segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

DIA MUNDIAL DA PAZ - MENSAGEM DO PAPA


Família Humana,
Comunidade de Paz

"Condição essencial para a paz nas famílias é que estas assentem sobre o alicerce firme de valores espirituais e éticos compartilhados. No entanto, é preciso acrescentar que a família experimenta autenticamente a paz quando a ninguém falta o necessário, e o património familiar – fruto do trabalho de alguns, da poupança de outros e da colaboração activa de todos – é bem gerido na solidariedade, sem excessos nem desperdício. Para a paz familiar, portanto, é necessária a abertura a um património transcendente de valores, mas, simultaneamente, há que não menosprezar a sapiente gestão quer dos bens materiais quer das relações entre as pessoas. O falhanço nesta componente tem como consequência a quebra da confiança recíproca devido às perspectivas incertas que passam a pairar sobre o futuro do núcleo familiar."
:
Toda a Mensagem em Ecclesia

domingo, 30 de dezembro de 2007

As prendas de Natal


DEUS ANDA PELA COZINHA


Há pessoas com uma intuição especial para escolher prendas de Natal para os familiares e amigos. Eu, confesso, tenho algumas dificuldades. Normalmente dou aquilo de que gostei. Sobretudo livros já lidos e que me encantaram. Esse meu hábito já mais do que uma vez foi contestado por familiares, alegando que aquilo de que gosto pode não dizer nada a quem ofereço. Contudo teimo nesse meu comportamento, por não ver outra saída.
Neste Natal, por exemplo, recebi livros que me deliciaram. Já dei uma vista d’olhos a alguns e percebi que os meus familiares e amigos acertaram em cheio. Deles talvez venha a falar ao longo do ano.
Há um, porém, que se lê num fôlego e que me encantou durante a tarde de ontem. Já tinha ouvido falar dele, mas não tinha sentido apetência pela sua aquisição e pela sua leitura. Nem sequer tinha dado conta de que o prefácio, texto fundamental, era do conhecido padre e poeta José Tolentino Mendonça, já de si garantia de um trabalho de qualidade. O meu amigo acertou, portanto.
O livro – A BÍBLIA CONTADA PELOS SABORES – contém receitas de Albano Lourenço na Quinta das Lágrimas, com fotografias, excelentes, de Valter Vinagre (não podia faltar). A ficha técnica diz ainda que a edição é da Assírio e Alvim e que a revisão é de António Lampreia (também vem a calhar).
Da Bíblia, (Antigo Testamento e do Novo Testamento) e da tradição cristã são as receitas de entradas, sopas, peixes, carnes e sobremesas, todas elas de fazer crescer água na boca, para além de serem um desafio à nossa capacidade de as elaborarmos, tendo por tema, numa roda familiar ou de amigos, as propostas culinárias dos tempos de Jesus entre nós e antes d’Ele. E depois d’Ele, está bem de ver.
José Tolentino Mendonça brinda-nos com um prefácio que é uma belíssima lição bíblica, daquelas que se lêem com gosto, com a garantia de que “Deus anda pela cozinha”. Diz o prefaciador, logo nas primeiras linhas: “Literalmente, a Bíblia é para comer. É odorosa, recôndita, vasta como a mesa celeste, íntima como a mesa materna, grata ao paladar, engenhosa, profusa, profícua. Descreve os copiosos bosques profanos e as ofertas alimentares sagradas, recria ascetismos e deleites, conta com a esporádica caça e os pastos cevados, com comidas frugais de viagens e banquetes há muito anunciados. Não é insólito que se olhe atentamente para a cozinha da Bíblia.”
Claro que não vou transcrever todo o prefácio, embora gostasse de o partilhar com os meus leitores. Mas fica aqui, ao menos, um cheirinho do que foi cozinhado para este livro, na Quinta das Lágrimas, lá para as bandas de Coimbra, de tantos encantos, bem à vista no livro.

E já agora, com a devida vénia, deixo uma receita, do mestre Albano Lourenço, que todos podem experimentar:

Guisado de ovelha com lentilhas e uvas(Antigo Testamento)

1,2 Kg de pá de ovelha
3 cebolas
6 dentes de alho
2 dl de azeite
4 folhas de louro
100 g de lentilhas
200 g de uvas
4 dl de vinho branco

Demolhe as lentilhas. Frite a carne partida em pedaços em azeite e retire. Continue a fritar a cebola e os alhos picados. Refresque com vinho, junte o louro e reduza um pouco. Junte a carne e cubra com água. Deixe cozer mais ou menos 40 m até estar quase cozinhada. Junte as lentilhas, deixe cozer e retire do lume. Junte as uvas cortadas ao meio sem grainhas.

Bom apetite, deseja o

Fernando Martins

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 57


O PRÍNCIPE E A ARANHA

Caríssima/o:

Seja então esta a última lenda das terras que fui/fomos percorrendo. Passa-se na Escócia que, se bem nos lembrarmos, foi lá que iniciei esta caminhada.
A versão que me caiu sob os olhos diz assim:

«Num país longínquo, vivia um príncipe que julgava que no mundo havia coisas e animais que não serviam para nada.
Dizia com muito mau humor:
- As moscas servem unicamente para nos incomodarem. As aranhas servem para sujar tudo com as suas sujas teias.
Em certa ocasião, esse príncipe perdeu uma batalha e, perseguido pelos seus inimigos, teve de fugir através de um bosque. Sentiu-se perseguido, dia e noite. Estava já tão cansado que, a determinada altura, pôs-se a dormir junto ao tronco de uma árvore.
Foi acordado por uma forte picadela de uma mosca. Viu que, bem perto dele, estavam os seus perseguidores e correu a refugiar-se numa gruta.
Os seus inimigos aproximaram-se. Olharam para a gruta e um deles disse:
- Aqui dentro não deve estar ninguém.
Um outro perguntou:
- Porque dizes isso?
Replicou-lhe o primeiro:
- Porque a entrada da gruta está coberta por uma grande teia de aranha. Se alguém tivesse entrado, estaria despedaçada.
Ficaram convencidos e afastaram-se.
Foi deste modo que o príncipe se salvou. E, desde então, deixou de pensar que, na natureza, há coisas inúteis. Ficou a saber que até as moscas e as aranhas servem para algo.»
[«Sonhar e desenhar um Mundo melhor» - Manual Infantil, da Acção Católica Rural, pág. 85]

À Ana Maria entrego esta lenda. Por si, descobrirá que Rei é este que, vindo da Escócia, foi Rei de Inglaterra e colocou no seu brasão a teia da aranha!


Feliz e Próspero Ano Novo!


Manuel


Foto de Manuel Olívio

sábado, 29 de dezembro de 2007

PORTAL DE BELÉM



Quem se aproxima do “portal de Belém” com olhos de ver não apenas as aparências, mas a realidade profunda, não deixa de ficar admirado com tanta ternura e carga simbólica: Uma família simples que não é propriamente modelo-tipo de família humana em qualquer parte do mundo, mas apresenta um estilo de vida familiar de valor universal. Um estilo de vida que há-de estar presente em todas as configurações históricas de qualquer família: o acolhimento da vida, o respeito pelo outro, o amor na relação, a ternura nos gestos de comunicação, a solidariedade nas tarefas a realizar, o lar a construir progressivamente, a liberdade crescente articulada com a autoridade exercida, a atenção à individualidade de cada um e a comunhão vivenciada por todos.
O Menino Jesus vê-se aconchegado pelo desvelo de Maria e de José. O seu olhar penetrante projecta-se em sonhos de humanidade feliz em que todas as crianças podem ver nascer o sol com sorrisos de alegria e de esperança.
Maria simboliza a Mãe solícita. As suas mãos abertas – qual berço preparado para acolher a vida nascente – expressam bem a atitude de quem está ao serviço da vida com disponibilidade total em qualquer momento e circunstância.
José é o rosto do homem sério e bondoso. Face aos acontecimentos, vai até onde pode na sua reflexão e deixa lugar à fé que a revelação lhe oferece. A responsabilidade legal que assume perante a sociedade constitui uma luz que se projecta em todos os tempos.
“Levanta-te, toma o menino e sua mãe” é palavra-mensagem que condensa a força simbólica do “portal de Belém”. Para ontem, hoje e amanhã.
Hoje, quantas crianças correm perigo na rua, nas redes de prostituição, nos países em guerra nos lares com violência, nas famílias sem valores dignos da condição humana e cristã, nas escolas redutoras da sua função educativa à simples instrução, nas comunidades eclesiais sem espaço adaptado nem linguagens acessíveis.
O portal abre-se facilmente a quem cultive sentimentos humanos. A fome e a miséria face à abundância e desperdício; a falta de água e de medicamentos perante o consumismo desenfreado, o fanatismo religioso que faz vítimas sem conta, a injusta distribuição dos bens, as famílias desestruturadas, a publicidade sedutora e o patamar social de expectativas que não pode ser correspondido pela magreza dos ordenados e das poupanças.
O mundo exposto ao nosso simples olhar, a par de enormes esforços de alguns e grandes gestos de generosidade de muitos, cria situações de revolta, aumenta as desigualdades e introduz factores de angústia e depressão.
A situação de hoje clama por homens como José que saibam erguer-se e tomar a defesa do Menino e de quantos nele estão retratados; por homens que prefiram correr riscos a continuar na comodidade egoísta; por homens que escutem a consciência mais que os interesses; por homens que queiram viver o amor gratuito, brasão do portal de Belém, o lar da família, a casa do pão.

Georgino Rocha

Coro de Câmara Nossa Senhora da Nazaré




Como noticia a Rádio Terra Nova, o Coro de Câmara Nossa Senhora da Nazaré apresenta-se hoje, pelas 21 horas, na igreja matriz da Gafanha da Nazaré.
Luís Lé, fundador do coro, adianta que a ideia de criar este grupo coral nasceu de uma conversa de café e sublinha que a primeira parte desta primeira apresentação pública consta de um concerto de órgão.
Congratulo-me com a criação de um Coro de Câmara na Gafanha da Nazaré, terra onde o gosto pela rainha das artes é bem conhecido de todos, como o atestam os diversos corais, grupos musicais e escolas de música. Desta cidade, têm saído inúmeros executantes, em várias áreas musicais, sendo certo que haverá lugar para todos.

ARES DO INVERNO


Apesar das iluminações de Natal, que emprestam ao ambiente um ar de beleza, a verdade é que o frio de Inverno está presente, ali à volta do Fórum, com a ria a seus pés. Bem o senti, quando tirei esta foto. Aliás, as árvores nuas mostram bem que os tempos que correm não dispensam os casacos, casacões e sobretudos. Que assim seja, para depois, quando a Primavera chegar, sabermos apreciar as temperaturas agradáveis que tanto nos fazem sorrir.

QUE SORTE A SUA!


Em 2006 estive hospitalizado duas vezes. A primeira, num hospital coimbrão, e a segunda, no Hospital Infante D. Pedro. Em ambos fui muito bem acolhido e tratado. Nunca me cansei de dizer isto, porque há muito o hábito de se criticar, por isto ou por aquilo, os serviços hospitalares.
Num desses internamentos, a minha enfermaria estava relativamente perto de uma outra destinada a doentes pulmonares. Nas minhas caminhadas, de que necessitava para desentorpecer as pernas, passava por ali frequentemente. Havia, num ou noutro corredor, dísticos a proibir o fumo. Nem assim, porém, faltava quem se refugiasse num ou noutro recanto, para fumar um cigarrito, às escondidas dos médicos e enfermeiros.
Numa das minhas caminhadas cruzei-me, certo dia, com um senhor simpático e de palavra fácil, que me saudou em jeito de despedida. Realmente, estava de partida, depois de uma operação a um pulmão.
Conversa puxa conversa, fiquei a saber do que sofria. Cancro nos pulmões. Esta era já a segunda intervenção cirúrgica a que se sujeitara. Estava de regresso a casa. Adiantei, então, que estava com muito bom aspecto, desejando-lhe rápido restabelecimento. De pronto, respondeu-me:
- Olhe, meu amigo, o que importa é que estou aqui; sinto-me bem, mas não tenho ilusões; se soubesse o que sei hoje, talvez nada disto me teria acontecido.
E continuou, com ênfase, a contar a sua história:
- Desde novo, habituei-me a fumar, convencido de que isso me dava uma personalidade adulta. Eu gostava de ser como alguns senhores que conhecia, senhores que, antes de começarem uma qualquer conversa, puxavam primeiro do cigarro, acendiam-no com calma, atiravam o fumo para o ar e depois é que falavam. Eu via, nesses rituais, sinais de alguma elegância, de algum nível intelectual, de alguma importância.
- E depois?
- Depois, nunca mais parei. De um maço passei a dois. A seguir veio o terceiro… Por fim a tosse, o catarro, os vómitos de manhã, a neura quando tentava evitar o cigarro, o cansaço, as dores. O médico recomendou-me os exames da praxe. O diagnóstico deixou-me arrasado. Tinha de ser operado. Esta é a segunda vez… mas sei que o cancro continua comigo. Eu sinto-o!
- Pode ser que agora…
- Não tenho qualquer dúvida! Mais tarde ou mais cedo, ele volta.
- Claro que agora prega sempre os malefícios do tabaco…
- As pregações, pelo que tenho visto, não resultam… Os meus amigos continuam a fumar. Só uns três é que deixaram de fumar, mas não foi por qualquer pregação.
-Então?
- Foi por terem visto quanto se sobre quando o cancro ataca. Vieram visitar-me e ficaram tão impressionados com o que viram, que nunca mais pegaram no cigarro. Gente aflita com falta de ar, gente sem cordas vocais, gente com a boca a ser destruída, enfim, um horror. Não foi preciso nenhum médico, nem nenhum tratamento. Acho até que, se fosse possível, os fumadores podiam e deviam passar por uma enfermaria destas. Só vendo este sofrimento é que se acredita no mal que o tabaco faz.
Entretanto chega um familiar, talvez filho, para o levar. Ao despedir-se de mim, ainda perguntou:
- Fuma?
- Não.
- Que sorte a sua! Adeus.


Fernando Martins

A LOGOTERAPIA DE VIKTOR FRANKL




Num tempo em que o mundo é atravessado por enormes perplexidades e as pessoas são assaltadas pela dúvida, pelo desânimo e até pelo niilismo, quereria, no décimo aniversário da sua morte, deixar uma homenagem a um homem que, na situação mais degradada e degradante dos campos de concentração nazis, mostrou como e porquê é possível manter a dignidade. Refiro-me a Viktor Frankl, fundador da chamada terceira corrente de psicoterapia de Viena: a logoterapia.
Ele próprio sintetizou o núcleo do seu pensamento: "O que é, na realidade, o Homem? É o ser que decide o que é. É o ser que inventou câmaras de gás, mas ao mesmo tempo é o ser que entrou nelas com passo firme, murmurando uma oração."
A logoterapia parte de uma concepção filosófica que tem o Homem enquanto pessoa como centro. O impulso primário da pessoa não é, como pensou Freud, a vontade de prazer, também não é a vontade de poder, como queria Adler, mas a vontade de sentido.
Este sentido não se inventa, mas descobre-se: numa obra, num amor, numa tarefa a realizar. No fundo, cada um tem de perguntar: o que é que a vida quer de mim? "Em última instância, viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correcta para os problemas que a vida coloca e cumprir as tarefas que ela continuamente aponta a cada pessoa."
O que distingue então Frankl de Freud e de Adler é que enquanto estes reduziam o Homem a um ser que procura a satisfação dos impulsos em ordem ao restabelecimento de um equilíbrio homeostático intrapsíquico, para Frankl, ele não é só um sistema psicológico. É preciso compreendê-lo na sua totalidade: corpórea, psíquica e espiritual. "A realidade humana refere-se sempre a algo para lá de si mesma. Está dirigida para algo que não é ela mesma. Os seres humanos procuram mais para lá de si mesmos: um sentido no mundo. Procuram encontrar um significado a realizar, uma causa a servir, uma pessoa a quem amar. E só assim os seres humanos se comportam como verdadeiramente humanos."
No indescritível sofrimento dos campos de concentração - ele, que perdeu lá a mulher, o pai e a mãe, era o prisioneiro número 119 104 -, aprofundou a importância que têm as ideias para a forma de viver. Pôde constatar que, se eram as pessoas com vida interior e intelectual mais intensa que sofriam mais, também eram elas que tinham maior capacidade de resistir. Aí, percebeu que "quem tem algo por que viver é capaz de suportar qualquer como". Por isso, referia aos companheiros de desgraça "as muitas oportunidades existentes para dar um sentido à vida. Este infinito significado da vida compreende também o sofrimento e a agonia, as privações e a morte. Assegurei-lhes que nas horas difíceis havia sempre alguém que nos observava - um amigo, uma esposa, alguém que estivesse vivo ou morto ou um Deus - e que de certeza não queria que o decepcionássemos." Frankl constatou que os prisioneiros que perdiam a fé e a esperança no futuro punham em risco a saúde e a própria sobrevivência. Mas também viu que há o que ninguém pode tirar ao Homem, mesmo num campo de concentração: "a última das liberdades humanas - a escolha da atitude pessoal perante um conjunto de circunstâncias - para decidir o seu próprio caminho." Mesmo "essa tríade trágica na qual se incluem a dor, a culpa e a morte, pode chegar a transformar-se em algo positivo, quando se enfrenta com a postura e a atitude correctas."
Quando as pessoas não encontram sentido, surgem as neuroses que chamou noógenas: não provêm de conflitos instintivos ou inconscientes, mas da falta de sentido e atingem o núcleo mais íntimo da pessoa. A logoterapia é precisamente terapia de encontro de sentido: ajuda cada um a descobrir o sentido pessoal da sua vida a realizar.
Na busca de sentido último, o Homem, inconscientemente, procura Deus - O Deus Inconsciente é o título de uma das suas obras.
No nosso tempo, já não é o sexo que é reprimido, mas o que é espiritual e religioso. Daí, a falta de sentido, de orientação, e, consequentemente, o tédio e o vazio.

Anselmo Borges

In DN

Prenda de Natal




Quando tinha 14 anos recebi uma prenda de Natal a que na altura não atribuí o verdadeiro valor. Apesar de não ostentar a referência CE (inexistente na época), cumpre todas as regras de segurança agora exigidas e mais algumas suplementares: não contém sais de chumbo ou peças miúdas desmontáveis, arestas cortantes ou cantos pontiagudos, não debota ou encolhe, é indeformável, não provoca alergias e embora haja quem a queira fazer passar de moda continua a dar conforto e bem-estar, ficando sempre bem a qualquer pessoa, independentemente do sexo. Posso até dizer que tem melhorado com a idade, ou sou eu que lhe vou dando cada vez mais valor. Um autêntico bem de capitalização contínua.
Nesse tempo em que frequentava o ensino secundário, era comum o uso de bicicleta de casa para a Escola Técnica em Aveiro. Nos dias de chuva havia algum desconforto, pois entre a Gafanha e Aveiro não havia qualquer abrigo na velha estrada que acompanhava a ria e as previsões de tempo para o percurso normalmente falhavam. Agasalho adequado não tinha, excepto às vezes um guarda-chuva, quando o tempo prometia logo de manhã. Quando chovia mesmo e era apanhado no percurso com ou sem guarda-chuva, a água entrava pelo pescoço, descia pela espinha abaixo e ensopava o selim que na altura era de coiro. Era nesse estado que chegava a casa, onde a minha mãe já tinha a fogueira acesa para me aquecer e enxugar alguma roupa insubstituível.
Um dia em que não choveu, no princípio de Dezembro, quando à noite cheguei a casa, o meu pai chamou-me, abriu uma bolsa de oleado em forma de pasta, dela tirou um fato impermeável castanho e mandou-me vesti-lo. Assentava-me como uma luva. Fez-me lembrar um domingo, uns anos atrás, em que o meu pai regressou da missa da manhã, mais tarde, trazendo-me dois piões acabadinhos de fazer por um amigo a quem contou um sonho que eu tivera, onde possuía o pião mais lindo do mundo. Brinquedo que ainda não me tinha passado pelas mãos. Só promessas: “quando o pai vier…” (da pesca do bacalhau). Estes piões eram ainda mais bonitos. Fiquei a pensar quanto esta nova surpresa lhe haveria de ter custado e no esforço de tal aquisição. Mas não tive muito tempo para meditar. O meu pai disse: “pois fica-te muito bem mas não é teu; alguém o deixou cair e precisa dele para ir para o trabalho. Vou pedir para anunciar o achado nas missas por aqui à volta; se até ao Natal ninguém o reclamar fica a ser a tua prenda do Menino Jesus." Despi o fato, a minha irmã dobrou-o, meteu-o na bolsa e passou-o à minha mãe que o guardou na caixa de milho que era o seu cofre-forte. Não era fechado à chave mas ninguém ousava abri-lo.
O meu pai trabalhava num dos navios de ferro que passavam o Inverno fundeados no canal de Aveiro e tinha encontrado o fato caído na ponte de madeira que fazia a única ligação de Aveiro para a Gafanha. No dia seguinte voltou a haver chuva que se prolongou até às férias do Natal. Nos três domingos que antecederam o Natal, o meu pai relembrava o anúncio nas missas, ninguém reclamava o fato e eu acalentava a esperança de vir a ser o seu novo utilizador. Chegou a manhã do dia de Natal, fomos à lareira em busca das prendas, eu esperava um embrulho grande mas nada disso: um par de meias e uns bombonzitos; a mais beneficiada era sempre a minha irmã mais nova, que ainda tinha parte no nosso quinhão, senão fazia um berreiro danado que deliciava o meu pai. Em compensação o Menino Jesus ia aparecendo nos dias seguintes tentando equilibrar as coisas. Quanto à promessa do fato não valia a pena falar; quando, em qualquer altura, perguntava à minha mãe se, por exemplo, era quarta-feira, ela apenas respondia: “até à meia-noite.” Portanto eu já sabia a resposta.
Estávamos para começar o almoço de Natal, bateram à porta. A minha irmã foi vigiar e disse ao meu pai que era um rapaz do meu tamanho. Eu engoli em seco. Ele levantou-se e foi atender. Ouvi perguntar: “Foi alguém daqui que encontrou um fato impermeável? O meu pai retorquiu: "é verde ou vermelho?” Respondeu o rapaz: “O meu era castanho.” A minha mãe levantou-se e ouviu-se a tampa da caixa de milho bater ao fechar. Num ápice, a minha prenda de Natal voou para as mãos de um desconhecido. Passado algum tempo, o meu pai sentou-se à mesa, olhou para mim e disse: “não fiques triste, ele é o amparo da mãe e dos irmãos e aquela é a única prenda de Natal que teve e já era sua; vais ver que não te fará falta e isso vai ser a tua prenda todos os Natais. O Menino Jesus não se esquecerá de ti.”

João Marçal

Em homenagem aos meus pais,
João Maria Marçal e
Laurinda de Oliveira

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Fórum::UniverSal - 9 de Janeiro


Nuno Rogeiro no CUFC

O politólogo Nuno Rogeiro vai estar no CUFC no dia 9 de Janeiro, quarta-feira, pelas 21 horas, para falar sobre “A Dignidade Humana das Nações”. A moderação é de Isabel Segadães. Trata-se de uma iniciativa integrada no Fórum::UniverSal, destinada a universitários, em particular, e à sociedade aveirense, em geral.
A presença de Nuno Rogeiro no CUFC, pela segunda vez, é uma boa oportunidade para se ouvir alguém que disserta, como poucos, sobre assuntos de política internacional.

A Melhor Juventude


“Nada melhor do que ocupar estes últimos dias com bons livros, bons filmes e bons amigos. Por mim, gosto especialmente da luz de Inverno para dar passeios que terminam ao fim do dia na cozinha, em grandes improvisos de pratos de lume e forno que antecedem longos serões de cinema e conversas, se possível com os pés na lareira.”

In PÚBLICO on-line, caderno P2, página 11


NOTA: Laurinda Alves publica semanalmente, às sextas-feiras, no PÚBLICO, no segundo caderno, uma crónica adequada a cada tempo e vivência. É uma crónica serena, sempre pela positiva, que recomendo aos meus leitores. Leiam que vos faz bem. Penso eu.

ARES DO INVERNO


A Natureza está, de facto, bem feita. Ou não fosse ela criada por Deus, como creio. Com o frio que o Inverno traz, as árvores refugiam-se num sono profundo de três meses. Descansam da labuta da Primavera e do Verão e olham para o Outono a ver o que isso lhes dá. Quando chegam à conclusão de que o frio, o vento e a chuva não perdoam, resolvem dormir por uns tempos. Quando vier uma temperatura mais amena, quando o vento e a chuva cessarem, então elas voltarão à vida com toda a pujança armazenada.

Política exclusivamente economicista?




Penso que ninguém porá em dúvida a conveniência de o Governo, qualquer que ele seja, procurar reformar o Estado. É sabido que a máquina estatal está sobrecarregada com despesas incomportáveis para o nosso frágil Orçamento do Estado, cujo equilíbrio tem sido difícil de conseguir. Excesso de funcionários, muitos deles já substituíveis pelas novas tecnologias, tornam difícil esse equilíbrio orçamental. Contudo, qualquer reforma tem sempre de ter em conta as pessoas, sob pena de se criarem novos problemas sociais, com reflexos negativos incontornáveis nas famílias. O que se tem feito, atirando funcionários para o desemprego ou para situações equiparadas, não está correcto, humana e socialmente falando. O Estado vive para as pessoas.
Com a pressa de se acabar com o défice orçamental, têm surgido outras decisões gravosas para o povo. Sobretudo para o povo que não nada em dinheiro. Fechar Centros ou Postos de Saúde, Urgências e Atendimentos nocturnos, obrigando os doentes a deslocarem mais de 100 quilómetros, à sua custa, não está certo. Ainda hoje de manhã, nos noticiários habituais, ouvi um comandante de uma Corporação de Bombeiros dizer que o transporte de um doente, distante do hospital cerca de 100 quilómetros, custará 40 euros. A ambulância deixará o doente para ser assistido e terá de regressar. O doente, se não ficar internado, terá de alugar um táxi ou requisitar outra ambulância. Conclusão: Uma ida a uma urgência poderá ficar por 80 euros. Se a pessoa for rica, não virá daí nenhum mal ao mundo. E se for pobre?
O que eu penso é que muitas vezes os estudos económicos e sociais são elaborados por comissões técnicas, que nem sempre conhecem suficientemente bem a realidade do país e dos portugueses que somos. Com uma visão economicista da vida, desprezam-se por vezes as situações concretas das pessoas. As suas dificuldades e os seus dramas serão, disso estou certo, profundamente afectados. Mas o Governo, em nome da urgência de reformar o Estado, realidade que não podemos ignorar, teima em fechar os olhos, caminhando soberana e ostensivamente, contra tudo e contra todos. Para que o défice seja anulado será mesmo necessário anular as pessoas?

Fernando Martins

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Menos fumo a partir de 1 de Janeiro



É já no primeiro dia do ano que o tabaco vai acabar nos edifícios públicos e nos restaurantes. Excepto nos que declaradamente optem por fumadores. Os não fumadores ficam a ganhar. Ainda há tempos aqui disse que tive de suportar, num conhecido restaurante da Bairrada, o fumo de um indivíduo, que, pelos vistos, não tem qualquer noção do respeito que deve aos outros. Como não fumador, concordo plenamente com a lei que vai entrar em vigor, mas não sou fundamentalista, ao ponto de pedir que se acabe com a comercialização do tabaco. Nada disso. Cada um que viva a sua liberdade, tendo sempre em consideração a liberdade dos outros.
Com esta nova lei, não faltam uns “filósofos” a atacar os direitos dos não fumadores. Que a sua liberdade, dizem eles, está a ser prejudicada. Que é um atentado fundamentalista a ao direito dos que gostam de fumar. Que o tabaco até é inspirador de artistas e de trabalhadores. Que o tabaco é companheiro em horas de angústias. Que o tabaco, afinal, não faz o mal que apregoam. Que tanto morrem de cancro os fumadores como os não fumadores. Que há outros produtos viciantes e maléficos, como o vinho, e que ninguém os proíbe. E por aí adiante…
Pode ser que seja como eles dizem. Mas então que fumem onde possam usufruir desses benefícios, sem conspurcarem o ar puro que outros desejam. Onde houver, por exemplo, restaurantes para eles, sirvam-se aí à vontade. Que eu prometo que só entrarei onde houver o dístico “Para não fumadores”. E que todos vivam felizes!

Fernando Martins

NB: Um dia destes hei-de contar uma história que vivi num hospital, a propósito do tabagismo.

O tempo da generosidade acabou?


Natal é dia de ser bom, assim diz o poeta. Como aconteceu Natal no dia 25, não faltará quem pense que já podemos olhar de soslaio para os feridos da vida que se cruzam connosco nas ruas dos nossos quotidianos. Não direi que agora já podemos ser maus, mas, infelizmente, penso que não seremos tão bons. Agora, há que trabalhar. O tempo da generosidade e das manifestações de solidariedade acabou. Vamos à vida, que se faz tarde.
Por estranho que pareça, é mesmo assim. As festas para os sem-abrigo, com televisões a filmar e rádios e demais comunicação social a noticiar, fecharam as portas até ao próximo Natal. As consciências já ficaram cheias do muito que cada um fez, do muito que se conseguiu para os mais pobres, do muito (ou pouco?) que se partilhou. E tão cheias ficaram, que até vão ficar tranquilas durante um ano. De qualquer modo, foi bom o que se fez. E é natural pensar que lá há-de vir o tempo em que a generosidade se tornará hábito de todos os dias, para todos, e não apenas para alguns. Que estes, felizmente, continuarão nos caminhos dos que andam perdidos na vida, sem pão e sem norte.
Durante Dezembro, aqui se falou do Natal. Apenas 25 temas. Mas prometo que, de forma directa ou indirecta, o Natal continuará por aqui. Com a ajuda, obviamente, dos meus leitores e amigos.

Fernando Martins

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

BISPO DE AVEIRO CELEBRA NATAL NA CADEIA




D. António Francisco irá presidir à Eucaristia na Cadeia de Aveiro, amanhã, dia 26, pela manhã, em celebração festiva de Natal, acompanhada por um Grupo de Jo-vens e pelos Visitadores Voluntários do Estabe-lecimento Prisional.
D. António Francisco já visitou a Cadeia, durante o seu primeiro ano de presença na Diocese e, agora, manifestou vontade de presidir à Missa de Natal, tal como fez, ao chegar à Diocese, celebrando no Hospital da Cidade.
Para o Padre João Gonçalves, da Diocese de Aveiro, que trabalha pastoralmente junto dos reclusos, este “é um gesto de dimensão profética, já que as Pessoas que sofrem merecem um carinho particular, por parte da Igreja, e isto tem também a ver com a dinâmica da Diocese, neste Ano Pastoral, voltada para a Pastoral Sociocaritativa”.
Foi nesse contexto que um Grupo de Jovens da Paróquia de Recardães, Águeda, promoveu um Encontro-Convívio na Cadeia de Aveiro.

Fonte: Ecclesia

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 56



FIGURAS DO MEU PRESÉPIO

Caríssima/o:


Novamente o armar do Presépio.
E, como vem sendo hábito, procuro novos figurantes para o embelezar. E a busca resultou:

1- O ti Sarabando foi uma figura mítica – ele que não só nos introduziu no mundo da Bíblia mas também nos sacudiu as asas da imaginação. A sua pessoa recorta-se como alguém lendário no decorrer da nossa juventude. Assim sendo, neste ano em que passei pelas lendas das nossas terras, ponho junto do quentinho da fogueira o ti Sarabando e a sua Joana.

2- Certamente que não nos negará a sua companhia o Padre Domingos.
Natural ali da Murtosa, passou uns bons anos morando na nossa Residência Paroquial – cuja garagem cedeu para as reuniões da Juventude.
Poderíamos recordá-lo a compor o telhado da nossa Igreja, que depois afincadamente restaurou; ou escutá-lo como pregador; ou lê-lo no Timoneiro; ou sei lá quantos “ou...” poderíamos acrescentar...Mas uma coisa é certa: é com a Juventude que vejo o Padre Domingos, promovendo e participando nas suas actividades e passeios. Se o S. Pedro puser o dedo no ar, vá lá, olhe para nós e veja os traços positivos que ele rabiscou nas nossas vidas...
E então como “castigo”, no nosso Presépio, não o porei dentro da Igreja, mas no meio da Juventude a cantar!

3- O barco moliceiro, que expressamente e com tanto carinho construiu para a nossa Família, está exposto bem no alto da Sala.
O cuidado que pôs na vela! A primeira não lhe encheu as medidas!
E a pintura dos painéis?! Foi de requinte!
Agora todas as vezes que olho para o moliceiro ali está o Amigo Manuel Soares Sardo e, a seu lado, retocando o painel da proa, o Emanuel, pintor! Como a cadeia dos Amigos é engenhosa!
Não mais esquecerei o seu entusiasmo contagiante na preparação e participação dos cortejos dos Reis e outros! Aquilo sim! Toda a sua pessoa espichava gotas de ser gafanhão!
Sem mais delongas, aconcheguemo-lo junto ao lago do Presépio, à revessa daquelas tramagueiras.

4- Por fim, amorosamente carrearei quatro cadeiras que colocarei no adro da Igreja.
A quem as destino? Quereis saber?
Andei em busca dos traços de meu Pai que fez, a 20 deste mês, cem anos, pois nasceu em 1907!
E o curioso é que descobri que os seus pais, José Facica e Maria Olívia, foram parceiros de Manuel Joaquim Tomás e de Rosalina, pais de Maria das Dores, minha Mãe.
Pela mão deles, meus Avós, vi melhor as minhas raízes - e procurei resguardá-las para as oferecer a meus netos.
Vou então sentá-los ali onde conversarão os quatro e, podemos imaginá-lo sem muito esforço, meia Gafanha irá reverentemente ajoelhar e abraçá-los com um “Bote-me a sua bênção, sôr Pai!”, “Bote-me a sua bênção, sôra Mãe!”, “Bote-me a sua bênção, Avô!”, “Bote-me a sua bênção, Avó!”.

Muitas outras ficaram à espera da sua vez... Se Deus quiser, continuaremos.
Por agora, um Santo Natal para todos.

Manuel

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Um livro de Amaro Neves




“O Natal em Aveiro e sua Região – Tradição e Arte”

Há livros que vêm na hora certa. “O Natal em Aveiro e sua Região – Tradição e Arte”, do historiador aveirense Amaro Neves, é um deles. Chegou-me às mãos há pouco, já dei uma espreitadela, já li umas páginas e vou ler o que falta, que é muito, por estes dias. Na quadra natalícia, como está bem de ver. Porque vale a pena, ou não fosse esta obra, como todas as de Amaro Neves, o fruto de um trabalho cuidado e de pesquisas constantes, ou não fosse o autor um historiador competente.
Com capa de Humberto Gaspar, as tradições e a arte desta região ficam agora à disposição de todos os amantes da cultura e das diversas expressões artísticas que enformam o perfil religioso e a sensibilidade das nossas gentes, graças não só ao texto, mas também às belas e sugestivas ilustrações.
Num texto introdutório, António Marcelino, Bispo Emérito de Aveiro, realça que “Este livro informa, dá sentido às coisas, valoriza as artes, esclarece dúvidas, sublinha a importância de um acontecimento ímpar que, sendo do tempo, ultrapassa o tempo. Porque não se trata de um Natal qualquer, mas do Natal de Jesus Cristo, um ‘Homem para os outros’, ‘Deus connosco’, Alguém de quem sempre se dirá ‘Passou fazendo o bem’”.
Em Notas de Apresentação, o autor manifesta o desejo de que este seu livro possa “contribuir para que prevaleçam estes valores e princípios [doNatal] que, sendo bons, farão a nossa sociedade um pouco melhor, isto é, mais humana e rica de vida espiritual”.
Aqui fica, pois, como sugestão de leitura para este tempo de Natal, o livro “O Natal em Aveiro e sua Região – Tradição e Arte”.



Fernando Martins

NATAL


Coimbra, 24 de Dezembro de 1985 – Natal. E, só pelo facto de o ser, o mundo parece outro. Auroreal e mágico. O homem necessita cada vez mais destas datas sagradas. Para reencontrar a santidade da vida, deixar vir à tona impulsos religiosos profundos, comer e beber ritualmente, dar e receber presentes, sentir que tem família e amigos, e se ver transfigurado nas ruas por onde habitualmente caminha rasteiro. São dias em que estamos em graça, contentes de corpo e lavados de alma, ricos de todos os dons que podem advir de uma comunhão íntima e simultânea com as forças benéficas da terra e do céu. Dons capazes de fazer nascer num estábulo, miraculosamente, sem pai carnal, um Deus de amor e perdão, contra os mais pertinentes argumentos da razão.

Miguel Torga, Diário XV


NOTA: Texto enviado, com os votos de um Natal Brilhante, pela Sara Silva e família.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Um conto de Natal

O REGRESSO DO IRMÃO PRÓDIGO
:
Nas vésperas da noite de consoada fal-ta sempre qualquer coisa mais ou menos importante para a festa da família, as-sociada, há muito, ao nascimento de Jesus. Prendas, sobretudo. Porque não se contava com a visita de um familiar, porque as destinadas ao filho mais velho ou mais novo não se coadunavam, afinal, com os seus desejos ditos em jeito de brincadeira, porque a filha precisava de algo diferente para decorar a sala.
Não cultivo muito o gosto de fazer compras, excepto de livros, mas acompanhei uma familiar pelas lojas mais na moda ou mais agressivas na publicidade aos seus produtos. Essa minha pouca apetência pelas compras não foi fruto de uma qualquer catequese mal alinhavada, que leva à conta de puro consumismo tudo o que diz respeito a dar lembranças em datas marcantes das nossas vidas, mas, sim, a uma inexplicável falta de habilidade. As prendas, no fundo, e em especial as de Natal e Páscoa, são normalmente sinais dos nossos afectos e do nosso amor para quantos nos rodeiam. Por isso, até foi com satisfação que acompanhei, também com a minha opinião, as últimas aquisições para a noite de consoada.
Depois de saltar de loja em loja, no Fórum de Aveiro, calcorreando os três pisos, o terceiro, lá no cimo, sem vendas, para respirarmos um ar mais puro, com bela oferta panorâmica, e feito o grosso das compras, achei, por bem, acomodar-me num banco emoldurado por decorações natalícias, com árvores de natal plastificadas, de cor verde, como que a lembrar que estamos em época com evidentes marcas de alguma esperança para todos, que é justo alimentar, pese embora a crise económica que muitíssimas famílias sofrem na pele e na alma, mormente quando não têm pão para saciar a fome a crianças e idosos.
Caminhando apressadas, numa lufa-lufa de um cansaço escondido pela alegria de apreciar e de comprar tanta coisa bonita, as pessoas nem tempo tinham para se olharem, não fosse dar-se o caso de se cruzarem com algum conhecido que emperrasse a ânsia de procura que a todos animava. Muitos rostos eram-me familiares, de tantos anos vividos por Aveiro. A estranha sensação de que toda a gente me é íntima e a conheço de qualquer lado, sem precisar de onde, trouxe-me a vontade de saudar ou de interromper a marcha de um ou outro transeunte. Contudo, soube manter-me em silêncio, limitando-me a apreciar as pessoas carregadas de sacos multicoloridos de traços originais. Com arte, até. Uns com símbolos natalícios, ligados ao natal cristão, outros ao natal profano, este bem representado pelo Pai Natal de paragens frias e longínquas. Outros, ainda, com manchas abstractas, em que sobressai, o que não é pouco, a beleza da combinação das cores.
A monotonia do meu quedar foi agitada, no entanto, por uma cara enrugada, de olhos azuis, que me não deixou indiferente. Era, no mínimo, e para já, um estranho que me olhava. Cabelo grisalho e ralo, bigode de traço fino, pele ressequida, dentes pintados pelo tabaco travado com sofreguidão, durante muitos anos. Alto e magro, de certa elegância.
De imediato, ouço a sua voz. A mesma de sempre:
– Manuel Fernando?
– Alberto!
– Há tantos anos!
– Nem sei há quantos!
O abraço, bem apertado, deu tempo para recordar o passado do Alberto. Filho de pais empresários. O mais novo dos três filhos. O menino mimado da casa, que a mãe, santa mulher, protegia com excessivo carinho. O pai condescendia. Os irmãos estudaram e cedo souberam encaminhar-se na vida. O Alberto preferia fingir que estudava e levava uma vida flauteada. Mais crescido, dormia de dia e divertia-se de noite. Os irmãos protestavam. Assim não iria a lado nenhum. Assim não teria futuro. Mas ele não ouvia ninguém. Nem queria ouvir. Não tinha nascido para trabalhar, costumava explicar entre amigos. Os pais eram ricos, garantia. Podia dar-se a esses luxos de nada fazer.
Depois a morte brutal dos pais num acidente de automóvel, na pujança da vida empresarial. Tanto trabalho para não gozarem nada, dizia-se na terra.
Os filhos mais velhos, o Carlos e o João, assumiram a liderança das empresas. Tentaram convencer o Alberto a dedicar-se ao trabalho. Se até aí nada fez, agora, então, é que nada queria fazer. O que os pais deixaram daria para tudo. Noites e noites nas discotecas de má fama, com vinho, algumas drogas leves e mulheres, hábeis em sacar dinheiro a quem o tem, fizeram do Alberto um homem sem norte.
Sair da terra natal foi ideia que uma noite lhe ocorreu. Correr mundo, instalar-se na capital da moda e da cultura. Paris, cuja fama e importância, de que tanto ouvira falar e tanto apreciava, foi projecto que começou a bailar-lhe nos horizontes curtos de onde nunca saíra. Quando os irmãos insistiam na urgência de os acompanhar na administração das empresas, dizia com sorriso trocista que não nascera para isso. E numa discussão mais dura, exigiu aos irmãos a partilha dos bens. E cada um que se governasse, gritou certa vez, para que ficasse clara a sua intenção.
Paris seria o seu futuro e um dia, comentava aos amigos, mostraria aos saloios, seus irmãos, como é que se vive a vida, aproveitando tudo o que ela tem para dar, de prazeres, do convívio com gente diferente, no centro da civilização…
Os irmãos bem o alertaram para o perigo da sua opção. Mas a decisão estava tomada. Partilhas feitas, preto no branco no notário, conta grossa no banco, o Alberto nem da família se despediu. Paris foi um corte radical com o passado. Nunca mais voltaria a esta pasmaceira da aldeia em que nasceu. O seu mundo seria um mundo de sonhos cor-de-rosa.
Uns anitos de vida airada e a afogar-se em vícios, explorado por quem calhava, com amigos que se tornaram abutres à espreita de atacar de forma fatal quem tinha dinheiro para tudo, depressa lhe toldaram alguma capacidade de pensar que seria natural possuir. Daí a alinhar com essa gente num negócio da noite foi um ápice. Enreda-se no tráfico de drogas e adormecido pelo vinho passa cheques ao deus-dará. Mulheres desses ambientes escuros fazem-lhe a cama. E de um dia para o outro o Alberto vê-se a contas com dívidas que nem sequer adivinhava. O tribunal decreta a falência do seu negócio. Resta-lhe o apartamento arrendado. Agora sem amigos. E sem amigas. Trabalho? Foi preocupação que nunca teve. Que fazer, então? Talvez um amigo mais próximo o ajudasse. Mas esse amigo nunca apareceu. Vende móveis e diversos bens pessoais por tuta-e-meia, embora valiosos. Não paga a renda. E a rua passa a ser a sua morada.
– E depois?
– Depois arrastei-me pela lama, caindo na miséria extrema. Ainda me convenci de que alguns conhecidos me dariam a mão para qualquer trabalho. Mas não. Fiquei um pobre de pedir. Quando podia, embora envergonhado, recorria a instituições de caridade para comer uma sopa quente. Nas esquinas de ruas movimentadas estendi a mão para o vinho e para o tabaco. Durante meses e meses passei fome. Mas nem assim quis pensar na família distante. As recordações da infância e juventude esgueiraram-se da minha memória. Ao mais pequeno sinal de que elas poderiam bater-me à porta, virava-lhes a cara. Neste Dezembro, frio como todos, notei, num ou outro recanto, que o Natal vinha a caminho. Talvez iniciativas de compatriotas que, no estrangeiro, mais intensamente vivem as festas tradicionais. Num rebate de consciência, entrei na Catedral de Notre-Dame. Há tantos anos que não sentia o silêncio de uma igreja. Há tantos anos que não olhava símbolos religiosos que nos elevam à trans-cendência! E foi aí, onde porventura balbuciei uma oração espontânea que nem sei explicar, que mais serenamente recuei no tempo para contemplar a bondade dos meus pais e dos meus irmãos.
– E então?
– Então, lembrei-me do Natal, do amor vivido no lar paterno, das alegrias partilhadas por familiares e amigos, dos pais queridos que nunca amei como eles mereciam, dos irmãos que tanto me aconselharam a ficar com eles… O regresso à terra começa a dominar-me. E dirigi-me, embora um pouco inseguro, a uma instituição de caridade.
– Estavas decidido…
– Ainda não. Faltava-me coragem para enfrentar os meus irmãos. Mas os dirigentes e funcionários da instituição mantêm comigo conversas prolongadas, durante alguns dias, julgo agora que de preparação psicológica. Apenas com os nomes dos meus irmãos, conseguem o contacto telefónico.
– E um dia…
– Um dia, de repente, passam-me o telefone num gabinete acolhedor. Era o Carlos. Não consegui falar. Mas ouvia bem o que ele dizia, já certamente informado da minha situação. “Tens de vir já neste Natal”, dizia-me o Carlos. E à mais leve tentativa de lhe explicar como estava a viver… “Não precisas de falar; falaremos quando chegares; mas tens de vir; todos te queremos cá”, adiantava o meu irmão. Reconheci-me, nesse momento, como o filho pródigo da Bíblia. Eu era o irmão pródigo à espera do amor dos irmãos.
– E já cá estás…
– Quando cheguei à estação da CP, em Aveiro, os meus olhos encheram-se de lágrimas. Certamente de alegria. Sempre a caminhar, com os meus parcos haveres numa mochila, atravessei a cidade, com a sensação de que tudo estava igual. Mas não. Havia grandes alterações, como reflexo de progresso económico. Não quis tomar o autocarro que me levaria à casa dos meus irmãos. Nem lhes telefonei para que me viessem buscar à estação, como eles tinham recomendado. Preferi a caminhada. Agora pela estrada ladeada de água da nossa ria. Vi salinas abandonadas, vi que os moliceiros e saleiros já não povoavam a nossa laguna. E à tardinha, quando toquei a campainha da casa do Carlos, uma jovem que me abriu a porta gritou: “É ele, é ele; entre, tio Alberto!” E todos, em catadupa, me abraçaram e beijaram. Ainda ensaiei uma qualquer explicação, mas logo o meu irmão me calou: “Vai tomar um banho que a festa vai começar.”

Fernando Martins

Isabel Jonet a figura do ano


UM ESTÍMULO PARA CADA UM DE NÓS

Para o EXPRESSO, Isabel Jonet é a figura do ano, pelo seu entusiasmo na liderança do Banco Alimentar Contra a Fome. Todos sabem o que faz aquela instituição, durante todo o ano, no apoio a pessoas e famílias com falta de pão. Isabel Jonet, com a sua capacidade de trabalho e larga visão de reaproveitamento dos produtos alimentares que empresas doam ao Banco Alimentar, tem sido o rosto da verdadeira caridade, o sentimento só próprio das grandes almas.
Fiquei satisfeito quando soube desta distinção, por premiar uma pessoa e uma organização que têm estado ao serviço dos que passam fome. Não apenas na quadra do Natal, como muitos pensam, mas durante todo o ano. Quantas vezes distinguem personalidades criadas pelos que vivem e cultivam um mundo cor-de-rosa, que nada tem de positivo para a sociedade, ignorando os dramas que ela encerra. Mas dar de comer a quem tem fome, numa luta constante para se chegar, cada vez mais, a mais portugueses, sendo sabido que dois milhões de compatriotas nossos não têm o mínimo para sobreviver com dignidade, é bem mais importante. Pelo estímulo de que estes actos se revestem, pela divulgação que se faz do bem que é feito e pelo desafio que nos é lançado, no sentido de construirmos um mundo mais fraterno e mais justo.

FM

Na Linha da Utopia – Natal 2007




À PROCURA DO CALOR!
O NATAL PARADOXAL?

1. Cada vez mais se fala de Natal, cada vez menos se (re)conhece o verdadeiro Natal. Nascido da transformação da adversidade em acolhimento caloroso do “momento” (e)terno de Belém, a quadra comercial emergente foi-nos distanciando da lareira do aconchego natalício autêntico. Uma distância dessa fonte que “nesta noite” grita o apelo de todas as noites do ano, dos anos, da vida. Quem dera que, nesse mundo sonhado de Deus, à altitude da árvores, ao brilho das luzes, à luminosidade das cidades, ao… correspondesse esse calor humano que segreda a esperança de Deus que se faz próximo, aqui, “no-meio-de-nós”!
2. Uma esperança inapagável, diante de tamanha visita de que enobrece e exalta a nossa pequenez. De todas as distâncias infinitas, o Altíssimo faz-se Baixíssimo, o eterno junta-se ao tempo, a história dos homens passa a história de Deus. Ao frio que continua a atravessar o (per)curso humano do mundo e da vida, Deus vem dar calor, amor, ser presença simples para que mais nos (re)conheçamos, no que somos e quanto valemos à Sua luz. Quem não deseja reviver esse “tratado” de Deus-connosco, que faz de cada um de nós o Seu novo presépio!
3. Este é a nossa hora, a hora de Deus-entre-nós! Tudo ganha cor, sentido, calor, aconchego…todos os abrigos, ou sem-abrigos, são visitados e iluminados no Seu Amor. Aos que vivem da ilusão das coisas (e dos 1001 presentes), Ele vem dizer-nos que, de tudo isso, nada tem valor se não houver o calor da paz e o olhar fixo para o que vive na “rua” do frio solitário. Diz-nos que só viveremos e seremos Natal na justa medida em que o preparámos, nesse “endireitar os caminhos” da proximidade com Deus, com os irmãos, com tudo o que somos e realizamos.
4. Seja Natal com NATAL! Venha esse procurado calor do presépio multiplicar infinitamente a dignidade divina que habita cada Ser Humano. Nada substitua o essencial! Nenhum presente exista sem Amor! Nenhuma luz que brilha se esqueça do brilho de Deus! Que todos os doces renovem a esperança na sociedade que somos! Que haja lugar no coração para a visita de Deus, não tenha Ele de nascer novamente na “gruta”! Que também os homens O acolham e lhe dêem esse precioso calor da noite! Que calor, que luz radiante, tudo ganha um sentido novo! Já não há frio, tudo é calor, Deus-Amor!
5. Uma das obras de referência de 2007 foi “A Felicidade Paradoxal”, do sociólogo francês Gilles Lipovetsky, o autor da “Era do Vazio” (1983). Nesse estudo dos comportamentos humanos, o autor analisa a contradição (o paradoxo) das felicidades que se procuram que chocam com a angústia existencial do tempo actual. Esta transforma o hiper-consumo e a férrea publicidade no novo ídolo, na nova ilusão de felicidade. Chegámos à felicidade infeliz? Viveremos um frio Natal paradoxal, já esquecido da sua origem? Venha a ternura do calor!...

Alexandre Cruz

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS – 55


LENDA DA SERRA DE MANI-CRICA

Caríssima/o:

Hoje vamos até Meinedo, do concelho de Lousada. As suas gentes continuam a dedicar-se ao cultivo da terra e muitos até desconhecem que [«Durante a ocupação da Península Ibérica pelos Suevos foi criado o primeiro Bispado de que há memória na região do Porto. Desse Bispado dá-nos notícias o II Concílio Bracarense, ocorrido em 572. Na respectiva acta, pode ler-se: "Viator, Magnetensis Eclesiae Episcopus, his gestis subscripsi". Magneto é Meinedo, e o seu primeiro Bispo foi, portanto, Viator.Dada a sua condição de Bispado, não se estranhe a existência de um Mosteiro em Meinedo. Contudo, a Sé cedo seria transferida para o Porto com a chegada dos Godos à Península ...»]
[«O ex- libris da freguesia é a Igreja Matriz que é uma reconstrução no estilo românico de transição que data do século XIII, mas que na sua fase inicial foi Igreja de Mosteiro (provavelmente do século VII).»]

Nesta igreja, [“existe a imagem centenária de Santa Maria Maior, muito bela e imponente. Digna de figurar na lista: “…das Mais Preciosas e Belas Imagens de Nossa Senhora…” Foi modelada e cinzelada em pedra de Ançã, em tamanho natural, com um lindo manto todo talhado com formas graciosas, onduladas, com o Menino Jesus ao colo. Em suma, uma obra de arte românica, para uns do século XII, para outros do século XIV. Esta imagem é também conhecida pela imagem de Nossa Senhora das Neves, de Meinedo, denominação atribuída certamente pela sua grande beleza e brancura que ostenta.”]
Contudo, há quem vá por outro caminho e afirme que

[«A padroeira é Nossa Senhora das Neves. Das Neves porquê? Diz o povo que um dia daqueles de muito calor, ia Agosto em cheio, já ninguém respirava. E era ver como até o gado se deitava exausto a uma qualquer sombra. Pois quando tudo abafava como em forno de cozer o pão, de repente começou a nevar. Ninguém tem dúvidas de que uma vez mais Nossa Senhora acudiu aos seus. Por isso a veneram como Nossa Senhora das Neves.»]



Ora o certo é que ainda hoje

[«Nas terras de Meinedo, conta-se que, ao tempo das guerras da moirama, os escorraçados mouros quase não tiveram tempo de levar o que tinham ao corpo, quanto mais as imensas riquezas em oiro que possuíam em lugares seguros. Talvez pensassem em voltar. O certo é que não voltaram e é por isso que há sítios cheinhos de riquezas. Como aquele no Monte de Mana já junto a Croca (Penafiel). Pois é... o oiro ainda lá está e por isso aqui o povo diz que de “Mana a Crica, muito oiro me lá fica”!»]

E daqui nasce a


[ «LENDA DA SERRA DE MANI-CRICA
No tempo em que os mouros foram expulsos da Península, costumavam esconder em grutas ou sob as cavernas permitidas pelos penedos, os tesouros que não podiam levar consigo.
Assim, nos montes de Mana, já quase de Croca, concelho de Penafiel, consta haver aí muito ouro, deixado na precipitada fuga.
É vulgar ainda ouvir o povo que “de Mana a Crica, monte próximo de Mana, muito ouro me lá fica”.
No entanto, tem havido muitos “carolas” que, munidos de picaretas, têm tentado encontrar o tal tesouro escondido.
As pessoas chegaram mesmo a introduzir na poesia popular uma quadra sobre este tema:
Desencanta-te , ó moura,
da serra de Mani-Crica
que Meinedo quer ser
uma freguesia rica.
(Recolha efectuada em Meinedo) Sítio da Escola EB1 de Sub-Ribas – Meinedo»]

Como facilmente se vê, fiz umas costuras nos tecidos encontrados em várias fontes.
A família da Maria Inês vive o Natal em esperança, sendo ela ainda única a receber todos os mimos. Vamos então pedir ao Deus Menino para que ela encontre o seu “filão”, sem necessidade de picaretas!

Manuel

CARTA A JOSÉ, PEREGRINO DE BELÉM




Senhor José

Sou um padre católico, habito numa das regiões mais ocidentais da Lusitânia e, nestes dias, tenho pensado muito em si. Acompanho-o em Belém, da Judeia, onde procura lugar para hospedar Maria, sua noiva, que está prestes a ser Mãe. Percorro consigo os locais onde podia acolher-se: a casa de algum parente, a hospedaria pública, o compar-timento da moradia de alguém residente, o recurso a um barraco qualquer ou a um curral de animais. A necessidade faz a força – diz o povo, dando voz ao silêncio com que o Espírito fala na sua vida.
É verdade, Senhor José! O que mais me impressiona é o seu silêncio exterior. Nem palavra, queixa, gemido ou lamento. Nada. Apenas a persistência corajosa, a busca serena, a confiança expectante. E, no entanto, quantas emoções sentidas, quantas “revoltas” contidas, quantos gritos de alma calados! Nem sequer um desabafo com Maria, sua noiva, que via aproximar-se a “hora” feliz!
O seu modo de proceder, fazendo fé no que dizem os narradores da Infância de Jesus, vosso amado Filho, segundo as leis judaicas, faz-me pensar e causa-me perturbação. Mas que quero eu?! Já foi assim noutras ocasiões, bem dolorosas. E assim vai ser ao longo de toda a vida terrena. O silêncio é a escolha preferida, a única: quando sabe que Maria está grávida, sem terem convivido como cônjuges, quando vê a recusa dos habitantes de Belém, apesar de ser a cidade onde deve recensear-se e tem parentes, ainda que afastados, quando acolhe as visitas dos pastores e dos magos, quando é urgente fugir da fúria de Herodes que tenta matar o Menino, quando pode regressar finalmente à sua terra natal de Nazaré.
Senhor São José, o silêncio é a marca do seu estilo de vida: no trabalho de artesão, no convívio da vizinhança, na ida regular à sinagoga, na subida ao templo de Jerusalém. E no entanto, quantas perturbações o assaltam, quantas preces ao Altíssimo, quantas horas de ponderação, quantos riscos corajosos! E tudo por causa do Menino e sua Mãe, do desejo claro de ser fiel à missão que vos fora confiada pelo enviado do Senhor, vosso Deus.
Tal foi o silêncio que nem a morte lhe deixa palavra. Não se sabe como cessa funções na terra. Nem sequer se regista o facto. Também pouco se diz do modo como entra em cena na vida de Maria, sua noiva, ou vive em Nazaré como artesão. O que se relata, e de forma breve, está sempre relacionado com certos episódios de Jesus e de Maria. De si, completamente nada. Apenas se diz que é homem justo e bom, se narra a intensidade da dor sentida, a ponto de o Céu vir em sua ajuda, a prontidão em cumprir a missão arriscada que se revela urgente.
O seu silêncio, no meu modo de ver, é um arranjo pedagógico para realçar a voz do que brada no deserto e, sobretudo, para fazer ouvir a palavra de Jesus credenciado por Deus Pai: “Este é o meu filho muito amado; escutai-O”.
Obrigado, Senhor José, noivo de Maria. O silêncio da sua vida floresce agora na Igreja na fecundidade de tantas vocações contemplativas, na doação generosa de tantas formas de voluntariado, na disponibilidade de tantos pais e educadores, na paciência heróica de tantos foragidos e perseguidos por causa da justiça.
Aceite o meu reconhecimento mais sincero e dê cumprimentos a Maria, sua noiva, com desejos de que o Menino venha em “boa hora”.


Georgino Rocha.

sábado, 22 de dezembro de 2007

JÁ CHEGOU O INVERNO



Já chegou o Inverno com a carga de frio, vento e chuva de acordo com as leis da natureza. Não há que estranhar. Neve só no interior e em especial nos sítios altos. Nós, os da beira-mar, não temos neve nem tanto frio, mas ficamos sem o encanto da brancura fofa que até dá para brincar.
Na agenda que me acompanhou durante o ano traz um conselho oportuno, para esta época:

“O Inverno está no seu mais profundo: acenda a lareira e conte uma história de família. Celebre o solstício: afinal, que melhor maneira de atrair o Sol que acendendo o fogo? Se não tem lareira, acenda uma vela. O Sol não vai deixar de voltar só por causa disso.”

Já agora, não se esqueça de que, para os cristãos, a luz, o sol e o fogo da lareira, com o lume que aquece os corações, também aí está com Jesus Cristo, que substituiu o deus-sol dos pagãos.

Bom Natal, com muito calor humano para todos.

FM

NATAL E CATÓLICOS NÃO PRATICANTES


Na sua relação com Deus a Bíblia é atravessada por uma tensão. Deus é absolutamente transcendente. Afirma-se de modo radical e constante a transcendência de Deus. Há, por exemplo, aquele mandamento do Decálogo, no Êxodo, que proíbe qualquer imagem de Deus: "Não farás para ti imagem esculpida nem representação alguma do que está em cima, nos céus, do que está, em baixo, na terra, e do que está debaixo da terra, nas águas."
O Novo Testamento insiste na transcendência. A Deus nunca ninguém o viu, diz o Evangelho segundo São João. Esta palavra é repetida na Primeira Carta a Timóteo: Deus é "o único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, o único que possui a imortalidade, que habita numa luz inacessível, que nenhum homem viu nem pode ver".
Esta impossibilidade de ver Deus é apresentada de modo sublime num passo célebre do livro do Êxodo, capítulo 33. Ali se descreve como Moisés quer ver a face de Deus e a sua glória. Deus responde que concede a sua benevolência e usa de misericórdia, mas Moisés não poderá ver a sua face. Vê-lo-á apenas pelas costas. "Tu não poderás ver a minha face, pois o homem não pode contemplar-me e continuar a viver." O Senhor disse: "Está aqui um lugar próximo de mim; conservar-te-ás sobre o rochedo. Quando a minha glória passar, colocar-te-ei na cavidade do rochedo e cobrir-te-ei com a minha mão, até que Eu tenha passado. Retirarei a mão, e poderás então ver-me por detrás.
Quanto à minha face, ela não pode ser vista."
Mas o Deus infinitamente transcendente é, por isso mesmo, radicalmente imanente na sua presença criadora às criaturas. A proibição de imagens esculpidas de Deus radica em que o próprio Homem é a sua imagem viva. Diz o livro do Génesis: "Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher."
Deus, infinitamente transcendente, é próximo, mais íntimo ao Homem do que a sua mais íntima intimidade, como disse Santo Agostinho.
É assim que há, na Bíblia, apenas duas tentativas de "definir" Deus. Uma é do Antigo Testamento. Quando Moisés pergunta a Deus qual é o seu nome, Deus diz: "EU SOU AQUELE QUE SOU." Mas o sentido deste "eu sou" em hebraico é: Eu sou aquele que está convosco, aquele que vos acompanha na libertação.
A outra "definição" pertence ao Novo Testamento, na Primeira Carta de São João: "Deus é amor." Por isso, "quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele". Deus manifestou o seu amor, enviando ao mundo o seu Filho Unigénito, "para que, por ele, tenhamos a vida".
Cá está! Deus, que é invisível, que nenhum Homem pode ver, tornou-se visível em toda a humana criatura, e a sua mais viva visibilidade deu-se em Jesus, a Palavra de Deus encarnada. No Evangelho segundo São João, o próprio Jesus diz: "Quem me vê, vê o Pai."
Torna-se então claro que o Natal só tem sentido verdadeiro se for a celebração da humanidade divina de todos os seres humanos, revelada em Jesus Cristo, cujo nascimento o Natal celebra.
Entre nós, é frequente a confissão: "Sou católico não praticante", no sentido de baptizado, que ainda se casa na Igreja, que baptiza os filhos e até os manda à catequese, mas habitualmente não vai à missa nem se confessa.
Ora, quando se está atento à mensagem originária do Evangelho, a prática religiosa autêntica consiste na promoção da justiça e na bondade para com todos os seres humanos, com os quais o próprio Jesus se identifica. De facto, como diz o Evangelho segundo São Mateus, no Juízo Final sobre a História, o determinante é a prática da justiça e do amor. O Rei dirá então: "Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo."
A outra prática - ir à igreja, participar na Missa - só em conexão com esta - a prática da justiça e do amor - alcança autenticidade e verdade.

Anselmo Borges

Imagens da Gafanha da Nazaré

Porto Comercial

Porto Comercial



Porto Industrial



Porto Comercial, com areia que incomoda os gafanhões





Prémio Padre Manuel Antunes para Manoel Oliveira


Manoel de Oliveira sente-se «menos seguro» mas «mais apaixonado»


O cineasta Manoel de Oliveira declarou-se ontem, no Porto, «menos seguro» mas «mais apaixonado» pelo cinema do que há 77 anos, quando começou a filmar

«Quando fiz o primeiro filme, estava muito seguro do que era o cinema. Hoje estou muito menos seguro, mais duvidoso - mas também mais apaixonado», afirmou Manoel de Oliveira, momentos antes de receber o Prémio Manuel Antunes 2007 das mãos do Bispo do Porto, D. Manuel Clemente.
O cineasta, que a 11 de Dezembro completou 99 anos, afirmou-se «extremamente sensibilizado» com o Prémio, sublinhando que «é um estímulo que anima as pessoas a fazer o melhor, fazendo melhor do que sabem fazer».
«Será mais difícil receber do que dar e mais justo e mais nobre dar do que receber», afirmou, recordando a sua educação nos valores cristãos.
«Foi como católico que nasci e fui educado, num colégio de jesuítas, a sobrecarregar-me com todas as dúvidas», disse Manoel de Oliveira, acrescentando que «a dúvida é um estímulo de procura» mas «é difícil encontrar o que se procura».
O Bispo do Porto destacou a «intenção personalista» da vida e da obra de Manoel de Oliveira, que classificou como «o cineasta do sagrado».
Manoel de Oliveira sucede a Luís Archer e Fernando Echevarria como vencedor do Prémio Manuel Antunes, instituído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e Rádio Renascença.
D. Manuel Clemente, que preside à Comissão Episcopal de Cultura, salientou que os três vencedores do Prémio, além de serem todos naturais do Porto, têm em comum a «excelência de humanidade».
O Bispo do Porto realçou ainda a qualidade artística e o simbolismo da escultura que corporiza o prémio, «Árvore da Vida», de Alberto Carneiro.


In semanário SOL

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Foto da Ecclesia


Boa ideia natalícia



JESUS NA VARANDA

A revista SÁBADO desta semana conta uma experiência interessante, no mínimo, face à moda de se colocar o Pai Natal a trepar aos telhados, como símbolo do velhinho (dizem que foi um bispo, mas não passa de uma boa ideia publicitária, lançada por uma multinacional americana) que distribui brinquedos pelas crianças, provocando a alegria de que também elas precisam. Diz assim:

“Um padre espanhol está a revolucionar as decorações natalícias em Espanha. Cansado de ver bonecos do pai Natal a subirem às varandas das casas, Javier Leoz, da paróquia de San Juan Evangelista de Peralta, em Navarra, iniciou uma campanha na Internet para substituir os Pais Natais por estandartes com o Menino Jesus. Custam € 14 euros e são um êxito – ao fim de um mês o padre já recebeu 100 mil pedidos.”

Ora aqui está uma ideia a ser seguida no futuro, em vez de passarmos a vida a criticar os que apostam nos Pais Natais. Não é verdade que os portugueses até adoram aderir a iniciativas inéditas. Alguém já esqueceu a febre das Bandeiras Nacionais que, por causa de um campeonato europeu de futebol, se encontravam por todo o lado, até caírem de podres?

F.M.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

UM POVO COM DIGNIDADE E HISTÓRIA



Foi uma autêntica revolução. Alegrou uns, preocupou outros, deixou alguns perplexos e outros a indagar as consequências e a perguntar se isso era verdade e possível.
João XXIII dera a palavra de ordem, quando disse que a renovação da Igreja, necessária e urgente, exigia o regresso às fontes bíblicas e ao espírito e experiência dos inícios.
Muita lama do tempo se tinha colado à Igreja. Defendia-se o que já não era defensável. Ficar na concepção jurídica de “Igreja, comunidade perfeita” era empobrecer o presente, comprometer o futuro e impedir um diálogo com o mundo, de modo a poder-lhe ser útil.
O projecto de Deus fora edificar um Povo singular, diferente de qualquer outro fruto de em concepções puramente humanas e temporais. Este Povo seria seu, Povo de Deus. Um Povo de salvos, um sinal de salvação, acessível a todos os crentes.
O Vaticano II afirmou este desígnio de Deus: um Povo que O conhecesse em verdade e o servisse em santidade, com servidores, a tempo inteiro, para garantir o seu desígnio..
Qualquer outro projecto de Igreja está fora do querer divino. Ou é Povo de Deus, ou Deus não se comprometerá com a obra realizada. Essa seria sempre um mero projecto humano, tocado pelas mazelas que acompanham a natureza humana e o que dela nasce, sem ter sido redimido.
Na história, por razões conhecidas e nas quais o querer dos homens nem sempre respeitou o querer de Deus, foi-se construindo uma Igreja para o tempo, na qual nem sempre o Evangelho e a Pessoa de Jesus Cristo ocuparam lugar central. O céu ia denunciando este desvio com a santidade de muitos cristãos, fieis ao Evangelho. Uns foram considerados loucos ou impelidos a calarem-se, outros simplesmente esquecidos. Como os profetas, também eles sempre incómodos para os instalados em suas ideias e interesses. Os caminhos bíblicos e da verdade revelada, já nem pareciam ortodoxos, de tal modo estavam acima ou alheios à doutrina e decisões de homens da Igreja, detentores de um poder, que muitas vezes era tudo, menos serviço a um Povo crente.
Assim se compreendem as lutas de cariz mais humano que evangélico, a oposição a tudo o que ia bulir com ideias e interesses adquiridos, a não aceitação de posições e apelos, nascidos fora da comunidade eclesial, mas que, perto ou longe, se haviam inspirado num Evangelho, por muitos responsáveis já esquecido.
O Vaticano II, a que o papa nos pede que sejamos fieis, não foi um gesto de revivalismo, mas sim um grito de fidelidade a Deus e à Sua obra. Concretizada esta num Povo, escolhido e enviado, como testemunha de uma especial protecção a carinho, dada a vivência a que eram chamados os seus membros e a missão histórica que lhe era confiada, em favor da humanidade onde deve ser luz, sal e fermento novo.
Muitos cristãos não manifestam alegria de o ser, estão alheios ao essencial da vida cristã, mantêm-se passivos na participação apostólica, vivem e actuam como se não fossem crentes, sem terem ainda descoberto a dimensão comunitária do projecto de Cristo em que dizem acreditar, nem da Igreja, a que dizem pertencer.
Muito se tem feito nestes quarenta anos que já leva a realização do Concílio. Mas um muito que é ainda pouco, que tem sofrido intermitências, e vai mostrando como é difícil a conversão das pessoas e dos critérios pastorais. O individualismo e o relativismo, frutos do tempo, e a que nem a Igreja ficou isenta, dificultam ainda mais esta conversão.
Na consciência de Povo de Deus a Igreja se renovará e os seus membros terão nela lugar de pleno direito. É esta consciência que é preciso readquirir, pelos meios adequados, acessíveis à experiência de todos. Assim, a Igreja de ontem, será a de hoje e a de sempre: um Povo redimido e salvo com uma missão a favor de todos sem excepção.
António Marcelino

NÃO VIVA O NATAL DE ALMA APAGADA



Não viva o Natal de alma apagada:
volte-se para a luz.
Vá ver as iluminações
ou parta à descoberta do Portugal interior.
Saboreie a doçura de um algodão doce
ao pé das luzes da cidade
ou deixe-se aquecer
pelos “lumes” no adro das igrejas.
E não se esqueça de acender as luzes
também dentro do seu coração.


In “Pequenas Grandes Ideias”

NO STELLA MARIS: Festa de Natal



No Stella Maris, clube da Obra do Apostolado do Mar, com sede na Gafanha da Nazaré, houve festa de Natal dedicada aos menos jovens. O almoço, confeccionado pelas funcionárias do clube, contou com a colaboração de diversas instituições e empresas, em especial dos Escuteiros e do Banco Alimentar Contra a Fome. Os menos jovens, cerca de 80, foram indicados pela Obra da Providência e pela Fundação Prior Sardo, daquela freguesia.
Presidiu o Bispo de Aveiro, D. António Francisco, que realçou, na altura da sobremesa, o espírito de família que ali se fez sentir. O Natal, referiu, “é para nos dizer que todos somos irmãos uns dos outros”, independentemente das culturas diferenciadas dos povos que frequentam o Stella Maris. No entanto, frisou D. António, “temos de começar por aqueles que vivem perto de nós”.
Adiantou depois que é necessário que nos sintamos próximos, “valorizando a nossa terra e a Igreja Diocesana”, nos gestos e na solidariedade que manifestamos, porque “Igreja é comunhão e comunidade”. Importa, por isso, acreditar que “acolher os irmãos é acolher o Jesus que vem”. Afirmou que todos somos importantes, desde os mais pequeninos até aos avós, para nos aproximarmos dos outros, acrescentando que é fundamental comemorar o Natal em cada gesto e em cada celebração que realizamos.
Por sua vez, o presidente do Stella Maris, diácono Joaquim Simões, salientou que este clube é uma casa para todos, embora vocacionada para quantos trabalham no mar e na ria. Congratulando-se com a presença do nosso Bispo, “que tem sabido ouvir e estimular quantos trabalham e dirigem esta instituição, disse que se torna urgente “escancararmos o nosso coração ao Menino”, com gestos de solidariedade. Agradeceu a todos os que colaboraram nesta festa de Natal, a segunda patrocinada por esta direcção, enquanto manifestou a vontade de todos os corpos dirigentes levarem por diante este projecto da Obra do Apostolado do Mar, enfrentando os desafios que as novas exigências pastorais impõem.




Festa na Obra da Providência






Celebrou-se ontem, como recordei, os 50 anos da aprovação dos Estatutos da Obra da Providência, instituição que nasceu, como lembrou D. António Marcelino, Bispo Emérito de Aveiro, na homilia da eucaristia de acção de graças, “para apoiar quem era espezinhado” pela sociedade. Na urgência, indicada por Cristo, de olharmos para os mais carentes.
D. António Marcelino frisou que as fundadoras, cuja história bem conhece, agiram como vicentinas e desde sempre foram ao encontro dos que mais precisam, descobrindo aí os “caminhos de Deus”, caminhos que contribuem para que “as pessoas se sintam mais amadas”.
No jantar de convívio que se seguiu, com dirigentes e funcionárias, foi bom sentir o espírito de fraternidade que a todos anima. Uma fundadora, Rosa Bela Vieira, também participou na festa. Ausente, apenas, por indisposição que vai passar, assim creio, Maria da Luz Rocha, a outra fundadora da Obra da Providência e alma mater da instituição desde a primeira hora. Faltou pela primeira vez a este convívio anual, mas o seu espírito de entrega aos outros marcou presença indelével entre todos os convivas.

QUANDO SERÁ DE NOVO O NATAL QUE JÁ FOI?





Há pessoas maravilhosas e gestos lindos que não o seriam se não tivesse havido Natal.
O Natal que houve, é o Natal que há. Cada dia, se eu e tu quisermos.
No coração humilde de um crente, a fé do Natal é força explosiva e dinamismo imparável. Muito além do que se pensa. Natal que enche a vida e a faz sair de si, para dizer a todos que a minha vida, a tua vida, também é vida dos outros. De todos.
Vivência de Natal não se encontra em qualquer canto, não se espelha em qualquer rosto.
Hoje, como ontem, o Natal passa-se fora de portas, em campo aberto, povoado por gente humilde, gente de coração limpo e sensível. Gente desinstalada que vem, de longe ou de perto, à procura de amor. Gente que acredita que a luz vence as trevas, e onde o sol penetra pelas frestas das portas e janelas, já nada pode impedir que ele ilumine a noite de tantas casas habitadas de pessoas, desabitadas de ternura, de beleza, de paz.
Só onde estiver alguém que se julgue sol, as trevas persistirão.
Só onde vive gente instalada e satisfeita, revoltada ou desanimada, de coração fechado á esperança, faltará espaço e vontade para procurar e encontrar o Natal.
Natal, todos os dias! Porque não? O Natal de Cristo não está fechado no ontem do tempo. Sou hoje seu contemporâneo, como o foram os pastores que o celebraram na noite em que ressoou para sempre o canto sereno da paz. Paz sempre necessária.
Sinto o fascínio do Natal. O Menino Deus, feito Homem, Amigo e Irmão, Senhor e Mestre, continua a fascinar-me e jamais deixará de ser um sedutor.
Ele é luz e força da minha vida. As trevas são sempre passageiras. A luz vence.
Fascínio do Natal! Fascínio da criança junto ao Presépio de imagens, luzes e cores.
Sorrindo, falando para dentro, contemplando, deixando que o coração se encha de sonhos, a vida se abra ao bem…
“ Se não vos fizerdes como crianças…” Que apelo tão fora do tempo em que todos querem ser grandes! Um Reino que é para todos, é tão difícil que seja de todos.
Amo o Natal de Cristo. Ele solta-me o coração, que parte, como cavalo sem freio, por terras de gente e de ninguém, espaços de crentes e descrentes, caminhos desencontrados de ricos satisfeitos e de pobres excluídos. Corre ao apelo de gritos escutados, intui gritos não gritados, leva calor de amor aos que não desistem de ser pessoas…
Quando haverá de novo Natal de todos?
Hoje mesmo, se eu quiser. Se o quiserem, comigo, os que crêem que o Natal de Cristo foi, é e será sempre, o Natal que dá sentido ao dia e luz à noite. O Natal que aquece corações enregelados, escancara portas à esperança, sensibiliza ao amor, constrói fraternidade, faz do mundo lugar apetecível, sempre e para todos.
Natal que dá rosto humano a Deus e rosto divino aos homens e mulheres de sempre.
É este o Natal de Cristo, o Natal cristão, o meu Natal. Por isso é festa. De Deus para mim, para todos.

António Marcelino,
Bispo Emérito de Aveiro

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Natal de 1962

EU DORMIA PROFUNDAMENTE
E... SORRIA!
Poucos dias antes do natal de 1962 havia grande azáfama na nossa Companhia. Tínhamos recebido informações de que o IN iria aproveitar a época natalícia para meter grande quantidade de armas e munições no território angolano. A passagem seria pela já nossa conhecida picada do Quelo.
Ficámos admirados com tanta e concisa informação! Seria mesmo verdade? Ou isto seria mesmo contra-informação? Pelo sim pelo não ficou resolvido pelas altas esferas da Companhia que até ao dia 23 haveria sempre dois pelotões em movimento, fazendo emboscadas, patrulhando as picadas prováveis para a passagem do IN.
No dia 23 houve que ir ao abastecimento a São Salvador para a consoada! Que diabo de abastecimento seria esse? Batatas haveria, mas… e o bacalhau? E as couves?
Para mim uma boa feijoada com dobradinha brasileira era o suficiente! Para quê sonhar tão alto? Não querias mais nada: - bacalhau com couves! Estamos em Africa, dizia-me o Costa Pereira em ar de gozo.
O nosso pelotão estava de serviço ao acampamento e teve de ir à água e à lenha, pois dois estavam em operações e o outro tinha ido ao abastecimento.
Estava curioso por saber o que o nosso vagomestre nos iria trazer para a noite de consoada. Traria com certeza o que o “Barriga de Guinguba” tivesse trazido de Luanda. Abastecimento local não havia.
O pelotão chegou era já um pouco tarde e descarregou no armazém. Os pelotões operacionais também haviam regressado. Pessoal cansado. O que vale é que amanhã é dia de consoada e não haverá operações, pensava-se! Caminhava-se de vagar, ao deus-dará, pela parada. Um ou outro homem chegava-se à cantina para se dessedentar com uma 7UP ou uma Cuca fresca. Que pensariam aquelas almas? No dia seguinte era dia de consoada. Pensavam no mesmo que eu, com certeza.
Ao menos valia a pena. O que sucedeu em 1961 não se repetiu!
No dia seguinte, depois do almoço, o Zé Cozinheiro começou a tratar da ceia da consoada. O Furriel Cura, o vagomestre, convidou-nos a ir ver como corriam os serviços pela cozinha. Fomos. Era um modo de passar o tempo, de afastar as ideias que com a velocidade da luz teimavam em lembrar-nos o que se passava lá longe!
Ao chegar à cozinha notei um amontoado de grades de madeira. Ó Cura, o que é aquilo?
Não sei, vamos ver. E pegou num martelo de orelhas para abris uma grade. Olhei e vi com espanto a inscrição na madeira: “Cod-Fish”. Meu Deus, disse eu. Vamos ter bacalhau para a consoada! O Cura riu com satisfação e disse, vamos ver!
Desmantelou a grade de madeira que protegia outra embalagem hermética, feita de folha de zinco prateada, que dizia em inglês “Embalado na Africa do Sul” Não resisti e puxei a pega que servia para abrir a lata, deparando com seis bacalhaus do tamanho crescido lá dentro. Arranquei uma fêvera, meti-a à boca e, ao tomar-lhe o sabor exclamei:
- Malta, é mesmo bacalhau!
Alguns riram com a minha admiração. Só fiquei com pena de não ser bacalhau português, seco e embalado na minha terra. A embalagem seria de ráfia, mas o sabor seria melhor do que este.
Enfim, coisas que se pensam, para não pensar noutras coisas!
Arrumaram-se as camas de uma caserna e montaram-se mesas corridas. Nessa noite toda a companhia cearia junta, num sinal de união.
Cura, como conseguiste arranjar o bacalhau? Olha, não contava, mas às vezes “os tropa do ar condicionado”, lá fazem destas coisas, e ainda mais, mandaram couves. Estão todas murchas. Mas o Zé Cozinheiro há-de arranjar processo de elas ficarem apetitosas.
O dia ia passando, o sol ia-se escondendo lá para os lados de São Salvador do Congo!
Que será feito hoje dos meus dois irmãos que estão em Angola?
Um, Policia Militar, estará em Luanda, o outro está, salvo erro, em Tomboco, no coração dos Dembos.
Ambos solteiros, estarão a pensar na nossa família?
O que está em Tomboco estará como eu, tentando, – só tentando – pensar no que nos rodeia.
O que está em Luanda, em serviço ou fora dele, ao ver as montras e a alegria festiva dos passantes, deve ter muitos apertos do coração!
O tempo estava quente, a azáfama no acampamento era muita. O que me admirava eram os passeios isolados de muita gente pela parada. Não se conversava. Mãos nos bolsos, embora a temperatura que se fazia sentir ser elevada (estava-mos no Verão), olhando para o além, tentando descortinar o que se passaria ao longe.
Anoitecera. A noite estava escura. Fui fazer uma ronda, conversando com este e aquele, a minha pergunta era sempre a mesma: - Então pá, tudo bem?
E a resposta era sempre a mesma: Um encolher de ombros, e… tudo bem!
Também nas sentinelas se notava aquela ausência do espírito. O corpo estava ali, mas o espírito andava muito por longe. Era perigoso este estado de espírito para quem estava de serviço. Disse aos sentinelas que não queria ver ninguém sentado. De pé e a passear de um lado para o outro. Quando o pessoal que os haveria de render ceasse, viria rendê-los e eles iriam cear.
E assim se ia passando a noite de consoada, à espera da ceia.
Enfim, chegou a hora. O pessoal sentou-se. Ia começar a ceia. Tinha havido ordem de o gerador trabalhar mais duas horas, até à uma da madrugada!
À ordem de cear quase todas as bocas se calaram, executando outra função mais útil: comer. O bacalhau era bacalhau também no sabor, as couves embora com aspecto de verdes, tinham um sabor a nada!
Finda a refeição, foram rendidos os homens que estavam de serviço, e vieram eles cear.
Tinha terminado a ceia de consoada. Antes de nos sentarmos à mesa, iam-se fazendo os preparativos e pensando esperançados na ceia de Natal. Agora que esta terminou, sentíamos o estômago cheio, mas faltava qualquer coisa na cabeça!
Fui dar uma volta, fazer mais uma ronda, já que não havia mais nada a fazer. Era meia-noite. Tudo estava bem.
Ao passar no último posto, dois sentinelas conversavam e um dizia para o outro: A esta hora, na minha aldeia, repenica o sino da igreja a chamar os fiéis para a missa do galo.
Mais uma vez a minha mente voou à velocidade da luz, para longe!
Repreendi-os, não pela sua conversa, que me chocou pela lembrança que me trouxe, (não me atreveria a tanto), mas por estarem os dois fora dos seus postos de vigia…
Cheguei-me à nossa caserna, passei palavra ao sargento que me ia render, para me chamarem quando chegasse a minha hora de serviço, e estendi-me na cama. Adormeci. Só acordei quando já era dia. Levantei-me atrapalhado: - Que diabo, e a minha ronda?
Fui então informado pelo meu colega, que, quando ia para me acordar, eu dormia profundamente… e sorria!
- Não fui capaz de te acordar, e fiz a ronda em teu lugar, disse-me o Miranda!

Ângelo Ribau Teixeira

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