. Cristãos e agnósticos reagiram, mais estes que os outros, e pronunciaram-se, nem sempre com critérios correctos de leitura e apreciação, tanto sobre o Papa como sobre o seu discurso.
Ouvido Bento XVI, achei as suas palavras oportunas e interpeladoras para o momento que vivemos. Falou-se, por lá e por cá, na deficiente tradução. Mas isso em nada impede a compreensão e muito menos uma tradução viva e coerente, feita por via de zelo, reflexão e acção. Ora esta depende dos bispos em conjunto, de cada bispo com os seus colaboradores, dos cristãos acordados e dispostos a andar e a colaborar, para que a Igreja tenha sentido no presente e seja orientação para o futuro dos crentes.
Aos atentos não lhes passa despercebida a preocupação dos bispos para que, num mundo em mudança cultural e ante os ataques frequentes à Igreja e à sua acção pastoral, bem como às instituições fundamentais da sociedade, como a família e seus membros, se encontrem caminhos novos capazes de traduzir hoje para todos, de modo compreensivo e motivador, o Evangelho de sempre. No campo que é próprio de cada um, com preocupação idêntica e iguais dificuldades se debatem muitos outros responsáveis sociais, em relação aos seus objectivos. O relativismo, a preocupação de nivelar por baixo, o individualismo exacerbado, a anarquia mental e moral põem ao sabor do vento corações e cabeças, muitas casas onde vive gente séria, que quer acertar.
A dificuldade de renovar a comunicação e de construir com seriedade e estabilidade é da Igreja, mas também dos pais, dos educadores, dos governantes, dos comunicadores, de todos quantos servem, com ideal e sentido, as pessoas e a comunidade. Os bispos, no seu conjunto, sentem o desafio, não desistem, não enterram a cabeça, não derivam para margens de maior facilidade. Podem não ver claro, mas não fecham os olhos, nem cedem ao mais badalado. Também não estão apavorados com a diminuição dos que frequentam os templos.
No discurso há advertências e certezas para reflectir. O Papa não inventou, não ralhou, não se deparou com um caso raro e singular. As suas preocupações são as da Igreja numa Europa que deixou inquinar as raízes e perdeu o rumo. Não são muitos os crentes preparados para enfrentar os desencontrados vendavais que a fustigam. O Vaticano II não está cumprido. A Igreja que dele recebeu uma luz singular, centrada em Jesus Cristo e na sua mensagem, é a Igreja Comunhão e Missão, com suas riquezas e consequências, que isto comporta. Dar consciência aos leigos da sua dignidade, dar lugar aos seus direitos e deveres, não tem tido caminho fácil. A ferrugem do tempo, que dá pelo nome de clericalismo e tradicionalismo vazio, bem como o desequilíbrio que entrou nas tarefas sacerdotais e a dispersão de vida de muita gente, não têm favorecido mudanças pastorais inadiáveis. A isso se refere muito justamente o Papa, quando fala de “construir caminhos de comunhão, encontrar novas formas de integração na comunidade, mudar o estilo de organização da comunidade eclesial e a mentalidade dos seus membros, em ordem a uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado”. Assim se realizará na Igreja a unidade co-responsável. A exigência da iniciação cristã, que o Papa sublinha e sobre a qual os bispos portugueses vêm reflectindo, é convicção comum de que se trata do caminho certo para evitar mais baptizados pagãos, termos mais convertidos ao Evangelho de Cristo e mais cristãos adultos que sejam rosto sereno e corajoso de uma Igreja viva e comprometida. Há já caminhos andados neste rumo, mas ainda muitos a exigir potentes máquinas de surriba, antes que se tornem viáveis.
Acalmadas as críticas, os bispos, movidos por dever e convicção, mais que por emoções, irão, com outros cristãos, “ver, julgar e agir”. Há campo vasto em aberto.
A viagem vem sendo longa e penosa, mas a missão urge e desistir não é da Igreja.

António Marcelino

quarta-feira, 21 de Novembro de 2007

ARES DO OUTONO


VEIO A CHUVA

Veio a chuva
Serenamente
Para aquecer
O ambiente

Veio a chuva
Mansamente
Para nos lavar
A mente

Veio a chuva
Tranquilamente
Para nos fazer sonhar
Longamente

Veio a chuva
Ternamente
Para dar vida
A toda a gente

Veio a chuva
Num repente
Para nos saudar
Levemente

A chuva veio
Sem vento
Sem pressas
Sem sinais frios
E brutos
Para nos dizer
Educadamente
Que a vida
Sem ela
É seca
É escuridão
É sede
É fome
É luta
É morte
Fernando Martins
Foto do "sapo"

Na Linha Da Utopia

Um muro que se levanta

1. Se alguém ousasse escrever a história dos muros escreveria das páginas decisivas da história humana. O erguer de muros con-tém em si uma busca de separação, no mí-nimo desconfiada, no máximo…mortífera. Na história dos muros (se as pedras falassem!) está inscrito muito do sofrimento humano. Os muros da separação, quer de origem ide-ológico-política, quer do simples estremar a fronteira da propriedade, espelham a dis-tância entre o ideal sonhado de convivência humana e as realidades tão cruéis e longínquas da sua não realização.
2. Se poderíamos, simbolicamente, pensar que com a queda do famoso Muro de Berlim (9 de Novembro de 1989), aberta a era da globalização, já não veríamos mais o betão dos grandes muros divisórios, então, estávamos bem enganados. Na Europa de hoje, quase que parece que o Muro que dividia Berlim pertenceu a outra história de outra humanidade: no centro da Europa pós-guerra, foi concluído na madrugada de 13 de Agosto de 1961, tinha 66 km de gradeamento metálico, 127 redes metálicas com alarme, trezentas torres de observação e 255 pistas de corrida para os cães de guarda… Muro que terá provocado a morte a 80 pessoas, sendo muitos milhares os que foram presos na tentativa de fuga.
3. Esses muros “da vergonha” humana, noutros locais e porventura com outras fundamentações, continuam a ser erguidos. Um dos quais, gigante muro em construção, procura vedar as fronteiras entre os EUA e o México. Imponente investimento que em géneros alimentares daria para mundos e fundos! Esse muro procura ter pelos 5 metros de altura, passando cuidadosamente por diversos terrenos, entre areias desérticas e possíveis inundações. Tudo previsto, numa construção que procura a todo o custo evitar e entrada de emigração ilegal, e ainda com a preocupação de uma estética (?!) que seja agradável a olhar. Grotesca ironia humana que percorre já os 112 km erguidos este ano e acompanhará mais 360 km planeados para o ano 2008.
4. Enquanto algum debate norte-americano se vai divertindo sobre as possibilidades estéticas do muro separador, vão-se usando painéis da guerra do Vietname, “chaminés” de ferro e cimento no deserto do Arizona como pilares para as placas separadoras, tudo para não caber o dedo de um pé. Será esta “fuga ao mundo” dos pobres e desprotegidos (emigrantes) a solução? Afinal, de que vale a proclamada diplomacia política ou estaremos no seu fim decretado na construção de novos muros na chamada era global? Um “contraditório” da “arquitectura” relacional dos seres humanos bloqueia a ideia de que as construções essenciais deste século, à partida, seriam pontes. Que distância e ao mesmo tempo que proximidade com o séc. XX. Não vá a Europa clonar a ideia de levantar um muro (físico), porque nas ideias persiste num certo mundo faustoso o “lava as mãos” diante das crescentes concentrações de poderes e desigualdades. Também aqui, democraticamente, não seria Ano da Igualdade de Oportunidades?!

Alexandre Cruz



Foto: Muro de Berlim em construção

A força dos Blogues



O mundo da blogosfera é mesmo interessante. Quem tem um blogue pode sentir isso, com toda a naturalidade e realismo. Escrevemos sobre variadíssimas facetas da vida, desde a mais simples à mais complicada, divulgamos aquilo de que gostamos, tornamos público o nosso diário por vezes mais intimista, alertamos para o que, a nosso ver, está mal, aplaudimos, com calor, o que está bem. Isto tudo sem pressões, sem balizas que não sejam a nossa consciência, os nossos valores e as nossas regras de vida.
Com muita frequência recebo notícias de pessoas que não via há anos, estabeleço contactos com gentes que nunca vi, recebo informações de todo o mundo. E perguntas, muitas perguntas, a que procuro responder com toda a prontidão, tendo de recorrer, frequentemente, a amigos e conhecedores dos temas que me põem.
Um dia destes, do Funchal, puseram-me questões relacionadas com S. Gonçalinho; ontem, pediram-me ajuda para localizar o editor de um poema de Fernando Pessoa, que há muito tempo publiquei no meu blogue; hoje, de Itália, alguém que quer entrar em contacto com o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré. A lista dos contactos seria muito grande para a divulgar aqui. Mas estes três exemplos, de três dias seguidos, dão uma ideia da verdadeira importância da blogosfera.

FM

Homenagem a um professor de matemática de Aveiro

Prémio Nacional de Professores para Arsélio Martins



Será enfado? "Com esta coisa quase deixei de ter tempo para o que gosto..." Modéstia? "Isto é circo", diz, referindo-se aos autocolantes que espalharam a sua cara por tudo o que é parede da escola - "Estamos muito contentes!". Ironia? "Se calhar ganhei porque o júri reconheceu a minha tralha consolidada."
Talvez uma soma disto tudo ou nada disto. Há uma verdade e é esta: a vida de Arsélio Martins, 59 anos, quase deixou de lhe pertencer desde que foi anunciado como vencedor da primeira edição do Prémio Nacional de Professores. Não é que ter jornalistas à perna durante uma semana o aborreça; só que ele tem cada vez menos tempo. "E o que eu mais preciso enquanto professor é de tempo", explica, depois de uma aula de 90 minutos do 10.º B da Escola Secundária José Estêvão, em Aveiro.
A escola está "muito contente", já percebemos. Ele, professor de Matemática há 35 anos, está sobretudo "honrado" por ter sido distinguido no seio da escola de José Pereira Tavares (1887-1983), professor e reitor do então Liceu de Aveiro. "Ao pé deste tipo sinto-me um nabo." Não há quem confirme esta informação. Funcionária de olhos verdes escondidos atrás de uns óculos: "O professor Arsélio é espectacular. É um homem pequeno mas uma grande pessoa." Ana Santos, aluna do 10.º B: "É diferente de todos os professores que já tive. Consegue tornar a Matemática mais simples e explica que ela está em tudo o que fazemos." Maria da Luz, professora de Matemática: "Não desiste enquanto não faz os alunos perceber o que ele está a explicar." Alcino Carvalho, presidente do conselho executivo: "Não se esgota na faceta de professor."
E agora, professor Arsélio? "Eu sou basicamente um produto da educação. Sou filho de camponeses de Santo André, Vagos, fui criado por uma irmã, quis ser padre mas a minha família não deixou, tentei ser marinheiro porque achava que era a melhor maneira de ser poeta." Não sabe se foi por acaso que foi parar a um curso de Matemática Pura. "Não era bom nem mau aluno, mas não houve nenhuma paixão assolapada."
Com verdadeira paixão fala da sua intervenção cívica. Foi dirigente associativo, envolveu-se na política (é deputado municipal pelo Bloco de Esquerda), tem um blogue (aveiro.blogspot.com/). No campo da educação, foi presidente do conselho executivo da José Estêvão, orientou estágios, dirigiu o Centro de Formação de Escolas de Aveiro, foi co-autor dos programas da disciplina, fundou o Sindicato dos Professores do Norte.
Na sala de aula - "a parte mais difícil, a relação directa com os alunos, mas também a que mais me realiza" - o que mais lhe interessa é "não perder nenhum aluno". "Quando perco um é uma desgraça completa", diz. E o segredo, se é que é segredo, é "arranjar estratégias que possam ir ao encontro das necessidades de cada um".
Defende que a melhor forma de potenciar o sucesso numa disciplina como a Matemática é permitir que os alunos tenham o mesmo professor ao longo de um ciclo de estudos - "eu tenho de ter persistência, respiração e tempo". Não dá "nada em papel aos alunos, para eles se habituarem a tirar notas", constrói com as próprias mãos sólidos geométricos para mostrar aos estudantes, maneja com destreza o quadro interactivo - "uma óptima ferramenta". "Sou um professor clássico que foi incorporando tudo o que há de moderno."
Mas não é um professor modelo. "Ninguém deve imitar-me. Meti muita água. Mas faço o que gosto e melhor do que isso não há no mercado."

Sandra Silva Costa

In PÚBLICO de hoje

NO RODOPIO DA VIDA


E assim vamos no ciclo do tempo. Lento, veloz, sereno, revolto. O tempo que se recicla e nos recicla. Lança-nos no retorno das coisas, nas repetições da paisagem, do sol, da chuva, da terra, da semente, do sono outonal, do renascimento, numa teimosia de renovar e reviver dentro do mesmo espaço e duma duração que se sente mas se não vê. O tempo, afinal, não existe. Existimos nós que passamos, morremos continuamente para a etapa anterior e nos refrescamos no presente e no advir. Sentindo sempre que tudo é volátil, passageiro, aparentemente insignificante. Experiências, descobertas, emoções, com o rodar do tempo esvaem-se, envelhecem, parecem sem sentido.
E, todavia, a esperança que sempre emerge mesmo das mortes, dos outonos, das sementeiras profundas, das árvores desnudadas e tristes, reaviva-nos irresistivelmente. De tal modo que a morte continua a ser visceralmente repugnante. Temos sempre preparado o alerta máximo para qualquer ameaça próxima ou distante. Mesmo com a fé pronta para entender a ressurreição e a eternidade sempre extraímos de cada breve momento a seiva plena como se fora um composto de eternidade. Foi Deus quem nos plantou na alma este instinto de eterno que ultrapassa o nosso raciocínio e mesmo as formulações da nossa fé. Está no âmago do homem. Com a vinda de Jesus cada pequeno gesto em torno da árvore da vida ganhou um significado novo. Não se trata duma armação lógica, mas da certeza íntima de que Ele remiu todos os segundos do tempo e da eternidade e por isso tudo ganha uma interpretação transcendente. Olhamos, assim, de outro modo para as Estações, a natureza, o próximo e o longínquo, a tempestade e o tom primaveril que sempre irrompe das tardes mais cinzentas. O fim do ano litúrgico, a coroa de todos gestos de redenção, a esperança do renascimento no esboçar dum advento intemporal mas prenhe da história redentora de Jesus. Assim nos apercebemos que o Natal é muito mais que uma soma de objectos trocados. É o grande jogo do afecto pela vida nos seus diferentes tons. É uma liturgia, uma parábola, uma história mais que mágica. Real. Com a estrela, os magos, o canto dos anjos, o Menino reclinado, a humanidade em festa porque redimida. Seja em que tom for, este hino de Deus no meio dos homens nunca pode deixar de ser repetido. Mesmo que o Natal pareça mais um ciclo com menos imaginação.

António Rego

terça-feira, 20 de Novembro de 2007

Na Linha Da Utopia


Os interesses. E os princípios?

1. O debate era sobre a globalização e ainda sobre o “choque” do rei de Espanha com Hugo Chávez. Não em Fórmula 1, mas quase! Vimos só a parte final. O suficiente para ouvir de gente diplomata e especialista a confirmação de uma ideia (inferior) que cada vez mais tem feito caminho: a noção de que, quando há grandes “interesses”, os “princípios” ficam de parte. Aplicavam esta teoria sem qualquer dificuldade à vinda de Chávez a Portugal como ao escravo império económico asiático. Mas mais interessante ainda, comprovavam que o Ocidente tem grave carência de líderes políticos.
2. Não deixa de ser interessante como a relativização dos princípios e a supremacia dos interesses (no caso energético-petrolíferos) convivem facilmente com a denúncia da ausência de lideranças. Ou seja, afirma-se o que se critica! Será por estas contradições cabais que alguns afirmam que estamos no fim da razão (política)?! A velocidade dos acontecimentos, propiciadora da lógica da quantidade e do esbatimento da clarividência das ideias vai, assim, fazendo o seu lastro percurso, onde bem e mal, verdade e mentira, caminham serenamente a par…
3. Por vezes parece que diante da “desordem” falta claramente deixar que uma “razão profunda” venha oferecer o tempero, o equilíbrio, a lucidez capaz de criar a ponte entre os interesses (legítimos, porventura) mas sem abdicar dos “princípios” em que queremos alicerçar toda a construção. Será que não reparamos que desprestigiando os “princípios” valorativos estaremos no princípio da desregulação cabal dos próprios interesses, o mesmo será dizer, no princípio do fim (a prazo). A ordem da racionalidade (razoável), para o ser, precisa de princípios inalienáveis que ofereçam uma luz de dignidade à própria vontade. Quando não, com facilidade, quereremos (como interesse) aquilo que humanamente não devemos.
4. Se dos lados asiáticos, da América latina ou de África, a busca democrática vai fazendo o seu sofrido caminho numa clara dificuldade em coexistir com a diferença, verdade se diga que esta denunciada carência de líderes também tem tido a confirmação da chamada potência (em queda) norte americana. Os candidatos democratas em ordem às eleições presidenciais, Hillary Clinton e Obama, têm andado (vergonhosamente com ameaças e ofensivas pessoais) “à turra e à massa”! Quanto ao modelo político de Bush, já nada a dizer! Pelo ritmo de descredibilidade democrática a que os povos se vão habituando, não admira que quem prometer um espectáculo diferente comece a ser rei e senhor. Pobreza de ideias. Talvez tenham(os, os líderes) de regressar à escola (com) os Diálogos de Platão, onde o entendimento, as virtudes e os princípios (re)começam a ser a “base” do Ocidente!

Alexandre Cruz

FÁTIMA: Igreja da Santíssima Trindade


Celebrações oficiais

Dezembro

No 1º Domingo do Advento, 2 de Dezembro de 2007, iniciar-se-ão as celebrações oficiais na Igreja da Santíssima Trindade.
Assim, durante o período de Inverno, terão lugar na nova igreja do Santuário de Fátima, as seguintes celebrações, do programa oficial do Santuário de Fátima:
- Sábados: Missa das 11h;
- Domingos e dias santos: Missas das 11h, 15h e 16.30 h, e Vésperas cantadas, às 17.30 h;
Para o mês de Dezembro de 2007 estão ainda agendadas as seguintes celebrações na nova igreja:
- 7 de Dezembro: Vigília da Imaculada Conceição (início às 21 h na Capelinha das Aparições);
- 24 de Dezembro: Vigília Natalícia – início às 22.15 h; celebração da Santa Missa às 23 h;
- 31 de Dezembro: Celebração de Acção de Graças pelo ano findo – 22 h;
Diariamente, o horário para visitas à Igreja da Santíssima Trindade mantém-se, das 11 h às 18 h, fora do tempo de celebração.


NOTA: Há dias recebi alguns protestos sobre as dificuldades em entrar na igreja da Santíssima Trindade, em Fátima. Aqui ficam os esclarecimentos que prometi.

Bonito

Vejam, que vale a pena

http://uk.youtube.com/watch?v=LnLVRQCjh8c

Árvores de Natal do tamanho da nossa generosidade


Com a chegada de Dezembro, o mês de preparação do Natal, nas ruas, nas casas e nos nossos corações, parece que anda no ar já uma competição engraçada: há muitos a quererem montar a maior e a mais vistosa Árvore de Natal do País. Não vejo nenhum mal nisso, mas gostaria de reflectir um pouco com os meus leitores sobre esta realidade.
Conforme reza a tradição, o Natal é, para muitos, para além da celebração do nascimento do Menino Deus, a vivência da generosidade. Multiplicam-se os gestos de solidariedade, preparam-se os cabazes de natal, organizam-se ceias para os sem-abrigo e para os mais pobres e idosos, marcam-se nos restaurantes encontros festivos para dirigentes e empregados de instituições e empresas, montam-se, em todas as casas, os presépios e planeiam-se as consoadas nas famílias. É muito bonito sentir este espírito natalício um pouco por todo o lado. Mas… Há sempre um mas…
É já um lugar-comum proclamar-se que o Natal devia ser todo o ano, que Natal é quando o homem quiser. E é verdade. Este espírito festivo e solidário não devia ter dia e época marcados. Mas tem…
E porque tem dia e época marcados, acho que devemos aproveitá-lo, com todas as forças das nossas almas. Com presentes, com gestos de ternura, com caridade a rodos, com a solidariedade a atingir pontos altos, com a bondade e a tolerância a mudarem os nossos comportamentos, com a alegria a iluminar a tristeza de muitos, com as melodias musicais a marcarem ritmos novos de vida, com a neve a aquecer a nossa forma de amar quem sofre…
Então, que as Árvores de Natal, altas, muito altas, aquecidas por luzes rutilantes, sejam, de verdade, do tamanho do nosso amor pelos mais pobres e pelos mais infelizes. No Natal e sempre!

Fernando Martins

AS NOVENAS DA MINHA INFÂNCIA


Não é novidade para ninguém se dissermos que os nossos avós eram gente crente, de uma fé inquebrantável bebida no seio da família, onde as orações quotidianas tinham hora marcada. Ao levantar e ao deitar ficavam por conta de cada um, mas às refeições, em especial antes ou depois da ceia, havia habitualmente momentos de oração colectiva, com o terço a marcar presença na grande maioria dos lares gafanhões. O pai ou a mãe, se aquele andavam embarcados, ou um dos filhos, orientava a reza do terço, onde no final eram recordados todos os familiares falecidos, com, por vezes, intermináveis orações pelas suas almas, não ficando esquecidos os vizinhos e amigos.
Mas hoje vamos lembrar as novenas que, como o nome indica, eram promessas em que participavam nove pessoas, normalmente gente muito nova, para além da pessoa em dívida para com qualquer santo ou santa, ou mesmo Nossa Senhora. Também participámos em algumas delas, motivo por que hoje as queremos recordar, sabendo de antemão que alguma coisa passará, tantos são os anos que já se foram.
A “dona” ou o “dono” da promessa fazia os inevitáveis convites a nove meninos e meninas, ou só meninos ou só meninas, rapazes ou raparigas, conforme o prometido, e no dia aprazado, por norma ao domingo ou em qualquer dia santo de guarda, lá íamos em grupo, a pé, ora à Senhora da Saúde, na Costa Nova, ora à Senhora dos Navegantes, no Forte, ora ao S. João, na Barra, ora à Senhora de Vagos, onde rezávamos o terço e uma ou outra oração da devoção da organizadora da novena, para depois se regressar.
Se a novena era a um lugar perto da Gafanha da Nazaré, regressávamos a casa onde nos era servido um pequeno lanche à base de tremoços, pevides e um ou outro bolito. Para regar o que se comia, bebia-se água do poço e em casos especiais lembro-me bem de ter bebido um pirolito (gasosa em garrafinha com uma bola de vidro a servir de rolha, fixa no gargalo pela pressão do gás do próprio líquido). Se era longe, a merenda era mesmo ali, no largo da capela ou da igreja, a uma sombra qualquer, que naquelas idades nem se dava por ela. Contavam-se umas histórias, cantavam-se umas cantigas, algumas religiosas e ao gosto da “dona” da novena, olhávamos uns para as outras e brincávamos, corríamos e saltávamos. A um sinal da chefe lá regressávamos a casa, com uma tarde vivida de forma bem diferente, que naqueles tempos não havia televisões nem rádios com que passar o tempo.
Quantas vezes, a organizadora da novena, talvez pelo gosto de se ver rodeada de gente nova, até marcava uma nova novena para o próximo ano. É que, naqueles tempos, os “médicos” do corpo e da alma, para além dos curandeiros, eram muitas vezes os santos e Nossa Senhora, a quem se recorria em horas de aflição. Nunca nos lembramos de ter participado em qualquer novena em honra de Jesus Cristo, do Espírito Santo ou de Deus-Pai.
Diz o padre Resende, na sua já famosa Monografia da Gafanha, que “o povo da Gafanha, desde épocas remotas, vai em novena à Senhora de Vagos, a Santa Maria Madalena da Tabueira e do Rio Tinto e a outras igrejas e capelas circunvizinhas”. E refere que “nas suas aflições recorrem sempre a Deus ou aos Santos, e por vezes o cumprimento das suas promessas era bastante penoso”.
Claro que os tempos são outros e hoje as novenas caíram em desuso, tão certo estamos disso por não as vermos organizadas por esta Gafanha da Nazaré. Nas outras Gafanhas, não sabemos se ainda se mantêm, ou se também já foram trocadas por outras formas mais modernas de pagar promessas feitas em hora de aflições.
Não sabemos o porquê de essas promessas se apoiarem em nove meninos e meninas, rapazes ou raparigas, mas julgamos que o número nove terá algum valor simbólico ou mágico, a que os antigos estavam muito agarrados. Lembremos as orações e as comunhões nos nove primeiros sábados, por exemplo.
As novenas, como outras promessas feitas pelos católicos, estão também ligadas ao hábito de alguns quererem associar outras pessoas ou familiares às suas devoções. Nós próprios cumprimos algumas promessas feitas por outras pessoas. Minha mãe fez várias promessas que eu achei por bem cumprir para a não desgostar. E não só por isso. Se me diziam directamente respeito, por que não haveria de colaborar com quem teve a bondade e a devoção de interceder junto de Nossa Senhora por mim?


Fernando Martins

Foto: Igreja de Santa Maria de Vagos, restaurada

NB: Aceitam-se achegas e experiências análogas

segunda-feira, 19 de Novembro de 2007

Ortodoxos e católicos reconhecem primado do Papa em acordo histórico

Um acordo histórico foi obtido na comissão teológica mista entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas. No documento reconhece-se pela primeira vez o "primado" do Papa, uma questão que divide católicos e ortodoxos desde 1054, quando se consumou a ruptura entre o cristianismo ocidental e oriental.
O documento foi aprovado pela comissão numa reunião em Ravena (cidade italiana que foi sede do Império Romano do Ocidente), entre 8 e 14 de Outubro, e divulgado quinta-feira. Ao falar sobre o "primado" do bispo de Roma (o Papa), o texto diz que acontece no quadro da "conciliaridade" ou "sinodalidade", noções que remetem para a noção de colegialidade de todos os bispos, católicos ou ortodoxos. "O papel do bispo de Roma na comunhão de todas as igrejas deve ser estudado de modo mais aprofundado", diz o documento. O próprio Papa João Paulo II tinha já escrito, na encíclica Ut Unum Sint (Que todos sejam um), sobre o ecumenismo, que o tema devia ser discutido entre as igrejas cristãs. Apesar da dimensão de colegialidade ter sido assumida pelo Concílio Vaticano II, a Igreja Católica continua a ter um governo hierárquico.
Com o título Consequências eclesiológicas e canónicas da natureza sacramental da Igreja - Conciliaridade e sinodalidade na Igreja, o texto não foi assinado pelo Patriarcado (ortodoxo) de Moscovo, que saiu do encontro em conflito com o patriarcado de Constantinopla (primaz espiritual para os ortodoxos). Os russos, metade dos 250 milhões de cristãos ortodoxos, vão pronunciar-se em breve.
Walter Kasper, o cardeal que preside ao Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, comentou que o documento não fica posto em causa pela ausência russa. Mas acrescentou à Reuters que, sendo um "modesto primeiro passo para a unidade", o caminho "será longo e difícil".
Também entre o Vaticano e o patriarcado russo as relações são mais próximas. A possibilidade de um encontro entre o Papa e o patriarca de Moscovo, sempre adiada com João Paulo II, é evocada com frequência.
Publicado ao mesmo tempo em Roma, Atenas, Chipre e Istambul, o texto diz que as "prerrogativas" do bispo de Roma devem ser agora discutidas, tendo em conta as "diferenças na compreensão" sobre o tema. A próxima reunião da comissão está prevista para daqui a dois anos.
[O documento está disponível em
vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/ch_orthodox_docs/rc_pc_chrstuni_doc_20071013_documento-ravenna_en.html]

Um artigo de António Marujo no PÚBLICO de Domingo

OS LIVROS DAS NOSSAS ESTANTES MERECEM MESMO O LUGAR QUE OCUPAM?

Vasco Pulido Valente, conhecido escritor e cronista do PÚBLICO, disse, numa entrevista à revista PÚBLICA, que todos os anos, para ganhar espaço, dá e vende aos alfarrabistas uns 200 a 300 livros, sem interesse para ele. Embora não tenha assim tantos livros, como gostaria de ter, há anos queimei no meu quintal uns tantos, nem sei quantos, por em meu entender não terem qualquer valor literário ou outro. Uns familiares, quando tal souberam, protestaram, alegando que, qualquer livro, por esta ou por aquela razão, tem sempre lugar numa estante. Se não serve para mim, pode vir a servir para outros.
A partir daí, nunca mais destruí livros, embora os vá atirando para o sótão. Curiosamente, algumas vezes, já tive de recorrer a esses livros velhos ou considerados sem valor, o que me leva a pensar que, afinal, o que hoje não presta pode amanhã ser útil.
É verdade que semana a semana deito para o lixo jornais e revistas com reportagens oportunas e interessantes, por não ter hipóteses de os guardar. Há anos cheguei a coleccionar revistas e até alguns jornais, mas em dada altura não tinha espaço para tais colecções. Nem no sótão. Foram para o lixo. Guardava-os pelos temas que continham, mas quando precisava deles, para um ou outro trabalho, nunca conseguia localizar o que queria no momento.
Com os livros, porque permitem um enquadramento mais ou menos (des)ordenado nas prateleiras, ainda se vai tornando fácil arrumá-los. Mas revistas e jornais, isso não consigo.
Acontece que esta entrevista me fez reflectir sobre o que temos nas estantes. Tanta coisa que compramos sem nexo; tanto livro que, no fim da leitura, nada nos deixam; tanto livro que só nos empobrece, pelo nada que nos oferecem; tanto livro marcado pelo negativo da vida dos seus autores; tanto livro sem pés nem cabeça que compramos sob influência da publicidade que se faz à sua volta. E para ali estão à espera que um dia lhes achemos graça ou lhes reconheçamos um mínimo de valor. Até que um dia… os atire para o lixo. E a pergunta, que faço a mim próprio, é esta: Será que os livros das nossas estantes merecem mesmo o lugar que ocupam?

Fernando Martins

Na Linha Da Utopia




O LABORATÓRIO

1. Esta semana decorre, na Universidade de Aveiro, a 8ª edição da Semana Aberta da Ciência e Tecnologia, em que são esperados mais de 10 mil participantes e que, em múltiplas iniciativas, contactarão directamente com as potencialidades das ciências e tecnologias. A meritória aposta despertadora da curiosidade científica a partir das mais tenras idades manifesta-se, assim, como um elemento decisivo rumo a um sentido dinâmico e criativo do desejado progresso. Numa visão de ciências e tecnologias que nunca serão um fim em si mesmas mas um “meio” (de labor, trabalho) para o desenvolvimento humano mais eficiente, este, afinal, a meta de todo o conhecimento que mais se procura.
2. Ocorre esta semana de cultura científica na mesma altura em que pelo INE (Instituto Nacional de Estatística) são apresentadas as previsões da taxa de desemprego estimada num valor superior em relação ao período homólogo do ano passado. Muito acima da problemática dos números políticos de desemprego apresentados há dias (se são virtuais ou reais, se de emprego mais longo ou temporário de dias ou semanas…), num contexto do muito confirmado desemprego de jovens licenciados, como hábito nestas alturas, erguem-se algumas vozes questionadoras sobre a utilidade dessa formação superior. Em contrapartida, e numa fundamental mentalidade renovada, muito se tem sensibilizado sobre esta necessidade premente de formação qualificada dos portugueses, a formação das pessoas e dos profissionais. Formação, sempre mais!...
3. Vivemos na fronteira da decisão transformadora do “tecido” português, mas onde nos quadros da essencial formação não chega só um pragmático quantitativo do “como” ou do “para quê”. O imperativo da qualidade, e esta implica todos os quadrantes da experiência humana da pessoa, do cidadão e profissional, será hoje a chave de um triunfo que se abre ao bem comum. Quanto mais PESSOA HUMANA, melhor profissional, mais inspiração! Talvez possa ser esta uma máxima que vença muitos mitos e slogans do “homem-fazedor não pensante” que vão proliferando mesmo em termos globais, alguns dos quais (por exemplo) exaltam muita da economia asiática quando esta provém da grotesca e escrava indignidade. Os fins não podem justificar os meios desumanos…
4. Se é certo que, hoje, Portugal pode ser um “laboratório gigante”, há algo que em termos de co-responsabilidade social é inadiável. É necessário olhar para o lado. Não chega agruparem-se os de sucesso em cima do seu sucesso que multiplica os milhões e as desigualdades… Como aperfeiçoar um “laboratório social” gerador de equilíbrios onde a par do mérito reconhecido dos génios também vença a inclusão estimulante dos menos hábeis?

Alexandre Cruz

domingo, 18 de Novembro de 2007

DUNAS NA PRAIA DA BARRA


As dunas, na Praia da Barra ou por outras bandas, são sempre um convite a um passeio, só ou acompanhado, para descontrair. Aqui fica a sugestão de quem já fez a experiência.

Na Linha Da Utopia




A REACTUALIZAÇÃO DA TOLERÂNCIA

1. Há palavras que têm um sentido bem mais profundo que aquele que comummente é atribuído. Muitos outros conceitos também existem que, de tanto falar, vão perdendo a “validade”, de tão banalizados e vazios que vão parecendo. A ideia de “tolerância” é uma dessas palavras-chave sobre a qual talvez recaia mais um sentido negativo do que positivo. Lembramo-nos quando do “Ano das Nações Unidas para a Tolerância” (1995) de que se falava no sentido comum: “já que não nos amamos ao mesmos toleremo-nos”. Tal era (será ainda hoje?) o sentido menos saudável desta ideia chave da tolerância.
2. De raiz antiquíssima nos códigos humanos que foram abrindo janelas no (difícil) entendimento das formas diferentes de pensar e viver, levado ao limite da experiência humana há 2000 anos (na origem do Cristianismo), todavia, ao longo dos séculos (europeus) a história regista páginas sangrentas de intolerância, cruelmente esta agravada com as chamadas guerras religiosas que “quebraram” a Europa da inaugurada época moderna. Nesse salto qualitativo de descobertas e conhecimentos científicos (como sempre), aguardando-se o progresso e o entendimento, eis que, pelas raízes não iluminadas, a intolerância multiplica-se.
3. Será já no século XVII, diante do cenário europeu destroçado pelas guerras dos dois grandes blocos político-religiosos (Reforma e contra-Reforma) que o filósofo inglês John Locke (1632-1704), no esforço reflexivo propõe (como base para uma concepção plural de Estado moderno) a sua magistral “Carta sobre a Tolerância” (na primavera de 1689). Um documento de separação das muitas águas turbas na confusão dos planos, mas uma carta de fundamental cooperação das diversidades para o bem comum. Estava, assim, o terreno preparado para a coabitação das diferenças de pensamento (mas, posteriormente, como infeliz hábito, as más interpretações conduzem aos extremos…).
4. Nos 50 anos da criação da UNESCO, a 16 de Novembro de 1995, numa visão contemporânea, os Estados-membro adoptaram uma “Declaração de princípios sobre a Tolerância” e proclamaram 16 de Novembro como “Dia Internacional da Tolerância”. No esforço de resgatar o conceito, quem lê as mensagens anuais do Director-Geral da UNESCO e do Secretário-Geral da ONU, redescobre a urgência de acolhermos a tolerância com um valor positivo, que significa o oposto de passividade, indiferença, ausência. Neste nosso tempo global, onde (refere Kofi Annan, 2006) se verifica o aumento da intolerância, extremismo e violência, a ideia de tolerância poderá oferecer essa luz de entendimento para o desejado diálogo e “Aliança de Civilizações”. No tempo on-line em que se decreta “o fim da distância”, e diante das novas proximidades no viver com o “outro”, a Vida do futuro exige esta escola presente.

Alexandre Cruz

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 47




OS TRIPEIROS

Caríssima/o:

E é tempo de chegar ao Porto por onde já passara umas tantas vezes e onde aportara antes da ida para a tropa; porém, terminada esta, a vinda para o Porto foi definitiva até aos dias de hoje.
Certo certo é que o meu contrato com esta Terra e estas Gentes foi um tanto desigual: em troca de me permitirem que o coração continuasse livre, me prenderam a mente e os pés a estas pedras graníticas e, ainda mais violento, abraçaram os nossos Filhos que à sua sombra se acolheram!
Será então curioso que, no Porto, me (e nos) reconheçam pela Ria... E quando saboreio (saboreamos) berbigões, rojões do redenho e maresia insinuem que...”vá lá, vá lá, umas tripinhas à moda do Porto...”
Sem mais!...

Assim sendo, vamos às tripas:

«Ramalho Ortigão, no torno inicial de As Farpas, declara: No fundo das suas convicções políticas e sociais, o portuense é verdadeiramente patuleia ... gloria-se de ser tripeiro e articula esta palavra rijamente. Então, os portuenses têm orgulho na alcunha de tripeiros? Ora porquê? Por duas razões, mediando entre elas nada menos que 31 anos.

Parece misterioso, mas recuemos a 1384, quando Rui Pereira organiza no Porto uma armada de 17 naus e 17 galés e ruma a Lisboa, para acabar com o cerco dos castelhanos e acudir a uma população faminta. A armada levava não só marinheiros e soldados como mantimentos. Praticamente toda a carne que havia entre muralhas no Porto, que os da velha cidade entenderam contentar as suas mesas à conta das tripas, que cozinhavam com feijões. O resto das carnes apareceu só quando se estabilizou a vicia nacional. Os portuenses ganharam o gosto às tripas e uma comida de emergência tornou-se um petisco e um prato de substância. Aliás, só os estômagos fracos e sensibilidades exageradas afastam o prato. E o tom pejorativo da alcunha apareceu já em fase de calmia histórica, digamos assim.

A segunda e decisiva vez já foi em 1415. Os calafates da beira-rio trabalhavam rijamente na aparelhagem de mais umas quantas naus e multiplicavam-se os boatos sobre o destino das mesmas. Que eram uns príncipes que iam casar a Nápoles, que era o rei João apontado a visitar a Terra Santa, que a princesa assim, que não se sabia mais quê. Boataria.
À maneira, como convinha. Até que o jovem Infante D. Henrique manda chamar o seu fiel Mestre Simão, que dirigia os estaleiros. Pedindo-lhe o máximo sigilo, confiou o infante ao seu velho amigo que essas naus em construção se destinavam à conquista de Ceuta. Mestre Simão, que já participara na armada que Iibertara Lisboa, sabia que o que se pedia não era apenas o cumprimento de prazos na entrega das embarcações, era o próprio abastecimento. E de novo o Porto se comprometeu a voltar a comer tripas por obrigação. E o epíteto, muitas vezes incompreendido para os de fora e para alguns de dentro, tornou-se uma medalha de patriotismo.»
[V. M., 210]

E pela cópia fica o


Manuel
Foto: Ramalho Ortigão

sábado, 17 de Novembro de 2007

Responsabilidade social das empresas

José Roquette vai apresentar, no próximo dia 20 de Novem-bro, o Portal VER.PT. Trata-se de uma iniciativa da ACEGE (Associação Cristã dos Empresários e Gestores), que tem por finalidade promover a defesa da ética e da res-ponsabilidade social de empresas e gestores, segundo anunciou o suplemento de Economia do EXPRESSO. Num país maioritariamente católico, é tempo das empresas e dos gestores assumirem, na prática, a vivência da Doutrina Social da Igreja, há tanto tempo pregada pelos defensores de mais justiça e de mais diálogo entre patrões e trabalhadores.

Imagens da Ria


Esta fotografia é capa de um folheto anunciador das belezes da Rota da Luz, nomeadamente na área do desporto. Fala por si. E serve, também, de estímulo a quem gosta de sair de casa, sobretudo aos fins-de-semana, para contactar e apreciar as belezas que estão à nossa espera. Neste caso, na Ria de Aveiro, de encntos vários.

DIA MUNDIAL DO NÃO FUMADOR

Será que o fumador tem o direito
de prejudicar os outros?


A propósito das limitações que vão ser impostas aos fumadores, no sentido de não poderem fumar em recintos fechados, não faltam vozes a protestar, clamando que se está a cair em radicalismos incompreensíveis. Os fumadores acham que devem poder fumar onde lhes apetece e os não fumadores entendem que ninguém tem o direito de conspurcar o ar que respiram.
Pessoalmente, penso que os não fumadores têm razão. Os fumadores podem e devem fumar onde quiserem, mas com limitações que exijam o respeita pelos não fumadores.
Ontem, precisamente, entrei com familiares num conhecido restaurante da Bairrada. Salas amplas que começaram a encher por volta do meio-dia, quando chegámos. Estávamos a começar a refeição, quando entra um daqueles fumadores que não param de fumar… O homem, de cara esquelética talvez pelo excesso de fumo, não se cansava de atirar fumo para o ar, enquanto não chegou a sua refeição. Perguntámos, então, se não havia sala para não fumadores. O empregado, delicadamente, informou-nos que não. Poderíamos mudar, se quiséssemos, para a outra sala, ainda com menos pessoas, mas não era seguro que pudesse ficar sem fumadores. Resolvemos ficar, para evitar complicações com a mudança de mesa. E o fumador voltou à carga nos intervalos da refeição, obrigando toda a gente a inalar o fumo que inundava tudo e todos.
Perante situações destas, eu pergunto se é admissível vivermos assim, sem radicalismos que imponham aos fumadores o respeito pelo seu semelhante, sobretudo daquele que gosta de respirar o ar puro.
O fumador, a meu ver, tem todo o direito de fumar e de dar cabo da sua saúde. Mas será que tem o direito, também, de prejudicar os outros? Julgo que não.

FM

A ESPERANÇA E A SANTA ESPERANÇA


Uma reflexão aprofundada sobre a esperança deverá começar por aquela tendência para o futuro que caracteriza todo o ser vivo e mesmo toda a realidade cósmica, em evolução, de tal modo que já é e ainda não é adequadamente - por isso, está a caminho.
O cosmos, desde a sua origem, é em processo (do latim procedo, ir para diante). A realidade material tem carácter "prodeunte" (do verbo prodeo, avançar), para utilizar uma palavra do filósofo Pedro Laín Entralgo, que estou a seguir.
Trata-se de uma propriedade genérica que se vai fazendo proto-estruturação - passagem das partículas elementares às complexas -, molecularização - dos átomos às moléculas -, vitalização - das moléculas aos primeiros seres vivos -, vegetalização, animalização - aparecimento e desenvolvimento da vida quisitiva da zoosfera - e hominização - transformação da tendência geral para o futuro em "futurição" humana, tanto no indivíduo como na espécie humana e na História, desde o Homo habilis até ao presente.
No quadro destes modos de existir na orientação do futuro, só quando se chega ao nível do ser vivo, que precisa de buscar para viver, é que se dirá que a tendência para o futuro se configura como espera, podendo chegar a ser esperança. Desde o nascimento até à morte, entre a esperança e o temor, o animal vive permanentemente voltado para o futuro e orientando a sua espera na procura do que precisa para viver.
O animal e o Homem esperam, mas, enquanto a espera animal é instintiva, no quadro dos instintos e de estímulos, situada e fechada, a do Homem transcende os instintos, os estímulos e as situações, sendo, portanto, aberta, de tal modo que nunca se contenta com a simples realização de cada um dos projectos parciais em que a sua "futurição" constitutiva se concretiza.
Laín dá um exemplo. Numa "sala de espera" de uma estação de caminho-de-ferro, não me limito a aguardar a chegada do comboio que traz o meu amigo, pois, mesmo que não tenha consciência explícita disso, espero o que será a minha existência em todo o seu decurso posterior. A espera humana está realmente aberta a possibilidades que transcendem a realização feliz ou frustrada de cada projecto.
Ora, tanto num como noutro caso, isto é, tanto na espera do concreto - aqui, a chegada do amigo no projecto de aguardá-lo - como, mesmo que não pense directamente nisso, na espera do que transcende o concreto e limitado - o que será de mim na minha vida depois da chegada do amigo -, são possíveis duas atitudes enquanto tonalidades afectivas: a confiança e a desconfiança.
Devido a uma multiplicidade de factores, desde o temperamento às circunstâncias biográficas de sorte ou desgraça, passando pela educação, estes dois estados de ânimo - confiança e desconfiança - "podem converter-se em hábito de segunda natureza: a esperança, quando é a confiança que domina, e a desesperança, quando prevalece a desconfiança".
O Homem, como o animal, não pode não esperar: vive orientado para o futuro e esperando o que projecta, isto é, a consecução de metas e objectivos concretos e também, quer se dê conta disso quer não, o que permanentemente transcende a obtenção desses projectos. A esperança tem, pois, dois modos complementares: a esperança do concreto (o hábito de confiar que os projectos parciais se irão realizando bem) e a esperança do fundamental (o hábito de confiar - a confiança não é certeza - em que a realização da existência pessoal será boa).
Esta esperança do fundamental é a "esperança genuína", que assume também dois modos, que não se excluem: a esperança terrena e histórica e a esperança meta-terrena e trans- -histórica. Esta é própria dos crentes numa religião que afirma confiadamente a vida para lá da morte em Deus.
Aí encontraria o Homem finalmente, como diz Santo Agostinho, aquela plenitude por que aspira na tensão constitutiva entre a sua radical finitude e a ânsia de Infinito: "O nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti, ó Deus." "Santa esperança!", dizia Péguy.
Anselmo Borges
In Diário de Notícias

sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

No Museu Marítimo de Ílhavo

Para ver melhor clicar na imagem


Colectiva de Fotografia "Meu Nome Mar"

Amanhã, 17 de Novembro, sábado, às 17 horas, o Museu Marítimo de Ílhavo inaugura a exposição colectiva de fotografia e instalação Meu Nome Mar, comissariada por Luis Oliveira Santos.
Nesta exposição participam quinze dos melhores fotógrafos portugueses e o escultor Alberto Carneiro, cuja expressiva instalação, O Mar Prolonga-se em Cada um de Nós, pertence às colecções da Fundação de Serralves. Esta exposição resultou da ideia de identificar na obra de reconhecidos fotógrafos portugueses alguns trabalhos de "temática marítima" susceptíveis de compor um diálogo colectivo e de permitirem ao público uma reflexão própria sobre os modos de representação do mar na fotografia portuguesa contemporânea. Este diálogo inédito, tornar-se-á ainda mais intenso mercê da presença imponente e fortemente material da instalação em chapa de ferro de autoria de Alberto Carneiro.

DIA INTERNACIONAL DA TOLERÂNCIA

Neste mundo carregado de tantas intole-râncias, é bem oportuna esta cele-bração do Dia Internacional da Tole-rância. Será um dia como outro qualquer, mas seria óptimo que fosse diferente. Porque se ficarmos alheios a estes alertas, então de nada vale a boa vontade de tantos que se esforçam para que o mundo fique um pouco melhor.
Ninguém ignora que a intolerância marca o dia-a-dia de cada um de nós, tanto nos grandes momentos como nos pequenos. A intolerância reflecte-se em tudo: no culto contra o inculto, no sábio contra o ignorante, no rico contra o pobre, no patrão contra o empregado, no chefe contra o subordinado, no mais velho contra o mais novo, no mais novo contra o mais velho… a lista dos intolerantes é mesmo extensíssima. Do tamanho do mundo. E como resultado disso temos gente infeliz que tem de suportar a agressividade humilhante dos intolerantes.
Estou a pensar que, afinal, também entre nós, os que nos julgamos tolerantes, compreensivos e respeitadores dos outros, não faltam vestígios, por vezes não camuflados, de intolerâncias, que urge erradicar dos nossos comportamentos.
Vamos todos, portanto, fazer um esforço, no dia-a-dia, para sermos mais tolerantes? Isso seria, sem dúvida, uma extraordinária conquista da humanidade.
FM
Foto de um "site" brasileiro

quinta-feira, 15 de Novembro de 2007

Francisco Sarsfield Cabral no CUFC




É URGENTE REPENSAR
A ECONOMIA

“É urgente repensar a economia”, defendeu ontem, no CUFC (Centro Universitário Fé e Cultura), Francisco Sarsfield Cabral, conhecido jornalista e director de Informação da Rádio Renascença, em mais uma Conversa Aberta do Fórum::UniverSal. Debruçando-se sobre o tema, pertinente, “Globalização, Economia e Desenvolvimento Humano”, o convidado do CUFC abordou diversas questões complexas de forma simples, como é seu hábito, num tom intimista que convidava à reflexão, antes de se colocar à disposição de todos para responder às questões que não faltariam, como não faltaram.
Depois de recordar que os portugueses, com os Descobrimentos, foram um povo que assumiu, na prática, a globalização, frisou que esse conceito é hoje aceite por todo o mundo, como inevitável, embora careça de uma atenção muito especial por todos. "Graças à globalização, muito milhões de chineses escaparam à miséria extrema”, garantiu.
Defendeu que nem o comunismo nem o seu colapso trouxeram o paraíso ao mundo, nem o capitalismo o poderá dar. Só nos EUA, a pátria do capitalismo, há mais de 40 milhões de pessoas sem qualquer segurança social e sem seguros que lhes garantam apoios na doença e na velhice. No entanto, foi o capitalismo que levou a que grande parte dos proletários passasse para a classe média, frisou Sarsfield Cabral.
O director de Informação da RR falou da importância das novas tecnologias e dos benefícios que delas poderemos usufruir; da mediatização da vida, sendo certo que há uma grande diferença entre o que ganham os melhores (os que aparecem na televisão) e os outros; e dos condomínios fechados e dos que ali vivem bem, que não vêem a pobreza que os cerca.
Referiu que a globalização dá, realmente, muitas oportunidades a imensa gente, mas desfavorece o trabalhador em detrimento do capital. E sobre isto, disse que o Evangelho não dá receitas políticas, sociais e económicas, mas impõe uma atitude de respostas, concretas, aos que mais precisam. A este propósito, recordou o microcrédito que já está implantado em dezenas de países, com apoios efectivos a grande número de famílias.
Nessa linha, defendeu uma globalização diferente, que respeite os direitos humanos e que proponha a solidariedade, estimulando a justiça social. Considera inadiável que, no seguimento da Doutrina Social da Igreja, “os cultores da ciência económica, os operadores do sector e os responsáveis políticos devem advertir para a urgência de se repensar a economia”.
Afirmou que nesta aldeia grande em que vivemos “os pobres pobres estão marginalizados e sem capacidade de autodefesa”, sendo premente o envolvimento das pessoas na luta contra a resignação e contra a indiferença, perante o sofrimento dos outros.

Fernando Martins

Na Linha Da Utopia


A LATA CONTINUA!

1. Alguém dizia há dias que “a lata” está cheia…de petróleo! A referência é personalizada no maior animador político da actualidade, Hugo Chávez. São 2,2 milhões de barris de petróleo diários que a Venezuela exporta, sendo a maioria dos quais para os EUA. Efectivamente, numa economia que depende do “ouro negro” (80% de exportações, metade das receitas do Estado), enquanto a “lata” continuar cheia desse precioso recurso, este e tantos outros líderes que nadam em petróleo continuam a falar alto numa demonstração cabal de sedução imperial pelo poder e dando nas vistas pelos piores motivos.
2. A vingança de Chávez está aí. À sobriedade do Rei de Espanha (que não gritou mas numa frase disse tudo), o iludido “senhor moço” da lata ameaça tudo e todos, julgando-se dono de tudo e de todos. Seja de que quadrante político for (tendo o seu lugar próprio, isso pouco importa, pois o essencial são as pessoas e a sua dignidade humana), atitudes deste género são o espelho de uma “adolescência” política típica de ditador. Alguém ainda pensa que a Venezuela não corre perigo (os venezuelanos e os que lá lutam pela vida)? Nestes próximos anos, à medida que a Venezuela entrar em polvorosa, veremos como a comunidade internacional continuará a colocar a cabeça debaixo da areia…pois a dependência energética (agrava) tapará os olhos das indignidades.
3. É inconcebível ao ponto a que chega a lata do senhor eleito (?!...) pelo seu povo! Do episódio da cimeira ibero-americana, Chávez terá concluído que o Rei fez-lhe xeque-mate e agora o contra-ataque é a “profunda revisão” das relações políticas, económicas e diplomáticas, em que “as empresas espanholas vão ter de prestar mais contas”. Mais ainda, diz Chávez: “Vou lá ver o que andam a fazer”. Grande trabalho, é natural!... De facto, no centralismo absolutista que cresce de dia para dia, tem de ser ele a ir ver o assunto… Pobre povo, vítima no presente e mais vítima no futuro. E pelo andar da carruagem, havendo poderosos interesses à mistura, parece que o futuro está traçado. A lata vai continuar sendo cada vez maior. A não ser que… haja democracia! Pelo enfiamento da jogada, as portas democráticas estão mesmo a fechar e, enquanto a “comitiva” estiver bem alimentada, será para durar. Que nos enganemos redondamente!

Alexandre Cruz

CARLOS DUARTE: “40 ANOS DE FOTOGRAFIAS”





“40 ANOS DE FOTOGRAFIAS” é um livro de Carlos Duarte, um ilhavense apaixonado pela arte de fotografar. Esta obra, que reflecte um labor de 40 anos, de andanças e olhares atentos e interessados sobre o que o rodeia, vai ser apresentada no dia 24 de Novembro, pelas 15.30 horas, na Biblioteca Municipal de Ílhavo. Paralelamente, será inaugurada uma exposição de fotografia cujo tema é a Ria e que ficará patente ao público até 2 de Dezembro.
Conheço o Carlos Duarte há muitos anos. O jornalismo provocou muitos encontros e gerou entre nós as simpatias inevitáveis. Tudo porque o Carlos Duarte é um homem bom.
O fotógrafo que não gosta de ser fotografado é um artista com sentido de oportunidade, vendo, muitas vezes, o que outros não vêem. Fixando da fotografia o que outros nunca descobriram ou acharam digno de registo. Por tudo isso, entendo que vale a pena adquirir o seu livro para o guardar, depois de muito apreciado, num lugar de destaque da sua sala de visitas. Bem à vista de todos e para que todos o manuseiem, fixando os olhares nas fotografias que mais os levarem a um passado mais próximo ou mais afastado.

FM

OPINIÃO E OBSESSÕES A TER EM CONTA


O tema da escola continua na baila e isso prova que o país está preocupado. Afunilou no ensino estatal e no privado e é pena que assim seja, pois não faltam motivos ponderosos para levar mais adiante uma reflexão necessária sobre muitos aspectos do tema.
Ainda bem que todos podemos ter opinião e torná-la pública sem medo de represálias de qualquer ordem. Mas a opinião de quem quer que seja é mais válida quando não têm de se ocultar realidades que contrariam os argumentos ou de as adaptar ao que se pretende provar, defender, atacar ou minimizar.
Há que estar prevenido em relação a obsessões cegas. As mais frequentes destas são as ideológicas e político partidárias. Impedem ver claro e ter liberdade interior para opinar na procura do melhor para os alunos, uma vez que são eles a razão de ser da escola.
Não vamos ter que dizer uma vez mais que estamos num campo difícil e que se torna ainda mais quando se multiplicam os decretos e portarias, que quem tem que os interpretar e cumprir diz que estão fora do contexto em que se vive e trabalha.
Assim se provoca em quem depende directamente do Estado, direcções executivas e sobretudo professores, desmotivação, apatia, desinteresse e, por vezes, mesmo revolta. Há sempre vítimas deste estado de alma, de quem está na escola para ensinar e educar.
Uma opinião repetida até ao massacre de quem é legítimo esperar melhor reflexão - penso em Vital Moreira, que julgo que seja um democrata consciente e consequente, é defender, à revelia da realidade e da história, uma coisa que já nem se discute em países libertos de ideologias redutoras, de que em Portugal só tem sentido a escola pública. E diz, escandalizado, não se conceber que, “havendo falta de dinheiro para investir na escola pública, o Estado desperdice tanto dinheiro com a manutenção abusiva de “contratos de associação”. Ora a verdade é que os contratos de associação são menos onerosos para o Estado e até podem ser, em muitos meios do país, o primeiro passo para uma escolha da escola, tal como o exige a liberdade democrática. O caminho democrático já nem vai por aí, como se o contrato de associação fosse uma excepção por razão de uma escola supletiva, mas mostra como só um ensino generalizado, pago pelo Estado, como é óbvio, é garantia de direitos legítimos. Quando aí chegarmos, todos beneficiarão e a democracia estará a ser tomada a sério. Então, será mais importante para o país que o governo faça acordos com clínicas privadas para praticarem abortos, do que, no campo escolar, os faça com entidades que proporcionam a todos os que frequentam as suas escolas, um ensino mais qualificado e que é estímulo para todos? O Estado democrático tem de considerar todo o ensino válido como um serviço público, independentemente de quem o ministra, desde que o faça segundo as exigências legais, mas com espaço de liberdade sadia, para poder inovar nas matérias, nos conteúdos programáticos e nas estratégias pedagógicas. Afinal, o que o Ministério está a procurar em relação à autonomia, com grande esperança de êxito da ministra da tutela, para já apenas numa centena de escolas, não é uma cópia do que se faz, desde sempre, nas escolas privadas sérias, tão atacadas e menosprezada pelo governo e seus ideólogos?
Outra obsessão é da própria ministra que, incompreensivelmente, mete todas as escolas no mesmo saco, ao dizer que no ensino privado há melhores resultados porque as escolas podem escolher os alunos e no estatal não. Mas a senhora ministra sabe que isso não é verdade em todos os casos. Até acontece que, por determinação do ministério, há escolas privadas em zonas pobres, que são proibidas de receber os alunos que as procuram e que os pais desejam. Ou a verdade toda ou, então, a confissão de falência.
Acabe-se também com a história de que todo o êxito da escola está na classe social dos pais. E, então, nada a ver com os professores, o clima interno da escola, as normas da comunidade educativa, os estímulos pessoais e as exigências de trabalho, postas a quem tem de dar contas e de se preparar para uma vida cada dia mais difícil e exigente?


António Marcelino

ORDEM DOS MÉDICOS NÃO ALTERA CÓDIGO DEONTOLÓGICO

Ministro da Saúde tinha pedido alteração


ABORTO:

ORDEM DOS MÉDICOS NÃO MUDA CÓDIGO DEONTOLÓGICO

A Ordem dos Médicos (OM) não vai alterar o artigo 47 º do código deontológico que considera a prática de aborto como uma “falha grave”, tal como tinha pedido o ministro da Saúde na sequência de um parecer da Procuradoria-Geral da República que manda “repor a legalidade” nesta matéria.
“Amanhã [quinta-feira] vamos escrever uma carta ao senhor ministro explicando que a independência, autonomia e liberdade dos médicos não são negociáveis e que, por isso, não vamos alterar o nosso regulamento”, adiantou o bastonário Pedro Nunes que dará uma conferência de imprensa sobre o polémico assunto.
A decisão do conselho nacional da OM será conhecida no último dia do prazo de um mês dado por Correia de Campos para a “reposição da legalidade” no código.
O bastonário nota que concorda com o parecer da PGR quando este refere que, em caso de discrepância, a lei se sobrepõe ao código deontológico mas discorda da necessidade de alterar o regulamento por causa disso. E exemplifica: “O limite legal para andar na estrada é 120 quilómetros por hora mas não precisamos de mudar os veículos para saber que temos de cumprir a lei”.

Andrea Cunha Freitas


In PÚBLICO on-line

quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Na Linha Da Utopia




TANTOS LIVROS DO “FIM”. PORQUÊ?

1. Há dias veio à ribalta a última obra do escritor Sam Harris. O título, desafiador à maturidade humana, intelectual e filosófica do leitor, é o seguinte: O Fim da fé – Religião, terrorismo e o futuro da razão (Lisboa: Tinta da China, 2007, original de 2006). Vivemos, já acolhendo os efeitos das novas revoluções científicas e comunicacionais, o tempo de profunda transformação de paradigmas (como tanto sublinha o estudioso destas questões, Thomas Kuhn); época de globalização que vai revelando tanto um pessimismo existencial como (e que acabará por ser) de metamorfose (mudança) de referenciais… Nada de novo e tudo de novo! Tempestades e ansiedades querem ser oportunidades!
2. As literaturas universais vão espelhando esse sentir, marcadamente pessimista e ilusório, e muitas delas mesmo para os campos da busca de segurança no exotérico irracional. Veja-se como progridem os misticismos e todas as formas de magias a par das literaturas (muitas já transformadas em cinema), cheias de “anéis”, de “cálices”, etc. Tudo impregnado de seguranças mágicas, como que substituidoras do empenho de uma “razão” humana que, avançada pela tecnologia fora, foi perdendo o contacto com o mais profundo do humano. Tudo avança, paulatinamente, pois “a ideia não tem pressa” como diria Hegel.
3. Considerando “o fim da fé” como um ponto de chegada deste género de escritos quase apocalípticos, demonstrativos do sentir social de transformação, então valerá a pena registar os seus antecedentes: Idade de Extremos (Hobsbawm 1994), O fim da História e o último homem (Fukuyama 1992), O fim do trabalho (Rifkin 1995), O fim da Ciência (Horgan 1996) e O fim da autoridade (Renaut 2005). Valendo o que valem (e algumas o Nobel da Literatura), todas estas obras têm expressão mundial de referência, sinal do seu poder de sedução que, no fundo, corresponderá ao sentir existencial ansioso deste tempo, época fascinante de avanços técnico-científicos mas em que o calor humano de uma esperança colorida não vai tendo a devida correspondência.
4. Muitas vezes, bem pelo contrário, mais concentração de poderes (técnico-económicos) é sinónimo de mais exclusão e desintegração do projecto HUMANO, consequentemente, mais intolerância. Afinal, porque progridem tanto as literaturas do “fim”? Sinal claro que “algo” continua a precisar de respostas bem mais profundas, existenciais. Aqui, no “sentido da vida” não há tecnologias (nem neurocientíficas) que entrem! Essas respostas necessárias abarcam a totalidade que só o SER pode abarcar.

Alexandre Cruz

GAFANHA DA NAZARÉ: Nomeações do Bispo de Aveiro

Por Decreto hoje publicado no Correio do Vouga, órgão oficial da Diocese de Aveiro, D. António Francisco dos Santos fez as seguintes nomeações:
P.e Paulo Cardoso da Cruz – Administrador Paroquial de Nossa Senhora da Nazaré da Gafanha da Nazaré, mantendo todos os cargos pastorais que actualmente exerce;
P.e Luís Filipe Costa Dias, sacerdote do Instituto dos Missionários Combonianos do Sagrado Coração de Jesus – Vigário Paroquial de Nossa Senhora da Nazaré da Gafanha da Nazaré.
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No mesmo Decreto, fez, ainda, entre outras, mais esta nomeação:
P.e José Sardo Fidalgo – dispensado a seu pedido do múnus de Pároco de Nossa Senhora da Nazaré da Gafanha da Nazaré e nomeado Colaborador do Pároco de Santo André de Esgueira.
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O GAFANHÃO

Gafanhões actuais vestidos à moda antiga
(Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré)


A primeira impressão que o gafanhão oferece a quem o contempla no dia-a-dia de um labor constante capaz de arrasar montanhas, e de domar dunas formadas e deformadas por ventos que também gretam peles tostadas pelo sol salgado, é a de que se trata de um homem com uma capacidade de adaptação fora de comum. Se nos debruçarmos sobre ele, sobre a sua vida de trabalho árduo, sobre a sua denodada resistência e capacidade de sofrimento, não podemos deixar de o admirar. Ele fez, com todas estas qualidades, aliadas a outras não menos importantes, ao longo de mais de três séculos, a Gafanha de que hoje se orgulha.
Oriundo de regiões essencialmente agrícolas, nomeadamente dos concelhos limítrofes, de Vagos e Mira, o gafanhão para aqui carreou, nos finais do último quartel do século XVII, hábitos de trabalho e de vida social que o ajudaram a cimentar usos e a projectar costumes que ainda perduram nos nossos dias. Quem esquece, por exemplo, a paixão pela terra e o respeito pela tradição de “fazer casa quem casa”, paixão e respeito estes em que se alicerçam uma certa estabilidade familiar e a construção de um património que vai passando de pais para filhos? E o espírito de poupança tão característico do gafanhão que casa de forma tão expressiva com o gosto pelo trabalho? E a religiosidade que o tem levado a tantas manifestações de fé através de gestos de solidariedade fraterna e de caridade cristã?
Vale a pena debruçarmo-nos sobre tudo isto, mesmo de fugida, numa tentativa de descobrirmos as razões que contribuíram para a formação do homem que se fixou neste areal varrido por ventos marítimos carregados de salmoira.
À partida, ele não pode ser, nem é, muito diferente do homem que ainda hoje ocupa a terra-mãe. Filho dessas areias, habituado a domá‑las e a delas extrair o sustento do dia-a-dia, para aqui veio com a mesma tenacidade. Procurou, afinal, algo que lhe era familiar e fê‑lo por necessidade e sem receio. Sempre era preferível a ter de buscar trabalho longe dos horizontes que os seus olhos sempre dominaram. Não era pessoa de tentar de imediato a riqueza do mar ou mesmo da ria. Isso ficaria para mais tarde, quando a pouco e pouco fosse sentindo essa necessidade, simultaneamente com a descoberta de que as águas que o circundavam eram amigas de verdade. A princípio, delas foi colhendo o que lhe ofereciam (o arrolado, moliço que as marés deixavam nas margens) em jeito de desafio para que se aventurasse e deixasse, sem medo, a terra firme. E foi isso mesmo que aconteceu. Pé ante pé, ei-lo à conquista das águas mansas da nossa ria, na apanha do moliço e na pesca artesanal. Estava aberto o caminho do progresso.
Homem de trabalho, habituado à luta diária a que as areias pouco produtivas o obrigavam para delas conseguir o magro sustento, geralmente para família de muitos filhos, aqui veio continuar a dar exemplo de tenacidade. Ele continuou igual a si próprio e como a terra que sempre lhe deu o pão foi tornada produtiva pelo seu esforço e à custa de sacrifícios sem conta, facilmente se compreende o amor que ainda lhe devota. Não é egoísmo o que o leva a estar, ainda hoje, tão agarrado aos “bocadinhos”, que herdou e que ele mesmo tantas vezes ajudou a fertilizar com moliço e suor salgados. Não é puro egoísmo essa relutância em vender ou ceder, quantas vezes por bom dinheiro, o quintal que desde pequenino revirou com enxada gasta de tanto cavar. Esse comportamento é, antes, fruto amadurecido pelo amor construído por algumas gerações que lhe moldaram a maneira de ser e de pensar.
Os primeiros gafanhões para aqui vieram em busca de terra igual à que sempre cavaram. As famílias de origem não tinham, normalmente, terra que produzisse para tantas bocas. Daí o sentirem-se obrigados a procurá-la não muito longe do regaço materno e da sabedoria paterna, nessas épocas tão respeitados. E casa para habitar com cómodos de gente era luxo que o gafanhão tinha de encontrar à custa do seu próprio querer. Construí‑la com a ajuda de familiares e amigos era tarefa urgente. E assim foram aparecendo as primeiras choupanas onde o fumo pintava paredes mal acabadas e ajudava a calafetar frinchas que a pouca experiência produzia. Gestos de solidariedade, neste como noutros campos, deixaram marcas desse tempo que a custo vão sobrevivendo na sociedade consumista que nos envolve e por vezes nos domina. Ainda há, apesar de tudo, embora em pequeníssimo número, casas construídas ao jeito antigo do auxílio fraterno ou da troca de serviços. Por isso, desse esforço de construir a sua casa, o amor que o gafanhão lhe vota e o gosto por manter a tradição deixada pelos seus antepassados de “fazer casa quem casa”.
A vida duríssima que procurou e aceitou, ou não soube evitar, despertou nele um respeito muito grande pelo dinheiro, símbolo, ontem como hoje, do trabalho. E como, para o conseguir, do corpo lhe saía, facilmente se compreende o espírito de poupança, que não de avareza, seguido e continuado até aos nossos dias, com frutos projectados em empresas que fizeram a Gafanha comercial, industrial e agrícola.
Saliente-se que, a par do trabalho na indústria e mesmo no comércio, o gafanhão alimentou sempre o trabalho na horta como tarefa complementar e de ajuda à mulher, a primeira responsável pela azáfama agrícola, sobretudo no século XX.
O contacto permanente com a natureza, a dependência das condições climatéricas e o sentido do divino bebido no seio da família fizeram do gafanhão um ser religioso por excelência, embora com um outro resquício do supersticioso, alimentado, este, aliás, por alguma ignorância que as poucas letras ajudavam a criar. O sentimento de caridade e o gosto pela solidariedade, contudo, fizeram desde sempre desta terra um manancial de iniciativas próprias e vizinhas. Aliás, ainda há poucos anos perduravam os róis de gado, quais seguros que garantiam uma certa estabilidade económica do proprietário rural, quando ameaçada por morte ou incapacidade do animal.
Mas o gafanhão não ficou só agarrado à terra e à ria. Conquistadas estas, ei-lo à procura de mais. Mistura-se com o cagaréu na safra do sal e cedo passou a dominá-la, aprende com os Ílhavo os segredos da pesca e com os Mónicas a arte de manejar o enxó e de fazer veleiros que o fizeram sonhar com o mar alto. Antes descobrira a aventura do mar na arte da Xávega, primeiro com os pés bem assentes na terra e depois agarrado ao remo com unhas e dentes, não fosse alguma onda mais traiçoeira arrastá-lo. Vencido o temor inicial, aí vai ele na frota a caminho dos bancos da Terra Nova e da Gronelândia, em missão nunca sonhada pelos seus avós. Depois, a emigração, o comércio e a indústria, numa ânsia de fazer render talentos porventura adormecidos. O gafanhão das sete partidas e dos sete ofícios marca sempre a sua presença, onde quer que se encontre, viva ou trabalhe, pela dignidade, pelas amizades que sabe cultivar, pela simplicidade e humildade, pelo amor entranhado à terra que o viu nascer. Como outros povos, certamente. Mas com muito orgulho pela noção exacta de que é, realmente, ele próprio, um bocado da Gafanha.

Fernando Martins

REPÚBLICA VIVA




Nenhum tempo, nenhum facto da história deve ser lido com leviandade. E ainda menos com uma perspectiva interesseira em extrair lições de proveito rápido. O tempo e os acontecimentos merecem grande serenidade e discernimento para que os sinais que vão surgindo tenham uma interpretação que torne a história em mestra e a vida corrente em contínua aprendiz. Sem medo das luzes e das sombras que a travessia dos tempos induz.
Ainda estamos relativamente longe do centenário da Implantação da República e já se ouvem foguetes de glória. Sem se explicar muito bem a cor da bandeira e a praça certa para festejar não se sabe ainda muito bem o quê. É aqui que começa a ambiguidade com adquiridos ideológicos que justificam todos os erros e exaltam todas as virtudes.
Fazendo lembrar sobressaltos revolucionários que se entendem no tempo em que acontecem mas que não sobrevivem aos crivos implacáveis da análise histórica. É essa joeira fria que nos depura o trigo e o joio, o grão e as poeiras. É essa atitude que nos enriquece na visitação dos factos sem vencedores nem vencidos antecipados.
Provavelmente muitos de nós, da República nascida em 1910, pouco mais temos que preconceitos ou chavões reduzidos a meia dúzia de factos que nos descreveram como heróicos ou mesquinhos. Que ninguém tenha medos dos factos, do que os precedeu, dos contextos em que se verificaram, dos líderes que os protagonizaram, dos horizontes que abriram, das mudanças históricas que criaram. Mas que não venham misturados de jogos subtis e presunções anacrónicas e obsoletas. Todos precisamos aprender e assumir responsabilidades no melhor e no pior que assumimos no tempo.
Quando se fala da I República, quase sempre se antagoniza com outra pedra do xadrez chamada Igreja Católica. Como se se esgotasse no duelo entre as duas instituições toda a gama de factos e consequências. Como se não existisse o povo. Trabalhar as análises sobre preconceitos é um erro não apenas histórico mas de consequências negativas para os tempos de hoje e para a convivência saudável da comunidade nacional. Por isso se saúda a proposta da Conferência Episcopal Portuguesa em Roma para uma evocação do centenário da I República com uma "interpretação exacta dos acontecimentos". Para bem ou para mal a I República ainda está viva.

A PROPÓSITO DO SEMINÁRIO…


A propósito da efeméride do Seminário de Santa Joana Princesa, dei mais uma vista de olhos ao livro “A alma e a pena do arcebispo”, com selecção de textos de D. João Evangelista de Lima Vidal da responsabilidade de João Gonçalves Gaspar. Estive a reler, precisamente, o tema “Na entrada dos primeiros alunos no novo Seminário”, com data de 17 de Novembro de 1951. É uma delícia esta escrita poética do saudoso arcebispo, que justifica, pois, uma leitura de quando em vez, para então sentirmos o palpitar do entusiasmo do primeiro bispo da restaurada Diocese de Aveiro.
“Estamos longe, bem longe ainda, desse absoluto almejado arrumo; falta ainda um novelo espantoso de inquietações, de esforços, de lutas, uma mina de ouro, para nós podermos dizer que a construção do Seminário foi empresa que, realizado integralmente o seu curso, ora a cavalo ora a pé coxo, ou a cem à hora ou à velocidade da lesma, está agora nas prateleiras de algum silencioso e venerando arquivo”, lembra D. João, de quem bem me recordo.
E a seguir sublinha:
“Todos sabem até que eu, se fosse a fazer aquilo que mais me estava no gosto, preferia mil vezes que só houvesse vida de seminário no Seminário depois de se ouvir lá a última martelada dos operários, depois de se extinguir lá o último grão de poeira das obras, depois de não haver mais nada a fazer lá senão abrir a porta e entrar. Mas foi preciso apressar e fazer como os cães: acomodar um canto entre o tumulto, defendê-lo com umas aparas ou com umas ripas, abrir-lhe a cova, dar-lhe umas voltas e, fechados os olhos, fechados também os ouvidos, fazer por dormir.”
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Foto de D. João, desenho de Gaspar Albino

Efeméride


NOVEMBRO - 1951


Neste dia, mas em 1951, O Seminário Diocesano de Santa Joana Princesa, instituído em 1939, foi transferido para o novo edifício, no lugar de Santiago, freguesia da Glória, como refere João Gonçalves Gaspar, em Calendário Histórico de Aveiro.

terça-feira, 13 de Novembro de 2007

Na Linha Da Utopia




Museus, Cultura, sempre “depois”!

1. «É impossível gerir uma casa sem saber o que acontece amanhã!», lamenta o director do Museu de Arqueologia de Lisboa, Luís Raposo (Público, 13.XI.2007). É o desabafo que espelha a realidade de grandes museus do país que, por falta de pessoal vigilante e devido a desarticulação de serviços, se vêem obrigados a fechar (tanto algumas salas de exposição como em horas especiais). O Museu Nacional de Arte Antiga já no Domingo passado esteve semifechado, e as palavras da Ministra da Cultura confirmam a «situação de colapso provocado pela falta de atenção do Instituto dos Museus e da Conservação» (IMC), ainda sublinhando que «não há a mais pequena responsabilidade do Ministério da Cultura neste assunto». Mãos lavadas em assunto cultural!...
2. O director do IMC prefere não comentar a acusação de “esquecimento” de sua parte em manter os mínimos da “precariedade cultural” no solicitar atempadamente ao Ministério da Cultura a requisição da prorrogação dos contratos para este, por sua vez, se dirigir com “pressão” ao das Finanças a “mendigar” a sustentabilidade apertada das portas abertas dos museus. A resposta, no dizer da tutela da Cultura, “é natural que demore alguns dias” (semanas?). A certeza é de que até chegar a solução (sempre retardada e provisória… com excedentários provisórios?), uma parte expositiva dos museus pode estar encerrada (provisoriamente!), indo por água abaixo tanto esforço e investimento em captar os (já de si) difíceis PÚBLICOS.
3. A situação é de tal maneira apertada que o director do Museu Nacional de Arte Antiga considera a nomeação de vigilantes «um balão de oxigénio!» No meio de toda esta provisoriedade, não deixa de ser interessante a existência de reclamação de público detectada no Domingo passado, sinal (apesar das limitações) de louvável esforço no divulgar da fundamental abertura dos museus e património às gentes. Desta situação, todos declaram convictamente que O PROBLEMA É ANTIGO, num país ainda à procura da sobrevivência onde é “tese” a cultura vir sempre depois, se houver tempo e no infalível dogma da provisoriedade. Neste panorama, como é possível a (essencial e definitiva) abertura cultural das mentalidades em que os museus façam parte da vida das gentes e cidades e estas sintam-se “em casa” nos seus (amados ou tantas vezes esquecidos?) museus?
4. No fundo, o dinheiro existe sempre para o que se considera que é importante. Que o diga a (pós)cultura do futebol, falado em todos os lados!... Como (nos) sentimos (n)os museus, e como eles estão com o seu património histórico-cultural no centro das nossas cidades? Como transferir públicos dos centros comerciais para os centros culturais?! Talvez seja de concluir que muito do futuro (humano) passa hoje pelo modo como (vi)vemos os museus e o património que temos à nossa volta. Quando não seremos estranhos em casa!

Alexandre Cruz

Banco Alimentar


UM BOM ENSAIO
DE SOLIDARIEDADE


Quem nunca fez uma experiência de solidariedade não sabe o que perdeu. O facto de nos sentirmos com capacidade para partilhar o que temos, mormente o nosso tempo, é de uma riqueza interior que nem tem explicação. Por isso, acon-selho essa vivência, nem que seja, e já não é pouco, colaborar, simplesmente, num peditório.
O Banco Alimentar Contra a Fome está a organizar mais um peditório anual de recolha de alimentos junto das superfícies comerciais. É nos dias 1 e 2 de Dezembro que tal acção vai acontecer. E para isso precisa de gente que se disponibilize para colaborar, nas diversas tarefas que essa recolha impõe. Se tem um tempinho livre, inscreva-se no CUFC, junto à Universidade de Aveiro. Depois, tudo será fácil.

GAFANHA DA NAZARÉ: Subsídios para a sua história

Nossa Senhora da Nazaré, padroeira da Gafanha da Nazaré

A partir de hoje, passarei a publicar alguns escritos, que mais não são do que modestos contributos para a história da Gafanha da Nazaré. Serão escritos despretensiosos, objectivos quanto possível, já publicados em circunstâncias especiais. Outros resultam de intervenções em palestras, colóquios e encontros de jovens e menos jovens. Quem me ouviu ou quem me leu há-de verificar, no entanto, que não faltarão, agora, alterações aos textos, resultantes, naturalmente, da evolução dos tempos. Por norma, modifico bastante a minha escrita, sempre ao sabor da maré, mas faço-o no respeito absoluto pela essência do que primeiramente publiquei.
Penso que a história da Gafanha da Nazaré, como das outras Gafanhas, ainda está por fazer. Há muita gente que escreve, mas falta, indubitavelmente, uma recolha criteriosa do que há, publicado ou na memória de muitos gafanhões, porque as actuais gerações precisam desse trabalho. De diversas pessoas tenho recebido incitamento para tornar público os vários escritos que a vida dos gafanhões me suscitaram. Confesso, no entanto, que tenho andado um pouco indiferente a esses apelos. Por comodismo, sobretudo. Mas prometo que não deixarei de pensar nisso.
Hoje, portanto, aqui deixo a promessa de começar a publicar no meu blogue o que considerar importante para a história deste povo, na certeza de que estarei a homenagear quantos aqui nasceram e quantos, vindo de todos os recantos do País, fizeram as Gafanhas, à custa de suor e lágrimas. Mas também de alegrias, pela certeza de terem ajudado a dar vida a uma terra que fica no coração de quem um dia a conheceu.
Ainda quero deixar um pedido a todos: As contribuições dos meus leitores são indispensáveis.

Fernando Martins

Semana dos Seminários








Seminário de Santa Joana Princesa, uma jóia a preservar…

O Seminário de Santa Joana Princesa, em Aveiro, é uma jóia a preservar, para dar vida a projectos de formação, que enriqueçam quantos acreditam que nem só de pão vive o homem.
Estamos a viver, até domingo, a Semana dos Seminários, o que nos obriga a pensar um pouco na importância destes edifícios, onde há décadas a alegria esfuziante de muitos jovens, a reflexão e o estudo se tornavam imagens de marca. Desse ambiente e de quantos se envolveram nos projectos de formação dos Seminários nasceram os padres que hoje servem o povo de Deus, mas também muitos outros que, sentindo que a sua vocação não era o sacerdócio, partiram para a vida com hábitos de trabalho, cultura e valores humanos que são, sem dúvida, uma mais-valia para a sociedade.
Hoje, com projectos e formações muito diversos, mas também com menos jovens a aderirem à vocação da disponibilidade total para servir as comunidades católicas, os Seminários sentiram a premência de se reconverterem, sem, porém, abdicarem dos caminhos que levem a valorizar quantos desejam saber mais, para mais eficientemente contribuírem para a elevação moral, espiritual e cultural da sociedade. Por isso, se não há tantos jovens, eventualmente, a caminho do sacerdócio, há outros jovens, de todas as idades, à procura do saber. Em Aveiro, o ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas) assumiu a tarefa de dar mais vida ao Seminário de Santa Joana Princesa, proporcionando formação a clérigos e a leigos, da diocese e de outras regiões do País. Para além disso, os serviços diocesanos garantem ali a realização de várias acções abertas a todas as pessoas ou apenas aos seus membros, o que mostra, à evidência, que, afinal, o edifício do Seminário, com mais de meio século de existência, tem certezas de sobrevivência, na plenitude da razão de quem o sonhou.
Uma sugestão aqui fica, dirigida a todos: vale a pena passar por lá para apreciar o edifício, belo e típico exemplar da arquitectura dos anos 50 do século passado, mas também para sentirem e constatarem o palpitar de vida cultural e espiritual que enche claustro (há exposições permanentes e temporárias) e salas de aula.

Fernando Martins

Arte Nova


CASA MAJOR PESSOA VAI SER ABERTA AO PÚBLICO
Por notícia da Rádio Terra Nova, a Casa Major Pessoa vai ser aberta ao público, passando, em breve, a Museu da Arte Nova, em Aveiro. O empreiteiro, depois de ter concluído as obras de recuperação e restauro, já entregou as chaves à Câmara Municipal de Aveiro, pelo que num futuro próximo aquele edifício ficará à disposição dos aveirenses e dos turistas, sobretudo dos admiradores da arquitectura e da Arte Nova, em particular. Esta é, sem dúvida, uma boa notícia, ou não tivesse sido a Casa Major Pessoa, no Rossio, durante muitos anos, um triste exemplo do abandono e da degradação.

segunda-feira, 12 de Novembro de 2007

AÇORES: Ilha de S. Jorge


FAJÃ DO OUVIDOR
Aqui está mais um postal que me chegou dos Açores, mais concretamente da ilha de S. Jorge. Fajã do Ouvidor fica em Velas e oferece, a quem por ali aparecer, vistas bonitas, que são um desafio a artistas, de várias áreas, para que as mostrem ao mundo... Por mim, limito-me a apresentar o que me vai chegando por empenho do meu leitor João Paulo, o que agradeço. Seria tão bom que outros leitores do meu blogue colaborassem... Mas esse dia há-de chegar, estou em crer.

Na Linha Da Utopia



“PORQUE NÃO TE CALAS!”

1. O original da frase é em espanhol. Este é mais um “refrão” que fica da diplomacia internacional destes dias. Na recente cimeira ibero-americana, diante da não respeitabilidade de regras civilizadas pelo presidente venezuelano, o verniz estalou; mas, ao mesmo tempo parece que tudo vai continuar na mesma, não se notando tanto qualquer mudança de atitude. Quem aplaude é o (pai Filed) presidente cubano que sente o legado garantido de uma linha de pensamento e acção para quem os males sociais são o discurso triunfante… E como em todos os sistemas e sociedades esses males (da pobreza e da desigualdade) infelizmente estão sempre garantidos, então parece mesmo que essa perpetuação de algumas figuras ditatoriais no poder persistem; é o que vamos assistindo no progressivo fechamento da Venezuela…
2. Hugo Chávez vai copiando Fidel Castro, tanto na longevidade do discurso que quebra todas as regras das sessões comuns (da vida em comunidade política), como na irreverência perturbadora da ordem da normalidade. Diante da má educação sempre espectacular para dar vida à Cimeira dando nas vistas gritando umas coisas, nesse momento, várias vezes o primeiro-ministro espanhol apelou ao respeito dos princípios do “diálogo”, todavia, esta uma palavra que se vai asfixiando no dicionário dos lados venezuelanos. No feio panorama, o rei de Espanha procura salvar a honra da pátria, em palavras na generalidade aprovadas pelo bom senso da análise mesmo internacional. Quanto ao resto e aos outros presentes, o “silêncio diplomático” e o salvar da pele pessoal da sua própria nação, continua a imagem da marca política, demonstrativa que estamos muito longe de uma Verdade democrática efectivamente conhecida e reconhecida…
3. Mas o mais importante no meio de tudo isto será mesmo o verbo “calar”, que nos desperta para as fundamentais condições do diálogo. Este exige momentos de silêncio e de palavra. O entrelaçar desordenado, e nada educado, do corte da palavra do outro deita a perder toda a democracia eleita que se representa. Para esses lados da Venezuela “eleição democrática” também parece conceito em perigo, e o espectáculo internacional de Chávez vai sendo reflexo do caminho prolongado no poder onde se pretende chegar. Pior ainda (e existe quem o absolva por tal razão), será dizer-se que só por Bush ser “mau” e por Chávez ser contra-americano, então está tudo bem. Para mal dos pecados, o rei de Espanha terá de ter razão (no conteúdo): o calar, o fazer silêncio, o ouvir, será de ser uma base mínima para o “jogo” político-democrático. A Venezuela de Chávez ainda terá esses mínimos?! Não chega minimamente iludir-se e dizer que os portugueses na Venezuela estão bem. Como se estivessem…!

Alexandre Cruz

domingo, 11 de Novembro de 2007

ARES DO OUTONO


ORAÇÃO


O Outono é Primavera
Frutificada. E o sentimento
Do amor,
Cristalizando,
Tornou-se incandescente.
É o coração aceso
De Cristo,
O novo Sol.

Teixeira de Pascoaes


In “Últimos Versos”

CONVÍVIO NO STELLA MARIS

Manuel Serafim e Rogério Fernandes

José Serafim e Nelson Calção


ENCONTROS LEVAM-NOS A OUTROS TEMPOS E LUGARES


Realizou-se ontem, no Stella Maris, o anunciado encontro de convívio, promovido pela direcção daquela instituição da Igreja Católica, vocacionada para o apoio, a vários níveis, aos homens do mar e da ria e suas famílias. Foram muitos os que aderiram a esta iniciativa, ou não houvesse, como mesa de fundo, um jantar à moda serrana, animado por belíssimos fados de Coimbra, interpretados por quatro gafanhões de gema, que há muito teimam, conseguindo, manter vivo o gosto pela canção coimbrã na região.
A organização sentou-me numa mesa, onde foi fácil cultivar amizades, à roda da sopa de castanhas e da vitela à serrana. Com vinhos também daquelas bandas, mais doces, fruta e castanhas assadas, que as vésperas do S. Martinho recomendavam. Digo que foi fácil cultivar amizades porque um casal, que ali me foi apresentado, era mesmo um casal caramulano, com gosto pela serra de tantos matizes e de tantas lendas e tradições. Não foi difícil, por isso, falar do Caramulo e lembrar passeios e vivências experimentados por mim, com o prazer que me vem de procurar uns ares bem diferentes dos ares marinhos que respiro desde o nascimento, aqui na Gafanha da Nazaré, terra que o mar e a ria beijam por todos os lados.
O Caramulinho, um golfinho magicamente feito pedra granítica, que certo dia fugiu do mar sem se saber como nem porquê (não teria o mar andado por ali?), os tempos dos muitos tuberculosos, também gafanhões, que procuraram cura nos sanatórios caramulanos, hoje todos desaparecidos, com um reconvertido em lar e outros em unidade hoteleira, as aldeias que insistem em existir em qualquer recanto serrano, as lendas de lutas entre cristãos e sarracenos, com a festa das cruzes a assinalar e a manter viva e expressiva uma certa união, as pessoas e os sabores e saberes de gente que ainda vai tendo todo o tempo do mundo para recordar, de tudo um pouco se falou neste jantar de convívio do Stella Maris.
Ainda houve espaço para trazer à memória Jaime de Magalhães Lima e o seu livro “Entre Pastores e nas Serras”, onde sobressaem as belezas do Caramulo, que o multifacetado escritor calcorreou pelo deleite do contacto com a serra e pessoas com quem se cruzou. Mas disso falarei noutro momento, já que é uma pena não ser conhecido este belo escrito intemporal do “franciscano eixense”, que foi, sem dúvida, um precursor do espírito ecológico entre nós. E no fim da azáfama da conversa, enquanto se comia e bebia, sem exageros que não estamos em tempos disso, vieram as canções coimbrãs, de melodias simples, de que todos gostam, e de poemas cheios de sabedoria, que outrora interiorizámos, ao ponto de todos as trautearmos com vozes nem sempre afinadas. Mas que importa essa desafinação, se afinados estavam os nossos propósitos de ajudar o Stella Maris, de âmbito diocesano e com sede na Gafanha da Nazaré, a unir pessoas, de todas as idades, para melhor servir os homens do mar e da ria e seus familiares, como sublinhou o presidente da direcção, o diácono Joaquim Simões?
Fernando Martins

Na Linha Da Utopia


E os Idosos (que seremos)?



1. Temos de conjugar na primeira pessoa do plural. A abordagem à realidade da pessoa idosa (em Portugal), para ser integral e mais capaz, terá de ser realizada numa envolvência afectiva em que ao falarmos da pessoa idosa falamos de “nós”, do presente ou das expectativas futuras. Tantas vezes, arrepia a “frieza” insensível com que se abordam estas questões relacionadas com a comummente designada “terceira idade”, numa visão prática e quantitativa das coisas como se de pessoas (de nós próprios, dos que falamos e dos que decidimos!) não se tratasse.
2. Há dias foi notícia que, em Portugal, em média, as autoridades competentes, encerram um Lar de Idosos por semana. Nessa mesma notícia (Diário de Notícias, 9 de Novembro), revela-nos o presidente do Instituto de Segurança Social, Edmundo Martinho, que “a esmagadora maioria são ilegais, sem qualquer tipo de alvará”. Solução encontrada: Lar fechado e distribuição dos utentes pelas instituições na área de proximidade, parecendo que tudo fica resolvido… Segundo aquele responsável, este ano o Instituto “já fechou cerca de cinquenta casas”.
3. Se esta é uma problemática emergente nas nossas sociedades (de longevidade) ditas de ocidentais que começa a ser acompanhada em termos de estudos (gerontologias e geriatrias), já a resposta social continua nos moldes antigos, assente numa boa vontade e numa confiança que nem sempre merece esses créditos. Ao abandono da pessoa idosa, uma triste ‘imagem de marca’ da pobreza da nossa sociedade, muitas vezes corresponde também um oportunismo negocial que não garante uma dignidade correspondente... Área muito sensível, mas em que mesmo situações de “esquecimentos” nessas casas também têm sido detectadas pelas entidades. Mas, seja dito, a sua decisão “encerradora” não acrescenta qualquer solução para as “vítimas” de todo este complexo mundo que é o acompanhamento da pessoa idosa.
4. Quantos idosos nos lares sem visitas de familiares há tantos anos (já foram feitas as partilhas!)?! E como outras sociedades (por exemplo, africanas e islâmicas) nos dão a lição de não tirar de casa aqueles que a construíram e que são os depositários da cultura e da tradição das histórias e dos valores que garantem a ponte com as novas gerações! E quanta gente (sem qualquer apoio significativo nesse trabalho heróico) dá a sua vida nessa generosidade incansável, dia e noite, nesse aconchego caloroso da companhia matando a solidão gerada por um sistema de sociedade por vezes tão competitivo quanto frio! E como são tão complicadas as “papeladas” das promessas de subsídios político-financeiros, papéis que fazem os irmãos idosos desistir dessa gota de água para o seu “oceano” dos medicamentos!...
5. Como vamos estamos habituados, “fechar” é fácil, e depois?! Não haverá mais tempo, apoio, formação, …para as transições de regimes?... Heróicas as instituições e as casas que nestas décadas são a “casa de família” dessa multidão silenciosa que nos deu a vida e que de outro modo mergulhariam, resignadamente, na solidão que mata!... Não (os) esqueçamos, nestes assuntos, estamos a falar de “nós” e do futuro social. Só semeando poderemos colher… Há qualquer coisa de injusto, perturbador e de inconsequente na nossa sociedade (de todos) a este respeito...

Alexandre Cruz

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS – 46



A VELHA DA CHANQUINHA

Caríssima/o:

Como todo o jovem que se prezava à época, fui convocado para a tropa – avancei para Mafra! Feito o COM, passei fugazmente por Tancos e fiquei sediado na Ota, de onde, a um mês da disponibilidade, me enviaram para S. Jacinto.
Mas ainda hoje – e saiba-se lá porquê?! - Mafra se sobrepõe e apaga a memória dos outros lugares.
Será que as lendas nos ajudam a compreensão?

1. A Velha da Chanquinha - « A criação da Tapada Real de Mafra deu origem a várias lendas, entre as quais se pode referir a história da Velha da Chanquinha.
Diz-nos esta lenda que havia uma velha que vivia no seio da Tapada, num local a que hoje se chama "Currais da Chanquinha".
O Rei, com o objectivo de a convencer a sair dali, ofereceu-lhe um barrete cheio de moedas de ouro. Por sua vez a velha, como gostava muito das suas terras, ter-lhe-á oferecido dois barretes cheios de moedas de ouro para de lá não sair.
Porém, ainda segundo a lenda, a velha lá foi obrigada a abandonar aquele local, tendo ido viver fora da Tapada para uma povoação que, devido à sua teimosia, ainda hoje é chamada A-da-Perra (Lugar da Teimosa). » (de uma publicação da Câmara Municipal de Mafra)
2 . Ratos e túneis gigantes - Muitas são as lendas em torno do Palácio de Mafra mais ou menos aterradoras. A da existência de enormes ratazanas nos subterrâneos é a mais popular, e aquela que mais se confunde com a realidade. Quando se fala no Palácio, logo há quem conte histórias tenebrosas com ratos à mistura, como a dos dois soldados que teriam sido devorados pelos roedores quando tentavam exterminá-los - não teria sobrado nada, nem mesmo o metal dos lança-chamas que empunhavam. Ou como a do pessoal da Escola Prática de Infantaria que alimentava os ratos com cadáveres de gatos e cães, e até com o de uma vaca pendurada por cordas, a qual teria ficado reduzida a esqueleto em escassos minutos. Para descanso de uns e, quiçá, desencanto de outros, os subterrâneos do Palácio de Mafra foram explorados à exaustão e não deram mostras de serem habitados por ratazanas fora do normal. Um ou outro ratinho, mas não mais do que seria de esperar numa zona de esgotos.A existência de um túnel que, supostamente, ligaria o Convento de Mafra à Ericeira e por onde teria escapado o Rei D. Manuel II rumo ao exílio a 5 de Outubro de 1910, pertence também ao domínio do imaginário. De facto o túnel existe, mas não passa da Vila de Mafra, tendo sido construído para escoar os esgotos do Palácio.»

[In Blog da Sabedoria]

Lendas magníficas sairiam do bornal do Ângelo e de outros Amigos que em paragens mais longínquas militaram. Venham elas!

Manuel

TODOS SOMOS CO-RESPONSÁVEIS PELO CRESCIMENTO DA IGREJA



Pediu Bento XVI aos bispos portugueses

É preciso mudar o estilo de organização e a mentalidade dos membros da Igreja Portuguesa


“É preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos co-responsáveis pelo crescimento da Igreja” – pediu esta manhã (10 de Novembro) Bento XVI aos bispos portugueses.

Leia mais na Ecclesia

sábado, 10 de Novembro de 2007

QUASE LHES PERDOO OS 80 MILHÕES



Não sei o que se passou exactamente em Fátima em 1917. Sei que os "videntes" não viram Nossa Senhora no sentido do nosso ver terreno, como quando vemos as plantas ou o céu ou as pessoas.
Embora se possa ser católico e não acreditar em Fátima - pude constatar que teólogos estrangeiros eminentes, de visita a Portugal, não manifestaram interesse em ir lá -, não me custa aceitar que tenha havido aí uma experiência religiosa, mas, evidentemente, no horizonte de compreensão próprio de crianças e no quadro de esquemas de uma religiosidade popular. Assim se explica, por exemplo, que Nossa Senhora tenha "mostrado" os horrores do inferno aos pastorinhos, o que não é uma atitude particularmente maternal, quando se pensa em crianças de 10, 9 e 7 anos. Aí está um exemplo de religião sacrificial e dolorista, como se transmitia nas pregações da altura. Isto significa que o Evangelho é que deve ser a medida crítica de Fátima e não o contrário.
Seja como for, Fátima impôs-se, e de modo impressionante, a nível nacional e internacional. Ali se congregam multidões de milhões de pessoas. A quase totalidade dos portugueses já passou por lá, e as peregrinações são diárias. Há pouco tempo, um jornalista atirou-me, provocatoriamente: "Nossa Senhora de Fátima é a maior mulher de Portugal, a mais influente." Eu diria que sim, sendo depois preciso analisar essa influência.
Em princípio, é uma influência positiva. Há excessivo sofrimento no mundo: físico, material, moral, psíquico, espiritual... E Fátima, como diz frei Bento Domingues, é o cais de todas as lágrimas dos portugueses. Ali vão buscar alguma paz, alívio, conforto, conselho, esperança. Ali desabafam as suas mágoas. Quem melhor do que "a Mãe" poderá entender o que se passa no coração dos homens e das mulheres? E aí está a razão por que, pelo menos em parte, Fátima passa ao lado do "controlo" da hierarquia. As pessoas vão lá numa relação muito íntima, pessoal e única, com Nossa Senhora e com Deus. E ninguém tem nada com isso. Ainda estou a ver na televisão: quando o cardeal Sodano começou a "revelar" o "terceiro segredo de Fátima", os peregrinos continuaram, serenos, nas suas devoções e nos seus diálogos com "a outra dimensão".Inaugurou-se no dia 13 de Outubro a igreja da Santíssima Trindade. Fui confrontado com a pergunta do escândalo: Como é possível gastar ali 70 milhões de euros (80, com os acessos)? Não há tantos pobres? (É realmente uma vergonha nacional haver dois milhões de pobres - desses, 700 mil têm de (sobre)viver com seis euros por dia).
Costumo responder que se deveria ser mais contido nos gastos. Como diz Carlos Fiolhais, os portugueses gostam de conjugar o verbo derrapar, e até em Fátima houve derrapagem de 40 para 70-80 milhões de euros.
Mas também não tenho uma visão miserabilista da existência. O Homem não vive só de pão. Depois, quem pagou são os peregrinos, que têm direito a algum conforto. Que dizer do desperdício do excesso de estádios de futebol vazios?
Acima de tudo, foram convocados artistas de renome, nacionais e estrangeiros, e o que resultou é simplesmente belo. Agora, Fátima é um conjunto harmonioso no seu todo, que alguém já comparou a um barco. Ah!, aquele Cristo crucificado no interior da igreja, meio selvagem, fixando, de olhos abertos, cada um: ele é a mensagem de convocação para a Vida e a Liberdade; aquela Virgem, finalmente uma jovem rapariga airosa, de braços abertos acolhedores; aquele grande painel do presbitério, símbolo da Jerusalém Celeste: a esperança da Humanidade com Deus e a sua glória!
Jesus foi confrontado com o luxo de uma libra de perfume de nardo puro - o seu preço correspondia a um ano de salário - que uma mulher lhe derramou sobre a cabeça. Os discípulos ficaram indignados: "Para quê este desperdício? Podia vender-se por bom preço e dar-se o dinheiro aos pobres." Jesus respondeu que não faltariam oportunidades a quem lhes quisesse fazer bem.
A religião sem a beleza é inverdadeira. Sem o gratuito - a graça -, é uma desgraça.

sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

POR CADA SEMANA É ENCERRADO UM LAR DE IDOSOS

Presidente de IPSS escuta utente de lar (foto do meu arquivo)

As notícias de hoje dão conta de que por cada semana encerra um Lar de Idosos. Inexistência de alvará e falta de condições para ser desenvolvido um trabalho competente e digno do respeito de que precisam os utentes estarão na base das decisões dos departamentos do Estado que superintendem nestas questões.
Paralelamente a estas situações, há registo de maus-tratos e de explorações em alguns lares, onde se esperava que houvesse um ambiente acolhedor, marcado pela bondade, pela compreensão, pela atenção sem limites, pela disponibilidade caritativa. O idoso, que tanto deu, normalmente, à sociedade, em geral, e à família, em particular, precisa de carinho e de cuidados especiais e próprios de quem se sente retirado do seu “cantinho”. Não está numa pensão qualquer, muito menos num armazém de velhos que esperam simplesmente pela morte. Pode ter sido abandonado pela família e pelos amigos, o que acontece frequentemente, mas não pode nem deve ser esquecido pela sociedade. Aqui, portanto, o Estado tem a obrigação de estar atento a casos muito tristes de exploração a tantos níveis de que sofrem alguns idosos.
Já visitei, em trabalho jornalístico e de dirigente da solidariedade social, muitos Lares de Idosos. Uns que são autênticos modelos de bem tratar os utentes, mas outros que não passam de caixotes do lixo, para onde atiraram os idosos, quais trapos velhos que urge arrumar num canto, para que ninguém mais os veja. Para que sejam pura e simplesmente esquecidos. Para que se tornem mortos vivos, com os olhares perdidos em horizontes sem luz… e sem vida digna. Por isso, o meu aplauso para quem trata os idosos como pessoas, mas também para os serviços que estão atentos a quem não respeita os utentes dos Lares.
Fernando Martins

INCÓMODOS DA ESCOLA PELOS RESULTADOS CONHECIDOS


Os problemas da educação e da escola, ao lado dos da saúde, são entre nós os mais preocupantes para as pessoas. Não são os únicos, mas certamente os que mais doem.
Com dados do Ministério publicaram-se, a nível nacional e por escolas, resultados do secundário e de português e matemática do 3º ciclo, do ano escolar 2006/2007. Há sempre quem critique esta publicação e quem elogie a coragem de se fazer. Leituras diversas e carregadas de conceitos e preconceitos, consoante de onde o vento sopra.
Um dado que se vem afirmando em cada ano, e no ano que terminou foi ainda mais eloquente, refere-se aos resultados das escolas privadas, em confronto com os das escolas estatais. Tal confronto não agrada aos que, de há muito tempo, vêm denegrindo o ensino particular, e ponho neste campo alguns responsáveis dos sindicatos de professores. Nem agrada àqueles que vão asfixiando estas escolas, cortando turmas, regateando acordos, demorando pagamentos, multiplicando inspecções, calando legítimas opções dos pais, exigindo coisas, em relação às quais fazem vista grossa quando se trata das escolas do Estado. Esta atitude é a do Ministério e dos seus executivos, desde as direcções regionais às distritais, incluindo ainda alguns zelosos responsáveis locais, vizinhos do lado de uma escola com êxito e criatividade, mas que escapa à sua jurisdição. Tudo sugere alguma reflexão com dados que escapam a muita gente, não esquecendo que é complexa a grelha de leitura dos resultados finais.
O ensino privado responde aos requisitos legais e não é um favor do Estado. É um direito constitucional e, por isso mesmo, democrático e merecedor de respeito e apreço. Constitui um serviço público e, pelo que se vê, no seu conjunto com algum êxito e reconhecida qualidade. Não se pode considerar meramente supletivo do Estado, como alguns teimam em o afirmar. Um serviço diversificado, que vai de escolas reputadas dos meios urbanos com contratos simples, e longas listas de pedidos de inscrição, até às escolas de dimensão média, disseminadas pelo país, muitas delas com contratos de associação, dispensando aos seus alunos, a par das do Estado, ensino gratuito.
A rede pré escolar, com muitas escolas privadas e atendendo à dupla dimensão escolar e social, por isso mesmo com prolongamentos normais de horário, exigência à qual o Estado acabou por ter de se vergar, foi durante anos rede quase única ao encontro dos pais. Sofre agora um tipo de depreciação, que vai até à dispensa dos seus serviços, em troca de medidas pouco realistas e pressões ideológicas e profissionais, a que o governo se tem vindo a submeter e a que procura dar soluções de gabinete.
No furor da revolução militar assaltaram-se escolas privadas de vilas e aldeias que, por esse país fora, levaram durante décadas o ensino para além do elementar ao povo e permitiram a muita gente humilde ter acesso à universidade e a empregos qualificados. Depois criaram-se escolas estatais, inviabilizando as já existentes. O país empobreceu-se com esta duplicação dispensável e injusta, que o colectivismo estatal exigia e a Constituição socialista procurou consagrar. No fundo, um ataque claro à Igreja, por parte daqueles que se incomodavam pelo seu serviço aos mais pobres.
Fez-se crer que as escolas particulares eram elitistas e para os ricos. O atrevimento da ignorância e da má fé! Se havia e felizmente ainda há escolas mais qualificadas, será que isso é ou foi alguma vez um prejuízo para o país? O Estado tem como dever garantir a todos educação e ensino qualificados. Que o faça quem melhor o pode fazer, sem que os pais, que pagam os seus impostos, sejam onerados pela escolha da escola. Por essa Europa muitos já perceberam que o Estado, se não pode descuidar a educação, não tem que ser ele, necessariamente, o educador de crianças e jovens. Educar é missão de quem melhor a sabe e pode realizar. É a isso que os alunos têm direito.
Dignificar os professores porque indispensáveis, embora a escola não exista por causa deles; inovar, porque sem criatividade nada se qualifica; dar à escola autonomia administrativa e pedagógica, porque só assim se pode educar e melhorar o ensino. Há que respeitar quem trabalha e tem resultados. O país precisa de quem o dignifique e enriqueça.
António Marcelino

quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

ARES DO OUTONO


Cada arbusto, por mais simples e modesto que seja (se é que há arbustos simples e modestos), é um mundo de cores variadas e de formas incrivelmente belas. Como este arbusto do meu quintal, visto em dia claro, como foi o de hoje. Vejam a variedade de tonalidades, de formas, de espaços esparsos por onde se escoa a luz, como que à procura de gente.

Na Linha Da Utopia



FERNANDO VALENTE, A HOMENAGEM


1. É com emoção que estas palavras são escritas. Afinal, a todas as expressões de arte pertence a emoção sensibilizante, essa que nos transporta para uma nova dimensão de recriar o tempo e reinventar as possibilidades da história. Já passaram dez anos, parece que a notícia chocante aconteceu “ontem”. A história da música portuguesa recente regista e assiná-la o nome de Fernando Valente. Uma valentia surpreendente e irreverente inscrita naqueles que habitam o génio, este que, vivendo da superação contínua, não tem quaisquer fronteiras nem barreiras, antes anseia ardentemente por todo o futuro…
2. Aveiro presta homenagem a uma vida que começou em Canelas (Concelho de Estarreja), terra de músicos centenários que respira o ritmo da Banda Bingre Canelense, colectividade fundada em 1865 (com 141 anos de actividade ininterrupta, sendo a associação mais antiga do concelho). O génio nasce (sempre) simples, vivendo e vendo a sua terra, observando as suas gentes e daí retirando o horizonte da aprendizagem, agarrando a decisão de avançar e escalar a paixão musical, trazendo para a ribalta um instrumento pouco animado em Portugal, o Saxofone. Aveiro acolheu o aluno, o músico, o compositor, o docente nos Conservatórios de Música, de Aveiro e de Águeda.
3. Há 20 anos, na linda terra de Canelas, não esquecemos (pessoalmente) a alegria do Compasso Pascal, que ao chegar a casa do Fernando Valente (quando ele tinha possibilidade de estar) a música do seu saxofone genial transparecia esse espírito pascal festivo! Essa sua energia e alegria contagiantes marcaram os dias e os serões de Aveiro. Os bares da cidade, “hoje”, acolhem e celebram a vida daquele que não deixou que a arte cristalizasse na sala de aulas ou no auditório musical elitista. Uma certa “boémia cultural” une-se a uma visão da cultura popular, para todos, não só para alguns, ideal este tão necessário também para a vida das “gentes” contemporâneas e que se encontra bem espelhado na obra de George Steiner (A Ideia de Europa, Gradiva 2005), quando ele diz que “nos cafés e nas avenidas”, aí está inscrita a ideia cultural da Europa das pessoas concretas.
4. Fernando Valente, como que à descoberta, assumiu ser precursor na área musical dos instrumentos de sopro, a coragem de “sair” (para aprender mais), correndo os ares musicais da Bélgica, Espanha, França e Holanda (Amesterdão), cidade que ficará agarrada eternamente ao seu nome no famoso Quarteto de Saxofones de Amesterdão, e que o conduzirá à criação do Quarteto de Saxofones de Aveiro (em 1993). O homem português do Jazz, José Duarte (hoje na Universidade de Aveiro), disse sobre o seu amigo que “morreu fora de mão, em transgressão, como viveu”. José Duarte fala do contra-a-corrente na promoção da cultura musical que foi Fernando Valente, num país onde ela continua tão longe de pertencer à formação dos portugueses. Que outra forma melhor para aprender matemática que pela música?!...
5. Uma região que aprecia e celebra os seus artistas reconhece a sua identidade e cresce na universalidade da cultura e na promoção dos valores fundamentais. É esse o sinal louvável levantado pela Oficina de Música de Aveiro (por ele criada a 1997) e pelo Teatro Aveirense, contando com a parceria apreciável de entidades e colectividades que de norte a sul (e também a Amesterdão) se associam. Será de 9 a 17 de Novembro, com sede no Teatro Aveirense. Participar é engrandecer a música e Aveiro. Com a sua irreverência criativa, e no “lugar” Absoluto da melodia divina, o Fernando está connosco!

Alexandre Cruz

DIAS POSITIVOS


Generosidade dos ricos

Diz um princípio clássico da moral que “não basta fazer o bem; é preciso fazer o bem bem feito”. É bom lembrar este princípio, porque de vez em quando achamos que basta fazer o bem. (São Paulo dizia que pregava a propósito e a despropósito. Os tempos eram outros. Hoje, pregar a despropósito é capaz de servir mais para criar anticorpos do que para fazer o bem).
Esta reflexão provocou-a uma notícia dos jornais. A Câmara do Porto ofereceu um camião de recolha de lixo à cidade da Beira, Moçambique, e esta recusou-o. E com toda a razão. Então não é que o camião tem 25 anos, precisa de muita manutenção e, ainda por cima, tem o volante à esquerda, quando em Moçambique as viaturas devem ter o volante à direita (conduz-se à inglesa)? Os moçambicanos podem ser pobres, mas não são tontos. Fez-me lembrar que em tempos a tropical Guiné-Bissau teve navios quebra-gelos, oferecidos pela União Soviética… Só lhe faltava o Pólo Norte. Navios já tinha.
Como escrevia um jornal moçambicano por estes dias, alguns países da Europa parece que querem transformar a África num depósito do lixo.
Esta reflexão de outras geografias pode ajudar-nos a olhar para a nossa realidade. Quando a Diocese de Aveiro dedica o seu plano pastoral aos mais pobres e muitos cristãos o assumem, não devemos esquecer que não basta ser generoso. Há uma dignidade absoluta do pobre. E é preciso saber ser generoso.

J.P.F.
In Correio do Vouga

Semana dos Seminários

DAR VIDA AO SEMINÁRIO

"Dar vida ao Seminário, implica e pressupõe a oração intensa de toda a Comunidade Diocesana, o afecto e a generosidade que as várias iniciativas pastorais e o ofertório da Semana dos Seminários sugerem, revelam e exprimem.
Na medida em que a comunidade do Seminário seja sinal vivo de Cristo que chama novos discípulos e deles faz apóstolos do Reino, o próprio Seminário ajudará as famílias, os grupos, os movimentos apostólicos, os serviços pastorais diocesanos e as Comunidades cristãs a serem, também eles, sinais de salvação para o mundo e lugar vocacional por excelência."


Nota Pastoral do Bispo de Aveiro

AÇORES: Ilha de S. Jorge







AÇORES: SUGESTÃO DE FÉRIAS
:
A tranquilidade quase perfeita, sob o ponto de vista físico e emocional, pode ser usufruída em Fajã do Ouvidor, na ilha de S. Jorge, Açores. Esta sugestão de férias não é, obviamente, para quem gosta de folias e de barulho, nem para quem gosta de regressar a casa mais cansado do que quando partiu para gozar um período de descanso, longe da azáfama do dia-a-dia. É para os que acreditam que a paz interior e a fuga temporária à rotina também são importante. Para barulho e canseiras temos o resto do ano.
Fotos sugeridas pelo meu leitor João Paulo, a trabalhar nos Açores

Francisco Sarsfield Cabral no CUFC

Clicar na imagem para ver melhor



GLOBALIZAÇÃO, ECONOMIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
:
Francisco Sarsfield Cabral, director de Informação da Rádio Renascença e conhecido jornalista, especializado em assuntos económicos, vai estar no CUFC no dia 14 de Novembro, pelas 21 horas. Falará sobre o tema "Globalização, Economia e Desenvolvimento Humano", mas também estará disponível para responder às questões, postas pelos presentes, suscitadas pela sua intervenção.

Na Linha Da Utopia




AS (RE)VOLTAS DA REVOLUÇÃO RUSSA

1. Foi há 90 anos que ocorreu a chamada Revolução Russa. Após uma série de acontecimentos políticos nesse ano de 1917 que marcariam decisivamente o séc. XX, resultou a eliminação dos Czares e depois do derrube do Governo Provisório (Duma), e, por fim, a instauração do poder soviético bolchevique. Os objectivos estavam conseguidos: a criação da União Soviética (que duraria até 1991), pouco tempo depois do momento marcante que abre a “globalização” (com a “ponte” de João Paulo II) da abertura do Muro de Berlim (1989). Recuperando a história, a revolução Russa (1917) teve duas fases distintas: em Fevereiro (Março no calendário ocidental), o derrube da autocracia do (último) Czar Nicolau II (1894-1917); em Outubro (Novembro no Ocidente, a chamada Revolução Vermelha), o partido Bolchevique, liderado por Lenine (1870-1924) derruba o poder provisório e impõe o governo socialista soviético.
2. As motivações da referida revolução, como no fundo de todas as marcantes revoluções ao longo da história humana, terão sido a prévia concentração dos poderes. No chamado Império Russo, até 1917, reinava a monarquia absoluta dos Czares, poder sustentado pela nobreza rural que era dona da maioria das terras cultiváveis. Com a abertura (possível) dos czares Alexandre II (1858-1881, assassinado) e Alexandre III (1881-1894) à Europa Ocidental, a Rússia monárquica acolhe um desenvolvimento industrial que cedo viria a revelar as problemáticas da exploração no mundo trabalho. Eis o terreno favorável para a criação de novas correntes políticas ocidentais que chocavam com o velho absolutismo, surgindo neste contexto, sob inspiração de Marx (1718-1783), o Partido Operário Social-Democrata Russo. Este, na sua vertente bolchevique, viria a tomar o poder instaurando a União Soviética, e legando no séc. XX páginas de indigna história totalitária (a par de outras).
3. A história não pode ser apagada. Como esta da Rússia, em tantas revoluções, o absolutismo que se derruba é o poder absoluto que se levanta pela sua própria ideologia. Trágica limitação humana habitual da imposição das ideologias que apaga a liberdade de consciência... Ainda, mudam-se os tempos e os líderes vão mudando a “cor da pele”, tantas vezes, no seu oportunismo escancarado… Ou que dizer quando líderes da “cor” afirmam claramente que «hoje, só se pode ser comunista a partir de uma rejeição profunda do que foi a herança do comunismo na URSS, que foi um projecto conspurcado, uma tragédia» (Público, 7 Nov., 4.P2). Então, afinal?! Tantas vezes a história tem sido construída não por convicção mas por reacção, uma história contraditória. E se o argumento da revolução russa foi «a injustiça social, as desigualdades na distribuição da riqueza e exploração dos homens pelos outros homens» (id), então esta mesma ideia tem alimentado tantas revoluções, mas em que esses vitoriosos e defensores da causa acabam por viver o contrário da doutrina, impedindo a verdadeira justiça e igual dignidade.
4. Uma distância entre o discurso da “ideia” e a realidade prática enferma uma evolução saudável e positiva, e tem feito das “revoluções” um cavalo de batalha mais elitista que de serviço ao bem social de todos. Que novas revoluções estarão em gérmen? E quando os cidadãos se aperceberem a sério do seu poder? E como os antigos donos da revolução vão travando a nova? Que história (humana?) esta!


Alexandre Cruz

quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

Diálogo inter-religioso



Para quando a convivência fraterna
entre cristãos e muçulmanos?

O Papa Bento XVI recebeu no Vaticano o rei Abdullah da Arábia Saudita. Em ambiente cordial, discutiram a situação das minorias cristãs nos países islâmicos, onde não são livres de viver a sua fé e de ver respeitados os seus direitos de cidadania. No entanto, nos países ocidentais, os muçulmanos são respeitados e até ajudados a cumprir os seus preceitos religiosos.
É certo que se trata de culturas diferentes, mas, mesmo assim, não gostamos de saber que na Arábia Saudita, por exemplo, reina uma ditadura islâmica, capaz de menosprezar e até de perseguir os cristãos. Por isso, espera-se que o Papa consiga sensibilizar o rei Abdullah para a urgência de pugnar pela implementação de democracias tipo ocidental nos países árabes, onde as mulheres passem a ser tratadas como seres humanos com direitos iguais aos homens. Mas também que todos os árabes possam, se e quando quiserem, aderir livremente às religiões cristãs ou outras, sem sofrerem qualquer perseguição por isso.
Em Setembro, 138 teólogos muçulmanos, de quase todos os países e correntes, enviaram uma nova carta ao Papa em que aproximam as concepções teológicas e os valores das duas religiões, numa clara atitude de convite ao diálogo inter-religioso, que tarda neste mundo que prega o pluralismo em várias vertentes. E num dos pontos mais significativos dessa carta chegam mesmo a propor a vivência de uma “competição” pelo amor ao próximo, quando frisam que “cristãos e muçulmanos constituem mais de 55 por cento da população mundial, o que faz com que a relação entre estas duas comunidades religiosas seja o mais importante factor para uma paz significativa no mundo”.
FM

PORTO DE AVEIRO: Documento histórico


in “MEMÓRIA DESCRITIVA ou notícia circunstanciada do plano e processo dos efectivos trabalhos hidráulicos empregados na abertura da Barra de Aveiro segundo as ordens de S. A. R. o Príncipe Regente Nosso Senhor”.
:
Publicado pelo PORTO DE AVEIRO

REVISTA À PORTUGUESA



Ontem, no Parlamento, esteve em discussão o Orçamento de Estado, com os resultados previstos de uma vitória que conta, natural e exclusivamente, com os votos do PS, partido que sustenta o Governo. Da análise do Orçamento, os portugueses pouco ficaram a saber, porque os deputados se limitaram a dar um espectáculo bem ao jeito da Revista à Portuguesa, que criou escola lá para as bandas de Lisboa.
Como nas revistas do Parque Mayer, onde não falta nunca um quadro especial, protagonizado, como sempre, pelos actores mais cotados, normalmente cómicos, também ontem isso aconteceu. Na Assembleia da República, marcaram presença todos os tradicionais ingredientes revisteiros, a que os nossos parlamentares já nos habituaram há muito. Desta feita, Sócrates e Santana Lopes, os tais actores principais da Revista, brindaram-nos com frases bem medidas e oportunas, mas que nada tinham a ver com o Orçamento. Tinham a ver, isso sim, com o apelo às palmas acaloradas e aos risos cúmplices, de ambos os lados da contenda, para desopilar o fígado… As televisões estavam à espera para mostrar tudo, até porque o espectáculo revisteiro tinha sido bem preparado e bastante divulgado, para ninguém perder pitada. Do que interessava aos portugueses e do seu futuro, nicles!
Fernando Martins

ARES DO OUTONO


CANÇÃO DE OUTONO


No jardim deserto,
Já Novembro perto,
Desfolhei as rosas últimas a dar.
Jóias maltratadas,
Rosas desfolhadas!
Só o seu perfume vai ficar no ar.

Recolhi os versos
– Breves universos –
Que atirara ao vento para os espalhar,
Queimei-os, rasguei-os.
Secaram-me os seios…
Só rimas e ritmos vão ficar no ar.

Saudades, lembranças
De vãs esperanças,
Fiz covais no peito para as enterrar.
Nada mais me importa.
Fechem essa porta!
Só um pó doirado vai ficar no ar.

José Régio
In “Música Ligeira”

Na Linha Da Utopia



É SÓ VIR NA TV!

1. Os instrumentos de comunicação vão ocupando o lugar referencial central. São admiráveis, mas desafiam fortemente o utilizador… que vai valorizando mais o parecer - aparecer (por isso o ter), e perdendo o SER, a essência, o essencial da própria vida. Nada de novo a que já não estejamos de tal forma habituados que já nem damos por isso. Mais que nunca, hoje, a TV põe e dispõe, constrói e destrói. Das estrelas e vedetas do mundo do espectáculo e desporto, às políticas e (des)culturas, a tudo e em tudo a televisão - hoje on-line – quer garantir uma plateia mundial em que, mesmo no meio da informalidade dos entretenimentos, procura uma formalidade que, de tanto repetir nas imagens, passa a ser mesmo “verdade”, mesmo que não o seja. A frase que tantas vezes se diz de que “veio na televisão” é o espelho cabal deste estatuto de uma ilusão infalível. Puro engano!
2. Há dias, quando da edição de duas publicações de figuras bem conhecidas da praça pública (Miguel Sousa Tavares e José Rodrigues dos Santos), alguém da área questionava para quê tanta divulgação publicitária de pessoas que já têm um palco habitual o que levaria a prescindir de tanto markting. Nessa conversa radiofónica, então, começou-se a explicar todo este gigantesco processo de bastidores que depois quer resultar na “obrigação” de o cidadão comprar o produto. E este efeito de impressão no espectador é tanto mais poderoso quanto menos visão crítica uma comunidade social tiver. Ir sempre atrás da última moda, tantas vezes (veja-se em Portugal o megacaso do telemóvel - no mundo somos dos maiores!..) será sinal de que algo de estruturante no plano cultural nos continua a faltar. Para já não dizer quando falta o dinheiro!...
3. Se ao poder da mágica TV pertence já o historial da investigação (mesmo) criminal no nosso país, lembre-se que a “ponta” de alguns novelos (como por exemplo o da Casa Pia) têm nascido das comunicações sociais, a verdade é que uma nova força denunciadora e poderosa se vai consolidando. O caso de situações de campanhas positivas ou de casos grotescos de indignidade, de saúde, mesmo a denúncia de ineficácia e incúria de instituições (públicas ou privadas) torna a televisão um meio poderoso e de delicada atenção. Em situações especialmente gritantes (como a recente da professora, em termos de saúde, claramente incapaz de leccionar) os cidadãos descobriram na TV um aliado especial que também “precisa” dessas notícias… As autoridades responsáveis da devida tutela ganham visibilidade pela negativa, e claro, como há que rapidamente acalmar as águas, a situação tem solução rápida. Do mal, o menos! Mas…nas sociedades ditas de desenvolvidas não é uma questão de TV mas de humanidade diária…

Alexandre Cruz

terça-feira, 6 de Novembro de 2007

O VULCÃO DOS CAPELINHOS


Foi difícil o nascimento da última ilha de Portugal. Durante mais de um ano o vulcão expelia lamas, fogo e cinzas, a terra tremia, os homens fugiam. E foi nascendo uma pequena ilha. Do medo, fez-se espectáculo, dos rolos de nuvens negras mistério, das areias em permanente tempestade se antecipou a paisagem lunar.
Passados cinquenta anos sobre este fenómeno que abalou a ilha do Faial nos Açores e surpreendeu geólogos e turistas, restam as dúvidas sobre o significado dum cataclismo, as formas estranhas como a terra evolui, as perguntas que geralmente se fazem a Deus sobre a criação, a harmonia, a evolução inteligente da natureza e dos seres.
Cada qual responde com as razões que tem à mão. Muitas delas nada têm de científico. Muitas recusam enquadrar um fenómeno deste género no projecto inteligente de Deus. Ciência, razão e fé, entrecruzam-se nas explicações, ora unindo-se ora digladiando-se. Só a meio da escalada se percebe que não é o amontoado de razões que nos aquieta a alma, mas a razão profunda do nosso ser e a lógica cerrada da nossa fé firmemente ancorada na sabedoria silenciosa de Deus.
No terramoto de Lisboa, Voltaire, como muitos, irritou-se e com Deus. Rousseau, homem insuspeito nestas matérias, lembrou-lhe que não tinha nada que se revoltar contra Deus. Se Lisboa, disse, fosse um conjunto de casinhas bem distribuídas, sem roubar lugar a rios e riachos, com o Tejo respeitado por inteiro, nada de grave teria ocorrido em 1755.
Mas nem filósofos nem geólogos explicam os grandes cataclismos do Norte ou do Sul, as mortes de inocentes, o desaparecimento e destruição de cidades inteiras. Nem sequer os Gulagues, Auschewittz, ou Jardins de S. Cruz. A história, desde os tempos da Arca de Noé, Caim e Abel, está recheada de acontecimentos que só um olhar do alto, de fora do tempo e do espaço imediato pode projectar luz sem ser absurdo. Chamemos simplesmente Fé à chave de todo este imbróglio. Chamemos Deus ao ser de suma sabedoria que, face ao nosso desenquadramento do conjunto, nos tolera perguntas a mais, isto é, sorri das nossas arrogantes questões, os nossos olhos baços, presos ao quadrado sectário, sem altura nem horizonte.
Desprezo pela razão? Pelo contrário, respeito por ela que tem direito a não ser iludida por dimensões parcelares e viciadas que são sempre as nossas. Humilhação para a ciência? Pelo contrário, glória a ela que se sente entrelaçada por fios mais que visíveis.
O povo tem razão. No meio do vulcão das incertezas volta-se para a grande certeza de Deus que vê donde nós não vemos, projecta com sabedoria inalcançável e nos tranquiliza o coração como mais ninguém sabe fazer. Por isso, nos despojos da dor o crente sabe onde pode encontrar refúgio e em que ombro pode chorar de súplica e agradecimento. Feliz quem possui o dom da fé sempre escorado na faculdade superior da razão.

António Rego

Revista PRAXIS

D. António com sua mãe, 1990


HOMENAGEM
A D. ANTÓNIO MARCELINO



A PRAXIS, revista científica do ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro), acaba de sair com um número duplo, todo ele dedicado a D. António Marcelino, Bispo Emérito de Aveiro. Trata-se de uma homenagem oportuna, em jeito de reconhecimento pelo trabalho multifacetado que D. António desenvolveu entre nós, como Bispo Coadjutor e depois Residencial, durante um quarto de século. O que continuará a fazer, agora como Bispo Emérito, ficará para depois.
Esta edição da PRAXIS fará um pouco de história do que foi a acção notável desenvolvida por este cristão apaixonado pela sua missão, enquanto bispo e enquanto homem que nunca virou a cara aos desafios que a sociedade humana e as comunidades cristãs lhe suscitaram. Amigos, colegas do episcopado, sacerdotes, leigos e colaboradores testemunharam e reconheceram os méritos de um homem inquieto e determinado, participativo e voluntarioso, mas também o cristão de fé comprometida e o bispo apostado em alargar o Reino de Deus.
A directora da revista, Maria Armanda Saint-Maurice, lembra, em “… só duas palavras”, que “Os leitores encontrarão ao longo destas páginas referência a muitos aspectos privilegiados da acção eclesial de D. António Marcelino e muitos nomes que a sublinham, tanto de clérigos como de leigos, tanto de figuras nacionais como de figuras de destaque em Aveiro”.
Por sua vez, D. António Francisco dos Santos, actual Bispo de Aveiro, frisa que “Tudo e sempre na vida de D. António Marcelino teve a marca da profecia e a audácia da doação”, sendo visível que “As diversas missões e múltiplas responsabilidades a que a Igreja o chamou permitiram-lhe abrir novos caminhos nas mais variadas frentes do anúncio do Evangelho, da renovação da Igreja e do diálogo com o mundo”.
Algumas ilustrações e fotografias de D. António Marcelino, do tempo do seminário, do padre, do bispo e em família, com dados pessoais, valorizam esta edição da PRAXIS.
Fernando Martins

Gafanha do Carmo



PARÓQUIA EM FESTA

A Gafanha do Carmo celebra hoje, com uma missa solene, às 20.30 horas, e uma exposição, a criação da paróquia, o que aconteceu em 6 de Novembro de 1957. Completa, portanto, meio século de vida. A criação de freguesia teve lugar, porém, três anos depois, em 17 de Setembro de 1960.
No “site” da Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos da Gafanha da Encarnação, pode ler-se: “A Gafanha do Carmo é um local aprazível e simpático para viver. As pessoas são acolhedoras, generosas e traduzem o espírito natural e bruto de uma aldeia em desenvolvimento mas que não consegue esquecer os traços do seu passado e as marcas rígidas e pouco instruídas dos seus antepassados históricos. Pode-se afirmar que quase metade da população desta Gafanha está emigrada, como reflexo das carências de trabalho e de vida social que outrora esta povoação sofreu.”

segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

Na Linha Da Utopia



UMA TOLERÂNCIA HUMANIZADA

1. Na noite de última terça (30 de Outubro) uma notícia abalou a Itália. A agressão mortal de um imigrante romeno contra uma mulher italiana, Giovanna Reggiani, tem feito correr muita tinta, tanto pelo cruel e condenável acto em si como pelos seus efeitos sociais. De urgência, o governo reuniu e fez aprovar um decreto-lei que permite a expulsão de estrangeiros dentro da União Europeia que cometam crimes considerados graves. Dessa forma, expulsa-se o criminoso e tudo ficará resolvido… (?). Resta saber se os crimes cometidos por cidadãos naturais de Itália merecem algo de semelhante… Ou será o crime em Itália exclusivamente cometido por imigrantes?!
2. Não haja dúvida que a medida do governo cai bem, é popular. Na busca de segurança, não se sabendo como, começa-se a olhar em volta e nada como afastar os que chegaram há pouco tempo, esses que (muitas vezes vítimas de governos ditatoriais de seus países) fazem os trabalhos pesados que as sociedades do luxo já não querem fazer… Satisfeito pela cómoda solução encontrada, desabafa o líder Romano Prodi: ”Fizemos o que devíamos fazer…”; só faltaria acrescentar: que vão para outro lado desde que não matem em Itália!...
3. A vítima de 47 anos tinha prestígio, era esposa de um capitão da marinha, facto que dá nas vistas, pois continua a haver uns mais iguais que outros. Quanto ao faminto jovem romeno Romulus Nicolae Moilat está preso (haverá alguma coisa do Rómulo, fundador de Roma, nisto?!... Significado do ponto a que chegaram as sociedades e a ineficiência humanizadora dos Estados europeus? Certamente que não!...). Em Itália, os ecos estendem-se e os sentimentos são de exclusão da comunidade romena. Na imprensa italiana e europeia, surgem perguntas sintomáticas como “a Europa acede a uma nova era de intolerância?” (The Independent).
4. As sociedades da razão cómoda estão a ser grandemente interpeladas por acontecimentos deste calibre. E se muitas vezes se pergunta sobre “o que fizemos” para que este ou aquele facto ocorresse, melhor seria que perguntássemos sobre “o que fazemos efectivamente” por uma justa distribuição dos bens. Quantas explorações dos europeus ao longo dos séculos têm sido a estratégica manutenção do subdesenvolvimento dos “outros”... Um novo realismo tolerante deverá caminhar a par das estratégias como busca de soluções globais; crime tanto o pode fazer o imigrante como o autóctone. À condenação veemente do horrendo crime, responder de forma intolerante agrava a ferida e multiplica a intolerância. Diante de problemática tão complexa importará ir às raízes e aí repensar a tolerância como factor de humanização da própria humanidade. A montante e a jusante; o futuro precisa, não há alternativa.


Alexandre Cruz

INSENSIBILIDADES

O CASO DA FUNCIONÁRIA QUE TEVE DE REGRESSAR AO TRABALHO SEM QUASE SE PODER MEXER

Vi e li, na comunicação social, mais um caso de insensibilidade protagonizado por uma Junta Médica da Caixa Geral de Aposentações. Uma funcionária autárquica foi obrigada a regressar ao trabalho, não obstante a sua real situação de incapacidade física. Quem assim decidiu vê mal, pelos vistos. Ou então, deduziu, inexplicavelmente, a meu ver, que a funcionária estaria a fingir que estava doente
O ministro das Finanças mandou reapreciar o caso e disse, na televisão, que situações destas não podem repetir-se.
Neste meu espaço de partilha já disse, mais do que uma vez, que o Estado é uma entidade sem alma e sem sentimentos. As pessoas têm-nos, disso ninguém duvida, mas na prática, face a leis cegas, também os julgadores ficam cegos, muitas vezes. É triste sentir que no dia-a-dia é tal como digo.
Na Gafanha da Nazaré já tivemos uma situação dramática. A Manuela Estanqueiro, professora bem conhecida entre nós, foi vítima da insensibilidade de uma Junta Médica. Cancerosa em último grau, foi também obrigada a regressar ao trabalho. Morreu pouco tempo depois. Mas a denúncia da cegueira da Junta Médica foi divulgada pela comunicação social, o que gerou grande revolta entre quem a conhecia. Novos casos surgiram à custa da sua morte, o que levou o Governo a reformular a lei, cuja aplicação tarda. Será preciso que outros funcionários morram? Infelizmente, parece que sim. Somos o País que somos, com os legisladores que temos.

Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré

Grupo Etnográfico na Polónia


JANTAR DE CONVÍVIO

O Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré programou um jantar para convívio e angariação de fundos. Será no dia 17 de Novembro, pelas 20 horas, no restaurante Clássico, esperando-se a participação de muitos amigos deste grupo que tem por missão descobrir e mostrar as nossas tradições etnográficas. Penso que esta vai ser uma boa oportunidade para conviver à volta da mesa, ouvindo e cantando modas antigas. Inscrições junto dos membros do grupo.

domingo, 4 de Novembro de 2007

CAPITAL DO PANTANAL




O Pantanal, região paradisíaca do Brasil, tem mesmo paisagens de sonho. E as suas gentes, segundo penso, devem ser pessoas puras, como puros são os horizontes que encantam os nossos olhos. Amigo radicado no Brasil teve a gentileza de me sugerir que apreciasse este recanto brasileiro. Já apreciei. Aqui fica a minha partilha.
:
Para ver mais, clique PANTANAL

Na Linha Da Utopia


O REGRESSO AOS VALORES

1. Têm crescido as notícias, de norte a sul, que nos mostram a insegurança em que vivemos. Das ruas públicas às escolas de todos, também esse “medo” vai registando casos de preocupante violência gratuita, a que poderemos juntar a marginalidade e como causas a desestruturação de muitas famílias, a ociosidade e a pouca esperança (espelhada nas médias de separações…) que paira mesmo sobre as novas famílias. Uma novíssima configuração social vai emergindo, mais ao sabor das pragmáticas urgências diárias que de um “plano” sonhado e idealizado que rasgue no horizonte uma sábia esperança que sabe aprofundar e amadurecer as convicções de VIDA em que se alicerçar.
2. Aos “vazios” que, mais dia, menos dia, sempre geram descompromissos e instabilidades nas sociedades, as respostas dos sistemas sociais estão aí. Estão a ser “hoje” multiplicadas as legislações em todos os quadrantes, dos estatutos e regulamentos às normativas legais decretadas; para alunos, professores, trabalhadores, condutores; na rua, na estrada, na praça, no hospital, na escola… Há dias veio da OCDE mais um daqueles relatórios europeus que nos deixa a pensar; a infeliz conclusão é que somos os mais desconfiados da Europa. Afinal, toda esta carga de legislação fiscalizante (que alternativa?) acaba por ser a confirmação dessa desconfiança. E como se mais legislação fosse sinal de mais estabilidade!
3. Se as respostas sociais são marcadamente no plano das consequências (do mal já feito ou do mal a evitar), eis que só poderá estar mesmo a chegar o tempo em que apostemos na iluminação POSITIVA de tudo, pois é na raiz da árvore que estará a garantia do bom fruto. Fale-se mais do regresso aos (e dos) Valores Humanos, das atitudes pessoais e comunitárias que nos realizam como pessoas e cidadãos; fale-se, pela positiva, dos deveres humanos como plataforma sustentável dos direitos; vença-se o “tanto faz” e perca-se o receio de proclamar os princípios e os valores fundamentais e estimulantes sobre os quais dar raiz e sentido à vida a ao bem comum; veja-se o compromisso, a responsabilidade, a ética, o “dever”, a pontualidade, o rigor…como elementos bons, gratificantes e óptimos para o SER e para rumarmos ao futuro melhor que sempre desejamos (mas pouco alimentamos).
4. Só os Valores Humanos, apreciados, apre(e)ndidos e acolhidos darão os frutos de uma sociedade mais segura, mais confiante e mais esperançosa, porque mais humana. Os valores serão essa aposta no “cavalo certo” da raiz; as leis e codificações, necessárias como regulação…, mal vai quando elas se tornam importantes demais. É sinal de que os valores da liberdade andam meio perdidos... Regressemos a essa fonte original dos valores, reconhecendo e promovendo o valor dos Valores. Valorizam-se as (necessárias) normativas legais… e a correspondente aposta (essencial) nos Valores? (Falamos dos Valores Humanos dignificantes, daqueles que vencem o subjectivismo, que em todo o tempo e lugar são o princípio e a sustentabilidade da vida, da sociedade, de tudo!)

Alexandre Cruz

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 45

Egas Moniz


A GRADE DE OURO E A FONTE

Caríssima/o:

Certamente que vais ler e não tens qualquer reacção; é normal, mais lenda menos lenda...
Então vamos à leitura que no final contextualizo esta introdução:

«Decerto que Avanca – rica em episódios protagonizados por mouras encantadas, bruxas e lobisomens – é a freguesia do concelho de Estarreja onde se notam mais as marcas das tradições lendárias. Mesmo assim é a pátria de um dos espíritos científicos mais destacados deste país, Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina em 1949.
Na noite de S. João, por exemplo, que continua a ser condignamente comemorada, diz-se que aparecia uma bela grade de ouro no fundo do Poço dos Chavões, junto às Chousinhas, no lugar do Rio Gonde, exactamente onde o leito é mais profundo. Pois a lenda fazia anotar que para a retirar das águas importava conseguir-se o auxílio de uma junta de bois. E estes bois deveriam ser negros. E poderíamos perguntar se a grade ainda lá está, e neste caso como é que não há notícia de quem quer que seja se tenha habilitado à sua extracção do rio, e se a principal escusa será a falta de bois negros nas redondezas! Ou será que já a levaram?
Também no lugar do Fojo situa-se a Mina da Água Nova, também conhecida por Mina dos Nove. A lenda foi passada a escrito pelo cónego Julião Pires Valente Figueira, quando tratava da origem e história da família dos Juliões, de cuja árvore genealógica ele era um dos mais notáveis rebentos. Tire-se cópia da lenda, com a devida vénia:
“António Valente Figueira (lavrador do Outeiro da Bandeira)... Os seus vizinhos, porém, continuavam a colher pouco por não terem água abundante para os seus terrenos, penúria que muito o magoava e procurou remediá-lo estudando um pequeno charco existente algumas dezenas de metros acima do poço da sua mina. Verificada a probabilidade de alguma coisa se conseguir, tratou de estudar a directriz do rego e de entender com os donos dos prédios atravessados em que não encontrou dificuldades de maior.
Ele mesmo, com os seus criados, tinha feito algumas sondagens no charco, sempre animadoras, e acrescentando-as mais, verificou que uma bela nascente estava ali apenas a dois metros de profundidade, isto é quase ao sol. Dias depois chamou os vizinhos e com toda a sua gente de trabalho, para lá se dirigiram todos com grande satisfação, levando à frente uma junta de bois jungidos a um arado. Chegando e verificados os trabalhos já feitos, principalmente pelos vizinhos das terras subjacentes, que nem o charco conheciam, cujo rego de derivação iam começar a abrir, ele mesmo, pondo as mãos na rabiça do arado, no meio da admiração entusiástica expandido a sua alegria, lá foi manobrando o arado precisamente ao local onde a água procurava atravessar a mina já então existente.»
[V. M., 91]

Lida e não vos disse nada?!
Pois quando passei os olhos por cima do texto e encontrei o nome “António Valente Figueira” dei um salto na cadeira... Já o nome do cónego Julião me deixou de orelha guiada, mas aquele outro... é nem mais nem menos o avô de Manuel Joaquim Tavares Valente, mais conhecido por Manuel Passarinha que por sua vez é bisavô de nossos filhos!
Bem, mas fiquemos por aqui, que prometo continuar, se Deus nos der vida e saúde!

Manuel

sábado, 3 de Novembro de 2007

DIA MUNDIAL DO HOMEM

O HOMEM É REI
DE QUASE TUDO
NA NOSSA SOCIEDADE


Não sei se sabem, mas hoje celebra-se o Dia Mundial do Homem, segundo reza a minha agenda. Confesso que não sabia de tal celebração. Mas se há dias para quase tudo e todos, nome-adamente, da Mulher, da Criança, da Mãe, do Pai, dos Avós, também fica bem celebrar o Dia do Homem. Não que ele precise, assim tanto, na nossa soci-edade, que se fale dele, que do homem se fala sempre e a toda a hora, ou não fosse ele o rei de tanta coisa, na política, no desporto, nas religiões, nas empresas, etc... etc, mas porque haverá, e há de certeza, homens muito esquecidos e até menosprezados. Por isso, valerá a pena falar do homem.
Eu disse que na nossa sociedade o homem ainda é rei de quase tudo... tal como nas sociedades árabes. Mas noutras civilizações, noutras culturas, estou em crer que os homens precisam de quem deles se lembre, para que haja mais justiça, mais respeito pelos direitos do ser humano, onde o homem deve estar em pé de igualdade com a mulher, pese embora as diferenças a tantos níveis que os distinguem e os tornam complementares.
Aqui fica, então, recordado o Dia Mundial do Homem, numa perspectiva de todos lutarmos pela dignificação do homem e da mulher neste mundo pautado por tantas injustiças. Afinal, os dias celebrativos servem tão-só para isso, isto é, para que recordemos, no dia próprio, quem se pretende enaltecer.

FM

PORTAL DE ZAQUEU

A cena ocorre em Jericó, cidade relativamente rica e próxima de Jerusalém. Jesus com o seu grupo está de passagem. O comentário corre veloz, dando origem a um certo alvoroço popular. A curiosidade apodera-se dos habitantes. Querem ver o acontecimento. Também Zaqueu, homem rico e influente, se sente “tocado” e não resiste: corre para ganhar distância, sobe a uma árvore, observa a movimentação dos caminhantes e fixa-se, sobretudo, em Jesus de Nazaré. Há nele um impulso irresistível: A curiosidade faz-se expectativa e esta abre horizontes à esperança.
Jesus acompanha os movimentos de Zaqueu e capta os seus sentimentos. Por isso toma uma iniciativa ousada e faz-se seu convidado. Quer ficar em sua casa, ser seu hóspede, sentar-se à sua mesa, partilhar a sua intimidade, acolher as suas preocupações. E fá-lo com tal mestria que o diálogo provoca uma alteração completa na vida do chefe dos publicanos da cidade.
Zaqueu, dando largas à sua alegria, põe-se de pé e, com a maior das simplicidades, abre o coração e exclama: Vou redistribuir os meus bens. Aos pobres darei metade do que possuo e, a quem defraudei, restituirei quatro vezes mais. Jesus aprova decisão tão generosa e garante, com notável firmeza, que a salvação havia entrado em casa de Zaqueu.
A sobriedade deste episódio oferece-nos a riqueza do seu sentido, constituindo uma espécie de “portal” onde se visualiza uma compreensão integral do ser humano e das suas múltiplas relações. Dela resulta uma antropologia que dá consistência e abre horizontes às antropologias de todos os tempos, sobretudo actuais.
O ser humano é “habitado” por uma apetência divina e sente-se chamado a ir ao seu encontro, a buscá-la sem temer comentários nem reacções caricatas. Não lhe basta a satisfação efémera, ainda que necessária. Anseia sempre mais. A medida do seu coração é a da Infinito que, em Jesus de Nazaré, se revela em plenitude. É a Ele que se entrega em aliança de amor que, na terra, se celebra em gestos e sinais, e na eternidade se contempla e vive sem qualquer restrição.
A esta luz, como são redutoras as perspectivas de correntes culturais como o relativismo, o subjectivismo, o materialismo, o hedonismo.
Do encontro com Jesus, Zaqueu apreende uma nova dimensão da vida. Ele não se isola nem contemporiza com atitudes egoístas. Abre-se aos outros, considerados na sua dignidade. Revê comportamentos incorrectos. Não se fica pelo cumprimento da lei. Os outros são pessoas como ele. Reconhece os direitos do pobre e quer respeitá-los.
Este reconhecimento é fundamental para a segurança do nosso crescimento pessoal e para a humanidade da nossa convivência. Sem ele, somos sempre estranhos uns aos outros e tendemos para a inevitável desconsideração das capacidades alheias. O reconhecimento é a afirmação valorativa da nossa comum humanidade e da urgência de implementar atitudes pessoais, regras sociais e medidas legislativas adequadas.
O portal de Zaqueu faz convergir toda a narrativa para a função dos bens: o modo como são adquiridos, administrados e consumidos; a rede de distribuição e de comercialização; os preços e as margens de lucro; enfim, a economia “pura e dura”. Sem bens suficientes, não há possibilidades de atender às necessidades humanas fundamentais de todos e de cada um. Sem produção, não pode haver distribuição. Sem trabalho para todos, não é legítimo acumular empregos. A partilha, antes de ser uma forma de escoar as sobras, tem de proporcionar o acesso pelo emprego ao “banco do trabalho”, às actividades socialmente úteis, às iniciativas de que necessita todo o ser humano e o realiza, embora não sejam remuneradas. Esta visão evangélica, embora apenas esboçada, constitui uma autêntica novidade na área económica e pode contribuir imenso para humanizar as relações comerciais hegemónicas.
Visto do portal de Zaqueu, o nosso mundo pode ser mais humano com o reforço do Evangelho.

Georgino Rocha

O MISTÉRIO DA MORTE E O SEU DEPOIS

Neste domínio, há um pudor que nos habita. Peço, pois, a compreensão benevolente do leitor.
Quando os meus pais morreram, olhei - era o fim de um mundo! - e constatei que o que deles restava não eram eles e lembrei-me daquela pergunta lancinante que Tolstoi coloca na boca de Ivan Ilitch moribundo: onde é que eu estarei, quando cá já não estiver?
Sempre que passo pela terra que me viu nascer, faço uma visita ao cemitério e, ali, diante dos seus túmulos, ouço as palavras do anjo às mulheres diante do túmulo de Jesus : "Não está aqui!"
Diante da morte, fazemos a experiência do mistério pura e simplesmente. A morte é o absoluto, sem relação. O absoluto tem uma dupla face: a morte e Deus. Daí, tudo quanto dizemos sobre a morte e sobre Deus sentirmo-lo como nada que nos convoca para o silêncio, segundo o preceito de Wittgenstein: "Sobre aquilo de que se não pode falar deve-se calar."
Para onde vão os mortos? O que é morrer e o que é a morte? Depois, o quê?
Impressionou-me em extremo a declaração do teólogo J. I. González Faus sobre o pai, que lhe transmitiu a fé e que considera "uma grande personalidade": "Terminou a sua vida derrotado e duvidando de Deus como quase todos os humanos."
A morte e o seu depois constituem para nós uma tenaz: impensáveis que nos obrigam a pensar. Impensável que tudo acabe como impensável qualquer depois. Lá está Pascal: "Incompreensível que Deus exista, e incompreensível que não exista; que a alma seja com o corpo, que não tenhamos alma; que o mundo seja criado, que o não seja, etc."
O filósofo ateu E. Bloch é modelar nestas perplexidades. A mim perguntou-me ironicamente onde é que meteria tantos milhares de milhões de seres humanos, se houvesse ressurreição dos mortos. Um dia, em Viena, disse que, se houvesse ressurreição, as galinhas estoirariam a rir. Mas, na juventude, admitiu a reencarnação. Na maturidade, teorizou sobre "o núcleo do Humanum extraterritorial à morte".
Bloch casou com Else von Stritzky, uma cristã de Riga, e a relação que entre os dois cresceu foi a de um amor como há poucos. Ela morreu jovem, e o filósofo foi fixando no Diário a sua dor, aliviada pela esperança do reencontro "do Outro Lado" (Drüben), "no Além" (Jenseits).
O teólogo J. Moltmann contou-me que, poucos dias antes da morte, lhe perguntou como reagia a esse desafio, tendo ele respondido: "Estou curioso" - note-se, porém, a força da palavra alemã "neugierig", com o sentido de ansioso por novidades. Moltmann também escreveu que "na véspera de morrer, ao entardecer, ele escutou mais uma vez a sua música mais querida, a abertura de Fidelio, de Beethoven, com o sinal das trombetas para a libertação dos cativos no final". Essa passagem, que associava à Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses, 13, 16: "Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá dos céus e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro", sempre o comovera. É que, como escreveu, "em Beethoven, pré-anuncia-se a chegada de um Messias. Erguem-se desde as masmorras sons de liberdade e de recordação utópica. O grande momento chegou, a estrela da esperança cumprida no aqui e agora".
Depois da morte, é a eternidade: a eternidade do nada ou eternidade de Deus. Mas não se tratará da dupla face da mesma eternidade, como diriam, no limite, os místicos? Não será a pergunta - para onde foram os mortos?, onde estão os mortos? - que é mal formulada? Porque os mortos não foram nem estão: a pessoa dos mortos é.
Por mim, nos dias 1 e 2 de Novembro - os dias em que as nossas sociedades científico-técnicas, que fizeram da morte tabu, permitem a visita dos mortos -, coloco um CD com o Requiem Alemão de Brahms e outro com o Requiem de Mozart no leitor de CD, em homenagem aos meus pais, amigos e todos os mortos - poderão ser uns cem mil milhões. A música diz-nos o indizível: o que é existir simultaneamente no tempo e fora dele.
In Diário de Notícias de hoje

PARA PENSAR



Onde há ódio, que eu leve o Amor;
Onde há ofensa, que eu leve o Perdão;
Onde há discórdia, que eu leve a União;
Onde há dúvida, que eu leve a Fé.

Onde há erro, que eu leve a Verdade;
Onde há desespero, que eu leve a Esperança;
Onde há tristeza, que eu leve a Alegria;
Onde há trevas, que eu leve a Luz.

Oh Mestre, fazei que eu procure menos
Ser consolado do que consolar;
Ser compreendido do que compreender;
Ser amado do que amar.

Porque é dando que se recebe;
É perdoando que se é perdoado;
É morrendo que se ressuscita
Para a Vida Eterna.


Liturgia das Horas,
na Hora Intermédia de hoje

sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

RECORDANDO


Na tranquila tarde do outono seco
e pardacento
viajam meus olhos ao encontro
de encontros esquecidos

Vi então no rumorejar dos pinheiros
o sussurro
de amizades não perdidas
no ar quente da vida

Senti na planura da ria serena
a alegria partilhada
por tantos… tantos…
embalados no meu espírito

Reconheci no corre-corre
dos dias agitados
marcas vibrantes de sonhos floridos
nas tardes que brilham

Compreendi na ternura cálida
que todos se sentam tranquilos
para o bate-papo
no banco da minha memória

Fernando Martins

Fiéis defuntos de 2007

RÁDIO TERRA NOVA: Concurso literário



“HISTÓRIAS DO MAR E DA RIA”


A Rádio Terra Nova, em colaboração com a Comissão das Comemorações do Bicentenário da Abertura da Barra de Aveiro, lançou um concurso literário, destinado a alunos dos Agrupamentos das Escolas dos sete municípios ligados à Ria de Aveiro, nomeadamente, Ovar, Estarreja, Murtosa, Aveiro, Ílhavo, Vagos e Mira. Ao concurso, denominado HISTÓRIAS DO MAR E DA RIA”, podem concorrer jovens matriculados no Ensino Básico (1º, 2º e 3º ciclos) e no Ensino Secundário. O prazo de entrega dos trabalhos termina no dia 3 de Abril de 2008.

STELLA MARIS

10 de Novembro, 20 horas
Prof. Marcos do Vale, num jantar de convívio
no Stella Maris (Foto de arquivo)




CONVÍVIO COM FADOS E OUTRAS MÚSICAS


Instituições que não promovam o convívio e a partilha estão condenadas ao fracasso. O clube Stella Maris, da Obra do Apostolado do Mar, com sede na Gafanha da Nazaré e vocacionado para servir os homens do mar e da ria e seus familiares e amigos, quer apostar na aproximação das pessoas, proporcionando-lhes bons momentos de confraternização e alegria.
No próximo dia 10 de Novembro, pelas 20 horas, haverá um jantar para quem se inscrever. A ementa, à moda serrana, oferece sopa de castanhas, lombo e vitela assada no forno, mais doces variados, castanhas assadas, jeropiga e outras bebidas.
Os interessados poderão reservar a sua mesa pelo telefone 234 367 012 ou na sede do clube.

FÁTIMA - 4

Porta principal
Painéis do Rosário (lado esquerdo)

Painéis do Rosário (lado direito)


Cruz Alta



João Paulo II



O QUARTO MAIOR TEMPLO DO MUNDO


Quando cheguei à nova igreja de Fátima, a tal que dizem ser uma igreja para o século XXI, não senti que estava perante um templo clássico. De qualquer forma, fui-me habituando à ideia de que os templos não têm que ser sempre do mesmo estilo. Cada época reflecte neles as suas sensibilidades, as artes dominantes e os gostos próprios dos artistas convidados a concebê-los. Nessa perspectiva, percebi que a igreja da Santíssima Trindade começa por ser muito diferente do que os nossos gostos têm guardado lá no âmago. Mas gostei, logo que me fixei na grandiosidade do templo, o quarto maior do mundo.
A porta principal, de grande imponência, ou não seja Cristo a PORTA, está ladeada por dez painéis de bronze, do artista português Pedro Calapez, representativos dos Mistério do Rosário. Depois, as portas laterais, alusivas aos doze Apóstolos, caracterizam-se pela sua simplicidade e com uma referência a cada um dos seus patronos.
No exterior, como que a envolver a igreja, podemos apreciar quatro estátuas: D. José Alves Correia da Silva, primeiro bispo da restaurada Diocese de Leiria, Pio XII, Paulo VI e João Paulo II.
O que registei, num primeiro momento e nos que se seguiram, foi que o povo nutre pelo Papa João Paulo II um carinho especial. Compreende-se. Foi o Papa mais conhecido e mais carismático do século XX e grande devoto de Nossa Senhora de Fátima. Constantemente pessoas a apreciá-lo e a pedir a sua intercessão junto de Deus, depositando flores junto da sua estátua orante.
Depois a Cruz Alta, muito contestada, conforme se tem verificado na comunicação social. De qualquer forma, o que vi foi sintomático: há muitos a contestá-la, mas também há muitos a admirá-la, pela força com que ela nos atrai. Não será fácil, para olhos habituados a um Cristo com rosto, como se vê nos crucifixos, mas estou convencido de que a riqueza simbólica acabará por se impor. Afinal, o autor está a convidar-nos a construirmos, na nossa mente, um Cristo ao gosto de cada um nós. A partir de traços simples, marcantes, poderemos interiorizar um Cristo que nos modificará por dentro, com um rosto que a nossa imaginação e sensibilidade poderão moldar. Talvez por isso, muitos fotógrafos amadores, como eu, não se cansavam de fixar nas suas máquinas aquela Cruz, vista dos mais variados ângulos.

Fernando Martins

Aveiro: Inauguração do Museu prevista para Novembro de 2008




Desde Maio do ano passado que o Museu de Aveiro está a sofrer profundas obras de ampliação e requalificação. Um mega projecto de cerca 5 milhões de euros, projectado pelo arquitecto portuense Alcino Soutinho, que está a decorrer dentro dos prazos. Uma vez concluído, este será dos museus nacionais com maior área de exposição permanente, que conta a história da arte portuguesa entre os séculos XV e XIX
Leia a reportagem de Sandra Simões no Diário de Aveiro

quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

ARES DO OUTONO


OUTONO

Recolhe-se a morrer a Natureza.
O ar é fruto e mosto. Nos pomares
O moribundo Outono põe a mesa
E despeja o seu sangue nos lagares.

A Natureza expira; e, na tristeza
Da lenta morte que lhe vem dos ares,
Morre em paz, finda em sonho e em certeza,
Depois de abastecer todos os lares.

Anda na vida a lentidão do sono.
Maternalmente, as árvores, fraquíssimas,
Mal sustentam o fruto. O Inverno vem…

Assim expira o renascente Outono,
Em tardes que são mortes sereníssimas
De dias bons e que viveram bem…

Afonso Lopes Vieira

Na Linha Da Utopia

TODOS (OS) SANTOS

1. É uma “multidão incontável”, como nos diz o livro do Apocalipse de João. Ninguém no mundo tenha a pretensão de contar o incontável, pois não é uma questão de números mas de qualidade. A Celebração de Todos os Santos faz-nos parar, reparar, viajar, (re)encontramo-nos nos nossos, os que vivemos com os que já partimos. É um gesto, um sinal, um carinho que quererá significar a continuada presença, pois cada ser humano nasce (do e) para o infinito de Deus. Sim, a dignidade humana fala-nos muito acima do finito da histórias e das coisas que todos os dias temos ou não temos em mãos.
2. É a celebração de TODOS os Santos. Todos, mesmo todos, não só para alguns! No fundo, nesse “todos” estão os que viveram do AMOR, os que dialogaram (ou em consciência recta dialogariam) com o “outro”; são os que amaram (Deus é Amor) de todas as nações, culturas, religiões, modos e formas de vida. Os que viveram a comunhão vivem agora essa comunhão de sentido existencial (muito acima do corpo biológico) com a fonte de todo o SER, Deus, o único Absoluto que é acolhido de forma criativamente diversa nas diferentes religiões e culturas e que no Cristianismo assume-se como uma PESSOA! Que proximidade directa e relacional admirável, Deus entre nós, como nesse desejado natal de todos os dias e todas as noites.
3. Dia de Todos os Santos, o dia da maior abertura de espírito! Não dia de todos os “santinhos”, isso não existe, a não ser em ainda muita da pesada tradição que continua a tardar em criar ponte directa com cada contemporaneidade. “Santos” sim, o mesmo é dizer: caminhantes na busca de uma perfeição absoluta, esta que está sempre acima do que somos, sempre a puxar por nós, no mundo do trabalho, das escolas, da sociedade, da comunidade humana. Lembra-nos este dia o essencial: somos bem mais que matéria, somos SER, consciência, lugar de diálogo existencial…que nos recria a esperança e o sentido da vida. No fim de tudo, e na medida em que amamos a vida, esta, transformando-se, só pode continuar, no eterno, no nosso espírito, numa presença carinhosa de paz com todos, com tudo.
4. Não é algo instrumental, não é uma coisa técnica, não tem fórmulas, tal como a paz, a poética, a liberdade, a felicidade e o amor não as tem. É bem mais profundo e a sua percepção depende da profundidade de cada coração humano que corajosamente se sabe abrir às possibilidades (e)ternas do amor. Cada gesto, cada vela, cada flor, será esse horizonte pacífico que em Deus nos torna presentes uns nos outros. Como diz Agostinho da Silva, «o tempo que vivemos, se for mesquinho, amesquinha o eterno». Não amesquinhemos, neste dia libertemos esse nosso “eterno” num abraço terno aos nossos; esse abraço que cada dia se quer multiplicar na construção da justiça e da paz!


Alexandre Cruz

VIVER A REALIDADE NUM MUNDO COMPLEXO

O desafio para pensarmos em que mundo vivemos e o que é que nele fazemos que seja determinante e válido, para nós e para os outros, é um desafio que nos afecta e, por vezes, nos incomoda. É mais fácil vivermos de ideias feitas e dados pacificamente adquiridos, que viver com interrogações permanentes, prontos a mudar de rumo, se aquele em que navegamos nos leva a becos sem saída, escolhos inesperados e perigosos, águas mornas e paradas que, para nos iludirem, ainda reflectem o sol do Inverno.
Por mais que se publicite o conforto, a verdade é que, para quem quiser permanecer vivo, responsável e actuante, o conforto e a instalação acabaram. A viagem de uma vida activa faz-se agora sobre a crista da onda e de barco a remos contra a maré. Não dá para os que enjoam com facilidade, nem para aqueles que têm lugar cativo no sofá cómodo da sua sala ou de qualquer outra.
Hoje, tanto os responsáveis políticos como os das grandes instituições que venceram ou julgam ter vencido o tempo, correm o risco de viver num passado que já não existe e de olhos fechados a um presente que se vai construindo à revelia de regras e princípios, aos quais não se reconhece grande cotação. Nivelar a vida com a mesma rasoura é um passo curto e fácil, mas ineficaz e perigoso. Predomina o efeito da mudança imparável
O mundo secularizado defende a sua autonomia e as suas regras e não é mais o mundo dependente da religião ou que se inspira nos seus princípios morais. A Igreja, nos tempos que correm e depois de um concilio ecuménico, não é mais a Igreja da gloriosa cristandade ou a Igreja armadilhada contra as diversas formas de oposição, religiosas ou políticas. A família não é mais a família tradicional em que convivem pais filhos e netos e em que o homem é sempre o detentor único da autoridade, mas a família nuclear e dispersa, com relações internas mais difíceis e poderes repartidos. A escola deixou de ser o espaço normal de educação e transmissão de saber e tornou-se uma instituição que já não se entende a si mesma e de que o Estado se apropriou, como dono único de um brinquedo perigoso, provocando nela mudanças a torto e a direito, à revelia de alunos, pais e professores e surdo ao rumor insistente da opinião pública.
Um mundo diferente exige respostas diferentes, gente com sabedoria, acordada para a realidade e capaz de tomar posição equilibrada e séria, ante os problemas que enfrenta. No que toca à Igreja e aos seus responsáveis, nada de mais urgente. Os redutos de persistente cristandade e os grupos de gente azeda que em tudo vê inimigos, não podem travar uma acção pastoral realista que sabe o que programa, o que faz, qual o sentido das suas decisões e sempre aberta à participação dos seus membros, chamados a pensar o caminho que importa andar e a andá-lo em comum. Muitos planos e programas parece darem pouca atenção às pessoas concretas, hoje tão diferentes nas suas experiências humanas e religiosas, que enfrentam mudanças culturais sérias, assimilam critérios e optam por modelos de vida indiferentes a acções apostólicas correntes, que, não raro, vão pouco além da generosidade dos agentes pastorais tradicionais. No nosso espaço religioso coabitam cristãos esclarecidos, pagãos baptizados, gente de muitas crenças e algumas pertenças, muitos indiferentes. E, por vezes, até visitam o templo e seus anexos ou vão passando pelo adro, ateus e agnósticos satisfeitos consigo próprios. Um mundo plural que deve marcar o rumo de uma acção própria que, por sua natureza, não pode ser indiferente ou inócua. Gente que ainda gravita no espaço religioso experimenta no seu mundo secular formas de participação activa, a que a Igreja não pode ficar alheia.
Ao mesmo tempo, a verdade que se propõe tem de casar com a realidade que se vive, de outro modo aumenta a insignificância do que se é e se propugna. Um mundo complexo é para uma Igreja serva um desafio apaixonante, nunca um convite à alienação. A Igreja sempre teve por vocação enfrentar desafios. É esse o seu caminho.

António Marcelino